I Parry Everything – CapĂ­tulo 18 – Volume 2

Ore wa Subete wo “Parry” Suru: Gyaku Kanchigai
no Sekai Saikyou wa Boukensha ni Naritai
I Parry Everything: What Do You Mean I’m the Strongest?
I’m Not Even an Adventurer Yet!

Light Novel Online – Volume 02:
[Capítulo 18: Uma Refeição Saborosa]


Jå fazia algum tempo que o garoto sentia que estava sonhando. Sim, só podia ser isso. Ele jå havia sido despedaçado pelas garras do Dragão da Morte Negra, e tudo isso era apenas uma daquelas fantasias que as pessoas tinham após a morte.

Afinal, como qualquer parte daquilo poderia ser real?

Ele havia conversado com o DragĂŁo da Calamidade e voado em suas costas, junto com o homem que o salvou e a princesa de um reino. Eles desceram sobre a capital imperial, derrotaram o imperador e retornaram sem qualquer dificuldade. Coisas assim sĂł aconteciam em histĂłrias inventadas — e as visĂ”es impossĂ­veis que ele testemunhou pelo caminho o deixaram convencido de que estava tudo em sua cabeça.

Um Ășnico homem investindo contra um vasto exĂ©rcito e criando uma marĂ© prateada de inĂșmeras lĂąminas voadoras. Um feixe tĂŁo brilhante quanto o sol subindo alto no cĂ©u antes de se dividir e chover sobre a capital imperial como uma chuva de meteoros. Uma bela dama trajada em armadura prateada, despedaçando fortalezas de metal imponentes como se fossem feitas de argila. E o mais impossĂ­vel de tudo: ele conseguira ajudar os outros a lutar contra monstros gigantescos.

Simplesmente não podia ser real. O que mais seria, senão sua imaginação?

Tantas coisas maravilhosas nunca poderiam ter acontecido com ele. Tudo aquilo estivera além de seus sonhos mais selvagens. Mas, ainda assim, ele estava exultante. E daí se fosse tudo mentira? Fora incrível da mesma forma, e ele nunca vira tantas paisagens cativantes antes.

Tudo começara quando aquele homem usou sua espada negra para parar as garras do DragĂŁo da Morte Negra. Sim, foi ali que a fantasia do garoto começou — quando ele foi despedaçado de forma tĂŁo instantĂąnea e indolor. Ele estava, na verdade, grato. NĂŁo a ninguĂ©m em particular, mas grato da mesma forma.

“Obrigado por me deixarem terminar em uma nota tĂŁo alta.”

Ele estava tĂŁo convencido de que estava sonhando que nem sequer piscou quando a bela dama Ă  sua frente disse:

— VocĂȘ vai morar comigo de agora em diante. Espero que tudo bem, Rolo.

Dali, ele foi levado para uma casa enorme, recebeu uma muda de roupas limpas e foi sentado Ă  uma mesa branca sobrecarregada com tantos tipos de pratos. Tudo era tĂŁo novo para ele que ele apenas conseguia encarar, meio em transe.

A dama era a mesma mulher que fatiara as fortalezas do ImpĂ©rio do topo do dragĂŁo. Ele sabia disso sem sombra de dĂșvida, mas ela parecia tĂŁo calma e gentil agora que ele ainda duvidava de si mesmo.

“Uhum. Isso Ă© definitivamente um sonho.” Sua convicção cresceu ainda mais.

— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo? NĂŁo vai deixar tudo isso esfriar depois que as pessoas gentis prepararam para nĂłs, vai?

Ele recuou, nĂŁo esperando que a dama falasse com ele novamente. — E-Hein? Eu posso… comer isso?

— Claro — ela respondeu, olhando para ele de forma estranha do outro lado da mesa. — Isso Ă© o jantar. Oh, hĂĄ coisas que vocĂȘ nĂŁo pode comer? Eu poderia pedir para fazerem outra coisa.

Ele balançou a cabeça freneticamente. Sendo honesto, não tinha ideia se podia comer o que estava à sua frente; nunca provara nada daquilo antes. Mas se isso era um sonho, então certamente não havia com o que se preocupar. E mesmo neste mundo inventado, recusar era algo totalmente impensåvel. Ele preferia arriscar-se do que deixar que a comida fosse levada para outro lugar.

No entanto, mesmo com isso em mente, não conseguia se forçar a comer. A comida era luxuosa demais. Nem mesmo sonhos poderiam ser tão perfeitos, certo?

— E-Eu posso realmente… comer essa comida? — perguntou ele.

A palavra “comida” lembrava o garoto de pequenos pedaços de pĂŁo preto. Eles frequentemente eram duros como rochas e cheiravam a terra e mofo, mas, durante seus dias atrĂĄs das barras de ferro, ele os saboreava da mesma forma.

“Isso Ă© o suficiente para manter vocĂȘ vivo. Seja grato por sequer lhe darmos comida.”

Desde que conseguia se lembrar, era isso que lhe diziam — e sempre lhe davam a mesma coisa para comer. Mas os pratos diante dele agora estavam cheios de tantas coisas diferentes. Isso era… comida? Havia tanto que ele nĂŁo reconhecia. A tigela bem na sua frente — seria algum tipo de sopa?

— Tem… vegetais nela? Carne tambĂ©m…

Ele nunca tivera nada tão extravagante. Antes que pudesse se perder em seu espanto, porém, lembrou-se de algo que o trouxe de volta ao chão.

“Ah, Ă© mesmo. Isso Ă© um sonho.”

Era meio estranho que seu sonho contivesse coisas que ele nunca vira quando estava vivo… mas talvez os sonhos que se tinha apĂłs a morte fossem apenas um pouco especiais.

Ele sentiu-se aliviado. JĂĄ que nada disso era real, ele tinha permissĂŁo para comer, certo? JĂĄ que era tudo imaginĂĄrio, ele nĂŁo seria impiedosamente espancado por ter a mesma comida que um humano.

— VocĂȘ nĂŁo vai comer?

A dama estava lhe dizendo que estava tudo bem. Mas, espere — e se a comida não tivesse gosto de nada? Ele já sabia que era tudo um sonho, mas não queria saber de verdade. Ele tinha medo de que, no momento em que desse a primeira mordida, essa bela ilusão chegasse ao fim.

— NĂŁo precisa se segurar. NinguĂ©m vai ficar bravo com vocĂȘ. Tome. — A dama estendeu um pedaço de pĂŁo branco. — Coma o quanto quiser.

Ele hesitou por um tempo, mas entĂŁo seu estĂŽmago roncou. Aquilo era estranho; por que ele sentia fome em um sonho? Ele engoliu em seco… e entĂŁo tomou uma decisĂŁo.

— T-Tudo bem. Eu… vou querer um pouco. — Ele estendeu a mĂŁo cautelosamente para o pĂŁo — mas quando seus dedos finalmente o tocaram, algo pareceu muito errado. — É… macio?

Não era nada parecido com o pão que ele conhecia. Em vez disso, parecia liso e inacreditavelmente fofinho, como se estivesse tocando algodão. O que seria aquilo? Confuso, ele arrancou um pedaço e comeu.

— É doce…

Um gosto estranho espalhou-se suavemente por sua boca. E nĂŁo era apenas doce — era algo mais tambĂ©m. Algo que ele nunca experimentara antes.

— É… gostoso?

As palavras tropeçaram por seus lĂĄbios antes que ele percebesse. Ele nĂŁo sabia se era a descrição correta, mas certamente era isso que as pessoas queriam dizer quando diziam que algo era “gostoso”. Como nĂŁo seria? Nunca antes ele comera algo que tivesse tanto gosto de felicidade, nem jamais sentira tal alegria.

Como tudo aquilo era possĂ­vel? Como ele estava realmente sentindo essas sensaçÔes? Isso era tudo um sonho… certo?

— O que houve?

E entĂŁo, o garoto finalmente percebeu o que estava acontecendo. LĂĄgrimas brotaram de seus olhos enquanto a verdade se tornava clara para ele.

“Isso nĂŁo Ă© um sonho.”

Ele nĂŁo estava morto. O dragĂŁo nĂŁo o matara. Porque aquele homem viera em seu socorro, ele estava vivo — e porque estava vivo, podia comer essa comida gostosa. Mas entĂŁo, por quĂȘ…?

— Tem… certeza? — perguntou ele. — Eu posso realmente… comer isso?

— Não precisa disso. É só pão. — A dama — Ines — sorriu ironicamente. — Coma o quanto quiser. Tem muito mais de onde esse veio.

— Uhum…

Em silĂȘncio, ele começou a comer a comida disposta diante dele, derramando grossas lĂĄgrimas o tempo todo. Ele sabia agora que aquilo era real, embora ainda lutasse para entender. Como aquilo acontecera com ele, e por que as pessoas ao seu redor estavam sendo tĂŁo gentis? NĂŁo importa o quanto pensasse, ele nĂŁo conseguia decifrar.

Mas havia uma coisa de que ele tinha certeza: tudo aquilo era porque aquele homem o protegera. Porque ele pedira para que o garoto recebesse um lar.

Naquela hora, enquanto as garras do DragĂŁo da Morte Negra desciam, o garoto realmente ficara feliz em morrer. Ele acreditava que sĂł podia trazer mal ao mundo e que seu fim seria o melhor. Por isso, ele se conformara com seu destino e orara.

“Se eu renascer, espero nĂŁo ser tĂŁo espancado na minha prĂłxima vida. Espero poder ser Ăștil para alguĂ©m, sĂł um pouquinho. E se meu desejo se realizar… apenas uma vez, espero conseguir comer algo gostoso.”

Agora, nem um dia depois, uma daquelas preces jĂĄ se realizara. Ele nem precisara renascer. E era tudo por causa daquele homem.

— Eu posso… Eu posso ser Ăștil…? Eu…?

ApĂłs ver o DragĂŁo da Morte Negra ser explodido em pedaços, ele contara Ă quele homem sobre seu desejo sem querer. Mesmo sendo tĂŁo desprezado, ele queria fazer algo — ajudar alguĂ©m. Era um sonho modesto, mas ele nunca ousara dar voz a ele; fazĂȘ-lo resultaria em ser espancado, chutado e ridicularizado. “VocĂȘ Ă© do povo demĂŽnio”, eles diriam. “Como vocĂȘ ousa.”

Como ele poderia algum dia ser Ăștil para alguĂ©m? Simplesmente nĂŁo era possĂ­vel. Ele era do povo demĂŽnio, uma criatura amaldiçoada com poderes sinistros desde o nascimento, um ser cujo propĂłsito era ser odiado por tudo e por todos. Sua vida inteira, fora isso que lhe disseram — e no que ele acreditara. Ele sabia disso… entĂŁo por que dissera seu desejo em voz alta? Arrependeu-se imediatamente e instintivamente recuou diante do homem, esperando pelo golpe…

Mas o golpe nunca veio. Em vez disso, recebeu uma resposta surpreendente.

— É claro que pode. Um poder tĂŁo incrĂ­vel quanto o seu nĂŁo Ă© nada de que se deva envergonhar.

O homem nĂŁo descartara seu sonho. Ele atĂ© dissera que o poder amaldiçoado do garoto era “incrĂ­vel”.

Claro, o garoto imediatamente presumiu que o homem estava mentindo. As Ășnicas outras vezes que recebera elogios fora quando alguĂ©m tentava manipulĂĄ-lo — quando alguĂ©m que o odiava tanto quanto todos os outros queria usar seus poderes para ganho prĂłprio. Pensou que estava sendo enganado novamente, entĂŁo tentou reflexivamente ler o coração do homem.

Imediatamente, o garoto percebeu seu erro. NinguĂ©m nunca dissera algo tĂŁo gentil para ele antes e, embora ele jĂĄ “soubesse” que o homem estava mentindo, ainda havia aquela chance muito pequena de que ele estivesse dizendo a verdade. No momento em que olhasse para o coração do homem, aquela ilusĂŁo maravilhosa desapareceria para sempre… mas jĂĄ era tarde demais. Quando percebeu, ele jĂĄ estava ciente dos sentimentos verdadeiros do homem.

Ele não estava mentindo. O homem falara de coração. Mas como aquilo era possível? Ainda mais surpreendente era que ele não sentira o menor vestígio de qualquer coisa negativa em relação ao garoto, mesmo após descobrir que ele era do povo demÎnio.

Por quĂȘ?

Fora a primeira vez que alguém mostrara ao garoto sequer um fragmento de confiança inabalåvel, então ele hesitante continuou a perguntar sobre o sonho que nunca contara a ninguém.

— Eu posso ser… necessĂĄrio para as pessoas…?

Lågrimas rolaram dos olhos do garoto enquanto ele falava, enquanto o homem apenas ouvia. E quando as lågrimas do garoto finalmente pararam, o homem não o espancou nem o ridicularizou; em vez disso, ele falara de coração mais uma vez.

— Sim. É claro que pode. VocĂȘ pode ser tĂŁo Ăștil quanto quiser e mais um pouco — mais do que eu jamais poderia ser.

Pela primeira vez em sua vida, o garoto recebera palavras em que podia acreditar. Mas ele não conseguira aceitá-las plenamente — e quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava.

“Mais do que eu jamais poderia ser…?”

Aquilo era impossĂ­vel. Como ele poderia superar alguĂ©m que conseguia parar as garras de um DragĂŁo da Morte Negra com uma espada de uma mĂŁo, lutar contra um dragĂŁo que destruĂ­ra uma cidade inteira sozinho e voltar sĂŁo e salvo apĂłs investir contra um exĂ©rcito de dez mil soldados? Parecia impossĂ­vel — mas o homem fora apenas sincero ao fazer a afirmação.

O garoto eventualmente chegara a uma conclusão: talvez ele pudesse confiar naquela afirmação, afinal. Se esse homem, que era muito mais incrível do que ele, dissera aquilo, então talvez houvesse alguma verdade nisso. Claro, o garoto não fora capaz de acreditar de imediato, mas também não quisera descartar imediatamente.

ApĂłs ter seu desejo mais genuĂ­no validado, o garoto sentira algo brotar em seu coração que nunca estivera lĂĄ antes. Ainda era vago… mas ele jĂĄ sabia que nunca desapareceria.

“VocĂȘ pode ser tĂŁo Ăștil quanto quiser e mais um pouco…”

Nesse caso, tinha que ser aceitĂĄvel para ele ter esperança. Talvez entĂŁo ele realmente se tornasse alguĂ©m Ăștil. Talvez ele alcançasse o sonho que sempre julgara impossĂ­vel. Se desejar aquilo era permitido, entĂŁo ele faria tudo em seu poder para tornĂĄ-lo realidade, nĂŁo importa quĂŁo longe estivesse.

De certa forma, o garoto realmente morrera e renascera. E nesta nova vida, ele se tornaria alguĂ©m que poderia ajudar os outros — alguĂ©m que fosse necessĂĄrio. Ele faria isso porque aquele homem lhe dera forças para tal — porque lhe disseram que, embora fosse do povo demĂŽnio, estava tudo bem para ele sonhar.

E, claro, porque ele não queria que a afirmação daquele homem acabasse sendo mentira.

O garoto engoliu as lĂĄgrimas enquanto enfiava mais e mais comida na boca, bem na frente da dama que sorria gentilmente.

— VocĂȘ nĂŁo precisa comer tĂŁo depressa — disse ela. — NinguĂ©m vai tirar isso de vocĂȘ. SĂł estamos eu e vocĂȘ aqui, entĂŁo leve o tempo que quiser.

— … Tudo bem.

Aquele dia marcou a primeiríssima vez que o jovem garoto do povo demÎnio, Rolo, recebeu a gentileza de outros. Enquanto ele agradecia silenciosamente a todos, o calor de sua nova determinação começou a se espalhar por seu peito.


Tradução: Carpeado
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