Grieving Soul – Capítulo 3 – Volume 1

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Nageki no Bourei wa Intai shitai Let This Grieving Soul Retire Volume 01

CapĂ­tulo 3: [O Covil do Lobo Branco]


Pelo vasto bosque a noroeste de Zebrudia, havia uma trilha estreita e pouco explorada, serpenteando entre as ĂĄrvores como uma rachadura no solo. No final desse caminho, encontrava-se o cofre do tesouro em questĂŁo: o Covil do Lobo Branco.

O local jĂĄ havia sido o territĂłrio de uma grande alcateia de monstros—os Luas Prateadas, lobos de pelagem brilhante como a lua, capazes de repelir todos os tipos de ataques mĂĄgicos. Com pernas poderosas para se moverem agilmente pela floresta e presas afiadas o suficiente para perfurar a carne e a armadura de um caçador bem preparado, essas feras eram um perigo mortal. AlĂ©m disso, possuĂ­am inteligĂȘncia suficiente para lançar feitiços menores e caçar monstros mais fortes atravĂ©s de tĂĄticas coordenadas, o que lhes rendeu a reputação de ceifadores da floresta.

Embora os Luas Prateadas fossem adversĂĄrios formidĂĄveis, tinham duas fraquezas crĂ­ticas: seu tamanho nĂŁo ultrapassava um metro de comprimento e sua hipnotizante pelagem prateada—razĂŁo de seu nome—os tornava alvos cobiçados. Cada parte de um Lua Prateada—ossos, presas, pele—era extremamente valiosa no mercado de materiais monstruosos, o que levava muitos caçadores a arriscar suas vidas no covil em busca de fortuna. Assim, muitos desses lobos sucumbiram Ă  ganĂąncia dos caçadores de tesouros. Nem mesmo uma espĂ©cie de monstros dotada de inteligĂȘncia, força e nĂșmeros poderia competir contra caçadores que os superavam em todos esses aspectos.

Monstros eram feitos de carne e osso. Não importava quão poderosos fossem, não podiam simplesmente se materializar como os fantasmas que vagavam pelo cofre. Na verdade, estavam à beira da extinção. À medida que sua população diminuía em proporção inversa ao crescimento da capital, suas peles cada vez mais raras tornavam-se ainda mais valiosas. Os Luas Prateadas, que um dia foram os terrores da floresta, não passavam agora de uma fonte de lucro para qualquer caçador sortudo o bastante para encontrar um. Quando a capital passou a ser conhecida como a terra sagrada da caça ao tesouro, os Luas Prateadas desapareceram, deixando apenas os vestígios de sua outrora numerosa alcateia espalhados por seu vasto covil.

O covil supostamente estava vazio, mas, cerca de uma década atrås, começaram a circular rumores sobre um lobo ensanguentado que aparecia por lå.

***

— Puxa! Só podem ser espíritos inquietos. Isso me dá arrepios.

Estremeci, jogando o arquivo para o lado. SĂł de pensar nisso jĂĄ me dava vontade de vomitar.

Eu jĂĄ era um covarde por natureza, mas os outros Grievers sabiam que, em criptas assombradas como essa, eu era ainda pior. Eu nĂŁo era do tipo que testava sua coragem contando histĂłrias de fantasmas ao redor da fogueira. Na verdade, eu nem tinha coragem pra testar.

Eva riu da minha desgraça. 

— Não precisa tremer tanto assim.

— Tinha que ser um cofre que nĂŁo consegue largar o passado. Essas coisas gritam “bagagem” em alto e bom som.

Os cofres do tesouro, que se materializavam onde havia uma abundĂąncia de mana, apareciam de trĂȘs formas: aqueles completamente desconectados do local, aqueles fortemente influenciados pelo ambiente ou aqueles que refletiam eventos histĂłricos que ocorreram ali. NaçÔes do mundo inteiro estavam conduzindo pesquisas extensas para identificar padrĂ”es na materialização dos cofres, mas ainda nĂŁo tinham resultados conclusivos. Seja como for, a Toca do Lobo Branco parecia ser uma combinação dos dois Ășltimos tipos.

Um grande lobo carmesim surgiu do nada, vagando pela toca desolada de seus ancestrais, erradicados pela humanidade. NĂŁo que eu tivesse alguma pena dos Luas Prateadas ou algo assim, mas uma histĂłria dessas me deixava arrepiado.

— De acordo com o depoimento de um caçador que enfrentou os Luas Prateadas, esse lobo Ă© bem mais forte do que os do passado — explicou Eva.

Soltei uma risada forçada. — E nem dá pra pegar a pele dele. Tî fora.

Fantasmas eram apariçÔes tangíveis que se manifestavam da mesma forma que os cofres do tesouro. Independentemente da força, tinham certas características que os diferenciavam dos monstros. Para começar, fantasmas não deixavam um corpo para trås. Quando destruídos, eles se desfaziam em mana, dissipando-se imediatamente no ar, como se nunca tivessem sido reais. Raramente, uma parte bem manifestada do corpo permanecia, mas arrancar a pele deles não era exatamente uma opção.

Se os caçadores estavam indo explorar o lugar e não voltavam, isso definitivamente não era problema meu.

Eva folheava o arquivo que tinha solicitado, parecendo mais contemplativa do que assustada. Talvez se considerasse muito longe da linha de frente. 

— Pelo que estou vendo aqui, o cofre deve ter recebido um nível 3 pela força dos fantasmas, e não pela dificuldade do layout ou das armadilhas.

— Interessante. Bom, acho que eles vão se virar. Estamos falando da Tino.

O nĂ­vel de um cofre do tesouro era determinado pela dificuldade geral e pela porcentagem de caçadores que conseguiam sair vivos de lĂĄ. Cofres mais fĂĄceis de navegar normalmente geravam monstros e fantasmas mais fortes, e vice-versa. A maioria dos caçadores tinha sua preferĂȘncia sobre o que enfrentar.

Levando em conta que o Pequenino Gilbert e a Tino eram uns brutamontes absolutos, eu nĂŁo estava muito preocupado. Eles conseguiriam lidar com um fantasma poderoso ou dois. Na verdade, a Tino parecia ter colocado um pĂ© no mundo dos malucos desde a Ășltima vez que a vi lutar. Isso era inevitĂĄvel, mas agora nĂŁo tinha mais volta pra ela.

— Estou surpresa que o Gilbert tenha aceitado participar — disse Eva.

— Sei lĂĄ. Ele provavelmente refletiu um pouco depois de apanhar da Tino. Ou talvez depois que perguntei sobre o Ășltimo grupo dele, por causa daquela dica que vocĂȘ me deu.

Eva Renfied era uma pessoa incrĂ­vel. Embora nĂŁo tivesse experiĂȘncia como caçadora, suas habilidades gerenciais eram impecĂĄveis. Como ainda mantinha contato com a empresa de comĂ©rcio para a qual trabalhava, conseguia cuidar de tudo, desde a compra de suprimentos para o clĂŁ atĂ© a coleta de informaçÔes por meio de suas conexĂ”es. Ela atĂ© lidava com as inspeçÔes ocasionais dos superiores do impĂ©rio. Pesquisar os trĂȘs novos membros do grupo da Tino tinha sido moleza para alguĂ©m como ela.

Na verdade, eu devia era beijar o chão onde ela pisava, assim como devia fazer com o Ark. Se não fosse pelo regulamento que exigia que o mestre de um clã fosse um caçador nível 5 ou superior, ela jå teria assumido o posto de mestre dos Passos hå muito tempo, e eu estaria aproveitando uma aposentadoria tranquila.

Ao lembrar da minha conversa com Gilbert, nĂŁo consegui segurar uma risada. 

— VocĂȘ devia ter visto a cara dele. Acho que existe mesmo um limite para ter talento demais.

Gilbert estava passando pelos cofres do tesouro como se fossem brincadeira, a ponto de o resto do grupo nĂŁo conseguir acompanhar. Essa era uma histĂłria comum nesse ramo, especialmente porque as disparidades de talento ficavam ainda mais evidentes no campo de batalha. O que aconteceu com o meu grupo foi sĂł mais um exemplo, e eu jĂĄ tinha visto muitos outros passarem pelo mesmo.

Dito isso, havia duas diferenças entre os Grievers e o grupo do Gilbert: ele era o Ășnico membro com talento extraordinĂĄrio, e ele escolheu sair do grupo em vez de tentar resolver as diferenças. Isso fazia de nĂłs exatos opostos.

— VocĂȘ botou juĂ­zo nele? — perguntou Eva.

— Nada. SĂł falei qualquer coisa que me veio Ă  cabeça. Provavelmente fiz ele descer um pouco do salto, mas eu nĂŁo sou ninguĂ©m para dar lição de moral em caçador.

Meu clã estava cheio de caçadores piores que o Pequenino Gilbert, como a Tino e sua adoração bizarra por mim, sem falar na Liz, que com certeza tinha sussurrado essas baboseiras no ouvido dela. Quem sou eu pra dar sermão sobre como administrar um grupo? Eu detestava quando os membros vinham me procurar pedindo conselhos sobre problemas interpessoais. Isso não era comigo. Façam o que quiserem e me deixem fora disso!

— Se vocĂȘ diz — Eva respondeu, mantendo sua postura impecĂĄvel.

Por mais excelente que fosse no trabalho, eu tinha a sensação de que ela nem sempre enxergava as coisas como eram — mas eu jamais ousaria reclamar com a mulher que basicamente segurava o clã sozinha.

Antes que a conversa ficasse cansativa, decidi mudar de assunto. 

— O Artefato do Pequenino Gilbert Ă© bem legal, sabia?

— A Espada Purgatório, certo?

Sorri, lembrando da enorme espada forjada na forma de uma chama ardente.

Eu amava Artefatos. NĂŁo tinha como negar o apelo deles. Na verdade, eram as Ășnicas coisas que realmente me animava. NĂŁo era de se espantar que caçadores do mundo todo arriscassem a vida para conseguir um.

O melhor de tudo? Qualquer um podia usĂĄ-los. Absolutamente qualquer um, independentemente de talento ou habilidade, podia empunhar um Artefato e ter acesso a poderes miraculosos. Preciso dizer mais alguma coisa?

— Esse mesmo. Será que ele me venderia? Concede afinidade com fogo e aumenta o alcance dos ataques, mas pode ter outros efeitos que eu poderia estudar.

Eva cruzou os braços. 

— Estamos tentando cortar gastos desnecessários, Krai.

— Como isso seria desnecessário?

Eva suspirou e me lançou um olhar penetrante. Sabendo meu lugar, respondi de forma mais contida:

— Tá bom, tá bom. Acho que essas são características comuns em Relíquias de armas.

Percebendo que não tinha mais saída, forcei um sorriso sem graça e joguei meu trunfo:

— A-Aliás, que tal pegarmos algo doce?

Eva arqueou a sobrancelha. 

— VocĂȘ sĂł quer isso porque estĂĄ com vontade, nĂ©?

— Magina. Não tem nada a ver!

Droga. Quando foi que ela descobriu meu fraco por doces? Eu mantinha essa parte de mim em sigilo, apenas para quem realmente precisasse saber, para preservar minha imagem de durĂŁo. Eu realmente nĂŁo podia baixar a guarda perto dela.

***

Os membros temporårios da equipe estavam sentados juntos à mesa que Tino normalmente ocupava sozinha. Cada um deles a encarava, esperando por instruçÔes. Ela teria preferido muito mais aceitar a missão sozinha, mas agora estava presa com esse bando de desajustados. Quando seu mestre sugeriu que eles se sairiam bem sem Gilbert, ela se permitiu ter um lampejo de esperança. Agora, percebia que tudo tinha saído exatamente como seu mestre planejara.

A missĂŁo que lhe foi dada era de busca e resgate, algo que exigia extrema urgĂȘncia. NĂŁo havia tempo para fazer preparativos minuciosos.

Tino olhou de um membro ao outro de sua equipe, se preparando para dizer suas primeiras palavras oficiais como lĂ­der.

— Primeiro, eu preciso escrever um testamento.

— O quĂȘ?! Espere um minuto! — Rhuda gritou, se levantando de repente e batendo as mĂŁos na mesa.

***

Tino jå deve estar quase lå, né? Ah, droga.

Eu estava ali, preguiçosamente polindo minha Corrente Perseguidora, quando de repente me lembrei de que ela estava sem mana.

Relíquias eram ferramentas poderosas, mas seus efeitos não aconteciam sem condição alguma. Elas eram alimentadas por mana, a mesma fonte de energia que os magos usavam para lançar feitiços. Quanto mais poderosa a Relíquia, mais mana ela exigia para funcionar. Esse era um dos motivos pelos quais caçadores não saíam carregando uma tonelada delas.

Infundir Relíquias com mana era algo simples, jå que a mana fluía em todo ser vivo. No entanto, a reserva de mana variava muito de indivíduo para indivíduo. Até mesmo magos, que possuíam mais mana do que a maioria dos seres vivos, só conseguiam carregar algumas Relíquias antes de esgotarem suas reservas.

Infelizmente, eu tinha menos mana do que a mĂ©dia das pessoas, entĂŁo costumava pedir para meus amigos ou membros do clĂŁ carregarem minhas RelĂ­quias para mim. A Associação recomendava que caçadores carregassem apenas o nĂșmero de RelĂ­quias que conseguissem recarregar sozinhos, mas que escolha eu tinha? Minha quantidade ridĂ­cula de mana era um dos motivos pelos quais eu desisti de caçar na linha de frente. Se ao menos eu fosse bom em alguma coisa…

Mana também não era um recurso gratuito. Normalmente, eu pedia para a Lucia, a Maga dos Grievings, carregar minhas Relíquias, mas ela não estava por perto. Eu teria que dar um jeito nisso por enquanto.

Enrolei minha Corrente Perseguidora e segui para o salĂŁo.

Os raios quentes do sol poente atravessavam as janelas panorùmicas, banhando o salão em um tom ùmbar. Algumas das mesas estavam ocupadas por membros dos Passos que eu reconhecia, aparentemente voltando do trabalho do dia. Fui direto até um dos grupos, pronto para me intrometer na conversa animada.

Gastar mana era exaustivo, a ponto de magos mal conseguirem se mover quando esgotavam suas reservas. Normalmente, eu precisava pedir a um mago habilidoso para recarregar minhas RelĂ­quias, mas dessa vez eu sĂł precisava carregar a corrente.

O lĂ­der do grupo, um homem de cabelo preto desgrenhado e uma barba por fazer, me notou e abriu um sorriso. Ele parecia estar de bom humor.

— Ei, MC. Noite louca, hein?

Carpeado: Mestre do ClĂŁ.

— Acontece. Posso te incomodar para carregar uma Relíquia?

— Acho que sim. Quantos caras vocĂȘ precisa?

— É só para minha corrente, então um já basta.

— Sem problema.

Apesar do pedido repentino, ele pegou a Corrente Perseguidora e passou para uma Maga sentada Ă  mesa. Ela aceitou sem reclamar.

A mana de uma RelĂ­quia naturalmente se esgotava com o tempo, fosse usada ou nĂŁo. Eu pedia recargas com bastante frequĂȘncia, entĂŁo todos ali jĂĄ estavam acostumados. Às vezes, magos recusavam gastar mana comigo se seu grupo estivesse prestes a explorar um cofre, mas na maioria das vezes, minha posição como mestre do clĂŁ era persuasiva o suficiente. Tudo isso graças Ă  Eva, que fazia um Ăłtimo trabalho priorizando a satisfação dos membros.

A Corrente Perseguidora brilhou levemente conforme a mana fluía para dentro dela. Enquanto isso, o líder começou a conversar comigo.

— VocĂȘ ficou sabendo? Apareceu um errante na estrada do norte. O ataque foi pequeno, mas a caravana de um mercador foi dizimada.

Zebrudia era uma cidade gigantesca. As estradas que levavam até ela eram muito mais bem cuidadas do que as de outras cidades, e os monstros na região eram abatidos regularmente. Mas, de vez em quando, ataques aconteciam.

Raramente, monstros e fantasmas chegavam atĂ© as estradas—eram esses que chamĂĄvamos de errantes, temidos pelos viajantes. Eles costumavam ser mais poderosos do que a maioria dos monstros ou fantasmas e sua aparição era difĂ­cil de prever. NĂŁo importava o quĂŁo desenvolvido fosse o local, contratar seguranças sempre era uma boa ideia. Sem escolta me protegendo, eu nunca colocaria os pĂ©s para fora da cidade. Vida difĂ­cil a dos mercadores.

— Que assustador. Foi um monstro ou um fantasma? Se apareceu na estrada, deve ser um fantasma.

Ao norte da capital ficava uma floresta repleta de recursos. A chance de um monstro abandonar o conforto da mata para caçar uma caravana era relativamente baixa.

O líder me olhou e acenou com a cabeça.

— Sim. A Terceira Ordem emitiu um alerta e estĂĄ recrutando voluntĂĄrios para eliminar a ameaça. É um osso duro de roer. A caravana tinha trĂȘs caçadores de NĂ­vel 3.

— Nenhum sobrevivente, mesmo com escolta? Que azar.

Os repelentes de monstros não funcionavam contra fantasmas, que eram feitos de material de mana. Normalmente, eles não saíam de seus cofres, mas a enorme quantidade de cofres nos arredores da capital fazia com que, a cada poucos meses, um deles vagasse até a civilização.

Ainda assim, nĂŁo havia motivo para preocupação. O fantasma devia ser forte para ter eliminado trĂȘs NĂ­vel 3, mas fantasmas nĂŁo tinham corpos fĂ­sicos e nĂŁo duravam muito em lugares com pouco material de mana. Demorava um pouco para que se dissipassem naturalmente, mas com o tempo ficavam mais fracos. E com a Terceira Ordem—responsĂĄvel pela segurança do impĂ©rio—cuidando disso, a situação seria resolvida rapidamente.

De qualquer forma, não era problema meu. A cidade, protegida por cavaleiros poderosos, muralhas resistentes e uma população robusta de caçadores, estava segura contra qualquer fantasma. Sem preocupação, esperei minha corrente terminar de carregar.

O lĂ­der continuou:

— Segundo os caçadores que viram, Ă© um fantasma lobo. Os caçadores que protegiam a caravana devem ter sido pegos de surpresa para serem derrubados assim, no meio da estrada.

— Uhum… O quĂȘ?

Lobo? Ele disse lobo? Franzi a testa ao ouvir a palavra e visualizei um mapa da região. A Toca do Lobo Branco, o cofre onde eu joguei a Tino, ficava na floresta próxima à estrada do norte. Era fåcil fazer a conexão, jå que cada cofre produzia o mesmo tipo de fantasma, com poucas variaçÔes.

Alheio ao meu desespero crescente, o lĂ­der continuou:

— Sem dĂșvida, evoluĂ­ram em um cofre negligenciado. Isso acontece quando hĂĄ cofres demais por aĂ­. Mas isso Ă© Ăłtimo para nĂłs, caçadores.

— B-Bem, hĂĄ muitos cofres ao norte — murmurei. — A floresta sozinha tem vĂĄrios. Se o fantasma Ă© um lobo, deve ser de…

— Com certeza da Toca do Lobo Branco — disse o líder. Caçadores dos Passos sabiam das coisas. Ele parecia bem informado sobre os cofres da região.

Meu estĂŽmago se revirou, mas forcei um sorriso.

— Certo, pode ser a Toca do Lobo Branco, ou—

— Ah? Tem outro lugar por aqui que gera fantasmas lobos? NĂŁo. Se encaixa perfeitamente. Aquele cofre Ă© bem impopular por causa das baixas taxas de drop.

SĂ©rio…? Senti meu rosto endurecer, algo que a Maga carregando minha corrente percebeu com curiosidade.

— Se um fantasma conseguiu sair de lĂĄ, entĂŁo a caverna deve estar lotada. A Associação deveria emitir outro alerta. Na verdade, o governo pode atĂ© emitir um pedido de extermĂ­nio.

Matar fantasmas não era muito lucrativo, jå que eles não deixavam um corpo para trås, mas quando começavam a se espalhar pelo mundo e atrapalhar o comércio, a história mudava. Dependendo da escala do problema, não era incomum o governo pagar uma boa quantia à Associação para resolver a situação.

Claro, ainda existia a possibilidade de que o lobo tivesse vindo de outro lugar. Mas mesmo que tivesse saĂ­do da Caverna do Lobo Branco, Tino estava indo para lĂĄ com um grupo de quatro pessoas, levando a relĂ­quia do pequeno Gilbert. Eles dariam um jeito.

— Esse lobo Ă© forte, sabia? NĂŁo se deixe estraçalhar sĂł pra ganhar um trocado rĂĄpido — brincou um dos membros do grupo.

Mal sabiam eles que esse comentĂĄrio me gelou atĂ© os ossos. Estraçalhar? É tĂŁo perigoso assim? Nunca fui Ă  Caverna do Lobo Branco, entĂŁo qual Ă© o nĂ­vel de perigo? Um cofre de tesouro nĂ­vel 3 teria fantasmas bem fortes, nĂŁo? Parece razoĂĄvel. E Tino tambĂ©m Ă© bem forte.

Só para garantir, decidi pedir ao grupo que desse uma olhada no arquivo da missão. Só para garantir. Não tinha segundas intençÔes, juro. Sorrindo, tirei o pedido do bolso e o espalhei sobre a mesa.

Os olhos do lĂ­der se arregalaram ao ler o pedido de cima a baixo. EntĂŁo, ele abriu um sorriso novamente, parecendo impressionado.

— VocĂȘ tĂĄ brincando comigo, MC. Fingindo que nĂŁo sabia do lobo quando jĂĄ deu conta dele.

— Certo, uh-huh. Tino já está cuidando disso.

O rosto dele congelou imediatamente.

— Tino? A Tino de nĂ­vel 4? VocĂȘ e essas suas provaçÔes de fogo…

Os companheiros dele se encolheram nas cadeiras, os sorrisos presos de forma estranha no rosto. Isso sempre acontecia comigo. Eu simplesmente tinha um azar terrĂ­vel—e um pĂ©ssimo timing.

NĂŁo fiz de propĂłsito, tĂĄ?! Quando esse comboio foi atacado, afinal? Como eu poderia saber disso? Eu podia ser o mestre do clĂŁ, mas nĂŁo era um capataz. Se soubesse, nunca teria passado essa missĂŁo para Tino. Se soubesse, teria escolhido outra missĂŁo.

O jovem de aparĂȘncia furtiva do grupo, que analisava o arquivo, murmurou:

— Bom, Ă© um cofre de tesouro nĂ­vel 3, mas quando caçadores de nĂ­vel 5 desapareceram, vocĂȘ mandou uma solista de nĂ­vel 4?

— Sabe, pra ela ganhar experiĂȘncia… Espera, nĂ­vel 5?

Tendo terminado de recarregar minhas correntes, o mago apontou para uma linha no arquivo da missĂŁo.

— Sim. Olha, bem aqui.

A seção do arquivo listava os caçadores que precisavam ser resgatados, um detalhe que eu havia ignorado completamente. Mas o mago aparentemente viu algo importante.

— Esse Rudolph Davout nĂŁo Ă© um caçador de nĂ­vel 5? Ele tem uma lança bem famosa. Vejo ele direto na Associação. VocĂȘ nĂŁo sabia—

— Cala a boca, idiota. Nosso mestre do clã sabe tudo sobre cada caçador da capital e cada cofre de tesouro que existe! Heh, desculpa por isso, MC! Ena não quis dizer nada com isso.

O líder do grupo sorriu de maneira tensa. Ena, a maga, também se desculpou. Tudo que consegui foi um sorriso forçado e um aceno de mão, tentando encerrar o assunto.

O que Ă© essa histĂłria de que eu sei tudo? Mal consigo ligar os nomes dos meus prĂłprios membros de clĂŁ Ă s suas caras. Quem tĂĄ espalhando esses boatos absurdos sobre mim? Tinha muitas suspeitas. Como diabos eu deveria saber sobre caçadores fora do clĂŁ? A Ășnica vez que eu pisava na filial da Associação era quando iam me dar um tapa na bunda. O quĂȘ? Eles realmente acham que eu conheço todos os caçadores da capital? Quantos caçadores acham que existem por aqui?

Respirei fundo e tentei me acalmar. Nunca teria enviado Tino se soubesse que um caçador de nível 5 tinha desaparecido, mas—tirando os defeitos de personalidade—Tino era uma caçadora confiável. Ainda não era hora de entrar em pñnico.

Pensando bem, quando mostrei o arquivo para ela, Tino mencionou algo sobre ser apenas nĂ­vel 4. Maldito Gark, jogando uma missĂŁo tĂŁo perigosa nas nossas costas! Se algo acontecer com Tino, a culpa serĂĄ toda dele!

Respirei fundo de novo. Mais importante, eu precisava manter minha dignidade (por mais superficial que fosse) como mestre do clã. Não me importaria—na verdade, eu daria boas-vindas a ser deposto do cargo—mas havia muito mais em jogo agora.

— Vai ser uma boa experiĂȘncia de aprendizado — falei. — NĂŁo se preocupem, mandei ela com trĂȘs pessoas de fora para dar suporte.

Até mesmo pequeno Gilbert jå demonstrava sinais de seguir a liderança de Tino, e Rhuda e o Grande Greg eram, no mínimo, melhores do que nada.

O lĂ­der nĂŁo reagiu como esperado, apenas estremeceu com o que restava do sorriso.

— E-Entendi…

— VocĂȘ algemou ela a uma missĂŁo que jĂĄ era difĂ­cil…

— EntĂŁo Ă© assim que o infame lĂ­der fez os Grievers se tornarem o melhor grupo da capital…

Aqueles caçadores talentosos, aqueles malucos, estavam me olhando com uma mistura de medo e respeito.

Infame? Do que eles estĂŁo falando?! Me senti tĂŁo derrotado que nĂŁo consegui mais manter o sorriso. O lĂ­der se levantou de repente, como se tivesse acabado de encarar um monstro na floresta.

Peguei minha Corrente Perseguidora, agora recarregada, da mesa e a prendi no cinto. EntĂŁo, pigarreei, tentando recuperar meu ar de durĂŁo.

— Desculpa, mas tem algo que preciso resolver. Vou nessa. Valeu pela carga.

— N-NĂŁo foi nada. Me desculpe por ter tomado seu tempo com tudo isso — murmurou o lĂ­der, sua atitude antes amigĂĄvel agora substituĂ­da por uma formalidade aterrorizada. AtĂ© os membros do clĂŁ estavam começando a nos encarar de outras mesas no salĂŁo.

Ah, droga. Agora vĂŁo achar que sou algum sĂĄdico que jogou Tino em uma missĂŁo suicida. NĂŁo foi assim! Eu nĂŁo fiz isso de propĂłsito!

Virei nos calcanhares e saí apressado para o escritório do mestre do clã, sem saber para onde mais ir. Ark não estava por perto quando eu mais precisava dele. O mesmo valia para os Grievers. Normalmente, caçadores se preparavam bastante antes de uma missão, mas como essa era uma missão de resgate, eu apressei o grupo de Tino. Eles jå deviam ter chegado ao cofre de tesouro. Não havia mais tempo.

— Vai dar certo — murmurei, enquanto minha mente rodava. — Vai dar certo. A Espada PurgatĂłrio. Eles tĂȘm a Espada PurgatĂłrio!

EntĂŁo me ocorreu um detalhe. Durante a pequena briga entre Tino e Gilbert, eu tinha esgotado toda a mana da grande espada. SerĂĄ que o pequeno Gilbert lembrou de recarregar sua relĂ­quia antes de sair para o cofre de tesouro?

***

A lembrança mais profunda cravada na mente de Tino Shade era a de sua mentora, logo após o primeiro duelo real entre as duas, depois de vårios meses de treinamento båsico.

— Entendeu, T? — perguntou sua mentora com um sorriso. Em total contraste com Tino, que estava caída no chão, ofegante e exausta, Liz não mostrava nem uma gota de suor.

Ela amarrou os cabelos rosados em um rabo de cavalo. Seus olhos cor de pĂȘssego eram emoldurados por cĂ­lios volumosos, e sua pele impecĂĄvel era bronzeada pelo sol. NinguĂ©m poderia negar o quĂŁo adorĂĄvel ela era.

De suas orelhas pendiam brincos metĂĄlicos em forma de coração. Seus membros eram finos, sem um traço de gordura desnecessĂĄria, e seus seios eram modestos, menores atĂ© do que os da prĂłpria Tino, que jĂĄ nĂŁo tinha muito para exibir. Ela era mais baixa que Tino, o que, quando Tino começou a treinar sob sua tutela, fazia com que algumas pessoas confundissem a aprendiz com a sĂȘnior entre as duas. Mas agora ninguĂ©m ousaria sugerir tal coisa.

— Se Krai disser que corvos tĂȘm penas brancas, entĂŁo eles tĂȘm penas brancas. Sacou o que eu quero dizer? — perguntou Liz, levantando o dedo indicador como se estivesse ensinando algo a uma criança.

O poder que emanava do pequeno corpo de sua mentora superava em muito qualquer coisa que Tino jå tivesse visto. Era difícil acreditar que havia apenas alguns anos de diferença entre elas.

Houve um grupo de caçadores que ascendeu Ă  glĂłria mais rĂĄpido que qualquer outro—aberraçÔes que, vez apĂłs vez, atravessaram covis mortais que haviam encerrado a carreira de inĂșmeros caçadores antes deles. Tino e os demais da “segunda geração” de caçadores talentosos apenas seguiam seus passos. Por isso, Tino nunca se orgulhou de seu prĂłprio talento.

Sua mentora, Liz Smart, a Sombra Partida, era membro daquele grupo lendårio. Ver Liz correr como uma rajada de vento pela terra e pelo céu, como uma sombra na noite, enchia Tino de medo e admiração.

Apesar do sorriso, os olhos de Liz brilhavam com uma energia eletrizante.

— NĂŁo estou falando de lealdade ou amor. O que eu quero de vocĂȘ, T, Ă© obediĂȘncia absoluta.

Uma frase dessas poderia ter enfurecido um caçador mais temperamental. Mas Liz falava sério. A nuca de Tino ardia com uma sensação incÎmoda.

— NĂŁo quero que vocĂȘ questione uma Ășnica palavra do Krai. — Liz encarou Tino diretamente nos olhos, hipnotizando-a. Um momento se passou antes que Liz continuasse sua lição, quase como se estivesse cantando. — NĂŁo importa se parecer uma piada ridĂ­cula, uma ordem sem sentido ou atĂ© mesmo um comando que coloque sua vida em risco. Quero que obedeça Ă  vontade dele sem questionar. Esmague qualquer inimigo que se oponha a Krai. NĂŁo importa se for um nobre poderoso, um caçador lendĂĄrio ou atĂ© mesmo o imperador de Zebrudia. Eu nĂŁo suporto a ideia desses desgraçados continuarem vivos nem por um segundo. É por isso que fiz de vocĂȘ minha aprendiz. Quando eu estiver por perto, eu mesma vou exterminĂĄ-los. Mas eu nĂŁo posso estar com Krai vinte e quatro horas por dia. VocĂȘ entende, nĂŁo entende, T? VocĂȘ Ă© uma garota esperta.

Tino ainda arfava, caĂ­da no chĂŁo.

— Sim, Lizzy.

Caçadores talentosos Ă s vezes eram descritos como aberraçÔes. Mas Tino sabia que nem todos eram igualmente monstruosos. Sua mentora, no entanto, era, sem dĂșvida, um monstro que fazia atĂ© outros caçadores tremerem.

Seu discurso, que ela deu em um tom quase brincalhĂŁo, carregava uma ferocidade ardente que queimava qualquer pensamento de desobediĂȘncia.

Liz falava sério. Ela via tudo no mundo como inimigo e não havia espaço para concessÔes. Se Tino tivesse demonstrado qualquer hostilidade contra Krai, sua mentora a teria matado na hora, arrancando-a do caminho como uma erva daninha.

Menor e mais esguia que Tino, Liz parecia uma humana normal, mas essa semelhança se limitava apenas Ă  aparĂȘncia. Tino sĂł percebeu isso algum tempo depois, quando adquiriu um pouco mais de experiĂȘncia como caçadora.

***

O grupo cauteloso percorria a estreita trilha da floresta, a caminho da Toca do Lobo Branco. Tino liderava a equipe, seguida por Gilbert, Greg e, por fim, Rhuda na retaguarda.

Grupos de caçadores eram formados com um equilĂ­brio de funçÔes em mente. Normalmente, um time precisava de um combatente da linha de frente, um combatente de longo alcance, um batedor e um curandeiro. O grupo improvisado de Tino nĂŁo tinha um mago capaz de dizimar hordas inteiras de inimigos com um Ășnico feitiço, nem um clĂ©rigo para curar ferimentos graves—ambos considerados essenciais para sobreviver a calabouços de alto nĂ­vel.

Greg e Gilbert eram combatentes da linha de frente: Greg, um Guerreiro versåtil no manuseio de diversas armas, e Gilbert, um Espadachim especializado em combates individuais com sua imensa espada. Ambos eram lutadores exemplares, com força física suficiente para resistir aos poderes sobrenaturais de um fantasma, mas sem a agilidade necessåria para lidar com ataques mågicos ou enxames de espectros de uma só vez.

Enquanto isso, Rhuda e Tino eram Ladinas. Faltava-lhes força bruta, mas compensavam com suas habilidades de rastreamento e reconhecimento. Apesar da gritante falta de equilĂ­brio na formação do grupo, as duas Ladinas eram a Ășnica vantagem que tinham.

Rhuda, acostumada a caçar sozinha, era extremamente cautelosa e atenta—uma qualidade que Tino tambĂ©m possuĂ­a. Mesmo que a visĂŁo do grupo fosse obscurecida, um fantasma hostil nĂŁo as pegaria desprevenidas. Emboscadas eram o maior perigo ao explorar um calabouço desconhecido. Pelo menos, nesse aspecto, o grupo improvisado de Tino nĂŁo precisava se preocupar.

A primeira preocupação do grupo era entender o que estava acontecendo dentro da masmorra. Mas, mesmo antes de chegarem lå, um ar estranho envolvia a floresta. O avanço era tenso. Algo pairava no ar, algo que apenas caçadores habituados a enfrentar monstros e espectros conseguiriam sentir.

EntĂŁo, um uivo reverberou entre as ĂĄrvores.

Greg varreu os arredores com o olhar e resmungou:

— Estranho. VocĂȘs sentiram isso? Seja lĂĄ o que for, nĂŁo Ă© nada bom. E nem chegamos ao calabouço ainda, droga.

— É por isso que eu deixei um testamento — disse Tino, apertando os olhos ao encarar as árvores grossas demais para serem abraçadas. — Não tive escolha.

Caçadores desenvolviam um sexto sentido para o perigo. Quando seus sentidos ficavam aguçados demais por causa da energia mågica, seus cérebros processavam o perigo iminente como intuiçÔes. Se tiver um mau pressentimento, corra. Essa era uma das regras fundamentais da caça ao tesouro. Tino e seus companheiros tinham aprendido isso da pior forma.

O grupo estava inquieto com a presença que espreitava a floresta. Tino, no entanto, nĂŁo demonstrava medo—apenas determinação. Assim que percebeu o perigo, ela deveria ter priorizado a sobrevivĂȘncia do grupo, especialmente porque a anormalidade era forte o bastante para que os outros tambĂ©m a percebessem. Mas, nesse caso especĂ­fico, Tino e sua equipe sabiam exatamente no que estavam se metendo. Ela havia alertado sobre os perigos com antecedĂȘncia, mesmo que ninguĂ©m tivesse levado suas palavras a sĂ©rio.

Rhuda, que vinha caminhando cuidadosamente na retaguarda, se lembrou das palavras e da expressão séria de Tino.

— Se ele me deu essa missão, não vai ser fácil. Não pretendo morrer, mas escrevi isso só por precaução.

Na Ă©poca, Rhuda achou que fosse uma piada, mas o perigo palpĂĄvel entre as sombras nĂŁo deixava dĂșvidas.

— VocĂȘ tĂĄ dizendo que o Krai sabia o que estava acontecendo e nos mandou mesmo assim? — perguntou ela.

Tino assentiu.

— A composição do nosso time tambĂ©m nĂŁo Ă© coincidĂȘncia.

— VocĂȘ sĂł pode estar brincando — Greg retrucou, cĂ©tico. — Isso Ă© um baita exagero.

Krai tinha agido como se tivesse escolhido os membros do time ao acaso, sem planejamento. Mas Tino, que conhecia seu mestre como ninguém, enxergava além.

Ela era uma das membros originais dos Passos. Mesmo antes da formação do clĂŁ, jĂĄ tinha bastante contato com os Grievers. Sua carreira de caçadora de tesouros foi construĂ­da com treinamento ĂĄrduo e provaçÔes ainda mais exaustivas. NĂŁo era a primeira vez que Krai lhe confiava uma missĂŁo. Agora, por mais difĂ­cil que fosse acreditar, Tino finalmente compreendia que os Grieving Souls nĂŁo conquistaram fama e reconhecimento apenas pelo talento individual dos membros, mas sim pelo gĂȘnio que os guiava.

— O Mestre sabe tudo o que acontece no calabouço e reuniu os membros necessĂĄrios para formar esse grupo — disse ela, olhando para Gilbert. — AtĂ© mesmo aquele seu teste de força fez parte do plano.

Gilbert arregalou os olhos. O desafio de luta do dia anterior agora fazia mais sentido.

Rhuda interveio, desesperada:

— Espera aĂ­! Os membros necessĂĄrios? Eu sĂł apareci no recrutamento por coincidĂȘncia! O seu clĂŁ tem vĂĄrios caçadores mais talentosos do que eu!

— Isso mesmo — acrescentou Gilbert. — Eu nunca tinha visto o Mil Truques antes de ontem.

Eles continuaram protestando, recusando-se a acreditar.

Tino soltou um pequeno suspiro. Ainda nem haviam chegado ao calabouço e jĂĄ estavam fazendo barulho o suficiente para atrair monstros ou espectros. Talvez atĂ© isso fizesse parte dos cĂĄlculos de seu mestre. De qualquer forma, ela queria terminar logo essa missĂŁo e voltar para o clĂŁ. Viva. Para isso, precisava fazer seus novos companheiros entenderem que nada naquela situação era coincidĂȘncia. Tino nĂŁo sabia o que estava prestes a enfrentar, mas compreender a seriedade da missĂŁo era fundamental.

— O Mestre tem conhecimento sobre todos os calabouços e caçadores da capital. Ele pode prever suas açÔes, mesmo sem conhecĂȘ-los pessoalmente — disse ela, demonstrando uma ponta de frustração.

Todos nos Passos sabiamos disso. Krai nunca fazia nada sem um motivo. Por que mais um Rank 8 chegaria atrasado ao prĂłprio recrutamento, atiçaria a multidĂŁo atĂ© quase transformar o bar em ruĂ­nas e ainda se divertiria com a fĂșria de Gilbert, delegando a luta a Tino? Krai nĂŁo era um idiota. Tudo era meticulosamente calculado. Mil Truques estava sempre dez passos Ă  frente.

Gilbert engoliu em seco. Ele jĂĄ havia sentido algo insondĂĄvel em Krai. Talvez ele realmente fosse capaz de manipular tudo isso com a maior facilidade. A Espada PurgatĂłrio pesava em suas costas.

Entre os diversos tipos de magia, existia a tĂ©cnica de adicionar elementos como fogo ou ĂĄgua a uma arma para aumentar seu poder e alcance. RelĂ­quias do tipo arma frequentemente possuĂ­am afinidades elementais que concediam o mesmo efeito sem necessidade de um feitiço. A Espada PurgatĂłrio tinha afinidade com o fogo, permitindo ao usuĂĄrio incendiar sua lĂąmina e queimar os inimigos ao cortar. AtĂ© agora, a espada havia sido eficaz contra todos os adversĂĄrios. Mas agora…

Mil Truques manipulou as chamas da lùmina com mais maestria do que Gilbert jamais havia conseguido. Se aquele era um vislumbre do verdadeiro poder da espada, Gilbert tinha domínio apenas de uma fração de seu potencial. Ele não era novato em explorar calabouços, mas nunca sentiu um pressentimento tão sombrio como aquele.

Vendo o quĂŁo nervosos estavam os outros membros do grupo, Tino decidiu adotar uma abordagem mais tranquilizadora.

— NĂŁo se preocupem. O Mestre sabe de tudo. Ele nĂŁo nos daria uma missĂŁo que nĂŁo pudĂ©ssemos completar. Se estamos prontos para arriscar nossas vidas, vamos conseguir. NĂŁo hĂĄ como voltar atrĂĄs, nĂŁo importa o que aconteça. Por isso escrevi meu testamento.

— Ah… certo. Claro. — Greg tentou forçar um sorriso. Ele nĂŁo ia deixar aqueles garotos perceberem que cada fibra do seu ser estava gritando para que ele fugisse dali. Por que Tino estava tĂŁo determinada a arriscar suas vidas por um trabalho de coleta de carcaças?

Uma sombra caiu sobre eles, bloqueando a luz do sol. Tino foi a primeira a perceber algo caindo do céu e empurrou Greg para fora do caminho. Um segundo depois, um brilho opaco acinzentado passou exatamente onde o pescoço dele estivera instantes antes.

Gilbert e Rhuda saltaram para trĂĄs, se preparando para o combate. Greg, ainda cambaleando, apoiou-se no chĂŁo para nĂŁo cair. Foi entĂŁo que avistaram seu agressor: uma silhueta que se aproximara sem deixar cheiro ou som algum.

De olhos arregalados, Rhuda observou a besta carmesim, agora ajoelhada silenciosamente no chĂŁo.

— Achei que o fantasma fosse um lobo… — sussurrou.

Gilbert encarou os olhos dourados cintilantes voltados para ele e, então, apontou a Espada Purgatória para a criatura. A figura carmesim, tendo falhado em seu ataque surpresa, ergueu-se lentamente sobre as patas traseiras. Sua pelagem vermelha era åspera, suas orelhas caninas afiadas. Um rabo espesso, da mesma cor do pelo, estendia-se de suas costas. Seu nariz se contraiu, como se estivesse farejando o grupo de caçadores.

Inacreditavelmente, a besta estava quase inteiramente coberta por uma armadura vermelho-sangue. Por baixo das manoplas, segurava uma arma. A lĂąmina cortou o ar, como um aviso silencioso.

— EstĂĄ usando armadura! Isso nĂŁo faz sentido! — Gilbert exclamou, incrĂ©dulo.

— Ele estĂĄ segurando uma espada… — Tino murmurou, com um toque de pesar na voz. — Toque, Mestre. Eu jamais esperaria por isso…

Diziam que os fantasmas da Toca do Lobo Branco assumiam a forma de um lobo gigante. Apenas o rosto e a cor da criatura combinavam com a descrição que haviam recebido.

Como se quisesse silenciar as palavras de Tino, o cavaleiro lobo carmesim rugiu.

***

— Ugh, vou vomitar. Já passou da hora de largar isso.

Dez minutos se passaram desde que me contaram sobre os perigos inesperados de um trabalho que qualquer um acharia simples: coletar carcaças. Agora, sozinho, eu andava de um lado para o outro no escritĂłrio do mestre do clĂŁ, resmungando para o nada. Ainda bem que Eva nĂŁo estava ali para me julgar. Se a Tino simplesmente tivesse recusado o pedido e me explicado o motivo, eu teria…

SerĂĄ que reclamar era tudo que eu conseguia fazer? Que perda de tempo. Tino era muito mais importante para mim do que qualquer um dos randoms que eu tinha mandado ela resgatar. Quero dizer, por tudo que eu sabia, eles jĂĄ podiam estar mortos.

Dito isso, Tino era nível 4 ela conhecia o båsico da caça. Se as coisas ficassem feias, ela traria o grupo de volta. Por outro lado, todo mundo nos Passos jå tinha provado ser incrivelmente imprudente, ignorando completamente as diretrizes båsicas que mantinham a maioria dos caçadores vivos. Não importava quão assustador fosse o inimigo, um membro dos Passos não recuaria tão facilmente.

Tino deve ter sido corrompida por eles. Bem, os caçadores mais imprudentes que eu conhecia eram os Grievers, entĂŁo provavelmente foi influĂȘncia do mentor dela.

— Só usa o pequeno Gilbert e o Grande Greg como escudos de carne se precisar! — implorei ao nada. Com certeza, eles não teriam arrependimentos de morrer para proteger a Tino.

Fui descuidado na escolha dos membros do grupo dela. No mĂ­nimo, devia ter colocado alguns membros confiĂĄveis dos Passos. Maldito Gark. Por que nĂŁo me deu um aviso?

Na verdade, nĂŁo. NĂŁo tinha desculpa para isso. Nenhuma ginĂĄstica mental me faria escapar dessa. A culpa era toda minha. Tudo que eu podia fazer era me jogar no chĂŁo e berrar desculpas silenciosas.

Mas, bem, eu tinha certeza de que ficariam bem. Tino sabia que a Toca do Lobo Branco gerava lobos grandes. Ela estaria bem preparada. Os lobos eram sĂł um pouco mais assustadores do que um lobo comum na natureza. NĂŁo eram exatamente fantasmas complicados de lidar. Tino ia conseguir… Tino devia conseguir. Era o que eu ficava repetindo para mim mesmo, mas isso nĂŁo me tranquilizava nem um pouco.

Jå estava escuro lå fora. Os lampiÔes iluminavam as ruas da capital, mas não havia luz artificial na floresta.

Serå que eu podia pedir reforços para alguém do clã no salão? Nem pensar. Monstros e animais selvagens eram mais ativos à noite, então ninguém queria viajar nesse horårio. Além disso, mesmo que eu mandasse alguém imediatamente, não alcançariam Tino a tempo.

Eu sabia. Sou inĂștil sem o Ark.

Quase em negação, tomei minha decisão e me aproximei da estante que cobria uma das paredes do escritório, repleta de livros sobre gestão de clãs e a história da capital. Procurei por um pequeno puxador mal posicionado e o puxei. O mecanismo entrou em ação, e a estante girou silenciosamente para dentro. A abertura revelava uma escada que descia.

Desci os degraus apressadamente. No final, tateei a parede até encontrar o interruptor da luz. Quando o acionei, uma iluminação suave revelou um cÎmodo com o dobro do tamanho do escritório acima. Esse era meu quarto particular.

O espaço nĂŁo tinha janelas e continha uma cama grande o suficiente para um grupo inteiro dormir, uma estante, uma mesa de centro, uma escrivaninha e um sofĂĄ. Pelas paredes, havia pinturas bizarras que me deram de presente, alĂ©m de um pĂŽster que exibia as trĂȘs regras do clĂŁ.

O mais chamativo, no entanto, era que o cÎmodo estava abarrotado de Relíquias, espadas, lanças, armaduras, casacos, correntes, anéis e muito mais, de todas as formas e tamanhos. Algumas eu comprei, outras ganhei de presente e, claro, vårias foram conquistadas em cofres de tesouro.

O que eu via diante de mim era o fruto da jornada dos Grieving Souls. Só de vender todas as Relíquias pelo preço certo, os Grievers poderiam se aposentar na mais absoluta riqueza, mas ainda não tínhamos terminado o que começamos.

Com o estĂŽmago revirando, comecei a revirar o arsenal em busca de uma RelĂ­quia que me tirasse dessa enrascada impossĂ­vel.

***

Assim que voltei para o escritĂłrio, trombei com Eva. Ela olhou para a porta aberta da estante e depois piscou para mim. Agora que eu estava coberto das RelĂ­quias que escolhi tĂŁo rĂĄpido quanto meticulosamente, parecia um verdadeiro cofre ambulante.

Eu vestia meu sobretudo Ă­ndigo e carregava uma RelĂ­quia de besta e uma RelĂ­quia de espada de um comprimento meio estranho nas costas. Havia uma RelĂ­quia de anel em cada dedo e, como se nĂŁo bastasse, mais alguns pendurados na corrente RelĂ­quias presa Ă  minha cintura. E ainda mais anĂ©is estavam enfiados na bolsa presa ao meu cinto. Existiam RelĂ­quias de anel pra caramba por aĂ­, mas vamos lĂĄ — um homem sĂł tem dez dedos!

As roupas por baixo do casaco eram trajes comuns de caçador, durĂĄveis e leves. Provavelmente, eram as Ășnicas coisas em mim que nĂŁo eram RelĂ­quias.

Ainda assim, mesmo com todo esse arsenal, eu continuava com aquela sensação de enjoo, temendo o que poderia acontecer. Pela experiĂȘncia, aprendi que nenhum nĂșmero de RelĂ­quias fazia diferença quando se tratava de transformar um zero Ă  esquerda em alguĂ©m competente. Mas e daĂ­? Eu ia fazer tudo ao meu alcance. Isso era minha responsabilidade.

A vice-mestre da guilda vestia seu uniforme branco habitual, parecendo tão alerta como sempre, apesar da hora avançada. Como a administradora dedicada que era, Eva devia estar trabalhando até tarde, mas seu olhar para a estante aberta não mostrava surpresa. A essa altura, quase todo mundo na guilda sabia onde ficavam meus aposentos.

— O que Ă© toda essa parafernĂĄlia, Krai?

— Heh heh heh heh… SĂł vou dar uma volta.

Eva me olhou com exasperação.

— Se ia se preocupar tanto, não devia ter dado essa missão pra ela.

Desmoronando sob a pressão da situação, não consegui conter meu riso nervoso.

— Heh heh heh heh… NĂŁo sei do que vocĂȘ estĂĄ falando.

Eva me decifrou na hora, e nĂŁo foi por causa do meu arsenal de RelĂ­quias. Eu vivia coberto deles, afinal. Depois de anos trabalhando juntos, ela me lia como um livro aberto.

— Por que não leva outro grupo como reforço? — sugeriu.

A ideia era tentadora, mas pedir um favor a outro grupo era diferente de pedir para o seu próprio time, mesmo que estivéssemos na mesma guilda. A essa hora, duvidava que alguém estivesse disposto a se aventurar em uma cùmara perigosa, e eu não podia esperar que estivessem.

Respirei fundo e tentei tranquilizar Eva.

— Sem problema. Tudo conforme o plano.

— Espera.

Ignorando completamente minha bravata desesperada, Eva se aproximou rapidamente, seus olhos fixos no colar que eu usava: um simples colar com uma cĂĄpsula metĂĄlica na ponta. NĂŁo era um RelĂ­quia, mas era muito mais perigoso do que qualquer RelĂ­quia guardado no meu quarto.

— Esse nĂŁo Ă© o slime da Sitri? — perguntou Eva.

NĂŁo respondi.

— NĂŁo Ă© aquele que vocĂȘ nĂŁo deveria tocar porque pode destruir a cidade inteira?

Ela olhou para a cĂĄpsula sem se aproximar, demonstrando um senso saudĂĄvel de cautela.

Fiquei me perguntando quem tinha contado isso para Eva. Alguns rostos vieram Ă  mente, mas eu lidaria com isso depois. A cĂĄpsula estava guardada em um RelĂ­quia do tipo cofre, bem no meio do meu quarto. Supostamente, havia um slime modificado dentro dela, mas eu mesmo nunca o tinha visto.

Slimes eram, de longe, os monstros mais fracos de todos os tempos. Seus corpos lĂ­quidos eram basicamente sacos de ĂłrgĂŁos internos. CortĂĄ-los, fatiĂĄ-los, esmagĂĄ-los ou queimĂĄ-los — qualquer coisa os derrubava com facilidade. Eles existiam em vĂĄrias formas, mas a maioria nĂŁo tinha nada de especial. AtĂ© eu, Krai Andrey, o mais fraco dos fracos, conseguia lidar com um slime comum sem problemas. Mas o que estava dentro da cĂĄpsula era diferente — pelo menos, segundo seu criador.

Eu tentava manter minhas Relíquias sempre carregadas para uså-las quando precisasse, mas a maioria jå estava no limite, sem recarga desde que os Grievers partiram para a cùmara hå duas semanas. Escolhi a cåpsula para compensar. Tino era uma ótima caçadora e ficaria totalmente bem, e eu evitaria qualquer combate a todo custo. Ainda assim, como o cuidadoso badass que sou, decidi levar uma carta na manga.

Eu nĂŁo queria trazer a cĂĄpsula. Na verdade, odiava a ideia. Mas as outras armas sem RelĂ­quia do meu arsenal nĂŁo eram leves o suficiente para carregar. E, para piorar, eu nem sabia exatamente como usar o slime, caso precisasse. Mas eu estaria em uma cĂąmara, entĂŁo imaginei que poderia simplesmente jogĂĄ-lo e correr. Eu faria qualquer coisa para salvar nossa querida mascote.

— Muito engraçado, Eva. Isso seria uma violação descarada da lei imperial.

Eu me orgulhava de ser um cidadĂŁo exemplar. Meus amigos, por outro lado, viam as leis mais como desafios do que regras estritas.

Antes que Eva visse através do meu teatro, corri até a grande janela atrås da minha mesa e a abri, deixando entrar uma rajada de vento mais fria do que eu esperava. As janelas do prédio foram feitas para abrir, ou algumas pessoas simplesmente as quebrariam. Dessa vez, isso jogou a meu favor.

Eva me observou, incomumente preocupada, seus olhos fixos no slime da Sitri. Aquela preocupação provavelmente era de ordem profissional — se minhas açÔes poderiam prejudicar a guilda.

— Tem certeza de que vai ficar bem? — perguntou.

Com toda a força que tinha, mantive meu sorriso radiante.

Eu estava ferrado.

Acredite, se pudesse, eu levaria reforços. Mas meu caminhante noturno só podia ser usado por uma pessoa.

***

Depois de se provar um guerreiro temĂ­vel, o cavaleiro lobo se dissolveu no ar, desaparecendo sem deixar rastros.

Rhuda encarou o lugar onde o lobo estava. — Hum, vocĂȘ nĂŁo acha que deverĂ­amos voltar?

Greg abaixou sua fiel espada longa, que havia usado completamente contra a criatura. — Sim. SabĂ­amos que as coisas poderiam ficar complicadas, mas ninguĂ©m poderia prever isso. De qualquer forma, nĂŁo hĂĄ chance daqueles caçadores perdidos terem sobrevivido. NĂŁo vou arriscar minha vida Ă  toa.

O cavaleiro lobo tinha sido realmente difĂ­cil. A armadura que cobria todo o seu corpo o protegia da maioria dos ataques, e cada golpe de sua lĂąmina, impulsionado por seus braços robustos, era fatal. Fantasmas do tipo bestial costumavam ser poderosos e ĂĄgeis, mas a armadura do lobo o tornava um inimigo perigoso demais para um Cofre de Tesouro de nĂ­vel 3. Mesmo Greg, que era nĂ­vel 4 e tinha bastante experiĂȘncia, teria tido dificuldades para enfrentĂĄ-lo sozinho.

O grupo conseguiu derrotar o fantasma e saiu praticamente ileso apenas porque o superava em nĂșmero. AlĂ©m disso, Tino havia atraĂ­do sua atenção o tempo todo, mantendo seus ataques focados nela. Se alguĂ©m do grupo tivesse se ferido, a situação teria sido bem diferente; talvez nĂŁo fossem dizimados, mas a batalha teria se arrastado por muito mais tempo.

Sem demonstrar qualquer hesitação, o líder do grupo olhou para Greg e Rhuda. — Nada muda. Ainda nem chegamos ao cofre.

— Essa nĂŁo Ă© hora para teimosia — disse Greg. — Sua vida vale mais do que isso! Aquele bicho claramente veio da Toca do Lobo Branco. NĂŁo Ă© todo dia que um fantasma sai do seu cofre, mas o lugar deve estar infestado dessas coisas.

Rhuda estremeceu, olhando na direção do Cofre de Tesouro. — Quando estive aqui outro dia, só havia lobos normais.

Os fantasmas que esperavam encontrar na Toca do Lobo Branco eram chamados de Luas Vermelhas, lobos grandes nomeados em homenagem Ă s extintas Luas Prateadas. Esses eram os fantasmas que Rhuda encontrou quando entrou no cofre sozinha algumas semanas antes. Ela conseguia lidar com uma Lua Vermelha sozinha sem grandes problemas, mas logo percebeu que nĂŁo teria chance alguma se fosse cercada por uma matilha e fugiu do cofre.

O cavaleiro lobo que acabaram de enfrentar era muito mais desafiador do que uma Lua Vermelha. A adaga de Rhuda não conseguia atravessar a pesada armadura do lobo. Para causar dano, ela precisaria mirar na cabeça descoberta ou nas juntas sem proteção. No nível em que estava, teria dificuldades para acertar a cabeça da criatura enquanto se esquivava de seus ataques velozes. Talvez com pråtica isso mudasse, mas ela preferia não treinar suas habilidades enquanto corria risco de vida.

Tino deu de ombros, como se jĂĄ esperasse aquele desfecho. — Isso Ă© apenas um treinamento.

— Treinamento?! — Greg e Rhuda repetiram.

Rhuda sentiu um abismo entre ela e Tino, que permanecia incrivelmente calma apesar da situação absurda. A atitude da garota sugeria que jå havia superado desafios como aquele vårias vezes. Rhuda percebia em Tino o verdadeiro motivo da prosperidade da Primeiros Passos.

— E o Grande Greg está errado — disse Tino.

— Só me chama de Greg.

— VocĂȘ estĂĄ errado, Greg.

Tino lançou um olhar para Gilbert, que estava observando sua espada com curiosidade. Aquela Relíquia era a arma mais poderosa do grupo. Personalidade à parte, ele provavelmente seria o melhor combatente deles. Seu mestre não teria colocado um garoto imprudente no grupo sem motivo.

Observar Greg e Rhuda lutando confirmou para Tino que o grupo tinha potencial. O suficiente, pelo menos, para que ela não os abandonasse. Seu mestre havia dado todas as peças necessårias para completar a missão. Como sempre, ele estava certo.

Tino olhou na direção do Cofre de Tesouro, de onde os uivos continuavam intermitentes. — O Mestre nos designou para essa missão porque os caçadores que estamos resgatando ainda estão vivos.

O queixo de Greg caiu. A afirmação de Tino desafiava toda a lógica.

Cofres de Tesouro eram terrenos mortais. Quando um caçador desaparecia, nove em cada dez vezes significava que estava morto. As chances eram ainda piores em cofres pouco explorados como a Toca do Lobo Branco, onde nĂŁo podiam contar com a ajuda de outros caçadores na regiĂŁo. Mesmo que houvesse uma pequena chance de um caçador perdido estar vivo, a Ășnica maneira de ter certeza era verificando o cofre pessoalmente.

Agora, Tino estava afirmando que seu mestre sabia, sem sequer sair da capital, que aqueles caçadores estavam vivos, enquanto o mĂĄximo que qualquer um poderia fazer era calcular as chances de sobrevivĂȘncia com base no tempo que estavam desaparecidos. Se fosse qualquer outra pessoa dizendo isso, Greg jamais acreditaria.

Tino devolveu a ele um olhar frio. — Cada movimento do meu mestre tem um significado. Greg, o que vocĂȘ acha que significa ser um dos poucos caçadores de nĂ­vel 8 da capital?

Romper os limites da caça a tesouros e tornar o impossível possível era o que fazia de Krai Andrey um caçador de nível 8.

— Certo — disse Rhuda, forçando um tom esperançoso. — Se os alvos ainda estão vivos, temos que continuar. Certo, Gilbert?

Gilbert não respondeu. Em vez disso, franziu a testa ao encarar sua espada. — A Espada Purgatória está sem energia — resmungou. — Eu a recarreguei outro dia. Não posso recarregá-la sozinho, sabia?

— O quĂȘ?!

Todo caçador sabia que precisava recarregar suas RelĂ­quias com antecedĂȘncia. A Espada PurgatĂłria, em especial, consumia grandes quantidades de mana. Como Gilbert nĂŁo tinha mana suficiente para recarregĂĄ-la sozinho, costumava levar a espada a um dos Magos da cidade especializados nisso.

A Ășltima vez que Gilbert recarregou sua espada foi hĂĄ alguns dias, em preparação para a campanha de recrutamento da Primeiros Passos. Ele nem sequer entrou em um Cofre de Tesouro desde entĂŁo, entĂŁo a espada deveria ter energia de sobra. No entanto, ao examinĂĄ-la agora, percebeu que nĂŁo restava uma Ășnica gota. Se tivessem um mago no grupo, isso nĂŁo seria um problema, mas nenhum deles tinha mana suficiente para recarregĂĄ-la.

Prevendo o que estava por vir, Tino murmurou: — Mestre, por que vocĂȘ me odeia?

Eles ainda nem tinham chegado ao cofre.

***

A Toca do Lobo Branco era um tipo de cùmara subterrùnea. Os Luas de Prata eram uma espécie altamente inteligente e social, que formava grandes matilhas e compartilhava tocas subterrùneas. No auge da espécie, essa toca em particular abrigava mais de mil lobos. Ela se estendia larga e profunda como um formigueiro do tamanho de uma pequena vila. Mesmo depois que os Luas de Prata foram extintos e sua toca se transformou em um cofre do tesouro, a caverna manteve em grande parte sua estrutura original.

Tino suspirou de trĂĄs de um arbusto, onde observava a imensa entrada do vasto cofre do tesouro.

Antes da extinção dos Luas de Prata, eles sempre guardavam a entrada de sua toca. Agora, no entanto, essa mesma entrada era protegida por cavaleiros-lobo de pelagem carmesim e armadura completa.

Mesmo de onde estava agachada, a cerca de cinquenta metros de distĂąncia, Tino podia sentir o cheiro das bestas no ar. Seus olhos ardentes brilhavam de forma assustadora na escuridĂŁo, e suas lĂąminas desembainhadas refletiam fracamente a luz da lua.

— Olhem, nĂŁo Ă© sĂł espadas — alguns deles tĂȘm arcos e armas de fogo — disse Gilbert em um tom baixo.

Greg franziu a testa.

— Droga. Então não parece que aquele vira-lata era um caso isolado. Eles foram reforçados com material de mana? O que aconteceu aqui?

Quando o material de mana que permeava o mundo se acumulava e atingia altos níveis de concentração, ele gerava cofres do tesouro e fantasmas. Por algum motivo, o material de mana podia se tornar ainda mais concentrado em certas åreas, elevando os cofres e fantasmas a um nível superior. Esse fenÎmeno irregular, temido pelos caçadores, era chamado de evolução.

A evolução era um evento raro. Como o material de mana geralmente circulava pelo mundo através da vasta rede de linhas de energia sob a terra, havia limitaçÔes quanto à quantidade de mana que podia se acumular em qualquer local. A evolução era considerada um resultado de mudanças ambientais ou do movimento das linhas de energia, que levavam a concentraçÔes mais altas de mana.

O Império Zebrudian, que acumulava uma fortuna com os cofres do tesouro ao redor, mantinha um olhar atento a qualquer mudança nas linhas de energia. Se qualquer sinal de evolução fosse detectado, os caçadores deveriam ser informados. No entanto, nem Tino nem seu grupo haviam recebido qualquer aviso. Mesmo assim, com a årea repleta de numerosos fantasmas mais fortes do que esperavam enfrentar, tiveram que encarar a realidade.

Controlando sua respiração, Tino avaliou a ameaça. Os fantasmas guardando a entrada eram significativamente maiores do que os Luas Vermelhas que haviam esperado encontrar. Como os cavaleiros-lobo estavam em pé sobre as patas traseiras, eram duas vezes mais altos do que os Luas Vermelhas.

Na batalha anterior, o grupo descobriu que a força e a resistĂȘncia dos fantasmas haviam sido amplificadas proporcionalmente ao aumento de tamanho. Nesse sentido, tiveram sorte de poder avaliar a ameaça antes de chegar ao cofre. Na verdade, atĂ© mesmo aquele encontro inicial provavelmente fazia parte do plano de seu mestre.

— A toca foi escavada pelos Luas de Prata para acomodar seu tamanho — ela disse. — Os lobos com armadura nĂŁo vĂŁo conseguir saltar lĂĄ dentro… acho.

— EntĂŁo seria melhor correr para dentro da caverna do que enfrentĂĄ-los a cĂ©u aberto — respondeu Gilbert. — O problema Ă© que eu nĂŁo tenho como atacĂĄ-los a longa distĂąncia.

Cinco lobos-humanĂłides montavam guarda do lado de fora da toca. Apesar de vestirem armaduras idĂȘnticas e espessas, carregavam armas diferentes: trĂȘs portavam espadas, um empunhava um arco e flechas, e o Ășltimo segurava uma arma de cano longo que ninguĂ©m do grupo reconhecia. Pelo nĂșmero de lobos e sua formação, nĂŁo havia como entrar na caverna sem ser notado por um deles. Para evitar o risco de ficarem presos entre os lobos da entrada e os que espreitavam dentro do cofre, atravessar correndo os guardas era uma pĂ©ssima ideia.

— Os caçadores perdidos estão lá dentro? — perguntou Greg. — Está me dizendo que esses sinais de alerta gritantes não os fizeram recuar?

— É possĂ­vel que eles nĂŁo tenham notado a mudança atĂ© estarem lĂĄ dentro — disse Tino. — E um cofre evoluĂ­do nĂŁo Ă© totalmente ruim. Ele tambĂ©m produz RelĂ­quias melhores.

RelĂ­quias materializavam-se da mesma maneira que fantasmas. Quanto maior a concentração de mana, mais poderosas eram as RelĂ­quias dentro do cofre. A impopularidade do local tornava-o ainda mais atraente  menos concorrĂȘncia significava uma chance maior de conseguir uma boa RelĂ­quia.

— AlguĂ©m tem ataques de longa distĂąncia? — perguntou Tino.

Greg e Rhuda trocaram olhares.

Por ataques de longa distĂąncia, Tino queria dizer aqueles que poderiam realmente causar dano aos cavaleiros-lobo, apesar de suas armaduras. Rhuda poderia atirar sua adaga, por exemplo, mas isso nĂŁo deixaria um arranhĂŁo na pelagem e armadura espessa dos lobos.

O silĂȘncio do grupo disse tudo para Tino, que percebeu o quĂŁo desequilibrado seu time realmente era. Qualquer grupo normal teria pelo menos um membro especializado em ataques de longa distĂąncia.

Com ambas as mĂŁos, Gilbert segurou a Espada PurgatĂłria em suas costas, mudando seu peso.

— Certo, eu vou atacar. Se eu eliminar primeiro o arqueiro e o atirador, conseguimos lidar com o resto.

— Como Ă©? VocĂȘ realmente Ă© um idiota — disse Tino.

Respirando o ar frio da noite, Tino acalmou seu coração acelerado. Então, olhou para cada membro do grupo e declarou com a resolução de uma verdadeira líder:

— Rhuda e eu somos mais rápidas, então vamos atraí-los para longe. Treinamos para desviar de ataques à distñncia. Greg e Gilbert, embosquem o arqueiro e o atirador por trás. Arcos e armas de fogo não são um problema quando se está perto o suficiente.

***

— Por favor, que pelo menos a Tino sobreviva. Faça ela usar os outros como escudo, se for preciso.

Cerrei os dentes enquanto voava pelo céu iluminado pela lua, rompendo o ar que me castigava. Graças ao manto relíquia nas minhas costas, eu disparava como uma flecha solta do arco. E, assim como uma flecha solta, não havia como voltar atrås. Tudo o que eu podia fazer era tentar me guiar no meio da escuridão.

Num piscar de olhos, jå havia cruzado os portÔes aninhados nos altos muros que cercavam a capital. Agora, só havia um trecho de estrada sem iluminação e campos interminåveis abaixo de mim. Apesar da paisagem pitoresca, tudo o que eu conseguia fazer era me segurar para não vomitar.

O caminhante noturno era uma relĂ­quia do tipo manto, de um azul profundo como a meia-noite, com um forro de pedras brancas alinhadas na gola. Como o nome sugeria, essa relĂ­quia concedia ao usuĂĄrio o poder de voar, algo extremamente raro entre as relĂ­quias.

RelĂ­quias que concediam voo e nĂŁo eram veĂ­culos eram particularmente populares e caras. O meu caminhante noturno era o Ășnico desse tipo na minha coleção, mas vinha com alguns problemas sĂ©rios. O “Incidente do MĂ­ssil Humano” envolvendo o antigo dono dessa relĂ­quia foi uma tragĂ©dia que deixou claro para o pĂșblico tanto a conveniĂȘncia quanto o perigo do item. Com uma propulsĂŁo insana, o caçador foi lançado contra o teto e mandado direto para o alĂ©m. Antes que fosse destruĂ­do, o caminhante noturno, ainda com o sangue de um caçador talentoso em seu fecho, acabou parando nas minhas mĂŁos.

Não dava para negar que essa relíquia era defeituosa, mas também não dava para negar que ela me fazia voar. Ela tinha vårios problemas: eu não conseguia controlå-lo com precisão, e ela priorizava propulsão em vez de manipulação da gravidade, então pairar no ar estava fora de questão (ao contrårio de outras relíquia de voo). Mas, ei, pelo menos eu podia voar, e essa coisa era absurdamente råpida. Råpida demais para qualquer um usar com segurança.

Cada relíquia era baseado em algum item da história. Eu realmente gostaria de sentar com o inventor do item original e dar uma boa palestra sobre noçÔes båsicas de segurança no voo.

Quando percebi, jå tinha percorrido uma distùncia que levaria uma aberração qualquer cerca de uma hora para correr, mesmo no ritmo sobre-humano deles. Agora, eu estava voando sobre a floresta. Percorrer esse matagal a pé desviando das årvores densas, pulando sobre pedras, raízes e galhos seria exaustivo. Mas esse não era o meu problema. Eu simplesmente cortava o céu acima das copas. Os påssaros e animais da floresta piavam e guinchavam quando eu passava zunindo, mas quem deveria estar gritando era eu.

Logo, com minha visĂŁo trĂȘmula, de algum jeito consegui avistar o cofre do tesouro: um buraco enorme no meio de uma clareira. NĂŁo havia outros cofres em formato de caverna na regiĂŁo, entĂŁo nĂŁo podia ser outro. O problema era que… o meu manto nĂŁo tinha freios.

Cravando os dentes, desviei para a esquerda e mergulhei direto no buraco.

***

Fantasmas nĂŁo eram criados aleatoriamente nem eram invencĂ­veis. Assim como cada RelĂ­quia se materializava com base em um item que jĂĄ existiu em algum lugar do mundo, cada fantasma nascia Ă  imagem de uma criatura que um dia vagou pelo mundo. Isso significava que aqueles lobisomens enormes e suas lĂąminas realmente existiram antes.

Gilbert bloqueou uma das lùminas com sua espada grande. Seus braços rangeram e suas pernas quase cederam sob a força do golpe descendente do lobo, mas mesmo assim, Gilbert se manteve firme.

Os cavaleiros-lobo, os fantasmas lupinos armados com vĂĄrias armas, possuĂ­am uma força terrĂ­vel e uma resistĂȘncia impressionante, alĂ©m de uma destreza que nĂŁo combinava com seus corpos enormes. Embora o grupo tivesse enfrentado apenas alguns deles, logo perceberam que a força dos lobos superava a de Gilbert e que sua destreza era comparĂĄvel Ă  de Rhuda.

Os fantasmas superavam os caçadores humanos tanto em resistĂȘncia quanto em vigor. Cada ataque dos lobos representava um sĂ©rio risco de ferimento. Embora Tino estivesse mais acostumada a lidar com ameaças desse nĂ­vel, o mesmo nĂŁo podia ser dito sobre os outros membros do grupo, que normalmente exploravam covis mais seguros. Ainda assim, havia uma vantagem que o grupo de Tino possuĂ­a sobre seus temĂ­veis inimigos: trabalho em equipe.

Enquanto Gilbert segurava a lùmina do cavaleiro-lobo com a sua, Greg avançou e usou sua espada longa para perfurar a junta entre a manopla e o bracelete da criatura. Quando o fantasma afrouxou a pegada na espada grande, Gilbert a desviou para a esquerda, fazendo com que a lùmina do lobo atingisse o chão ao lado dele.

O cavaleiro-lobo rugiu de raiva, olhando para os dois espadachins com puro ódio assassino. Então, de repente, a fera colossal tombou, seus olhos ainda arregalados. Tino havia se aproximado sorrateiramente por trås do cavaleiro, saltado quase até o teto e cravado sua lùmina na parte de trås do pescoço dele. A adaga vermelho-escura que segurava com as duas mãos era um item de sorte, um troféu deixado por um dos cavaleiros-lobo derrotados no covil.

Tino colocou todo o seu peso no golpe, cortando atravĂ©s da pele espessa, mĂșsculos e ossos, atravessando metade do pescoço do cavaleiro-lobo. Morto no impacto, o fantasma se dissipou sem nem mesmo soltar um uivo. Tino pousou silenciosamente no chĂŁo.

Gilbert observou o cavaleiro-lobo desaparecer e soltou um suspiro de alívio, seu rosto demonstrando um leve cansaço.

— Ha, conseguimos.

Greg franziu a testa ao ver suas mãos avermelhadas pelo esforço de perfurar a pele resistente do lobo.

— Essa missão está ficando menos vantajosa a cada minuto — resmungou.

Todos estavam se esforçando ao måximo para conseguir cortar a pele dura dos lobos.

Como Tino havia previsto, o interior do covil era pequeno demais para que os cavaleiros-lobo se movessem livremente. Além da largura limitada, o teto era tão baixo que as cabeças dos lobos quase raspavam nele. Isso significava que os lobos não podiam saltar como o vira-lata que emboscara o grupo anteriormente. Por outro lado, a pressão de enfrentar fantasmas gigantes em um espaço escuro e claustrofóbico corroía a moral do grupo.

Depois de acertar o golpe certeiro no pescoço do lobo, Tino avaliou a batalha com a mesma expressão inalterada de sempre.

— NĂŁo Ă© difĂ­cil derrotĂĄ-los com os quatro de nĂłs. Eles podem ser poderosos, mas nĂŁo pensam em lutar juntos.

Essa era a maior fraqueza dos cavaleiros-lobo e a chave para a vitĂłria do grupo. Por mais temĂ­veis que fossem, eles nĂŁo possuĂ­am senso de cooperação. Ignoravam os companheiros feridos e simplesmente avançavam contra o inimigo. Mesmo quando vĂĄrios cavaleiros-lobo apareciam ao mesmo tempo, Tino conseguia atrair todos, exceto um, para longe, permitindo que os outros trĂȘs eliminassem o lobo isolado. Essa tĂĄtica era arriscada por si sĂł, mas eficaz em um ambiente como aquele, onde feras perigosas espreitavam a cada canto.

— E eu já consegui uma arma — acrescentou Tino.

— Se ao menos conseguissem deixar cair mais uma
 — Greg resmungou.

Tino preferia lutar de mĂŁos vazias, mas isso nĂŁo funcionava contra os cavaleiros-lobo. Embora carregasse uma adaga curta para nĂŁo atrapalhar seus movimentos, nesse caso, a lĂąmina nĂŁo tinha poder nem alcance suficientes. Encontrar uma arma capaz de eliminar um cavaleiro-lobo com um golpe certeiro em um ponto fraco foi uma grande sorte.

Rhuda suspirou aliviada, depois de ter se dedicado a vigiar os arredores e identificar aberturas.

Apesar da tensão e do cansaço, a exploração do grupo estava indo bem. Com dois LadrÔes na equipe, eles não precisavam se preocupar com emboscadas. Evitar os cavaleiros-lobo não era difícil, jå que as feras normalmente vagavam sozinhas pelo covil.

Mesmo quando precisavam lutar, a improvisada cooperação do grupo os ajudava a sair vivos. Gilbert tinha a resistĂȘncia necessĂĄria para sustentar sua postura, e Greg possuĂ­a experiĂȘncia suficiente para acompanhar o ritmo dos companheiros. Tudo o que a dupla precisava fazer era impedir o avanço de um cavaleiro-lobo para que Tino pudesse finalizĂĄ-lo. Alternativamente, se Tino distraĂ­sse um cavaleiro-lobo, eles assumiam a execução.

Rhuda, embora nĂŁo participasse diretamente do combate, tinha um papel fundamental. Se nĂŁo fosse por Tino, ela seria a Ășnica batedora do grupo, e sua presença permitia que Tino focasse exclusivamente na luta. O equilĂ­brio da equipe era frĂĄgil e poderia ruir se qualquer um deles se ferisse, mas, atĂ© o momento, estavam avançando pelo covil sem maiores problemas.

Tudo parecia calculado e premeditado, até mesmo a arma caída antes. Por mais absurda que essa ideia parecesse, Tino não conseguia evitar esse pensamento.

— O Mestre estava certo. O Mestre Ă© o melhor — murmurou para si mesma.

— E-Er
 certo — Greg respondeu hesitante.

Líderes de grupos e clãs, que precisavam comandar caçadores acostumados a agir por conta própria, tinham que ser carismåticos. A confiança cega de Tino em seu mestre parecia exagerada para Greg, que não havia sentido nem um pingo de carisma no homem quando o conheceu. Greg confiava nos olhos treinados que desenvolveu ao longo dos anos caçando tesouros e não percebeu nele o brilho que grandes caçadores costumavam ter. No evento de recrutamento, quando disseram a ele quem era Krai, ele achou que fosse uma piada.

Mesmo agora, depois de descobrir que Krai era o lendĂĄrio “Mil Truques”, Greg ainda nĂŁo conseguia acreditar—nem levar a sĂ©rio a ideia de que cada passo dessa missĂŁo havia sido calculado. Ele atĂ© teria pensado que Krai alcançou o nĂ­vel 8 atravĂ©s de contatos e subornos, mas a confiança inabalĂĄvel de Tino—uma caçadora extremamente habilidosa—no mestre impedia Greg de argumentar.

Greg nĂŁo queria causar conflito durante a caçada, entĂŁo engoliu suas palavras. Se o grupo voltasse vivo, ele teria oportunidades para testar por si mesmo o suposto “gĂȘnio” de Krai. Por enquanto, precisava focar em sobreviver Ă quele bizarro cofre do tesouro.

Os ombros de Tino tremeram enquanto ela olhava para Greg, que guardava sua espada longa na bainha.

— Tem que ter mais. Isso nĂŁo Ă© nada comparado Ă s provaçÔes normais do Mestre.

— HĂŁ? Do que vocĂȘ tĂĄ falando? — Gilbert perguntou, expressando a dĂșvida dele e de Greg.

Qualquer caçador em sĂŁ consciĂȘncia jĂĄ teria fugido daquele covil. Caçadores esperam o inesperado ao entrar em um cofre do tesouro desconhecido, mas eventos como aqueles eram sinais de uma grande anomalia. Nem Rhuda, nem Greg, nem Gilbert conseguiam imaginar uma provação mais difĂ­cil do que essa.

— Vamos continuar com cautela — declarou Tino. — NĂŁo havia sinal de ninguĂ©m perto da entrada—nem corpos, nem pertences. Eles devem estar mais adiante.

***

Todos os sentidos de Gilbert Bush estavam em alerta mĂĄximo, desobstruĂ­dos pelo cansaço. O ar eletrizante do campo de batalha, o fedor pĂștrido e os poderosos espectros nunca antes vistos lhe causavam mais euforia do que medo.

— Eu nĂŁo aguento mais. NĂŁo consigo te acompanhar. Eu desisto. — disse um jovem do antigo grupo de Gilbert no dia anterior Ă  sua partida. Eles estavam juntos desde o primeiro dia de Gilbert na cidade. O rapaz era trĂȘs anos mais velho e mais experiente, mas tambĂ©m notavelmente menos habilidoso. Ele se dedicava ao mĂĄximo, sempre buscando melhorar e pedindo conselhos a outros caçadores. Mesmo assim, Gilbert o deixou para trĂĄs.

Gilbert também sempre se esforçava ao måximo. Na época, desprezou a decisão do companheiro, assim como a dos demais membros do grupo que seguiram o mesmo caminho. Mas agora, se encontrando em um cofre de tesouros muito acima do seu nível, começava a entender o que eles sentiram. A decisão dos seus ex-companheiros foi por todos, e agora Gilbert achava que deveria ter sido mais compreensivo com os sentimentos deles.

Mais do que isso, porém, lutar ao lado de companheiros de igual ou maior habilidade era uma emoção indescritível. Até então, ele sempre caçara com o mesmo grupo, exceto por algumas colaboraçÔes temporårias, e todos eram mais fracos do que ele. Mas agora, ele tinha aliados em quem podia confiar.

Greg não era tão håbil com a espada quanto Gilbert, mas era ågil o suficiente para acertar as juntas na armadura dos lobos. O salto de Tino para o golpe decisivo no pescoço da criatura havia sido simplesmente espetacular. Rhuda, por sua vez, não conseguiu causar dano significativo aos lobos com sua arma modesta, mas cumpriu perfeitamente seu papel como Ladina identificando inimigos, distraindo-os e executando manobras que exigiam um nível de destreza que Gilbert simplesmente não possuía.

Enfrentar o formidåvel cavaleiro lobo em equipe reacendeu algo dentro de Gilbert, uma sensação que ele não experimentava havia muito tempo. Seu coração disparava com a adrenalina, alimentando sua determinação conforme avançava. A cada batalha, sua espada parecia mais leve. Jå haviam se passado algumas horas desde que entraram no cofre, mas Gilbert não demonstrava sinais de cansaço.

— Se divertindo, garoto? — Greg perguntou.

— Ha! Eu só estou começando.

No inĂ­cio, Gilbert teve dificuldade para segurar os golpes de um cavaleiro lobo, mas agora, quando suas espadas se chocavam, ele jĂĄ conseguia revidar. NĂŁo era que ele estivesse se segurando antes, tanto fisicamente quanto mentalmente, Gilbert estava ficando mais forte.

Outro cavaleiro lobo desabou no chão, e Gilbert respirou pesadamente, seus ombros subindo e descendo com o esforço. Ele olhou para sua espada com um suspiro de frustração.

— Se ao menos houvesse mana aqui dentro!

A Espada Purgatória havia perdido completamente sua utilidade como uma Relíquia, mas nem Gilbert nem ninguém no grupo tinha mana suficiente para recarregå-la. Se ele pudesse ativar a habilidade da espada, seria muito mais fåcil lidar com os cavaleiros lobo. Mesmo que não fosse capaz de realizar façanhas como as do Mil Truques, ao menos conseguiria queimar as lùminas espectrais dos inimigos. Isso tornaria a exploração muito mais tranquila.

— VocĂȘ nem deveria estar usando uma RelĂ­quia ainda — Tino zombou. — Depender de uma relĂ­quia sĂł te deixa enferrujado. É por isso que eu nĂŁo uso um.

Gilbert jĂĄ estava acostumado com a condescendĂȘncia da sua pequena lĂ­der.

— EntĂŁo vocĂȘ nĂŁo tem um? — ele perguntou simplesmente.

Agora que pensava nisso, nunca vira Tino usando uma relíquia. Para alcançar o Nível 4, um caçador geralmente precisava explorar cofres de tesouro suficientes para encontrar algumas relíquias, independentemente da qualidade. Como membro de um grande clã, ela também poderia ter recebido um de presente de um companheiro. Ele a observou com curiosidade.

Tino se sacudiu para tirar a poeira.

— Uma relĂ­quia Ă© um trunfo. NĂŁo deve ser usado em batalhas normais, e vocĂȘ nĂŁo deve se jogar em lutas onde precise dele para vencer. Parte dessa missĂŁo Ă© para te ensinar isso. Eu tenho certeza. O Mestre nĂŁo drenou a mana da sua espada por capricho.

— Que professor maravilhoso
 — Gilbert resmungou. Ele achava essa histĂłria um tanto absurda, mas o fato de Tino nunca usar uma relĂ­quia parecia dar crĂ©dito Ă  sua explicação. AlĂ©m disso, ela jĂĄ havia passado por cima dele quando lutaram apenas com as mĂŁos. Ele olhou novamente para a Espada PurgatĂłria.

— Por isso, todas as relĂ­quias que eu encontro em cofres sĂŁo entregues ao Mestre atravĂ©s da Lizzy, minha mentora. O Mestre avalia a RelĂ­quia e, se for bom, ele me leva para tomar sorvete. O Mestre sabe de tudo.

A pĂĄlpebra de Greg se contraiu.

— Parece que ele só está te usando para pegar relíquias.

— NĂŁo. O Mestre nĂŁo gosta de doces, mas me leva mesmo assim. O Mestre Ă© o melhor.

Gilbert concordava com Greg, mas ao ver a seriedade de Tino, decidiu ficar calado.

***

Depois de quase uma hora de caminhada, o grupo chegou a um espaço aberto. A exausta Rhuda usou as costas da mão para enxugar o suor da testa antes de observar lentamente a årea. Era grande o suficiente para que vårios cavaleiros-lobo ficassem lado a lado.

Tino respirava calmamente, suas roupas impecáveis e sua expressão tão serena quanto quando entraram na cñmara. — Devemos estar perto do covil do alfa. Antes, este era o domínio do alfa Lua Prateada, antes da toca se tornar um cofre do tesouro — disse ela.

Greg fez uma careta. — A sala do chefe… Querem descansar um pouco?

“Sala do chefe” era um termo usado pelos caçadores para se referir ao coração de um cofre do tesouro, onde um fantasma especialmente poderoso tinha maior probabilidade de aparecer. Afinal, fantasmas nĂŁo se materializavam aleatoriamente.

De modo geral, quanto mais fundo alguĂ©m avançava em um cofre, mais fortes os fantasmas se tornavam devido Ă  alta concentração de matĂ©ria de mana. Cofres histĂłricos, em especial, tinham locais especĂ­ficos que geravam os fantasmas mais poderosos. Se o cofre fosse um castelo, a sala do chefe provavelmente seria a sala do trono; se fosse uma torre, estariam no andar mais alto; e se fosse um navio, o melhor palpite seria os aposentos do capitĂŁo. Neste caso, a sala do chefe era o covil do alfa. NĂŁo havia garantia de que um “chefe” realmente apareceria, mas era preciso cautela ao se aproximar do local.

Tino reavaliou seu grupo. Rhuda estava no NĂ­vel 3, enquanto o restante estava no NĂ­vel 4. Quando um caçador alcançava o NĂ­vel 3, sua resistĂȘncia fĂ­sica era reforçada pela absorção contĂ­nua da matĂ©ria de mana. Cada batalha no cofre, atĂ© aquele momento, havia sido uma luta pela sobrevivĂȘncia, mas Gilbert e Rhuda ainda podiam continuar. Suas expressĂ”es mostravam certo cansaço, mas nĂŁo o suficiente para que parassem.

Gilbert notou o olhar de Tino e ergueu o punho. — Posso continuar por dias.

— Aguento mais algumas batalhas — acrescentou Rhuda.

Nenhum lugar dentro de um cofre do tesouro era realmente seguro. Se alguém no grupo tivesse a habilidade de erguer uma barreira, poderiam garantir um certo grau de proteção para descansar, mas nenhum deles possuía essa capacidade. Além disso, havia uma boa chance de que um cavaleiro-lobo patrulheiro os encontrasse. Descansar ali não significava, necessariamente, recuperar as energias.

Tino tomou sua decisĂŁo, eles avançariam. Descansar quando possĂ­vel era essencial para a sobrevivĂȘncia do grupo, mas, naquele momento, todos estavam bem. O melhor era resolver a questĂŁo da sala do chefe enquanto ainda estavam em boa forma.

— Vamos verificar a sala do chefe primeiro — declarou Tino. — Os caçadores perdidos devem estar por perto, entĂŁo Ă© melhor pegĂĄ-los e sair daqui.

— Tudo bem, chefe. Vamos nessa.

Greg respirou fundo e virou-se para a sala do chefe.

Cuidadosamente, sem fazer barulho, o grupo seguiu pela lateral do caminho em direção Ă  sala do chefe. A Ășnica iluminação no covil vinha de uma sĂ©rie de pedras brilhantes colocadas a alguns metros de distĂąncia uma da outra, provavelmente deixadas por caçadores que estiveram ali antes.

A cerca de dez metros da sala do chefe, Tino parou. Ela fechou os olhos e pressionou a palma da mão contra a parede de terra. Concentrou-se inteiramente nos sons e cheiros do covil, buscando qualquer sinal de vida à distùncia. Sentiu o fluxo de ar frio passando por seu rosto e ouviu os batimentos cardíacos e as respiraçÔes contidas de seus aliados.

Depois de um tempo, soltou um longo suspiro. — Tem alguma coisa lá.

Greg resmungou. — Alguma chance de serem os caçadores perdidos?

— Provavelmente Ă© o chefe. As missĂ”es do mestre geralmente envolvem um grande chefe.

— SĂ©rio?

Greg nĂŁo sabia se deveria estar surpreso ou desconfiado.

Os fantasmas que apareciam em salas de chefe eram sempre um ou dois níveis acima dos outros encontrados nos cofres. Julgando pela força dos cavaleiros-lobo que enfrentaram até ali, o chefe não deveria ser impossível de derrotar.

Mas, de acordo com os padrĂ”es de caça ao tesouro, essa era uma jogada arriscada. Normalmente, a sala do chefe seria habitada por uma Lua Vermelha especialmente grande e poderosa, mas desta vez, o grupo nĂŁo podia contar com isso. Para piorar, nĂŁo haviam encontrado uma Ășnica relĂ­quia no cofre. Outros caçadores certamente nĂŁo estavam perdendo tempo.

— Não deveríamos fugir? — sugeriu Greg.

As sobrancelhas bem desenhadas de Tino se franziram levemente. — VocĂȘ jĂĄ disse isso. Mas, atĂ© agora, passamos por tudo sem problemas. Podemos lidar com o chefe.

Greg fez uma careta, digerindo as palavras de Tino. Ela tinha razão, mas ele ainda hesitava em concordar. Os cavaleiros-lobo eram muito mais fortes do que os fantasmas que ele costumava enfrentar. A maior preocupação de um caçador era a própria segurança. Uma regra båsica para decidir se valia a pena entrar em um cofre era avaliar se conseguiriam derrotar os fantasmas sozinhos.

Se Greg soubesse do estado atual do Covil do Lobo Branco, ele não teria se juntado ao grupo. A missão em que se meteram era praticamente um favor, sem grandes recompensas em dinheiro ou relíquias. Ele havia aceitado o convite mais por curiosidade, jå que um membro dos Primeiros Passos o chamou. Se um caçador aleatório tivesse feito o mesmo convite, ele teria rido da cara deles no bar especialmente se soubesse que enfrentaria fantasmas tão acima do seu nível habitual.

Greg passou a mĂŁo pelo cabo da espada longa presa ao cinto. NĂŁo era uma espada de qualidade excepcional, mas ele a cuidava bem hĂĄ anos.

— VocĂȘ Ă© cauteloso demais para alguĂ©m com essa cara — disse Tino.

O restante do grupo olhou para ela.

— NĂŁo crescemos com missĂ”es fĂĄceis. VocĂȘ Ă© um bom caçador, Greg. Ser cauteloso nĂŁo Ă© ruim, mas se quiser fazer mais do que apenas sobreviver, precisa correr riscos.

— Mas eu…

Greg ficou sem palavras. Ele tinha que admitir, a garota tinha um ponto.

A taxa de mortalidade entre caçadores de tesouros era alta, especialmente entre iniciantes. Quanto mais tempo alguém permanecia na profissão, menos provåvel era que morresse. Em parte, isso acontecia porque melhoravam suas habilidades, mas, principalmente, porque caçadores experientes evitavam riscos, jogavam pelo seguro e nunca enfrentavam inimigos que tinham chances de derrotå-los. Muitos ficavam presos no Nível 3, enquanto caçadores mais jovens subiam rapidamente nas classificaçÔes, como Gilbert.

Tino olhou nos olhos de Greg. — Greg, acho que vocĂȘ veio para os Primeiros Passos porque queria mudar isso.

— Eu…

Greg mordeu o lĂĄbio, incapaz de responder.

Tino entĂŁo se virou para o restante do grupo. — NĂŁo me digam que acham que meu mestre escolheu vocĂȘs aleatoriamente. Ele nunca faria isso. Tudo isso estĂĄ de acordo com seus cĂĄlculos meticulosos. Como eu disse, meu mestre Ă© o melhor.

Greg estremeceu ao lembrar do título: Mil Truques, o lendårio caçador de Nível 8.

Rhuda levantou a mĂŁo timidamente. — EntĂŁo… por que eu fui convidada?

Tino a encarou de cima a baixo, seus olhos pousando nos seios fartos de Rhuda. Sua expressão ficou mais séria do que quando enfrentava os fantasmas.

No fim, Tino resmungou. — Não sei. Provavelmente por causa desses peitos enormes. Eu ainda vou crescer. Diferente da Lizzy, que já parou.

— O quĂȘ?!

— Chega de papo. Vamos acabar logo com o chefe. Eu vou na frente.

— Ei, espera! O que vocĂȘ quer dizer com isso?!

Ignorando a indignação de Rhuda, Tino avançou em direção à sala do chefe.

Cavaleiros-lobo eram fantasmas imponentes poderosos, resistentes e ĂĄgeis. Sua agressividade os tornava adversĂĄrios temĂ­veis, mas em termos de agilidade, eles estavam muito abaixo de Tino.

Tino havia sido treinada por Liz Smart, uma Ladina habilidosa, e jå havia lutado incontåveis vezes contra sua mentora. Depois de tantas surras de alguém muito mais råpida que ela, seus olhos conseguiam acompanhar cada movimento dos cavaleiros-lobo, cujos ataques eram bem mais lentos do que os que enfrentava em seus treinamentos. Mesmo que o chefe fosse alguns níveis acima, ela ainda conseguia acompanhå-lo.

O problema era saber se o grupo conseguiria atravessar aquela pelagem grossa e resistente como uma armadura. Derrotar fantasmas nĂŁo era exatamente o trabalho de uma Ladina. Por isso, a maior parte do treinamento de Tino havia sido focada em aprimorar sua agilidade, e nĂŁo em aprender a matar.

— Acho que ele está sozinho. Vamos acabar com isso antes que outros fantasmas apareçam.

Seu grupo se preparou. Os dois combatentes da linha de frente sacaram suas armas, enquanto Rhuda desembainhou sua adaga e deu um passo para trås, assumindo a posição de vigia para impedir qualquer ataque surpresa. Era um papel essencial para evitar que o grupo ficasse encurralado entre dois grupos de fantasmas, jå que nenhum deles conseguiria lidar sozinho com um cavaleiro-lobo.

— Não sabemos o que tem lá dentro. Por que não deixamos que eu vá na frente? — sugeriu Gilbert.

Tino respirou fundo e sorriu.

— NĂŁo precisa se preocupar. Lizzy sempre diz que o primeiro golpe define o ritmo da batalha, entĂŁo esse Ă© meu.

— Ritmo? Essa Ă© a parte mais perigosa! Por que importa quem ataca primeiro?

Tino alongou os braços e as pernas. Depois de terminar seu aquecimento, assentiu.

— Porque eu sou uma caçadora.

Dizendo isso, ela disparou em direção à sala do chefe.

***

A sala do chefe era espaçosa, com pelo menos dez metros de diĂąmetro. AlĂ©m do tĂșnel por onde Tino entrou, passagens estreitas se ramificavam para a esquerda e para a direita. O teto era muito mais alto do que o restante da toca, o suficiente para acomodar dois cavaleiros lobo empilhados um sobre o outro. O grupo havia descido muito mais do que Tino havia percebido.

No entanto, mesmo essa ampla sala parecia apertada ao redor da figura colossal no centro: um lobo gigantesco empunhando um machado de batalha carmesim do tamanho do corpo inteiro de Tino.

O próprio lobo, coberto dos ombros até as juntas com uma armadura negra de placas, era substancialmente maior do que os cavaleiros lobo que o grupo havia enfrentado até então. Combinado com sua estatura imponente, prometia uma batalha ainda mais perigosa do que qualquer uma das que haviam travado na toca. O que mais o diferenciava, porém, era sua pelagem prateada como a lua, brilhando de forma sinistra em contraste com o pelo vermelho-sangue dos cavaleiros lobo. Seu feroz rosto prateado estava parcialmente coberto por um crùnio humano, como se quisesse demonstrar seu desprezo por toda a humanidade.

As orelhas caninas do espectro se moveram. Sem pressa, o cavaleiro lobo prateado, reminiscente dos extintos Luas Prateadas, fixou Tino com seu olhar. O lobo carregava a dignidade de um rei.

Nos olhos da fera, Tino viu sua intenção selvagem de despedaçar e massacrar os invasores. O lobo uivou no momento em que Tino disparou para o lado. Comparada àquela criatura imensa, Tino era apenas um rato correndo a uma velocidade irritante.

O olhar do lobo a seguiu, e seus olhos encontraram os de Tino mais uma vez. O rei lobo girou seu machado, as placas de sua armadura rangendo com o atrito. Tino controlou a respiração, sentindo o fedor bestial no ar.

Ela jå esperava enfrentar um lobo completamente coberto de armadura, mas isso não tornava suas chances melhores. Nem mesmo seus chutes mais poderosos seriam capazes de quebrar aquela proteção. Se tentasse um golpe contra aquelas placas impenetråveis e machucasse sua perna, estaria acabada. Uma queda em sua agilidade agora significaria morte certa. Com o tamanho colossal da criatura, Tino nem sequer tinha certeza se conseguiria desequilibrå-la. Seu coração se apertou em apreensão e ainda mais em excitação.

A lùmina do machado, com pelo menos um metro de comprimento, veio em sua direção. Machados de batalha eram armas difíceis de controlar, pois a maior parte do peso ficava concentrada na lùmina. Manter a postura enquanto brandia a arma exigia uma força descomunal, mas o rei lobo a manejava como se fosse um mero galho de madeira.

Com um movimento preciso, Tino se esquivou para o lado. Como um pĂȘndulo, a lĂąmina passou zunindo ao seu lado, cortando o ar e soltando uma rajada de vento poderoso. Se um golpe tĂŁo forte sequer a roçasse, Tino seria arremessada pelo impacto.

Os olhos vermelho-sangue do lobo, transbordando de Ăłdio visceral, seguiram cada movimento de Tino. A fera imponente girou o corpo, e um Ășnico passo seu fez as paredes tremerem. Apesar de seu tamanho, o lobo estava longe de ser lento. Aquele monstro era forte.

Ainda abalada pelo ataque brutal, Tino tentava encontrar uma estratégia para vencer. Ela tinha certeza de que poderia fugir, se quisesse. Mas derrotå-lo? Essa era outra história. Mesmo Gilbert teria dificuldades para bloquear aquele machado, e a Espada Purgatória não teria a menor chance de atravessar sua armadura.

Tino deslizou por baixo do braço erguido do lobo e desferiu um golpe com sua adaga curta contra sua perna blindada. O som metålico ecoou pela sala, mas tudo o que restou foi um arranhão insignificante. O lobo sequer se moveu.

Pior ainda: ele era inteligente. Mesmo com os olhos ardendo em fĂșria, o lobo mantinha sua guarda erguida. Diferente dos outros cavaleiros lobo que haviam enfrentado, um ataque surpresa nĂŁo surtiria efeito.

O restante do grupo de Tino chegou Ă  sala do trono e parou ao ver o rei lobo de costas. O plano era que Tino distraĂ­sse o chefe enquanto os outros atacavam, mas assim que viram a criatura, perceberam que ela estava alerta demais para cair em uma armadilha tĂŁo simples.

Gilbert e Greg rapidamente mudaram de abordagem. Sacando suas espadas, dividiram-se para cercar o lobo pelos flancos.

— O que diabos Ă© essa coisa?! — gritou Gilbert, arregalando os olhos ao encarar o machado balançando no ar.

Greg vasculhava o oponente em busca de uma abertura. — Nunca vi nada parecido! — exclamou.

Em alerta total, Rhuda manteve alguns passos de distùncia, analisando o monstro dos pés à cabeça.

Mesmo cercado por quatro inimigos, o lobo prateado permaneceu impassĂ­vel, como um rei em seu tribunal.

Tino chegou a uma conclusão: eles teriam que mirar na cabeça. Embora o chefe fosse muito mais forte que os cavaleiros lobo comuns, ele não usava um capacete. Isso significava que sua fraqueza provavelmente era a mesma.

O problema era que ele era muito mais alto do que qualquer inimigo que haviam enfrentado atĂ© entĂŁo. Tino precisaria dar um salto tremendo para alcançar sua cabeça e, nesse momento, ficaria totalmente vulnerĂĄvel. Atacar por trĂĄs tambĂ©m nĂŁo funcionaria, pois o lobo os afastaria com um Ășnico golpe.

O rei lobo mantinha os olhos em todos os humanos presentes, mas sua atenção estava, em grande parte, focada em Tino. Seu comportamento revelava uma inteligĂȘncia quase humana.

— Qual Ă© o plano? — perguntou Gilbert.

— Quer recuar? — Greg sugeriu.

Felizmente, nenhum deles estava dominado pelo medo. Tino jå havia visto sua coragem diversas vezes durante a jornada até ali. Se seus companheiros fossem covardes, teriam fugido muito antes de entrarem na toca. Se tinham alguma chance de vitória, era graças a essa coragem.

Tino conseguia lidar com um cavaleiro lobo sozinha, mas contra esse chefe, nĂŁo havia chance. Mas agora, ela nĂŁo estava sozinha. Ela tinha aliados, companheiros que haviam lutado ao seu lado para chegarem atĂ© ali. E ao encarar o lobo ardendo em fĂșria, Tino compreendeu o significado daquela provação.

Krai Andrey frequentemente enviava membros do clã para testes de vida ou morte. Os Pranteadores chamavam esses desafios de os Mil Desafios. Essas provaçÔes eram o primeiro passo para a glória.

Tino sabia o que precisava fazer.

— Segurem um golpe. Eu resolvo o resto.

***

Gilbert rugiu, sinalizando o inĂ­cio da luta.

Rhuda nunca havia experimentado uma batalha tĂŁo turbulenta. O enorme machado de batalha cortava o ar como um tornado. Armado com a Espada PurgatĂłria, Gilbert aparava os golpes do machado que vinham de cima e dos lados. Seus nĂłs dos dedos ficavam mais brancos a cada choque da lĂąmina.

Embora a espada de Gilbert fosse grande por si só, ela parecia pequena em comparação com o machado de batalha do rei lobo. Os golpes eram relativamente lentos, mas incrivelmente poderosos, forçando Gilbert a recuar um pouco a cada defesa.

BloqueĂĄ-lo de frente nĂŁo era uma opção. Por mais imprudente que fosse, em seus vĂĄrios anos como caçador, Gilbert tinha alguma experiĂȘncia enfrentando inimigos mais fortes do que ele. Seu rosto estava coberto de suor e sua respiração era pesada, mas ele conseguiu se manter firme, desviando golpe apĂłs golpe mortal.

Enquanto isso, Greg cortava e perfurava o lobo entre os parries de Gilbert. No entanto, os ataques råpidos de Greg contra o pulso, o cotovelo e o cabo do machado do lobo não faziam mais do que desacelerå-lo por uma fração de segundo.

— Droga, a armadura dele Ă© muito resistente! — gritou ele.

O rei lobo não era um lutador particularmente habilidoso, pelo menos, menos håbil que os quatro humanos que o enfrentavam. Ainda assim, a besta usava sua força bruta, agilidade e tamanho para sobrepujar os caçadores. Seu machado de batalha girava no ar em direção a Greg e Gilbert, enquanto mantinha Tino à distùncia, presa no ponto cego do lobo.

NĂŁo havia dĂșvidas, aquele cavaleiro lobo prateado estava avaliando seus oponentes. Sua prioridade nĂŁo era nem Gilbert, com sua grande espada, nem Greg, o maior membro do grupo, mas sim Tino, a lĂ­der esguia da equipe. Rhuda estremeceu diante desse nĂ­vel de inteligĂȘncia, inteligĂȘncia que nunca vira antes em um fantasma mas, ao mesmo tempo, admirou seus companheiros ao vĂȘ-los enfrentando o lobo.

Tino desviou do machado de batalha por um fio de cabelo. Algumas mechas de seu cabelo negro e brilhante foram cortadas pela lĂąmina. O suor reluzia em seu rosto enquanto o machado passava, mas seus olhos continuavam abertos. Ela nĂŁo sentia medo, e Rhuda nĂŁo conseguia entender como isso era possĂ­vel.

Como Tino conseguia se mover assim? Como conseguia se abaixar com tanta calma sob um ataque que teria arrancado sua cabeça se ela tivesse se movido um segundo depois? Tino não era tão råpida. Não importava o quão ågil fosse, ela não conseguia ser mais veloz do que o machado oscilante.

Enquanto Tino dançava ao redor do enorme machado e da ameaça iminente da morte, Rhuda viu nela a verdadeira coragem. Aquilo a tocou. Até então, sempre trabalhara sozinha e nunca havia testemunhado um Ladrão superior em ação, exceto nos campos de treinamento da Associação. Mesmo assim, havia visto talento, mas nada que a tivesse impactado tão profundamente. Algo em Tino, na maneira como ela se recusava a recuar diante de um inimigo tão assustador, ressoou em Rhuda como nada antes.

O trabalho de um Ladrão não era lutar. Na verdade, talvez Tino sequer devesse ter entrado em combate. Ainda assim, Rhuda estremeceu de admiração pela garota um pouco mais jovem que ela.

— Droga! Ele não tá diminuindo o ritmo! — rosnou Gilbert, entre os dentes cerrados, depois de desviar de incontáveis golpes do machado.

Fantasmas, assim como pessoas, tinham resistĂȘncia limitada, mas os golpes do lobo nĂŁo mostravam sinais de enfraquecer. A cada aparo, os braços de Gilbert sofriam uma tensĂŁo inimaginĂĄvel. Se sua espada nĂŁo fosse uma relĂ­quia, jĂĄ teria se despedaçado.

Os violentos choques de metal contra metal ecoavam pela caverna mal iluminada. Gilbert e Greg esquivavam-se do machado de batalha a cada oscilação. Era uma luta equilibrada, mas mesmo Rhuda conseguia perceber, de longe, que o rei lobo estava em vantagem. Era um milagre que nenhum deles tivesse sofrido ferimentos graves. Mas milagres não duram para sempre.

— O quĂȘ?! — alguĂ©m exclamou.

Um estalo metĂĄlico foi seguido por metade de uma lĂąmina voando pelo ar. De olhos arregalados, Gilbert e Tino seguiram a lĂąmina, mas Greg estava ainda mais surpreso do que eles. Ele segurava metade de sua espada longa em uma das mĂŁos. A outra metade caiu no chĂŁo prĂłximo.

Rhuda e o lobo prateado foram os primeiros a reagir.

O tempo desacelerou. Rhuda viu o focinho do lobo se contorcer em um sorriso sinistro, seus olhos fixos em Greg. O machado de batalha se ergueu no ar.

Por instinto, Rhuda atirou sua adaga, que voou em direção ao rosto do lobo. Foi um movimento impulsivo. Mesmo que a adaga atingisse o rei lobo, o crùnio humano que ele usava e sua pelagem espessa impediriam que o golpe causasse qualquer dano real.

No entanto, o cavaleiro lobo reagiu rapidamente ao projétil. Inclinando o machado de batalha, ele desviou a adaga, dando aos humanos um segundo precioso tempo suficiente para Gilbert sair de seu estado de choque e interceptar o machado em queda.

Aparar o machado significaria jogå-lo contra Greg, então Gilbert bloqueou a lùmina de frente, usando cada gota de sua força para segurå-la. A luta durou apenas um instante antes de os joelhos de Gilbert cederem, lançando-o para trås. No entanto, ele havia comprado mais um segundo.

Quando o machado caiu novamente, Rhuda jĂĄ havia cruzado a sala em disparada. Ela nĂŁo podia se abster de lutar quando o grupo mais precisava dela. A lĂąmina do machado passou sobre suas costas, cortando o ar onde Greg estava um segundo antes. A lĂąmina fez um estrondo alto ao cravar-se no chĂŁo. Greg e Rhuda caĂ­ram rolando, virando-se para encarar o rei lobo. Agora estavam completamente vulnerĂĄveis e teriam sido eliminados… se Tino nĂŁo tivesse entrado em ação.

A LadrĂŁo jĂĄ estava no ar, tendo saltado da extremidade do machado antes que o lobo pudesse levantĂĄ-lo.

O choque obscureceu a expressão de ódio no rosto do cavaleiro lobo. O rei tomou uma decisão em um piscar de olhos, soltando o machado em sua pata esquerda para golpear Tino, que jå estava acima de sua cabeça. As garras da criatura se estenderam em direção à garota em pleno ar, atingindo sua perna direita.

O rosto de Tino se contorceu de dor enquanto o sangue espirrava do corte raso. Mesmo assim, seu movimento continuou, descrevendo um arco sobre o cavaleiro lobo atĂ© aterrissar em suas costas. O curto florete carmesim brilhou em sua mĂŁo enquanto a criatura se debatia. EntĂŁo, sem soltar um Ășnico grito, Tino cravou a lĂąmina no pescoço do fantasma com um golpe rĂĄpido e preciso.

O enorme corpo da besta se ergueu num espasmo. Seus olhos injetados de sangue reviraram, e seus braços se agitaram freneticamente na tentativa de agarrå-la. Mas, no fim, suas garras nunca a alcançaram. O lobo caiu de joelhos. Assim que Tino soltou suas costas e pousou em segurança no chão, o colossal fantasma se desfez em poeira.

***

— Conseguimos? — murmurou Gilbert, incrĂ©dulo, seus ombros subindo e descendo com a respiração pesada. Pela primeira vez desde o inĂ­cio da missĂŁo, ele soava tĂŁo jovem quanto aparentava. Com um estrondo metĂĄlico, a Espada PurgatĂłria caiu no chĂŁo.

— Vencemos… — declarou Tino em um tom monĂłtono, segurando sua coxa direita ferida. Sentada no chĂŁo, ela examinava o longo corte em sua pele clara. A garra, afiada como qualquer lĂąmina, por sorte nĂŁo atingiu suas artĂ©rias, mas aquilo precisava de tratamento.

Tino soltou um breve suspiro, cerrando os dentes para suportar a dor surda do sangue escorrendo.

— Foi por pouco — disse ela.

Se nĂŁo tivesse derrotado o rei lobo naquele momento, o ferimento a impediria de correr, muito menos de vencer a criatura.

Ela estendeu a mĂŁo atĂ© seu cinto, onde carregava um estojo com cinco frascos, e pegou um contendo um lĂ­quido rosado. Era uma poção de cura feita por um Alquimista. Criadas por meio da junção de magia e ciĂȘncia, essas poçÔes curavam ferimentos instantaneamente, embora nĂŁo fossem tĂŁo potentes quanto um feitiço de cura de um ClĂ©rigo. PoçÔes como essas eram indispensĂĄveis para grupos sem um curandeiro.

Tino abriu a tampa do frasco, puxou um pouco o short para expor a coxa e despejou o lĂ­quido sobre o corte. Gemeu com a ardĂȘncia, mas logo o ferimento que atravessava quase toda sua perna se fechou.

Greg se ergueu, olhando para a espada quebrada que ainda segurava. A cor sumiu de seu rosto ao perceber o que havia acontecido.

— Droga, achei que estava morto. Mas que azar o meu, a espada quebrar justo agora.

— VocĂȘ teve muita sorte de estar vivo, velho — disse Gilbert.

Greg riu, forçando um sorriso.

— Pode repetir isso. — E entĂŁo, virou-se para Rhuda. — VocĂȘ me salvou dessa, garota.

— Que nada. SĂł fico feliz de ter chegado a tempo. Tino, vocĂȘ estĂĄ bem? — Rhuda perguntou, olhando para a companheira Ladina.

— Estou. Ainda consigo andar. Com o tempo, vai melhorar.

A poção que Tino usara era cara e podia curar a maioria dos ferimentos não letais com o passar do tempo. Limpando o sangue da perna, ela se levantou lentamente.

Gilbert suspirou aliviado ao ver sua líder de pé. O inimigo que enfrentaram era muito mais temível do que qualquer coisa que ele jå havia combatido. Se estivesse com seu antigo grupo, dificilmente teria sobrevivido à batalha, mesmo com sua espada carregada. O fato de saírem praticamente ilesos era nada menos que um milagre.

Agora que o perigo passara, o medo da morte tomou conta de Gilbert. Ele soltou o ar devagar, tentando controlar os batimentos.

— Nem o chefe deixou nada para trás, hein?

— Má sorte pra gente — respondeu Greg, com um suspiro. — Chefes costumam deixar mais recompensas do que outros fantasmas. — Ele pegou a ponta da espada partida e cuidadosamente embainhou ambas as metades.

Reforjar uma espada partida ao meio era difĂ­cil e pouco recomendĂĄvel. O melhor que Greg poderia fazer era fundi-la, o que o deixaria no prejuĂ­zo depois do pagamento irrisĂłrio da missĂŁo.

Rhuda forçou um sorriso.

— Pelo lado bom, vocĂȘ estĂĄ vivo. Pode comprar outra espada.

— É… NĂŁo dĂĄ pra discutir com isso.

— Aqui — disse Tino, estendendo um gládio carmesim para Greg. — É mais curto que o seu, mas deve servir.

— Valeu. — Ele pegou a arma e fez alguns movimentos de teste para sentir o peso.

O grupo derrotou o chefe, mas ainda não havia cumprido seu objetivo. Além disso, precisavam sair vivos do cofre. Diferente de monstros, os fantasmas eram feitos de mana, o que significava que até mesmo o caminho de volta poderia estar repleto de inimigos antes que conseguissem sair.

Greg e Gilbert sentaram-se no chĂŁo, exaustos, engolindo a ĂĄgua de seus cantis.

Rhuda, por sua vez, começou a relembrar a batalha.

— Com um chefe desses por aqui, os caçadores desaparecidos ainda correm perigo.

Greg piscou.

— HĂŁ? Ah, os Rank 5, nĂ©? O chefe provavelmente pegou eles.

— Rank 5… — Tino franziu a testa.

O rei lobo fora um adversĂĄrio formidĂĄvel, muito alĂ©m do pior cenĂĄrio que ela havia previsto. Com trĂȘs Rank 4 e um Rank 3 no grupo, mal conseguiram vencer, e isso sĂł aconteceu porque Gilbert e Greg superaram suas expectativas. Se tivesse enfrentado o chefe sozinha, poderia ter morrido. Era possĂ­vel que os caçadores Rank 5 tivessem perdido.

Tino reavaliou a sala do chefe. O espaço era amplo, com um teto alto iluminado por pedras brilhantes nas paredes. As pedras iluminavam fracamente o chão, mas não havia sangue ou qualquer sinal dos caçadores desaparecidos.

Como a Toca do Lobo Branco não era tão grande, era difícil imaginar que os caçadores tivessem desaparecido sem deixar rastros. Mesmo que tivessem enfrentado dificuldades contra os fantasmas, caçadores Rank 5 deixariam algum sinal para a equipe de resgate. Mas não havia nada.

Tino refletiu. Aquela era uma provação, uma que seu mestre julgou adequada para ela. Se era um desafio que até ela poderia superar, então havia uma explicação.

— Mestre, eu nĂŁo entendo… — sussurrou.

Foi entĂŁo que ouviu um som. Ao levantar o olhar para identificĂĄ-lo, notou os olhares atentos de seus companheiros.

— O que foi, chefe? — perguntou Greg.

— Levantem-se. Algo está vindo — disse Tino.

— Mais fantasmas? — Greg se pĂŽs de pĂ© com dificuldade, assim como os outros.

Algo voou pelo ar. Tino deu um meio-passo para o lado, desviando. Uma flecha carmesim passou zunindo e se cravou na parede atrĂĄs dela. Pela primeira vez desde que entrara na masmorra, Tino empalideceu.

— Mas o quĂȘ…? — murmurou Gilbert.

Bloqueando o caminho por onde haviam entrado, estava um cavaleiro lobo prateado trajando uma armadura negra. Mas nĂŁo era sĂł um. O brilho de quatro pares de olhos vermelhos os encarava.

O chefe que derrotaram estava esperando reforços? Em retrospecto, o fantasma parecia estar apenas ganhando tempo.

O chão tremeu quando os quatro lobos marcharam na direção deles.

Os lĂĄbios de Greg tremeram diante do pesadelo Ă  sua frente.

— Isso Ă© impossĂ­vel…

Cada cavaleiro lobo era idĂȘntico ao que haviam acabado de derrotar, exceto pelas armas: uma grande espada, um enorme porrete que quase tocava o teto, um arco desproporcional para um ambiente fechado e… uma metralhadora, com uma longa fita de munição se arrastando pelo chĂŁo.

Os lobos nĂŁo atacaram de imediato, parecendo saborear sua superioridade. Ainda assim, seus olhos queimavam com a mesma intensidade do primeiro chefe.

— Como isso Ă© possĂ­vel? — Rhuda tremeu. — Acabamos de derrotĂĄ-lo.

— Aquele agora era mesmo o chefe? — Gilbert perguntou.

Eles sabiam que um cofre poderia ter mais de um chefe, mas nĂŁo esperavam por isso.

— Mestre, isso Ă© demais. Eu nĂŁo posso…

Tino não conseguia acreditar. Sua provação havia sido mais tranquila que as anteriores, mas agora não via saída.

Engolindo a aflição, ela analisou o ambiente. Havia um tĂșnel Ă  direita estreito e de teto baixo. Os lobos teriam dificuldades ali.

Inspirando fundo, ela se dirigiu ao grupo:

— Aqui Ă© muito aberto. Precisamos ir pelo tĂșnel Ă  direita. LĂĄ, enfrentamos menos de cada vez, e as armas deles vĂŁo se atrapalhar. Eu fico na retaguarda.

E assim, a batalha desesperada começou.

***

Uivos estrondosos estremeceram a sala. A harmonia dos quatro lobos era comparĂĄvel a um ataque fĂ­sico. Os humanos se inclinaram para frente, resistindo Ă s ondas sonoras.

Os movimentos dos quatro lobos prateados eram assustadoramente calculados. Talvez soubessem que seus semelhantes haviam sido derrotados pelos humanos Ă  sua frente. Como se quisessem prender o grupo, os lobos se posicionaram para bloquear todas as saĂ­das da sala do chefe.

O lobo com o tacape se moveu para bloquear o caminho à direita, e Gilbert deu um passo em sua direção. Derrotå-los de uma vez era impossível, e ficar preso ali significava morte certa. Como se quisesse espantar sua própria desesperança, ele rugiu e brandiu a Espada Purgatória.

Nenhum vestígio de cansaço se refletia em seu golpe. Na verdade, talvez tivesse sido o golpe mais afiado do dia. Uma labareda tremulante subiu pela lùmina carmesim espessa. Instintivamente, Gilbert infundiu um sopro de magia na espada. A lùmina em chamas era forte o suficiente para cortar uma armadura metålica.

O cavaleiro lobo prateado golpeou com seu tacape. A força destrutiva do impacto atingiu a espada de Gilbert e o lançou para trĂĄs. Rhuda gritou ao vĂȘ-lo rolar pelo chĂŁo.

Felizmente, ele ainda estava consciente. Gilbert se ergueu, sentindo toda a esperança drenada de seu corpo. Eu não consigo aparar isso!

O golpe era forte demais, simplesmente impossĂ­vel de bloquear ou repelir. Com sua espada sem mana, Gilbert nem sequer podia tentar cortar o tacape.

Empunhando sua adaga curta, Greg correu em direção ao mesmo cavaleiro lobo. O lobo ergueu o tacape novamente. Um vendaval varreu Greg, que recuou no Ășltimo instante ao ver o pilar cravejado de espinhos passar bem diante de seus olhos.

O tacape era ainda mais pesado que a machadinha de batalha. Com um simples balanço da arma gigante, o lobo seria capaz de rasgar uma armadura de couro e o caçador dentro dela. Greg duvidava que uma armadura de metal oferecesse mais proteção.

Rhuda sacou outra adaga e a lançou. Não havia mais tempo para apenas observar.

O lobo com a espada longa uivou e deu um passo Ă  frente. Tino, em um movimento arriscado, correu direto para ele. No Ășltimo segundo, desviou para o lado, escapando da lĂąmina que descia do alto, e recuou de novo para evitar o golpe ascendente do lobo. Embora a espada longa fosse mais rĂĄpida que a machadinha, Tino ainda conseguia esquivar mas um Ășnico golpe daquela arma a cortaria em pedaços.

Seus olhos se encontraram com os do lobo. Ela nĂŁo via um caminho para a vitĂłria. Agora que havia dado sua adaga curta para Greg, nĂŁo tinha meios de feri-los. Puxou uma adaga comum, mas duvidava que fosse capaz de perfurar a pele do inimigo.

Enquanto o grupo se preparava para o pior, Tino se esforçava para pensar em uma solução. Havia um jeito de completar o teste de seu mestre. Considerou atrair os lobos arqueiro e atirador para que se acertassem mutuamente, mas não era possível. Nenhum dos dois demonstrava intenção de atacar, talvez prevendo essa tåtica, ou por confiança de que seus dois companheiros dariam conta dos humanos. Ainda assim, eles não precisavam derrotå-los. O primeiro passo era sair da sala do chefe.

Tino se movia entre os flashes da lùmina, sua coxa ferida latejando. Percebeu que o cavaleiro lobo com o tacape revestido de metal era muito mais lento que o lobo com a espada longa. Talvez ela e Rhuda pudessem passar por ele, deixando os homens para trås. Mas descartou a ideia imediatamente. Não havia tempo. Se parasse de desviar a atenção do lobo com a espada longa, ele mataria Greg e Gilbert antes que ela pudesse lidar com o outro. Suas capacidades ofensivas eram simplesmente insuficientes.

O cavaleiro lobo com o tacape permanecia em guarda, mantendo Gilbert e Greg afastados. Gilbert tentava atacar ocasionalmente, mas seus golpes eram sempre aparados com calma, sem retaliação. Tino se perguntou se o lobo estava apenas garantindo que eles não escapassem pelo corredor ou se estavam esperando que ela se esgotasse antes de atacar. De qualquer forma, os cavaleiros lobos eram assustadoramente meticulosos, apesar de sua óbvia vantagem.

O corpo inteiro de Tino ardia. Ela sabia que não conseguiria continuar desviando por muito mais tempo. Quanto mais o tempo passava, pior ficava sua situação. Mas o que poderiam fazer? Desesperada, forçava sua mente em busca de uma resposta.

— Corra, Tino! Nós vamos segurá-los! — gritou Gilbert, apontando sua espada para o lobo imponente. Ele sabia muito bem o que isso significava para ele.

Greg concordou com amargura. — É a nossa Ășnica opção. Droga, que azar o meu.

Às vezes, caçadores enfrentavam escolhas impossĂ­veis. Sacrificar companheiros era, por vezes, a Ășnica maneira de sobreviver.

— Corram, Tino, Rhuda — acrescentou Greg. — Façam o que for preciso para escapar. VocĂȘs precisam avisar a Associação sobre o que estĂĄ acontecendo aqui embaixo.

— NĂŁo…—Tino começou.

Greg continuou, sĂ©rio. — VĂŁo, antes que seja tarde. Ei, nĂŁo se preocupem. Acontece o tempo todo. Hoje, Ă© a nossa vez. SĂł um golpe de azar, nada mais. — Ele riu. Seu tom deixava claro que nĂŁo guardava rancor de Tino. — Acho que devia ter treinado um pouco mais.

Como se entendessem a conversa dos humanos, os cavaleiros lobos entraram em ação. O arco e a arma foram erguidos, mirando no grupo. Cada disparo poderia significar uma morte.

Era esse o Ășnico caminho? SerĂĄ que seu mestre nĂŁo previu isso? Enquanto Tino se afundava nesses pensamentos, os sons da batalha pareciam se distanciar.

Grieving Souls era um dos raros grupos que nunca perdera um membro. Esse era um dos muitos motivos pelos quais Tino os idolatrava. O mesmo Krai, que mantivera seu grupo inteiro vivo por tantos anos, realmente forçaria uma escolha tão cruel a Tino? Não. Ela sabia que muitos caçadores enfrentavam decisÔes assim, mas hoje não era um desses dias.

Ela voltou à realidade. A espada longa do lobo abriu um sulco no chão ao seu lado. Um par de olhos carmesins brilhava com irritação. Naquele momento, Tino ouviu a voz de seu mestre em sua mente.

— NĂŁo Ă© nada especial, mas Ă© seu.

Krai disse essas palavras quando ela exibiu, orgulhosa, o anel que pegou de Gilbert no evento de recrutamento. EntĂŁo, tudo fez sentido. Ela sabia o que fazer.

Tino lançou um olhar para sua mão esquerda. Ela miraria nos olhos do cavaleiro lobo. Mesmo com sua pele grossa e armadura, os olhos continuavam desprotegidos.

Atacar os olhos de um monstro ou fantasma poderoso era um mĂ©todo bem comum. A Ășnica razĂŁo pela qual nĂŁo tinha considerado isso antes era porque achava que nĂŁo tinha meios para fazĂȘ-lo. Os cavaleiros lobo eram mais de duas vezes maiores que ela. NĂŁo tinha como alcançar seus olhos com segurança nem atacar Ă  distĂąncia, mas agora


Um brilho dourado reluziu em seu dedo anelar esquerdo. Era o Anel de Disparo que seu mestre lhe dera. Embora Tino não tivesse nenhuma Relíquia própria, tinha aprendido bastante sobre elas em suas conversas com Krai. Anéis de disparo não eram Relíquias populares, simplesmente porque suas balas mågicas eram fracas. Com certeza não tinham poder suficiente para derrubar um cavaleiro lobo.

Tino recuou para evitar o golpe da espada colossal enquanto movia o anel do dedo anelar esquerdo para o indicador direito. Ela sentiu que o anel estava carregado.

Normalmente, aprender a usar uma RelĂ­quia exigia um treinamento ĂĄrduo. Mesmo um Anel de disparo nĂŁo era fĂĄcil de manejar para quem nĂŁo tinha experiĂȘncia. No entanto, Tino jĂĄ havia praticado com um quando acompanhou seu mestre a uma loja de RelĂ­quias por recomendação dele. A situação parecia quase como se tivesse sido preparada. Tudo o que ela precisava fazer era desejar que o anel disparasse.

— Ei, Tino! — Greg gritou, implorando por uma decisão.

— Miramos nos olhos — respondeu ela.

Disparar um Anel de Disparo exigia muito menos movimento do que disparar uma flecha, uma arma de fogo ou mesmo lançar uma adaga. Mesmo que o Anel de Disparo não fosse capaz de derrubar um lobo, se conseguisse cegå-lo, eles teriam uma chance de alcançar o corredor. Claro, os lobos não os deixariam passar sem lutar. Todo o grupo precisaria trabalhar junto.

— Eu faço isso. Me deem cobertura — disse Tino.

Embora ninguém tenha respondido em voz alta, ela estava em sintonia com seu grupo. Gilbert e Greg correram para os lados do lobo com o porrete, alarmando-o.

Esse plano era ainda mais arriscado que o anterior. Tino não teria uma segunda chance de atirar. Ainda desviando dos ataques da espada gigante puramente por reflexo, ela voltou sua atenção para o lobo com o porrete, que estava fora de seu campo de visão. Quando finalmente o encontrou, controlou sua respiração e se concentrou. Não podia errar.

Gilbert rugiu ao atacar com sua espada colossal. Greg golpeou o cavaleiro lobo quando ele se moveu para contra-atacar. No mesmo instante, Rhuda prendeu a respiração e lançou sua adaga. Ela girou no ar em direção ao olho do lobo. Mas o cavaleiro lobo nem se preocupou em bloquear. Apenas fechou os olhos. A adaga ricocheteou contra suas pålpebras e caiu no chão, enquanto Rhuda via seu focinho se contorcer em desprezo.

Quando o lobo abriu os olhos, deparou-se com uma esfera de luz azul bem diante dele. O cavaleiro lobo congelou, incapaz de reagir ao projétil disparado no momento perfeito. A bala mågica perfurou seu olho.

Com um uivo, o lobo deixou cair seu porrete, o impacto tremendo no chĂŁo. No momento em que a arma bateu no solo, o grupo disparou para a saĂ­da.

Tino mergulhou para evitar a espada colossal. Rhuda e Greg correram. Foi entĂŁo que Tino viu seu Ășltimo companheiro.

— Gilbert, não! — gritou ela.

Gilbert estava agindo por instinto? Achou que era uma oportunidade? Ou Tino nĂŁo foi clara o suficiente na ordem? De qualquer forma, ele nĂŁo estava correndo para o tĂșnel. Ele ergueu sua espada contra o lobo cego.

O grito de Tino fez Gilbert perder toda a expressão. Mas jå não havia como parar sua lùmina, que subia para partir o lobo ao meio. Com um golpe do braço, o lobo aparou a lùmina. O som metålico ecoou pela sala, deixando o bracelete do lobo amassado, mas intacto.

Furioso, o lobo saiu do transe. Agitou os braços às cegas, atingindo Greg e lançando-o para o outro lado da sala. Jå não havia mais uma brecha.

A fera se ergueu. Seus olhos carmesins fuzilaram Tino, completamente indiferente à bala mågica. Não adiantava. A mesma estratégia não funcionaria duas vezes.

Tino hesitou, desviando da espada colossal por puro reflexo ao mergulhar para o lado. Estava sem fĂŽlego. Se tivesse um instante para respirar, poderia se recuperar, mas os lobos nĂŁo seriam tĂŁo gentis.

— Eu
 eu sinto muito! — exclamou Gilbert.

Tino não o culpava. A situação teria melhorado muito se ele tivesse conseguido, e ela também não havia sido clara o suficiente em sua instrução. Poderia ter dado certo.

Enquanto o lobo pegava seu porrete, Gilbert o golpeou de novo, como se quisesse compensar seu erro, como se estivesse dando uma chance para os outros fugirem. Greg se ergueu e se juntou ao ataque.

Percebendo a resistĂȘncia desesperada dos humanos, os cavaleiros lobo uivaram. Agora, sabiam o que o grupo pretendia. Arcos e armas foram apontados para a entrada do tĂșnel. Mesmo que conseguissem chegar lĂĄ dentro, provavelmente nĂŁo sobreviveriam Ă  saraivada de ataques. Estavam encurralados, sem mais truques na manga e com quase nenhuma resistĂȘncia fĂ­sica ou mental para continuar lutando.

Quais eram suas chances de escapar com vida? Quão provåvel era derrotarem os quatro fantasmas ali e agora? Ambas as opçÔes pareciam impossíveis, mas Tino se perguntou qual deveria escolher.

Ela encontrou o olhar de Rhuda. A expressão animada da Ladra novata agora estava manchada pelo cansaço. Todos no grupo, incluindo Tino, estavam à beira do colapso, diante de inimigos mais temíveis do que qualquer outro que jå haviam enfrentado, com quase nenhuma chance de fuga.

Tino se lembrou dos ensinamentos de seu mestre. O que deveria fazer? Seu coração acelerou quando as palavras surgiram em sua mente sem esforço. Seu mestre as repetira inĂșmeras vezes:

— Mate ou seja morto.

— Eu nĂŁo consigo, Lizzy
 — Tino murmurou, derrotada, ao perceber o quĂŁo inĂștil era o conselho de seu mentor.

E entĂŁo, como se fosse um sinal, algo derrubou um dos cavaleiros lobo.


Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â€“ Clicando Aqui


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