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I Parry Everything – Capítulo 19 – Volume 2

Ore wa Subete wo “Parry” Suru: Gyaku Kanchigai
no Sekai Saikyou wa Boukensha ni Naritai
I Parry Everything: What Do You Mean I’m the Strongest?
I’m Not Even an Adventurer Yet!

Light Novel Online – Volume 02:
[Capítulo 19: O Garoto Sem Talento]


Na escola de treinamento do Soberano da Espada na capital, um garoto desconhecido apareceu sem aviso ou mensagem prévia.

— Por favor, treine-me para ser um espadachim — disse ele.

— Treinar você? — Sig respondeu. Nunca antes um garoto tão jovem fora à sua escola. — Você tem uma permissão da Guilda dos Aventureiros?

— Sim. Consegui agora pouco.

— Hmm. Este é o selo de um oficial da guilda, mas você é muito jovem para… Não, deixe para lá. Você tem uma permissão, então suponho que eu deva aceitá-lo.

As escolas de treinamento da capital trabalhavam para cultivar aventureiros e compartilhavam uma regra tácita: aceitar a todos. A Guilda decidia quem era elegível para ser ensinado, e os instrutores das escolas obedeciam. No geral, era um procedimento extremamente simples.

Ainda assim, Sig se perguntava o que o oficial da guilda estava pensando. Certamente havia outras circunstâncias em jogo, mas este era apenas uma criança. Como diabos ele suportaria o treinamento da escola — um treinamento que fizera adultos em plena forma física desistirem?

Como instrutor-chefe da escola de treinamento de espadachins, Sig decidiu falar abertamente com o garoto.

— Você não receberá tratamento especial apenas por ser uma criança. Todos são tratados igualmente aqui, e o treinamento é severo. Você está resolvido a suportá-lo?

Em resposta, o garoto olhou o Soberano da Espada direto nos olhos.

— Eu sei — respondeu ele. — E estou.

Sig ainda estava convencido de que o garoto desistiria. Para ele, vê-lo durar sequer três dias seria uma surpresa agradável. Ele entregou ao seu subordinado um regime de treinamento para o aspirante a espadachim seguir…

E, para sua surpresa, o garoto não parou. Nem depois de três dias. Nem mesmo após uma semana.

O treinamento de espadachim envolvia brandir uma lâmina do amanhecer ao anoitecer, e o garoto fazia exatamente isso. A pele de suas palmas se desgastou, cobrindo suas mãos de sangue, mas ele não mostrava sinais de desistência. Pelo contrário, ele começou a golpear e golpear com ainda mais força, rasgando os músculos de seus braços magros.

Aqueles que careciam da motivação necessária sempre desistiam antes que o primeiro dia terminasse, mas o garoto chegou ao seu décimo num piscar de olhos. Foi quando Sig revisou sua opinião sobre o aspirante a espadachim; sua determinação, pelo menos, era real.

Essa reviravolta inesperada trazia a pergunta: Até onde esse garoto estava disposto a ir? Ligeiramente intrigado, Sig continuou a observá-lo — e o garoto prosseguiu com seu regime de treinamento, inteiramente destemido. Logo, ele alcançou um ponto além de qualquer outro aluno antes dele.

Os alunos tinham maior probabilidade de desenvolver habilidades quando seus corpos e mentes estavam sob estresse extremo, então esse era o ambiente que a escola de Sig tentava promover. Aqueles ousados o suficiente para frequentá-la eram forçados a praticar o brandir de suas espadas por horas a fio, parar uma investida de golpes de armas e bolas de ferro, e ficar sem descanso, mesmo quando os ossos de suas mãos pareciam prestes a se estilhaçar. O processo era repetido vez após vez e, naturalmente, envolvia uma grande dose de sofrimento.

É claro que o treinamento também era psicológico, destinado a unir cada aluno à sua lâmina. Isso, por si só, era um certo tipo de insanidade.

No entanto, o garoto suportou tudo. Foi um feito impressionante, especialmente considerando que ele nunca sequer segurara uma espada até recentemente. Também era assustadoramente raro alguém tão jovem ser capaz de brandir uma lâmina com um foco tão obstinado.

Ele poderia ter um futuro verdadeiramente brilhante.

Mas, à medida que esse pensamento começava a se consolidar na mente de Sig, ele notou algo estranho. Apesar de ter trabalhado tanto, o garoto só havia desenvolvido a mais rudimentar das habilidades: [Aparar]. Como isso era possível? Na experiência do Soberano da Espada, um progresso tão grande — especialmente vindo de alguém tão jovem — deveria ter manifestado algo. No entanto, mesmo com as probabilidades a seu favor, o garoto não adquirira nada.

Talvez ele fosse apenas um florescer tardio, pensou Sig. Ele obteria uma nova habilidade em breve — e, quando o fizesse, sua força cresceria em um ritmo acelerado.

Afinal, o garoto tinha um olho absurdamente aguçado.

Como resultado de muita insistência, Sig relutantemente mostrara ao garoto sua habilidade homônima, [Mil Lâminas]. O ataque era tão ofuscantemente rápido que até ele, o Soberano da Espada, tinha dificuldade em controlá-lo.

Para dizer a verdade, Sig considerara a demonstração um esforço inútil — poucos conseguiam sequer perceber a habilidade, tal era sua velocidade — e atendeu o garoto apenas por um capricho fútil. Ele certamente não esperava a análise longa e detalhada que veio depois. A propriedade inerente de [Mil Lâminas] a tornava rápida demais até para o Soberano da Espada acompanhar inteiramente, mas o garoto de alguma forma conseguira seguir tudo. Não apenas isso, ele distinguira cada movimento individual e até apontara hábitos que Sig falhara em notar.

Todos os pelos do corpo de Sig se arrepiaram. Agora ciente do talento bruto excepcional do garoto, ele sabia que havia encontrado um broto valiosíssimo — um que ele até abriria mão de seu tempo livre para nutrir. Em uma atitude atípica, ele começou a acreditar que o garoto poderia se igualar — ou até superá-lo — como espadachim.

Em segredo, Sig tinha esperanças altíssimas para o menino. Seu coração disparava por ter encontrado uma criança com uma dádiva tão excepcional. Conforme o regime de treinamento continuava, porém, algo inesperado ocorreu: por mais que o garoto tentasse, ele não conseguia desenvolver sequer uma única habilidade de espadachim útil. Tinha que ser algum tipo de erro, pensou Sig. A situação parecia impossível. Mas não — mesmo após inúmeras tentativas, o garoto falhava em aprender qualquer coisa.

Sig estava preocupado, mas persistiu. O garoto era o mais esforçado e persistente possível; se houvesse uma única habilidade útil que ele pudesse aprender, não importa qual fosse, ele certamente a desenvolveria eventualmente.

O garoto tinha algum tipo de talento nele — isso era certo. De alguma forma, de algum jeito, ele certamente encontraria o sucesso. Foi por isso que Sig continuou a treiná-lo, perseverando até chegarem ao nível mais difícil. Naquele ponto, parecia impossível o garoto não desenvolver uma habilidade.

Vez após vez, o garoto tentou aprender algo útil, mas seus esforços não deram frutos. Ele não poderia ser um espadachim. Contra um monstro fraco, talvez ele fosse capaz de empregar truques suficientes para ter uma chance, mas contra uma ameaça real… tudo o que o esperaria seria uma morte rápida. Ele fora abençoado com um porte físico excelente, uma vontade indomável e olhos magníficos, mas algum golpe de má sorte significava que ele não tinha aptidão para a esgrima. O deus da lâmina não o amava.

Após muita angústia, Sig aceitou o que precisava ser feito:

— Não há mais nada que eu possa lhe ensinar aqui. Você deve escolher um caminho diferente.

— Mas—!

O garoto recusou-se a recuar. É claro que recusou. Ele suportara três meses de treinamento desesperado apenas para ouvir que possuía “nenhum talento”. Como seu instrutor, Sig carregava parte da culpa por isso, mas não podia pedir ao garoto que continuasse o que seria apenas um esforço fútil.

— Um espadachim brandindo sua espada sem nenhuma habilidade em seu nome não passa de um fardo para seus aliados. Você está perdendo seu tempo. Desista e siga em frente.

Após esse comentário propositalmente frio, Sig expulsou o garoto de sua escola de treinamento. O garoto tinha talento genuíno, e era precisamente por isso que seu futuro deveria levá-lo por outro caminho — um caminho que não fosse a maestria da espada.


Na escola de treinamento de guerreiros, o Soberano do Escudo, Dandalg, franziu a testa e cruzou os braços.

— Ei, agora. Você não está falando sério sobre treinar aqui, está?

Parado diante dele estava um garoto — um que aparentemente fora expulso da escola de espadachins.

Dandalg não estava completamente por fora da situação do menino. Sig mencionara que andava “cuidando de uma criança” ultimamente. Ele até dissera que o jovem poderia acabar se revelando inapto para o treinamento de espadachim e possivelmente seguiria para a escola de guerreiros em seguida. Ao ver o garoto pessoalmente, porém, Dandalg percebeu uma coisa: ele era realmente apenas uma criança.

“Ele vai ficar bem? Posso realmente deixá-lo treinar aqui?”

Essas dúvidas foram suas primeiras impressões. O garoto não tinha o tipo de físico esperado na escola de treinamento de guerreiros, um local de encontro para os robustos e resistentes.

Guerreiros deveriam ser escudos para seus aliados. Alguém tão pequeno estava fadado a passar mais tempo no ar do que sobre os pés, especialmente ao enfrentar os outros alunos, mas Dandalg não podia recusá-lo. O garoto tinha a aprovação de um oficial da guilda, afinal.

Então, sem outra opção, Dandalg permitiu que o garoto participasse.

“Ora, isso sim é uma surpresa.”

Dandalg esperava que o garoto desistisse após apenas um gostinho do regime de treinamento severo dos guerreiros — um regime do qual tantos adultos acabavam fugindo — mas ele estava, na verdade, conseguindo acompanhar. Bem, talvez isso fosse um exagero. O treinamento era muito mais do que seu pequeno corpo podia suportar, mas ele se mantinha desesperadamente firme, quase ao ponto de encurtar sua própria expectativa de vida.

“Como alguém assim pode existir?”

Dandalg não conseguia acreditar, mas a prova estava bem diante de seus olhos. O garoto era forte — não apenas no corpo, mas no coração e na mente também. Ele ignorava qualquer dor que sentisse, jogava sua própria segurança ao vento e continuava avançando com intenção obstinada. Era uma bravura de um tipo extraordinário, beirando a insanidade — e era exatamente disso que os guerreiros precisavam acima de tudo.

Não importa quanta dor sentisse, o garoto recusava-se a desistir. A visão chegou a enviar um calafrio pela espinha de Dandalg. Não era esse exatamente o tipo de pessoa que ele estivera procurando — alguém com uma vontade indomável, que pudesse servir como seu braço direito?

Incrivelmente, o garoto logo avançou até o estágio mais difícil do regime de treinamento de guerreiro — algo inédito desde sua fundação. Todos os outros haviam desistido antes de alcançá-lo. O rei estava interessado no melhor dos melhores, então Dandalg criara um teste de aptidão que beirava o impossível. É claro que não fazia sentido ter um regime que ninguém jamais completaria, então ele se estabelecera em um que ele mesmo conseguia, pelo menos, terminar.

Dandalg nunca esperara que outra pessoa terminasse seu regime, mas foi exatamente o que o garoto fez. Ele de alguma forma conseguiu sobreviver a uma provação tão dura que só poderia ser descrita como infernal, mas não foi isso que mais surpreendeu o Soberano do Escudo.

— Como isso é possível?

Por mais que o garoto tentasse ou por quantas vezes colocasse seu corpo no inferno, ele nunca desenvolvia uma única habilidade propriamente dita. Dandalg era conhecido por ser mais otimista que a maioria, mas até ele estava estupefato. Uma profunda insatisfação brotou de dentro dele. Ele não sabia se era direcionada a um deus, ao destino ou a algum outro desconhecido intangível, mas o que ela dizia era claro para ele.

“Ele se esforça tanto. Vocês não podem dar a ele ao menos alguma coisa?”

O garoto logo chegou ao fim do período de treinamento de três meses, mas mesmo assim queria continuar. Este foi outro ineditismo para Dandalg. Ele não sabia bem como reagir. O período terminara, mas ainda havia uma opção: ele poderia tornar o garoto um novo recruta do Corpo de Guerreiros que capitaneava.

Sim, ele poderia fazer isso, mas e se o garoto nunca conseguisse desenvolver uma habilidade? Sua bravura temerária o levaria longe demais, e ele morreria defendendo seus aliados. Era um desfecho muito provável, então Dandalg balançou a cabeça.

— Não. Se você continuar forçando o impossível, tudo o que o espera é um túmulo precoce. Odeio dizer isso, mas você não nasceu para ser um guerreiro. Siga em frente.

E assim o Soberano do Escudo expulsou o garoto. Foi lamentável, mas para alguém tão capaz, certamente haveria outro caminho por aí.


Um pé no saco. Alguém que fedia a problema. Esses foram os primeiros pensamentos que Mianne, a Soberana do Arco, teve quando viu a criança que viera à sua escola de treinamento de caçadores, querendo ser ensinada.

— Por favor, treine-me.

— Você está falando sério? — Mianne perguntou. — Bem, tudo bem, eu acho. Pegue isso e jogue ali. — Ela pegou um seixo aos seus pés e o entregou ao garoto, mas ele pareceu apenas confuso.

— Ali onde?

— Ali. Apenas aponte e jogue.

— Você quer dizer aquele galho de árvore? Parece um pouco longe… Você quer que eu acerte?

— Sim. Vamos, não tenho o dia todo. Se não gostar, pode ir embora.

Por acaso, Mianne estava se sentindo especialmente irritável. Ela esperou que o garoto jogasse o seixo e observou distraidamente enquanto ele voava pelo ar.

“Certo. Assim que ele errar, vou mandá-lo embora.”

Ela usava esse desafio específico sempre que queria afastar um candidato a aluno. Era um método excelente para se livrar de qualquer um de quem não gostasse, que não tivesse potencial ou que ela achasse que seria um fardo ensinar. Ela raramente tinha base para esse último, mas um palpite era um palpite, certo?

Sua técnica funcionava também para alunos já existentes. Sempre que ela tinha um mau pressentimento sobre um, ela atribuía um teste com condições ridículas sob o pretexto de “treinamento” e depois lhe dava o pé na bunda assim que falhasse. “Sinto muito, mas você não serve para isso”, ela declararia. Talvez fosse um pouco desonesto, mas o rei nunca dissera que não era permitido. Além disso, como instrutora-chefe, ela tinha total discrição sobre tais assuntos de qualquer maneira.

Além do mais, se houvesse algo errado com sua abordagem, a culpa era daqueles que a forçaram a aceitar o cargo.

Mianne soubera desde o momento em que pôs os olhos no garoto que ele seria um enorme pé no saco. Ele era o tipo que nunca ouvia os outros — ela conseguia praticamente sentir o cheiro. Foi por isso que ela decidiu se livrar dele. Mas, apesar de suas expectativas…

O seixo do garoto atingiu o galho fino da árvore com um baque seco.

— Faça de novo — foi a reação imediata de Mianne.

Então ele acertara o galho. Grande coisa. Ele não teria tanta sorte na segunda vez, e então ela o enxotaria. Sim, era exatamente isso que ela faria.

— Então você vai me treinar? — o garoto perguntou.

— Claro. Se você acertar de novo.

Ele erraria, é claro. Seu alvo era, na verdade, mais parecido com um graveto do que com um galho, e pedir que ele o atingisse com uma pedra de tão longe era como pedir o impossível. A própria Mianne erraria um em cada dez tiros se não estivesse usando seu arco.

Claro, o garoto já tivera sucesso uma vez, mas um único golpe de sorte estava dentro do reino da coincidência. Ele erraria este, e então ela o expulsaria. Ela estava tendo um mau pressentimento sobre ele de qualquer forma.

Exatamente como instruído, o garoto tentou novamente. E no exato momento em que o seixo deixou sua mão, Mianne percebeu que havia feito besteira.

“Vai acertar.”

Ela já tinha certeza. O garoto lera o vento, focara no alvo e aplicara força suficiente para aperfeiçoar a trajetória do seixo.

“Ah, droga.”

Mianne nem sequer conseguiu pensar em uma nova desculpa antes que o seixo atingisse o topo do minúsculo galho da árvore.

— Eu fui bem? — o garoto perguntou.

— Não. Não foi.

Apesar de sua irritação e do pressentimento extremamente ruim em seu estômago, Mianne permitiu que o garoto começasse seu treinamento de caçador. Uma promessa era uma promessa, e voltar atrás em sua palavra a faria parecer mal.

Mas então ela teve uma ideia. Ela faria o garoto continuar jogando pedras e nem o deixaria chegar perto dos arcos. Isso o tornaria menos dor de cabeça.

E assim se passou uma semana.

— Posso tentar usar um arco?

Mianne ordenara ao garoto que continuasse jogando pedras, e fora isso que ele fizera — na maior parte do tempo, pelo menos. Ocasionalmente, ele parecia lembrar-se subitamente do motivo de estar ali e então a amolava para deixá-lo tentar usar um arco. Ela tinha uma premonição terrível toda vez que isso acontecia… mas sempre cedia relutantemente.

Claro, suas premonições nunca falhavam. Os resultados eram consistentemente desastrosos.

Exatamente como Mianne esperava, o garoto nunca ouvia seus conselhos. Ele parecia ouvi-los, mas depois prosseguia fazendo algo inteiramente diferente. Ela já encontrara o mesmo problema antes com outros alunos, mas ele era o pior de longe.

Isso nem era o fim, por mais que Mianne desejasse que fosse. Na verdade, a falta de habilidade auditiva do garoto era o menor de seus problemas. O mau pressentimento que ela tivera ao pôr os olhos nele pela primeira vez provara-se completa e totalmente correto.

O garoto era inacreditavelmente desastrado — não, algo muito além disso. Ele conseguira quebrar cada um dos arcos que ela lhe dera. Em alguns casos, ele apenas arrebentava a corda. Em outros, ele partia o próprio arco, ou o esmagava com seu aperto tremendamente firme. Ocasionalmente, algum explodia inexplicavelmente.

Em pouco tempo, o estoque de arcos de treinamento da escola sofreu um golpe sério. A situação tornara-se tão ridícula que Mianne até deixou o garoto pegar emprestado seu premiado arco de mestre, que ela entendia ser o arco mais forte e robusto existente.

Ainda assim, ele conseguira entortá-lo e tirá-lo de forma.

O garoto agora pedia outra chance, mas lembrar de todos os incidentes anteriores apenas fazia Mianne franzir a testa.

— Eu vou fazer certo desta vez! — implorou ele. — Eu sei que vou! Por favor!

Mianne perdera a conta de quantas vezes ele dissera aquilo, mas já estava na casa das dezenas agora. Ela balançou a cabeça para ele, o rosto pálido, e disse:

— Não. Absolutamente não. Como você pode sequer dizer isso, sabendo quantos arcos você já quebrou? Se você vai apenas arruiná-los no literal momento em que estão na sua mão, existe sequer um sentido em tentar? Sério, o que há com a força do seu aperto? Você tem ideia de quão poucos arcos de treinamento temos por sua causa? E nem me faça começar sobre como você entortou meu arco de mestre! Ugh… Não acho que exista um arco mais forte! Apenas continue jogando pedras!

— Tudo bem…

Alguns dias depois, Mianne visitou a escola de treinamento por um capricho. Os alunos estavam todos praticando com arcos — exceto o garoto, que ainda jogava pedras em seus alvos.

Foi quando Mianne olhou novamente, mais de perto, para o menino. Ela o observou por algum tempo e chegou à conclusão de que definitivamente havia algo estranho acontecendo. Usando nada além de seixos e sua própria força, ele conseguia atingir alvos a distâncias que os arcos teriam dificuldade em alcançar. Mianne raramente se interessava por outras pessoas, mas esse garoto estava atiçando sua curiosidade.

— Quem te ensinou a fazer isso? — ela perguntou.

— Hein? Ninguém — o garoto respondeu. — Eu apenas aprendi enquanto caçava pássaros.

— Pássaros, hum? De que tipo?

— Aqueles que mergulham do céu para agarrar coelhos da montanha.

Mianne fez uma pausa. — É? Você consegue acertá-los?

— Não seria muito uma caçada se não conseguisse.

— Ah… Certo. Então você consegue.

Ela não sabia se ria ou se jogava as mãos para o ar. De todos os pássaros nativos do Reino, apenas uma espécie correspondia à descrição do garoto: os Pássaros-Relâmpago, assim chamados porque desciam do céu como raios ao caçar. Uma pessoa comum teria dificuldade em seguir um com os olhos, e até mesmo um caçador experiente com um arco superior teria um tempo infernal tentando abater um.

Mianne conseguia caçar Pássaros-Relâmpago de olhos fechados, é claro, mas a maioria das pessoas consideraria o feito impossível. Como, então, esse garoto conseguira abatê-los com meras pedras? Ele nem conhecia a habilidade [Arremesso de Pedra] na época! Ela estava completamente sem palavras, e esse sentimento apenas aumentou quando ela avistou o alvo que ele estava usando. A marca feita sob encomenda que seus subordinados prepararam para o garoto estava crivada de buracos.

A princípio, o garoto usara alvos de madeira como todos os outros alunos. Seus seixos logo os reduziram a pedaços, porém, então os subordinados agitados de Mianne os substituíram por alvos feitos de outros materiais. Isso remediara o problema, mas o que ela via agora ainda era ridículo. O grande escudo de aço para o qual ele estava mirando no momento, posicionado tão longe que a maioria dos outros mal conseguia enxergar, estava completamente cheio de buracos. E ele fizera aqueles buracos com pedras!

“Existe sequer um sentido em ele estar aqui? Ele poderia passar a vida toda jogando pedras e se sairia muito bem.”

Suas suspeitas foram provadas corretas — esse garoto era anormal. Claro, ele não tinha o menor vestígio de talento quando se tratava de usar um arco, e a única habilidade que conseguira desenvolver fora [Arremesso de Pedra]… mas não era o suficiente? O garoto tinha uma fixação tão desnecessária em usar um arco que Mianne se perguntava se ele sequer entendia seu propósito.

Arcos eram ferramentas que ajudavam seus portadores a disparar projéteis mais longe e com mais precisão do que seria possível de outra forma. Mesmo os que exigiam muita força para serem puxados acabavam servindo a esse mesmo propósito. Todo arco, sem exceção, existia para compensar a incapacidade do usuário de atingir e penetrar um alvo.

Este garoto não precisava dessa ajuda. Usando nada além de sua própria força, ele podia transformar qualquer seixo velho em uma arma capaz de perfurar um escudo de aço. Era ultrajante. E se ele substituísse aquelas pedras por pedaços de ferro? Ele tinha o potencial de se tornar um canhão de tiro rápido com munição quase ilimitada — um que poderia esmagar armaduras pesadas e até muralhas robustas de castelos com facilidade. Se ele usasse fragmentos de mithril, ele se tornaria uma verdadeira máquina de matar, capaz de aniquilar cem soldados avançando com um único arremesso.

Tal arma já era muito mais aterrorizante do que qualquer arco jamais poderia ser. Além disso, embora um arco desse grande poder ao seu portador, ele também lhe impunha grandes limitações. O garoto ficaria muito melhor sem um.

Mianne estivera certa o tempo todo: fazer o garoto jogar pedras do amanhecer ao anoitecer era a escolha muito melhor. Logo ele perceberia a verdade — que sua própria existência ia contra tudo o que o arco representava — e então deixaria a escola por vontade própria. Tentar ensiná-lo teria sido um fardo enorme, e ela não queria absolutamente nada com isso.

Três meses se passaram.

Após superar todas as exigências irracionais que lhe foram impostas, o garoto estava agora obstinadamente rondando a escola de treinamento, ainda implorando para usar um arco. Mianne não tinha mais escolha — ela precisaria resolver a situação de uma vez por todas.

— Eu te disse, não disse? Você não precisa de um arco. Além disso, você tem zero intuição quando se trata de manusear ferramentas delicadas. Mesmo se você pusesse as mãos em um, você apenas o quebraria! Arquearia é a última coisa que eu te ensinaria na vida!

— M-Mas—!

— Continue jogando pedras e você se sairá muito bem. Você não precisa de mais nada. Agora suma daqui. Você só me atrapalharia aqui.

O garoto ainda estava agarrado aos portões da escola, então Mianne o removeu com uma série de chutes vigorosos. Não havia nada que ela pudesse lhe ensinar. Aqui nesta escola de treinamento, pessoas que já eram melhores atiradores do que a própria Soberana do Arco apenas ocupariam espaço.

“Ele é mesmo um pé no saco.”

Embora o garoto estivesse obcecado em adquirir as habilidades necessárias para se tornar um aventureiro, Mianne sabia que ele se sairia bem sem elas. Em vez de se prender a coisas que não importavam, por que ele não passava o tempo fazendo o que quisesse? Desde o momento em que chegara à escola de treinamento de caçadores, ele já possuía força suficiente para viver uma vida sem restrições — por conta própria também, se assim desejasse.

Falando sério, por trás de quaisquer mentiras e desculpas que contava a si mesma, Mianne desejava que o garoto já abrisse os olhos para a verdade.


— Por favor… Treine-me para ser um ladrão.

— Treinar? Uma criança como você?

Carew estava aproveitando seu intervalo do meio-dia, lendo um livro, quando um garoto com ombros caídos e marcas de botas sujas de lama por todo o corpo apareceu na escola de treinamento de ladrões.

— Sim — respondeu a criança. — Por favor, treine-me.

— Ah, você seria o Noor, então? Muito bem. Venha comigo.

Carew ouvira falar desse garoto e já tinha uma noção aproximada de que tipo de pessoa ele era. Não havia necessidade de perder tempo fazendo perguntas das quais ele já sabia as respostas, então o treinamento começou imediatamente.

No geral, o treinamento de ladrão era bastante simples. Melhorar a própria furtividade e enxergar através da dos outros. Aproximar-se de um alvo sem fazer som. Detectar, desativar e evitar armadilhas e laços. Um aluno repetiria esses exercícios básicos vez após vez enquanto a dificuldade aumentava gradualmente. Então, após um certo número de repetições, eles desenvolveriam uma habilidade de ladrão.

No entanto, por mais que o garoto treinasse, a única habilidade que ele adquiriu foi [Passo de Pluma]. Em si, este era um bom desenvolvimento — suavizava o som dos passos e era fundamental para todo e qualquer ladrão. O problema era que o garoto não tinha mais nada. Se a furtividade fosse tudo o que um ladrão fosse capaz, eles teriam dificuldade em realizar as tarefas exigidas por sua classe.

Mas não era só isso. O garoto também possuía o que era considerado uma falha fatal no mundo dos ladrões: ele era irremediavelmente desastrado com armadilhas.

Em um grupo de aventureiros, era dever do ladrão arrombar fechaduras e detectar armadilhas. Em vez disso, o garoto obliterava qualquer baú trancado que lhe fosse dado — conteúdo incluído — e disparava cada armadilha de que se aproximava. O problema do baú era evitável se você nunca o deixasse pôr as mãos em um, mas seu “talento” para acionar armadilhas era um problema sério. Se o garoto fosse forçado a percorrer um corredor cheio delas, ele de alguma forma encontraria um jeito de acionar cada uma delas.

Até armadilhas que estavam inativas ou em manutenção ganhavam vida quando o garoto se aproximava delas. Sua discordância com elas tornou-se tão absurda que parecia razoável descrevê-la como um ato divino.

A princípio, Carew se perguntou se a peculiaridade era o resultado de uma habilidade ou Dádiva. Ele testou o garoto com uma ferramenta mágica destinada a detectar tais coisas… mas os resultados deram negativo. O garoto era apenas inatamente azarado, além de irremediavelmente desastrado.

No entanto, embora o garoto acionasse cada armadilha da qual se aproximava, nenhuma delas era realmente uma ameaça para ele. Quando flechas envenenadas tentavam atravessá-lo, ele as derrubava no ar com as mãos nuas. Quando uma bola de ferro gigante começava a rolar em sua direção, ele a parava de frente. Mesmo quando um enxame de cobras venenosas era jogado sobre ele, ele apenas esmagava as cabeças das serpentes, limpava os corpos, drenava o sangue e os trazia consigo. Carew perguntara o que ele pretendia fazer com elas, e o garoto respondera que as teria para o jantar.

O garoto estava perdendo completamente o ponto. É verdade, ele tornava as armadilhas inúteis, mas não por detectá-las e então desativá-las ou evitá-las. Em vez disso, ele as acionava e depois destruía o que quer que elas lançassem contra ele. Era inegavelmente impressionante… mas também completamente errado.

O garoto estava treinando para ser um ladrão. Carew reconhecia sua grande coragem, percepção, reflexos e instintos de sobrevivência, mas isso estava fora de questão. Não havia uma abordagem “correta” para desativar armadilhas, é claro, mas o Soberano das Sombras estava começando a se arrepender de não ter ensinado ao garoto sequer o mínimo de bom senso antes de começar seu treinamento.

Não importa em quantas armadilhas o garoto tropeçasse, ele sempre sairia ileso — mas o mesmo não seria verdade para os eventuais membros de seu grupo. Ele era fatalmente inadequado para trabalhar em grupo, e este fato por si só o desqualificava de se tornar um aventureiro da classe ladrão.

Claro, isso não significava que o garoto não tivesse outras perspectivas.

— Você está realmente decidido a se tornar um aventureiro, não importa o quê? — Carew perguntou.

— Sim. Não importa o quê.

Carew não fez mais perguntas; ele sabia pelo tempo que passaram juntos que o garoto não era do tipo que se deixava influenciar facilmente. Na verdade, isso era parte do que o tornava tão cativante.

O garoto não era ruim, por si só. Sua capacidade de furtividade era excelente, e sua intuição era assustadoramente aguçada. Mas essas qualidades sozinhas não qualificavam alguém para ser um ladrão. O período de treinamento de três meses passou voando enquanto Carew ponderava esses pensamentos, e logo ele se viu despedindo-se do garoto.

— Você deseja se tornar um aventureiro, mas não consegue sequer abrir baús com armadilhas e não tem habilidades de detecção — disse Carew. — Você também aciona cada armadilha que encontra, então pode esquecer o reconhecimento por completo. Você não tem futuro como ladrão. Siga uma classe diferente.

Apesar de ter dito isso, Carew já sabia que o garoto não tinha talento para se tornar espadachim ou guerreiro. Mianne também o considerara inapto para ser um caçador — embora Carew duvidasse se ela sequer se dera ao trabalho de treiná-lo.

O garoto não desenvolvera nenhuma habilidade de ladrão que valesse a pena mencionar. Isso significava que suas únicas opções restantes eram mago ou clérigo, mas suas perspectivas para essas classes eram tênues na melhor das hipóteses. Parecia inevitável que o garoto acabasse falhando em atender aos requisitos mínimos para se tornar um aventureiro de regulamentação padrão.

Carew sorriu por trás da máscara. Ele se sentia mal pelo garoto… mas esta era uma excelente oportunidade. O garoto era teimoso e de vontade forte, mas quando fosse finalmente forçado a desistir de se tornar um aventureiro, Carew o recrutaria para sua unidade de inteligência da capital real.

O garoto não tinha habilidades, e sua inclinação para acionar cada armadilha que encontrava era de fato incômoda. No entanto, os métodos que ele usava para furtividade e sua habilidade inata de sentir anormalidades em seus arredores eram extremamente impressionantes. Acima de tudo, ele também tinha paciência e tenacidade em um grau que era terrivelmente raro de se encontrar. Para alguém na profissão de Carew, esses traços eram mais valiosos do que quaisquer outros. O garoto certamente se tornaria um operativo de inteligência excepcional um dia.

“Encontrei um candidato excelente.”

Com esse pensamento, Carew recusou o pedido do garoto para estender seu período de treinamento e o mandou embora da escola de ladrões.

A avaliação de Carew — de que seu futuro recruta tinha grande promessa — foi ainda mais reforçada quando ele notou que o garoto ainda estava tentando implacavelmente encontrá-lo e persegui-lo, mesmo depois que ele usara [Ocultamento] em si mesmo. No entanto, ele seguiu seu caminho e logo desapareceu na escuridão da noite.


— Por favor… Treine-me para ser um mago!

Após responder a uma batida na porta de sua escola de treinamento de magos, o Soberano dos Feitiços, Oken, viu-se cara a cara com uma criança. Ele inclinou a cabeça levemente para o pequeno, cujo rosto estava manchado de lágrimas, e acariciou sua orgulhosa barba.

— Ho ho? Você é bem jovem para um candidato a aluno, não é? Se minha memória não falhou, os candidatos devem ter pelo menos quinze anos… O requisito de idade baixou?

— O homem na Guilda me encaminhou! Por favor, deixe-me treinar aqui! Isso é tudo o que me resta! Por favor!

— Ho ho. Que súplica. Você despertou meu interesse, criança. Se esse é o seu desejo, você é bem-vindo para tentar.

Assim marcou o início do treinamento de mago do garoto.

Exatamente como Oken suspeitara, o garoto era um caso perdido. Ele tinha absolutamente zero talento para magia, e a mana fluía tão mal por seu corpo que era chocante. Para usar magia, era necessário familiarizar-se com a mana desde cedo e depois gastar tempo estudando teoria mágica. O garoto tropeçou logo no primeiro passo; sua mana era simplesmente coagulada demais.

— Talvez ele tenha começado a trabalhar sua mana um pouco tarde demais — refletiu Oken em voz alta. — Hmm, mas mesmo assim, poucos nascem com uma aptidão tão fraca para a magia. Dada a idade dele, sua mana deveria ser mais flexível… Pergunto-me se alguma parte de sua constituição natural está causando isso.

Não era que o garoto não tivesse mana nenhuma — na verdade, ele tinha até mais que a média. O problema era que, por algum motivo, ela endurecera dentro de seu corpo e se recusava a fluir. E se a mana não pudesse ser movida, então não poderia ser usada.

Por outro lado, era possível que essa condição única desse ao garoto uma resistência robusta contra ataques mágicos.

Oken foi franco com o garoto e informou-lhe que nenhum treinamento melhoraria suas perspectivas. Ainda assim, o garoto recusou-se a deixar a escola.

— Hmm. Suponho que verei onde isso vai dar.

Oken acedeu à determinação do garoto e decidiu deixá-lo continuar com seu treinamento. Muitos alunos acabavam ficando fartos e saindo por vontade própria — mas para aqueles que se recusavam a sair, o melhor curso de ação era deixá-los treinar até que estivessem satisfeitos.

Seja como for, a escola de treinamento de magos era um destino para aqueles que já tinham conhecimento e técnica até um certo grau. Para um garoto sem nenhum dos dois, o único treinamento que ele poderia realizar era a meditação na câmara de ressonância de mana. Este processo consistia em fechar-se em uma sala completamente escura, silenciosa e isolada para confrontar sua mana interior.

A câmara fora projetada para aumentar os sentidos do ocupante em muitas vezes, o que a tornava excelente para aqueles que esperavam desenvolver habilidades. Claro, este ambiente único ampliava a dor, os medos e a inquietação também. Dependendo da pessoa, podia-se muito bem enlouquecer apenas ao entrar nela.

A maioria conseguia suportar não mais que alguns segundos na câmara — mas, mesmo depois de Oken explicar isso, o garoto não mostrou nem um traço de relutância em tentar a meditação.

— Você tem certeza absoluta disso? — Oken perguntou.

— Sim. Eu vou fazer.

Bem, refletiu o Soberano dos Feitiços, toda experiência era uma chance de aprender. Ele daria ao garoto uma chance justa.

“Ele não vai ficar lá por muito tempo, de qualquer maneira.”

Assim, sem pensar muito sobre o assunto, Oken permitiu que o garoto entrasse na câmara de ressonância de mana.

Minutos transformaram-se em horas, mas o garoto não saiu. Ele não estava em lugar nenhum, mesmo quando Oken acordou na manhã seguinte.

O Soberano dos Feitiços empalideceu. Isso era muito ruim. O garoto teria desmaiado lá dentro? Nem queria pensar nisso, mas… no pior cenário, ele poderia até ter morrido.

Em pânico, Oken espiou dentro da câmara, apenas para ver o garoto sentado calmamente, como se nada estivesse errado. A criança olhou para cima e, ao ver o velho, o enxotou com um firme “Não me atrapalhe”.

O que diabos…?

Dali em diante, o garoto passava todo o seu tempo na câmara de ressonância de mana, saindo apenas para comer e atender às necessidades fisiológicas. Poucos ousavam usar o método de treinamento para começar, então, para todos os efeitos, tornou-se seu quarto pessoal.

Oken estava preocupado — naturalmente — e verificava o garoto em intervalos regulares. Ele perguntava se estava tudo bem ou indagava se o garoto sofrera alguma debilidade física, mas era sempre instado a sair com a mesma resposta: “Estou bem”.

Oken estava bastante confuso. Ele permitira que o garoto meditasse porque não havia mais nada para ele fazer, mas a câmara de ressonância de mana ainda era um método avançado do qual até magos especialistas recuavam. Estava entre as formas mais severas e difíceis de treinamento que a escola tinha a oferecer.

No entanto, apesar de todo o seu tempo lá dentro, o garoto ainda não desenvolvera uma única habilidade.

Sim, Oken estava certamente confuso. Ele se perguntava como tal coisa era sequer possível.

Três meses se passaram.

Conforme o fim do período de treinamento se aproximava, durante uma de suas saídas da câmara de ressonância de mana, o garoto fez uma visita a Oken. Ele finalmente conseguira desenvolver uma habilidade e queria demonstrá-la.

Oken manteve suas expectativas baixas enquanto se preparava para assistir; a constituição natural do garoto praticamente o proibia de trabalhar sua mana. Ainda assim, a criança trabalhara tremendamente duro, então o Soberano dos Feitiços estava pronto para elogiá-lo, não importa o resultado.

Mas quando Oken viu o feitiço…

“Como… pode ser?”

Ele estava estupefato. O garoto estava lhe mostrando [Chama Pequena]. Como habilidade de mago, ela ficava no degrau mais baixo da escada, mas esse não era o problema em questão — o garoto estava manifestando o feitiço a partir de dois dedos. Em suma, ele estava realizando conjuração dupla. Mesmo tendo mal tocado em magia antes.

“Como pode ser?”

Oken enrijeceu de choque. Conjuração múltipla era a técnica suprema de manipulação de mana, adquirida apenas após anos de estudo e treinamento árduos. Sua existência fora considerada uma fantasia na época em que ele era jovem, então ele ficara abertamente atônito quando a alcançou ele mesmo.

Somente após cinquenta anos de trabalho Oken conseguira aprender a conjuração múltipla. Depois, com o peito estufado, ele compartilhara sua nova sabedoria nas muitas tabernas por onde suas viagens o levaram. Não fora senão várias décadas depois que ele começara a ouvir falar de outros que alcançaram o mesmo feito, e tais pessoas nem existiriam sem sua mão orientadora.

No entanto, este garoto não precisara ser ensinado. Ele alcançara a conjuração múltipla por conta própria em apenas três meses.

“Como isso é possível?!”

Oken estava tão chocado que seus pensamentos ficaram presos em um loop. Ocorrendo bem diante de seus olhos estava algo impossível — um evento que abalaria os próprios alicerces da história da magia. Mas enquanto ele era dominado pela excitação, o garoto estava abatido.

— Isso é o melhor que eu consigo fazer — disse ele. — Por mais que eu tente, isso é tudo o que consigo realizar.

Mesmo após se recompor, Oken não conseguiu se forçar a responder à criança, cujos ombros estavam caídos em decepção. De fato, o senso de magia do garoto era inigualável… mas sua constituição natural era fatalmente defeituosa.

Oken estava testemunhando uma conquista magnífica, mas não podia celebrá-la. Por mais lamentável que fosse, ele percebia que o garoto não tinha futuro como mago. Após dedicar toda a sua vida até então — quase três séculos — ao estudo da magia, ele conseguia sentir essa verdade infeliz em seus ossos.

Era um desperdício. Um desperdício terrível. Em um raro surto de tristeza, o velho eternamente otimista lamentou do fundo do seu coração.

Quem dera o receptáculo do garoto — sua constituição natural — fosse mais adequado. Ele teria feito seu nome em todo o mundo como um mago sem igual.

— Ho ho — disse Oken. — Receio que este não seja o lugar ao qual você pertence. Encontre para si um caminho diferente para trilhar. Um que possa realmente aceitá-lo — e você a ele.

O período de treinamento terminou, e Oken mandou a criança embora. Mas enquanto observava a pequena figura partir, um pensamento repentino lhe ocorreu.

Talvez ele pudesse adotar e criar o garoto ele mesmo.

Ele ponderou a ideia por um momento, mas rapidamente decidiu contra. O garoto tinha força suficiente para abrir caminho para si mesmo, não importa o que acontecesse. Ele tinha um certo “quê” que faltava às outras pessoas e certamente conseguiria moldar seu próprio futuro.

Então, seguro de sua decisão, Oken apenas observou até o garoto sumir de vista. A criança era capaz o suficiente para não precisar de professores ou mestres — muito parecido com o próprio Oken, no passado.


— Eu quero ser um clérigo. Por favor, treine-me.

Em uma manhã de neve, um garoto que parecia estar no fim de suas forças apareceu do lado de fora da igreja que também servia como porta de entrada para a escola de treinamento de clérigos de Sain.

— Você passou pelo rito de bênção quando era mais novo? — perguntou Sain, o Soberano da Salvação.

— O rito? O que é isso?

Sain teve piedade do garoto. Como ele acabara desejando se tornar um clérigo sem ter nenhuma das bases necessárias? Embora fosse lamentável, não havia nada a ser feito.

— Você não pode se tornar um clérigo sem o treinamento básico necessário. Você deve desistir.

Sain decidiu dispensar o garoto. Seu coração se compadecia dele, de verdade, mas treiná-lo seria impossível. Havia muito que precisava ser feito para preparar um clérigo antes que pudessem realizar milagres, e uma pessoa que não recebesse a bênção da alma simplesmente não seria capaz de usar o milagre da magia de cura.

Aqueles que se tornariam clérigos passavam por um rito logo após o nascimento. Esse rito guiava a alma para dentro de seus corpos, e era a quantidade de alma que poderiam conter que determinaria a potência de seus futuros milagres. A única exceção a essa regra eram aqueles abençoados com Dádivas particularmente extraordinárias.

Essas circunstâncias únicas significavam que os alunos da escola de treinamento de clérigos eram decididos com anos de antecedência. Era a única escola que tinha um processo de seleção tão rigoroso, e candidatos nunca eram aceitos com um aviso tão curto. O membro da guilda que aprovou a permissão de treinamento do garoto não saberia disso? Seria impensável que o tivessem enviado de outra forma.

— Deve haver um erro com sua permissão — disse Sain. — Os únicos alunos aqui são aqueles cujas matrículas foram organizadas com muita antecedência. Minhas desculpas, mas não posso aceitá-lo.

Mas o garoto abatido era teimoso demais para aceitar essa explicação.

— Eu não sairei desta porta até que você me deixe treinar aqui — declarou ele.

O garoto tinha uma vontade forte, mas Sain também era o diretor do orfanato da capital real; ele tinha bastante experiência lidando com crianças e sabia que esse surto de teimosia seria apenas temporário. Nenhuma criança seria capaz de suportar a neve por muito tempo. Assim, seguro de que o garoto desistiria e iria embora, Sain partiu para começar seu trabalho do dia.

O meio-dia finalmente chegou, e Sain recebeu uma atualização de um de seus funcionários, que parecia inteiramente perdido.

— A criança ainda está lá. Devo enxotá-la?

— Deixe-o em paz — respondeu Sain. Ele tinha muito o que fazer naquele dia e logo viajou para outro local onde sua atenção era necessária.

O dia passou, e na manhã seguinte… o garoto ainda estava esperando do lado de fora da igreja.

— Não me diga que você esteve aqui este tempo todo.

— Eu estive.

O garoto estava mentindo. Ele nem sequer usava um casaco, então era impensável que tivesse enfrentado os elementos a noite inteira. Se tivesse, certamente não possuiria a estamina para dar uma resposta tão firme.

— Você pode visitar todos os dias se desejar, mas nada mudará — Sain garantiu à criança.

— Eu poderia dizer o mesmo para o senhor. Eu não moverei um único passo até que me deixe treinar aqui.

— Continue como quiser, então.

Como no dia anterior, Sain deixou o garoto e começou a cuidar de seus negócios. Ele estava curioso, porém, e espiava as portas da frente de sua janela sempre que tinha uma pausa momentânea em seu trabalho.

Após várias dessas verificações, Sain chegou a uma conclusão.

— Ele… realmente não moveu um único passo.

Já era tarde, e o garoto ainda esperava exatamente no mesmo lugar. Isso significava que ele realmente ficara parado ali a noite toda? Mesmo quando o sol começou a se pôr, ele recusou-se a se mover.

Não sendo mais capaz de ignorar sua suspeita crescente, Sain correu para a porta da frente.

— Sinto muito mesmo — disse ele à criança —, mas não posso ensiná-lo, não importa quanto tempo você fique parado aqui. Para se tornar um clérigo, deve-se possuir certas qualidades especiais que você não tem. Não lhe desejo mal — esta é simplesmente a verdade.

— Ainda assim… eu quero tentar. Por favor.

— Você está pedindo o impossível. Por favor, desista e vá para casa.

— Eu… não tenho uma casa para onde voltar.

Sain não conseguia mais acreditar que o garoto estava mentindo. Parecia que ele realmente não tinha para onde ir.

— Nesse caso, você gostaria de vir para o meu orfanato? Há muitas outras crianças lá. Tenho certeza de que você conseguirá fazer amigos.

A criança fez uma pausa. — Então você vai me treinar?

— Isso, eu não posso fazer.

— Então não.

— Entendo… Suponho que minha única opção seja deixá-lo parado aqui até que esteja satisfeito.

Embora preocupado, Sain decidiu deixar o garoto em paz. Afinal, a criança parecia estar em boa saúde e esperava bem em frente a uma igreja cheia de veteranos em magia de cura. Sain informou aos que trabalhavam no turno da noite que, caso a condição do garoto piorasse, deveriam dar à criança tratamento, uma cama quente e uma refeição quente. Ele também pediu que o contatassem sem um momento de hesitação.

Uma vez resolvido isso, Sain foi para casa. Sua equipe não o contatou… mas ainda assim, ele se viu incapaz de dormir. O garoto já teria desistido? Uma criança, não importa o quão teimosa, nunca arriscaria sua vida apenas para provar um ponto. Elas sempre cediam eventualmente.

Mas e aquele garoto? Ele parecia tão inabalável. Ele não tinha casa para onde voltar. Sain começou a se arrepender de não tê-lo arrastado para o orfanato, e esses pensamentos o atormentavam enquanto esperava notícias da equipe noturna.

Antes que percebesse, o sol estava nascendo.

Mais uma vez, nevava lá fora. Sain dirigiu-se à igreja mais cedo do que o habitual, preocupado, e lá encontrou o garoto ainda esperando junto às portas.

— Você realmente esteve aqui este tempo todo? — perguntou Sain.

A criança deu a mesma resposta que na manhã anterior: — Eu não moverei um único passo… até que me deixe treinar aqui.

A determinação do garoto parecia quase tangível, e uma percepção súbita enviou um calafrio pelas costas de Sain. Se ele deixasse essa criança continuar seu protesto, então certamente a veria novamente amanhã, e depois de amanhã, e depois de amanhã. A demonstração continuaria até que o garoto morresse.

Em sua determinação de evitar um desfecho tão trágico, Sain ficou com apenas uma escolha: ele teve que ceder.

— Muito bem. Suponho que eu possa lhe ensinar o básico. Entre e você poderá se juntar aos outros para o treinamento de clérigo.

— S-Sério?!

— No entanto, não há garantia de que qualquer parte disso será possível para você. Por favor, entenda isso.

— Sim, eu sei! Obrigado!

Assim começou o treinamento de clérigo do garoto. Ninguém podia duvidar de seu entusiasmo, mas não havia como mudar o fato de que lhe faltava algo crucial — algo que todos os outros que se esforçavam para se tornarem clérigos já tinham: uma bênção.

Apenas para ter certeza, Sain usou um medidor especializado para medir quanta alma a criança possuía. A falta completa de base do garoto já era quase certa, e este teste apenas a confirmou. Ele não tinha nenhuma quantidade de alma digna de nota.

Clérigos realizavam milagres absorvendo alma em seus corpos. Esta era a premissa básica por trás do uso de magia divina, que incluía a manifestação de milagres como [Curar]. Como o garoto não tinha nenhuma alma para usar, seu treinamento não poderia consistir em nada mais do que palestras informativas — mas isso não o impedia de querer participar do mesmo treinamento de milagres que os outros alunos. Vez após vez, Sain tentou convencê-lo da natureza irracional desse pedido, mas sem sucesso. O garoto não se deixava abalar.

Sendo capaz de reconhecer uma batalha perdida quando via uma, Sain cedeu ao pedido do garoto. No fundo, ele tinha pena da criança, sabendo que ela nunca obteria o que queria… mas então algo estranho aconteceu. O garoto jogou a cautela ao vento e persistiu com seu treinamento até que, eventualmente, desenvolveu [Cura Leve]. Ela existia abaixo até do nível mais baixo das habilidades de clérigo, mas era uma habilidade de clérigo de qualquer forma.

— Como… como isso pode ser possível? — murmurou Sain.

Era, por qualquer medida, inconcebível. Habilidades de clérigo só podiam ser usadas por aqueles com alma, o catalisador de milagres. Não se podia usar um poder que seu corpo não possuísse, no entanto, este garoto aparentemente fizera exatamente isso.

A única conclusão a ser tirada era que essa criança não estava pegando emprestado o poder da alma para realizar milagres; ela estava usando sua própria força. A palavra “absurdo” nem começava a descrever a situação. O fato de o garoto ser capaz de tal feito significava que a potência de seus milagres não seria restringida pela quantidade de alma que possuísse. Para todos os efeitos, eles não tinham limite superior.

Como diabos o garoto alcançara isso?

Sain mal podia acreditar. Tudo o que ele sabia lhe dizia que isso era impossível, mas ele teve que aceitar a verdade: neste aspecto particular, o garoto pisara em território muito, muito além do que o próprio Soberano da Salvação jamais se aventurara.

Ao ver o que o garoto realizara, Sain percebeu que ele mesmo estava aquém em seu próprio treinamento. Ele fora um tolo ao ter pena da criança, e agora estava inundado de arrependimento.

Em meio a esse remorso, porém, existia um cerne de gratidão. Graças ao jovem professor diante dele, Sain estava resolvido a subir a patamares ainda maiores… mas a expressão do garoto estava longe de ser alegre.

— Então… isso não é uma habilidade…?

— É sim — respondeu Sain —, embora eu receie que não se qualifique como sendo útil para um aventureiro. Mas chegar tão longe apesar de não ter recebido uma bênção quando criança é incrível por si só. Embora possa ainda não ter caído a ficha para você, o que você alcançou é verdadeiramente estarrecedor.

— Oh… Então eu não fui bom o suficiente, afinal.

Mesmo após receber o elogio de Sain, o garoto parecia terrivelmente desanimado. Sua reação era compreensível o suficiente; ele falhara em alcançar o que queria, e amanhã marcaria exatamente três meses desde que chegara à escola de treinamento. De acordo com a lei do Reino, esse era o limite de tempo que um aluno poderia estudar, e o garoto não era exceção.

Naquela noite, enquanto Sain ponderava sobre a questão, ele teve um pensamento. O talento do garoto ainda não havia brotado adequadamente, mas, com tempo e educação suficientes, ele poderia — não, ele iria — tornar-se inigualável. Talvez ele até se tornasse um grande amigo de Ines e Gilbert, dois dos novos chegados ao orfanato.

Sain tomara sua decisão — ele convidaria o garoto sem família para o orfanato que administrava. Mas quando foi fazer o convite na manhã seguinte… a criança não estava em lugar nenhum. Ela partira da escola de treinamento sem sequer um adeus. De acordo com um dos membros da equipe que o vira sair, ele seguira na direção da Guilda dos Aventureiros.

Imediatamente, Sain reuniu os Seis Soberanos para uma reunião. Ele perguntou o que fariam com o garoto — Noor — que possuía um talento tão tremendo, e um acordo unânime foi feito: todos os seis o acolheriam e o criariam.

A essa altura, porém, o garoto já havia desaparecido da cidade. De acordo com o membro da guilda que o vira por último, ele simplesmente desaparecera sem dizer para onde ia.

Ao saber disso, Sig declarou que estava renunciando a todos os seus deveres para partir em busca do garoto. Isso incitou um verdadeiro alvoroço no palácio real, e somente através dos esforços combinados de todos os outros — o rei incluído — conseguiram impedi-lo.

Foi decidido, por fim, que os Seis realizariam uma busca conjunta pela criança, mas não importa quais métodos empregassem, não encontraram sequer uma pista sobre seu paradeiro. Até capturar sua sombra parecia um feito perplexamente impossível. A decepção abundou, e o tempo passou…

Passariam-se mais de dez anos antes que o vissem novamente.


Tradução: Carpeado
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