Grieving Soul â CapĂtulo 5 â Volume 1
Nageki no Bourei wa Intai shitai Let This Grieving Soul Retire Volume 01
CapĂtulo 5: [A Grieving Soul]
Assim que todos estavam conscientes e minimamente descansados, começamos nossa jornada condenada para casa. Até mesmo em tempos de guerra, era na retirada que aconteciam mais baixas. Com metade de nós feridos e o cofre do tesouro claramente fora de controle, nosso destino não estava mais em nossas mãos.
O Grande Greg carregava dois dos caçadores mais pesados, pequeno Gilbert levava um dos homens, e Rhuda, a garota mais leve do grupo de Rudolph. Os caçadores que eståvamos resgatando até poderiam andar por conta própria, se forçassem, mas era melhor que guardassem forças para quando realmente precisassem.
Como Rudolph era o Ășnico com alguma chance de ser Ăștil numa luta, gastei atĂ© a Ășltima gota de mana na fĂ© curativa para fazĂȘ-lo andar por conta prĂłpria. Ele estava longe de estar bem, mas conseguia dar passos pesados com sua armadura robusta, usando a lança como uma bengala.
Seguimos adiante sob o olhar atento de Tino. Eu, sem força nem resistĂȘncia, era um peso morto completo, apesar de ter o nĂvel mais alto entre todos ali.
Mesmo parecendo prestes a desabar de novo, Rudolph falou com clareza.
â Se aquele chefe aparecer, eu seguro ele. Vou ganhar o mĂĄximo de tempo possĂvel.
â NĂŁo vamos te deixar para trĂĄs â respondeu Tino, parecendo cada vez mais uma verdadeira caçadora.
Rudolph soltou um grunhido arrependido, sem reconhecer a resposta.
â Cuidem deles. Levem-nos para Zebrudia. Por favor…
Se pudesse escolher entre talento e sorte, qualquer caçador escolheria a segunda. Era comum caçadores de alto nĂvel, abençoados com talento, simplesmente desaparecerem de um dia para o outro. NinguĂ©m sabia ao certo o que Rudolph e seu grupo estavam fazendo na toca, mas, pelo que parecia, eles haviam sido cuidadosos. O que os colocou nessa situação foi pura falta de sorte.
As chances estavam contra nĂłs. Se encontrĂĄssemos um daqueles lobos gigantes de pelo prateado, sem falar no que usava a mĂĄscara de caveira completa, a possibilidade de sairmos todos vivos era mĂnima.
Rudolph devia estar mais ciente disso do que qualquer um. Resgatados exaustos eram sempre os primeiros a serem deixados para trĂĄs. Nenhum caçador chegava ao nĂvel 5 sem ver alguns companheiros morrerem pelo caminho.
â NĂŁo se preocupe â disse Tino simplesmente. â O mestre nĂŁo vai deixar nada acontecer com a gente.
A confiança dela em mim passava dos limites. A Ășnica coisa que eu podia fazer era fugir. O caminhante noturno era um veĂculo para uma pessoa sĂł, mas talvez eu conseguisse voar carregando alguĂ©m. Felizmente, Tino era pequena o suficiente para isso. No pior dos casos, eu jĂĄ estava pronto para abandonar os resgatados e o resto do grupo de Tino e sair voando dali.
Claro, eu tentaria tirar todo mundo vivo. Daria o meu melhor. Mas eu também sabia quais eram minhas prioridades.
Rudolph se virou para mim e fez uma reverĂȘncia profunda. Orar para mim nĂŁo adiantaria nada. Eu nĂŁo era um deus.
Ele continuou falando enquanto atravessĂĄvamos os corredores estreitos, como se tentasse afastar o terror que espreitava ao virar a prĂłxima curva.
â SĂł sobrevivemos porque aquilo estava brincando com a gente.
â Brincando como? â perguntou pequeno Gilbert.
â Ele tinha uma espada, e era absurdamente habilidoso com ela. Desviou do meu melhor golpe. Cada ataque que fez rasgou meu escudo, minha armadura, minha carne e meus ossos. NĂŁo hĂĄ dĂșvida: se quisesse nos matar, teria feito isso em segundos. Nos feriu e nos deixou ir, provavelmente para nos enfraquecer e torturar atĂ© a morte. Ou talvez sĂł quisesse que morrĂȘssemos de fome. Aquilo era mais esperto, mais forte e mais cruel do que qualquer espectro que jĂĄ vi.
Até mesmo pequeno Gilbert escutava com uma expressão sombria.
Espectros ficavam mais fortes e inteligentes conforme absorviam mana. Em cofres de nĂvel baixo, eles eram quase indistinguĂveis de bestas selvagens, mas em nĂveis superiores, nĂŁo era incomum que entendessem nossa lĂngua. Ainda assim, esse tipo de espectro nĂŁo deveria aparecer em um cofre como aquele.
â JĂĄ estive num cofre de nĂvel 6 uma vez â Rudolph continuou. â Para falar a verdade, fugi sem nem terminar a missĂŁo. Mas aquele espectro que vimos lĂĄ atrĂĄs… Era muito, muito mais forte do que qualquer coisa que vi naquele dia. Sem dĂșvida.
Isso era ridĂculo. NĂŁo havia como um cofre de nĂvel 3 se tornar tĂŁo mais difĂcil sĂł por uma pequena mudança no ambiente. Era possĂvel que surgissem espectros poderosos por mutação, mas eu nunca ouvira falar de algo tĂŁo acima do esperado.
â Sei que Ă© difĂcil de acreditar â disse Rudolph â, mas eu vi com meus prĂłprios olhos. NĂŁo tivemos chance alguma. Aquele estilo de luta… era tĂŁo feroz que podia atĂ©…
O rosto de Rudolph se contorceu de medo, e seu corpo tremeu levemente.
â Podia atĂ© se igualar Ă Espada MetamĂłrfica.
â A Espada MetamĂłrfica?! â O Grande Greg arregalou os olhos. NĂŁo existia espadachim que nĂŁo conhecesse esse nome.
Pequeno Gilbert ouvia atentamente. Enquanto isso, Tino ficava me encarando. NĂŁo precisava se preocupar tanto.
A Espada MetamĂłrfica era o tĂtulo do espadachim considerado o melhor da capital. Ele estudou esgrima tradicional com o Santo da Espada e usou essa base para aprender praticamente todas as tĂ©cnicas de espada existentes. Esse espadachim mestre (ou melhor, fanĂĄtico por espadas) nĂŁo era ninguĂ©m menos que Luke Sykol, um dos Grievers. HilĂĄrio.
Provavelmente eu era o Ășnico ali que nĂŁo ficou abalado com a menção do nome. Diferente do meu, o tĂtulo de Luke nĂŁo era apenas um enfeite. No quesito luta com espadas, ele realmente era o melhor dos melhores. AtĂ© mesmo Ark nĂŁo teria chance contra ele. Eu me recusava a acreditar que esse espectro estivesse no mesmo nĂvel.
Se existisse um espectro assim, Luke jĂĄ teria dado um jeito nele.
Ainda assim, Rudolph parecia estar falando sĂ©rio. Talvez o medo estivesse influenciando suas palavras, mas ele pelo menos me convenceu de que aquela coisa era absurdamente forte. O melhor que podĂamos fazer era evitar encontrĂĄ-la. Sem dĂșvida, Tino nĂŁo teria chance contra aquilo.
Merda, pensei. Eu devia ter esperado pelo Ark.
Os uivos dos lobos ecoavam sem parar pelos corredores, quase me fazendo ter um infarto cada vez que soavam. Pior ainda, a reverberação nas paredes da toca tornava impossĂvel calcular a distĂąncia entre nĂłs e eles, nĂŁo que eu soubesse fazer esse tipo de cĂĄlculo. Se ao menos o Red Alert detectasse lobos assassinos na esquina… mas essa RelĂquia era bem imprevisĂvel.
â Era pequeno â Rudolph continuou. â Menos da metade do tamanho dos cavaleiros-lobo de meia mĂĄscara. E imensamente mais forte do que eles.
O Grande Greg soltou um longo suspiro.
â Bom, parece que hoje Ă© nosso dia de azar.
Eu nĂŁo poderia ter dito melhor. Queria muito tomar um drink com esse cara… Se saĂssemos dessa vivos, claro.
[…]
EntĂŁo, ele apareceu.
Rudolph ficou boquiaberto. A poucos passos atrĂĄs de mim, ele estava pĂĄlido, sem cor alguma.
Diante de nós, havia um espectro de forma humanoide, com o rosto completamente coberto por um crùnio humano. Era metade do tamanho de um cavaleiro-lobo, mais ou menos da minha altura, mas exalava uma aura tão intimidadora que enfrentar os cavaleiros-lobo parecia brincadeira em comparação.
EntĂŁo, surgiu outro. Esse usava um crĂąnio sorridente e tinha duas RelĂquias familiares em mĂŁos: Hounding Chain e Silent Air.
Tino, tremendo de medo, agarrou meu braço.
â M-Mestre… nĂŁo. Por favor, me ajude. Eu nĂŁo quero morrer…
A caveira sorridente virou-se para mim lentamente.
Sem nem pensar, deixei escapar a primeira coisa que veio Ă mente.
â Ei, Ă© a Liz.
O que diabos ela tĂĄ fazendo aqui?!
***
A vasta abundĂąncia de mana materializou uma existĂȘncia digna da Toca do Lobo Branco. Sua mente despertou; sinapses dispararam em seu cĂ©rebro, e ele ganhou consciĂȘncia. A primeira emoção que essa criatura experimentou nĂŁo foi Ăłdio, mas sim ĂȘxtase.
Todos os seus cinco sentidos entraram em ação, sobrecarregando seu cérebro com informaçÔes. Ele enxergava longe na escuridão e identificava sons entre os ecos distantes da caverna. A força percorria seu corpo, e ele jå sabia como brandir com maestria a espada em seu cinto.
Metaforicamente falando, essa criatura poderia ser descrita como o rei das Luas Prateadas: um produto do ódio sem limites e da idolatria da espécie pela humanidade. O rei se assemelhava muito a um humano, mas era inconfundivelmente diferente de um. Ainda assim, usava um crùnio humano sobre o focinho, uma manifestação de sua identidade como lobo.
A imensa concentração de mana acumulada na toca havia transformado a Lua Vermelha em um ser superior. InĂșmeros cavaleiros-lobo prateados surgiram, inteligentes e empunhando armas. Eram seus servos: cavaleiros leais e poderosos que serviam ao rei.
Mais de uma dĂ©cada depois que todos os traços das Luas Prateadas, exceto sua maldição de rancor, foram extintos, a toca havia voltado ao seu estado legĂtimo. Se as Luas Prateadas tivessem sido tĂŁo poderosas quanto esses espectros, nunca teriam sido caçadas.
Esses lobos eram fortes. Os cinco caçadores que haviam invadido a toca recentemente eram mais ameaçadores do que aqueles que caçavam as Luas Prateadas por lucro, mas ainda assim não foram påreo para os espectros. Até mesmo o mais forte do quinteto humano, o que empunhava a lança, não representou uma ameaça contra a matilha de lobos prateados. Cada golpe de sua lança teria força suficiente para perfurar sua armadura, mas sequer conseguiu acertå-los.
O rei dos lobos superava os caçadores e toda a humanidade em força, agilidade e atĂ© inteligĂȘncia. Mas, diferente dos outros lobos, o rei nĂŁo sentia animosidade pelos humanos. Apenas ĂȘxtase. Ele saboreava cada momento da luta, se divertindo ao vĂȘ-los lutar com todas as forças contra um inimigo insuperĂĄvel, e se deleitava ao ver toda esperança desaparecer de seus rostos. O rei estava se divertindo tanto com a caçada que atĂ© permitiu que os caçadores “escapassem” para um corredor sem saĂda.
A Toca do Lobo Branco era um campo de caça. Para as presas infelizes que vagavam para dentro dela, havia apenas uma saĂda: a morte. Nada escapava da lĂąmina do rei. O sofrimento dos invasores tolos, matĂĄ-los, encurralĂĄ-los, dar-lhes uma falsa esperança de fuga sĂł para arrancĂĄ-la era o que preenchia o vazio dentro dos lobos. Um dia, eles expandiriam a toca, mas somente quando seus nĂșmeros aumentassem.
O rei havia se afastado propositalmente da cùmara do chefe, onde os caçadores certamente voltariam, e esperava o momento certo para atacar quando ouviu os uivos agonizantes de seus companheiros.
EntĂŁo, ele se deparou com uma Grieving Soul usando um sorriso radiante.
***
Era como um vendaval, uma sombra, um raio, uma explosĂŁo de chamas ou melhor, uma tempestade furiosa.
â HĂŁ? â pequeno Gilbert murmurou, atĂŽnito.
Eu não pisquei nem nada, mas parecia que o chefe espectral havia sido lançado longe. Antes que percebesse, ele jå estava quicando pelo chão e, quando parou, o crùnio sorridente estava bem diante dos meus olhos.
â O quĂȘ…? â Ao meu lado, os olhos de Rudolph estavam arregalados. O cabo de sua lança caiu no chĂŁo com um baque. Ele tinha aquela expressĂŁo vazia, como se nĂŁo conseguisse entender o que estava acontecendo.
Ninguém conseguia acompanhar o que havia acabado de acontecer. Antes que os caçadores experientes ao meu lado pudessem sequer reagir, o crùnio sorridente se aproximou ainda mais, com longos cabelos rosa brilhando atrås da måscara.
Uma voz soprano e fofa escapou de trĂĄs dela, um pouco abafada.
â SĂł quero confirmar uma coisinha, Krai, querido.
Tino, ainda agarrada ao meu braço, tentou se esconder atrĂĄs de mim. O crĂąnio sorridente a ignorou completamente e usou o polegar para apontar para o chefe do outro lado do tĂșnel.
â Ele nĂŁo Ă© um recruta novo nosso, Ă©?
Liz falava com a mesma tranquilidade de sempre, e eu nĂŁo pude evitar sentir um alĂvio por vĂȘ-la agindo como de costume.
O rei dos lobos se ergueu sobre um joelho e depois se levantou por completo, encarando o crĂąnio sorridente. Eu certamente nĂŁo me lembrava de conhecer um lobisomem violento como aquele, embora conhecesse muitos humanos bem mais assustadores.
Todos os caçadores, exceto eu, estavam mais apavorados com o crùnio sorridente do que com o próprio chefe lobo. Mas, de todos, a pior era Tino.
Me forcei a sorrir.
â NĂŁo. Que tal tirarmos a mĂĄscara, hein?
â Foi o que eu pensei. Ufa. Eu jĂĄ imaginava, mas, sei lĂĄ, tava usando essa mĂĄscara e tudo mais… Ah, achei isso aqui. SĂŁo seus, nĂŁo sĂŁo?
Liz perguntou com um tom doce até demais. Então, apresentou Silent Air e a Hounding Chain.
Ela estava furiosa. Sem dĂșvida alguma.
Liz levou a mão até a måscara e a retirou com um movimento teatral. Ninguém ousou se mexer. Até mesmo o chefe lobo permaneceu imóvel atrås dela.
Seus longos cabelos rosa esvoaçaram no ar. Sua pele corada, os lĂĄbios pequenos, o nariz simĂ©trico e, acima de tudo, seus brilhantes olhos cor de pĂȘssego compunham uma aparĂȘncia adorĂĄvel, mas eu podia sentir a fĂșria prestes a explodir por trĂĄs daquela fachada.
Rhuda engoliu seco.
â U-uma humana? O que estĂĄ acontecendo?
â NĂŁo pode ser! â O Grande Greg deu um passo para trĂĄs, chocado com a revelação. Se ele reconheceu Liz, talvez fosse um fĂŁ dela.
Foi só então que Liz pareceu notar os outros caçadores pela primeira vez.
â O quĂȘ? NĂŁo me diga que vocĂȘs nĂŁo sabem quem nĂłs somos?
Seus olhos brilharam perigosamente, e seu sorriso obviamente falso não escondia sua intenção nem um pouco.
â VocĂȘs se dizem caçadores? SĂ©rio? Ainda nĂŁo perceberam, mesmo com o meu Krai aqui? NĂŁo acredito nisso. Que bando de impostores. Eu achei que nĂŁo existia mais ninguĂ©m na capital que nĂŁo conhecesse as Grieving Souls.
Liz deixou a mĂĄscara sorridente, o sĂmbolo das Grieving Souls, cair no chĂŁo e soltou uma risada de puro desprezo.
***
Era como um vendaval, uma sombra, um raio, uma explosĂŁo de chamas ou melhor, uma tempestade furiosa. Cada um desses elementos representava Liz Smart.
Seu pequeno corpo irradiava energia, como se fosse o prĂłprio sol. Mas a questĂŁo era: por que ela estava aqui? Pelo rosto e pelo jeito, era definitivamente ela. Minha mente estava cheia de perguntas, enquanto os outros ficaram simplesmente sem palavras.
â Desculpa, Krai Baby â sussurrou Liz, sem o menor traço de sinceridade. Seus lĂĄbios tremiam, como se ela estivesse segurando uma avalanche de emoçÔes. Parecia atĂ© que ia chorar… Mas eu achei que isso nunca aconteceria.
â Sua querida Lizzy estĂĄ muito triste. Eu corri de volta depois de limpar o PalĂĄcio da Noite, mas vocĂȘ nĂŁo estava lĂĄ. AĂ ouvi que tinha ido atĂ© um cofre do tesouro… â Suas palavras falharam. O rubor começou a subir pelo rosto dela, e seus olhos ardiam como fogo. O ar ao redor distorcia com o calor.
O calor emanando de Liz começou a se espalhar pelo frio da caverna. A ideia de lidar com aquele cofre do tesouro provavelmente a tinha deixado furiosa. Não era incomum que altas concentraçÔes de mana fizessem caçadores terem mudanças dråsticas de humor. Ainda assim, eu não conseguia ignorar o fato de que o Palåcio da Noite não ficava nem perto o bastante para ela ter vindo correndo.
â Eu tĂŽ triste. Muito triste. E muito, MUITO envergonhada! â ela rosnou. Suas sobrancelhas se franziram, os olhos se estreitaram, e ela rangeu os dentes.
â Eu confiei em vocĂȘ. “Deve ser algum engano”, eu disse. Achei que meu pequeno Krai Baby sĂł tava sendo superprotetor de novo. Nunca, NUNCA, imaginei que uma aprendiz minha ia pisar na bola desse jeito ao se livrar do lixo!
Todos os caçadores estremeceram com a expressĂŁo de Liz. Tino parecia Ă beira da morte. Eu conseguia sentir seus dentes batendo atravĂ©s do aperto desesperado nas minhas costas. TĂĄ certo que Liz estava exagerando um pouco, mas nĂŁo Ă© como se fosse matar ela…
â O-o que diabosâ?! â Pequeno Gilbert tentou dizer, mas assim que as palavras saĂram da boca dele, o garoto foi esmagado contra a parede.
â HĂŁ? Some da minha frente! NĂŁo tĂĄ vendo que eu tĂŽ me desculpando agora?!

Um momento depois, ouvimos o som de uma armadura sendo perfurada. A caverna tremeu. Aparentemente, Liz havia superado as leis naturais da fĂsica.
Pequeno Gilbert se contorcia, os olhos revirados e a armadura amassada. Seu sacrifĂcio nĂŁo seria esquecido. O Grande Greg correu atĂ© ele, ajudou-o a se levantar e despejou um frasco de poção sobre o garoto. Eu admirava a coragem do cara, mas ele deveria ter pensado melhor. Liz tinha o pavio mais curto de qualquer pessoa que eu conhecia.
Sem nem ao menos lançar outro olhar para pequeno Gilbert, Liz se dirigiu a Tino, que ainda tremia atrås de mim.
â Ei, T, o que acha que sua querida mentora deve fazer? Eu sou uma professora ruim? NĂŁo estava te treinando o bastante? Ou serĂĄ que vocĂȘ nĂŁo tem talento? Talvez vocĂȘ simplesmente nĂŁo tenha vontade o suficiente de se tornar mais forte. Ei, me responde, imbecil! Seu lixo! Eu te ensinei melhor que isso! VocĂȘ vai fazer o meu Krai Baby me odiar! Seu maldito embaraço! Se mata! NĂŁo quer trabalhar duro? EntĂŁo cai morta de uma vez! Se mata antes de atrapalhar ele! Morde a prĂłpria lĂngua agora mesmo!
â Me desculpa, Lizzy. Me desculpa. Ă tudo culpa minha. Me desculpa por te envergonhar. Ă tudo culpa minha porque sou fraca. Por favor, me perdoa â Tino recitava como uma caixa de mĂșsica quebrada.
â Nem pense em se desculpar comigo! â Liz rosnou. â Para quem vocĂȘ deveria pedir desculpas?! Pensa!
Todos naquele tĂșnel estavam horrorizados, atĂ© mesmo o chefe fantasma. Tino se esforçava muito, de verdade, e Liz tambĂ©m nĂŁo tinha feito tudo errado. A culpa era toda minha por escolher uma missĂŁo tĂŁo estĂșpida, mas se eu tentasse assumir a responsabilidade, Liz jogaria toda a culpa em Tino. Esse era o tipo de pessoa que ela era.
Enquanto Liz encarava Tino como se estivesse prestes a aniquilĂĄ-la, coloquei minhas mĂŁos sobre os ombros dela.
â Liz, a Tino se esforçou muito. Ela derrotou um fantasma e encontrou essas pessoas para resgatar, que era o objetivo da missĂŁo. Isso mesmo. Ela arrasou.
Todos ali que sabiam da história real provavelmente me olhavam como se eu tivesse duas cabeças, mas Liz não fazia ideia do que havia acontecido na cova.
A voz de Liz voltou a um tom mais controlado.
â O quĂȘ? Ela fez um bom trabalho? SĂ©rio?
â Sim. Ouvi dizer que derrotaram um daqueles grandĂ”es brancos trabalhando em equipe. Foi incrĂvel.
â SĂł um? â Liz inclinou a cabeça para o lado. â Vale mesmo a pena manter ela viva?
Seja lĂĄ o que estava incomodando Liz, eu sentia que estava tentando domar um predador de topo da cadeia alimentar.
â Com certeza. Eu quero manter ela viva, pra começo de conversa. E bom trabalho aprendendo a pegar leve, Liz. Tenho orgulho de vocĂȘ, de verdade.
â Ah, deu pra notar? IncrĂvel, nĂ©? Pratiquei contato parcial sĂł por vocĂȘ, Krai Baby. Sei que isso Ă© muito importante pra vocĂȘ.
Toda aquela raiva havia desaparecido, e Liz agora se auto elogia animadamente.
Sem dĂșvida, pequeno Gilbert discordaria da ideia de âpegar leveâ. Aquele golpe parecia bem letal da minha perspectiva.
Bem, o fato de Gilbert ainda estar vivo jĂĄ era um grande avanço. A antiga Liz com certeza o teria matado. Eu devia ser algum tipo de gĂȘnio por ter ensinado a essa calamidade ambulante um pouco de autocontrole, mesmo sem ter feito nada de especial para isso.
â Me desculpa por ter te feito descer aqui, mestre â Tino disse baixinho. No momento certo. Ela sabia exatamente o que estava fazendo depois de tantos anos como aprendiz de Liz.
â T Ă© talentosa, sabia? â Liz continuou. â SĂł falta mais determinação, coragem e disposição para morrer. Ela Ă© cem vezes mais fraca do que eu, entĂŁo tem que trabalhar cem vezes mais duro.
â Sim, com certeza â concordei, mesmo sem ter ideia do que ela estava falando. Ainda assim, sentia uma conexĂŁo entre Liz e Tino que vagamente lembrava a de uma mentora e sua aprendiz de confiança.
Embora Liz ainda estivesse pisoteando o chĂŁo de frustração, a maior parte de sua fĂșria parecia ter passado. Ela podia ser volĂĄtil e explodir sem aviso, mas seus surtos nunca duravam muito.
O chefe fantasma nĂŁo deu um Ășnico passo durante toda a nossa discussĂŁo. Apenas segurava sua espada em posição, observando cada movimento de Liz. Embora tivesse sido atingido por ela antes, nĂŁo demonstrava ter sofrido qualquer dano. Diferente da armadura de pequeno Gilbert, a do chefe fantasma estava impecĂĄvel.
Ouvi passos. Outro fantasma virou a mesma esquina que Liz. Reconheci sua estrutura colossal enquanto se esgueirava pela passagem estreita. Era um dos cavaleiros lobo prateados que encontramos na sala do chefe, o que carregava uma arma gigantesca claramente projetada para disparos rĂĄpidos.
A maioria das armas usadas por fantasmas vinham de um perĂodo especĂfico da histĂłria antiga, quando a tecnologia avançada prosperava. Essas armas nĂŁo podiam ser recriadas com a tecnologia moderna e eram poderosas o suficiente para obliterar atĂ© os caçadores mais experientes. Eles nĂŁo eram inimigos fĂĄceis de lidar.
O chefe ergueu o olhar para o fantasma maior e fez um gesto com o queixo em nossa direção. O cavaleiro lobo não respondeu, apenas virou-se para nós.
EntĂŁo me dei conta, o chefe nĂŁo estava hesitando ou esperando uma abertura para atacar. Ele estava apenas aguardando reforços. Afinal, Liz era a Ășnica ameaça ali. O resto do grupo consistia em seis caçadores miserĂĄveis, cada um com um pĂ© na cova, alguns novatos ainda em plena força, e eu com meu inĂștil tĂtulo de NĂvel 8. Meu nĂvel era um bom blefe contra caçadores, mas totalmente inĂștil contra monstros e fantasmas.
Sem nem olhar para trĂĄs, Liz falou comigo.
â Tem mais? EntĂŁo vou deixar um deles pra vocĂȘ, T â disse ela, sem o menor interesse.
â O quĂȘ? Lizzy…
â NĂŁo me decepcione.
EstĂĄvamos a dez metros do cavaleiro lobo, longe demais para lidar com aquela arma de fogo sem mencionar o chefe bloqueando o caminho. Se Tino desse um Ășnico passo Ă frente, seria perfurada por balas. Em uma passagem tĂŁo estreita, o lobo nem precisaria mirar. Nem mesmo Tino conseguiria desviar dessas balas. Nenhum caçador sensato conseguiria.
O rangido da armadura interrompeu a conversa.
â Eu vou bloquear. Vou abrir uma brecha pra vocĂȘ, de alguma forma â Rudolph se posicionou ao lado de Liz, escudo em mĂŁos.
Mas Liz lançou-lhe um olhar de canto e suspirou.
â Tanto faz. Acabou. Que jeito de estragar o clima.
â O quĂȘ? â Rudolph perguntou.
â Eu queria que a T fizesse isso, mas agora tĂŽ cansada. Preciso esfriar a cabeça. NĂŁo suporto a Tino nos fazendo passar vergonha… Ah, jĂĄ sei.
Liz deslizou sua mĂĄscara sobre o rosto. No momento seguinte, tiros ecoaram pela caverna enquanto incontĂĄveis balas rasgavam o ar. AlguĂ©m gritou, mas logo tudo ficou em silĂȘncio novamente.
Liz abriu sua mĂŁo esquerda estendida, deixando as balas caĂrem no chĂŁo.
O cavaleiro lobo ergueu sua arma novamente, irritando Liz ainda mais.
â VocĂȘ acha que pode me acertar com uma arminha dessas?! â ela rugiu. â Seu merda! Eu jĂĄ transcendi essas porcarias! Estou alĂ©m do seu nĂvel! NĂŁo ouse me ridicularizar!
Outra tempestade de balas caiu sobre nĂłs, sacudindo o corredor. Liz nĂŁo parecia se mover nem um centĂmetro, mas os projĂ©teis simplesmente caĂam no chĂŁo, impotentes.
Liz continuou gritando sem demonstrar o menor sinal de esforço.
â Eu nĂŁo preciso de escudo! T, vocĂȘ estava tentando derrotar essa coisa lenta pra caralho e fraca desse jeito?! NĂŁo aprendeu nada com seu querido mentor?! Vai me envergonhar de novo?! Seu pedaço de merda inĂștil! Ă bom que me mostre do que Ă© capaz!
Seja razoĂĄvel, Liz, pensei, ao notar Rhuda olhando para tudo, pĂĄlida. Talvez ela conseguisse realmente entender o que Liz estava fazendo. Rudolph apenas ficou parado, sem palavras.
Eu, por outro lado, observava com um sorriso leve no rosto enquanto Liz surtava. Eu não conseguia realmente acompanhar, mas sabia exatamente o que ela estava fazendo. Foi uma das razÔes que me fizeram, de uma vez por todas, desistir do sonho de me tornar um caçador.
Era simples, na verdade. Liz estava apenas pegando as balas e jogando-as para longe com as prĂłprias mĂŁos. SĂł isso. Claro, eu entendia a teoria, mas “rĂĄpida” nĂŁo era nem de longe suficiente para descrever Liz.
Da primeira vez que Liz me mostrou esse truque, foi como se estivesse exibindo um brinquedo novo. Até hoje tenho pesadelos com o sorriso que ela deu naquele dia. E aquele bando ainda esperava que eu os acompanhasse em cofres de tesouro que exigiam esse tipo de façanha sobre-humana.
Os tiros cessaram. O lobo havia ficado sem balas. Eu estava curioso para ver como o cavaleiro lobo lutaria sem munição, mas nunca tive a chance de descobrir.
***
Liz bateu as mĂŁos uma na outra, limpando a poeira, e se virou para os lobos. Eu nĂŁo conseguia ver seu rosto por trĂĄs da mĂĄscara, mas podia facilmente imaginar sua expressĂŁo.
Então o massacre começou. Eu não vi nada além do resultado final.
Com um Ășnico passo, Liz se lançou sobre o cavaleiro lobo e rasgou sua armadura grossa antes mesmo que o fantasma pudesse reagir.
â Quando fantasmas estĂŁo vestindo armadura â ela rugiu â, vocĂȘ tem que esmigalhĂĄ-los! Isso nĂŁo significa que eles sĂŁo mais difĂceis de atravessar! Acerte de cima! Arranque a cabeça deles! Eu nĂŁo quero saber como, sĂł mate logo! Isso aqui tem que ser a coisa mais divertida que vocĂȘ jĂĄ fez!
O enorme lobo voou contra a parede e desapareceu, deixando para trås a marca do impacto. Em questão de segundos, uma das ameaças havia sido erradicada.
Sem sequer olhar para a parede, Liz virou seu sorriso de caveira para o rei lobo. A essa altura, ela parecia mais um fantasma do que a prĂłpria fera.
O chefe assumiu posição de guarda, claramente um mestre da espada, como Rudolph havia descrito. Mesmo à distùncia, eu sentia que seria partido ao meio se entrasse no alcance de sua lùmina. A expressão de Rudolph ficou tensa.
Mas Liz simplesmente deu um passo à frente como se estivesse passeando numa tarde tranquila. Com um estouro de energia, a espada do lobo desapareceu. Nenhum grito veio em seguida. Rudolph observava, incrédulo. Se ele tentasse contar o que estava acontecendo, qualquer um daria risada, achando que era uma piada ruim.
Mesmo diante da morte iminente, Liz nĂŁo demonstrou hesitação. A lĂąmina do lobo cortava o ar numa velocidade absurda, mas nunca a atingia. Parecia atĂ© que Liz estava dançando com a espada. Como Ladina, ela nĂŁo tinha muita defesa. Se fosse atingida uma Ășnica vez, estaria em apuros. Ainda assim, a lĂąmina continuava errando.
â Espada? Segura! Desvia! Esquiva! Qual Ă© o seu problema?! Por que nĂŁo consegue?! â ela gritou. Como se para demonstrar, ela pinçou a lĂąmina no ar. O lobo tentou recuar, mas a espada nĂŁo se moveu.
No mesmo nĂvel da Espada MetamĂłrfica, hein? Liz jĂĄ havia enfrentado a verdadeira Espada MetamĂłrfica incontĂĄveis vezes. Foi assim que os Grieving Souls se tornaram mais fortes. A batalha diante de nĂłs jĂĄ estava alĂ©m da minha compreensĂŁo, mas era claro que Liz nĂŁo via o lobo como uma ameaça. Ainda bem que ele nĂŁo tinha dito nada nesse sentido para ela. Liz levava qualquer insulto a seus amigos de infĂąncia muito a sĂ©rio.
Liz gritou de novo enquanto espancava o lobo sem esforço. Seus punhos nus passavam pelas defesas levantadas da criatura e esmurravam sua armadura.
â SĂł vai, whabam! Se vocĂȘ esquivar, eles nĂŁo te acertam! Se vocĂȘ acertar, eles nĂŁo podem desviar! SĂł faz direito! Coloque sua vida nisso! VocĂȘ entende, nĂŁo entende?! Entende, nĂ©?! Para de se apoiar no seu talento, idiota! Anda logo! Corre pela vida! VocĂȘ nĂŁo tem tempo, T! Trabalhe cem vezes mais que eu! Eu estou me distanciando mais a cada dia que vocĂȘ fica aĂ sentado sem fazer nada!
O que ela estava tentando dizer era um mistério, mas a enxurrada de xingamentos de Liz finalmente reduziu Tino a um pranto incontrolåvel. Coitada. Fosse qual fosse a vocação de Liz, ensinar definitivamente não era uma delas.
Usando sua RelĂquia de bota, Apex Roots, Liz chutou o chefe no estĂŽmago.
â Eu estava nas nuvens, caralho!
Um estrondo ecoou pela caverna. Rhuda assistia horrorizada enquanto a perna de Liz atravessava a armadura do chefe e entrava direto em seu torso. O lobo se contorceu, uivando de dor nas profundezas da caverna enquanto seu sangue espirrava na mĂĄscara de Liz.
Eu deveria ter escolhido outro sĂmbolo para o nosso grupo…
â JĂĄ botou tudo para fora, Liz? â perguntei.
â Sim… Um pouco. â Sua voz agora estava mais calma.
Tino silenciou o choro, como se temesse que qualquer som pudesse estragar o humor de Liz de novo. Liz puxou a perna para fora do fantasma e deixou o corpo cair no chĂŁo com um baque molhado.
O fato de que ele não desapareceu significava que ainda estava vivo, mas não por muito tempo; aquele ferimento era fatal. Jå sem interesse no destino do lobo, Liz voltou saltitando até mim, os sapatos sujos e a pele salpicada de sangue.
Liz exibia uma força avassaladora e um desejo interminĂĄvel por violĂȘncia. Era uma bola de talento, mas nada alĂ©m disso. Faltava-lhe algo fundamental para o desenvolvimento da emoção humana, e ainda assim lĂĄ estava Liz Smart, o genocĂdio ambulante do nosso grupo, alguĂ©m que eu simplesmente nĂŁo conseguia acreditar que havia sido integrada Ă sociedade humana.
Rhuda e os outros afundaram no chĂŁo, largados como um monte de trapos. Eu sei, Ă© difĂcil de acreditar. Ela era nossa Ladina. Agia mais como uma Bandida.
Liz tirou a måscara. Com um dedo ensanguentado na boca, olhou para mim. Havia um leve traço de timidez em sua expressão.
â Ah, quase esqueci. Estou em casa, Krai Baby.
â Bem-vinda de volta, Liz.
Liz saltou nos meus braços, e eu a envolvi num abraço. Ela estava quente, como fogo ao toque.
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