Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 5 â Volume 9
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 05:
[Uma Condição Para VocĂȘ]
A chuva havia diminuĂdo um pouco, talvez?
Haruhiro estava com as mãos apoiadas no joelho direito, o joelho esquerdo erguido, observando do interior da caverna. Ele mal se movia, ajustando apenas a posição de seu rosto. Sua concentração era impressionante.
Mary, que estava ao lado dele, tambĂ©m olhando para fora, nĂŁo chegava nem perto do nĂvel de concentração de Haruhiro. Na verdade, seria mais preciso dizer que ela estava tĂŁo distraĂda que nĂŁo havia comparação possĂvel entre os dois.
Eles estavam bem prĂłximos da entrada da caverna, tĂŁo perto que a chuva que vinha de fora podia alcançå-los. Sentir-se molhado era incĂŽmodo, e a ĂĄgua fria na pele nĂŁo era agradĂĄvel. Mas, alĂ©m disso… sinceramente, a falta de mudanças era exaustiva.
A paisagem ao redor, envolta em chuva e nĂ©voa, parecia uma pintura. Enquanto observava o exterior e ouvia o som da chuva, Mary nĂŁo podia deixar de se perguntar se aquilo que estavam fazendo tinha algum sentido. Bem, Ă© claro que tinha. Eles estavam esperando seus companheiros ali. Mary e Haruhiro estavam Ă espera deles. Era possĂvel que os inimigos viessem em vez disso. Por isso estavam atentos. Ă claro que aquilo tinha um propĂłsito. Obviamente.
Apesar disso, Mary se pegava olhando para Haruhiro.
Talvez eu devesse dizer alguma coisa, pensava repetidamente.
NĂŁo havia necessidade de permanecerem em completo silĂȘncio. Sussurrar seria suficiente. Sobre o que poderiam falar? Ela nĂŁo sabia bem, mas sentia que havia coisas que poderiam discutir. Certamente existiam.
JĂĄ fazia um tempo que estavam de vigia ali.
De repente, seus olhos se encontraram com os de Haruhiro pela primeira vez.
â …Ah. â Haruhiro imediatamente voltou a olhar para frente. â D-Desculpa.
â Huh? â Mary começou a abaixar a cabeçaâ
NĂŁo, agora nĂŁo. Ela reconsiderou e olhou para fora.
â P-Por que estĂĄ se desculpando?
â Uh… SĂł porque, talvez? â ele respondeu.
â …Entendi.
â NinguĂ©m estĂĄ vindo… nĂ©?
â Ă… VocĂȘ tem razĂŁo.
â VocĂȘ nĂŁo estĂĄ com frio, estĂĄ? â Haruhiro perguntou.
â NĂŁo muito.
â EntĂŁo vocĂȘ estĂĄ um pouco, nĂ©? Achei que fosse isso.
â SĂł um pouco. Estou bem.
â NĂŁo quero que vocĂȘ se esforce demais…
â Sou uma sacerdotisa. â Mary tocou os lĂĄbios. â Isso nĂŁo tem nada a ver, tem?
â Talvez nĂŁo. â Haruhiro riu de leve. â VocĂȘ nĂŁo consegue curar resfriados, nĂ©?
â Sou surpreendentemente inĂștil.
â NĂŁo Ă© verdade. VocĂȘs sacerdotes sĂŁo como uma linha de vida. Para mim… Para nĂłs. Basicamente, para a party inteira.
â Ă isso que quero ser â disse Mary.
â Ă assim que eu vejo vocĂȘ. NĂŁo, nĂŁo sĂł eu… Todos pensam o mesmo.
â Estou fazendo o meu melhor… para nĂŁo enfraquecer.
â Ah, Ă©? â perguntou Haruhiro.
â Ă.
â Mas estĂĄ tudo bem.
â O quĂȘ estĂĄ?
â Se vocĂȘ se sentir fraca. Todos nĂłs passamos por isso. Eu posso… sei lĂĄ? Uh, posso te apoiar. Ă, tipo… Ă pra isso que serve o trabalho em equipe.
â VocĂȘ jĂĄ… â Mary respirou fundo. â VocĂȘ jĂĄ faz tanto para me apoiar.
Haruhiro ergueu o queixo. Soltou um â…Ah.â Durante todo o tempo, continuou olhando para fora.
Ele…
Quando sentiu algo crescendo dentro de si, Mary ficou aflita.
Sua primeira impressĂŁo ao conhecĂȘ-lo, para o bem ou para o mal, era que ele era um garoto, nĂŁo um homem. Mesmo que estivesse apenas começando, parecia infantil demais para ser um soldado voluntĂĄrio. Seus olhos sonolentos, o jeito arrastado de andar, sua falta de confiabilidade, e a aparente ausĂȘncia de um objetivo para o futuro. De certa forma, talvez isso fosse apropriado para sua idade. Ele era um garoto normalâmas de jeito nenhum preparado para viver naquele mundo.
Naquela época, Mary era uma curandeira contratada, aceitando qualquer party que a convidasse. Sentia que esse tipo de trabalho era o mais adequado para ela.
Mas talvez eu devesse parar com isso, lembrou-se de ter pensado naquela época. E foi por isso que aceitou a proposta deles.
Olhando para trĂĄs, naquele momento, Mary carregava dois sentimentos conflitantes dentro de si.
O primeiro sentimento era de que, se ninguém ajudasse aqueles jovens, eles acabariam mortos. Agora que haviam pedido que ela assumisse a responsabilidade, teria dificuldades para dormir à noite se os abandonasse. Era algo próximo de pena.
Mas nĂŁo era uma pena genuĂna. Por exemplo, se uma mĂŁe morrendo confiasse seu bebĂȘ a alguĂ©m, poucas pessoas seriam capazes de simplesmente ignorĂĄ-lo. Mesmo que fosse um incĂŽmodo, elas o protegeriam, ao menos por um tempo. Se acabasse sendo complicado demais e nĂŁo soubessem o que fazer, tentariam passar a responsabilidade para outra pessoa. Talvez o deixassem na frente do Templo de Lumiaris, ou algo assim. Isso tinha que ser melhor do que deixĂĄ-lo morrer.
Era esse tipo de pena irresponsĂĄvel que ela sentira.
O outro sentimento era um desejo de embarcar naquele navio afundando. Uma espécie de desejo autodestrutivo.
Mesmo depois de ter se juntado a party, ela nĂŁo imaginava qualquer tipo de futuro para aqueles jovens. Todo mundo era assim quando começava, ela os consolava, o que nĂŁo era verdade. Se alguĂ©m dissesse isso para consolĂĄ-los, provavelmente havia uma dose de malĂcia por trĂĄs. Para ser franco, provavelmente nĂŁo existiam muitos recrutas tĂŁo ruins quanto eles. Tudo o que tinham feito era deixar sua sacerdotisa insegura. Eles eram um grupo assustadoramente inexperiente.
Jamais teria imaginado que ainda estariam juntos por tanto tempo.
Jamais teria imaginado que chegaria o dia em que confiaria no garoto que conhecera naquela época.
Haruhiro havia crescido. Como ladrĂŁo e como lĂder. E ela nĂŁo achava que isso era por alguma aptidĂŁo natural dele.
Haruhiro tinha passado por tantas coisas que não dava para explicar de forma tão simplista. Mais do que isso, não era como se Haruhiro tivesse procurado por essas situaçÔes. Ele provavelmente sempre fora relutante. Fora empurrado para essa posição e não teve escolha a não ser aceitar. A situação não lhe dava espaço para fugir.
Ele foi forçado a caminhar sobre uma corda bamba, e, quando achou que finalmente tinha atravessado, encontrou-se Ă beira de um precipĂcio. Os ventos eram fortes, e tudo o que podia fazer era agarrar-se ao chĂŁo, mas ainda assim precisava avançar. Se Haruhiro, que liderava o caminho, nĂŁo avançasse, ninguĂ©m mais poderia se mover. EntĂŁo ele nĂŁo tinha escolha.
E ele passou por isso vĂĄrias e vĂĄrias vezes.
Mary nĂŁo havia crescido nem metadeânĂŁo, talvez nem um terçoâdo que Haruhiro.
Naquela época, Mary estava muito à frente deles no caminho de soldado voluntårio. Em algum momento, eles a ultrapassaram, e agora ela estava correndo atrås.
Ela queria ser mais forte.
Detestava estar sempre os seguindo.
Queria caminhar ao lado deles, pelo menos.
Queria andar ao lado dele. Poder estufar o peito e caminhar com orgulho.
Talvez fosse porque ela passou tanto tempo olhando para baixo que se esqueceu de como fazer isso. Por medo. Medo de perder o caminho que finalmente encontrara.
Nunca sabia quando o chão poderia desabar sob seus pés.
Ă sua maneira, ela estava desesperada. Sempre com medo.
Eu preciso mudar, pensou, decidida. Quero mudar.
Do jeito que as coisas estĂŁo indo, vou me arrepender. JĂĄ tenho arrependimentos suficientes.
â Haru â disse ela lentamente.
â …Huh? â Haruhiro olhou para Mary por um momento. â Uh, certo. O que foi?
â VocĂȘ quer ir um pouco mais para dentro? Precisamos evitar nos resfriar muito.
â Ah, Ă© verdade… Mas ainda assim…
â Vamos nos afastar da chuva.
â …Okay
â Talvez eu tenha falado com firmeza demais â ela acrescentou. â NĂŁo estou brava, tĂĄ? Ă sĂł como eu sou. Como sou agora… e provavelmente o meu eu verdadeiro.
â Sim. â Haruhiro sorriu, recuando cerca de trinta centĂmetros. â NĂŁo sei como dizer isso, mas se vocĂȘ consegue se sentir assim, Mary… NĂŁo, como dizer? Se esse Ă© um lugar onde vocĂȘ pode ser vocĂȘ mesma, fico feliz.
Mary recuou a mesma distĂąncia que Haruhiro.
â A party, vocĂȘ quer dizer?
â Talvez?
â Talvez seja porque ficamos tanto tempo em Darunggar, mas somos meio que uma famĂlia.
â Oh… Ă, verdade. Uma famĂlia… Huh.
â VocĂȘ Ă© o pai, Haru? â perguntou Mary.
â Eu? Nem pensar. NĂŁo Ă© isso. Hmm, bom, eu sou o lĂder, entĂŁo… talvez seja o irmĂŁo mais velho, no mĂĄximo… Quanto Ă mĂŁe, me pergunto quem seria. Se tivesse que escolher… talvez a Shihoru?
â Ela Ă© bem centrada, entĂŁo acho que combina com ela.
â Mas uma mĂŁe sem pai… â Haruhiro acrescentou.
â Talvez nĂŁo haja pais? Nesse caso, vocĂȘ seria o irmĂŁo mais velho, e a Shihoru a irmĂŁ mais velha?
â TrĂȘs irmĂŁs: Shihoru, Mary e Yume, hein.
â E os irmĂŁos seriam vocĂȘ, Kuzaku e… desculpe.
â Bem, vocĂȘ conhece o Ranta. â A voz de Haruhiro estava estranhamente seca. â Ele nĂŁo Ă© do tipo que seria o irmĂŁozinho de alguĂ©m.
â …Verdade.
â Eu consigo dizer isso agora, mas Ă©ramos iguais. Ele e eu. Acho que ele provavelmente tambĂ©m queria ser meu igual. Nunca nos seguramos um com o outro. NĂŁo gosto dele, mas ele sempre foi honesto e direto. âEu odeio issoâ, âIsso me irritaâ, âVocĂȘ estĂĄ erradoâ… Ele dizia essas coisas na lata, fosse algo sĂ©rio ou estĂșpido. NĂŁo mentĂamos um para o outro. NĂŁo havia necessidade… Acho que, provavelmente, Ă© difĂcil encontrar pessoas com quem vocĂȘ possa ser assim.
â VocĂȘs eram… amigos? â Mary perguntou.
â NĂŁo. â Haruhiro fez uma careta leve. â Definitivamente nĂŁo. Nem pensar. Ele nĂŁo Ă© meu amigo… mas talvez pudĂ©ssemos ter nos tornado algo diferente, se tivĂ©ssemos tido mais tempo juntos. NĂŁo sei. Ele nunca poderia ser meu amigo, mas talvez isso tenha sido o melhor. Significava que nĂŁo nos segurĂĄvamos. Estranhamente, parte de mim ainda confia nele. Ă… eu provavelmente acreditava nele.
â De que maneira?
â Achei que sempre serĂamos do mesmo jeito, nem nos aproximando, nem nos afastando. Para mim… Meus companheiros, eu amo todos vocĂȘs, e vocĂȘs sĂŁo importantes para mim. NĂŁo consigo evitar pegar leve com vocĂȘs. Isso faz parte do nosso relacionamento. Mas com ele, nĂŁo era assim. Isso equilibrava as coisas, por assim dizer.
â Ele era especial para vocĂȘ.
â NĂŁo exatamente de uma forma boa.
â NinguĂ©m pode ocupar o lugar dele.
â Isso nĂŁo se aplica sĂł a ele â disse Haruhiro. â Ă verdade para todos nĂłs.
â Haru…
â O quĂȘ?
â VocĂȘ realmente acha que ele nos traiu?
â NĂŁo.
Mary quase nĂŁo conseguiu conter um sorriso. Haru respondeu instantaneamente. Ele negou sem hesitar nem por um momento.
Haru acreditava nele. Era o quanto confiava em Ranta. Mary não achava mistério nenhum nisso.
Na verdade, era difĂcil acreditar que Ranta tivesse realmente traĂdo a party. Acontecesse o que fosse, Ranta nĂŁo trairia seus companheiros. Ela jĂĄ teria desistido dele hĂĄ muito tempo se nĂŁo acreditasse nisso.
â Mary, tem uma coisa que eu queria perguntar â disse Haruhiro.
â Certo. O que Ă©?
â VocĂȘ viu o Zodiac-kun desde que o Ranta fez o que fez?
â …NĂŁo. â Mary balançou a cabeça e entĂŁo tentou se lembrar. NĂŁo podia afirmar com absoluta certeza, mas nĂŁo havia visto o demĂŽnio. Essa era a sensação que tinha. â Acho que nĂŁo. Pelo menos, nĂŁo que eu tenha notado.
â Foi o que imaginei. â Haruhiro olhou ao redor enquanto assentia. â Ă estranho. Apesar de ele ser um cavaleiro das trevas. Por mais que reclame, ele realmente gosta do Zodiac-kun. Usa aquele demĂŽnio como suporte emocional. Tenho certeza de que Ă© parte disso.
â Verdade. NĂŁo importa o quanto ele seja maltratado pelo Zodiac-kun, ele invoca aquele demĂŽnio sempre que pode.
â Ă exatamente por isso que isso me chamou a atenção â disse Haru. â Ele deve estar escondendo alguma coisa. NĂŁo de nĂłs, mas dos caras da Forgan. O fato de ele nĂŁo chamar o Zodiac-kun Ă© um sĂmbolo disso. Talvez ele o veja como um trunfo. Idiota como Ă©, Ă© o tipo de coisa que ele pensaria.
â Com certeza…
â Ele nunca fez mal diretamente a vocĂȘ â acrescentou Haruhiro. â Eu acho que ele estava tentando protegĂȘ-la do jeito dele. NĂŁo Ă© impossĂvel pensar assim.
â Ă… vocĂȘ estĂĄ certo.
â Quando lutou comigo, provavelmente estava sĂ©rio. SĂł que, bom, isso era porque estava lutando contra mim, entende?
â …A pessoa com quem ele quer ser igual.
â Bem, dito assim, atĂ© faz ele parecer legal demais â disse Haru. â Se ele tivesse atacado a Yume, e ela tivesse se machucado, seria diferente, sabe? Mas era eu. Isso pode parecer um pouco extremo, mas mesmo que ele tivesse me matado… Bom, talvez atĂ© ele sentisse um pouquinho de culpa. Ele diria algo como: âNĂŁo me culpe, Haruhiro, eu nĂŁo tive escolhaâ, com aquele sorriso forçado, nĂŁo acha?
â …Ele faria isso. Totalmente. Consigo imaginar a expressĂŁo no rosto dele…
â Pois Ă©, nĂ©? â Haruhiro disse, rindo.
A chuva tinha diminuĂdo bastante, a ponto de ser indistinguĂvel da nĂ©voa. O sol estava se pondo? NĂŁo parecia ter escurecido.
Parecia que ela estava ali com Haruhiro, esperando que os companheiros voltassem, havia um bom tempo. Mas talvez nĂŁo tivesse passado tanto tempo assim.
à distùncia, algo se moveu. Seria apenas a névoa se dissipando?
NĂŁo, nĂŁo era isso.
â Mary â chamou Haruhiro em um tom baixo.
Ela olhou para o lado e Haruhiro estava apontando para a frente deles com o dedo indicador da mĂŁo esquerda. Esse sinal significava: HĂĄ algo ali.
Mary prendeu a respiração e estreitou os olhos.
Era pequeno. E provavelmente nĂŁo estava sozinho. O que significava que nĂŁo eram seus companheiros.
Era difĂcil nĂŁo sentir a decepção, mas ela nĂŁo tinha tempo para se deixar abater. Estava vindo direto para a caverna.
Mesmo antes de ver a criatura, jĂĄ tinha uma ideia do que poderia ser. E estava certa.
â Aquilo Ă©… â Haruhiro começou.
â VocĂȘ conhece?
â Ă, eu conheço. Ou, pelo menos, jĂĄ vi antes.
A criatura parecia um gato. No entanto, sua cabeça era grande em proporção ao corpo. Por causa disso, mesmo com o corpo do mesmo tamanho, ou um pouco maior, que o de um gato, parecia um filhote.
Nyaas eram criaturas de quatro patas, mas também podiam andar sobre duas.
Aquele nyaa cinza andava cambaleando sobre as patas traseiras. Uma diferença importante entre suas patas e as de gatos era que tinham dedos longos e ågeis, capazes de segurar objetos firmemente. à primeira vista, pareciam patas de gato, e, ao andar nas patas traseiras, o nyaa cruzava as patas dianteiras, inclinando a cabeça para o lado. Muito parecido com um gato.
Ă tĂŁo fofo… Mary quase sorriu, mas se conteve, apertou os lĂĄbios e tossiu levemente.
â …NĂŁo Ă© um dos nyaas da Forgan?
â Provavelmente nĂŁo â disse Haruhiro. â Tem uma pessoa chamada Shuro Setora-san que vive na vila. A Casa de Shuro, aparentemente, Ă© uma famĂlia de necromantes, mas Shuro Setora-san amava os nyaas e começou a criĂĄ-los. Se nĂŁo me engano, no entanto, os nyaas da vila geralmente sĂŁo criados pela… Casa de Katsurai, acho? Eles sĂŁo os espiĂ”es onmitsu da vila.
â …Hmm.
Nyaa.
Aquela criatura era simplesmente cativante por algum motivo. Enquanto estava presa pela Forgan, ver os nyaas tinha sido sua Ășnica forma de alĂvio.
â Onmitsu… â ela murmurou, pensativa.
â Ă. EntĂŁo, para neutralizar os nyaas da Forgan, conseguimos a cooperação de Shuro Setora-san da vila. Se nĂŁo estou enganado, esse provavelmente Ă© um dos nyaas.
A maior parte do que Haruhiro dizia entrava por um ouvido e saĂa pelo outro.
Ă um nyaa.
O nyaa, ensopado pela chuva, estava se aproximando…
Mary quase disse: Venha aqui, sem perceber. Queria estalar a lĂngua e chamĂĄ-lo com a mĂŁo. NĂŁo, ela nĂŁo podia.
NĂŁo posso…? Se nĂŁo Ă© um inimigo, deveria estar tudo bem, nĂŁo? Ou pelo menos nĂŁo ser um problema.
No fim, ela se conteve.
Assim que entrou na caverna, o nyaa sacudiu o corpo, espalhando ågua por todos os lados. Então, inclinando levemente a cabeça, soltou um Nyaa.
â Ă tĂŁo fo… â Mary tapou a boca no Ășltimo momento, engolindo as palavras.
â Fo…? â Haruhiro perguntou.
â …N-Nada.
â Hmm…? â Haruhiro piscou e colocou a mĂŁo na cabeça do nyaa. â Ei, nyaa. Onde estĂĄ o seu dono?
Aquilo era permitido?! SerĂĄ que era um nyaa tocĂĄvel?
â Nesse caso… â Mary cerrou a mĂŁo em um punho.
Ele tocou no nyaa. Ela queria tocar também.
Talvez ainda nĂŁo fosse tarde demais?
Essa era uma situação em que estava tudo bem tocar? Talvez pudesse acariciå-lo? Essa era a chance?
Mas, no momento, a mão de Haruhiro estava sobre a cabeça do nyaa. Para Mary poder acariciå-lo, precisaria fazer Haruhiro tirar a mão.
Ela ia fazĂȘ-lo tirar. Como? O que faria? Teria que pedir? Como? Talvez…
Haru, deixa eu acariciar também.
Isso era… direto demais, nĂŁo importa como pensasse. NĂŁo havia uma forma mais indireta de dizer isso?
Haru, deixa eu acariciar também?
Entonação ascendente na Ășltima palavra. Como ficava isso? Parecia um pouco mais suave… talvez. Embora tivesse a sensação de que nĂŁo mudava tanto assim. Bem, e isso aqui?
Eu também gostaria de acariciar o nyaa, sabe?
Indireto. Aquele âsabe?â no final era tĂŁo sutil. Parecia irritante. Se alguĂ©m pedisse algo assim para Mary, ela talvez respondesse com um âE?â Haruhiro poderia pensar: E daĂ? Qual o problema? O que vocĂȘ quer fazer? Fale logo.
Era isso.
Se queria algo, deveria dizer, sem tentar evitar. Nesse caso, era isso que diria: Haru, eu quero acariciar o nyaa. Me deixa fazer isso.
Isso.
Era isso.
Diga. Diga logo!
Ela podia prever a resposta de Haruhiro.
â …Ah. Entendi. Claro. Vai em frente.
E sĂł.
Haruhiro nĂŁo pensaria algo como: NĂŁo diga coisas estranhas, ou algo do tipo. Ele nĂŁo era esse tipo de pessoa. NĂŁo ia por aĂ zombando dos outros.
EntĂŁo diga.
Ela devia apenas dizer. Por que se envergonhar disso?
Envergonhada. Sim. Era constrangedor. Ela estava intensamente constrangida.
Era um mistério até para ela por que se sentia tão envergonhada com aquilo, mas não conseguia evitar.
Por quĂȘ? Orgulho? Que tipo de orgulho? Estou tentando parecer descolada? Eu nĂŁo sou descolada, entĂŁo qual Ă© a vantagem disso? Qual o propĂłsito? Eu nĂŁo queria mudar? Nesse caso, o que vou fazer se nĂŁo consigo nem isso? Quero acariciar o nyaa. Quero tanto acariciĂĄ-lo, entĂŁo eu vou. Ă um passo muito pequeno. Eu preciso dar esse passo. Se nĂŁo consigo nem isso, nunca serei capaz de mudar.
Diga na contagem de um, dois. NĂŁo, um, dois Ă© muito curto. Vamos fazer um, dois, trĂȘs… NĂŁo, cinco. Se eu contar atĂ© cinco, tenho certeza de que consigo.
â Mary? â Haruhiro perguntou.
â Oh! HĂŁ…?
â TĂĄ tudo bem?
â N-N-NĂŁo tem nada nĂŁo.
â Tem certeza? â Haruhiro olhou para alĂ©m da nĂ©voa. â Ah…
De novo. Algo estava se aproximando.
Dessa vez, provavelmente nĂŁo era um nyaa. Era grande demais para isso.
Seria humano?
Misturado ao som da chuva, podiam ser ouvidos passos. Eram aparentemente duas pessoas.
Um grupo de dois.
Mesmo que fossem grandes, isso sĂł significava que nĂŁo eram tĂŁo pequenos quanto um nyaa, e nĂŁo que fossem especialmente altos para um humano. Um deles, pelo menos, nĂŁo era maior que Mary. O outro parecia maior que Mary… nĂŁo, maior que Haruhiro.
Seria justo chamĂĄ-los de bizarros em aparĂȘncia. Ambos estavam envoltos em vĂĄrias cores de tecido que cobriam seus corpos inteiros, incluindo os rostos.
Haruhiro hesitou por um momento, entĂŁo suspirou.
â …Urgh. Tinha me esquecido disso. Bem, na verdade, nĂŁo… Isso mesmo.
â Esquecido? Esquecido do quĂȘ?
Haruhiro apenas respondeu: â Ă… â e fez um aceno vago, entĂŁo pegou o nyaa cinza.
Ele pegou o nyaa? Mary ficou chocada. NĂŁo pode ser. Isso Ă© absurdo. Me diga que Ă© mentira. NĂŁo pode ser. VocĂȘ tambĂ©m consegue pegar o nyaa? Espera aĂ, Haru. Por que vocĂȘ estĂĄ pegando o nyaa assim tĂŁo facilmente…?
â Setora-san. â Haruhiro fez uma leve reverĂȘncia. Segurando o nyaa, Ă© claro. â Ă assim que devo chamĂĄ-la? Ou prefere Shuro-san?
â Setora estĂĄ bom â disse a menor dos dois de forma curta, sem parar de andar.
Era a voz de uma mulher.
Shuro Setora. A domadora dos nyaas. Era uma mulher?
Setora arrastou a pessoa grande para dentro da caverna com ela.
Mary demorou a perceber, mas finalmente entendeu que o acompanhante de Setora provavelmente nĂŁo era humano. Ă primeira vista parecia humano, mas aqueles braços blindados eram longos demais. As mĂŁos tambĂ©m eram muito grandes. Haruhiro havia mencionado que Setora nasceu em uma famĂlia de necromantes. SerĂĄ que isso significava que seu acompanhante era um golem?
â Parece que se dispersaram â disse Setora, removendo o tecido que cobria seu rosto, aparentemente porque estava atrapalhando. â O que vocĂȘs planejam fazer?
Haruhiro engoliu em seco e arregalou os olhos. Mary tambĂ©m ficou um pouco surpresa. Seria difĂcil imaginar aquele rosto pela voz e aparĂȘncia de antes.
Ela era uma garota, nĂŁo uma mulher. Seu cabelo preto estava cortado em um bob curto, seus olhos eram tĂŁo grandes que pareciam prestes a cair, e mesmo assim ela era mais fofa do que bonita.
â …O quĂȘ? â Setora lançou um olhar irritado para Haruhiro e Mary. Pelo jeito que os olhava, estava ofendida. Mas, porque seu rosto era tĂŁo adorĂĄvel, ela nĂŁo era intimidadora. â VocĂȘs nĂŁo sĂŁo da vila, entĂŁo nĂŁo acham estranho que meu cabelo seja curto, nĂŁo Ă©?
â Oh, nĂŁo… â Haruhiro acariciava a barriga do nyaa cinza. â Haha… â Ele soltou uma risada sem graça. â Nem um pouco. Ah, certo. As mulheres da vila deixam o cabelo crescer. VocĂȘ comentou algo sobre isso antes, agora que me lembro.
â Que tom familiar vocĂȘ estĂĄ usando comigo â Setora respondeu friamente.
â Urgh. D-Desculpa… Eu peço desculpas. NĂŁo sei, quando vi seu rosto, tive uma sensação familiar. Familiar? NĂŁo, nĂŁo Ă© bem isso…
â EstĂĄ no meu sangue. Os membros da Casa de Shuro tĂȘm rostos infantis hĂĄ geraçÔes. Ă tambĂ©m por isso que nĂŁo gosto de mostrar meu rosto.
â NĂŁo acho que seja algo para esconder â disse Haruhiro. â Bom, Ă© sĂł o que eu acho.
â NĂŁo aja como se soubesse, estrangeiro. â Setora pegou o nyaa cinza dos braços de Haruhiro e o soltou. â Bem, parece que eu tambĂ©m deixarei a vila.
O nyaa cinza se sentou na entrada da caverna e começou a se lamber. Estava se limpando com diligĂȘncia, passando aquela lĂngua rosada pelo corpo inteiro.
TĂŁo fofo.
Mary ainda queria abraçå-lo. Mas sabia que, se o interrompesse enquanto se limpava, ele não ia gostar.
Mary desviou os olhos do nyaa cinza e olhou alternadamente para Haruhiro e Setora. O que estava acontecendo ali? Haruhiro parecia um pouco estranho. Parecia intimidado.
Bom, ao encontrar pessoas com quem não tinha muita intimidade, Haruhiro tendia a ser assim. Ele não era do tipo que sempre olhava nos olhos das pessoas enquanto falava. Mesmo assim, o jeito como abaixava a cabeça, olhando para Setora com os olhos levantados e tentando medir o humor dela, parecia um pouco fora do comum.
â VocĂȘ vai deixar a vila, hein… â disse Haruhiro.
â Sim. NĂŁo tenho nenhum apego Ă vila. Nossos caminhos estavam destinados a se separar eventualmente. Aconteceu de ser agora.
â …E quanto Ă Arara-san?
â NĂŁo disse a vocĂȘ? Eles se dispersaram. Tenho meus nyaas vigiando, mas nem eu consigo saber onde todos estĂŁo o tempo todo. Com certeza hĂĄ aqueles que os nyaas perderam de vista. Ă cruel esperar tanto dos nyaas.
â Ă, acho que sim…
â Parece que vocĂȘ estĂĄ bem. â Setora lançou um olhar de canto para Mary. â Esta Ă© a mulher que vocĂȘ fez tanto esforço para salvar? Eles nĂŁo a usaram para se aliviar?
â Isso… â Mary hesitou por um momento, sem saber como responder. â …nĂŁo aconteceu.
â EntĂŁo vocĂȘ teve sorte.
â Ă… Talvez vocĂȘ esteja certa.
â Uh, ei. â Por algum motivo, Haruhiro apontou para Setora e o nyaa cinza com gestos e um olhar. â A verdade Ă© que esse nyaa me mostrou o caminho atĂ© onde vocĂȘ estava. Se nĂŁo fosse por ele… ou melhor, se nĂŁo fosse pela ajuda da Setora-san, nĂŁo sei se teria conseguido chegar atĂ© vocĂȘ sozinho.
â Ohh… EntĂŁo foi isso. â Mary virou-se para Setora, inclinando-se em um profundo e educado agradecimento. â Muito… obrigada.
â NĂŁo precisa agradecer. Receberei minha compensação, afinal.
â Claro que vai… â Haruhiro fechou apenas o olho esquerdo e começou a esfregar a pĂĄlpebra repetidamente com a mĂŁo. Estava coçando?
Setora estreitou os olhos enquanto olhava para Haruhiro, com os lĂĄbios formando um leve sorriso. Era meio assustador. Ou melhor…
Ela me lembra alguĂ©m…? Mary pensou, intrigada.
Talvez fosse um milagre ter percebido tĂŁo rĂĄpido. Afinal, provavelmente nunca tinha falado com ela. NĂŁo era como se lembrasse do rosto dela claramente. O estilo de cabelo, os grandes olhos e o jeito simples e quieto. Era isso o que vinha Ă mente.
Essa garota passava a mesma impressĂŁo daquela outra garota que fazia parte da antiga party de Kuzaku. Se Mary se lembrava bem, ela era uma ladra, como Haruhiro. O nome dela era…
Choco.
Sim. Choco.
Quando ela morreu na Fortaleza de Observação Deadhead, Haruhiro gritou. Mary pensou, Ele a conhecia?
Ele a conhecia. Sem dĂșvida. Ele sabia o nome dela, afinal. AlĂ©m disso, havia algo claramente estranho no comportamento de Haruhiro naquela ocasiĂŁo. Mary nĂŁo se lembrava exatamente dos detalhes, mas ele estava agindo de maneira muito estranha. Talvez aquela garota, Choco, fosse mais do que uma simples conhecida para Haruhiro.
E daĂ se fosse?
Setora se parecia com Choco, que tinha morrido bem diante dos olhos dele. Seria por isso que Haruhiro parecia tĂŁo abalado?
â Bem, entĂŁo. â Setora cruzou os braços.
Haruhiro sentou-se onde estava, por algum motivo. â …Ă. Eu sei.
Mary inclinou a cabeça para o lado. â Huh? O que vocĂȘ sabe?
â Minha compensação. â Setora deu um leve suspiro. â Eu cumpri minha parte do acordo. Agora vou receber o que Ă© meu por direito.
â Ah, mas… â Haruhiro olhou para Mary, com um sorriso meio dolorido no rosto. â Na verdade, talvez seja bom que Mary esteja aqui. Ela pode… me tratar logo depois.
â Tratar vocĂȘ? De quĂȘ? â Mary perguntou.
â Foi decidido que eu forneceria… material.
â HĂŁ? Fornecer material? Pra quĂȘ?
â Erm… Para um golem de carne.
â Golem de car…
â Eu vou levar o olho dele. â Setora aproximou-se de Haruhiro e se agachou ao lado dele. â VocĂȘ pediu para poupar o olho dominante, entĂŁo serĂĄ o esquerdo, certo?
â O olho esquerdo dele?!
â …Uh, sim. â Haruhiro abaixou a cabeça, coçando-a. â Desculpa.
â Por que vocĂȘ estĂĄ pedindo desculpas, Haru?!
â Ah, sĂł senti que devia…
â VocĂȘ vai dar o seu olho?! Vai tirar ele e dar pra ela?!
â NĂŁo sei exatamente como vai funcionar, mas… acho que sim.
â Se fizer isso, eu nĂŁo posso curar, nem com o Sacrament! VocĂȘ entende isso, nĂŁo entende?!
â …Bom, mais ou menos.
â Como assim, mais ouâ
â VocĂȘ, mulher. â Setora lançou um olhar severo para Mary. â Por que estĂĄ tĂŁo zangada? Este homem fez um acordo comigo porque precisava dos meus nyaas para resgatar vocĂȘ.
â Eu… eu nĂŁo estou zangada… â gaguejou Mary.
â EntĂŁo se cale.
â NĂŁo tem como eu ficar quieta! Ă por minha causa que… â Mary cobriu a boca.
Era verdade.
Ele fez isso por mim.
Por minha causa, Haruhiro estĂĄ sendo obrigado a dar seu olho para essa mulher.
â …Desculpa. â Haruhiro esfregou a nuca. â Eu meio que nĂŁo queria que fosse assim. Quero dizer, fazer isso na sua frente… imagino que vocĂȘ nĂŁo queira ver, e, sinceramente, eu tambĂ©m nĂŁo quero que veja. EntĂŁo, desculpa, serĂĄ que vocĂȘ… poderia nos deixar? Uh, mas vou precisar que vocĂȘ me cure com magia depois, entĂŁo talvez dĂȘ na mesma no final…
â Chega disso. Levante o rosto e me deixe dar uma boa olhada. â Setora segurou o queixo de Haruhiro entre o dedo indicador e o polegar da mĂŁo direita, erguendo-o. â Hmph. Um globo ocular bem fresco.
â Bom, Ă©, eu nĂŁo sou um cadĂĄver. Estou vivo…
â Suponho que sim. â Setora afastou os cabelos de Haruhiro com a mĂŁo esquerda e aproximou seu rosto do dele. Havia necessidade de chegar tĂŁo perto? Bem, Setora estava planejando tirar o olho esquerdo de Haruhiro, entĂŁo talvez houvesse. Era difĂcil dizer. Seja como for, Haruhiro estava dĂłcil, como se tivesse aceitado que era obrigado a permitir aquilo.
Nem Haruhiro nem Setora poderiam estar falando sério sobre isso, certo? Era o que Mary queria pensar. Mas, independentemente do que Setora estivesse pensando, isso não era verdade para Haruhiro. Ele estava absolutamente sério.
Não era exatamente resolução, mas Haruhiro podia ser estranhamente comprometido. Como o fato de ele nunca abandonar um companheiro. Haruhiro estava sempre se sacrificando.
Não é que Mary não entendesse isso. Era melhor se machucar do que ver seus companheiros feridos. Entre perder um companheiro e morrer, se fossem forçados a escolher, Haruhiro certamente escolheria a segunda opção. E Mary também.
Dito isso, nĂŁo havia como ela aceitar aquilo.
â Leve o meu! â Mary se interpĂŽs entre Haruhiro e Setora.
Assim que o fez, Setora imediatamente a deteve com um olhar frio e direto.
â Isso nĂŁo vai acontecer.
â …Po-Por quĂȘ?!
â NĂŁo foi com vocĂȘ que fiz o acordo. Foi com este homem, e apenas com ele. Minha condição era que eu receberia o olho esquerdo deste homem. NĂŁo Ă© seu lugar exigir que eu altere os termos.
â Okay… Talvez vocĂȘ tenha razĂŁo, mas…
â AlĂ©m disso, nĂŁo tenho interesse nos seus olhos.
â …EstĂĄ dizendo que tem interesse nos do Haru, entĂŁo?
â NĂŁo pareceu assim? â perguntou Setora.
â E-Eu tenho boa visĂŁo, e os meus nĂŁo parecem sonolentos como os do Haru…
â Mary… Isso nĂŁo tem nada a ver com meus olhos, tenho quase certeza de que Ă© o formato das minhas pĂĄlpebras…
â D-Desculpa, nĂŁo foi isso que quis dizer…
Setora suspirou, exasperada.
â Sua tagarelice nĂŁo vai lhe servir de nada, mulher.
â M-Mulher?!
VocĂȘ tambĂ©m Ă© uma mulher. Mary quase disse, mas segurou as palavras.
Isso não estå indo bem. Minhas emoçÔes estão muito altas. Preciso me acalmar. Pensar com a cabeça fria.
â EntĂŁo vou oferecer algo mais valioso do que o olho esquerdo do Haruhiro! â ela soltou de repente.
â NĂŁo.
â Mesmo que seja um braço ou uma perna, nĂŁo me importo!
â NĂŁo preciso disso.
â EntĂŁo o que vocĂȘ quer?!
Haruhiro abriu a boca para tentar dizer algo, mas Setora de repente segurou sua cabeça e seu queixo com ambas as mãos, puxando-o para si.
O que estĂĄ fazendo?! Mary pensou freneticamente. Tratando Haru como um objeto.
â Espere…! â ela gritou.
â Eu me interessei por este homem â disse Setora.
â HĂŁ?!
â Em vez do olho de uma mulher por quem nĂŁo tenho nenhum interesse, Ă© Ăłbvio que o olho de um homem que me interessa tem muito mais valor.
â NĂŁo entendo essa lĂłgica! â protestou Mary.
â NĂŁo peço que entenda. A propĂłsito… â Setora começou a esfregar o rosto de Haruhiro com ambas as mĂŁos. â NĂŁo acho que seja necessĂĄrio apressar-me em pegar o olho esquerdo dele. NĂŁo precisa ser agora. Pegarei o olho esquerdo dele quando eu quiser. AtĂ© lĂĄ… Haruhiro.
â …S-Sim?
â Seu olho esquerdo Ă© meu, mas deixo-o sob seus cuidados.

â E-Er… Que bom? Devo ficar feliz com isso?
â VocĂȘ Ă© diferente dos homens da vila. HĂĄ algo de fresco em vocĂȘ.
â …Ă mesmo?
â Haru â disse Mary com um tom rĂspido, entĂŁo percebeu que estava agindo irritada. â Por que estĂĄ sorrindo?
â NĂŁo estou sorrindo?! Tipo, nĂŁo Ă© hora pra isso, nĂ©?!
â Ă mesmo? â Mary desviou o olhar. â Por algum motivo, parecia que vocĂȘ estava um pouco feliz.
â NĂŁo estou feliz, nĂŁo!
â A propĂłsito, Haruhiro â disse Setora.
â Sim?! O-O que foi…? Erm, Setora-san, p-poderia me soltar… por favor?
â Acha que estĂĄ em posição de me pedir favores? â perguntou Setora friamente.
â Eu diria que isso Ă© uma coisa, mas essa Ă© outra.
â Um argumento justo.
â Eu sabia, nĂ©…?
â Mas isso nĂŁo significa necessariamente que eu vĂĄ aceitar. Talvez vocĂȘ nĂŁo saiba, mas eu era conhecida por ser uma pessoa difĂcil, mesmo na vila.
â Ah, dĂĄ pra perceber! P-Por favor, me solte! â Haruhiro se desvencilhou do aperto de Setora e se levantou. â Foi uma promessa, entĂŁo eu vou te dar meu olho esquerdo quando vocĂȘ quiser! Mas nĂŁo te devo mais nada!
â Oh-ho â disse Setora, arregalando os olhos de forma exagerada. â Em outras palavras, vocĂȘ nĂŁo precisa mais da minha ajuda? Nesse caso, mandarei todos os meus nyaas recuarem agora mesmo. E tambĂ©m pegarei seu olho esquerdo agora. Se nos separarmos aqui, talvez nunca mais nos encontremos.
Haruhiro abaixou a cabeça.
â Isso seria…
Um problema. Mary nĂŁo queria admitir, mas precisava.
A verdade era que Haruhiro e Mary estavam apenas esperando que seus companheiros aparecessem. Tinham quebrado a cabeça pensando no que fazer, se deveriam tentar isso ou aquilo, mas no fim não havia mais nada a fazer. Não havia movimentos que pudessem realizar.
â Embora eu nĂŁo possa fazer imediatamente… â Setora dobrou os joelhos e olhou para o rosto de Haruhiro de baixo. â Se eu mandar meus nyaas se concentrarem em encontrar seus companheiros, tenho certeza de que conseguiriam. Meus nyaas conhecem esta ĂĄrea melhor do que eu mesma. E vocĂȘs? Se estĂŁo familiarizados com o terreno, talvez nĂŁo precisem da minha ajuda? Eu prevejo que amanhĂŁ serĂĄ um dia incomumente claro, entĂŁo a visibilidade serĂĄ boa. HĂĄ outros problemas que surgem em dias sem neblina no Vale dos Mil. O que farĂŁo? Procurar com todas as forças?
Essa mulher. Shuro Setora.
Ela parece gostar de Haruhiro, mas, apesar disso, estĂĄ o provocando, fazendo-o sofrer e se divertindo com isso. Ela disse que era uma pessoa difĂcil, mas, na verdade, Ă© apenas cruel.
NĂŁo deveria pensar isso depois de ela ter me salvado, e com esses nyas tĂŁo fofos, nĂŁo quero pensar mal dela.
Mesmo assim, nĂŁo consigo gostar dela. Talvez realmente a odeie.
Mesmo que Mary odiasse Setora, seria imaturo expulsĂĄ-la por causa disso, e, falando realisticamente, seria uma pĂ©ssima ideia. Muito pĂ©ssima. No entanto, serĂĄ que Setora realmente os ajudaria sĂł porque Mary abaixou a cabeça para ela? DifĂcil.
Haruhiro. Setora provavelmente estava se abaixando porque queria ver Haruhiro pedir sua ajuda. Mais que isso, ela queria que ele se submetesse. Queria que ele a obedecesse, nĂŁo queria? E Haruhiro sabia o que precisava fazer como lĂder da party. Por Maryâpor uma de suas companheirasâele jĂĄ havia sacrificado o olho esquerdo. Talvez atĂ© jogasse sua vida fora por ela.
â Setora-san. â Haruhiro se curvou, abaixando a cabeça quase atĂ© a altura dos joelhos. â …Por favor. Nos ajude a encontrar nossos companheiros.
â Muito bem. â Setora respondeu de forma altiva. E entĂŁo acrescentou, tĂŁo rĂĄpido que mal deu tempo de reagir: â Mas tenho uma condição.
Eu jĂĄ esperava por isso.
Que tipo de condição ela proporia? Mary apertou os dentes. Se Setora dissesse algo estranho, Mary gostaria de impedir Haruhiro, mas nĂŁo podia. A menos que fosse algo realmente graveânĂŁo, mesmo que fosseâHaruhiro provavelmente aceitaria. Setora o tinha decifrado, entĂŁo podia muito bem propor algo completamente absurdo.
â Qual Ă©? â Haruhiro manteve a cabeça abaixada, olhando para Setora com os olhos erguidos. â A condição.
â Antes disso, tenho uma pergunta.
â Claro… Pode perguntar.
â VocĂȘ e aquela mulher estĂŁo apaixonados?
â HĂŁ?! â Haruhiro exclamou, e Mary disse: â O que vocĂȘâ â antes de ficar em silĂȘncio, sem palavras.
â NĂŁo acho que seja uma pergunta que justifique tanta surpresa. â Setora arqueou as sobrancelhas, parecendo ofendida. â VocĂȘs sĂŁo companheiros, nĂŁo sĂŁo? Se duas pessoas que passam o tempo todo juntas desenvolvessem esse tipo de relação, nĂŁo seria algo incomum. Na vila, as pessoas das casas inferiores geralmente se casam com quem sĂŁo prĂłximas e tĂȘm filhos. AlĂ©m disso, Haruhiro, vocĂȘ estava disposto a morrer para salvar aquela mulher. NĂŁo seria normal pensar que vocĂȘs sĂŁo mais do que simples companheiros?
â N-NĂŁo… â Haruhiro virou-se para Mary, desviou o olhar imediatamente e entĂŁo balançou nĂŁo sĂł a cabeça, mas o corpo todo de um lado para o outro. â NĂŁo Ă© isso, tĂĄ bom?! NĂŁo temos nada assim, somos apenas bons companheiros! Companheiros, certo?! T-TĂĄ bom…?! Somos companheiros!
Setora fixou os olhos em Mary por algum motivo.
â Isso Ă© verdade?
â Claro! â Mary prendeu a respiração e quase tossiu. â …Companheiros. Ă isso que Haru e eu somos. Nada mais, nada mais alĂ©m disso.
â HĂĄ algum motivo para vocĂȘ ter dito âmaisâ duas vezes?
â N-NĂŁo?! N-NĂłs nĂŁo somos nada alĂ©m disso, nada a mais e nada a menos! Ă sĂł isso!
â Entendo. â Setora assentiu levemente duas vezes. â EntĂŁo nĂŁo deve haver problema, Haruhiro.
â Q-Qual… Ă©?
â Haru. â Quando Setora corrigiu a forma de chamĂĄ-lo, Mary sentiu uma fisgada na tĂȘmpora e uma leve dor.
O que foi isso? Ela estĂĄ sendo Ăntima demais com ele.
De repente, Mary percebeu. Se isso fosse verdade, ela tambĂ©m estava sendo Ăntima demais ao chamĂĄ-lo de Haru.
Originalmente, quando tentou se aproximar de seus companheiros, havia pensado em mudar a forma como os chamava, como uma demonstração do tipo de relação que aspirava ter com eles. Debateu consigo mesma sobre o que fazer. Decidiu começar pelo lĂder, e a primeira opção inofensiva que lhe veio Ă mente foi adicionar um âkunâ ao nome dele. Embora fosse fĂĄcil de se acostumar e ela atĂ© gostasse, âHaruhiro-kunâ era um pouco longo. Usar âHaru-kunâ acabaria se sobrepondo ao que Yume usava. AlĂ©m disso, enquanto era fofo para uma garota como Yume chamĂĄ-lo de âHaru-kunâ, nĂŁo seria desconcertante se Mary fizesse o mesmo? Usar âsanâ seria estranho, ou pareceria formal demais. Nesse caso… que tal âHarupinâ? Nem pensar. NĂŁo fazia sentido. âHarurinâ, entĂŁo? âHarurironâ? âHarumeroâ? Exagerar de vez e chamĂĄ-lo de âHaruharuâ? âHaruchinâ? NĂŁo, nĂŁo, isso era claramente demais…
Depois de muito hesitar, escolheu o simples e prĂĄtico âHaruâ. Era seguro. Parecia funcionar. No entanto, na hora de realmente chamĂĄ-lo assim, hesitou.
Mary estava quase repensando sua decisĂŁo. No entanto, ao seguir o impulso e tentar chamĂĄ-lo daquela forma uma vez, tinha sido surpreendentemente aceitĂĄvel. Pelo menos, foi assim que ela se sentiu. Mas talvez ela tivesse agido de forma excessivamente Ăntima?
Mas, deixando isso de lado, por que essa mulher havia começado a chamar Haruhiro de âHaruâ de repente?
â Haru. â Setora o chamou assim novamente, esboçando um leve sorriso. â AtĂ© eu me cansar e dizer o contrĂĄrio, vocĂȘ vai agir como se fosse meu amante. Essa Ă© a condição.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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