Grieving Soul – Capítulo 1 – Volume 2

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02

CapĂ­tulo 01:
[A Sombra Partida Retorna]


A grande janela do escritĂłrio do mestre do clĂŁ deixava entrar bastante luz do sol sobre a mesa e a cadeira desnecessariamente imponentes. Agora que o inverno havia passado e o ar estava mais quente, esse era exatamente o horĂĄrio do dia em que eu gostaria de tirar uma soneca.

Sem nenhuma tarefa urgente em mãos, eu estava distraidamente polindo Relíquias na minha mesa quando a vice-mestre do clã, Eva Renfied, entrou. Ela usava seu uniforme impecavelmente passado e um par de óculos de armação vermelha, que contrastavam com seus olhos gélidos. Quando eståvamos na mesma sala assim, formåvamos um belo contraste entre a secretåria exemplar e seu chefe cabeça-oca. Ao contrårio do mestre do clã fantoche (no caso, eu), ela parecia estar passando por mais um dia cheio de trabalho, assumindo todas as responsabilidades da administração do clã.

— A Associação quer perguntar sobre os detalhes da Cova do Lobo Branco — disse ela, sem nem ao menos me dar uma bronca. Que vice-mestre de clĂŁ incrĂ­vel. No começo, ela costumava me dar sermĂ”es de vez em quando, mas, pelo visto, jĂĄ tinha perdido todas as esperanças em mim.

— O Ark já voltou? — perguntei, soltando um grande bocejo enquanto esfregava os olhos. Eu estava exausto, mal havia dormido de tanto me preocupar com o slime desaparecido.

— Acho que o Ark nĂŁo conseguiria lidar com isso, jĂĄ que ele nunca esteve na cova. E, alĂ©m do mais, vocĂȘ depende demais dele.

Eu precisava de… mais Arks. Ele era forte, uma Ăłtima pessoa e respeitado por todos. NĂŁo dava para me culpar por depender tanto desse meu companheiro de clĂŁ, especialmente quando a maioria dos caçadores de alto nĂ­vel tinha um parafuso a menos na cabeça. Pela experiĂȘncia, eu sabia que a maioria dos problemas podia ser resolvida simplesmente jogando a responsabilidade para o Ark, se ao menos eu pudesse fazer com que ele fosse o mestre do clĂŁ no meu lugar… Bem, apesar de essa dependĂȘncia ter me levado Ă quela experiĂȘncia traumatizante na Cova do Lobo Branco, a culpa era toda minha. O Ark nĂŁo fez nada de errado, ele nunca fazia. E, por acaso, eu tinha certeza de que ele poderia dar um jeito no meu problema com o slime desaparecido.

— A Tino era a líder — falei. — Vai falar com ela. Eu só cheguei depois.

Eu tinha ido resgatå-los, mas não cheguei a derrotar nenhum fantasma ou ajudar a salvar o grupo da Tino de verdade. Embora, tecnicamente, como a Liz me seguiu até a cova, eu fui a causa indireta de ela ter salvo o grupo. Mas, olhando para trås, eu fui patético.

Antigamente, eu sonhava em me tornar o tipo de caçador que surgia no meio do perigo mortal para salvar qualquer um em apuros.

Agora, eu nĂŁo me iludia mais com esse tipo de coisa. O que importava era que Tino e seu grupo haviam voltado para a capital a salvo.

Soltei um suspiro meio sĂĄbio.

— Deixa pra lá. De qualquer forma, aconteceu algo na capital?

— Algo? O que vocĂȘ quer saber exatamente?

Eva era extremamente competente. Ela pegou os meus conceitos vagos e sem rumo sobre administração de clãs e os transformou em realidade. Diferente de mim, ela tinha as habilidades necessårias para manter a Primeiros Passos funcionando, ainda mais agora que o clã tinha crescido descontroladamente. Na verdade, todos os membros do clã (exceto eu) eram muito talentosos.

Uma das habilidades da Eva era sua rede de informaçÔes pela capital. Se algo estivesse estranho na cidade, ela saberia. Como não havia nem um pingo de preocupação em sua voz, concluí que não tinha soltado o Slime Sitri na cidade. QED.

Recostei-me na cadeira, soltando um suspiro de alĂ­vio. Tudo estava certo… eu esperava.

— Se não aconteceu nada, então tudo bem.

— Vou investigar imediatamente — disse Eva.

— NĂŁo, nĂŁo precisa. TĂĄ tudo bem, provavelmente nĂŁo aconteceu nada… Melhor sĂł relaxar.

Eva me encarou com desconfiança. Talvez seu Ășnico defeito fosse levar o trabalho a sĂ©rio demais. NĂŁo precisava cutucar a colmeia; o tempo resolveria a maioria dos problemas do mundo.

Mas eu realmente precisava que a Sitri voltasse antes que fosse tarde demais.

— E a Tino está ocupada treinando com a Liz — acrescentou Eva.

— Hã, que estudiosa ela.

Nem todo mundo conseguiria voltar direto para o treinamento depois de uma missĂŁo de vida ou morte como a que ela acabou de passar. Ver o quanto a Tino cresceu desde os tempos em que era apenas uma garota comum era emocionante; agora, ela estava evoluindo para se tornar uma caçadora excepcional. E, pelo visto, a Liz estava sendo uma boa mentora… Isso me deu uma ideia.

Mas então, um cansaço repentino me fez bocejar, eu acabaria dormindo se continuasse sentado ali. O clã funcionaria bem enquanto eu cochilava, mas não seria bom para o moral da Eva me ver dormindo enquanto ela trabalhava sem parar. Não que eu me importasse se me tirassem do cargo, mas o clã não podia se dar ao luxo de perder a Eva.

— Talvez eu passe por lá para dar um oi. Onde elas estão treinando?

— Seria uma ótima ideia. Elas estão no campo de treinamento B2.

— Beleza. Cuida das coisas por aqui, tá?

Acenei para Eva, que manteve sua expressĂŁo estoica o tempo todo, e saĂ­ do escritĂłrio.


— Preciso de informaçÔes. Agora — disse Eva com uma voz gĂ©lida e sem emoção. — Descubram qualquer irregularidade na capital, por menor que pareça.

— E-Entendido! — respondeu um de seus subordinados, saindo apressado da sala.

Eva Renfied era uma ex-mercadora. Antes de começar sua carreira como vice-mestre do clã, ela fazia parte da Welz Trading, uma das maiores empresas do mercado competitivo de Zebrudia. Embora Eva não ocupasse um cargo alto na Welz na época em que Krai a recrutou, ela manteve suas conexÔes com a empresa mesmo depois de mudar de carreira. Desde os primeiros dias no trabalho, Eva vinha construindo uma rede de informaçÔes pela cidade para contribuir com o sucesso do clã.

Primeiros Passos era um clã enorme, e um grupo de caçadores talentosos era como um exército poderoso. Um clã do porte da Primeiros Passos sempre chamava a atenção do governo, dos mercadores, de outros caçadores e até de ladrÔes. Com as conexÔes que construiu, Eva coletava informaçÔes através de sua rede mercante, dos jornais, dos rumores entre os caçadores de tesouros e até de seus contatos na Associação.

InformaçÔes precisavam ser frescas, e Eva sabia bem disso. Seus subordinados a mantinham atualizada sobre os Ășltimos acontecimentos da capital constantemente.

Por isso, quando o mestre do clã fez aquela pergunta, Eva ficou completamente chocada. Pelo que ela sabia, não havia nada fora do comum na capital ultimamente, além dos fantasmas poderosos surgindo na Cova do Lobo Branco. Mas Krai jå tinha enfrentado aquilo pessoalmente e deveria saber melhor do que ela.

Eva se orgulhava de sua rede de informaçÔes; se não tivesse trabalhado com Krai por tanto tempo, não teria dado muita atenção à pergunta dele, certamente não o suficiente para mandar um funcionårio investigar.

Eva achava seu chefe bastante misterioso. Quando se conheceram, Krai era apenas um garoto sem tĂ­tulo ou o cobiçado NĂ­vel 8. Alguns anos se passaram desde entĂŁo, mas ela ainda tinha dificuldades para entender aquele homem que sempre parecia entediado em seu escritĂłrio, polindo suas RelĂ­quias. Ele nunca dava ordens sobre como administrar o clĂŁ, e Eva nunca o via participando de atividades tradicionais de caça ao tesouro. Ele nĂŁo parecia forte, e, tirando algumas escolhas bizarras que fazia de vez em quando, sua personalidade tambĂ©m nĂŁo tinha nada de extraordinĂĄrio. AlĂ©m disso, ele nĂŁo demonstrava o mesmo espĂ­rito ardente dos poucos caçadores do clĂŁ que um dia se tornariam herĂłis, pelo menos, Eva nunca tinha visto isso nele. Na verdade, Krai vivia falando a maior besteira do mundo: que queria se aposentar da caça e ser apenas o mestre do clĂŁ. Se alguĂ©m observasse um dia de trabalho dele sem saber quem era, com certeza o chamaria de preguiçoso. AtĂ© mesmo Eva ficou incomodada com sua aparente incompetĂȘncia quando começou a trabalhar ali. Mas agora, ela sabia que Krai era muito mais do que aparentava.

Eva confiava em cada palavra de Krai. Seus comentĂĄrios aparentemente aleatĂłrios sempre acabavam sendo previsĂ”es absurdamente precisas. AtĂ© mesmo Eva, que conhecia a capital como a palma da mĂŁo, ficava surpresa com isso. InĂșmeras vezes, ela testemunhou Krai antecipando eventos que ninguĂ©m poderia prever: anomalias em cofres de tesouro distantes, dramas entre os nobres do impĂ©rio, crimes cometidos nas sombras por sindicatos e atĂ© desastres naturais como terremotos. Krai nĂŁo deveria ter acesso a esse tipo de informação, mas, de alguma forma, ele sempre sabia de coisas que escapavam atĂ© das maiores redes de inteligĂȘncia do mundo.

Ele sempre dizia que era apenas coincidĂȘncia ou sorte, mas Eva tinha certeza de que nem ele esperava que ela acreditasse nessas desculpas. Uma vez poderia ser coincidĂȘncia, mas com tantas “coincidĂȘncias”, Eva nĂŁo teve escolha a nĂŁo ser aceitar que seu chefe possuĂ­a algum tipo de habilidade enigmĂĄtica de previsĂŁo que ia muito alĂ©m de mero talento.

Mil Truques, um apelido muito bem escolhido. Quando ouviu esse tĂ­tulo pela primeira vez, Eva achou que nĂŁo poderia haver nome melhor para o mestre do clĂŁ. Krai era a razĂŁo pela qual tantos caçadores talentosos se reuniram na Passos. MultidĂ”es de caçadores orgulhosos e egocĂȘntricos acabavam seguindo as ordens desse jovem aparentemente comum. Às vezes, Krai parecia ser ainda mais assustador que todos os outros caçadores absurdamente poderosos juntos.

Eva se orgulhava de suas habilidades, mas sabia que era apenas uma mortal. Se Krai havia pressentido algo, ela levaria sua palavra a sério, não importava o quão aleatório pudesse parecer.

No escritório da vice-mestre do clã, um ambiente bem mais bagunçado que o de seu chefe, Eva deu ordens à sua legião de funcionårios e observou as ruas pela janela. Ela afastou os pensamentos sobre suas tarefas programadas e tentou identificar se havia algo que pudesse ter deixado passar sobre a situação da cidade.

— O que está acontecendo na capital agora?

Esse era o ritual de Eva sempre que Krai soltava uma de suas premoniçÔes.


Explorar um cofre de tesouro era um desafio: armadilhas interminåveis, ambientes implacåveis e batalhas contra monstros e espectros sempre envolviam risco de vida, por mais precauçÔes que os caçadores tomassem. Era por isso que os bons caçadores nunca paravam de melhorar.

Havia muitas instalaçÔes na capital para caçadores aprimorarem suas habilidades, e um dos maiores destaques da sede da Passos eram os campos de treinamento. Duvidei que muitos outros clãs da capital, mesmo os do porte da Passos, tivessem campos de treinamento internos. Os amplamente populares campos de treinamento da Passos, que se estendiam por cinco andares subterrùneos, estavam sempre disponíveis para todos os membros do clã.

Caçadores que enfrentavam cofres de alto nível eram absurdamente fortes, e destrutivos. Disseram-me que construir os campos de treinamento para suportar a força desses treinamentos custou uma fortuna. Não que eu soubesse muito sobre o processo de construção; só dei alguns palpites no projeto. Mas, aparentemente, Eva e sua equipe tiveram bastante trabalho para garantir que tudo fosse bem feito.

Enquanto descia as escadas de aço rumo aos campos de treinamento, passei por um grupo familiar de cinco pessoas. Um deles, um homem robusto de cabelos castanhos e uma cicatriz cortando sua bochecha, me encarou de olhos arregalados. Ele carregava uma alabarda que parecia capaz de partir uma armadura ao meio. Eu o reconhecia… Seu nome estava na ponta da lĂ­ngua.

— Mestre Krai, que surpresa ver vocĂȘ aqui embaixo. Veio treinar?

Como mestre do clã, eu definitivamente não conhecia o nome e o rosto de todos os membros. Mas, como todos tinham que passar por uma entrevista comigo antes de entrar, teoricamente, eu jå havia conhecido cada um pelo menos uma vez. Ainda assim, minha mente estava completamente em branco no momento. Eles não perceberam que eu esqueci seus nomes, né?

Estampei um sorriso tranquilo para disfarçar.

— É, algo assim. VocĂȘs estavam treinando?

O grupo trocou olhares. Isso não era bom. Era um sinal clåssico de que uma péssima notícia estava a caminho.

Senti uma vontade absurda de sair correndo.

Um cara alto franziu a testa e falou pelo grupo:

— Sim, mas… talvez seja melhor nĂŁo descer agora. EstĂĄ meio… turbulento.

— Isso nĂŁo foi treinamento… Foi tortura — disse um dos homens, com um olhar completamente abalado.

Ok. Talvez eu nĂŁo devesse descer para os campos de treinamento.

Eu jĂĄ tinha uma boa ideia do que estava acontecendo: Liz. Ela era sanguinĂĄria e nĂŁo entendia o significado de “moderação”. Infelizmente, ela tinha esse dom especial de sempre estar no final de uma trilha de humanos desmaiados ou monstros mortos, ou no centro da confusĂŁo mais prĂłxima, na verdade. Os treinamentos dela, que fizeram Tino melhorar tanto, aparentemente eram brutais atĂ© para caçadores experientes. Mas nĂŁo me entenda mal: Tino era uma Ăłtimo caçadora; nĂŁo eram muitos que conseguiam alcançar o NĂ­vel 4 tĂŁo rapidamente. Eu tinha certeza de que nĂŁo era uma tortura de verdade. Embora… Liz podia estar um pouco empolgada por ter acabado de voltar de uma caçada.

— Relaxem. A Liz Ă© turbulenta normalmente — tentei tranquilizĂĄ-los.

— É… A Sombra Partida Ă© um dos membros do seu grupo, afinal.

Os cinco caçadores me lançaram olhares desconfortåveis.

Eu sentia muito por ter alguém do meu time sempre causando confusão.

— Disseram que ela estĂĄ atacando qualquer um que tente parĂĄ-la — disse um dos caçadores. — Melhor esperar atĂ© a poeira baixar.

Eu realmente sentia muito por ter alguém do meu time sempre causando confusão.

Eu me perguntava o quão insano era lå dentro. Por que esses cinco caçadores, que lutavam contra monstros diariamente, estavam tão exaustos? Por que a Liz não podia simplesmente pegar leve depois do que aconteceu no Covil do Lobo Branco? Ela tinha o direito de treinar a Tino como quisesse, mas eu preferia muito mais que ela parasse de impactar negativamente o resto do clã no processo.

— Não se preocupem, eu vou dar um jeito nisso — eu disse.

— Se vocĂȘ diz, nĂŁo vamos te impedir.

Eles estavam aterrorizados com ela. Suspiro… Tanto para a nossa regra de clĂŁ “todos devem se dar bem”.

Liz sempre foi impulsiva e estava longe de ser alguém equilibrada. Mas agora que tinha poderes sobre-humanos, parecia um pequeno monstro.

Continuei descendo as escadas para interromper a violĂȘncia dela, seguido pelo grupo sem nome (pelo que eu sabia) por algum motivo. Havia vĂĄrios membros do clĂŁ apenas vagando pela entrada do campo de treinamento do B2. HĂŁ, que bizarro.

Um homem de cabelo verde-escuro virou-se para mim. Ele e eu tínhamos praticamente a mesma altura, mas dava para perceber pela sua estrutura que era um caçador experiente. Alguns anos mais velho que eu, mas ainda dentro da faixa etåria considerada jovem para caçadores. Seu nome era Sven Anger, um dos veteranos do clã, alguém que eu conhecia hå anos e um exímio arqueiro. Sven era o líder do grupo de Nível 6, Obsidian Cross, um dos melhores do clã. Ele era como um irmão mais velho confiåvel entre os companheiros.

Assim que me viu, Sven exclamou empolgado:

— Krai! JĂĄ era hora de vir buscar ela. VocĂȘ precisa segurar as rĂ©deas da Sombra Partida aĂ­ dentro, nĂŁo conseguimos nem usar o campo de treinamento!

— Lidar com bĂĄrbaros super-humanos nĂŁo Ă© meu forte — respondi. Na verdade, Sven e seu grupo Obsidian Cross eram especialistas em lidar com monstros e feras, mais do que em explorar relĂ­quias. Eu duvidava que o meu cargo de lĂ­der figurativo fosse me ajudar mais do que ajudou eles.

— Mas essa bĂĄrbara Ă© sua! E ela ficou ainda mais forte! — rosnou Sven. Um pouco rude, considerando que eram companheiros de clĂŁ.

EntĂŁo, ela ficou ainda mais forte, hein? Soltei um suspiro curto e disse, derrotado:

— Beleza.

Infelizmente, meus amigos jå haviam superado completamente minha capacidade de compreensão; eu tinha perdido a noção de quão absurdos seus poderes haviam se tornado. Pelo visto, pegar balas no ar vendado jå não era o bastante para eles.

Sven lançou um olhar sombrio para as portas reforçadas do campo de treinamento e disse:

— Sem Ansem, sem Lucia… NĂŁo tem ninguĂ©m aqui que possa parĂĄ-la! Por que a Liz voltou sozinha?!

Sven provavelmente conseguiria enfrentar Liz de igual para igual. Mas, bem… ela continuaria mordendo atĂ© que um dos dois caĂ­sse.

Em geral, havia duas facçÔes nos Grieving Souls: os encrenqueiros e os (relativamente) sensatos. O padrĂŁo usual era Liz ou Luke começarem o incĂȘndio, e Ansem ou Lucia apagarem depois. Sem um domador por perto, Liz podia ser muito mais perigosa que um monstro literal.

Eu sentia muito por ter alguém assim sempre causando problemas.

— Ela desativou todas as armadilhas, chegou atĂ© a sala do chefe sem um arranhĂŁo e depois simplesmente desistiu e voltou pra casa — expliquei.

— Ela estava no PalĂĄcio Noturno, nĂŁo estava? — perguntou Sven, incrĂ©dulo.

Eu também não conseguia acreditar.

Liz realmente era um espĂ­rito livre. Abandonar seu grupo em uma exploração era um dos pecados imperdoĂĄveis no mundo dos caçadores, mas nosso grupo tinha um jeito Ășnico de funcionar. Com exceção de um membro que adicionamos depois, como um tipo de experimento, todos nĂłs Ă©ramos amigos de longa data e tambĂ©m Ă©ramos espĂ­ritos livres e de alguma forma, funcionava. Bom, nĂŁo era como se estivessem sem um curandeiro, e ainda tinham outro Ladino no grupo. Eles ficariam bem.

— Se vocĂȘ nĂŁo parar ela logo, a Tino vai morrer — Sven me alertou.

— Aha! VocĂȘ tĂĄ exagerando. As pessoas nĂŁo morrem tĂŁo fĂĄcil assim.

— NĂŁo… Ela estĂĄ realmente…

Ok, Liz tinha tendĂȘncias genocidas Ă s vezes; e nĂŁo conseguia evitar rosnar para todo mundo; e jĂĄ foi presa inĂșmeras vezes por brigar; e atĂ© tinha uma recompensa pela sua cabeça no submundo; ela tinha seus defeitos, mas nĂŁo era do tipo que mataria a prĂłpria aprendiz.

Sven e seu grupo deram um passo para trĂĄs. Sorrindo, eu abri lentamente a porta do campo de treinamento.

Liz estava majestosamente no centro do campo. Seu cabelo rosa-choque amarrado em um rabo de cavalo e sua roupa reveladora, que deixava Ă  mostra boa parte de sua pele bronzeada, eram tĂ­picos dos Ladinos. Sem a RelĂ­quia de botas metĂĄlicas quase na altura dos joelhos, Apex Roots, ela atĂ© poderia parecer uma garota normal. Para ser sincero, vĂȘ-la esbravejando contra o que parecia um grande trapo sujo aos seus pĂ©s nĂŁo era nem um pouco normal, nem feminino.

— Por que vocĂȘ nĂŁo levanta? Hein? JĂĄ chegou no seu limite? NĂŁo pode ser! TĂĄ se fazendo de preguiçosa? TĂĄ tirando com a minha cara? Quer morrer? Hein, quer morrer, T? Acha que nĂŁo vai morrer? Acha que eu nĂŁo mato vocĂȘ? Mato sim! VocĂȘ nĂŁo tem nada que te importe? Nada que queira proteger? Seus braços e pernas ainda estĂŁo aĂ­! Por que nĂŁo mexe eles? Se Ă© disso que precisa pra realmente tentar, entĂŁo pode morrer agora mesmo!

— Certo, já chega! — chamei alegremente enquanto batia palmas. Por dentro, no entanto, eu estava enjoado, será que pra ela tudo tinha que ser uma questão de “matar ou morrer” todos os dias do ano?

Corri até o amontoado no chão (também conhecido como Tino) e ouvi seus gemidos misturando dor e desespero. Ela estava encolhida o måximo que podia e tremia sem parar.

O emaranhado de cabelo no chão se moveu levemente quando Tino tentou levantar a cabeça. E, antes que conseguisse, Liz bateu com força no chão. Um estrondo sacudiu todo o prédio. Tino estremeceu. O piso, que havia sido construído para suportar o treinamento rigoroso de caçadores, agora tinha uma marca profunda no formato da bota de Liz. Como ela conseguiu colocar tanta força naquele corpo pequeno, eu jamais entenderia.

— O que foi, Krai Baby? — perguntou Liz num tom casual. — Como pode ver, estou dando uma lição pra T agora.

Seus olhos cor-de-rosa quartzo me perfuraram.

Ela tinha um pavio ridiculamente curto, mas levava força a sério. Havia aprimorado suas habilidades passando por incontåveis provaçÔes, muitas vezes voltando da beira da morte. Ela colocava padrÔes altíssimos para Tino, mas também a treinava com sinceridade. Além disso, odiava ser interrompida durante o treinamento.

Nosso clã jå existia hå anos, e os grupos mais antigos conheciam bem Liz. Sua aversão a interrupçÔes era tão conhecida que ninguém ousava interferir.

— T tem talento — continuou Liz. — Talvez atĂ© mais do que eu. Mas Ă© fraca. Por quĂȘ? Eu era bem mais forte quando tinha a idade dela.

Tino jå era bem forte (todo mundo era, comparado a mim). Isso não era o suficiente? Devíamos celebrar nossas diferenças.

— Aham — forcei um sorriso, me posicionando entre Liz e Tino.

O grupo de Sven permaneceu em silĂȘncio na porta, assistindo com a respiração presa enquanto a tensĂŁo no campo de treinamento ficava cada vez mais densa.

Tino, à beira do colapso, não tinha a menor chance em nenhum mundo contra uma Liz lutando a todo vapor. E o olhar de Liz deixava claro que ela não tinha intenção de pegar leve.

— NĂŁo me importo se vocĂȘ quiser ficar — disse Liz —, mas nĂŁo acha que seria meio cruel com a T? VocĂȘ nĂŁo pode ver o rosto dela, mas ela nĂŁo ia querer que vocĂȘ visse o que vai acontecer agora: tossindo sangue e se mijando toda. NĂŁo posso chegar muito perto de matĂĄ-la jĂĄ que nĂŁo temos um curandeiro aqui, mas, se fosse comigo, eu morreria de vergonha se vocĂȘ me visse nesse estado. VocĂȘ entende, nĂ©? VocĂȘ pode assistir da prĂłxima vez, Krai Baby, mas essa Ă© a primeira vez que ela vai chegar tĂŁo longe. Tenha um pouco de misericĂłrdia dela, vai?

Droga. Liz tinha essa mesma energia tanto quando estava furiosa quanto quando estava feliz.

— Sim, senhora.

Só pude assentir diante do sorriso de Liz, que brilhava como um girassol. Ainda consegui dar uma olhada para Tino, que parecia disposta a continuar o treinamento. Eu nunca entenderia o que levava essas pessoas a esses extremos, caçadores realmente eram um enigma.

Subi as escadas enquanto me desculpava com o grupo do Sven.

— Foi mal por isso. Não tem como falar com a Liz quando ela fica assim.

Liz nunca teve nenhum dilema moral para começar brigas com os outros. Embora, pelo menos, ela ouvisse seus amigos de infĂąncia. Mas por “ouvir”, quero dizer que ela apenas escutava e considerava o que dizĂ­amos; nada alĂ©m disso. NĂŁo tinha como mandar nela, nĂŁo importava a situação.

Cada andar do porĂŁo da casa do clĂŁ possuĂ­a ĂĄreas de treinamento com diferentes equipamentos. A que Liz estava ocupando agora era a ĂĄrea projetada para Ladinos. Tinha de tudo: desde ferramentas para combate corpo a corpo, alvos para arremesso de adagas, armadilhas e atĂ© baĂșs de tesouro. O problema era que essa era a Ășnica ĂĄrea de treinamento com essas instalaçÔes. Essas ĂĄreas nĂŁo eram pequenas o suficiente para dois caçadores dominarem completamente, mas essa era uma exceção.

JĂĄ tentei de tudo para tirar a Liz de lĂĄ, entĂŁo o grupo do Sven teria que se contentar com outra ĂĄrea de treinamento ou adiar o treino para amanhĂŁ.

— Acontece. NĂŁo Ă© a primeira vez que vocĂȘ empurra alguĂ©m do grupo atĂ© o limite — disse Sven, resmungando diante do meu pedido de desculpas.

— Não, eu estava tentando impedir—

— NĂŁo precisa explicar — interrompeu Sven. — Eu sei, eu sei. Deixar a Tino mais forte vai ser benĂ©fico para todos nĂłs.

Ele acenou para si mesmo, claramente sem entender nada. Depois, trocou olhares com seus companheiros de grupo, e todos pareciam concordar.

Se ao menos eu e a Liz conseguĂ­ssemos nos entender tĂŁo facilmente…

Ah, tanto faz. Se eles estavam dispostos a ignorar a atrocidade da Liz, eu também deixaria pra lå.

Caçadores fortes eram todos meio malucos de um jeito ou de outro. Sven e seu grupo podiam ser meio excĂȘntricos em comparação a pessoas normais, mas pareciam incrivelmente sensatos ao lado da Liz.

Socorro.

Gritos angustiados ecoaram na ĂĄrea de treinamento atrĂĄs de mim, mas decidi fingir que nĂŁo ouvi nada.

Eu sĂł queria largar tudo e ir tomar um sorvete.


— A estrada do norte está bloqueada? — perguntei, surpreso com a dica que Sven me deu durante nossa conversa casual.

A capital ficava praticamente no centro geológico do império. Estradas largas e bem construídas se estendiam para o norte, leste, sul e oeste, conectando-a a outras grandes cidades e cofres do tesouro. Por isso, mesmo apenas uma delas sendo bloqueada jå era um grande problema. Eu tinha ouvido falar de um fantasma perdido da Toca do Lobo Branco atacando uma caravana, mas duvidava que isso fosse motivo suficiente para um bloqueio.

— Sim, avistaram vĂĄrios fantasmas. Ainda estĂŁo investigando os detalhes, mas alguns cavaleiros da Ordem jĂĄ foram eliminados — explicou Sven, sĂ©rio.

De modo geral, os fantasmas permaneciam dentro dos cofres do tesouro. Encontrar um fora deles era extremamente raro, e ver mais de um em um curto perĂ­odo de tempo certamente nĂŁo era coincidĂȘncia.

Agora que penso nisso, a Toca do Lobo Branco também estava meio estranha, lembrei de como a masmorra estava quando fui resgatar Tino.

Não fazia ideia do que poderia estar causando todas essas irregularidades, nem tinha qualquer interesse no bloqueio, jå que eu permanecia nos limites seguros da capital. No entanto, essas estradas eram como as artérias do império. Os mercadores só se reuniam em Zebrudia porque presumiam que as estradas eram seguras para viajar. Sendo assim, era totalmente possível que nós, caçadores, fÎssemos convocados para resolver o problema. Fiquei me perguntando se Gark me chamou para falar sobre isso. Ele tinha o costume de pedir minha opinião nessas situaçÔes só porque eu era de alto nível.

Depois de pensar nisso por alguns momentos, desisti. Suspiro. NĂŁo valia a pena me preocupar. Pelo menos eu tinha uma carta na manga e nĂŁo, nĂŁo era a Liz, que abandonou os amigos dentro de um cofre do tesouro e voltou sozinha para a capital. Problemas como esse pediam por Ark Rodin.

As pessoas admiravam Ark. Ele era forte, inteligente, famoso e, alĂ©m de tudo, um lĂ­der excepcional. E, o mais importante, ele era um cara decente. Os membros do seu grupo, embora nĂŁo estivessem exatamente no mesmo nĂ­vel de Ark, tambĂ©m eram muito competentes. Sendo um grande comandante e guerreiro, Ark era como um esquadrĂŁo inteiro de caçadores dentro de um Ășnico corpo. Na verdade, entre os caçadores orgulhosos que formavam a Passos, nĂŁo havia ninguĂ©m que nĂŁo respeitasse Ark (com exceção dos meus amigos de infĂąncia). As coisas simplesmente se resolviam quando eu deixava Ark assumir o controle. E se nĂŁo se resolvessem, significava que nĂŁo havia nada que eu pudesse fazer de qualquer forma.

Quando Ark vai voltar? Eu precisava ganhar tempo até que ele retornasse. Ele sempre me avisava antes de deixar a capital por muito tempo, então não deveria demorar. Assim, simplesmente fiquei ali, sem me preocupar muito com o bloqueio.

Sven torceu sua expressĂŁo intimidadora em um sorriso enquanto dava um tapa no meu ombro.

— VocĂȘ continua tranquilo como sempre, CM.

Respondi apenas com um sorriso silencioso. NĂŁo era nenhum mistĂ©rio o motivo de eu estar tĂŁo relaxado: isso nĂŁo tinha nada a ver comigo. Sem querer me gabar, mas minhas habilidades de autopreservação eram excepcionais. E por “habilidades de autopreservação”, quero dizer “empurrar minhas responsabilidades para os outros”. Foi assim que sempre lidei com as coisas, e assim que continuaria. SĂł podia torcer para que alguĂ©m me expulsasse da minha posição antes que eu estragasse tudo de vez.

— Quem sabe o que estĂĄ acontecendo lĂĄ fora? EstĂĄvamos nos preparando para qualquer eventualidade caso nos chamassem para agir — acrescentou Sven. — Mas acho que podemos fazer isso amanhĂŁ tambĂ©m.

Mais uma vez, eu me sentia realmente culpado por um dos meus sempre estar causando problemas.

Felizmente para mim, Sven não parecia irritado com a mudança em seus planos. Além disso, seu grupo e o meu se conheciam hå tempos; Sven jå lidava com a loucura da Liz muito antes de nos mudarmos para a capital.

Obsidian Cross era um grupo famoso por seus membros se complementarem e garantirem um desempenho confiĂĄvel. Eles nĂŁo teriam problemas em lidar com alguns fantasmas perdidos agora mesmo, especialmente se fossem como os cavaleiros-lobo da Toca do Lobo Branco.

Foi então que uma ideia brilhante surgiu na minha mente: se eu enviasse Obsidian Cross para Gark, o problema se tornaria deles! Gark não poderia reclamar de um grupo de nível 6. Era um encaixe perfeito. Diferente de mim, Sven não se importava em caçar fantasmas. Que ideia genial!

Juntei as mĂŁos e observei os membros do Obsidian Cross. Com um sorriso, sugeri:

— Se vocĂȘs tĂȘm um tempinho livre, por que nĂŁo pegam uma missĂŁo? Ah, e jĂĄ que vĂŁo atĂ© a Associação, podem avisar ao Gark que estou meio ocupado demais para vĂȘ-lo hoje?


Krai Andrey saiu caminhando alegremente enquanto Sven o observava partir.

Henrik Hefner, o Clérigo do Obsidian Cross, finalmente se pronunciou:

— Eu nunca sei o que ele estĂĄ pensando. Ele parece… — Henrik fez uma pausa, refletindo. — TĂŁo despreocupado.

Sven riu, coçando a bochecha.

— Pois Ă©. Mas ele nĂŁo Ă© um cara ruim.

Obsidian Cross era um dos grupos fundadores da Primeiros Passos. Seus membros eram alguns anos mais velhos, em mĂ©dia, do que os do Ark Brave ou do Grieving Souls, mas ainda faziam parte da era de ouro da caça ao tesouro. Com uma formação Ășnica, onde todos possuĂ­am habilidades de cura, esse grupo bem equilibrado completou inĂșmeras missĂ”es graças Ă  sua estratĂ©gia cautelosa. Mas isso tambĂ©m significava que nĂŁo acumulavam tantos feitos chamativos quanto outros caçadores do mesmo nĂ­vel. Obsidian Cross acabava ficando na sombra de dois grupos extremamente bem-sucedidos, mas se tivesse surgido uma ou duas dĂ©cadas antes, seria considerado o melhor da geração. Naturalmente, era altamente respeitado tanto pela Associação quanto pelos outros grupos.

— Talvez vocĂȘ devesse ter dito nĂŁo, Sven. O que ele faz o tempo todo, afinal? — perguntou Henrik, tentando esconder sua irritação.

Como um clã era uma aliança de vårios grupos, não havia hierarquia dentro dele: nenhum grupo era obrigado a fazer favores para outro caçador, nem mesmo para o mestre do clã. Ter que fazer recados não caía bem para Henrik, especialmente porque orgulho e reputação eram tudo para os caçadores.

Todo caçador da capital conhecia a história do Grieving Souls. Em uma palavra, seu caminho tinha sido turbulento. Os Grievers enfrentavam cofres de alto nível como se não houvesse amanhã, arriscando a vida para subir na hierarquia da glória. Eram o completo oposto do Obsidian Cross, que preferia abordar um cofre de cada vez, com segurança.

Embora um caçador cauteloso como Henrik nĂŁo conseguisse entender como os Grievers faziam isso, ele os respeitava por isso. Todos os caçadores carregavam uma certa reverĂȘncia pelos Grieving Souls, o lĂ­der do grupo, no entanto, era outra histĂłria. Henrik nunca tinha visto o Mil Truques se aventurar em um cofre do tesouro. Quando entrou para a Obsidian Cross, meio ano atrĂĄs, Henrik reverenciava o infame Mil Truques, essa reverĂȘncia havia desaparecido completamente nos Ășltimos seis meses, conforme testemunhava Krai nos bastidores.

— EstĂĄ tudo bem — disse Sven, tentando acalmar a insatisfação descarada de Henrik. — Temos tempo. E nĂŁo Ă© uma mĂĄ ideia fazer com que ele nos deva um favor.

Henrik franziu a testa. Seu lĂ­der, Sven, normalmente se mantinha firme.

— O líder do grupo fica para trás enquanto o resto da equipe entra no cofre, eles não ficam irritados com isso?

— Krai sempre foi assim. Talvez vocĂȘ seja novo demais para saber, Henrik, mas o grupo dele simplesmente funciona desse jeito. Assim como este clĂŁ — Sven falou com leveza, mas com seriedade suficiente para avisar Henrik a nĂŁo questionar Krai mais do que devia.

— Se vocĂȘ diz, Sven — respondeu Henrik. Por mais insatisfeito que estivesse, ele sabia que nĂŁo era sĂĄbio criticar abertamente o mestre do seu prĂłprio clĂŁ.

Henrik tinha uma experiĂȘncia razoĂĄvel como caçador. JĂĄ havia trabalhado com vĂĄrias outras equipes antes de se juntar Ă  Obsidian Cross e se considerava um bom juiz de carĂĄter. Ainda assim, ele nĂŁo conseguia entender Krai Andrey. Como a força dos caçadores era amplamente decidida pela quantidade de acĂșmulo de mana em seus corpos, a aparĂȘncia nem sempre refletia seu verdadeiro poder. Era perfeitamente possĂ­vel que um homem gigantesco perdesse em força bruta para uma garotinha. Com prĂĄtica, era possĂ­vel identificar o acĂșmulo de mana pelo olhar. E, tendo bastante prĂĄtica nisso, Henrik simplesmente nĂŁo conseguia enxergar em Krai alguĂ©m de alto nĂ­vel. Ele nĂŁo teria acreditado que Krai tinha um tĂ­tulo, que era um Caçador de NĂ­vel 8, ou que era tanto o lĂ­der dos infames Grieving Souls quanto o mestre desse enorme clĂŁ. Mesmo agora, ele mal conseguia acreditar. Krai simplesmente nĂŁo tinha nenhuma presença autoritĂĄria.

— Não estou reclamando, contanto que ele impeça Liz e Luke de sair espancando todo mundo pelo caminho — acrescentou Sven.

Henrik fechou os olhos e relembrou os eventos no campo de treinamento: Liz tinha uma aura ardente e uma animosidade quase assassina que nenhum caçador deveria exibir no meio de uma cidade. Mesmo através de uma porta fechada, sua presença esmagadora e sua voz arrepiante eram aterrorizantes o suficiente para dificultar a respiração de Henrik.

É claro que ele conhecia a Sombra Partida, a encrenqueira dos Grieving Souls; não existiam muitos caçadores de Nível 6 com um título. Depois do que viu hoje, Henrik podia afirmar que sua fama era bem merecida. Ele precisava admitir que, no mínimo, Krai tinha coragem de se colocar entre Liz e seu aprendiz.

— Mas ele não conseguiu impedi-la — murmurou, ainda não totalmente convencido.

Sven sorriu e disse:

— Pode nĂŁo parecer agora, mas Krai Ă© tĂŁo esquisito quanto qualquer Griever. Para começar, ele Ă© o Ășnico que jĂĄ derrotou Ark Rodin, o descendente do herĂłi e, provavelmente, o caçador mais forte vivo. Outra coisa: Liz e Luke obedecem suas ordens. É fĂĄcil esquecer tudo isso quando vocĂȘ passa tempo no clĂŁ dele. NĂŁo estou dizendo para seguir cegamente suas ordens. SĂł… nĂŁo cometa o erro de julgĂĄ-lo pela aparĂȘncia ou de interpretar suas palavras ao pĂ© da letra. Ele sempre tem algo a mais por trĂĄs. NĂŁo Ă© o que sempre fazemos?

Henrik ficou boquiaberto com o olhar de Sven. NĂŁo parecia que ele estava falando sobre o mestre do clĂŁ.

— Certo! — respondeu Henrik em alto e bom som, como se tentasse espantar suas prĂłprias dĂșvidas. Um suor frio escorreu por suas costas ao perceber que nĂŁo estava enxergando Krai como o Caçador de NĂ­vel 8 que ele realmente era, mesmo jĂĄ sabendo de tudo aquilo antes. Olhando para trĂĄs, isso era impensĂĄvel: se o Mil Truques tinha planejado tudo aquilo de propĂłsito, Henrik nĂŁo tinha sequer desconfiado atĂ© agora. Essa realização o aterrorizou.

Sven falou de forma encorajadora:

— NĂŁo esquenta. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ encrencado. AlĂ©m disso, Ansem tambĂ©m Ă© um Griever. Krai nĂŁo pode aprontar nada muito absurdo enquanto ele estiver por perto.

Henrik finalmente parecia aliviado com essa ideia.

Cada membro da Obsidian Cross acreditava no Deus Sagrado. Todos eles possuĂ­am algum poder de cura, e Ansem Smart era renomado entre os ClĂ©rigos da capital. Caçadores de alto nĂ­vel costumavam desempenhar mĂșltiplas funçÔes e levar vidas agitadas, e Ansem era o melhor exemplo disso: mesmo para os prĂłprios membros do clĂŁ, encontrĂĄ-lo nĂŁo era algo frequente. Ainda assim, sua reputação como a consciĂȘncia dos Grieving Souls era amplamente conhecida. Ansem, que se especializava em proteção e cura, ajudava qualquer um que precisasse, era um homem estĂłico, mas cheio de amor por seus companheiros caçadores.

Havia muitos rumores sobre Ansem, alguns mais críveis que outros: diziam que ele havia curado a filha de um grande nobre de uma doença considerada incuråvel ou que havia recebido convites para se juntar à Ordem dos Cavaleiros Imperiais, só para citar alguns. De toda forma, ele era o responsåvel por manter os Grievers inteiros durante suas aventuras brutais.

— O ImutĂĄvel, um dos melhores ClĂ©rigos da capital — murmurou Henrik.

— Mas ele nĂŁo tem piedade com os desleais. Talvez seja sĂ©rio demais Ă s vezes, mas Ă© alguĂ©m em quem vocĂȘ pode confiar. Se ao menos ele pudesse se juntar ao nosso grupo… Bom, chega de conversa fiada; vamos atĂ© a Associação. Quero saber das atualizaçÔes sobre a estrada bloqueada tambĂ©m — concluiu Sven, ignorando o olhar curioso de Henrik.

A essa altura, não havia mais nenhum traço de insatisfação no rosto de Henrik. Ele não cometeria o mesmo erro de subestimar Krai novamente. Os Grievers tinham uma forma incomum de administrar seu grupo, algo que, no começo, também incomodava Sven. Deixando os outros membros de lado, ele simplesmente não conseguia enxergar Krai como nada além de um cara comum, como se ele nem fosse um caçador.

Sven precisava se lembrar disso de tempos em tempos. Embora achasse tolice dar mais importùncia ao status de alguém do que à impressão pessoal que causava, o Mil Truques e seu disfarce impenetråvel precisavam ser uma exceção.

Enquanto observava Henrik, Sven se lembrou de como os Primeiros Passos foram criados.


O quarto escondido conectado ao escritório do mestre do clã, um cÎmodo sem janelas para evitar problemas de segurança, estava abarrotado com minha coleção de Relíquias, acumuladas com muito tempo e dinheiro. Conferi cada uma delas e só pude soltar um gemido.

Droga. A maioria estĂĄ sem mana.

Era exatamente o que eu temia, e isso basicamente selava meu destino. Colecionar Relíquias era tanto um hobby quanto um dos poucos meios de autodefesa que eu tinha. Muitos caçadores habilidosos carregavam uma ou duas Relíquias como carta na manga. Mas, para alguém sem talento como eu, as Relíquias, que produziam os mesmos efeitos independentemente do usuårio, eram uma tåbua de salvação.

Ao longo dos meus cinco anos na capital, eu havia coletado mais de quinhentas relíquias. Meu arsenal era composto por relíquias de todas as formas e tipos, capazes de me permitir sobreviver a qualquer situação, desde que eu os utilizasse corretamente e desde que estivessem carregadas com mana. Recarregar mana regularmente era essencial para manter as relíquias utilizåveis, pois a mana armazenada vazava em diferentes velocidades, mesmo quando as relíquias não estavam em uso.

No momento, a maior parte da minha coleção de relĂ­quias era tĂŁo Ăștil quanto um enfeite de parede: todas as minhas armas relĂ­quia (que perdiam mana mais rapidamente) estavam inutilizadas; o mesmo acontecia com minhas armaduras relĂ­quia. Me restavam apenas algumas poucas relĂ­quias ainda carregadas, mas a quantidade insignificante de mana que eu possuĂ­a nĂŁo era nem de longe suficiente para recarregĂĄ-las. A Associação geralmente recomendava que os caçadores carregassem apenas relĂ­quias que pudessem recarregar sozinhos, mas eu sempre tive Lucia, Maga dos Grieving Souls, para carregar minha coleção por mim. Embora ela tivesse recarregado todos as minhas relĂ­quias antes de partir da cidade, eu nĂŁo esperava que ela ainda estivesse fora. A essa altura, atĂ© as relĂ­quias que ainda estavam funcionais nĂŁo durariam muito. Meus AnĂ©is de Segurança eram uma exceção, pois retinham mana por mais tempo, mas eram apenas um seguro: nĂŁo serviriam de nada se eu estivesse encrencado.

Por que tudo isso importaria para mim, jå que eu nunca saía da capital? Eu sou um covarde. Apesar de sempre ter tentado me manter nas sombras, acabei me tornando bem reconhecível. Isso não seria um problema, se não fosse pela população de criminosos e caçadores querendo fazer seu nome ao eliminar caçadores de alto nível. Por isso, eu jamais ousaria andar pelas ruas sem ferramentas suficientes para me defender ou fugir.

Joguei de lado o Andarilho Noturno (agora que estava sem mana, não passava de um casaco estiloso) e me joguei na cama do quarto secreto. Eu não poderia nem sair para tomar um sorvete sem resolver essa situação. Pedir a um companheiro de clã para recarregar as relíquias estava fora de questão: um ou outro, tudo bem, mas eu tinha centenas de relíquias vazias. Não havia como um mago comum carregå-las todas, especialmente porque carregar qualquer quantidade de relíquias era um fardo enorme, se eu exigisse algo assim, me tornaria um påria dentro do meu próprio clã; meus companheiros poderiam até considerar isso um abuso de poder.

Liz era a Ășnica outra Grieving na cidade, mas era inĂștil quando se tratava de magia. Uma vez, pedi para ela recarregar minhas relĂ­quias, e depois do terceiro, ela mal conseguia ficar de pĂ© de tĂŁo drenada. Ainda assim, tentou pegar o prĂłximo, e eu tive que impedi-la.

Olhando para o teto, respirei fundo. O que serå que os outros Grievings estão fazendo? Eu me sentiria muito mais seguro quando eles voltassem, mesmo sem Ark à minha disposição. Eles jå deveriam ter voltado se tivessem seguido o cronograma e terminado no cofre. Pelo que Liz me contou, não parecia que estavam enfrentando problemas, mas era bem possível que tivessem se distraído no caminho.

Passos soaram no corredor.

Saltei da cama, peguei o Andarilho Noturno do chĂŁo e ajeitei minha aparĂȘncia.

Como a Ășnica entrada para este cĂŽmodo ficava escondida atrĂĄs de uma estante no escritĂłrio do mestre do clĂŁ, e os membros eram proibidos de entrar sem permissĂŁo, a lista de pessoas que poderiam estar ali era curta. Os Grievings ignoravam todas as regras e invadiam onde queriam, mas nenhum deles fazia barulho ao andar. Havia apenas um nome nessa lista curta que fazia.

Houve uma batida na porta, e eu controlei minha respiração antes de responder. A porta se abriu lentamente, revelando a vice-mestra do clã, Eva, exatamente como eu esperava. Ela me viu segurando o Andarilho Noturno e ergueu uma sobrancelha.

— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui embaixo?

Foi por pouco. Ela jå estava acostumada a me pegar enrolando, mas eu não queria levar uma bronca por tirar uma soneca em pleno expediente. Ainda mais considerando que eu estava ignorando a convocação de Gark, imaginei que Eva teria algumas reclamaçÔes para fazer, jå que eu sempre deixava toda a parte administrativa do clã nas mãos dela.

— SĂł… investigando uma coisa — murmurei, recebendo um olhar confuso de Eva.

Estranho, eu sei, considerando que este era meu quarto particular. O que eu poderia estar investigando em um cĂŽmodo com nada alĂ©m de relĂ­quias e mĂłveis bĂĄsicos? Dito isso, Eva era uma das poucas pessoas que sabia o quĂŁo inĂștil eu realmente era. Achei que ela entenderia a situação e me deixaria em paz.

— Investigando o quĂȘ? Posso te ajudar com isso? — ela perguntou, errando completamente a leitura da situação. NĂŁo era possĂ­vel que ela realmente acreditasse que eu estava investigando alguma coisa.

Evitei seu olhar penetrante.

— Tá tudo bem. Tinha que ser eu mesmo. E acabei de terminar.

Coloquei o casaco relĂ­quia de volta no cabide.

O que eu estava investigando aqui embaixo? Como? O que era algo que só eu poderia investigar? Eu precisava mesmo fazer isso agora, em vez de atender ao chamado de um figurão da Associação?

Se eu estivesse no lugar de Eva, teria uma enxurrada de perguntas para mim mesmo, e eu não tinha uma resposta decente para nenhuma delas. O suor frio começou a escorrer pela minha testa.

Eva suspirou baixinho.

Estou ferrado. Ela sabe que eu sĂł estava me escondendo aqui em vez de trabalhar. Mas nĂŁo era minha culpa: eu nĂŁo tinha como sair lĂĄ fora!

— Tem algo em que eu possa te ajudar? — perguntou Eva.

— Não, não, não — respondi no reflexo.

Eva franziu a testa com minha resposta. SerĂĄ que ela realmente acreditou? Eu nĂŁo achava que havia nada em mim que fosse confiĂĄvel neste momento. NĂŁo querendo me justificar, mas eu ficaria bem surpreso se ela acreditasse, jĂĄ que conhecia bem meu modus operandi. SerĂĄ que ela estava me provocando? Isso parecia mais provĂĄvel do que ela simplesmente aceitar minha palavra.

Os olhos cor de lavanda de Eva analisaram meu rosto inteiro, como se estivessem tentando ler minha mente. Era impossĂ­vel dizer, pela expressĂŁo dela, se ela realmente acreditava ou se essa era sua forma sutil de me repreender.

Limpei a garganta rapidamente e disse:

— NĂŁo Ă© que eu nĂŁo confie nas suas habilidades, Eva. É que… Ă© uma tarefa extremamente sensĂ­vel e… perigosa. Tem que ser eu. Nem Ark nem Liz podem me ajudar com isso.

Eva pareceu surpresa, entĂŁo acrescentei apressadamente:

— Mas nĂŁo Ă© nada demais. SĂ©rio. NĂŁo precisa se preocupar. Agradeço a oferta, mas eu consigo lidar com isso sozinho. Foi isso que eu quis dizer.

Em nossa organização, a equipe administrativa tinha mais poder do que os caçadores. Essa era uma regra que eu havia estabelecido no começo para evitar que os caçadores desobedecessem as ordens da administração. Se eu preocupasse Eva a ponto de boatos estranhos começarem a circular sobre mim, eu ficaria numa posição complicada. Pensando bem, eu deveria ter dito que estava apenas inspecionando minhas relíquias, embora isso não justificasse eu ignorar o chamado de Gark.

— Isso é—

— Fim de discussão — falei antes que Eva pudesse continuar. — E nada de mais perguntas. Preciso que mantenha isso entre nós.

Eu tinha decidido varrer isso para debaixo do tapete antes que me incriminasse ainda mais. Mesmo que apenas nominalmente, eu ainda tinha uma patente superior Ă  de Eva. Isso deveria mantĂȘ-la calada.

Um brilho de amargura passou pelo rosto de Eva, desaparecendo num instante.

— Entendido, senhor.

Eu nĂŁo queria colocar as coisas dessa forma, mas o tempo de Eva teria sido muito melhor aproveitado se estivesse focada no trabalho dela em vez de lidando comigo.

Tentei aliviar a tensĂŁo com uma piada:

— Bem, se realmente quiser ajudar, pode sair pela cidade e procurar novas sorveterias para mim.

— Sim, senhor — respondeu Eva, insatisfeita. Seus lábios não esboçaram nem um mísero sorriso diante da minha impressionante demonstração de humor.


— Então, nenhuma mudança nas linhas ley locais?

Gark Welter, gerente da filial da capital da Associação dos Exploradores, soltou um grunhido ao ler o relatório em suas mãos. Suas feiçÔes intimidadoras se contorceram ainda mais em frustração. Isso, somado à sua presença imponente, que continuava tão robusta quanto nos seus tempos åureos, foi suficiente para fazer o mensageiro da Terceira Ordem ficar em posição de sentido.

Entre as vårias divisÔes dos cavaleiros imperiais, a Terceira Ordem era responsåvel pela manutenção da paz dentro do império. Lidava não apenas com criminosos, mas também com monstros, espectros e até desastres naturais. Tradicionalmente, sempre que ocorriam problemas nos cofres de tesouro, seus cavaleiros uniam forças com a Associação para resolver a situação.

Gark observou o relatĂłrio em silĂȘncio. Ele nunca tinha presenciado um incidente como esse.

As linhas ley eram como vasos sanguíneos da terra: alimentavam, de diversas formas, as terras por onde passavam, formando um labirinto de caminhos subterrùneos. Criaturas poderosas eram atraídas por grandes fluxos de energia; a manipulação das linhas ley permitia a realização de rituais mågicos em larga escala com poucos catalisadores; e, o mais importante, o mana material que fluía pelas linhas ley era a fonte da manifestação dos cofres de tesouro.

Assim, a maioria das mudanças na natureza de um cofre era causada por alteraçÔes na quantidade de mana material na região. Se as linhas ley mudassem de forma a não mais concentrar mana em determinada årea, o cofre simplesmente desapareceria. Mas se a concentração de mana aumentasse, o cofre se tornaria significativamente mais perigoso. Em alguns casos, um cofre poderia até se expandir o suficiente para que espectros dele começassem a surgir nas estradas próximas à capital.

Porém, esse não era o caso agora.

As linhas ley raramente mudavam, tão raramente que a causa mais comum era um grande terremoto alterando a estrutura tectÎnica do subsolo. Mas não havia qualquer sinal de tremores recentes. Um desastre desse porte certamente teria causado grandes danos à capital, e, nesse tipo de situação, a anålise das linhas ley teria sido tratada como prioridade måxima, assim como os resgates.

— Se as linhas ley nĂŁo mudaram, qual Ă© a causa? — resmungou Gark, forçando o cĂ©rebro.

O Covil do Lobo Branco era um cofre de nĂ­vel 3, o que significava que os espectros nele deveriam ter uma força correspondente. Espectros nĂŁo eram exatamente seres vivos, mas sim imitaçÔes de formas de vida geradas a partir do mana material. A força deles dependia da densidade de mana na ĂĄrea. O motivo mais Ăłbvio para a alteração seria um deslocamento das linhas ley, mas o relatĂłrio produzido pela equipe especializada (escoltada por cavaleiros) nĂŁo mostrava qualquer evidĂȘncia disso.

Ainda assim, era inegĂĄvel que o nĂ­vel do cofre havia aumentado: os espectros dentro dele tinham se tornado muito mais fortes do que antes. Os detalhes ainda estavam sendo analisados, mas estimava-se que a força deles havia subido pelo menos de dois a trĂȘs nĂ­veis.

Com a grande quantidade de caçadores na capital, o aumento no nível do Covil do Lobo Branco não era um problema imediato. Os espectros que aparecessem nas estradas poderiam ser facilmente eliminados agora que a Associação estava ciente da situação. No entanto, o fato de os investigadores ainda não terem descoberto a causa real da mudança deixava Gark inquieto.

Ainda analisando o relatório, ele começou a raciocinar:

— AlguĂ©m causou isso? Mas como?

Os cofres de tesouro eram ao mesmo tempo armadilhas mortais e os maiores mistérios da natureza. Desde os primórdios da humanidade, esses cofres eram estudados, mas muito pouco se sabia sobre eles.

Jå haviam tentado manipular e distorcer as linhas ley para criar novos cofres de tesouro, capturar e transferir espectros de um cofre para outro, fundir diferentes cofres em um só e até vincular a geração de Relíquias a locais específicos dentro dos cofres para permitir extraçÔes seguras e regulares.

Mas, pelo que Gark se lembrava, nenhum experimento artificial no passado havia produzido efeitos semelhantes ao que estavam testemunhando agora.

Além disso, todos os países proibiam qualquer tentativa de manipular a natureza de um cofre de tesouro ou interferir no fluxo do mana material. Esse tipo de experimento era um dos dez crimes capitais do Império Zebrudiano, infraçÔes consideradas as mais hediondas de todas.

Gark imaginou que os pesquisadores do Escritório de Investigação de Cofres do império (um instituto dedicado ao estudo dos cofres de tesouro) estavam agora revirando seus arquivos em busca de respostas.

Ele refletiu por um momento, de olhos fechados, então os abriu lentamente e lançou um olhar cortante para o cavaleiro mensageiro.

— Vamos enviar uma equipe tambĂ©m. Mantenha-me informado sobre qualquer progresso.

Ao ouvir as palavras de Gark, o cavaleiro saudou e saiu da sala.

Embora o Covil do Lobo Branco ainda não fosse uma ameaça incontrolåvel para os caçadores de elite, Gark temia que a situação piorasse. Como o cofre ficava próximo à capital, se seu nível de ameaça continuasse subindo a ponto de nenhum caçador conseguir lidar com ele, o império seria forçado a transferir a cidade para uma localização mais segura.

Resolver esse mistĂ©rio era uma questĂŁo de extrema urgĂȘncia.

Gark não tinha pistas concretas, mas sabia de alguém que poderia ter. Ele soltou um longo suspiro e se virou para sua assistente, Kaina.

— Quero falar com Krai. Chame-o.

— Ele recusou seu Ășltimo pedido dizendo que estava ocupado demais — lembrou Kaina.

— Se ele recusar de novo, diga que eu mesmo irei atĂ© ele — rosnou Gark.

Os caçadores registrados na Associação dos Exploradores eram obrigados a atender Ă s ordens em caso de emergĂȘncia, mas nĂŁo havia uma definição clara do que constituĂ­a uma emergĂȘncia. Caçadores frequentemente recusavam pedidos da Associação, ainda mais quando pertenciam a um clĂŁ tĂŁo influente quanto o Primeiros Passos.

Percebendo a hesitação de Kaina, Gark acrescentou:

— Não se preocupe. Nem mesmo o Krai vai fugir disso. Ele sabe de algo, eu tenho certeza.

Ele alisou os papéis que havia amassado e os entregou para Kaina, que ainda parecia pouco convencida.

— Ele nĂŁo pisa em nenhum cofre hĂĄ anos, mas decidiu ir pessoalmente atĂ© a Toca do Lobo Branco? SĂł isso jĂĄ me diz que tem algo lĂĄ que vale o tempo dele — disse Gark.

Se qualquer caçador comum tivesse escolhido aquela missĂŁo no meio da pilha, Gark teria apenas considerado um golpe de azar. Mas quando se tratava do Mil Truques, a sorte nĂŁo interferia em suas açÔes. O legado que Krai havia construĂ­do nos Ășltimos anos era suficiente para que Gark depositasse sua fĂ© nele.

Kaina assentiu ao comentårio de Gark sem mais objeçÔes.


Um velho suspirou, olhando para cima. — Que inesperado. Nem mesmo os deuses poderiam prever que caçadores de alto nível se envolveriam.

Ele estava em uma sala espaçosa, sem janelas. As paredes e o chão eram feitos de terra processada com alquimia e, por isso, pareciam refinados. Além de móveis båsicos como mesas, estantes e cadeiras, a sala estava repleta de instrumentos bizarros. O mais notåvel deles era um tubo de vidro espiral no centro da sala, com uma das extremidades cravada no chão. O tubo vibrava levemente enquanto emitia um brilho fraco.

Diante do tubo de vidro estava o velho. Seus cabelos brancos e traços enrugados condiziam com sua idade. Ele vestia uma tĂșnica preta simples, encantada com magia poderosa, um indicativo de sua excepcional carreira como mago.

Na verdade, aquele homem jĂĄ fora considerado um dos melhores magos da capital, seu tĂ­tulo era Mestre dos Magos. Seu nome era Noctus Cochlear, e agora ele servia como diretor de pesquisas da base capital da Torre AkĂĄshica, um sindicato maligno de magia.

AtrĂĄs dele, estavam quatro de seus aprendizes. Seu segundo aprendiz, um homem de olhos serpenteantes, relatou em um tom baixo:

— Pode ser apenas uma questĂŁo de tempo atĂ© que a Associação dos Exploradores descubra este local. Duvido que as massas tolas do impĂ©rio consigam compreender a grandiosidade de sua conquista, mestre, mas eles nĂŁo sairĂŁo de cima atĂ© descobrirem a causa.

Passos ecoavam acima deles, vindos da caverna que era a Toca do Lobo Branco. O barulho era projetado magicamente na sala onde estavam, o que significava que os caçadores não estavam necessariamente bem acima deles. De qualquer forma, eles não mostravam sinais de abandonar sua tarefa ou de sair dali.

Os cofres de tesouro eram uma prioridade para Zebrudia, pois eram considerados os epicentros da caça ao tesouro. Eram tão importantes que Zebrudia possuía um departamento dedicado à investigação de cofres.

— Eu disse que era cedo demais para jogar caçadores lá dentro — disse Noctus com decepção audível.

O instrumento de vidro Ă  sua frente ainda estava funcionando perfeitamente como planejado, extraindo uma quantidade enorme de energia das linhas ley e acumulando-a onde estavam. Esse era o fruto da obsessĂŁo de Noctus Cochlear, um sonho que ele realizou ao priorizar sua pesquisa acima de qualquer status ou reconhecimento. À medida que o experimento progredia, Noctus esperava que seu dispositivo fosse capaz atĂ© mesmo de gerar cofres de tesouro Ă  vontade. Mas ainda havia um longo caminho a percorrer: sua pesquisa ainda era amplamente teĂłrica e definitivamente nĂŁo estava em um ponto em que pudesse controlĂĄ-la.

— Eu sabia que deveria ter recusado, independentemente da pressão que me fizeram — murmurou Noctus.

Ele esperava que as mudanças no cofre fossem descobertas, mas não tão rapidamente. Elas deveriam ter passado despercebidas até que o experimento tivesse progredido um pouco mais e o cofre se tornado um pouco mais letal. Foi por isso que ele escolheu a Toca do Lobo Branco: era um dos cofres menos populares da região ao redor da capital. Mas agora, toda a sua preparação havia sido em vão. Jogar caçadores lå dentro antes que estivesse devidamente fortalecido levou ao envio de uma equipe de resgate poderosa, o que fez com que a Associação descobrisse os resultados do experimento.

O experimento de Noctus sĂł foi possĂ­vel graças a um investimento financeiro monumental. Ele nĂŁo podia culpar seus investidores por exigirem resultados, mas nĂŁo conseguiu evitar um suspiro irritado com a polĂ­tica acadĂȘmica que o perseguia atĂ© mesmo dentro desse sindicato ilegal de magia.

Ele não esperava que a entrada para aquele laboratório (que não estava conectada à Toca do Lobo Branco e era bem escondida) fosse descoberta tão cedo. Mas, agora que haviam atraído tanta atenção para o cofre, não havia outra escolha.

— Teremos que abandonar este laboratório. De volta à estaca zero.

Ele não estava pronto para enfrentar o império.

Contratempos eram comuns em qualquer experimento, e Noctus sabia lidar com atrasos. Ele estava acostumado com resistĂȘncia, jĂĄ que um dia foi banido do impĂ©rio por propor uma teoria que violava descaradamente a lei. Esse experimento sĂł começou a mostrar resultados promissores hĂĄ uma ou duas semanas, e ainda havia muito a melhorar, os fantasmas poderosos que ele havia criado foram completamente aniquilados pelos caçadores. Enquanto seu equipamento estivesse intacto, ele poderia continuar seu experimento em qualquer cofre de tesouro. Mesmo assim, estava decepcionado.

— Os fantasmas derrotaram o grupo de Rudolph. Eu nĂŁo esperava que um dos trĂȘs nĂ­vel 8 da cidade aparecesse — resmungou Noctus.

— Talvez fantasmas sempre sejam apenas fantasmas, nĂŁo importa quĂŁo poderosos se tornem, eles nem percebem quando estĂŁo fora de seu alcance — comentou um dos aprendizes. Todos eles haviam ajudado no experimento tambĂ©m.

Os fantasmas de alto nĂ­vel gerados pelo experimento haviam derrotado um caçador de nĂ­vel 5 e seu grupo, o que os tornava equivalentes a fantasmas de nĂ­vel 6 ou 7—muito alĂ©m da ameaça esperada para a Toca do Lobo Branco. Noctus sĂł concordou em colocar caçadores lĂĄ dentro porque achava que os fantasmas seriam capazes de eliminĂĄ-los. Ele esperava que uma missĂŁo de resgate fosse enviada, mas nĂŁo que chamassem um caçador de nĂ­vel 8 para um cofre de nĂ­vel 3. Nem mesmo os superfantasmas tiveram chance contra um nĂ­vel 8.

— NĂŁo havia como ele saber de antemĂŁo. O Mil Truques Ă© mais astuto do que sua reputação sugere — admitiu Noctus.

Noctus não era um caçador, mas estudara bem aqueles que poderiam se tornar seus adversårios. Caçadores que sobrepujavam a magia com força bruta eram inimigos naturais dos Magi.

O Mil Truques era um caçador famoso de nível 8; seu nível por si só jå sugeria que ele possuía algum tipo de poder extraordinårio. Mas, por mais que investigasse, Noctus não encontrou nenhuma pista sobre qual era esse poder. Aparentemente, o Mil Truques era um mestre em ocultar informaçÔes.

Noctus não conseguia imaginar como seu experimento, protegido por camadas e mais camadas de preparação meticulosa, poderia ser descoberto, mas acreditava que nunca se podia ter cuidado demais.

Flick Petosin, o segundo aprendiz de Noctus, estalou a língua em frustração com o contratempo tão perto do sucesso.

— E a Sophia estĂĄ de fĂ©rias agora? O que ela estĂĄ fazendo? Ela era responsĂĄvel pelos mecanismos de defesa.

Os outros aprendizes se apressaram em culpar Sophia Black, a primeira aprendiz de Noctus.

Embora pudesse aprender a ser mais cuidadosa, ela, apesar de nĂŁo ser sua aprendiz hĂĄ tanto tempo quanto os outros, possuĂ­a uma sabedoria extraordinĂĄria que lhe permitiu contribuir de forma significativa para o experimento. Como resultado, todos presumiam que ela seria a sucessora de Noctus.

Grandes talentos geram grande inveja, e os aprendizes que serviam Noctus hĂĄ mais tempo nĂŁo estavam nada felizes com o tratamento preferencial que ela recebia. No entanto, seu talento avassalador logo esmagaria qualquer vestĂ­gio de inveja.

Parecia mais um golpe de azar que seus experimentos no Covil do Lobo Branco tivessem vindo à tona exatamente quando a braço-direito de Noctus estava fora por motivos pessoais. Se ela estivesse no laboratório, talvez tivesse sugerido uma solução melhor ou até mesmo impedido o Mil Truques de sair vivo do cofre do tesouro.

Noctus suspirou baixinho, acariciando o cabo de seu cajado mĂĄgico.

— O experimento ainda nem havia começado quando ela esteve aqui pela Ășltima vez. Nem mesmo ela poderia ter previsto esse desdobramento.

— Pode ser… — admitiram os aprendizes, relutantes.

O experimento deles era considerado um tabu. Por isso, haviam tomado medidas para protegĂȘ-lo das autoridades. Ainda tinham algumas contramedidas Ă  disposição, mas era arriscado demais partir para a ofensiva, especialmente sem Sophia, que era a mais forte do grupo depois de Noctus. No entanto, Noctus suspeitava que seus aprendizes nĂŁo estavam hesitantes apenas por esse motivo.

— Entrei em contato com Sophia por meio de uma Pedra de Comunicação. Ela voltará em breve.

Ao ver que essa afirmação animava a expressão de seus aprendizes, Noctus sentiu-se secretamente decepcionado. Todos eles jå haviam sido Magi de elite, banidos da årea por causa de seus caråteres falhos ou ambiçÔes desmedidas. Eram inegavelmente talentosos, mas nenhum deles hesitaria em realizar experimentos cruelmente antiéticos.

Ainda assim, pensou Noctus, eles nĂŁo sĂŁo bons o bastante para buscar a verdade.

— Contatem a capital. NĂŁo podemos permitir que o Mil Truques continue a se intrometer. Precisamos reunir informaçÔes.

Ao comando de Noctus, um de seus aprendizes saiu correndo da sala.

Ter um experimento arruinado uma vez não era o fim da causa de Noctus. O preocupante era o fato de que ele não sabia como o Mil Truques havia descoberto seus planos, nem até onde essa descoberta ia. Enquanto houvesse a possibilidade de que o caçador pudesse continuar atrapalhando sua operação, precisavam agir.

Noctus suspeitava que, no pior cenĂĄrio, teria que enfrentar um caçador de nĂ­vel 8 frente a frente. Mas, mesmo com essa possibilidade, nĂŁo demonstrava qualquer sinal de preocupação. Enfrentar um Ășnico caçador nĂŁo era nada comparado a perseguir a verdade no abismo do desconhecido.


Tradução: Carpeado
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Anime X Novel 7 Anos

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