Grieving Soul – CapĂ­tulo 2 – Volume 1

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 01

CapĂ­tulo 2:
[Espaguete na Parede]


Carpeado: A ExpressĂŁo Espaguete na Parede seria algo como o nosso “Tentativa e Erro” no Brasil, onde vocĂȘ vai jogando aleatĂłrio as coisas atĂ© que uma dĂȘ certo.

Tino Shade, nascida e criada na capital imperial, era uma verdadeira Zebrudiana. Alguns diriam até que era mais reservada do que a maioria, apesar de sua habilidade atlética. Mais importante do que isso, porém, era o fato de que Tino nunca quisera se tornar uma caçadora de tesouros.

Em algum momento da vida, todos sonhavam em experimentar a caça, mas os adultos sensatos não eram tão inclinados a dar um mergulho tão perigoso.

Zebrudia estava repleta de caçadores e instalaçÔes relacionadas à profissão, mas cada um tinha seu lugar no mundo. Tino, por si só, não sentia atração por poder, fama ou riqueza. Na verdade, ela tinha bastante medo dos caçadores. Apesar de admirar os grandes caçadores que lia nas histórias, suas vidas pareciam um mundo completamente diferente do seu.

Essa vida virou de cabeça para baixo quando um certo grupo chegou Ă  capital, descendo sobre ela como uma estrela cadente. Entre os inĂșmeros grupos com nomes chamativos, nenhum se destacava mais do que aquele. O grupo, antes evitado por seu nome macabro e antagonizado pelo prĂłprio impĂ©rio, superou todos os obstĂĄculos e, em poucos anos, tornou-se um nome conhecido.

Foi apenas por coincidĂȘncia que Tino, que atĂ© entĂŁo vivia distante do mundo dos caçadores de tesouros, cruzou o caminho desse grupo. Mas foi o suficiente. Um Ășnico olhar, e ela nĂŁo conseguiu desviar os olhos. A garota que nunca havia se interessado por caça ficou hipnotizada por seu brilho ofuscante – um brilho como uma faĂ­sca ou uma estrela cadente.

A chegada do grupo deu inĂ­cio a uma nova era.

O jovem herĂłi Ark Rodin era considerado a reencarnação de um dos trĂȘs Ășnicos caçadores de nĂ­vel 10 do mundo. Ao seu lado estava Krai Andrey, o astuto lĂ­der do Grieving Souls, que fundou o clĂŁ de crescimento mais rĂĄpido da regiĂŁo.

Como se atraídos por esses dois jovens caçadores, cujo talento brilhava mais que o de qualquer outro, mais e mais caçadores promissores surgiram. Esse foi o marco da era dourada da caça ao tesouro, ou pelo menos foi assim que a Associação descreveu.

Tino sabia, no fundo do coração, que essa era entraria para a história e escolheu tornar-se caçadora para gravar seu nome ao lado do de seu mestre e mentor de confiança.

Agora, no entanto, a novata promissora Tino tinha sido rebaixada de aprendiz a garota de recados pelo prĂłprio mestre que ela tanto adorava.

***

Depois de uma råpida busca pela filial da Associação dos Exploradores na capital, Tino avistou seu alvo. Ela se aproximou da caçadora que examinava os trabalhos no quadro de missÔes. Quando estava a cerca de um metro de distùncia, a garota de cabelos castanhos e olhos azuis se virou. Ao ver Tino parada ali, congelou, arregalando os olhos.

Essa era a caçadora que estivera com seu mestre no evento de recrutamento. Krai havia dado uma descrição dela, mas a aparĂȘncia da garota ficou gravada na memĂłria de Tino no momento em que a viu junto dele.

O nome da caçadora era Rhuda Runebeck, uma nível 3 que foi ao evento de recrutamento na esperança de encontrar membros para enfrentar a Toca do Lobo Branco. Seu posicionamento demonstrava que abafava os próprios passos instintivamente, um sinal claro de que Rhuda era uma Ladina, assim como Tino.

Embora compartilhassem a mesma profissĂŁo, Rhuda era de um nĂ­vel inferior ao de Tino, que recebia treinamento adequado de sua famosa – embora cabeça-oca – mentora. Rhuda nĂŁo tinha notado Tino e seus passos silenciosos atĂ© que ela estivesse bem perto.

— O-O que foi? — gaguejou, surpresa com a aparição repentina de Tino. — O que vocĂȘ quer? Ah, vocĂȘ Ă© aquela que estava com Krai ontem.

Nada disso importava. Aquilo era um pedido de seu mestre, que era adorado por sua amada mentora, e a decisĂŁo de seu mestre era absoluta.

Engolindo o turbilhĂŁo de desgosto dentro de si, Tino declarou seu propĂłsito.

— Venho a pedido do meu mestre, Krai Andrey. Preciso falar com vocĂȘ. Venha comigo.

Os olhos de Rhuda se arregalaram ainda mais, mas Tino se virou, jå caçando os outros nomes que seu mestre lhe passara.

O Grande Greg estava no Chave Dourada, um bar frequentado por caçadores de tesouros ao lado do prédio da Associação. Tino interrompeu a farra do Grande Greg e seus colegas para dar um resumo mínimo de sua solicitação.

Para ser sincera, Tino nĂŁo gostava da missĂŁo. NĂŁo se importava tanto com a tarefa em si; um cofre nĂ­vel 3 era fĂĄcil o suficiente para enfrentar sozinha. O problema eram os membros do grupo com quem ela teria que lidar.

Caçadores de tesouros eram incentivados a formar grupos, pois explorar cofres desconhecidos sozinhos era arriscado demais. No entanto, formar um grupo eståvel era extremamente difícil. Diferenças de especialidade, personalidade, motivação, valores e talento causavam conflitos. Segundo estatísticas da Associação, menos de um em cada dez grupos duravam mais de cinco anos.

Tino, pelo menos, se considerava melhor sozinha do que trabalhando com caçadores incompatíveis com ela. E ela e os membros que seu mestre escolheu eram extremamente incompatíveis. Suas habilidades, personalidades e objetivos estavam em completo desacordo. Confiaria sua vida ao seu mestre, mas isso era outra história.

Isso nĂŁo era o que eu queria, mestre. Eu queria ir com vocĂȘ, nĂŁo com um bando de desconhecidos.

Enquanto Tino lamentava sua sorte, o Grande Greg ponderava. Recuse, Tino pensou, assim eu poderei dizer ao mestre que tentei. Ela interrompera sua bebedeira com os amigos. Ele podia simplesmente rir dela e mandĂĄ-la embora.

Mas, para o desespero de Tino, o Grande Greg abriu um sorriso cruel.

— Pode apostar que sim. Desculpem, pessoal. AtĂ© mais.

O Ășltimo destino era a sede do clĂŁ Primeiros Passos. Seu salĂŁo era conhecido entre os caçadores. O espaço limpo e o bar elegante davam um toque refinado ao lugar, com mesas brancas e cadeiras suficientes para grupos inteiros se reunirem. NĂŁo era um lugar para festas desenfreadas, mas os grupos do Passos costumavam se encontrar lĂĄ para comemorar depois de sobreviverem a cofres de tesouro.

No canto do salĂŁo, Rhuda olhava ao redor, nervosa. Greg arqueava uma sobrancelha, mais calado que o normal. Tino, a lĂ­der improvisada, encarava o nada, arrasada.

— EntĂŁo, sobre o que Ă© isso? — Rhuda perguntou.

— Este Ă© o famoso salĂŁo do Passos, hein? Entrar aqui jĂĄ Ă© uma vitĂłria. — Greg comentou.

Tino encarava um garoto um pouco mais alto que ela, sentado emburrado, com uma grande Relíquia presa às costas—uma espada colossal chamada Lñmina do Purgatório.

O garoto, Gilbert Bush, rosnou baixo.

— O que foi? Não tenho o dia todo.

Tino sentiu vontade de chorar. Seu grupo havia se formado. O que ela fizera para merecer isso de seu mestre?

O garoto, Gilbert Bush, rosnou baixinho.

— O que Ă© isso agora? NĂŁo tenho o dia todo. 

A espada enorme em suas costas brilhava sob a luz do sol.

Gilbert era o nanico que Tino havia espancado atĂ© virar uma polpa durante o evento de recrutamento. Dos trĂȘs caçadores indicados pelo mestre dela, ele era o Ășltimo que Tino queria no seu grupo.

Com aquela atitude dele, ela nem esperava que ele fosse aceitar, não que tivesse a intenção de encontrå-lo para começo de conversa. Se não tivesse esbarrado com ele ao sair da taverna, teria simplesmente voltado e dito que não conseguiu encontrå-lo.

Na verdade, Tino teria ficado muito feliz se nĂŁo tivesse encontrado nenhum dos trĂȘs caçadores sentados Ă  sua frente. SĂł por respeito ao seu mestre ela se deu ao trabalho de procurĂĄ-los. Isso deveria ter sido o fim da histĂłria, mas, de alguma forma, ela conseguiu achar os trĂȘs desajustados — numa cidade imensa — quase por acidente.

Ainda assim, havia esperança. Ainda existia uma chance de que recusassem. Tino nĂŁo era a Ășnica que tinha suas reservas sobre fazer parte de um grupo, ainda mais um grupo temporĂĄrio para uma missĂŁo ingrata. Para falar a verdade, ela mal poderia chamar qualquer um deles de conhecido, quem dirĂĄ de amigo. Com tudo isso em mente, era bem mais provĂĄvel que mandassem ela enfiar essa missĂŁo num lugar onde o sol nĂŁo bate.

Ela respirou fundo e se preparou, agarrando-se Ă  sua Ășltima esperança. Me perdoe, mestre, pensou. Nunca mais vou reclamar de trabalhar sozinha. Por favor, me salve.

TrĂȘs pares de olhos esperavam as prĂłximas palavras de Tino. Com os ombros tremendo e uma faca invisĂ­vel em sua garganta, a pequena Ladina começou a implorar. 

— Por favor, depois que ouvirem o que eu tenho a dizer, sintam-se Ă  vontade para recusar. O mestre me deu uma tarefa para cumprir e sugeriu que eu formasse um grupo com vocĂȘs trĂȘs. Foi por isso que pedi para nos encontrarmos aqui: para convidar vocĂȘs para o meu grupo. Sintam-se livres para dizer nĂŁo. Por favor.

***

No meu escritĂłrio, no Ășltimo andar da sede do clĂŁ — um andar proibido para os membros comuns — eu tinha acabado de explicar meu grande plano para a Eva.

Ela ficou me encarando em silĂȘncio por alguns instantes antes de seus olhos brilharem atrĂĄs dos Ăłculos. 

— Isso me parece muito com a tática de jogar espaguete na parede.

— Como ousa? — retruquei. Isso foi extremamente rude da parte dela, por mais que estivesse certa.

— NĂŁo Ă© cedo demais para fazer a Tino liderar um grupo, sendo que ela passou a carreira toda caçando sozinha?

— Estou fazendo um favor para ela, sabia? — respondi, mantendo uma expressão propositalmente impassível. Eva apenas suspirou.

Ela tinha um ponto, no entanto. Eu podia ser o líder dos Grievers e o mestre dos Passos, mas não era do tipo que se preocupava muito com as decisÔes que tomava.

No começo, passei muitas noites em claro pensando em cada detalhe, mas logo me cansei disso. Sempre fui o responsĂĄvel por tomar as decisĂ”es do nosso grupo, e esse nĂșmero sĂł aumentou depois que fundei os Passos. Desde que ganhamos fama, grupos e clĂŁs que nem tinham vĂ­nculo conosco começaram a pedir meu conselho. AtĂ© a Associação jĂĄ bateu Ă  nossa porta vĂĄrias vezes.

No fim, desisti de levar cada decisĂŁo a ferro e fogo. Eu com certeza nĂŁo ia me responsabilizar por qualquer coisa que acontecesse por causa dos meus conselhos. NĂŁo foi para isso que fundei o clĂŁ, afinal. As Ășnicas decisĂ”es que ainda me tiravam o sono eram aquelas que envolviam diretamente o meu grupo, os Grieving Souls.

Mas estava tudo certo. Afinal, a Tino era incrĂ­vel. AtĂ© a mentora dela garantia que sua velocidade era absurda. Se algo desse muito, muito errado, ela sempre poderia dar no pĂ©. E se, por algum motivo, nĂŁo conseguisse… bom, isso seria problema dela.

Caçadores sĂŁo responsĂĄveis por suas prĂłprias vidas. Quando a morte espreita a cada esquina, cabe a eles estarem preparados para o inesperado. Se a Tino enfrentasse dificuldades por causa do grupo que eu escolhi para ela, a culpa seria dela por nĂŁo ter reclamado o bastante. NinguĂ©m mais teria que assumir esse erro, entĂŁo a Ășnica pessoa que sofreria seria ela.

Um bom caçador tem que aprender a dizer nĂŁo, assim como eu fiz quando jurei evitar certos cofres do tesouro no começo da minha carreira. Eu esperava que essa experiĂȘncia ensinasse a Tino a ser um pouco mais assertiva. Minha tĂĄtica de “espaguete na parede” era, na verdade, um toque bem calculado de amor severo — uma prova da minha preocupação com o futuro dela. E era isso que eu tinha a dizer sobre o assunto.

Com um grande espreguiçar, afundei na minha cadeira acolchoada. 

— Aaah, eu queria poder jogar toda essa chatice de lado e ir para uma fonte termal.

— Talvez devĂȘssemos planejar um retiro do clĂŁ.

— Isso seria incrível. Por que não levar todo o pessoal?

Eva tinha ralado muito em uma grande empresa comercial antes de eu recrutĂĄ-la como minha assistente. Seu pensamento fora da caixa provavelmente vinha desse histĂłrico.

Um retiro, hein? Era uma ideia interessante.

A capital era uma cidade grande. Embora o crime fosse relativamente baixo e as estradas bem cuidadas, ainda havia monstros e até fantasmas errantes dos cofres do tesouro próximos que escolhiam suas presas no caminho. Sem falar nos bandoleiros. Viajar normalmente não era fåcil. Pelo menos minha equipe não precisava de guarda-costas, jå que caçavam monstros todos os dias. Esse era um pequeno benefício de ser caçador.

Eu nĂŁo poderia obrigar ninguĂ©m a ir, mas sentia que a maioria toparia se eu vendesse a ideia como “construção de equipe”. O Ășnico problema era que, se o clĂŁ inteiro saĂ­sse de viagem, a Associação ou algum nobre enxerido certamente reclamaria.

Sem contar os brutamontes do clĂŁ que causavam problemas por onde passavam. Talvez o mĂĄximo que eu conseguiria organizar fosse um retiro apenas para o meu grupo, em vez de arrastar o clĂŁ inteiro. Mas, pensando bem… nĂŁo. Meu grupo estava no topo da lista dos encrenqueiros. Eu estava preso aqui e prestes a vomitar de frustração.

Lutando contra o desespero, folheei os documentos que Eva e sua equipe tinham preparado para mim, contendo registros detalhados dos novos membros do grupo da Tino. Os Passos mantinham pilhas de documentos sobre os cofres do tesouro e os caçadores, a menos que fossem completamente novatos.

Rhuda era muito competente. Em apenas meio ano, subiu para o Nível 3, o que era uma ascensão absurdamente råpida para uma caçadora solo. Ter sobrevivido até agora sem ferimentos graves indicava talento e sorte.

O Grande Greg era um veterano. Não havia muitos caçadores que conseguissem trabalhar por tanto tempo e de forma tão eståvel como ele.

E entĂŁo havia o Pequeno Gilbert, um encrenqueiro com habilidade para justificar sua arrogĂąncia. Ele fazia parte de um grupo do interior, mas aparentemente saiu porque nĂŁo se dava bem com os companheiros. Isso nĂŁo era incomum entre caçadores. Um deslize e os Grievers poderiam ter acabado do mesmo jeito. Minha vida seria tĂŁo mais fĂĄcil se isso tivesse acontecido…

Olhando para o grupo como um todo, eles eram medianos — talentosos, mas nada excepcionais. Todo caçador que colocava os olhos na capital confiava nas prĂłprias habilidades. Mas eu sabia como eram os verdadeiros monstros — aqueles que atravessavam cofres do tesouro brutais apenas com sua força e inteligĂȘncia, sem se importar com a prĂłpria segurança.

Depois de revisar os arquivos, fiquei ainda mais seguro da minha decisão. Nenhum deles era absurdamente forte, mas uma tarefa dessas não seria problema para eles. Se a Tino podia lidar com isso sozinha, os quatro juntos tirariam de letra. Eu podia não confiar tanto na minha capacidade de escolher talentos, mas confiava plenamente na força dos meus membros de clã.

— Será que eles vão ficar bem? — Eva perguntou. — Aquele lugar pode ser nível 3, mas deve ter algo nesse pedido para a Associação ter passado a bola para nós.

— Olha, eles vĂŁo ficar bem. Se nĂŁo estivessem, teriam procurado outros membros do clĂŁ para ajudar. A Tino nĂŁo Ă© mais uma criança.

A Tino estava no clã desde o começo. Mesmo que a Eva tivesse um papel diferente do nosso como caçadores, eu entendia como ver alguém crescer no clã podia fazer ela se importar como se fosse uma mãe preocupada.

Dei de ombros de forma tranquilizadora. A Tino sabia se cuidar. Caçar sozinha, sem ninguém para salvar sua pele, exigia um senso de perigo muito aguçado. Não havia com o que se preocupar.

De repente, a porta do meu escritĂłrio se escancarou sem nem uma batida de aviso.

— Mestre, me ajudaaaa! — Tino choramingou. — Eu não consigo fazer isso!

— VocĂȘ nĂŁo tĂĄ desistindo cedo demais, Tino?

Os olhos dela voaram de mim para Eva enquanto corria para dentro do escritório. Então, ela se jogou em cima de mim, enfiando a cabeça no meu estÎmago.

Isso só podia ser encenação. Ela estava exagerando demais para um problema desses. Que manipuladora. Pelo tempo que se passou desde que dei a tarefa para ela, nem tinha tido tempo de inspecionar o cofre ainda. Além disso, caçadores não eram permitidos no meu escritório.

Eva olhou para Tino com exasperação. Eu tinha dito que nĂŁo havia com o que se preocupar, nĂŁo tinha? Começava a achar que o mentor dela era uma pĂ©ssima influĂȘncia.

— Qual Ă© o problema? — perguntei.

— Tudo, mestre. Eu não tî pronta pra isso.

Tudo, hein? Isso nĂŁo soava nada bom…

Tino me arrastou até o lounge, onde o resto do grupo estava esperando. Eu não sabia como ela os convenceu tão råpido, mas fiquei impressionado. Boa jogada.

Diante de mim estavam Rhuda Runebeck, o Grande Greg e o Pequeno Gilbert. Eu os nomeei sem motivo algum. O nome da Rhuda veio Ă  mente porque ela mencionou a Toca do Lobo Branco, mas o Grande Greg e o Pequeno Gilbert foram escolhas aleatĂłrias. Todos os trĂȘs eram bem competentes, apesar de suas falhas de personalidade.

Eu nĂŁo tinha pensado em como eles dividiriam as tarefas ou trabalhariam juntos, mas sempre fui um grande defensor da força em nĂșmeros. Talvez nem precisassem ir tĂŁo fundo, jĂĄ que era apenas uma missĂŁo de busca e resgate. Contanto que conseguissem se dar bem por tempo suficiente, todos sairiam vivos dali — nĂŁo que eu quisesse estar em um grupo como esse.

Rhuda olhava inquieta ao redor do salão, enquanto os outros dois pareciam um pouco desconfortáveis — e com razão. Um caçador sentado na sede de um clã ao qual não pertence era como entrar em território inimigo.

Quando Tino me puxou pela mĂŁo, Rhuda logo me avistou e pareceu aliviada. Agora que penso nisso, nĂłs nos separamos sem muitas palavras quando a briga começou. Eu nĂŁo tive escolha na hora, mas isso nĂŁo significa que eu nĂŁo sentisse um certo peso na consciĂȘncia.

— Ei, Krai—

— Demorou, hein?! — Pequeno Gilbert latiu, cortando Rhuda no meio da frase e recebendo um olhar fulminante.

O garoto continuava tão arrogante quanto sempre, mas tanto o tom quanto as palavras estavam mais contidos, provavelmente por causa do ambiente inståvel. Ainda assim, tinha que ter coragem para seguir a Tino até aqui depois de ter levado um chute na cara.

Me virei para o Grande Greg, que me lançou um sorriso tenso.

— Heh heh. EntĂŁo aqui estĂĄ vocĂȘ, na sede dos Passos. VocĂȘ Ă© mesmo um Griever, hein?

Beleza. Para facilitar minha vida, decidi classificå-los como ameaça nível E. Com Tino ao meu lado e jogando em casa, eu podia me dar ao luxo de ser um pouco mais assertivo.

— Fiquei muito surpresa naquela hora — Rhuda disse, me lançando um olhar de reprovação. — Quando vocĂȘ falou que jĂĄ tinha ido a tantos eventos assim, eu imaginei que…

Eu não tinha intenção de enganå-la. Acho que só fui na onda sem pensar. Também não é como se eu pudesse simplesmente abrir caminho e entrar andando, especialmente quando foi minha culpa ter dormido demais.

Nosso papo aparentemente fez Pequeno Gilbert relaxar um pouco, porque ele me lançou um olhar torto.

— Achei que os Grievers fossem mais fortes. Ouvi dizer que vocĂȘs eram o grupo mais poderoso da capital, mas pelo visto nĂŁo Ă© bem assim.

Franzi a testa.

— Claro que não. Quem tá espalhando esses boatos?

Eu jå sabia a resposta: meus amigos. Todos eles eram incrivelmente convencidos. Sim, éramos um dos grupos mais fortes da nossa geração, mas os Braves tinham a mesma idade que a gente, e havia vårios veteranos muito mais poderosos na capital. De forma alguma os Grievers eram o grupo mais forte.

Tino apertou meu braço, me fazendo estremecer. Por mais modestas que fossem, duas protuberĂąncias macias pressionavam contra mim. Ela estava fazendo isso de propĂłsito, sem dĂșvida. A pĂ©ssima influĂȘncia da mentora dela aparecendo de novo. Isso jĂĄ estava indo longe demais.

Tino começou a choramingar.

— Eles sĂŁo tĂŁo insolentes. NĂŁo posso entrar em um cofre do tesouro com gente assim, que nĂŁo tem respeito por vocĂȘ. VocĂȘ Ă© nosso mestre, mestre.

— Tá bom, seja lá o que isso signifique.

Sorri e acenei, porque no fim das contas, não fazia diferença. Mesmo que eu não fosse um mestre de clã, ainda seria eu.

Mas o Grande Greg nĂŁo compartilhava do meu desapego. O choque fez seus lĂĄbios grossos tremerem e sua expressĂŁo empalidecer.

— Espera. “Mestre”? Tipo, mestre de clã? Dos Passos?

— Humildemente ao seu dispor, Ăł grandioso — respondi. Nenhum tĂ­tulo que eu tivesse ou pudesse ter chegaria aos pĂ©s do Grande Greg.

— O, ah… o Mil Truques? — O Grande Greg gaguejou.

Ainda grudada no meu braço, Tino o encarou friamente.

— Se sabe quem Ă© meu mestre, deveria se ajoelhar diante dele e implorar por perdĂŁo.

Rhuda, por sua vez, olhava confusa de um para outro.

Eu sĂł queria que Tino parasse de tentar assustar seus novos companheiros. JĂĄ estava pronto para vomitar.

Mil Truques: mestre dos truques e esquemas engenhosos demais para o olho humano decifrar. Esse era o tĂ­tulo que me foi jogado por pena, como lĂ­der fantoche dos Grieving Souls.

Na indĂșstria da caça ao tesouro, caçadores excepcionalmente famosos ou talentosos recebiam um tĂ­tulo da Associação. Ter um desses tĂ­tulos era como se tornar uma celebridade entre os caçadores. Embora o tĂ­tulo em si nĂŁo trouxesse vantagens concretas, recebĂȘ-lo era considerado a maior honra que um caçador podia alcançar.

E quando o assunto era celebridades, ninguém chamava mais atenção do que os Grieving Souls. Além do nome marcante e sinistro, cada um dos seus membros (com exceção de mim) era incrivelmente talentoso, sempre alcançando novas alturas enquanto arriscavam suas vidas sem hesitação.

Com eles conquistando cofres e mais cofres como os caçadores perfeitos que eram, era inevitåvel que meus amigos ganhassem seus próprios títulos. Todos os membros dos Grieving Souls (de novo, menos eu) eram extremamente habilidosos em suas åreas, o que lhes garantiu títulos de acordo com suas especialidades.

O problema era eu: o lĂ­der deles. Eu nunca assumi nenhum dos papĂ©is tradicionais em um grupo de caça. Tudo que eu fazia era engolir o que restava do meu orgulho e pedir desculpas em nome do grupo por onde quer que passĂĄssemos, ao mesmo tempo em que tentava acalmar as tempestades ambulantes que eram meus amigos, minimizando os danos Ă  propriedade e o nĂșmero de feridos. Nada disso me rendeu reconhecimento.

O que esse idiota tå fazendo no meio de um bando de aberraçÔes? Foi o que os chefÔes da Associação devem ter pensado. Os Grievers produziam resultados inegåveis, e não faria sentido dar um título para todos os membros do grupo, menos para o líder. As pessoas começariam a duvidar do julgamento da Associação.

E foi assim que eu ganhei meu tĂ­tulo: porque, de alguma forma, eu era o lĂ­der de um bando de malucos. O pĂșblico via os Grieving Souls como um grupo misteriosamente impressionante liderado por um caçador chamado Mil Truques. Sem dĂșvidas, a Associação criou esse tĂ­tulo com uma boa dose de sarcasmo, me pintando como um estrategista lendĂĄrio que nunca se dava ao trabalho de lutar suas prĂłprias batalhas — uma ilusĂŁo grandiosa que eu nĂŁo me importava nem um pouco de alimentar.

Desmentir esse mito sĂł faria com que as pessoas percebessem o quĂŁo fraco eu realmente era, tornando-me um alvo ambulante. E isso era a Ășltima coisa que eu queria. AlĂ©m disso, ter minhas habilidades exageradas de forma absurda atĂ© que trazia algumas vantagens.

PĂĄlido e tremendo, o Grande Greg me encarava. Algumas pessoas que descobriam meu tĂ­tulo ainda me viam como um alvo fĂĄcil para pisotear, mas esse cara claramente sabia melhor.

— NĂŁo pode ser. Disseram que vocĂȘ era jovem, mas nĂŁo tĂŁo jovem assim.

— Isso nĂŁo importa muito. Hm…

Naquele momento, percebi que eu nĂŁo fazia a menor ideia do que devia fazer. O quanto a Tino contou para eles? Pedir ajuda com “tudo” nĂŁo era exatamente especĂ­fico.

Olhei para Tino, que me encarava com olhos de cachorrinho pidĂŁo. Isso me dizia tudo o que eu precisava saber. No mĂ­nimo, eu era bom em ler o ambiente. NĂŁo havia dĂșvida de que ela queria algumas palavras minhas para colocar esse pessoal na mesma sintonia.

Mesmo sendo um inĂștil, minha posição de poder dava peso Ă s minhas palavras. Fiz um pequeno aceno para Tino, e os olhos dela brilharam. NĂŁo se preocupe com nada, pequena Tino.

— Ahem. Eu reuni todos vocĂȘs aqui hoje para pedir ajuda em um trabalho que passei para a Tino.

Por algum motivo, o rosto da Tino se contorceu. Que preocupação toda era essa? O pedido tinha sido repentino, mas o fato de que os trĂȘs a seguiram atĂ© aqui significava que tĂ­nhamos uma chance de eles aceitarem. Uma palavra minha deveria ser o suficiente para fazer eles trabalharem juntos.

Rhuda jå queria enfrentar a Toca do Lobo Branco desde o começo, e o Grande Greg entendia uma coisa ou outra sobre caçadores. Senti que eu e ele compartilhåvamos a mesma filosofia: não mostre os dentes para uma fera maior. Precisåvamos discutir isso com uma bebida algum dia.

Falando em dentes Ă  mostra, o Ășltimo dos recĂ©m-recrutados estava rosnando para mim.

— VocĂȘ? VocĂȘ Ă© o Mil Truques, o caçador mais forte da capital?! Isso Ă© uma piada?! VocĂȘ parece que nunca treinou um dia na vida!

— O mais forte? Eu?

Sério, quem é que anda espalhando essas histórias? Sou eu que tenho que pagar a conta toda vez!

Quando tentei negar a acusação, Tino se colocou na minha frente.

— Pobrezinho. Ele não entende a força do meu mestre. É como se tivesse desperdiçado noventa por cento da vida.

— VocĂȘ nĂŁo tĂĄ fazendo sentido nenhum, Tino. Cala a boquinha um minuto, por favor?

— Mestre, eu nĂŁo posso me juntar a ele. Pessoas que falam grande e nĂŁo tĂȘm como provar sĂŁo as piores.

Isso me inclui, Tino.

Pequeno Gilbert até que tinha um ponto quando disse que eu parecia alguém que nunca treinou, porque eu realmente não treinei. Se nós dois lutåssemos em pé de igualdade, ele me destruiria.

O Grande Greg segurou o garoto, impedindo-o de me atacar.

— Seu idiota! Aprenda a escolher suas batalhas! VocĂȘ nĂŁo sai por aĂ­ desafiando o caçador mais jovem a alcançar o NĂ­vel 8, antes mesmo do Ark Rodin!

— Me larga, velho! — Pequeno Gilbert rugiu. — Droga! Não tem como ele ser mais forte que eu!

Se eu estendesse a mão, ele provavelmente a morderia. Jå disse antes, mas esse garoto tinha coragem. Se eu estivesse no lugar dele, jå estaria me ajoelhando e pedindo perdão. Na verdade, o espírito de luta e o temperamento dele estavam no nível de um caçador de primeira linha.

Me virei para Rhuda.

— Vai nos ajudar?

— Bom, Ă© uma oportunidade perfeita para mim. VocĂȘ Ă© mesmo NĂ­vel 8? — ela perguntou, desconfiada.

Decidi puxar as rédeas antes que as coisas saíssem do controle. Os níveis da Associação estavam longe de serem uma simples indicação de força; eles eram decididos com base em cålculos complexos.

— Os pontos foram se acumulando sozinhos. Quando vocĂȘ Ă© lĂ­der de um grupo ou mestre de um clĂŁ, ganha pontos com base nas conquistas dos outros membros. Com os Passos sendo tĂŁo grandes, nĂŁo demorou muito para eu acumular pontos o suficiente para subir de nĂ­vel.

— No meu livro, seus pontos são fora da curva, mestre!

Rhuda parecia meio convencida.

E acumular pontos dessa forma não era nenhuma trapaça. Como a Associação incentivava o crescimento da comunidade de caçadores, todos os caçadores de alto nível acabavam assumindo responsabilidades como líderes de grupos, mestres de clãs ou mentores. Caso contrårio, como eu poderia ter um nível maior que o Ark, que estava sempre na linha de frente?

Pequeno Gilbert fervia de raiva.

— Ouviram ele?! Ele trapaceou para chegar no NĂ­vel 8! VocĂȘ nĂŁo Ă© um caçador de elite! NĂŁo pode ser!

Com coragem ou sem coragem, esse moleque estava começando a me irritar.

Eu suspirei e olhei para ele.

— NĂ­vel 8 nĂŁo Ă© o topo, sabia? Bom, tanto faz. NĂŁo me importo se vocĂȘ acredita ou nĂŁo.

Eu jĂĄ estava acostumado a ser menosprezado. Quero dizer, faz sentido. Eu parecia fraco, e comparado aos malucos dos Passos, eu era fraco mesmo. Eu sĂł era mestre do clĂŁ porque ninguĂ©m mais queria o cargo. Se alguĂ©m estivesse disposto a assumir meu lugar, eu largaria isso num piscar de olhos. Eu atĂ© ficaria mal pela Tino, mas ela podia se dar ao luxo de perder um entre trĂȘs.

— Esquece isso, Pequeno Gilbert. E vocĂȘ, grandeza suprema? Vai ajudar a gente?

— O quĂȘ? — Os olhos do Pequeno Gilbert se arregalaram enquanto Tino erguia o punho animada por algum motivo.

— Ah, eu? Eu, ah… Claro que vou ajudar — murmurou o Grande Greg.

Eu sei que tinha pedido para Tino chamar todo mundo aqui, mas não ia obrigar o Pequeno Gilbert a entrar num grupo que ele não queria, muito menos implorar pra ele fazer isso. Orgulho à parte, esse era o salão do meu clã. Nenhum dos meus membros ficaria feliz em ver seu mestre implorando por qualquer coisa. Por que eu arriscaria a moral do clã inteiro por uma chance de colocar esse traste no grupo da Tino? Se ele fosse tão forte quanto o Ark, até poderia considerar, mas ele era um combatente de Nível 4. Jå tínhamos um monte desses no clã.

— Ei, tem certeza disso?! Eu não vou te ajudar, sabia?!

— Isso parte meu coração. Mas enfim. Tino, se acha que vocĂȘs trĂȘs nĂŁo dĂŁo conta, pega mais alguĂ©m dos Passos.

Com certeza alguns deles estariam bebendo no bar ao lado a essa hora.

Vendo uma chance de insistir mais um pouco, Tino arregalou os olhos no melhor olhar de filhotinho que conseguiu fazer.

— Por favor, por favor, vem comigo, mestre.

— Nem ferrando.

Por que eu iria? Um cofre de tesouro de Nível 3 pode ser tranquilo pra um monstro, mas ainda era mortal pra gente como eu. Por mais que eu reconhecesse a força da Tino, ela ainda não era boa o bastante como guarda-costas.

Mesmo depois de responder claramente, Tino manteve os olhos marejados fixos em mim. Ela jĂĄ tinha se derretido pra cima de mim vĂĄrias vezes antes, e eu sempre levei numa boa, como o irmĂŁo mais velho legal da vida dela. Mas agora isso jĂĄ estava passando dos limites.

Peguei sua cabeça e comecei a afastå-la de mim quando o Pequeno Gilbert gritou, chamando nossa atenção de volta pra ele.

— Eu te desafio!

Ele tinha enlouquecido? Até Tino, com minha mão ainda na cabeça dela, piscou confusa.

Como se nĂŁo aguentasse o peso dos nossos olhares, ele gritou de novo.

— Eu te desafio, Mil Truques! — Seu dedo esticado apontava pro meu queixo. — Se eu perder, entro pro grupo!

— Hã?

O que vocĂȘ disse pra mim, seu pirralho — Engoli as palavras. Isso era um novo nĂ­vel de ser menosprezado. NĂŁo querendo roubar as palavras da Tino, mas ele nĂŁo fazia ideia do que estava enfrentando.

Eu era um caçador certificado de Nível 8. Ok, eu era um fracote patético, mas a diferença de força entre um caçador médio de Nível 8 e um de Nível 4 era insuperåvel. Até o Ark, de Nível 7, veria o Gilbert como nada além de um grão de poeira.

Mas o mais importante: por que diabos eu, Mil Truques, entraria numa luta sem garantia de vitĂłria sĂł pra convencer um fedelho ranhoso a entrar num grupo? Eu jĂĄ tinha escapado de todos os conflitos que cruzaram meu caminho. Se esse moleque queria me enfrentar, teria que passar por cada membro dos Passos primeiro. AtĂ© o Grande Greg ficou surpreso com a imprudĂȘncia dele.

O Pequeno Gilbert continuou seu chilique, segurando o cabo da espada enorme e levantando-a acima da cabeça.

— Eu nĂŁo vou seguir ninguĂ©m que for mais fraco do que eu! — declarou com toda pompa.

— EntĂŁo vai ter que vencer a Tino, nĂ©?

— O quĂȘ?

Quero dizer, ela era a lĂ­der do grupo deles.

Tino se soltou do meu braço e lançou um olhar mortal para o atÎnito Gilbert.

— VocĂȘ realmente sabe como se esquivar, mestre. Muito bem. Eu, Tino Shade, vou esmagar-te em nome da querida Lizzy por essa blasfĂȘmia contra nosso mestre.

***

— Olha pra mim, mestre! A Lizzy me esticou pra caramba. Agora dá pra me colocar em qualquer posição que quiser.

— Certo. Seja lĂĄ o que isso significa, Tino, tenho certeza de que Ă© Ăłtimo.

Tino estava fazendo um espacate, as pernas abertas em 180 graus e o tronco completamente colado no chão. Seu cabelo escuro, cortado na altura dos ombros, se espalhava ao redor dela como uma poça negra à meia-noite.

Flexibilidade era essencial para qualquer caçador, especialmente para uma Ladina. Liz conseguia se dobrar como um invertebrado e cabia dentro de uma mala absurdamente pequena.

Tino estava completamente tranquila diante do combate iminente. O treinamento dela devia estar valendo a pena. Ela era a Ășnica aprendiz de Liz Smart, a Ladina dos Grieving Souls, e jĂĄ havia se tornado mais forte do que a mĂ©dia dos caçadores.

O mĂ©todo de Liz era totalmente inventado por ela mesma. JĂĄ ouvi dizer que existem dois tipos de gĂȘnios no mundo: os que pensam e os que fazem. Liz, sendo do segundo tipo, pegou tudo o que jĂĄ havia experienciado em treinos, aumentou a intensidade atĂ© o nĂ­vel do absurdo e jogou tudo em cima de Tino.

Sobrevivendo a um treinamento que basicamente implicava intenção assassina por parte da sua mestra, Tino nunca hesitava diante de um desafio. Isso, é claro, era completamente diferente de mim, que sempre estava à beira de botar as tripas pra fora. Nossa mascote fofa era um monstrinho à parte.

A casa do clã Primeiros Passos tinha vårios andares subterrùneos dedicados ao treinamento. Para testar o garoto Gilbert, reservei o primeiro subsolo: um espaço aberto de dez mil metros quadrados.

Os Passos tinham diversas åreas para pråtica de habilidades específicas, mas esse andar em particular era voltado para combates. O teto tinha cinco metros de altura, o dobro do normal, para dar espaço suficiente para os lutadores se movimentarem em qualquer nível. O chão era tão duro quanto pedra, então mesmo os caçadores mais resistentes sofreriam danos se fossem derrubados ali.

Com os olhos ardendo de determinação, Gilbert mirava Tino e eu. Deitada de costas, com as coxas expostas e a nuca à mostra entre os fios de cabelo, ela formava uma cena um tanto sugestiva, mas o garoto diante dela não via nada além de um inimigo. Ele realmente achava que ia ganhar.

Ah, ser jovem outra vez… Esse moleque me lembrava o Luke no passado.

— VocĂȘ acha que isso Ă© um jogo?! — Gilbert rosnou.

— Ela Ă© nĂ­vel 4, sĂł pra vocĂȘ saber.

Os olhos de Gilbert se arregalaram. Pelo visto, ele nĂŁo esperava que ela fosse do mesmo nĂ­vel que ele. Tino tinha uma aura meio indiferente (pelo menos enquanto ficava quieta), alĂ©m de ser pequena—menor atĂ© que Gilbert, que jĂĄ era baixinho para um garoto.

Mesmo assim, ele não podia subestimar Tino. Para Espadachins como Gilbert, ser pequeno e ter pouca força muscular era uma desvantagem. Para Ladinos, não. Agilidade era sua maior arma.

Após uma série de alongamentos, Tino se levantou e ficou cara a cara com Gilbert.

— Sou só um grão de poeira comparada ao meu mestre.

— Quem vocĂȘ acha que eu sou, Tino?

Ela estava me exaltando como se eu estivesse em liquidação.

Tino desfez o cinto e o jogou de lado, com a adaga e a bolsa de itens ainda presas a ele. Pelo visto, ia lutar de mĂŁos vazias.

Ela deu de ombros ao ver Gilbert a encarar ainda mais sério.

— Vou pegar leve com vocĂȘ, pra nĂŁo acabar morto.

— O QUÊ?!

Gilbert parecia prestes a explodir uma veia. Tino estava fazendo um trabalho espetacular em provocar o garoto.

Rhuda correu até mim e perguntou num sussurro nervoso:

— Ela vai ficar bem?

— HĂŁ… provavelmente.

Apesar de estarem no mesmo nível, eu sabia muito bem do talento de Tino. Ela só era nível 4 porque estava jogando solo; com um grupo certo, jå poderia ter subido para o nível 5. Afinal, estava sendo treinada por uma das minhas amigas, uma completa aberração no mundo da caça.

O problema era que Espadachins eram praticamente imbatíveis em combate corpo a corpo. A Associação não distribuía níveis à toa, então Gilbert tinha que ter algo especial para ser avaliado como nível 4. Subestimå-lo seria burrice.

Sem falar que aquela espada enorme dele era uma relíquia. Relíquias tinham um potencial imenso, podendo facilmente compensar diferenças de nível. Pelo que vi no recrutamento, sua espada não parecia ter poderes absurdos, mas qualquer relíquia poderia decidir uma luta.

Tino nĂŁo tinha nenhuma relĂ­quia alĂ©m do Anel Atirador que dei a ela, que mal servia para combate, entĂŁo Gilbert levava vantagem. PorĂ©m, ela jĂĄ tinha experiĂȘncia o suficiente para saber o que evitar. Para mim, os dois eram monstros.

Foi entĂŁo que Gilbert finalmente surtou. Ele jogou a espada no chĂŁo e estalou os dedos.

— Heh! Não preciso de arma pra enfrentar uma garota desarmada!

EntĂŁo Gilbert, um Espadachim, jogou sua espada fora… junto com o Ășltimo neurĂŽnio.

Tino tinha feito um teatro ao jogar sua adaga de lado para “pegar leve”, mas, na verdade, seu forte era lutar com as mĂŁos. Bom, mais com os pĂ©s, jĂĄ que ela preferia chutes.

A luta jå tinha começado antes mesmo do sinal. No campo de batalha, não existe covardia. Mesmo com a vantagem do inimigo, Tino estava determinada a espancar o garoto.

Os dois ficaram a cinco metros de distĂąncia um do outro.

— Vou tomar sorvete com vocĂȘ, mestre! — Tino cantarolou, dançando de um lado para o outro.

— Eu nunca prometi isso — murmurei.

Gilbert cerrava os dentes. Qualquer um ficaria irritado com a provocação dela. Mas então me ocorreu que, apesar de eu nunca ter prometido sorvete, vivia pedindo favores sem oferecer nada em troca. Não me importaria de sair com ela de vez em quando, ainda mais considerando que seria uma boa guarda-costas.

— TĂĄ bom, beleza. Podemos ir depois que vocĂȘ terminar a missĂŁo.

— SĂ©rio?!

Num instante, a dança graciosa de Tino se transformou em um salto afiado, acelerando ao måximo em um piscar de olhos. Seu olhar passou de inocente para o de um predador feroz. Foi um movimento magnífico, mesmo visto da distùncia segura onde eu estava.

Os Espadachins se destacavam pela força bruta, enquanto os Ladinos focavam na destreza. Apesar de seu papel principal ser abrir fechaduras e explorar åreas, também eram guerreiros das sombras, eliminando inimigos em um piscar de olhos.

Os cinco metros entre eles desapareceram num instante. Quando Gilbert percebeu que ela havia se movido, a mão de Tino jå estava indo direto para o pescoço dele.

O movimento parecia um pouco sujo por parte da Tino, jĂĄ que eu nem tinha dado o sinal para o inĂ­cio da luta.

Gilbert, no entanto, nĂŁo foi pego totalmente de surpresa, pois deu um passo rĂĄpido para trĂĄs, evitando o ataque. Como se todos os seus movimentos fossem parte de um Ășnico golpe fluido, Tino lançou o joelho no estĂŽmago de Gilbert, jogando o garoto para trĂĄs.

Foi um massacre. Os ataques de Tino nĂŁo eram tĂŁo poderosos quanto os de um Espadachim, mas seus braços esguios ainda representavam uma ameaça para o desarmado Gilbert. Rhuda e o Grande Greg ficaram paralisados em silĂȘncio diante do ataque relĂąmpago.

Tino me lançou um pequeno sorriso, sem nem olhar para Gilbert.

— Viu isso, mestre? Acabei com ele.

— Isso ainda nĂŁo acabou…

Gilbert se levantou devagar, tendo deslizado vĂĄrios metros pelo chĂŁo. Ele tossiu e cambaleou por um instante, mas estava longe de estar fora de combate. O garoto era resistente.

Um corpo humano constantemente imerso em mana se tornava forte o suficiente para enfrentar uma fera selvagem de igual para igual. Sangue, carne e ossos se tornavam inumanos. A resistĂȘncia de Gilbert era a prova de que ele era um guerreiro.

Tino riu do olhar assassino do pequeno Gilbert, afastando o cabelo para o lado.

— Tenho certeza de que percebeu, mas eu peguei leve com vocĂȘ. Eu poderia ter quebrado seu pescoço. Agora que aprendeu a lição, deveria parar de retrucar meu mestre. Adore-o como um deus; vire-se para a sede do clĂŁ e reze trĂȘs vezes ao dia; e traga-me oferendas regularmente. Eu me certificarei de entregĂĄ-las para vocĂȘ.

Sem dizer nada, Gilbert avançou com a velocidade digna de um Caçador de Nível 4. Eu dei um passo råpido para longe do que logo seria o ponto de colisão.

Mas aquela investida foi bem imprudente. O garoto nĂŁo parecia ter muita experiĂȘncia em lutar contra outros Caçadores. Talvez essa fosse atĂ© sua primeira vez enfrentando um Ladino.

Tino girou no prĂłprio eixo e desviou da investida. Quando ele tentou agarrar seu braço de surpresa, ela aparou sua mĂŁo com a dela antes de atingir a tĂȘmpora de Gilbert com o calcanhar da palma. Um baque surdo ecoou no impacto.

O supostamente resistente Gilbert deu alguns passos vacilantes antes de desabar no chão. Ele tentou se levantar desesperadamente, mas seus olhos não conseguiam focar em nada. Seu cérebro tinha sido sacudido por completo. Talvez eu devesse aplaudir o esforço dele em se mover nesse estado. Eu, com certeza, teria vomitado.

Tino bateu as mĂŁos para tirar a poeira e disse com orgulho:

— DĂĄ uma olhada nisso, mestre! Graças a vocĂȘ, eu cresci tanto.

Ela devia estar dizendo isso para Liz, nĂŁo para mim. NĂŁo foi como se eu tivesse qualquer envolvimento no treinamento da Tino.

Os lĂĄbios do Grande Greg tremiam. Sem dĂșvida, ele estava surpreso com o quĂŁo rĂĄpido a luta havia terminado.

— Ela Ă© forte. Dominou um Espadachim de frente, mesmo que o garoto estivesse desarmado. Mais do que isso, ela sabe como lutar. Tem certeza de que ela ainda Ă© uma adolescente? É disso que se precisa para entrar nos Passos?

Rhuda também murmurava para si mesma.

— Eu nunca tentei combate desarmado… SerĂĄ que ela me ensinaria?

Um Espadachim sem espada nĂŁo era um Espadachim. Isso nĂŁo era realmente necessĂĄrio.

— Isso… ainda nĂŁo… acabou… Eu ainda posso… lutar!

O pequeno Gilbert se ergueu cambaleante. Ele nĂŁo tinha ferimentos abertos nem nada, mas seu equilĂ­brio estava comprometido e seus olhos ainda estavam desfocados.

Ele jå tinha perdido no momento em que caiu na armadilha da Tino e largou sua espada. Milagres não existiam. O garoto não tinha chance alguma, então eu me perguntava se era apenas seu orgulho como Caçador que o fazia continuar em pé.

Quando eu ainda era movido pela paixão por caçar tesouros, serå que eu também tinha essa determinação? A capacidade dele de se levantar depois de ser completamente destruído jå era um talento por si só. Quando brinquei dizendo que ele devia entrar para os Braves, não falei sério, mas parecia que o pequeno Gilbert realmente tinha o que era preciso para ser um Caçador.

Ser imprudente era um talento valioso que não podia ser ensinado. Caçadores precisavam estar atentos para sobreviver, mas algumas coisas não podiam ser conquistadas apenas jogando pelo seguro.

Tino me olhava como se eu tivesse pedido para ela assistir tinta secar, entĂŁo bati palmas para encorajĂĄ-la.

— DĂĄ outra chance para ele, Tino. Eu nunca disse como a luta seria decidida. Bata nele atĂ© que nĂŁo reste ressentimento. Vai ser uma boa lição.

Depois de trocarem alguns socos, eles seriam bons amigos, certo?

***

Gilbert Bush era talentoso. Desde pequeno, assim que conseguiu segurar uma espada, foi treinado para fortalecer seu corpo.

O esforço nunca o traiu. Anos e anos empunhando sua lĂąmina, ora aprendendo com mentores, ora na base da tentativa e erro, o tornaram cada vez mais forte. Quando completou dez anos, ninguĂ©m em sua vila — criança ou adulto — chegava perto de suas habilidades.

Talentos se manifestam de vårias formas, mas entre os mais raros estavam a velocidade excepcional de absorção de mana material e a capacidade måxima que alguém podia conter. Quanto mais råpido alguém absorvia mana, mais forte se tornava em menos tempo. Quanto maior sua capacidade, mais poder podia alcançar.

Gilbert possuía ambos esses talentos. Sua velocidade de absorção e sua capacidade eram muito superiores à da maioria das pessoas — tanto que, mesmo vivendo em uma vila onde quase não havia mana material no ar, ele cresceu mais forte do que qualquer um. Seu destino como caçador era praticamente inevitável.

Gilbert sabia que a maneira mais råpida de conseguir tudo o que queria era explorando cofres de tesouro, derrubando espectros e monstros pelo caminho. Além disso, explorar cofres repletos de mana material lhe proporcionaria um nível de força impossível de alcançar em sua vila.

Assim que completou quinze anos, Gilbert arrumou suas coisas e, ignorando os protestos de amigos e familiares, mudou-se sozinho para a capital. Ele nunca havia estado lĂĄ antes e a cidade grandiosa e cheia de vida o encantou. Provou comidas que nunca tinha experimentado em sua vila autossustentĂĄvel e se maravilhou com os incontĂĄveis prĂ©dios que se espalhavam pelas ruas. Cada avenida, larga o bastante para vĂĄrios carros passarem lado a lado, estava tĂŁo cheia de gente que qualquer um poderia pensar que um festival estava acontecendo. Mas o que mais chamou sua atenção foram as inĂșmeras pessoas trajando roupas de caçadores de tesouros — uma visĂŁo rara em sua terra natal.

O progresso de Gilbert continuou em um ritmo impressionante mesmo depois de se registrar na Associação dos Exploradores e começar a se aventurar em cofres de tesouro. Diferente da maioria dos novatos, ele jĂĄ tinha bastante experiĂȘncia antes mesmo de iniciar sua carreira, e seu talento estava muito acima da mĂ©dia. Acima de tudo, ele possuĂ­a uma coragem absurda — tanta que a Associação jĂĄ o repreendeu por sua imprudĂȘncia. Mas, para sua sorte, sempre conseguia se safar.

Seu verdadeiro potencial começou a florescer quando formou um grupo com quatro outros novatos. Juntos, começaram a desafiar cofres de tesouro cada vez mais perigosos. A espada colossal que encontrou logo em sua primeira incursão se tornou sua principal arma, permitindo-lhe despachar espectros com facilidade e conter hordas de monstros.

Na era dourada da caça ao tesouro, Gilbert fazia parte da segunda geração de exploradores. Ele não ligava muito para essa distinção, mas sabia que existiam caçadores cuja força desafiava a compreensão humana. Principalmente os veteranos, que haviam se tornado absurdamente poderosos após incontåveis exploraçÔes e anos absorvendo mana material.

Com o tempo, Gilbert se viu diante de vårios caçadores que ele não tinha a menor chance de derrotar. Mas ele aceitou essa realidade. Ainda tinha muito caminho pela frente e, com o tempo, chegaria ao mesmo nível. Ele tinha certeza disso. Seu futuro brilhava como uma escadaria dourada rumo à glória.

Esse futuro, porém, começou a escurecer algumas semanas atrås.

***

— Finalmente estou aquecida. Agora essa missĂŁo vai ser moleza, vocĂȘ vai ver! Sua sabedoria Ă© impressionante, mestre — disse uma voz despreocupada lĂĄ de cima.

Gilbert forçou seu corpo machucado e cheio de hematomas a se mover, lançando um olhar furioso para Tino, que olhava para ele friamente, como se fosse um inseto insignificante.

Tino era forte. Assustadoramente forte, mesmo sendo da mesma idade que ele. Cada golpe dela era rĂĄpido e devastador. Nenhum dos ataques impetuosos de Gilbert, poderosos o suficiente para destruir um fantasma, sequer havia arranhado Tino. Por outro lado, ele nĂŁo conseguiu desviar ou aparar nem um Ășnico golpe dela.

Essa garota não tinha nada a ver com os brutamontes que jå tinham tentado brigar com ele, nem com os fantasmas que enfrentara nos cofres. O mais impressionante era que os movimentos dela eram voltados para combates entre humanos. Fantasmas não tentavam causar concussÔes nos adversårios, muito menos bloqueavam ataques com as palmas das mãos. E para piorar, ela fazia tudo isso sem o menor esforço.

Diziam que os Passos atraíam muitos caçadores talentosos, mas Gilbert nunca esperou algo assim. O primeiro golpe foi inesperado, mas depois disso ele não a subestimou. O problema era simples: ela era muito mais forte do que ele — tanto que parecia absurdo estarem classificados no mesmo nível.

Não estar com sua espada não era desculpa. Ele mesmo escolheu lutar de mãos vazias, jå que ela também não portava nenhuma arma. Mas não queria inventar desculpas. Seu objetivo estava muito além daquele momento.

— Ainda está consciente? — Tino perguntou.

Gilbert tentou se levantar, mas seu corpo não obedecia. Não sentia os dedos. Não conseguia mover os membros. E mesmo se conseguisse ficar de pé, certamente não teria forças para se mover como queria.

Seu corpo, fortalecido pelo mana material, era resistente o bastante para suportar alguns tiros. Jå tinha sofrido ferimentos graves vårias vezes durante as caçadas, até mesmo ficado à beira da morte. Mas essa era a primeira vez que apanhava tanto de um ser humano desarmado.

— Urgh! Droga!

— Pode usar essa espada se quiser — Tino disse, despreocupada. A arma principal de Gilbert ainda estava ao alcance de sua visão, no canto onde ele a havia deixado antes da luta.

A Espada Purgatorial era uma relĂ­quia que Gilbert obteve em um cofre de NĂ­vel 1 chamado Campo de Treinamento dos Veteranos. A lĂąmina sustentou sua carreira desde o inĂ­cio, cortando inĂșmeros monstros e fantasmas ao longo do caminho.

Encontrar essa relíquia logo após chegar à capital, sem um tostão no bolso, foi o maior golpe de sorte da vida de Gilbert. Armas-relíquias eram poderosas por si só, e para alguém como Gilbert, que não era muito técnico, uma espada grande era a escolha perfeita. Empunhar essa lùmina, com a qual passou por tantos altos e baixos, com certeza traria confiança. Mas Gilbert afastou esse pensamento.

Em vez disso, lançou um olhar desafiador para a lùmina de tom carmesim.

— Nunca! — berrou, ainda caído no chão.

Ele se sentia miserável. Sabia que a Espada Purgatoria era uma arma poderosa. Quando a conseguiu, a fez ser avaliada na Associação, e o avaliador ficou surpreso—era uma relíquia rara demais para ter sido encontrada em um cofre de Nível 1.

E era exatamente por isso que Gilbert nĂŁo podia usĂĄ-la. Se pegasse a espada agora, contra uma oponente desarmada, sentiria que todas as suas conquistas pertenciam a ela, e nĂŁo a ele.

Tino nĂŁo atacou novamente. Depois de um tempo descansando, Gilbert conseguiu se levantar.

Tino franziu a testa.

— Seu orgulho Ă© idiota.

Gilbert nĂŁo via nenhuma abertura na postura dela. Tino sequer suava, nem demonstrava qualquer sinal de cansaço, e mesmo diante de um oponente claramente inferior, continuava em alerta mĂĄximo. Se quisesse matĂĄ-lo de verdade, ele jĂĄ teria virado carne moĂ­da. Por mais que se orgulhasse da sua resistĂȘncia fĂ­sica, Tino era capaz de quebrĂĄ-lo.

Gilbert se abaixou, ofegante de dor. Gritar seria desperdĂ­cio de energia, entĂŁo apenas a encarou, como um animal prestes a atacar. Havia alguma brecha? O que ele deveria fazer?

Tino parecia frĂĄgil — pelo menos mais frĂĄgil que ele. Um golpe certeiro deveria bastar. Um golpe pesado…

Mas Gilbert sabia que seu golpe nunca acertaria. Ela jĂĄ tinha antecipado todos os seus ataques anteriores.

Enquanto tentava desesperadamente encontrar uma saĂ­da para a vitĂłria, a voz de Mil Truques ecoou em seus ouvidos. O cara falava no mesmo tom despreocupado de antes do combate. Os outros trĂȘs espectadores, que Gilbert havia esquecido momentaneamente, voltaram Ă  sua consciĂȘncia.

— Que tal parar com isso? VocĂȘ queria confirmar que Tino Ă© mais forte que vocĂȘ, e acho que jĂĄ teve sua resposta.

Gilbert nĂŁo respondeu, e ele continuou:

— VocĂȘ deixou seu Ășltimo grupo, nĂŁo foi?

Gilbert prendeu a respiração e encarou Mil Truques. O homem mantinha um leve sorriso enquanto o observava, parecendo tĂŁo intimidador quanto sempre: um sujeito comum, com cabelos pretos, olhos escuros e uma aparĂȘncia sem graça, sem qualquer sinal de ter acumulado mana. Nem sequer usava o emblema dos Passos ou dos Grievers que deveria estar vestindo. O fato de ele nem ao menos parecer um membro do grupo o tornava ainda mais inquietante.

Gilbert realmente havia deixado seu grupo. Ele precisou sair do primeiro time que integrou ao chegar à capital — um grupo com o qual caçou por quase meio ano. Seus companheiros simplesmente não conseguiam acompanhá-lo.

Mil Truques manteve seu sorriso enigmático, fazendo os pelos de Gilbert se arrepiarem. Mesmo em seu curto tempo na capital, Gilbert já tinha ouvido falar daquele homem — um dos melhores caçadores da cidade e líder dos Grieving Souls, um grupo composto apenas por caçadores titulados, o mais alto reconhecimento que um caçador poderia receber.

— Como vocĂȘ sabe…? — murmurou Gilbert.

— JĂĄ passei por isso. VocĂȘ e seu grupo nĂŁo combinavam. Eu entendo. Os Grievers nĂŁo sĂŁo do tipo que deixam alguĂ©m para trĂĄs.

Por um momento, Gilbert nĂŁo entendeu. EntĂŁo, a verdade o atingiu.

TĂ­tulos eram concedidos apenas aos melhores dos melhores — caçadores excepcionais, que atravessaram incontĂĄveis cofres com facilidade. Eram uma honra que ainda estava muito alĂ©m do seu alcance. E, no entanto, Mil Truques, o lĂ­der dos Grievers, cuja habilidade era incomparĂĄvel, falava deles como se nĂŁo fossem nada mais do que…

— Acho que se juntar a esse grupo seria uma boa experiĂȘncia para vocĂȘ. Tenho certeza de que tem suas dĂșvidas e tudo mais, mas gosto de ver a juventude se dando bem.

Mil Truques tinha vårias brechas que Gilbert poderia explorar. Seu corpo parecia ainda mais frågil que o de Tino. O cara parecia tão fraco que Gilbert o considerou um completo banana. E agora, essa mesma percepção o aterrorizava.

Mesmo depois de descobrir sua posição e sua natureza anormal, o homem continuava parecendo tão fraco quanto antes.

Sem perceber, as mãos e pernas de Gilbert começaram a tremer. Seu rosto se contorcia, seus pulmÔes apertavam. Sua boca estava seca, e seus olhos não conseguiam se desviar do líder do clã.

Cofres eram cheios de monstros: criaturas que devoravam humanos, que fingiam ser humanos, que possuĂ­am inteligĂȘncia, habilidades especiais, força bruta, e atĂ© mesmo aquelas que manipulavam caçadores com palavras. E ainda assim, Gilbert entendia tĂŁo pouco sobre o homem Ă  sua frente quanto sobre os fantasmas.

Mil Truques… JĂĄ ouvira esse nome inĂșmeras vezes, mas nunca soubera que tipo de caçador ele realmente era.

O líder do clã se aproximou da Espada Purgatorial e bateu com o pé na lùmina. Instantaneamente, chamas carmesim irromperam da espada larga, girando em uma espiral flamejante.

Gilbert nĂŁo conseguia compreender o que via. Greg e Rhuda observavam, boquiabertos.

— Um buff elemental e uma expansão do alcance de ataque, hein? É uma espada simples, mas boa. Cuide bem dela.

Totalmente impassível, Mil Truques falava de dentro das chamas espiraladas. O fogo envolvia seu braço como se fossem manoplas, e seus olhos brilhavam em um tom avermelhado.

— NĂŁo pode ser! VocĂȘ nĂŁo pode empunhĂĄ-la! A Espada Purgatorial Ă© uma relĂ­quia! Uma relĂ­quia!

Relíquias eram itens poderosos que exigiam um manuseio delicado. Quanto mais forte uma relíquia, mais treinamento era necessårio para usar até mesmo uma fração do seu poder.

As chamas serpenteavam pelo ar, se moldando em um par de asas escaldantes nas costas de Mil Truques. Gilbert esqueceu toda sua angĂșstia, todo seu arrependimento, orgulho e dor, e berrou:

— VocĂȘ nem estĂĄ tocando na empunhadura! Como isso Ă© possĂ­vel?!

O prĂłprio Gilbert sĂł havia conseguido recentemente elevar a Espada Purgatorial de uma espada bem feita para algo realmente especial. E mesmo assim, tudo o que tinha sido capaz de fazer era revestir a lĂąmina em chamas. NĂŁo que controlar uma relĂ­quia fosse difĂ­cil, ele simplesmente nĂŁo fazia ideia de como fazĂȘ-lo. RelĂ­quias nĂŁo vinham com botĂ”es ou interruptores, muito menos com um manual de instruçÔes. Aprender a usĂĄ-las nĂŁo era uma questĂŁo de talento.

E justamente por ser o dono da Espada Purgatorial, Gilbert compreendia o quĂŁo impossĂ­vel era o que estava vendo.

Dentro do véu de fogo, Mil Truques sorriu, seus cabelos negros refletindo o brilho sombrio das chamas. Não podia ser. Esse homem não era como Tino, que simplesmente estava mais adiantada em seu treinamento. Mil Truques sequer trilhava o mesmo caminho que Gilbert tentava escalar. Ele era um desconhecido.

Ao presenciar essa cena inimaginĂĄvel, Gilbert ouviu sua prĂłpria voz tremer de terror, como se pertencesse a outra pessoa.

Monstro.

Tino continuava olhando para Gilbert de cima, impassĂ­vel.

A sombra de Mil Truques, projetada pelo fogo rugindo ao seu redor, parecia um espĂ­rito em luto.


Tradução: Carpeado
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