Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 10 – Volume 9

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – CapĂ­tulo 10:
[Algum Dia, Com Sentimentos Sinceros]


Mary pensava: Tenho algumas reservas quanto ao que Haru fez, mas nĂŁo acho que ele teve escolha naquela situação. Ou melhor, ele provavelmente nĂŁo tinha escolha… entĂŁo…

Provavelmente não havia como evitar. Além disso, Mary não conseguia ver com seus próprios olhos exatamente o que os dois estavam fazendo. Haruhiro e Shuro Setora caminhavam lado a lado à sua frente; logo atrås deles vinha o golem Enba, e Mary seguia na retaguarda.

Enba não era tão alto. Tinha cerca de 1,70m, mais ou menos. No entanto, seus braços eram estranhamente longos. Seu tronco era musculoso, com ombros incrivelmente largos, e, para ser sincero, ele estava no caminho. Isso dificultava bastante sua visão do que estava à frente.

Haruhiro não tinha tido outra escolha senão aceitar as condiçÔes que Setora lhe impusera. Se Mary estivesse em seu lugar, teria tomado a mesma decisão, por mais angustiante que fosse. Ela entendia. Conseguia aceitar isso.

PorĂ©m, esse definitivamente nĂŁo era o momento… Esse sentimento insistia em aflorar dentro dela. Eles nĂŁo estavam fazendo nada muito significativo, mas era irritante e profundamente incĂŽmodo. Setora tinha ordenado que ele agisse como seu amante, ou algo assim, mas o que era isso, afinal? SerĂĄ que ela queria dizer… bem…?

Isso nĂŁo Ă© da minha conta, disse a si mesma com firmeza.

O fato era que Mary não sabia. Ela nunca tinha namorado um garoto. Nem uma garota, aliås. Pelo menos, não desde que chegou a Grimgar. Ela não se lembrava de sua vida antes disso, então não podia ter certeza, mas sentia que nunca tinha estado em um relacionamento sério desse tipo.

Analisando sua personalidade, mesmo que decidisse que gostava de alguém, provavelmente pensaria bastante antes de decidir que queria passar o resto da vida com essa pessoa.

Provavelmente seria cautelosa. Apenas sentir: Ah, ele é meio legal, não a faria perder a cabeça. Ela não faria alarde. Tentaria manter a compostura.

Levando tudo isso em conta, ela devia ser tĂ­mida quando se tratava de amor. Isso provavelmente ainda nĂŁo tinha mudado.

— Haru. — Setora chamou seu nome em um tom que não era exatamente meloso.

— Uh, sim, senhora? — Haruhiro respondeu. Ele parecia tão distante.

— VocĂȘ me chamou de “senhora”?

— Oh, desculpa… É… O que foi?

— Eu sĂł quis tentar chamar seu nome. Isso Ă© errado?

— NĂŁo estĂĄ errado… acho.

— Entendi.

— É…

— É bom — disse Setora.

— Huh? O quĂȘ?

— Ter alguĂ©m prĂłximo com quem posso falar casualmente pelo nome.

— Ahh. Hm… acho que Ă©. — Haruhiro deu uma risada vazia.

Enba parecia estar deliberadamente agindo como uma barreira entre Mary e os dois, para que ela nĂŁo atrapalhasse. Parecia que eles estavam apenas conversando ocasionalmente enquanto caminhavam, entĂŁo ela se perguntava exatamente o que estava impedindo.

Ou serå que Mary não conseguia ver, e eles estavam na verdade de rosto colado, de mãos dadas, com os braços entrelaçados? Ou talvez estivessem envolvidos em algum tipo de contato físico ainda mais íntimo?

Seja como for, por causa de Enba, Mary nĂŁo podia vĂȘ-los de sua posição na retaguarda. Ainda assim, embora nĂŁo pudesse afirmar com certeza, aquilo nĂŁo parecia muito provĂĄvel. Ela conseguia ter uma noção disso pelas conversas deles.

EntĂŁo, o que exatamente os dois estĂŁo fazendo?

Eles deveriam ser amantes? Desse jeito…?

Parecia que era assim que Setora imaginava que amantes agiam quando estavam juntos. Haruhiro estava seguindo o jogo. Provavelmente com dĂșvidas. Pensando: Isso Ă© meio que nĂŁo o que eu esperava. Afinal, quando se falava em “amantes”, esperava-se algo mais como…

Mais como… o quĂȘ exatamente?

Algo mais pegajoso, mais carinhoso?

O que constituĂ­a ser carinhoso, exatamente?

Mary nĂŁo tinha tanto conhecimento sobre isso, entĂŁo nĂŁo sabia. Mas, fosse o que fosse, eles nĂŁo eram assim. NĂŁo pareciam amantes de jeito nenhum. Ou talvez ela ficasse surpresa ao descobrir que a maioria dos casais por aĂ­ eram como eles? Talvez fossem assim na frente dos outros? Mesmo que Mary estivesse em um relacionamento desse tipo, ela se conteria em lugares pĂșblicos, onde as pessoas pudessem ver.

Do que se conteria? Bem… De flertar? Embora houvesse a questĂŁo de ela querer flertar ou nĂŁo em primeiro lugar. Talvez, na verdade, ela nĂŁo quisesse? Ou serĂĄ que ela se sentia assim apenas porque nĂŁo havia ninguĂ©m com quem pudesse flertar, e sua mentalidade mudaria caso houvesse?

Mas Mary tinha certeza de que nunca conseguiria.

Ela nĂŁo queria, nem precisava.

NĂŁo era como se Mary nĂŁo tivesse percebido os sentimentos de Kuzaku por ela. Contudo, tambĂ©m duvidara disso, achando que estava sendo exageradamente autoconsciente. AlĂ©m disso, Kuzaku havia se juntado Ă  party depois de todos, e parecia inseguro. Seu desejo de ser gentil com um colega e de ser Ăștil para ele, como alguĂ©m que estava lĂĄ hĂĄ mais tempo, era muito mais forte.

Quando ele se declarou, ela pensou: Eu sabia. Esperava estar errada, mas Kuzaku vinha olhando para ela daquele jeito.

Ela jĂĄ estava preparada, entĂŁo deu uma resposta direta.

NĂŁo posso, ela disse imediatamente.

Mary não conseguia se imaginar namorando alguém. Eles eram colegas na mesma party até aquele momento, e queria que continuassem assim. Era isso o que desejava. Se possível, queria que Kuzaku pensasse assim também.

Não era que ela o desgostasse. Se perguntassem se ela gostava ou não dele, bem, ela gostava. Ele era alto, e provavelmente seu rosto não era ruim também. Ele se dava bem com as pessoas, embora Mary percebesse uma certa fraqueza nele. Não era egoísta nem insistente como Ranta, então era justo dizer que ele era um cara bem decente.

Ela nĂŁo o desgostava. Talvez nĂŁo fosse totalmente impossĂ­vel amĂĄ-lo.

Mas nĂŁo o faria.

Porque ele era Kuzaku.

NĂŁo, esse nĂŁo era o motivo.

Ela não se apaixonaria por ninguém.

NĂŁo haveria romance para ela.

Era impossĂ­vel sentir amor por outra pessoa.

Mary tinha algo muito mais importante que isso. Tinha seus companheiros, e precisava proteger a vida de todos. NĂŁo podia se deixar distrair com outras coisas. NĂŁo tinha tempo para perder com bobagens como romance e amor. Essa era quem ela era.

Mesmo em relação aos membros da party, ela não tinha intenção de impor sua visão a eles. Se algum deles se apaixonasse por outro, achava que tudo bem.

Não que isso pareça muito provåvel na nossa party.

Mesmo quando estava com as outras garotas, Shihoru e Yume, elas quase nunca falavam sobre o assunto. NĂŁo, na verdade, nunca falavam. Sempre conversavam sobre coisas fofas ou comidas gostosas. Por causa disso, Mary sentia-se incrivelmente confortĂĄvel, e isso fazia com que gostasse ainda mais de Shihoru e Yume.

Não havia uma regra contra romances na party, mas ela achava que talvez devessem criar uma. Se houvesse, Mary poderia se sentir ainda mais tranquila. Queria interagir com seus companheiros como seres humanos iguais a ela. Mesmo que pudesse ser amiga deles, nunca poderia ser namorada ou esposa de alguém. Nem queria considerar a possibilidade de acabar em um relacionamento assim.

— A propósito, Haru — disse Setora, com o mesmo tom nada familiar.

— Uh, sim—Fala.

— Quantos filhos vocĂȘ quer?

— Bwuh…! — Haruhiro engasgou, e Mary tambĂ©m tossiu estranhamente.

— Hm? O que foi, Haru? — perguntou Setora.

— …NĂŁo. É que… meio que veio do nada… Erm, n-nĂłs somos amantes, certo?

— Sim. VocĂȘ e eu somos amantes.

— …SĂł atĂ© vocĂȘ se cansar disso e dizer o contrĂĄrio, nĂ©?

— VocĂȘ pode se surpreender ao saber que nunca me canso disso.

— Huh…? — Haruhiro parecia surpreso, mas Mary havia notado as condiçÔes de Setora desde o começo.

“AtĂ© eu me cansar disso e lhe dizer o contrĂĄrio.” NĂŁo era impossĂ­vel interpretar isso como: Vou me cansar disso eventualmente, entĂŁo faça o seu melhor atĂ© lĂĄ. SerĂĄ que Haruhiro estava assumindo isso de forma otimista? Ele tinha uma opiniĂŁo estranhamente baixa sobre si mesmo, entĂŁo talvez estivesse subestimando a situação de vĂĄrias formas. Devia achar que Setora estava fazendo isso por capricho ou por engano, e que logo se cansaria dele e ficaria irritada. Isso tinha que ser o que Haruhiro esperava.

Mas nunca se sabe, nĂŁo Ă©? Pensou Mary.

Parecia que Setora tinha se interessado por Haruhiro desde o inĂ­cio. Talvez ela nunca se cansasse e decidisse mantĂȘ-lo como seu amante.

Haruhiro negaria isso, dizendo que jamais aconteceria, mas era algo completamente possĂ­vel. Mesmo que ele nĂŁo fosse o tipo de pessoa popular entre as garotas, jĂĄ havia um precedente com Mimori, dos Tokkis. Existiam mulheres que se interessavam por Haruhiro. Na verdade, nĂŁo surpreenderia Mary se houvesse muitas delas.

Haruhiro parecia sempre sonolento, mas isso significava que ele nĂŁo era barulhento, e, embora nĂŁo tivesse uma presença imponente, era relaxante tĂȘ-lo por perto. Ele era atencioso com os companheiros, tinha senso de responsabilidade e era paciente. AlĂ©m disso, sabia dizer o que precisava ser dito. Parecia tĂ­mido, mas podia ser surpreendentemente corajoso.

Não possuía habilidades que o fizessem se destacar nem características que o colocassem à frente dos outros. Mesmo assim, cumpria bem seu papel como líder e nunca tentou abandonar essa responsabilidade. Quantas crises Haruhiro jå havia ajudado a party a superar até aquele momento?

Mesmo que Haruhiro fosse traído, ele nunca trairia os outros. Era um líder de quem Mary se orgulhava, em quem podia confiar e a quem respeitava como pessoa. Ela nunca tinha dito isso diretamente para ele. Na verdade, deveria ter dito. Mesmo que o elogiasse, Haruhiro não deixaria isso subir à cabeça.

— Ha– — Mary estava prestes a chamá-lo, mas rapidamente tossiu para disfarçar.

…Por que agora? Mesmo que eu vĂĄ dizer isso, agora nĂŁo Ă© o momento. Obviamente. Qual Ă© a pressa?

— Hm? — Setora havia parado? Enba, que estava Ă  frente, tambĂ©m parou, e Mary quase esbarrou nele.

— VocĂȘ disse algo, mulher?

— …NĂŁo exatamente. — Mary abaixou a cabeça e mordeu levemente o lĂĄbio. Parecia que ela estava falando com as costas de Enba. Setora praticamente a ignorava. EntĂŁo, por que, apesar disso, havia respondido em um momento como aquele? — Eu nĂŁo disse nada.

— Entendo — respondeu Setora friamente. — Pareceu-me que alguma pessoa mal-educada estava me ignorando, como amante dele, e se referindo a Haru como Haru.

— Eu chamo o Haru do jeito que quiser! — retrucou Mary.

— Isso não será permitido. Agora somos amantes, e darei à luz o filho do Haru. Naturalmente, não permitirei que nenhuma outra mulher coloque as mãos nele.

— Filho?! — gritou Haruhiro.

Mary disse: — Colocar as mĂŁos nele, vocĂȘ diz? — EntĂŁo foi tomada por uma leve tontura.

— E-E-E-E vocĂȘ vai ter um filho?! — Haruhiro gaguejou, atĂŽnito. — TĂŁo de repente?!

— Naturalmente. Há algo mais que um homem e uma mulher apaixonados fariam?

— Eu… — Haruhiro parecia perdido. — NĂŁo sei sobre isso…

— T-Tudo tem uma ordem! — Mary passou rapidamente por Enba, movendo-se para frente. — V-VocĂȘs tĂȘm que fazer as coisas na ordem certa, entende? N-NĂŁo Ă© sĂł sair e fazer um b-b-b-bebĂȘ de repente…!

— Uma ordem? — Setora franziu a testa. — VocĂȘ quer dizer algo como se reunir Ă  noite, se agarrar, explorar o corpo um do outro? NĂŁo parece um assunto apropriado para discutirmos aqui.

— É-Ă©… — Haruhiro gaguejou.

— Como assim â€œĂ©â€, Haru?!

— C-certo?! Desculpa…

— NĂŁo peça desculpas a essa mulher, Haru! — Setora gritou. — VocĂȘ Ă© meu amante. NĂŁo permitirei que peça desculpas a ninguĂ©m alĂ©m de mim!

— S-sim, senhora!

NĂŁo, isso nĂŁo Ă© algo para responder com “Sim, senhora”! Engolindo as palavras que quase escaparam, Mary pressionou com força o peito. Mesmo agora, os nyaas de Setora estavam espalhados pela ĂĄrea, procurando por seus companheiros. Haruhiro nĂŁo podia contrariar Setora. Praticamente falando, ele nĂŁo tinha escolha a nĂŁo ser fazer o que ela mandava. Se Setora ordenasse algo, Haruhiro teria que obedecer. EntĂŁo, basicamente…

Eles vĂŁo se encontrar Ă  noite?

Se agarrar?

Explorar o corpo um do outro?

E depois… fazer algo para terem um bebĂȘ?

— Heh… — Mary riu. Por que tinha rido? Ela mesma nĂŁo sabia. Era um mistĂ©rio.

Foi porque tudo aconteceu mais de repente do que ela esperava? Tipo, vocĂȘs jĂĄ vĂŁo chegar nesse ponto? Nossa, estĂŁo indo com tudo, era algo que ela certamente sentia.EntĂŁo Ă© isso? SĂ©rio? Uau.

Mas vocĂȘ estĂĄ bem com isso, Haru? Ela queria perguntar, mas nĂŁo podia. Era algo que ela nĂŁo podia perguntar.

Não era uma questão de estar bem ou não. Ele não tinha escolha. Se fosse para fazer, ele teria que fazer. Ele teria que fazer. É, aquilo.

Mas e daĂ­? NĂŁo quebrava nenhuma regra contra romances dentro da party, afinal. NĂŁo que existisse uma regra assim. EntĂŁo, nĂŁo tinha nada a ver com ela, certo? NĂŁo era problema dela?

Certo. Por que ela estava tĂŁo incomodada? NĂŁo havia um problema real aqui, certo? Era algo que nĂŁo sĂł humanos, mas todos os seres que se reproduziam faziam. Mesmo que Haruhiro fizesse isso com Setora, como isso poderia ser um problema? Pelo menos, nĂŁo era da conta de Mary. Se Haruhiro nĂŁo quisesse, ela sentia pena dele, claro. Mas era pelos companheiros. Haruhiro era o lĂ­der, entĂŁo ele teria que aguentar. Este era Haruhiro, afinal, ele conseguiria lidar com isso e faria um Ăłtimo trabalho, com certeza.

Talvez ele nem estivesse tĂŁo contra isso. Se ela olhasse para Setora de forma imparcial, ela era uma mulher bonita. E, alĂ©m disso, ela se parecia com…

Aquela garota.

Choco.

Talvez ele nĂŁo estivesse completamente contra a ideia?

EntĂŁo era isso. Talvez fosse por isso que Mary riu.

Haruhiro estava mantendo as aparĂȘncias, dizendo algo como: Ah, que azar o meu, estou em um grande problema agora, mas, no fundo, ele achava que era um benefĂ­cio, e talvez estivesse atĂ© contente com a situação. Se ela se lembrava bem, aquele idiota do Ranta tinha dito algo sobre isso antes. Homens ficam “acumulados”, aparentemente. Para Mary, isso era algo sobre o sexo oposto, entĂŁo ela nĂŁo entendia direito, mas basicamente significava que eles queriam fazer esse tipo de coisa, certo? Haruhiro tambĂ©m era um homem. Se tivesse uma boa parceira para isso, Ă© claro que ele ia querer.

Tudo bem, entĂŁo, ela pensou. De certa forma. Se fizessem isso longe do alcance dos olhos dela, ela nĂŁo se importava.

Aquele som irritante, Pigyahh, Pigyahhh, jĂĄ estava ali hĂĄ um tempo, mas ela mais ou menos tinha organizado seus pensamentos.

Mary suspirou.

— …EntĂŁo, que som Ă© esse, afinal?

— Esse Ă© o grito de um wyvern — respondeu Setora, olhando para o cĂ©u e semicerrando os olhos, como se a luz estivesse muito forte. — O Vale dos Mil tem uma relação inseparĂĄvel com a nĂ©voa. No entanto, hĂĄ alguns dias no ano, no mĂĄximo dez, em que a nĂ©voa desaparece completamente, como agora. Nesses dias, eles vĂȘm das Montanhas Kuaron, a leste. As criaturas daqui nĂŁo estĂŁo adaptadas aos wyverns, afinal. Para eles, este deve ser um campo de caça cheio de presas fĂĄceis.

— HĂŁ? Espera, pera aĂ­ — Haruhiro perguntou, em pĂąnico. — Esses wyverns, o que sĂŁo? Que tipo de…?

Pigyahhhhhhhhhhhhhhh! O grito do wyvern ecoou pela ĂĄrea novamente.

Era diferente de antes. Mary se encolheu involuntariamente com o som alto. SerĂĄ que significava que estava perto?

— Um tipo de dragĂŁo — explicou Setora, com um tom despreocupado. — Eles tĂȘm asas e conseguem voar como pĂĄssaros. Pode-se dizer que sĂŁo dragĂ”es voadores. Existem em vĂĄrias cores e tamanhos, mas os wyverns azuis sĂŁo conhecidos por serem os maiores e os mais ferozes. SĂŁo completamente carnĂ­voros. NĂŁo importa se sĂŁo humanos ou orcs, eles comem qualquer coisa.

Mary olhou para o céu, sem querer. Estava esplendidamente claro. Pensando bem, fazia bastante tempo desde que ela vira um céu tão azul e bonito.

NĂŁo, agora nĂŁo Ă© hora para sentimentalismos.

— Isso… Ă© perigoso, nĂŁo Ă©…? — perguntou ela.

— Naturalmente, nĂŁo Ă© seguro. — Setora soltou um riso abafado. — A vila deve estar em completo caos agora, tenho certeza. Em dias claros, em vez de aproveitarem o precioso sol, eles ficam ocupados se preparando contra os wyverns. Houve uma Ă©poca em que a vila foi atacada por um bando de dezenas de wyverns. Depois disso, enviaram uma expedição para as Montanhas Kuaron para queimar o ninho deles, e desde entĂŁo nĂŁo houve outro desastre tĂŁo grande. Contudo, essas criaturas fazem seus ninhos em grandes altitudes, em encostas Ă­ngremes, entĂŁo nĂŁo Ă© possĂ­vel exterminĂĄ-las completamente. Quando a nĂ©voa desaparece, eles voam para cĂĄ. Alimentam-se atĂ© ficarem satisfeitos e, quando a nĂ©voa volta, retornam para casa. Quem vive aqui Ă© forçado a aceitar isso como parte da vida.

— A gente poderia… — começou Haruhiro, mas cobriu a boca com as mĂŁos. — …tentar fugir, mas nĂŁo ia funcionar. EntĂŁo, o que fazemos? Se eles vierem, vĂȘm, e nĂŁo podemos fazer nada?

— Certamente não. — Setora deu uma cutucada na testa de Haruhiro com o dedo indicador. — Aqui.

— Ai! — Haruhiro segurou a testa. — NĂŁo, nem doeu, mas…

Parecia que eles estavam se divertindo. Brincando. Quase algo de casal, talvez? Se fosse em outro momento, Mary até apoiaria, mas considerando a situação, não era o caso.

— EntĂŁo? — Mary exigiu. — VocĂȘ tem algum plano? Tem, nĂŁo Ă©?

— Esse tom autoritĂĄrio Ă© irritante, mulher. Se chegar a esse ponto, acho que escolherei abandonĂĄ-la.

— Setora, hum… A Mary Ă© uma companheira importante para mim — disse Haruhiro, hesitante.

— NĂŁo sei se ela Ă© sua companheira ou o quĂȘ, mas uma mulher Ă© uma mulher. Ela pode carregar seu filho. Isso torna a presença dela desagradĂĄvel para mim. Entendo. Poderia ser ciĂșmes, talvez?

— Eu…! — Mary nĂŁo conseguiu evitar elevar a voz. — Sou companheira do Haru, nada mais, nada menos! Nunca vou engravidar do Haru, e vocĂȘ sentir ciĂșmes sĂł me dĂĄ dor de cabeça, entĂŁo, por favor, pare com isso!

Depois de soltar tudo isso, Mary voltou a si e lançou um olhar a Haruhiro para ver sua reação. Haruhiro olhava para baixo, com um sorriso tenso no canto da boca.

— Se vai falar tanto assim, bem… — Setora deu de ombros. — Apesar do que vocĂȘ diz, eu achava que vocĂȘs dois eram prĂłximos ou tinham uma relação parecida com isso. Parece que me enganei. Ou, talvez, Haru, vocĂȘ esteja nutrindo um afeto nĂŁo correspondido por ela?

— …NĂŁo. — Haru esfregou a barriga. — NĂŁo Ă© isso, okay? Eu vejo a Mary como uma companheira tambĂ©m… Ela Ă© uma companheira preciosa, e companheiros sĂŁo importantes, de verdade, entĂŁo… uma companheira Ă© uma companheira, digamos assim.

— Hmm. NĂŁo sei se entendi, mas tomei medidas para lidar com wyverns. Meus nyaas estĂŁo vigiando. AlĂ©m disso, isso nĂŁo Ă© inteiramente ruim. Os wyverns podem nos ajudar tambĂ©m.

Um dos nyaas saltou de um arbusto prĂłximo. Era um nyaa listrado de amarelo. O nyaa ronronou e fez gestos para se comunicar com Setora. Quando Setora assentiu, depois balançou a cabeça, o nyaa soltou um Ășnico “nyaa” e desapareceu novamente.

É frustrante admitir, mas eles são fofos, pensou Mary.

— Parece que os encontraram — Setora cobriu rapidamente o rosto com o pano que trazia enrolado no pescoço. — Ou melhor, um wyvern os encontrou para nĂłs. Se ainda nĂŁo foram devorados, tenho certeza de que vocĂȘ poderĂĄ vĂȘ-los.

EntĂŁo era isso.

Os wyverns haviam voado até ali em busca de presas. Quando o céu estava limpo, as pessoas da vila oculta, e provavelmente os membros da Forgan também, ficavam atentos aos wyverns. Mas aqueles que não sabiam sobre eles ficavam desprevenidos, tornando-se alvos fåceis.

Setora começou a correr, e Haruhiro, Enba e Mary a seguiram. Ocasionalmente, ouviam os miados dos nyaas. Pareciam estar guiando Setora.

Por onde estavam correndo, e para onde estavam indo? Mary nĂŁo fazia ideia. Subiam e desciam colinas, e para ela jĂĄ era um desafio apenas acompanhar.

De vez em quando, Haruhiro olhava para trås, na direção de Mary. Ele devia estar preocupado com ela, como uma de suas preciosas companheiras. Mas, ainda assim, por que ela havia dito aquilo? Que nunca ficaria gråvida de Haru? O fato é que Mary realmente pensava assim, mas foi uma forma muito direta de dizer.

Foi inapropriado. Setora a havia provocado. Era culpa de Setora. Tudo culpa dela.

Pigyahhhhhhhhh, um grito estridente ecoou.

Algo estava no céu. Tinha asas, mas não era um påssaro. Provavelmente era um wyvern. Estava descendo em um mergulho.

Setora parecia estar indo naquela direção. Era onde estava a presa do wyvern. Poderiam ser Shihoru e os outros.

O wyvern, que haviam perdido de vista por um momento, voltou a subir no ar. Fez uma curva e parecia se preparar para outro ataque.

Havia alguém à frente. Estava correndo em direção a eles.

— Shihoru! — Haruhiro e Mary gritaram ao mesmo tempo.

Ela não estava usando seu chapéu e vestia um casaco cinza desconhecido, mas não havia como confundi-la.

Ela segurava seu cajado.

Era Shihoru.

Ela estava bem.

Mary correu com todas as forças. Sentiu os cantos dos olhos esquentarem.

Graças a Deus, pensou. Shihoru. VocĂȘ estĂĄ viva.

Mas quem era aquele com ela? Tinha cabelo curto, um corte militar, e vestia uma roupa de sacerdote. Um homem desconhecido. Onde estavam Yume e Kuzaku?

Haruhiro gritou: — Tsuga-san! — e acelerou, ultrapassando Setora.

— Haruhiro-kun!

— Venha, Shihoru! — Haruhiro segurou Shihoru em seus braços e logo a colocou atrás dele.

O que foi isso? Mary pensou. Foi muito legal.

— Haru! Não abrace outras mulheres! — gritou Setora.

— Cala boca! — Haruhiro retrucou imediatamente. — Mary, cuide da Shihoru! — Ele deu as instruçÔes e seguiu adiante.

Tsuga. O sacerdote dos Rocks. Tsuga estava a uma boa distĂąncia atrĂĄs de Shihoru. Haruhiro provavelmente planejava ajudĂĄ-lo.

O wyvern iniciou outra descida råpida. Seu alvo parecia ser Tsuga. Mas Tsuga parecia exausto, pingando de suor enquanto corria em direção a eles. Ele não podia se dar ao luxo de olhar para o céu. Porém, mesmo que Haruhiro fosse até lå, seria capaz de salvå-lo?

Shihoru também estava ofegante e caiu nos braços de Mary.

— Mary, ainda bem… — disse ela, com dificuldade. — Eu…

— Eu queria tanto te ver! — Mary, tomada pela emoção, abraçou Shihoru, sem pensar, e a arrastou para os arbustos próximos.

Haru…

O wyvern estava se aproximando por cima de Tsuga.

Haruhiro abaixou o corpo, agarrou Tsuga e o empurrou para frente e para a esquerda, na diagonal.

Foi por pouco.

As garras do wyvern passaram bem acima deles.

Mas Setora e Enba estavam no caminho do wyvern.

— Enba! — Setora deu a ordem, e Enba, o golem, avançou.

O wyvern estendeu a pata direita, agarrou Enba e o pressionou contra o chĂŁo.

Aquilo nĂŁo era ruim? Ele seria morto?

Quando Enba rugiu: — GOOOOOOOOOOOOOOOOOOON! — com uma voz alta e assustadora, aconteceu.

Deve ter sido um choque. O wyvern soltou um grito estridente, largou Enba e começou a bater as asas. Estava subindo. NĂŁo podia ser… estava tentando fugir?

— Wyverns odeiam golems! — Setora correu atĂ© Enba. — Eles foram feitos para causar esse efeito! PorĂ©m, isso sĂł os impede de comer os golems, nĂŁo de atacĂĄ-los! Estamos fugindo!

— Tsuga-san! — Haruhiro ajudou Tsuga a se levantar. — Consegue correr?!

— Vou correr! Porque provavelmente vou morrer se não fizer isso!

— Shihoru! — Mary segurou a mão de Shihoru. — Estou aqui, então agora vai ficar tudo bem!

— Sim, estou contando com vocĂȘ!

— Setora, todos vĂŁo te seguir, entĂŁo dĂȘ as direçÔes! — comandou Haruhiro.

Setora disse: — Para um homem, vocĂȘ Ă© bem atrevido! — Mesmo assim, ela saiu correndo ao lado de Enba. — Bem, eu nĂŁo me importo com isso! Agora eu quero ainda mais a sua semente! EntĂŁo Ă© isso que chamam de amor?!

— S-Semente…?! — Os olhos de Shihoru se arregalaram.

— Passamos por muita coisa! — gritou Mary. De alguma forma, ela já tinha superado aquilo. Fazia sentido para ela, por assim dizer.

Haru foi incrível agora hå pouco. Não sei se eu diria que quero a semente dele, mas consigo entender alguém se apaixonar por ele.

Setora era um pouco extrema, mas estava interessada em Haruhiro Ă  sua maneira, e atualmente estava apaixonada por ele. Isso nĂŁo era nada estranho.

Para mim… Ele Ă© um companheiro importante, entĂŁo nĂŁo sinto isso por ele, de jeito nenhum.

Setora e Enba lideravam o caminho. Haruhiro pediu que Tsuga fosse à frente dele, enquanto Mary ficava de olho em Shihoru e frequentemente olhava para o céu para acompanhar a posição do wyvern.

Em momentos como aquele, Haruhiro podia ser tĂŁo focado que chegava a dar medo. Mesmo assim, seus olhos ficavam ainda mais sonolentos do que o normal. Seus nervos estavam tĂŁo afiados quanto podiam estar, e ele deveria estar esgotado, mas parecia quase indiferente. NĂŁo podia ter muito mais energia sobrando, mas ainda assim parecia capaz de continuar, o que fazia Mary sentir que ele daria um jeito.

Ei, Haru, vocĂȘ percebe? Ela pensou silenciosamente. VocĂȘ jĂĄ nos salvou tantas vezes assim. Se olharmos para o nosso nĂ­vel de poder individualmente ou como grupo, talvez nĂŁo sejamos soldados voluntĂĄrios de primeira ou nem de segunda categoria. EntĂŁo, por que vocĂȘ acha que sobrevivemos atĂ© hoje?

Mais do que qualquer pessoa, mais do que qualquer coisa, foi graças a vocĂȘ, Haru. VocĂȘ sabe disso?

Provavelmente nĂŁo. Aposto que vocĂȘ pensa que Ă© graças a todos. Graças aos companheiros que gentilmente seguem um lĂ­der inseguro e o apoiam.

Eu nĂŁo consigo deixar de achar vocĂȘ estranho. Acho que Ă© porque vocĂȘ Ă© esse tipo de pessoa. O tipo que todos seguem, tentam apoiar e querem seguir juntos. Haru…

Eu nĂŁo preciso estar ao seu lado. Estou bem em caminhar atrĂĄs de vocĂȘ, mas quero que haja um lugar para mim ali. Enquanto eu viver, vou fazer meu trabalho. Vou cumprir meu dever.

Setora parecia estar guiando o grupo por um caminho decente. Talvez fosse justo dizer que era um caminho altamente apropriado.

O wyvern continuava circulando acima deles, como antes. Estava seguindo-os, sem querer deixå-los escapar. Ele havia mergulhado vårias vezes, mas não tinha conseguido pegar ninguém. O terreno era estreito de ambos os lados, ou às vezes de apenas um lado, e frequentemente denso com årvores. Havia muitos obståculos para o wyvern, e Setora estava escolhendo lugares com pontos onde o grupo pudesse se abrigar durante o trajeto. Além disso, os nyaas provavelmente também desempenhavam algum papel nisso.

Havia uma variedade de nyaas. NĂŁo, nĂŁo apenas nyaas. Shuro Setora.

Se ela, a necromante e domadora de nyaas, nĂŁo estivesse com eles, nĂŁo teriam chegado a lugar nenhum. Mary provavelmente precisava reconhecer esse fato. Precisava ser grata a Setora. Talvez por ela ser da vila oculta, havia algumas ĂĄreas onde lhe faltava senso comum. Mas ela nĂŁo era uma mĂĄ pessoa. AlĂ©m disso, a Ășnica razĂŁo de Mary estar ali era graças a Setora.

Se Haruhiro achasse que seria uma boa ideia, Mary o apoiaria, fosse para ele ter um filho com Setora ou para qualquer outra coisa que ele quisesse fazer. Talvez, por ter sido tĂŁo repentino, houvesse algumas partes difĂ­ceis de aceitar. Isso se resolveria com o tempo, tinha certeza. Logo, seria capaz de pensar que era assim que as coisas eram.

A razĂŁo de seu peito doer era por estar correndo.

Sinceramente, ela poderia estar chegando ao seu limite.

NĂŁo, Mary ainda podia se esforçar um pouco mais, se precisasse. No entanto, o rosto de Shihoru estava todo contorcido, e ela arfava de forma estranha. Tsuga, que estava Ă  frente, tambĂ©m parecia exausto. Ele havia tropeçado vĂĄrias vezes e quase caĂ­do para frente. A Ășnica razĂŁo de nĂŁo ter caĂ­do era porque Haruhiro o ajudou em todas essas vezes.

— Wyvern vindo! Todos, para a esquerda! — Haruhiro gritou.

Eventualmente, Haruhiro começou a dar ordens precisas. Todos estavam completamente exaustos, a atenção dispersa, e a capacidade de tomar decisÔes reduzida. Haruhiro percebeu isso. Se apenas seguissem instruçÔes, Shihoru e Tsuga ainda poderiam se virar de alguma forma. Mas não demoraria muito até que nem isso fosse mais possível.

NĂŁo dĂĄ mais. Cheguei ao meu limite. Essas palavras estavam na ponta da lĂ­ngua de Mary. Mas ela nĂŁo conseguia dizĂȘ-las. Haruhiro estava fazendo o que sempre fazia, lutando desesperadamente. O peso claramente recaĂ­a mais sobre Haruhiro, e ele devia estar sofrendo o dobro de qualquer um. Mary nĂŁo podia dizer que estava no fim.

— Setora, não podemos correr mais! — ele gritou.

Oh, é por isso. Haruhiro havia falado por eles. Ele estava atento à condição de todos, então, mesmo que pudesse continuar correndo, sabia que estavam à beira do colapso. Não importava o resultado, ele tomava a decisão, pronto para assumir toda a responsabilidade. Haruhiro era assim. Certamente ele não se sentia bem fazendo isso, e era um fardo evidente, mas ele não tentava se livrar dele.

Mary tinha ouvido falar sobre Manato, o sacerdote. Sobre ele e Moguzo. Talvez Ranta os tivesse traĂ­do.

Mesmo após perder companheiros, Haruhiro conseguiu permanecer como líder. Através de provaçÔes e tribulaçÔes, ele seguia em frente.

Haru, vocĂȘ tem ideia do quĂŁo incrĂ­vel isso Ă©?

Quando penso na sua dor, meu coração poderia facilmente ser partido ao meio. SĂł de imaginar a solidĂŁo que vocĂȘ deve sentir, meu corpo inteiro parece congelar.

Quero te abraçar forte e te aquecer, mas tudo bem. Tenho certeza de que vocĂȘ me afastaria.

VocĂȘ diria: “NĂŁo precisa fazer isso. Estou bem. Somos companheiros, mas apenas companheiros.”

Queria poder te abraçar, enquanto ainda permanecemos preciosos e insubstituíveis como companheiros.

— Mesmo se lutarmos, as chances de vencer sĂŁo mĂ­nimas! — argumentou Setora, parando. — AtĂ© mesmo afastĂĄ-lo seria improvĂĄvel!

— Vamos conseguir! — Haruhiro ergueu a voz, sacando seu estilete. — Eu e Enba enfrentaremos quando ele vier! Mary, Tsuga-san, fiquem prontos para nos curar a qualquer momento! Shihoru, espalhe o Dark por todo o lugar! NinguĂ©m vai morrer! Eu nĂŁo vou deixar vocĂȘs morrerem! Vamos sobreviver!

— Certo! — responderam Mary e Shihoru em uníssono.

Tsuga segurava seu bastão, mas parecia não ter forças para empunhå-lo e lutar.

Quando Setora deu a ordem, — Apoie o Haruhiro! — Enba posicionou-se ao lado dele. Mary, Shihoru e Tsuga se esconderam nos arbustos à direita. O que Setora faria?

Ela estava diagonalmente atrås de Haruhiro e Enba, com os olhos fixos no wyvern no céu. Isso significava que não pretendia deixå-los arriscar a vida sozinhos, ao que parecia. Ela era respeitåvel.

O wyvern azul começou a descer. Naturalmente, não estava caindo. Estava se lançando em um mergulho. Mas parecia que estava despencando de cabeça em direção ao chão. Era assustador. Mary queria gritar.

Haru, não! Corra! É perigoso demais!

Naturalmente, ela nĂŁo gritou. Agora que chegara a esse ponto, sĂł podia assistir. Tinha que confiar nele.

Shihoru gritou: — Dark! — chamando seu elemental.

Mary arregalou os olhos o måximo que pÎde e prendeu a respiração.

O wyvern soltou um: Pigyahhhh, batendo as asas com força e se virando.

As patas. Ambas estavam apontadas para baixo. Mesmo assim, ele não conseguiu quebrar a inércia da descida. Parecia que, em vez de pousar, ia se chocar contra o chão com as patas. Ele pretendia esmagar Haruhiro e Enba?

Haruhiro, Enba e Setora saltaram para o lado, evitando o ataque. Na primeira vez, pelo menos.

NĂŁo acabou em apenas uma investida. O wyvern pisoteava o chĂŁo com a pata direita, depois a esquerda, e saltava.

Pigyahh, pigyahh, pigyahh, ele gritava, pulando e batendo as asas freneticamente.

As vibraçÔes eram intensas. Era como estar bem acima do epicentro de um terremoto. Serå que Haruhiro, Enba e Setora estavam bem? Uma nuvem de poeira subia, dificultando a visão.

— Haru! Haru! Haru! — Mary chamou seu nome repetidamente. Ela não conseguia evitar.

O wyvern. Um wyvern azul. O que era aquela monstruosidade?

O dragĂŁo de fogo de Darunggar claramente estava em outra categoria em comparação, e nem se aproximava da hidra no Reino do CrepĂșsculo, mas aquele wyvern tinha uma aura intimidadora que poderia rivalizar com a de um gigante branco, especialmente um de oito metros. Era muito menos alto que um desses, mas a envergadura de suas asas, quando abertas, nĂŁo era algo a ser ignorado.

O wyvern soltou um grito estridente: Piiiigyahhhhhh, enquanto batia as asas. Estava prestes a voar?

Havia uma silhueta humanoide em meio Ă  nuvem de poeira. Quem poderia ser?

— Vá! — Shihoru mandou Dark. — Espalhe-se!

A forma humanóide, ou talvez semelhante a um boneco, de Dark explodiu com um estrondo. Mas ele não apenas explodiu. Ele se espalhou. Dark assumiu uma forma espessa, como uma névoa negra, e envolveu a cabeça do wyvern. O wyvern correu.

Pigyahh, pigyahh, grasnava, movendo as asas freneticamente enquanto ganhava altitude. A nĂ©voa de Dark o perseguia. Ele o seguiu, mas… nĂŁo conseguiu acompanhar. Quando o wyvern atingiu cerca de trĂȘs metros de altura, a nĂ©voa negra subitamente se dissipou e desapareceu. SerĂĄ que ele o sacudiu?

Ou…

— Shihoru?! — Mary correu para amparar sua companheira. Shihoru estava prestes a desabar. Ela nĂŁo estava em condiçÔes de usar magia. Mesmo assim, havia invocado Dark.

O que eu posso fazer?! NĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer?!

— Haru! — chamou Mary.

— Sim! — a resposta foi imediata.

Ela não conseguia confirmar sua localização, mas Haruhiro estava vivo.

O que eu faço agora?!

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ. Circlet!

Um anel luminoso surgiu ao redor de Mary e Shihoru. A luz de Lumiaris curaria aqueles dentro do cĂ­rculo. Ela poderia mantĂȘ-lo por um tempo. Afinal, eu sou uma sacerdotisa.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ. Protection! Assist!

Dois hexagramas de cores diferentes apareceram no pulso esquerdo de Shihoru. Um deles também surgiu no próprio pulso de Mary, e outro no pulso de Tsuga, que estava por perto. Não alcançou Haruhiro, Setora ou Enba.

Ela deveria ter lançado Protection neles com antecedĂȘncia. Repetia o mesmo erro que cometera quando perderam Moguzo. Era descuido, e ela se sentia uma pĂ©ssima sacerdotisa, mas— ainda sou uma sacerdotisa!

— Shihoru, eu vou te proteger! Use toda a força que tiver!

— Mary… — Shihoru deu um sorriso exausto e, em seguida, acenou com firmeza. Naquele momento, houve um brilho mais intenso que a luz de Lumiaris. — Tudo bem. Estou me sentindo melhor graças a vocĂȘ… entĂŁo vou dar tudo de mim atĂ© cair!

Embora a luz da cura pudesse tratar feridas, nĂŁo podia recuperar a energia ou a força de vontade de uma pessoa. Assist aumentava todos os tipos de resistĂȘncias, o que talvez desse um pequeno impulso na vitalidade, mas seria algo mĂ­nimo. Shihoru devia saber disso tambĂ©m. Mary podia fazer poucas coisas. Muito poucas, mas ainda era melhor que nada. AlĂ©m disso, se ela estivesse ali, poderia ao menos proteger Shihoru caso o pior acontecesse.

Minha existĂȘncia nĂŁo Ă© insignificante. Vou fazer tudo o que puder!

— Talvez eu tente rezar para Deus. NĂŁo sou muito fĂŁ disso, no entanto. — Tsuga levou os dedos Ă  testa e fez o sinal do hexagrama. — Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ. Prayer (Oração).

Ela nunca tinha visto isso antes.

Prayer.

Um Ășnico feixe de luz desceu dos cĂ©us para iluminar Tsuga. Algum tipo de fenĂŽmeno sobrenatural, trazido pelo grande poder do Deus da Luz, Lumiaris, estava acontecendo. NĂŁo estava claro o que iria ocorrer. Talvez nada acontecesse. Ou, talvez, mesmo que algo acontecesse, poderia nĂŁo ser perceptĂ­vel ou reconhecĂ­vel por simples mortais.

Dizia-se que esse era um dos feitiços supremos da magia de luz, equivalente ao Sacrament, mas poucos sacerdotes tentavam aprendĂȘ-lo. O problema era que, alĂ©m de ser incerto, seus efeitos eram imprevisĂ­veis. Se fosse apenas inĂștil Ă s vezes, seria uma coisa, mas havia a possibilidade de ser prejudicial.

Se Tsuga tivesse consultado Mary antes, ela provavelmente teria sido contra. Mas ele jĂĄ havia usado. Era tarde demais. Tudo o que ela podia fazer era rezar para que nada terrĂ­vel acontecesse.

Talvez as preces de Mary tenham sido atendidas. Ou talvez fosse o poder de Prayer.

A luz que iluminava Tsuga desapareceu, e… foi isso. Parecia que nada tinha acontecido.

— Tsc… É sĂł isso? — Tsuga estalou a lĂ­ngua, claramente decepcionado.

— Tsuga… — Shihoru respondeu com desdĂ©m, deixando de lado o honorĂ­fico.

— HĂŁ? VocĂȘ me chamou sem honorĂ­fico de novo?

— …VocĂȘ imaginou isso. Ou sua audição estĂĄ incrivelmente ruim.

A nuvem de poeira começou a se dissipar, e Mary avistou Haruhiro e os outros. Ainda eram trĂȘs, como deveria ser.

— Tá vindo! — gritou Haruhiro.

O wyvern.

O wyvern girou no ar. Estava tentando se posicionar para outro mergulho?

— Dark! — Shihoru invocou o elemental.

Mary envolveu Shihoru com os braços, apertando-a com força, enquanto cerrava os dentes. Que bem isso faria? Ela não queria pensar nisso agora. Por ora, ficaria ao lado dela.

Piiiiigyahhhhhhhiiiiiyahhhhhhhhh! O wyvern soltou um grito estridente enquanto girava a cabeça. Suas asas se fecharam levemente e ele começou a descer. Parecia estar mais lento, mas era apenas imaginação dela. Jå estava quase em cima deles.

Shihoru soltou um suspiro engasgado. Ela hesitou? Pensou duas vezes antes de mandar o Dark? Parecia que havia parado. Dito isso, Shihoru estava à beira da exaustão, e não havia garantia de que pudesse usar mais magia. Provavelmente, era por isso que ela estava apostando no elemental atual. Estava tentando algo decisivo. Para conseguir isso, precisava esperar o momento perfeito. Mesmo com o wyvern tão perto, ela era cautelosa. Essa era a força de Shihoru.

Mary tambĂ©m sentiu que algo estava estranho. O quĂȘ?

A velocidade e o Ăąngulo da descida.

Havia uma diferença sutil, mas ele não estava descendo em um ùngulo tão íngreme quanto antes. O wyvern vinha em uma diagonal. Estava um pouco mais lento também. Não tinha a mesma força de antes. Mesmo assim, Haruhiro e os outros só podiam tentar evitå-lo. Não havia outra opção.

Haruhiro jogou-se para a direita, enquanto Setora e Enba se jogaram para a esquerda. O wyvern então pousou no chão com força suficiente para parecer um impacto—ou não. Nem sequer colocou as patas no chão.

Ele subiu de repente antes de tocar o solo.

O wyvern nĂŁo voou muito alto. Ele fez uma curva fechada e desceu novamente.

— Whoa! — Mary quase se agarrou a Shihoru, mas conseguiu se conter.

Uma descida acentuada, uma subida acentuada, uma nova descida acentuada, seguida de outra subida acentuada. O wyvern repetia isso como um pĂȘndulo.

Apesar de comparar com um pĂȘndulo, o wyvern nĂŁo seguia sempre o mesmo trajeto. Ele mudava de direção constantemente. O Ăąngulo e a velocidade tambĂ©m variavam. A nuvem de poeira era incrĂ­vel, mas nĂŁo tĂŁo densa quanto quando ele alçava voo. Mary conseguia enxergar, mesmo que com dificuldade.

Alguém tropeçou enquanto tentava se esquivar do ataque do wyvern. Era Setora?

Enba imediatamente foi socorrĂȘ-la. No instante em que ele a segurava, o wyvern mudou de uma subida Ă­ngreme para um mergulho violento e os atacou. Dessa vez, suas patas estavam estendidas. Ele pretendia esmagĂĄ-los.

Com um — Nnnnnngh! — Enba lançou Setora para longe e tentou saltar para se salvar.

Foi muito perto. Ele nĂŁo conseguiu.

A pata direita do wyvern roçou o braço direito de Enba. Foi o suficiente para arrancar seu braço e levå-lo junto.

— Ennnnnnnbaaaaaaaaa! — Assim que se levantou, posicionada para cair de forma segura, Setora tentou correr atĂ© Enba, mas Haruhiro a agarrou e puxou para trĂĄs.

O wyvern recomeçou seus movimentos ameaçadores e aterrorizantes. Bateu as asas e saltou.

Enba estava… desaparecido. O que havia acontecido com ele? Aquilo nĂŁo era perigoso apenas para Enba; era uma ameaça para Haruhiro e Setora tambĂ©m.

— Dark! É tudo o que tenho! — gritou Shihoru.

Shihoru decidiu que não era mais hora de procurar uma abertura. Dark que flutuava sobre seu ombro finalmente foi lançado.

O elemental avançou em direção ao wyvern, emitindo um som que parecia eletricidade correndo por seus ouvidos e pele. Não haveria outro disparo. Shihoru tinha colocado tudo naquele ataque. Era por isso que Mary achou que Dark ficaria maior. Mas suas expectativas foram frustradas. Foi o oposto. Dark foi diminuindo aos poucos. Os sons estranhos ficaram mais fracos também.

Talvez por isso o wyvern não tentou evitå-lo. Ele pode nem ter notado. Afinal, até Mary perdeu de vista. Ela suspeitava que Dark havia atingido o peito do wyvern. O elemental se tornou pequeno demais para ser visto antes disso, então Mary o perdeu de vista.

Mas nĂŁo havia dĂșvida de que Dark havia atingido o wyvern. Se nĂŁo tivesse, o wyvern nĂŁo teria aberto as asas, jogado a cabeça para trĂĄs e começado a tremer descontroladamente.

Funcionou.

Enquanto os olhos de Shihoru reviravam, e sua cabeça pendia para o lado, Mary a segurava firme e soltava um grito silencioso de alegria.

Shihoru! Isso foi incrĂ­vel. VocĂȘ Ă© maravilhosa. Foi mais do que incrĂ­vel. Eu nem consigo acreditar que vocĂȘ pode usar magia assim.

O wyvern cambaleou para frente. SerĂĄ que aquilo o derrubou?

NĂŁo.

Pyohhhhhhhhhhhhhh… O wyvern gritou, começando a bater as asas. Mas nĂŁo parecia que tentava voar; era mais como se estivesse usando as asas para bater no chĂŁo e tentar se equilibrar. Parecia estar lutando para se manter de pĂ©, mas ainda nĂŁo estava sem forças. Estava vindo.

O wyvern estava vindo na direção delas, mesmo tropeçando.

Onde estavam Haruhiro e Setora? Mary não tinha tempo para procurar por eles. Tsuga segurou firme seu bastão, respirou fundo e disse, em um sussurro: — Cuide dessa garota para mim.

Shihoru estava inconsciente nos braços de Mary. Mary assentiu, se agachando com Shihoru ainda nos braços.

Ela pegou o cajado de Shihoru. Se tivesse o cajado de uma maga, talvez pudesse fazer algo. Tinha que ser melhor do que estar desarmada.

O wyvern ainda estava instĂĄvel, mas sem dĂșvida se aproximava. Seria por causa do Circlet? Se o wyvern tivesse descoberto Mary e Shihoru por causa do anel de luz e as tivesse escolhido como alvo, que erro terrĂ­vel. Era tarde demais para arrependimentos agora, mas era frustrante.

Eu…

De repente, algo pesado caiu atrås dela com um baque aos seus pés. Quando olhou, era um homem alto que ela definitivamente não esperava ver ali. O que ele estava fazendo ali?

Kuzaku ergueu o rosto.

— Haha! Eu encontrei vocĂȘs. A situação tĂĄ louca, mas… estou cheio de energiaaaa!

Ele ficou de pé.

Ferimentos. Kuzaku parecia machucado. Estava coberto de hematomas. SerĂĄ que estavam sendo curados pelo Circlet? Nunca se sabia quando algo podia trabalhar a seu favor.

Kuzaku gritou: — Me empresta isso! — e pegou o cajado de Shihoru das mĂŁos de Mary. — Mesmo isso Ă© melhor que nada! Mary-san, leve Shihoru-san e corra!

Mary balançou a cabeça. Ela sĂł queria tirar Shihoru dali. Ia escondĂȘ-la em algum lugar e voltaria imediatamente. Talvez ainda houvesse algo que pudesse fazer com magia de luz. Devia haver. O anel de luz estava desaparecendo. Kuzaku e Tsuga avançaram para a linha de frente. O wyvern vinha em direção a eles com passos tĂŁo fortes que faziam o chĂŁo tremer.

Mesmo que Kuzaku e Tsuga dessem tudo de si, eles não poderiam parar aquele monstro. Mas talvez pudessem atraså-lo por alguns segundos. Ganhar algum tempo. Provavelmente, essa era a intenção deles. Naturalmente, Mary ia ajudar também.

Mas ela nunca imaginou que um uivo repentino, Auuuuuuuuw, ecoaria pela ĂĄrea, seguido por dezenas de lobos negros atacando o wyvern de uma vez.

Se o wyvern estivesse em plena forma, talvez não fizesse diferença, mas ele ainda estava sofrendo o impacto do golpe devastador de Dark. Os lobos negros morderam suas patas e atacaram as bordas de suas asas.

O wyvern se contorcia, balançando as asas para afastar os lobos negros. No entanto, os lobos eram råpidos e persistentes. Quando chutava um para longe, outro surgia, e quando sacudia este, mais um aparecia. Eles vinham de todas as direçÔes, atacando em turnos. Estavam acostumados a atacar em matilha para derrubar criaturas muito maiores que eles. Eram organizados. Tinham um líder absoluto, e seguiam as ordens dele.

— Miiiiiauuuuuu!

Essa voz nĂŁo era de um lobo. Era de uma pessoa.

No lado direito, na direção em que Mary estava olhando, havia uma elevação gradual. Era onde ela estava. Não só ela. Havia um lobo negro enorme também. E, além disso, o goblin domador de feras.

Por que aqueles trĂȘs estavam juntos?

Yume estufou o peito e levantou o punho.

— Yume, Onsan e Garon tĂŁo aqui pra… devastar a situação! Miiiiiauuuuuu!

Yume, vocĂȘ provavelmente quis dizer “salvar” a situação. AlĂ©m disso, por que vocĂȘ tĂĄ miando?

NĂŁo que isso importasse. Era fofo, afinal. Algo quente crescia dentro do peito de Mary. Sua visĂŁo ficou turva. Mary segurou aquilo dentro de si. NĂŁo ia chorar. De jeito nenhum. As lĂĄgrimas logo sumiram.

O wyvern. Alguém tinha agarrado o pescoço do wyvern. Sendo um tipo de dragão, o corpo do wyvern era coberto de escamas, mas, olhando de perto, também tinha pelos. Alguém estava agarrado àqueles pelos e, além de evitar ser derrubado, estava subindo.

— Haru! — gritou Mary.

O que ele estava pensando? Quando ele chegou ali?

Pare. É perigoso! Ela quis gritar, mas sua voz não saiu.

Ela sabia. Haruhiro nĂŁo ia parar. Porque ali era onde a batalha seria decidida. Tudo tinha convergido para aquele momento. Talvez nunca houvesse outra chance como aquela.

Haruhiro estava tentando resolver tudo. Para sair daquela situação, ele apostou tudo nessa tentativa. NĂŁo era um ato de desespero. Mesmo arriscando a vida, Haruhiro sempre tinha um plano sĂłlido por trĂĄs de suas açÔes. NĂŁo havia como detĂȘ-lo agora. EntĂŁo Mary tinha que acreditar nele e ter esperança. Assistir. E garantir que nĂŁo perderia nada.

Haru vai conseguir.

Como em um pĂĄssaro, as patas dianteiras do wyvern haviam evoluĂ­do para asas. Ele nĂŁo tinha braços nem mĂŁos. Isso era o que dificultava para ele jogar Haruhiro para longe. Conhecendo Haruhiro, ele provavelmente tinha levado isso em consideração antes de atacar. Uma vez na parte de trĂĄs da cabeça do wyvern, o resto foi rĂĄpido. Haruhiro saltou em direção ao rosto da criatura e cravou seu estilete no olho direito. Foram trĂȘs golpes antes de passar para o olho esquerdo. O wyvern soltou um grito cortante, de partir o cĂ©u, enquanto se debatia em agonia.

Haruhiro esperou o momento em que o wyvern baixasse a cabeça e então pulou para longe. Mesmo parecendo um louco desesperado, ele sempre escolhia viver. Naturalmente. Se ele morresse, seria um problema para a party.

O wyvern bateu as asas. Estava tentando voar? Parecia que sim. Com os olhos cegados, não estaria seguro nem mesmo no céu, mas isso ainda era melhor do que permanecer no chão, que estava cheio de inimigos querendo matå-lo. Essa devia ser a decisão do wyvern. Sim, isso era bom.

— A gente tambĂ©m! — Haruhiro gritou. — Corram! Enquanto podemos!

— Miau! — Yume respondeu enquanto corria encosta abaixo.

O lobo negro gigante e o goblin nĂŁo se moveram.

Yume disse: — Tchau, miau! — e parecia estar acenando para eles.

Kuzaku pegou Shihoru dos braços de Mary e a carregou ele mesmo.

— Vamos, Mary-san!

— Certo! — Se fosse honesta, Mary gostaria de carregar Haruhiro. Mas Haruhiro não iria querer isso. A coisa mais importante para ele no momento era o bem-estar de seus companheiros. Para tranquilizar a mente do líder, o melhor seria se retirarem o quanto antes.

O wyvern estava levantando voo, e Haruhiro e Yume estavam bem.

Mary pegou o cajado de Shihoru de volta das mãos de Kuzaku e assumiu a liderança enquanto fugiam.

Tsuga, que fazia a retaguarda, começou a rir.

Mary nĂŁo acreditava no que via. Isso realmente era possĂ­vel?

Era névoa. De repente, a névoa se espalhou.

Quem poderia imaginar? Ela acreditava que nĂŁo havia nenhum fenĂŽmeno sobrenatural presente. SerĂĄ que estava enganada?

Prayer. Seria isso que havia trazido a névoa?

Ela ouvira dizer que os wyverns voavam das Montanhas Kuaron, no leste, em dias claros. Houve uma Ă©poca em que dezenas deles atacaram a vila oculta de uma sĂł vez. Isso significava que o wyvern azul nĂŁo era o Ășnico por ali. Outros wyverns poderiam ter vindo ao Vale dos Mil buscando presas, e ainda poderiam encontrĂĄ-los.

Mas, com a névoa, isso jå não era possível.

SerĂĄ que tiveram sorte? Mary achava que nĂŁo. A sorte teve seu papel, sem dĂșvida, mas havia mais do que isso. Porque todos fizeram o mĂĄximo e nĂŁo desistiram, conseguiram chegar a esse resultado.

Com a névoa, a visibilidade estava piorando rapidamente. Mesmo quando olhou para o céu, Mary não conseguia mais distinguir a forma do wyvern.

— Yume!

— Haru-kun!

No momento em que ouviu os dois chamando pelos nomes um do outro atrĂĄs dela, Mary nĂŁo conseguiu mais segurar as lĂĄgrimas. Continuou correndo, sem nem se preocupar em secĂĄ-las.

Mesmo quando Setora gritou: — Haru! — e Haruhiro respondeu: — Que bom que vocĂȘ estĂĄ bem! — Mary nĂŁo sentiu nada alĂ©m de alĂ­vio. Ela conseguiu se alegrar, de coração, por Setora estar bem.

Se Mary continuasse assim, poderia viver sem guardar rancor. Todos eram preciosos para ela, ela os amava e, por mais embaraçoso que fosse admitir, queria dizer isso honestamente. Queria dizer a todos, com um sorriso no rosto. Algum dia, certamente seria capaz.

Era assim que se sentia.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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