I Parry Everything – CapĂ­tulo 19 – Volume 2

Ore wa Subete wo “Parry” Suru: Gyaku Kanchigai
no Sekai Saikyou wa Boukensha ni Naritai
I Parry Everything: What Do You Mean I’m the Strongest?
I’m Not Even an Adventurer Yet!

Light Novel Online – Volume 02:
[CapĂ­tulo 19: O Garoto Sem Talento]


Na escola de treinamento do Soberano da Espada na capital, um garoto desconhecido apareceu sem aviso ou mensagem prévia.

— Por favor, treine-me para ser um espadachim — disse ele.

— Treinar vocĂȘ? — Sig respondeu. Nunca antes um garoto tĂŁo jovem fora Ă  sua escola. — VocĂȘ tem uma permissĂŁo da Guilda dos Aventureiros?

— Sim. Consegui agora pouco.

— Hmm. Este Ă© o selo de um oficial da guilda, mas vocĂȘ Ă© muito jovem para… NĂŁo, deixe para lĂĄ. VocĂȘ tem uma permissĂŁo, entĂŁo suponho que eu deva aceitĂĄ-lo.

As escolas de treinamento da capital trabalhavam para cultivar aventureiros e compartilhavam uma regra tĂĄcita: aceitar a todos. A Guilda decidia quem era elegĂ­vel para ser ensinado, e os instrutores das escolas obedeciam. No geral, era um procedimento extremamente simples.

Ainda assim, Sig se perguntava o que o oficial da guilda estava pensando. Certamente havia outras circunstñncias em jogo, mas este era apenas uma criança. Como diabos ele suportaria o treinamento da escola — um treinamento que fizera adultos em plena forma física desistirem?

Como instrutor-chefe da escola de treinamento de espadachins, Sig decidiu falar abertamente com o garoto.

— VocĂȘ nĂŁo receberĂĄ tratamento especial apenas por ser uma criança. Todos sĂŁo tratados igualmente aqui, e o treinamento Ă© severo. VocĂȘ estĂĄ resolvido a suportĂĄ-lo?

Em resposta, o garoto olhou o Soberano da Espada direto nos olhos.

— Eu sei — respondeu ele. — E estou.

Sig ainda estava convencido de que o garoto desistiria. Para ele, vĂȘ-lo durar sequer trĂȘs dias seria uma surpresa agradĂĄvel. Ele entregou ao seu subordinado um regime de treinamento para o aspirante a espadachim seguir…

E, para sua surpresa, o garoto nĂŁo parou. Nem depois de trĂȘs dias. Nem mesmo apĂłs uma semana.

O treinamento de espadachim envolvia brandir uma lĂąmina do amanhecer ao anoitecer, e o garoto fazia exatamente isso. A pele de suas palmas se desgastou, cobrindo suas mĂŁos de sangue, mas ele nĂŁo mostrava sinais de desistĂȘncia. Pelo contrĂĄrio, ele começou a golpear e golpear com ainda mais força, rasgando os mĂșsculos de seus braços magros.

Aqueles que careciam da motivação necessåria sempre desistiam antes que o primeiro dia terminasse, mas o garoto chegou ao seu décimo num piscar de olhos. Foi quando Sig revisou sua opinião sobre o aspirante a espadachim; sua determinação, pelo menos, era real.

Essa reviravolta inesperada trazia a pergunta: AtĂ© onde esse garoto estava disposto a ir? Ligeiramente intrigado, Sig continuou a observĂĄ-lo — e o garoto prosseguiu com seu regime de treinamento, inteiramente destemido. Logo, ele alcançou um ponto alĂ©m de qualquer outro aluno antes dele.

Os alunos tinham maior probabilidade de desenvolver habilidades quando seus corpos e mentes estavam sob estresse extremo, então esse era o ambiente que a escola de Sig tentava promover. Aqueles ousados o suficiente para frequentå-la eram forçados a praticar o brandir de suas espadas por horas a fio, parar uma investida de golpes de armas e bolas de ferro, e ficar sem descanso, mesmo quando os ossos de suas mãos pareciam prestes a se estilhaçar. O processo era repetido vez após vez e, naturalmente, envolvia uma grande dose de sofrimento.

É claro que o treinamento tambĂ©m era psicolĂłgico, destinado a unir cada aluno Ă  sua lĂąmina. Isso, por si sĂł, era um certo tipo de insanidade.

No entanto, o garoto suportou tudo. Foi um feito impressionante, especialmente considerando que ele nunca sequer segurara uma espada até recentemente. Também era assustadoramente raro alguém tão jovem ser capaz de brandir uma lùmina com um foco tão obstinado.

Ele poderia ter um futuro verdadeiramente brilhante.

Mas, Ă  medida que esse pensamento começava a se consolidar na mente de Sig, ele notou algo estranho. Apesar de ter trabalhado tanto, o garoto sĂł havia desenvolvido a mais rudimentar das habilidades: [Aparar]. Como isso era possĂ­vel? Na experiĂȘncia do Soberano da Espada, um progresso tĂŁo grande — especialmente vindo de alguĂ©m tĂŁo jovem — deveria ter manifestado algo. No entanto, mesmo com as probabilidades a seu favor, o garoto nĂŁo adquirira nada.

Talvez ele fosse apenas um florescer tardio, pensou Sig. Ele obteria uma nova habilidade em breve — e, quando o fizesse, sua força cresceria em um ritmo acelerado.

Afinal, o garoto tinha um olho absurdamente aguçado.

Como resultado de muita insistĂȘncia, Sig relutantemente mostrara ao garoto sua habilidade homĂŽnima, [Mil LĂąminas]. O ataque era tĂŁo ofuscantemente rĂĄpido que atĂ© ele, o Soberano da Espada, tinha dificuldade em controlĂĄ-lo.

Para dizer a verdade, Sig considerara a demonstração um esforço inĂștil — poucos conseguiam sequer perceber a habilidade, tal era sua velocidade — e atendeu o garoto apenas por um capricho fĂștil. Ele certamente nĂŁo esperava a anĂĄlise longa e detalhada que veio depois. A propriedade inerente de [Mil LĂąminas] a tornava rĂĄpida demais atĂ© para o Soberano da Espada acompanhar inteiramente, mas o garoto de alguma forma conseguira seguir tudo. NĂŁo apenas isso, ele distinguira cada movimento individual e atĂ© apontara hĂĄbitos que Sig falhara em notar.

Todos os pelos do corpo de Sig se arrepiaram. Agora ciente do talento bruto excepcional do garoto, ele sabia que havia encontrado um broto valiosĂ­ssimo — um que ele atĂ© abriria mĂŁo de seu tempo livre para nutrir. Em uma atitude atĂ­pica, ele começou a acreditar que o garoto poderia se igualar — ou atĂ© superĂĄ-lo — como espadachim.

Em segredo, Sig tinha esperanças altĂ­ssimas para o menino. Seu coração disparava por ter encontrado uma criança com uma dĂĄdiva tĂŁo excepcional. Conforme o regime de treinamento continuava, porĂ©m, algo inesperado ocorreu: por mais que o garoto tentasse, ele nĂŁo conseguia desenvolver sequer uma Ășnica habilidade de espadachim Ăștil. Tinha que ser algum tipo de erro, pensou Sig. A situação parecia impossĂ­vel. Mas nĂŁo — mesmo apĂłs inĂșmeras tentativas, o garoto falhava em aprender qualquer coisa.

Sig estava preocupado, mas persistiu. O garoto era o mais esforçado e persistente possĂ­vel; se houvesse uma Ășnica habilidade Ăștil que ele pudesse aprender, nĂŁo importa qual fosse, ele certamente a desenvolveria eventualmente.

O garoto tinha algum tipo de talento nele — isso era certo. De alguma forma, de algum jeito, ele certamente encontraria o sucesso. Foi por isso que Sig continuou a treinĂĄ-lo, perseverando atĂ© chegarem ao nĂ­vel mais difĂ­cil. Naquele ponto, parecia impossĂ­vel o garoto nĂŁo desenvolver uma habilidade.

Vez apĂłs vez, o garoto tentou aprender algo Ăștil, mas seus esforços nĂŁo deram frutos. Ele nĂŁo poderia ser um espadachim. Contra um monstro fraco, talvez ele fosse capaz de empregar truques suficientes para ter uma chance, mas contra uma ameaça real… tudo o que o esperaria seria uma morte rĂĄpida. Ele fora abençoado com um porte fĂ­sico excelente, uma vontade indomĂĄvel e olhos magnĂ­ficos, mas algum golpe de mĂĄ sorte significava que ele nĂŁo tinha aptidĂŁo para a esgrima. O deus da lĂąmina nĂŁo o amava.

ApĂłs muita angĂșstia, Sig aceitou o que precisava ser feito:

— NĂŁo hĂĄ mais nada que eu possa lhe ensinar aqui. VocĂȘ deve escolher um caminho diferente.

— Mas—!

O garoto recusou-se a recuar. É claro que recusou. Ele suportara trĂȘs meses de treinamento desesperado apenas para ouvir que possuĂ­a “nenhum talento”. Como seu instrutor, Sig carregava parte da culpa por isso, mas nĂŁo podia pedir ao garoto que continuasse o que seria apenas um esforço fĂștil.

— Um espadachim brandindo sua espada sem nenhuma habilidade em seu nome nĂŁo passa de um fardo para seus aliados. VocĂȘ estĂĄ perdendo seu tempo. Desista e siga em frente.

Após esse comentário propositalmente frio, Sig expulsou o garoto de sua escola de treinamento. O garoto tinha talento genuíno, e era precisamente por isso que seu futuro deveria levá-lo por outro caminho — um caminho que não fosse a maestria da espada.


◇

Na escola de treinamento de guerreiros, o Soberano do Escudo, Dandalg, franziu a testa e cruzou os braços.

— Ei, agora. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ falando sĂ©rio sobre treinar aqui, estĂĄ?

Parado diante dele estava um garoto — um que aparentemente fora expulso da escola de espadachins.

Dandalg nĂŁo estava completamente por fora da situação do menino. Sig mencionara que andava “cuidando de uma criança” ultimamente. Ele atĂ© dissera que o jovem poderia acabar se revelando inapto para o treinamento de espadachim e possivelmente seguiria para a escola de guerreiros em seguida. Ao ver o garoto pessoalmente, porĂ©m, Dandalg percebeu uma coisa: ele era realmente apenas uma criança.

“Ele vai ficar bem? Posso realmente deixĂĄ-lo treinar aqui?”

Essas dĂșvidas foram suas primeiras impressĂ”es. O garoto nĂŁo tinha o tipo de fĂ­sico esperado na escola de treinamento de guerreiros, um local de encontro para os robustos e resistentes.

Guerreiros deveriam ser escudos para seus aliados. Alguém tão pequeno estava fadado a passar mais tempo no ar do que sobre os pés, especialmente ao enfrentar os outros alunos, mas Dandalg não podia recuså-lo. O garoto tinha a aprovação de um oficial da guilda, afinal.

Então, sem outra opção, Dandalg permitiu que o garoto participasse.

“Ora, isso sim Ă© uma surpresa.”

Dandalg esperava que o garoto desistisse após apenas um gostinho do regime de treinamento severo dos guerreiros — um regime do qual tantos adultos acabavam fugindo — mas ele estava, na verdade, conseguindo acompanhar. Bem, talvez isso fosse um exagero. O treinamento era muito mais do que seu pequeno corpo podia suportar, mas ele se mantinha desesperadamente firme, quase ao ponto de encurtar sua própria expectativa de vida.

“Como alguĂ©m assim pode existir?”

Dandalg nĂŁo conseguia acreditar, mas a prova estava bem diante de seus olhos. O garoto era forte — nĂŁo apenas no corpo, mas no coração e na mente tambĂ©m. Ele ignorava qualquer dor que sentisse, jogava sua prĂłpria segurança ao vento e continuava avançando com intenção obstinada. Era uma bravura de um tipo extraordinĂĄrio, beirando a insanidade — e era exatamente disso que os guerreiros precisavam acima de tudo.

NĂŁo importa quanta dor sentisse, o garoto recusava-se a desistir. A visĂŁo chegou a enviar um calafrio pela espinha de Dandalg. NĂŁo era esse exatamente o tipo de pessoa que ele estivera procurando — alguĂ©m com uma vontade indomĂĄvel, que pudesse servir como seu braço direito?

Incrivelmente, o garoto logo avançou atĂ© o estĂĄgio mais difĂ­cil do regime de treinamento de guerreiro — algo inĂ©dito desde sua fundação. Todos os outros haviam desistido antes de alcançå-lo. O rei estava interessado no melhor dos melhores, entĂŁo Dandalg criara um teste de aptidĂŁo que beirava o impossĂ­vel. É claro que nĂŁo fazia sentido ter um regime que ninguĂ©m jamais completaria, entĂŁo ele se estabelecera em um que ele mesmo conseguia, pelo menos, terminar.

Dandalg nunca esperara que outra pessoa terminasse seu regime, mas foi exatamente o que o garoto fez. Ele de alguma forma conseguiu sobreviver a uma provação tão dura que só poderia ser descrita como infernal, mas não foi isso que mais surpreendeu o Soberano do Escudo.

— Como isso Ă© possĂ­vel?

Por mais que o garoto tentasse ou por quantas vezes colocasse seu corpo no inferno, ele nunca desenvolvia uma Ășnica habilidade propriamente dita. Dandalg era conhecido por ser mais otimista que a maioria, mas atĂ© ele estava estupefato. Uma profunda insatisfação brotou de dentro dele. Ele nĂŁo sabia se era direcionada a um deus, ao destino ou a algum outro desconhecido intangĂ­vel, mas o que ela dizia era claro para ele.

“Ele se esforça tanto. VocĂȘs nĂŁo podem dar a ele ao menos alguma coisa?”

O garoto logo chegou ao fim do perĂ­odo de treinamento de trĂȘs meses, mas mesmo assim queria continuar. Este foi outro ineditismo para Dandalg. Ele nĂŁo sabia bem como reagir. O perĂ­odo terminara, mas ainda havia uma opção: ele poderia tornar o garoto um novo recruta do Corpo de Guerreiros que capitaneava.

Sim, ele poderia fazer isso, mas e se o garoto nunca conseguisse desenvolver uma habilidade? Sua bravura temeråria o levaria longe demais, e ele morreria defendendo seus aliados. Era um desfecho muito provåvel, então Dandalg balançou a cabeça.

— NĂŁo. Se vocĂȘ continuar forçando o impossĂ­vel, tudo o que o espera Ă© um tĂșmulo precoce. Odeio dizer isso, mas vocĂȘ nĂŁo nasceu para ser um guerreiro. Siga em frente.

E assim o Soberano do Escudo expulsou o garoto. Foi lamentåvel, mas para alguém tão capaz, certamente haveria outro caminho por aí.


◇

Um pé no saco. Alguém que fedia a problema. Esses foram os primeiros pensamentos que Mianne, a Soberana do Arco, teve quando viu a criança que viera à sua escola de treinamento de caçadores, querendo ser ensinada.

— Por favor, treine-me.

— VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio? — Mianne perguntou. — Bem, tudo bem, eu acho. Pegue isso e jogue ali. — Ela pegou um seixo aos seus pĂ©s e o entregou ao garoto, mas ele pareceu apenas confuso.

— Ali onde?

— Ali. Apenas aponte e jogue.

— VocĂȘ quer dizer aquele galho de ĂĄrvore? Parece um pouco longe… VocĂȘ quer que eu acerte?

— Sim. Vamos, não tenho o dia todo. Se não gostar, pode ir embora.

Por acaso, Mianne estava se sentindo especialmente irritĂĄvel. Ela esperou que o garoto jogasse o seixo e observou distraidamente enquanto ele voava pelo ar.

“Certo. Assim que ele errar, vou mandĂĄ-lo embora.”

Ela usava esse desafio especĂ­fico sempre que queria afastar um candidato a aluno. Era um mĂ©todo excelente para se livrar de qualquer um de quem nĂŁo gostasse, que nĂŁo tivesse potencial ou que ela achasse que seria um fardo ensinar. Ela raramente tinha base para esse Ășltimo, mas um palpite era um palpite, certo?

Sua tĂ©cnica funcionava tambĂ©m para alunos jĂĄ existentes. Sempre que ela tinha um mau pressentimento sobre um, ela atribuĂ­a um teste com condiçÔes ridĂ­culas sob o pretexto de “treinamento” e depois lhe dava o pĂ© na bunda assim que falhasse. “Sinto muito, mas vocĂȘ nĂŁo serve para isso”, ela declararia. Talvez fosse um pouco desonesto, mas o rei nunca dissera que nĂŁo era permitido. AlĂ©m disso, como instrutora-chefe, ela tinha total discrição sobre tais assuntos de qualquer maneira.

Além do mais, se houvesse algo errado com sua abordagem, a culpa era daqueles que a forçaram a aceitar o cargo.

Mianne soubera desde o momento em que pĂŽs os olhos no garoto que ele seria um enorme pĂ© no saco. Ele era o tipo que nunca ouvia os outros — ela conseguia praticamente sentir o cheiro. Foi por isso que ela decidiu se livrar dele. Mas, apesar de suas expectativas…

O seixo do garoto atingiu o galho fino da ĂĄrvore com um baque seco.

— Faça de novo — foi a reação imediata de Mianne.

EntĂŁo ele acertara o galho. Grande coisa. Ele nĂŁo teria tanta sorte na segunda vez, e entĂŁo ela o enxotaria. Sim, era exatamente isso que ela faria.

— EntĂŁo vocĂȘ vai me treinar? — o garoto perguntou.

— Claro. Se vocĂȘ acertar de novo.

Ele erraria, Ă© claro. Seu alvo era, na verdade, mais parecido com um graveto do que com um galho, e pedir que ele o atingisse com uma pedra de tĂŁo longe era como pedir o impossĂ­vel. A prĂłpria Mianne erraria um em cada dez tiros se nĂŁo estivesse usando seu arco.

Claro, o garoto jĂĄ tivera sucesso uma vez, mas um Ășnico golpe de sorte estava dentro do reino da coincidĂȘncia. Ele erraria este, e entĂŁo ela o expulsaria. Ela estava tendo um mau pressentimento sobre ele de qualquer forma.

Exatamente como instruĂ­do, o garoto tentou novamente. E no exato momento em que o seixo deixou sua mĂŁo, Mianne percebeu que havia feito besteira.

“Vai acertar.”

Ela jå tinha certeza. O garoto lera o vento, focara no alvo e aplicara força suficiente para aperfeiçoar a trajetória do seixo.

“Ah, droga.”

Mianne nem sequer conseguiu pensar em uma nova desculpa antes que o seixo atingisse o topo do minĂșsculo galho da ĂĄrvore.

— Eu fui bem? — o garoto perguntou.

— Não. Não foi.

Apesar de sua irritação e do pressentimento extremamente ruim em seu estÎmago, Mianne permitiu que o garoto começasse seu treinamento de caçador. Uma promessa era uma promessa, e voltar atrås em sua palavra a faria parecer mal.

Mas então ela teve uma ideia. Ela faria o garoto continuar jogando pedras e nem o deixaria chegar perto dos arcos. Isso o tornaria menos dor de cabeça.

E assim se passou uma semana.

— Posso tentar usar um arco?

Mianne ordenara ao garoto que continuasse jogando pedras, e fora isso que ele fizera — na maior parte do tempo, pelo menos. Ocasionalmente, ele parecia lembrar-se subitamente do motivo de estar ali e entĂŁo a amolava para deixĂĄ-lo tentar usar um arco. Ela tinha uma premonição terrĂ­vel toda vez que isso acontecia… mas sempre cedia relutantemente.

Claro, suas premoniçÔes nunca falhavam. Os resultados eram consistentemente desastrosos.

Exatamente como Mianne esperava, o garoto nunca ouvia seus conselhos. Ele parecia ouvi-los, mas depois prosseguia fazendo algo inteiramente diferente. Ela jĂĄ encontrara o mesmo problema antes com outros alunos, mas ele era o pior de longe.

Isso nem era o fim, por mais que Mianne desejasse que fosse. Na verdade, a falta de habilidade auditiva do garoto era o menor de seus problemas. O mau pressentimento que ela tivera ao pĂŽr os olhos nele pela primeira vez provara-se completa e totalmente correto.

O garoto era inacreditavelmente desastrado — nĂŁo, algo muito alĂ©m disso. Ele conseguira quebrar cada um dos arcos que ela lhe dera. Em alguns casos, ele apenas arrebentava a corda. Em outros, ele partia o prĂłprio arco, ou o esmagava com seu aperto tremendamente firme. Ocasionalmente, algum explodia inexplicavelmente.

Em pouco tempo, o estoque de arcos de treinamento da escola sofreu um golpe sério. A situação tornara-se tão ridícula que Mianne até deixou o garoto pegar emprestado seu premiado arco de mestre, que ela entendia ser o arco mais forte e robusto existente.

Ainda assim, ele conseguira entortĂĄ-lo e tirĂĄ-lo de forma.

O garoto agora pedia outra chance, mas lembrar de todos os incidentes anteriores apenas fazia Mianne franzir a testa.

— Eu vou fazer certo desta vez! — implorou ele. — Eu sei que vou! Por favor!

Mianne perdera a conta de quantas vezes ele dissera aquilo, mas jå estava na casa das dezenas agora. Ela balançou a cabeça para ele, o rosto pålido, e disse:

— NĂŁo. Absolutamente nĂŁo. Como vocĂȘ pode sequer dizer isso, sabendo quantos arcos vocĂȘ jĂĄ quebrou? Se vocĂȘ vai apenas arruinĂĄ-los no literal momento em que estĂŁo na sua mĂŁo, existe sequer um sentido em tentar? SĂ©rio, o que hĂĄ com a força do seu aperto? VocĂȘ tem ideia de quĂŁo poucos arcos de treinamento temos por sua causa? E nem me faça começar sobre como vocĂȘ entortou meu arco de mestre! Ugh… NĂŁo acho que exista um arco mais forte! Apenas continue jogando pedras!

— Tudo bem…

Alguns dias depois, Mianne visitou a escola de treinamento por um capricho. Os alunos estavam todos praticando com arcos — exceto o garoto, que ainda jogava pedras em seus alvos.

Foi quando Mianne olhou novamente, mais de perto, para o menino. Ela o observou por algum tempo e chegou à conclusão de que definitivamente havia algo estranho acontecendo. Usando nada além de seixos e sua própria força, ele conseguia atingir alvos a distùncias que os arcos teriam dificuldade em alcançar. Mianne raramente se interessava por outras pessoas, mas esse garoto estava atiçando sua curiosidade.

— Quem te ensinou a fazer isso? — ela perguntou.

— Hein? NinguĂ©m — o garoto respondeu. — Eu apenas aprendi enquanto caçava pĂĄssaros.

— Pássaros, hum? De que tipo?

— Aqueles que mergulham do cĂ©u para agarrar coelhos da montanha.

Mianne fez uma pausa. — É? VocĂȘ consegue acertĂĄ-los?

— Não seria muito uma caçada se não conseguisse.

— Ah… Certo. EntĂŁo vocĂȘ consegue.

Ela não sabia se ria ou se jogava as mãos para o ar. De todos os påssaros nativos do Reino, apenas uma espécie correspondia à descrição do garoto: os Påssaros-Relùmpago, assim chamados porque desciam do céu como raios ao caçar. Uma pessoa comum teria dificuldade em seguir um com os olhos, e até mesmo um caçador experiente com um arco superior teria um tempo infernal tentando abater um.

Mianne conseguia caçar PĂĄssaros-RelĂąmpago de olhos fechados, Ă© claro, mas a maioria das pessoas consideraria o feito impossĂ­vel. Como, entĂŁo, esse garoto conseguira abatĂȘ-los com meras pedras? Ele nem conhecia a habilidade [Arremesso de Pedra] na Ă©poca! Ela estava completamente sem palavras, e esse sentimento apenas aumentou quando ela avistou o alvo que ele estava usando. A marca feita sob encomenda que seus subordinados prepararam para o garoto estava crivada de buracos.

A princípio, o garoto usara alvos de madeira como todos os outros alunos. Seus seixos logo os reduziram a pedaços, porém, então os subordinados agitados de Mianne os substituíram por alvos feitos de outros materiais. Isso remediara o problema, mas o que ela via agora ainda era ridículo. O grande escudo de aço para o qual ele estava mirando no momento, posicionado tão longe que a maioria dos outros mal conseguia enxergar, estava completamente cheio de buracos. E ele fizera aqueles buracos com pedras!

“Existe sequer um sentido em ele estar aqui? Ele poderia passar a vida toda jogando pedras e se sairia muito bem.”

Suas suspeitas foram provadas corretas — esse garoto era anormal. Claro, ele nĂŁo tinha o menor vestĂ­gio de talento quando se tratava de usar um arco, e a Ășnica habilidade que conseguira desenvolver fora [Arremesso de Pedra]… mas nĂŁo era o suficiente? O garoto tinha uma fixação tĂŁo desnecessĂĄria em usar um arco que Mianne se perguntava se ele sequer entendia seu propĂłsito.

Arcos eram ferramentas que ajudavam seus portadores a disparar projéteis mais longe e com mais precisão do que seria possível de outra forma. Mesmo os que exigiam muita força para serem puxados acabavam servindo a esse mesmo propósito. Todo arco, sem exceção, existia para compensar a incapacidade do usuårio de atingir e penetrar um alvo.

Este garoto nĂŁo precisava dessa ajuda. Usando nada alĂ©m de sua prĂłpria força, ele podia transformar qualquer seixo velho em uma arma capaz de perfurar um escudo de aço. Era ultrajante. E se ele substituĂ­sse aquelas pedras por pedaços de ferro? Ele tinha o potencial de se tornar um canhĂŁo de tiro rĂĄpido com munição quase ilimitada — um que poderia esmagar armaduras pesadas e atĂ© muralhas robustas de castelos com facilidade. Se ele usasse fragmentos de mithril, ele se tornaria uma verdadeira mĂĄquina de matar, capaz de aniquilar cem soldados avançando com um Ășnico arremesso.

Tal arma jå era muito mais aterrorizante do que qualquer arco jamais poderia ser. Além disso, embora um arco desse grande poder ao seu portador, ele também lhe impunha grandes limitaçÔes. O garoto ficaria muito melhor sem um.

Mianne estivera certa o tempo todo: fazer o garoto jogar pedras do amanhecer ao anoitecer era a escolha muito melhor. Logo ele perceberia a verdade — que sua prĂłpria existĂȘncia ia contra tudo o que o arco representava — e entĂŁo deixaria a escola por vontade prĂłpria. Tentar ensinĂĄ-lo teria sido um fardo enorme, e ela nĂŁo queria absolutamente nada com isso.

TrĂȘs meses se passaram.

ApĂłs superar todas as exigĂȘncias irracionais que lhe foram impostas, o garoto estava agora obstinadamente rondando a escola de treinamento, ainda implorando para usar um arco. Mianne nĂŁo tinha mais escolha — ela precisaria resolver a situação de uma vez por todas.

— Eu te disse, nĂŁo disse? VocĂȘ nĂŁo precisa de um arco. AlĂ©m disso, vocĂȘ tem zero intuição quando se trata de manusear ferramentas delicadas. Mesmo se vocĂȘ pusesse as mĂŁos em um, vocĂȘ apenas o quebraria! Arquearia Ă© a Ășltima coisa que eu te ensinaria na vida!

— M-Mas—!

— Continue jogando pedras e vocĂȘ se sairĂĄ muito bem. VocĂȘ nĂŁo precisa de mais nada. Agora suma daqui. VocĂȘ sĂł me atrapalharia aqui.

O garoto ainda estava agarrado aos portÔes da escola, então Mianne o removeu com uma série de chutes vigorosos. Não havia nada que ela pudesse lhe ensinar. Aqui nesta escola de treinamento, pessoas que jå eram melhores atiradores do que a própria Soberana do Arco apenas ocupariam espaço.

“Ele Ă© mesmo um pĂ© no saco.”

Embora o garoto estivesse obcecado em adquirir as habilidades necessĂĄrias para se tornar um aventureiro, Mianne sabia que ele se sairia bem sem elas. Em vez de se prender a coisas que nĂŁo importavam, por que ele nĂŁo passava o tempo fazendo o que quisesse? Desde o momento em que chegara Ă  escola de treinamento de caçadores, ele jĂĄ possuĂ­a força suficiente para viver uma vida sem restriçÔes — por conta prĂłpria tambĂ©m, se assim desejasse.

Falando sério, por trås de quaisquer mentiras e desculpas que contava a si mesma, Mianne desejava que o garoto jå abrisse os olhos para a verdade.


◇

— Por favor… Treine-me para ser um ladrĂŁo.

— Treinar? Uma criança como vocĂȘ?

Carew estava aproveitando seu intervalo do meio-dia, lendo um livro, quando um garoto com ombros caídos e marcas de botas sujas de lama por todo o corpo apareceu na escola de treinamento de ladrÔes.

— Sim — respondeu a criança. — Por favor, treine-me.

— Ah, vocĂȘ seria o Noor, entĂŁo? Muito bem. Venha comigo.

Carew ouvira falar desse garoto e jå tinha uma noção aproximada de que tipo de pessoa ele era. Não havia necessidade de perder tempo fazendo perguntas das quais ele jå sabia as respostas, então o treinamento começou imediatamente.

No geral, o treinamento de ladrĂŁo era bastante simples. Melhorar a prĂłpria furtividade e enxergar atravĂ©s da dos outros. Aproximar-se de um alvo sem fazer som. Detectar, desativar e evitar armadilhas e laços. Um aluno repetiria esses exercĂ­cios bĂĄsicos vez apĂłs vez enquanto a dificuldade aumentava gradualmente. EntĂŁo, apĂłs um certo nĂșmero de repetiçÔes, eles desenvolveriam uma habilidade de ladrĂŁo.

No entanto, por mais que o garoto treinasse, a Ășnica habilidade que ele adquiriu foi [Passo de Pluma]. Em si, este era um bom desenvolvimento — suavizava o som dos passos e era fundamental para todo e qualquer ladrĂŁo. O problema era que o garoto nĂŁo tinha mais nada. Se a furtividade fosse tudo o que um ladrĂŁo fosse capaz, eles teriam dificuldade em realizar as tarefas exigidas por sua classe.

Mas não era só isso. O garoto também possuía o que era considerado uma falha fatal no mundo dos ladrÔes: ele era irremediavelmente desastrado com armadilhas.

Em um grupo de aventureiros, era dever do ladrĂŁo arrombar fechaduras e detectar armadilhas. Em vez disso, o garoto obliterava qualquer baĂș trancado que lhe fosse dado — conteĂșdo incluĂ­do — e disparava cada armadilha de que se aproximava. O problema do baĂș era evitĂĄvel se vocĂȘ nunca o deixasse pĂŽr as mĂŁos em um, mas seu “talento” para acionar armadilhas era um problema sĂ©rio. Se o garoto fosse forçado a percorrer um corredor cheio delas, ele de alguma forma encontraria um jeito de acionar cada uma delas.

AtĂ© armadilhas que estavam inativas ou em manutenção ganhavam vida quando o garoto se aproximava delas. Sua discordĂąncia com elas tornou-se tĂŁo absurda que parecia razoĂĄvel descrevĂȘ-la como um ato divino.

A princĂ­pio, Carew se perguntou se a peculiaridade era o resultado de uma habilidade ou DĂĄdiva. Ele testou o garoto com uma ferramenta mĂĄgica destinada a detectar tais coisas… mas os resultados deram negativo. O garoto era apenas inatamente azarado, alĂ©m de irremediavelmente desastrado.

No entanto, embora o garoto acionasse cada armadilha da qual se aproximava, nenhuma delas era realmente uma ameaça para ele. Quando flechas envenenadas tentavam atravesså-lo, ele as derrubava no ar com as mãos nuas. Quando uma bola de ferro gigante começava a rolar em sua direção, ele a parava de frente. Mesmo quando um enxame de cobras venenosas era jogado sobre ele, ele apenas esmagava as cabeças das serpentes, limpava os corpos, drenava o sangue e os trazia consigo. Carew perguntara o que ele pretendia fazer com elas, e o garoto respondera que as teria para o jantar.

O garoto estava perdendo completamente o ponto. É verdade, ele tornava as armadilhas inĂșteis, mas nĂŁo por detectĂĄ-las e entĂŁo desativĂĄ-las ou evitĂĄ-las. Em vez disso, ele as acionava e depois destruĂ­a o que quer que elas lançassem contra ele. Era inegavelmente impressionante… mas tambĂ©m completamente errado.

O garoto estava treinando para ser um ladrĂŁo. Carew reconhecia sua grande coragem, percepção, reflexos e instintos de sobrevivĂȘncia, mas isso estava fora de questĂŁo. NĂŁo havia uma abordagem “correta” para desativar armadilhas, Ă© claro, mas o Soberano das Sombras estava começando a se arrepender de nĂŁo ter ensinado ao garoto sequer o mĂ­nimo de bom senso antes de começar seu treinamento.

Não importa em quantas armadilhas o garoto tropeçasse, ele sempre sairia ileso — mas o mesmo não seria verdade para os eventuais membros de seu grupo. Ele era fatalmente inadequado para trabalhar em grupo, e este fato por si só o desqualificava de se tornar um aventureiro da classe ladrão.

Claro, isso nĂŁo significava que o garoto nĂŁo tivesse outras perspectivas.

— VocĂȘ estĂĄ realmente decidido a se tornar um aventureiro, nĂŁo importa o quĂȘ? — Carew perguntou.

— Sim. NĂŁo importa o quĂȘ.

Carew nĂŁo fez mais perguntas; ele sabia pelo tempo que passaram juntos que o garoto nĂŁo era do tipo que se deixava influenciar facilmente. Na verdade, isso era parte do que o tornava tĂŁo cativante.

O garoto nĂŁo era ruim, por si sĂł. Sua capacidade de furtividade era excelente, e sua intuição era assustadoramente aguçada. Mas essas qualidades sozinhas nĂŁo qualificavam alguĂ©m para ser um ladrĂŁo. O perĂ­odo de treinamento de trĂȘs meses passou voando enquanto Carew ponderava esses pensamentos, e logo ele se viu despedindo-se do garoto.

— VocĂȘ deseja se tornar um aventureiro, mas nĂŁo consegue sequer abrir baĂșs com armadilhas e nĂŁo tem habilidades de detecção — disse Carew. — VocĂȘ tambĂ©m aciona cada armadilha que encontra, entĂŁo pode esquecer o reconhecimento por completo. VocĂȘ nĂŁo tem futuro como ladrĂŁo. Siga uma classe diferente.

Apesar de ter dito isso, Carew jĂĄ sabia que o garoto nĂŁo tinha talento para se tornar espadachim ou guerreiro. Mianne tambĂ©m o considerara inapto para ser um caçador — embora Carew duvidasse se ela sequer se dera ao trabalho de treinĂĄ-lo.

O garoto nĂŁo desenvolvera nenhuma habilidade de ladrĂŁo que valesse a pena mencionar. Isso significava que suas Ășnicas opçÔes restantes eram mago ou clĂ©rigo, mas suas perspectivas para essas classes eram tĂȘnues na melhor das hipĂłteses. Parecia inevitĂĄvel que o garoto acabasse falhando em atender aos requisitos mĂ­nimos para se tornar um aventureiro de regulamentação padrĂŁo.

Carew sorriu por trĂĄs da mĂĄscara. Ele se sentia mal pelo garoto… mas esta era uma excelente oportunidade. O garoto era teimoso e de vontade forte, mas quando fosse finalmente forçado a desistir de se tornar um aventureiro, Carew o recrutaria para sua unidade de inteligĂȘncia da capital real.

O garoto nĂŁo tinha habilidades, e sua inclinação para acionar cada armadilha que encontrava era de fato incĂŽmoda. No entanto, os mĂ©todos que ele usava para furtividade e sua habilidade inata de sentir anormalidades em seus arredores eram extremamente impressionantes. Acima de tudo, ele tambĂ©m tinha paciĂȘncia e tenacidade em um grau que era terrivelmente raro de se encontrar. Para alguĂ©m na profissĂŁo de Carew, esses traços eram mais valiosos do que quaisquer outros. O garoto certamente se tornaria um operativo de inteligĂȘncia excepcional um dia.

“Encontrei um candidato excelente.”

Com esse pensamento, Carew recusou o pedido do garoto para estender seu período de treinamento e o mandou embora da escola de ladrÔes.

A avaliação de Carew — de que seu futuro recruta tinha grande promessa — foi ainda mais reforçada quando ele notou que o garoto ainda estava tentando implacavelmente encontrá-lo e persegui-lo, mesmo depois que ele usara [Ocultamento] em si mesmo. No entanto, ele seguiu seu caminho e logo desapareceu na escuridão da noite.


◇

— Por favor… Treine-me para ser um mago!

Após responder a uma batida na porta de sua escola de treinamento de magos, o Soberano dos Feitiços, Oken, viu-se cara a cara com uma criança. Ele inclinou a cabeça levemente para o pequeno, cujo rosto estava manchado de lågrimas, e acariciou sua orgulhosa barba.

— Ho ho? VocĂȘ Ă© bem jovem para um candidato a aluno, nĂŁo Ă©? Se minha memĂłria nĂŁo falhou, os candidatos devem ter pelo menos quinze anos… O requisito de idade baixou?

— O homem na Guilda me encaminhou! Por favor, deixe-me treinar aqui! Isso Ă© tudo o que me resta! Por favor!

— Ho ho. Que sĂșplica. VocĂȘ despertou meu interesse, criança. Se esse Ă© o seu desejo, vocĂȘ Ă© bem-vindo para tentar.

Assim marcou o inĂ­cio do treinamento de mago do garoto.

Exatamente como Oken suspeitara, o garoto era um caso perdido. Ele tinha absolutamente zero talento para magia, e a mana fluía tão mal por seu corpo que era chocante. Para usar magia, era necessårio familiarizar-se com a mana desde cedo e depois gastar tempo estudando teoria mågica. O garoto tropeçou logo no primeiro passo; sua mana era simplesmente coagulada demais.

— Talvez ele tenha começado a trabalhar sua mana um pouco tarde demais — refletiu Oken em voz alta. — Hmm, mas mesmo assim, poucos nascem com uma aptidĂŁo tĂŁo fraca para a magia. Dada a idade dele, sua mana deveria ser mais flexĂ­vel… Pergunto-me se alguma parte de sua constituição natural estĂĄ causando isso.

NĂŁo era que o garoto nĂŁo tivesse mana nenhuma — na verdade, ele tinha atĂ© mais que a mĂ©dia. O problema era que, por algum motivo, ela endurecera dentro de seu corpo e se recusava a fluir. E se a mana nĂŁo pudesse ser movida, entĂŁo nĂŁo poderia ser usada.

Por outro lado, era possĂ­vel que essa condição Ășnica desse ao garoto uma resistĂȘncia robusta contra ataques mĂĄgicos.

Oken foi franco com o garoto e informou-lhe que nenhum treinamento melhoraria suas perspectivas. Ainda assim, o garoto recusou-se a deixar a escola.

— Hmm. Suponho que verei onde isso vai dar.

Oken acedeu Ă  determinação do garoto e decidiu deixĂĄ-lo continuar com seu treinamento. Muitos alunos acabavam ficando fartos e saindo por vontade prĂłpria — mas para aqueles que se recusavam a sair, o melhor curso de ação era deixĂĄ-los treinar atĂ© que estivessem satisfeitos.

Seja como for, a escola de treinamento de magos era um destino para aqueles que jĂĄ tinham conhecimento e tĂ©cnica atĂ© um certo grau. Para um garoto sem nenhum dos dois, o Ășnico treinamento que ele poderia realizar era a meditação na cĂąmara de ressonĂąncia de mana. Este processo consistia em fechar-se em uma sala completamente escura, silenciosa e isolada para confrontar sua mana interior.

A cĂąmara fora projetada para aumentar os sentidos do ocupante em muitas vezes, o que a tornava excelente para aqueles que esperavam desenvolver habilidades. Claro, este ambiente Ășnico ampliava a dor, os medos e a inquietação tambĂ©m. Dependendo da pessoa, podia-se muito bem enlouquecer apenas ao entrar nela.

A maioria conseguia suportar não mais que alguns segundos na cñmara — mas, mesmo depois de Oken explicar isso, o garoto não mostrou nem um traço de relutñncia em tentar a meditação.

— VocĂȘ tem certeza absoluta disso? — Oken perguntou.

— Sim. Eu vou fazer.

Bem, refletiu o Soberano dos Feitiços, toda experiĂȘncia era uma chance de aprender. Ele daria ao garoto uma chance justa.

“Ele nĂŁo vai ficar lĂĄ por muito tempo, de qualquer maneira.”

Assim, sem pensar muito sobre o assunto, Oken permitiu que o garoto entrasse na cĂąmara de ressonĂąncia de mana.

Minutos transformaram-se em horas, mas o garoto nĂŁo saiu. Ele nĂŁo estava em lugar nenhum, mesmo quando Oken acordou na manhĂŁ seguinte.

O Soberano dos Feitiços empalideceu. Isso era muito ruim. O garoto teria desmaiado lĂĄ dentro? Nem queria pensar nisso, mas… no pior cenĂĄrio, ele poderia atĂ© ter morrido.

Em pĂąnico, Oken espiou dentro da cĂąmara, apenas para ver o garoto sentado calmamente, como se nada estivesse errado. A criança olhou para cima e, ao ver o velho, o enxotou com um firme “NĂŁo me atrapalhe”.

O que diabos…?

Dali em diante, o garoto passava todo o seu tempo na cùmara de ressonùncia de mana, saindo apenas para comer e atender às necessidades fisiológicas. Poucos ousavam usar o método de treinamento para começar, então, para todos os efeitos, tornou-se seu quarto pessoal.

Oken estava preocupado — naturalmente — e verificava o garoto em intervalos regulares. Ele perguntava se estava tudo bem ou indagava se o garoto sofrera alguma debilidade fĂ­sica, mas era sempre instado a sair com a mesma resposta: “Estou bem”.

Oken estava bastante confuso. Ele permitira que o garoto meditasse porque não havia mais nada para ele fazer, mas a cùmara de ressonùncia de mana ainda era um método avançado do qual até magos especialistas recuavam. Estava entre as formas mais severas e difíceis de treinamento que a escola tinha a oferecer.

No entanto, apesar de todo o seu tempo lĂĄ dentro, o garoto ainda nĂŁo desenvolvera uma Ășnica habilidade.

Sim, Oken estava certamente confuso. Ele se perguntava como tal coisa era sequer possĂ­vel.

TrĂȘs meses se passaram.

Conforme o fim do perĂ­odo de treinamento se aproximava, durante uma de suas saĂ­das da cĂąmara de ressonĂąncia de mana, o garoto fez uma visita a Oken. Ele finalmente conseguira desenvolver uma habilidade e queria demonstrĂĄ-la.

Oken manteve suas expectativas baixas enquanto se preparava para assistir; a constituição natural do garoto praticamente o proibia de trabalhar sua mana. Ainda assim, a criança trabalhara tremendamente duro, então o Soberano dos Feitiços estava pronto para elogiå-lo, não importa o resultado.

Mas quando Oken viu o feitiço…

“Como… pode ser?”

Ele estava estupefato. O garoto estava lhe mostrando [Chama Pequena]. Como habilidade de mago, ela ficava no degrau mais baixo da escada, mas esse não era o problema em questão — o garoto estava manifestando o feitiço a partir de dois dedos. Em suma, ele estava realizando conjuração dupla. Mesmo tendo mal tocado em magia antes.

“Como pode ser?”

Oken enrijeceu de choque. Conjuração mĂșltipla era a tĂ©cnica suprema de manipulação de mana, adquirida apenas apĂłs anos de estudo e treinamento ĂĄrduos. Sua existĂȘncia fora considerada uma fantasia na Ă©poca em que ele era jovem, entĂŁo ele ficara abertamente atĂŽnito quando a alcançou ele mesmo.

Somente apĂłs cinquenta anos de trabalho Oken conseguira aprender a conjuração mĂșltipla. Depois, com o peito estufado, ele compartilhara sua nova sabedoria nas muitas tabernas por onde suas viagens o levaram. NĂŁo fora senĂŁo vĂĄrias dĂ©cadas depois que ele começara a ouvir falar de outros que alcançaram o mesmo feito, e tais pessoas nem existiriam sem sua mĂŁo orientadora.

No entanto, este garoto nĂŁo precisara ser ensinado. Ele alcançara a conjuração mĂșltipla por conta prĂłpria em apenas trĂȘs meses.

“Como isso Ă© possĂ­vel?!”

Oken estava tão chocado que seus pensamentos ficaram presos em um loop. Ocorrendo bem diante de seus olhos estava algo impossível — um evento que abalaria os próprios alicerces da história da magia. Mas enquanto ele era dominado pela excitação, o garoto estava abatido.

— Isso Ă© o melhor que eu consigo fazer — disse ele. — Por mais que eu tente, isso Ă© tudo o que consigo realizar.

Mesmo apĂłs se recompor, Oken nĂŁo conseguiu se forçar a responder Ă  criança, cujos ombros estavam caĂ­dos em decepção. De fato, o senso de magia do garoto era inigualĂĄvel… mas sua constituição natural era fatalmente defeituosa.

Oken estava testemunhando uma conquista magnĂ­fica, mas nĂŁo podia celebrĂĄ-la. Por mais lamentĂĄvel que fosse, ele percebia que o garoto nĂŁo tinha futuro como mago. ApĂłs dedicar toda a sua vida atĂ© entĂŁo — quase trĂȘs sĂ©culos — ao estudo da magia, ele conseguia sentir essa verdade infeliz em seus ossos.

Era um desperdício. Um desperdício terrível. Em um raro surto de tristeza, o velho eternamente otimista lamentou do fundo do seu coração.

Quem dera o receptáculo do garoto — sua constituição natural — fosse mais adequado. Ele teria feito seu nome em todo o mundo como um mago sem igual.

— Ho ho — disse Oken. — Receio que este nĂŁo seja o lugar ao qual vocĂȘ pertence. Encontre para si um caminho diferente para trilhar. Um que possa realmente aceitĂĄ-lo — e vocĂȘ a ele.

O período de treinamento terminou, e Oken mandou a criança embora. Mas enquanto observava a pequena figura partir, um pensamento repentino lhe ocorreu.

Talvez ele pudesse adotar e criar o garoto ele mesmo.

Ele ponderou a ideia por um momento, mas rapidamente decidiu contra. O garoto tinha força suficiente para abrir caminho para si mesmo, nĂŁo importa o que acontecesse. Ele tinha um certo “quĂȘ” que faltava Ă s outras pessoas e certamente conseguiria moldar seu prĂłprio futuro.

EntĂŁo, seguro de sua decisĂŁo, Oken apenas observou atĂ© o garoto sumir de vista. A criança era capaz o suficiente para nĂŁo precisar de professores ou mestres — muito parecido com o prĂłprio Oken, no passado.


◇

— Eu quero ser um clĂ©rigo. Por favor, treine-me.

Em uma manhã de neve, um garoto que parecia estar no fim de suas forças apareceu do lado de fora da igreja que também servia como porta de entrada para a escola de treinamento de clérigos de Sain.

— VocĂȘ passou pelo rito de bĂȘnção quando era mais novo? — perguntou Sain, o Soberano da Salvação.

— O rito? O que Ă© isso?

Sain teve piedade do garoto. Como ele acabara desejando se tornar um clérigo sem ter nenhuma das bases necessårias? Embora fosse lamentåvel, não havia nada a ser feito.

— VocĂȘ nĂŁo pode se tornar um clĂ©rigo sem o treinamento bĂĄsico necessĂĄrio. VocĂȘ deve desistir.

Sain decidiu dispensar o garoto. Seu coração se compadecia dele, de verdade, mas treinĂĄ-lo seria impossĂ­vel. Havia muito que precisava ser feito para preparar um clĂ©rigo antes que pudessem realizar milagres, e uma pessoa que nĂŁo recebesse a bĂȘnção da alma simplesmente nĂŁo seria capaz de usar o milagre da magia de cura.

Aqueles que se tornariam clĂ©rigos passavam por um rito logo apĂłs o nascimento. Esse rito guiava a alma para dentro de seus corpos, e era a quantidade de alma que poderiam conter que determinaria a potĂȘncia de seus futuros milagres. A Ășnica exceção a essa regra eram aqueles abençoados com DĂĄdivas particularmente extraordinĂĄrias.

Essas circunstĂąncias Ășnicas significavam que os alunos da escola de treinamento de clĂ©rigos eram decididos com anos de antecedĂȘncia. Era a Ășnica escola que tinha um processo de seleção tĂŁo rigoroso, e candidatos nunca eram aceitos com um aviso tĂŁo curto. O membro da guilda que aprovou a permissĂŁo de treinamento do garoto nĂŁo saberia disso? Seria impensĂĄvel que o tivessem enviado de outra forma.

— Deve haver um erro com sua permissĂŁo — disse Sain. — Os Ășnicos alunos aqui sĂŁo aqueles cujas matrĂ­culas foram organizadas com muita antecedĂȘncia. Minhas desculpas, mas nĂŁo posso aceitĂĄ-lo.

Mas o garoto abatido era teimoso demais para aceitar essa explicação.

— Eu nĂŁo sairei desta porta atĂ© que vocĂȘ me deixe treinar aqui — declarou ele.

O garoto tinha uma vontade forte, mas Sain tambĂ©m era o diretor do orfanato da capital real; ele tinha bastante experiĂȘncia lidando com crianças e sabia que esse surto de teimosia seria apenas temporĂĄrio. Nenhuma criança seria capaz de suportar a neve por muito tempo. Assim, seguro de que o garoto desistiria e iria embora, Sain partiu para começar seu trabalho do dia.

O meio-dia finalmente chegou, e Sain recebeu uma atualização de um de seus funcionårios, que parecia inteiramente perdido.

— A criança ainda está lá. Devo enxotá-la?

— Deixe-o em paz — respondeu Sain. Ele tinha muito o que fazer naquele dia e logo viajou para outro local onde sua atenção era necessária.

O dia passou, e na manhĂŁ seguinte… o garoto ainda estava esperando do lado de fora da igreja.

— NĂŁo me diga que vocĂȘ esteve aqui este tempo todo.

— Eu estive.

O garoto estava mentindo. Ele nem sequer usava um casaco, entĂŁo era impensĂĄvel que tivesse enfrentado os elementos a noite inteira. Se tivesse, certamente nĂŁo possuiria a estamina para dar uma resposta tĂŁo firme.

— VocĂȘ pode visitar todos os dias se desejar, mas nada mudarĂĄ — Sain garantiu Ă  criança.

— Eu poderia dizer o mesmo para o senhor. Eu nĂŁo moverei um Ășnico passo atĂ© que me deixe treinar aqui.

— Continue como quiser, então.

Como no dia anterior, Sain deixou o garoto e começou a cuidar de seus negócios. Ele estava curioso, porém, e espiava as portas da frente de sua janela sempre que tinha uma pausa momentùnea em seu trabalho.

Após vårias dessas verificaçÔes, Sain chegou a uma conclusão.

— Ele… realmente nĂŁo moveu um Ășnico passo.

Jå era tarde, e o garoto ainda esperava exatamente no mesmo lugar. Isso significava que ele realmente ficara parado ali a noite toda? Mesmo quando o sol começou a se pÎr, ele recusou-se a se mover.

NĂŁo sendo mais capaz de ignorar sua suspeita crescente, Sain correu para a porta da frente.

— Sinto muito mesmo — disse ele Ă  criança —, mas nĂŁo posso ensinĂĄ-lo, nĂŁo importa quanto tempo vocĂȘ fique parado aqui. Para se tornar um clĂ©rigo, deve-se possuir certas qualidades especiais que vocĂȘ nĂŁo tem. NĂŁo lhe desejo mal — esta Ă© simplesmente a verdade.

— Ainda assim… eu quero tentar. Por favor.

— VocĂȘ estĂĄ pedindo o impossĂ­vel. Por favor, desista e vĂĄ para casa.

— Eu… nĂŁo tenho uma casa para onde voltar.

Sain nĂŁo conseguia mais acreditar que o garoto estava mentindo. Parecia que ele realmente nĂŁo tinha para onde ir.

— Nesse caso, vocĂȘ gostaria de vir para o meu orfanato? HĂĄ muitas outras crianças lĂĄ. Tenho certeza de que vocĂȘ conseguirĂĄ fazer amigos.

A criança fez uma pausa. — EntĂŁo vocĂȘ vai me treinar?

— Isso, eu não posso fazer.

— Então não.

— Entendo… Suponho que minha Ășnica opção seja deixĂĄ-lo parado aqui atĂ© que esteja satisfeito.

Embora preocupado, Sain decidiu deixar o garoto em paz. Afinal, a criança parecia estar em boa saĂșde e esperava bem em frente a uma igreja cheia de veteranos em magia de cura. Sain informou aos que trabalhavam no turno da noite que, caso a condição do garoto piorasse, deveriam dar Ă  criança tratamento, uma cama quente e uma refeição quente. Ele tambĂ©m pediu que o contatassem sem um momento de hesitação.

Uma vez resolvido isso, Sain foi para casa. Sua equipe nĂŁo o contatou… mas ainda assim, ele se viu incapaz de dormir. O garoto jĂĄ teria desistido? Uma criança, nĂŁo importa o quĂŁo teimosa, nunca arriscaria sua vida apenas para provar um ponto. Elas sempre cediam eventualmente.

Mas e aquele garoto? Ele parecia tĂŁo inabalĂĄvel. Ele nĂŁo tinha casa para onde voltar. Sain começou a se arrepender de nĂŁo tĂȘ-lo arrastado para o orfanato, e esses pensamentos o atormentavam enquanto esperava notĂ­cias da equipe noturna.

Antes que percebesse, o sol estava nascendo.

Mais uma vez, nevava lĂĄ fora. Sain dirigiu-se Ă  igreja mais cedo do que o habitual, preocupado, e lĂĄ encontrou o garoto ainda esperando junto Ă s portas.

— VocĂȘ realmente esteve aqui este tempo todo? — perguntou Sain.

A criança deu a mesma resposta que na manhĂŁ anterior: — Eu nĂŁo moverei um Ășnico passo… atĂ© que me deixe treinar aqui.

A determinação do garoto parecia quase tangĂ­vel, e uma percepção sĂșbita enviou um calafrio pelas costas de Sain. Se ele deixasse essa criança continuar seu protesto, entĂŁo certamente a veria novamente amanhĂŁ, e depois de amanhĂŁ, e depois de amanhĂŁ. A demonstração continuaria atĂ© que o garoto morresse.

Em sua determinação de evitar um desfecho tão trågico, Sain ficou com apenas uma escolha: ele teve que ceder.

— Muito bem. Suponho que eu possa lhe ensinar o bĂĄsico. Entre e vocĂȘ poderĂĄ se juntar aos outros para o treinamento de clĂ©rigo.

— S-SĂ©rio?!

— No entanto, nĂŁo hĂĄ garantia de que qualquer parte disso serĂĄ possĂ­vel para vocĂȘ. Por favor, entenda isso.

— Sim, eu sei! Obrigado!

Assim começou o treinamento de clĂ©rigo do garoto. NinguĂ©m podia duvidar de seu entusiasmo, mas nĂŁo havia como mudar o fato de que lhe faltava algo crucial — algo que todos os outros que se esforçavam para se tornarem clĂ©rigos jĂĄ tinham: uma bĂȘnção.

Apenas para ter certeza, Sain usou um medidor especializado para medir quanta alma a criança possuía. A falta completa de base do garoto jå era quase certa, e este teste apenas a confirmou. Ele não tinha nenhuma quantidade de alma digna de nota.

ClĂ©rigos realizavam milagres absorvendo alma em seus corpos. Esta era a premissa bĂĄsica por trĂĄs do uso de magia divina, que incluĂ­a a manifestação de milagres como [Curar]. Como o garoto nĂŁo tinha nenhuma alma para usar, seu treinamento nĂŁo poderia consistir em nada mais do que palestras informativas — mas isso nĂŁo o impedia de querer participar do mesmo treinamento de milagres que os outros alunos. Vez apĂłs vez, Sain tentou convencĂȘ-lo da natureza irracional desse pedido, mas sem sucesso. O garoto nĂŁo se deixava abalar.

Sendo capaz de reconhecer uma batalha perdida quando via uma, Sain cedeu ao pedido do garoto. No fundo, ele tinha pena da criança, sabendo que ela nunca obteria o que queria… mas entĂŁo algo estranho aconteceu. O garoto jogou a cautela ao vento e persistiu com seu treinamento atĂ© que, eventualmente, desenvolveu [Cura Leve]. Ela existia abaixo atĂ© do nĂ­vel mais baixo das habilidades de clĂ©rigo, mas era uma habilidade de clĂ©rigo de qualquer forma.

— Como… como isso pode ser possĂ­vel? — murmurou Sain.

Era, por qualquer medida, inconcebível. Habilidades de clérigo só podiam ser usadas por aqueles com alma, o catalisador de milagres. Não se podia usar um poder que seu corpo não possuísse, no entanto, este garoto aparentemente fizera exatamente isso.

A Ășnica conclusĂŁo a ser tirada era que essa criança nĂŁo estava pegando emprestado o poder da alma para realizar milagres; ela estava usando sua prĂłpria força. A palavra “absurdo” nem começava a descrever a situação. O fato de o garoto ser capaz de tal feito significava que a potĂȘncia de seus milagres nĂŁo seria restringida pela quantidade de alma que possuĂ­sse. Para todos os efeitos, eles nĂŁo tinham limite superior.

Como diabos o garoto alcançara isso?

Sain mal podia acreditar. Tudo o que ele sabia lhe dizia que isso era impossível, mas ele teve que aceitar a verdade: neste aspecto particular, o garoto pisara em território muito, muito além do que o próprio Soberano da Salvação jamais se aventurara.

Ao ver o que o garoto realizara, Sain percebeu que ele mesmo estava aquém em seu próprio treinamento. Ele fora um tolo ao ter pena da criança, e agora estava inundado de arrependimento.

Em meio a esse remorso, porĂ©m, existia um cerne de gratidĂŁo. Graças ao jovem professor diante dele, Sain estava resolvido a subir a patamares ainda maiores… mas a expressĂŁo do garoto estava longe de ser alegre.

— EntĂŁo… isso nĂŁo Ă© uma habilidade…?

— É sim — respondeu Sain —, embora eu receie que nĂŁo se qualifique como sendo Ăștil para um aventureiro. Mas chegar tĂŁo longe apesar de nĂŁo ter recebido uma bĂȘnção quando criança Ă© incrĂ­vel por si sĂł. Embora possa ainda nĂŁo ter caĂ­do a ficha para vocĂȘ, o que vocĂȘ alcançou Ă© verdadeiramente estarrecedor.

— Oh… EntĂŁo eu nĂŁo fui bom o suficiente, afinal.

Mesmo apĂłs receber o elogio de Sain, o garoto parecia terrivelmente desanimado. Sua reação era compreensĂ­vel o suficiente; ele falhara em alcançar o que queria, e amanhĂŁ marcaria exatamente trĂȘs meses desde que chegara Ă  escola de treinamento. De acordo com a lei do Reino, esse era o limite de tempo que um aluno poderia estudar, e o garoto nĂŁo era exceção.

Naquela noite, enquanto Sain ponderava sobre a questĂŁo, ele teve um pensamento. O talento do garoto ainda nĂŁo havia brotado adequadamente, mas, com tempo e educação suficientes, ele poderia — nĂŁo, ele iria — tornar-se inigualĂĄvel. Talvez ele atĂ© se tornasse um grande amigo de Ines e Gilbert, dois dos novos chegados ao orfanato.

Sain tomara sua decisĂŁo — ele convidaria o garoto sem famĂ­lia para o orfanato que administrava. Mas quando foi fazer o convite na manhĂŁ seguinte… a criança nĂŁo estava em lugar nenhum. Ela partira da escola de treinamento sem sequer um adeus. De acordo com um dos membros da equipe que o vira sair, ele seguira na direção da Guilda dos Aventureiros.

Imediatamente, Sain reuniu os Seis Soberanos para uma reunião. Ele perguntou o que fariam com o garoto — Noor — que possuía um talento tão tremendo, e um acordo unñnime foi feito: todos os seis o acolheriam e o criariam.

A essa altura, porĂ©m, o garoto jĂĄ havia desaparecido da cidade. De acordo com o membro da guilda que o vira por Ășltimo, ele simplesmente desaparecera sem dizer para onde ia.

Ao saber disso, Sig declarou que estava renunciando a todos os seus deveres para partir em busca do garoto. Isso incitou um verdadeiro alvoroço no palĂĄcio real, e somente atravĂ©s dos esforços combinados de todos os outros — o rei incluĂ­do — conseguiram impedi-lo.

Foi decidido, por fim, que os Seis realizariam uma busca conjunta pela criança, mas nĂŁo importa quais mĂ©todos empregassem, nĂŁo encontraram sequer uma pista sobre seu paradeiro. AtĂ© capturar sua sombra parecia um feito perplexamente impossĂ­vel. A decepção abundou, e o tempo passou…

Passariam-se mais de dez anos antes que o vissem novamente.


Tradução: Carpeado
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