Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 14 â Volume 8
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 14:
[Com Estas MĂŁos]
No fim, talvez sua leitura da situação tivesse sido otimista demais.
Em meio Ă neblina, quatro homens avançavam carregando um palanquim. Embora fosse chamado de palanquim, era algo simples. Apenas uma tĂĄbua retangular com duas longas varas por baixo. Uma mulher vestida com uma tĂșnica grosseira de tecido cru estava sentada sobre a tĂĄbua. Ou melhor, estava sendo forçada a se sentar ali. Suas mĂŁos estavam amarradas atrĂĄs das costas, e as cordas em volta de seu pescoço, peito, quadris e coxas estavam bem presas Ă s varas. Da forma como estava amarrada, ela nĂŁo podia se mover. Se tentasse, provavelmente acabaria se enforcando.
A mulher estava sentada com as costas eretas, mas com o rosto inclinado para baixo. Seu cabelo era curto. Não tinham apenas cortado até a altura dos ombros; tinham ido até um pouco abaixo das orelhas.
Haruhiro, que estava escondido em uma colina entre as sombras das ĂĄrvores, observando o desenrolar dos eventos, assumiu que tudo aquilo devia estar atingindo-a com força. NĂŁo sabia o quanto, mas supunha que devia ser um choque. Afinal, atĂ© para ele, que nĂŁo conhecia bem a situação, sua primeira impressĂŁo ao vĂȘ-la havia sido: Cortaram muito mais do que eu pensei que cortariam.
E, mesmo que estivesse tudo bem porque o cabelo dela cresceria novamente, ela ainda estava sendo banida e expulsa de sua vila.
O palanquim seguia para o oeste, cada vez mais para o oeste.
De acordo com as informaçÔes que Setora havia obtido usando seus nyaas, era lå que Forgan havia estabelecido acampamento. Os homens que carregavam o palanquim certamente sabiam disso.
A propĂłsito, no momento em que o palanquim deixou a vila sem sequer uma despedida, a vila se preparou para a batalha. Eles nĂŁo estavam se preparando para atacar. Estavam reforçando suas defesas. Era uma postura que dizia: Se vocĂȘs vĂŁo vir, venham. Embora cautelosos com um ataque de Forgan, tambĂ©m estavam tentando comunicar: NĂŁo temos intenção de iniciar nada por conta prĂłpria. Outro dia, um grupo atacou Forgan, e ele incluĂa pessoas desta vila, mas isso de forma alguma representava a vontade da vila, e de fato, nĂŁo tinha nada a ver conosco. Era isso que a vila estava tentando dizer.
Arara jĂĄ nĂŁo era mais Nigi Arara. Agora que havia sido deserdada pela Casa de Nigi, era simplesmente Arara. A irmĂŁ mais nova da atual chefe da casa tinha duas filhas, e parecia que a mais velha delas havia se tornado herdeira da Casa de Nigi.
Quando ouviu isso, Haruhiro ficou surpreso. à só assim, tão simples? Sendo a filha mais velha da Casa de Nigi, a mais importante das quatro casas samurais, ele tinha certeza de que não simplesmente diriam que ela não servia e a substituiriam por outra pessoa. Além disso, Arara era filha de sangue da chefe da casa. Haruhiro esperava, talvez de forma arbitråria, que sua mãe a defendesse e que ela se safasse com uma punição leve.
Ele estava muito enganado.
A vila estava jogando Arara fora por conta própria, sem nenhum de seus pertences. Aquilo era quase uma sentença de morte.
Haruhiro e os outros tinham planejado se reagrupar assim que Arara fosse libertada e, entĂŁo, tentar eliminar Arnold e resgatar Mary. No entanto, agora que isso estava acontecendo com Arara, seus planos foram interrompidos.
Até onde o palanquim levando Arara iria? Eles não a entregariam para Forgan, entregariam?
As pessoas da vila pareciam orgulhosas, entĂŁo provavelmente nĂŁo tentariam apaziguar Forgan dessa forma. Ou assim Haruhiro esperava, mas ele nĂŁo podia afirmar nada com certeza.
De qualquer forma, quando alguém estava em uma posição de liderança na vila, como a chefe da Casa de Nigi, eles abandonariam até mesmo sua própria filha se ela fosse considerada uma ameaça à vila. Era fåcil condenar isso como cruel, impiedoso e desumano. Mas se a chefe da casa demonstrasse piedade por afeto à filha, e isso, por sua vez, colocasse a vila em perigo, ela enfrentaria mais do que apenas condenação. Quaisquer que fossem seus verdadeiros sentimentos, ela poderia ter sido forçada a fazer isso em sua posição como chefe da casa.
â Isso Ă© ruim â murmurou Haruhiro, sem conseguir ver o palanquim de onde estava. â Eles estĂŁo chegando bem perto do acampamento da Forgan…
Ele podia ver a situação seguindo dois caminhos amplos a partir daquele ponto.
A primeira possibilidade era que os homens colocassem o palanquim no chĂŁo antes de se encontrarem com a Forgan. Nesse caso, seria apenas uma questĂŁo de resgatar Arara imediatamente.
No entanto, na segunda possibilidade, em que eles se encontrariam com a Forgan, tudo se complicaria. Era improvåvel, mas, se a vila tivesse entrado em contato com a Forgan de alguma forma e houvesse um acordo para entregar Arara, a situação ficaria ainda pior.
Haruhiro caminhava rapidamente pelo topo da colina, seguindo mais e mais para o oeste.
A colina estava ao norte do trajeto que o palanquim tomara. Forgan havia montado acampamento a oeste-noroeste, em um local onde o terreno era relativamente plano, e o palanquim realmente parecia estar se dirigindo para lĂĄ. Ele estava indo devagar o suficiente para que Haruhiro pudesse dar a volta e passar Ă frente deles sem precisar correr muito.
Sem querer, Haruhiro acabou pensando em Mary. E em Ranta, também.
Maldito Ranta!
Mas nĂŁo era hora para isso. Ele afastou esses pensamentos da mente.
A névoa havia ficado mais densa. Ele não chegou a ver, mas pensou ter notado algo se movendo à sua esquerda. Um nyaa, talvez? Ou seria apenas imaginação?
Haruhiro quase parou, mas reconsiderou e decidiu acelerar o passo.
Ele podia ouvir levemente uivos de lobos ao longe. Um pressentimento ruim o invadiu.
Por que nada nunca då certo? Ele queria reclamar um pouco. Não que houvesse alguém para ouvi-lo, ou alguém a quem realmente diria isso.
Ele jå estava terminando de atravessar a colina. O palanquim ainda estava fora de vista. Haruhiro começou a descer a encosta.
Ele realmente sentia alguma presença ao redor. SerĂĄ que tinha sido detectado por algum nyaa que o estava seguindo? Deveria verificar? NĂŁo, ele precisava avançar rapidamente. Para o oeste. NĂŁo havia problema se seus passos fizessem algum ruĂdo. Para o oeste.
O solo do Vale dos Mil possuĂa ĂĄreas de terra Ășmida e pedras escorregadias aqui e ali, e quase nada era plano. Em alguns lugares, havia ĂĄrvores caĂdas cobertas de musgo empilhadas umas sobre as outras, e buracos profundos, como se fossem cortes, espalhados por todo lado. Caminhar ali era estranhamente difĂcil, mas ele jĂĄ estava acostumado.
Para o oeste.
Ele avistou o palanquim.
Em algum momento, Haruhiro havia passado por ele. O palanquim agora estava se movendo em direção a Haruhiro.
A névoa ainda não mostrava sinais de se dissipar. Provavelmente, ele conseguia ver menos de cem metros ao seu redor, mas o céu estava um pouco azulado. Ele também podia perceber onde estava o sol. Devia ser por volta das dez da manhã.
De acordo com o mapa que havia memorizado previamente, havia uma formação de terreno que era como uma pequena ravina a cerca de um quilÎmetro dali. Se eles passassem por aquele vale, chegariam ao acampamento da Forgan. O palanquim iria parar antes da ravina ou não?
Na esperança de que sim, Haruhiro continuou avançando para o oeste, tomando cuidado para não ser visto pelos carregadores do palanquim.
Oh, masânĂŁo, nĂŁo era imaginação sua. Provavelmente estava sendo observado por nyaas.
Quando de repente ouviu o som agudo e baixo de algum animal, seu coração deu um salto de susto. O quĂȘ? Era um nyaa?
Caminhando com passos cautelosos, encontrou um nyaa preto segurando um nyaa listrado no chĂŁo e mordendo sua garganta. O nyaa listrado se debatia e resistia, mas estava enfraquecido. O nyaa preto o olhou de relance. Ambos tinham mais ou menos o mesmo tamanho, mas o nyaa preto claramente levava vantagem.
NĂŁo demorou muito para que o nyaa listrado ficasse imĂłvel, momento em que o nyaa preto balançou a cauda enquanto abria a boca, como se fosse miar, mas sem emitir som algum. Esse era o chamado âmiado silenciosoâ, aparentemente uma forma de sinalizar, Sou um amigo.
Serå que era um dos nyaas da Setora? Ele ouviu dizer que alguns nyaas usavam o miado silencioso para enganar humanos, então não podia ter certeza. Também ouviu que um domador de nyaas podia identificar um miado silencioso insincero, mas isso estava além das capacidades de Haruhiro.
O nyaa preto desapareceu na névoa. Por enquanto, Haruhiro teria que assumir que ele estava do seu lado.
O palanquim ainda seguia em frente. NĂŁo iam parar? NĂŁo, nĂŁo mostravam sinal de que fariam isso.
â Haruhiro â chamou uma voz atrĂĄs dele.
Ele gostaria que as pessoas parassem de assustĂĄ-lo desse jeito.
Ao se virar, era Kuro. Ele estava agachado e fazia um sinal para ele.
Quando Haruhiro se aproximou, Kuro sussurrou em seu ouvido: â Boas notĂcias ou mĂĄs notĂcias. Qual vocĂȘ quer ouvir primeiro?
â …Certo, comece com as boas notĂcias.
â He… â Kuro sorriu maliciosamente. â …nenhuma boa notĂcia.
â EntĂŁo nĂŁo finja que hĂĄ. Qual Ă© a mĂĄ notĂcia?
â Forgan parece ter percebido a entrega da vila. EstĂŁo em movimento.
â Ă, eu meio que jĂĄ esperava por isso â disse Haruhiro com um tom sombrio.
â O plano Ă© esperar na entrada da ravina â explicou Kuro. â Assim que pegarmos o âpacoteâ, vocĂȘs podem ir roubar o tesouro.
â Desculpe pelo incĂŽmodo… e obrigado.
Kuro deu um leve tapa no ombro de Haruhiro e fez um sinal para ele.
Haruhiro assentiu.
Estava começando.
Por conta da punição mais severa que Arara recebeu do que o esperado, eles não tiveram tempo de se preparar adequadamente. Haruhiro sentia uma certa insegurança, mas precisariam seguir em frente.
Ele seguiu Kuro. Uma agitação começou a crescer em seu peito. Precisava se certificar de nĂŁo ficar tenso demais. Mesmo com pouco tempo, nĂŁo podia agir de qualquer jeito. Precisava pensar o mĂĄximo possĂvel e escolher a melhor opção.
De repente, parecia que o tempo tinha acelerado. Em pouco tempo, chegaram a ravina.
A ravina era um vale, com cerca de vinte metros de largura, entre encostas Ăngremes ao norte e ao sul. Ambos os lados estavam densamente cobertos por ĂĄrvores, oferecendo muitos lugares para se esconder.
Rock, Moyugi, Kajita, Tsuga e Sakanami jĂĄ estavam posicionados no lado norte, enquanto Yume, Shihoru, Kuzaku e Katsuharu estavam no lado sul. Setora e Enba estavam em outro lugar, dando ordens aos nyaas. Naturalmente, Kuro se juntou aos Rocks, e Haruhiro seguiu para onde Yume e os outros estavam.
Yume foi a primeira a notar Haruhiro e acenou para ele. Shihoru, Kuzaku e Katsuharu também perceberam sua presença. Haruhiro se abaixou ao lado de seus companheiros.
â Acho que provavelmente vamos acabar resgatando a Arara-san por aqui.
â Miau. â Yume assentiu, mordendo o lĂĄbio inferior.
â Certo. â Kuzaku estava imĂłvel, tentando nĂŁo fazer barulho com sua armadura. JĂĄ estava usando o elmo e segurava o escudo em mĂŁos.
â E da nossa parte… â Shihoru sussurrou. â Depois de resgatar a Arara-san, a Mary Ă© a prĂłxima, certo?
â Sim â respondeu Haruhiro. â Os Rocks e a Arara-san vĂŁo começar a luta contra a Forgan. NĂłs damos suporte enquanto procuramos a Mary.
â DependerĂĄ da situação, mas… talvez seja melhor que o restante de nĂłs sirva como distração enquanto vocĂȘ vai sozinho, Haruhiro-kun â sugeriu Shihoru, com um tom hesitante.
â Verdade. Se for assim, Shihoru, conto com vocĂȘ.
Shihoru assentiu, sem nem perguntar o motivo. â Entendido.
Claro, se ela pedisse uma explicação, ele a daria. Mas era altamente reconfortante que ela não precisasse dela. Ele não queria depender demais de Shihoru, nem tinha intenção de depender completamente dela, mas ter um segundo pilar para apoiar a party faria uma grande diferença.
Os lobos uivaram. NĂŁo estavam longe.
Ele mal conseguia ver o palanquim.
O palanquim parou.
Ainda estavam a quase cem metros da ravina.
â Certo… â Katsuharu limpou os Ăłculos de proteção com um dedo.
O palanquim voltou a se mover. Se os carregadores apenas colocassem o palanquim ali, tudo ficaria muito mais fĂĄcil, mas as coisas nunca seriam tĂŁo convenientes assim.
Nesse ponto, tanto a party de Rock quanto a de Haruhiro eram indesejadas na vila. Provavelmente nunca mais poderiam entrar lĂĄ. Mesmo assim, tanto quanto possĂvel, queriam evitar qualquer ato de hostilidade aberta contra a vila. Se a vila enviasse perseguidores atrĂĄs deles, os aldeĂ”es conheciam o Vale dos Mil como a palma de suas mĂŁos, o que os tornaria mais do que apenas um incĂŽmodo. Por isso, por mais frustrante que fosse, eles nĂŁo podiam atacar o palanquim para salvar Arara. Precisavam esperar.
Até que a situação mudasse, só restava esperar.
â Eles estĂŁo aqui â sussurrou Yume.
Feras. Corriam pelo vale na direção deles. Lobos? Era uma alcateia de lobos negros.
Os Rocks ainda nĂŁo haviam se movido. Katsuharu colocou a mĂŁo no cabo da espada.
Estava difĂcil respirar. Parecia que algo estava pressionando o peito de Haruhiro.
Os lobos negros uivavam, um apĂłs o outro. O lĂder da matilha jĂĄ estava a uns dois, trĂȘs metros do palanquim.
Finalmente, os homens largaram o palanquim. Com as armas em punho, começaram a recuar.
â Agora jĂĄ deve estar seguro! â Katsuharu disparou.
Embora parecesse um pouco cedo, ele havia se contido até agora, mesmo que estivesse certamente preocupado com sua sobrinha. Não dava para culpå-lo.
Agora que um deles havia se movido, os demais tiveram que seguir. Quando Haruhiro acenou e deu o sinal, Kuzaku avançou, e Yume o seguiu. Haruhiro ficaria na retaguarda, protegendo Shihoru por enquanto.
Os Rocks agiram em resposta a Haruhiro e os outros. Kajita foi o primeiro a liderar o ataque.
â Ooooooooooooohhhhhhhhhh! â Kajita soltou um grande War Cry.
A matilha de lobos negros hesitou, parando por um momento, e entĂŁo olhou para o lado norte da encosta em unĂssono. A essa altura, o restante dos Rocks jĂĄ havia se espalhado e sumido de vista.
Katsuharu correu diretamente para o palanquim, gritando para os homens, que ainda nĂŁo haviam se virado: â Forgan estĂĄ vindo! Recuem!
â Seu vagabundo! â gritou um dos homens ao se virar. â Da prĂłxima vez que eu vir seu rosto, vocĂȘ serĂĄ o prĂłximo a enferrujar minha lĂąmina!
Um apĂłs o outro, os outros trĂȘs tambĂ©m fugiram.
â NĂŁo caĂ tĂŁo baixo a ponto de ser derrubado por um de vocĂȘs! â Katsuharu correu atĂ© o palanquim, cortando as cordas que amarravam Arara com sua katana. â Arara, vocĂȘ estĂĄ bem?
â Sim, tio! Sinto muito que vocĂȘ tenha feito isso por mim!
â De maneira alguma! Tive que ajudar minha querida sobrinha! â Katsuharu ajudou Arara a se levantar, depois entregou uma segunda katana que carregava para ela, ainda na bainha. â Se falhĂĄssemos agora no seu objetivo, sĂł restariam arrependimentos. Tome sua vingança por Tatsuru, Arara. Se isso lhe trouxer paz, vocĂȘ pode encontrar outros amores depois disso.
â Eu nĂŁo vou… â Arara tirou a katana da bainha. â …encontrar um novo amor! Eu mesma derrotarei o assassino de Tatsuru e serei leal a ele! Esse Ă© meu Ășnico desejo!
Rock havia dito que nĂŁo queria nada em troca, entĂŁo talvez estivesse tudo bem, mas quando Haruhiro ouviu Arara declarar isso com tanta clareza, ele se sentiu um pouco mal pelo cara, mesmo que isso nĂŁo fosse da sua conta.
Os lobos negros subiam a encosta para atacar Kajita. Havia mais?
Sim, havia. Estavam chegando. Orcs. Mortos-vivos. Cada vez mais, vindo de além do vale.
â Apareça, Arnold! â gritou Arara, preparando sua katana, mas parecia ter dificuldade para se mover.
Devia ser por causa da roupa. Quando a encontraram pela primeira vez, ela vestia um casaco e calças de montaria, assim como Katsuharu, mas agora usava um quimono que ia até os tornozelos, amarrado firmemente com um obi.
Parecia tĂŁo desconfortĂĄvel quanto aparentava, pois Arara de repente gritou âArgh!â e fez um corte vertical na barra da roupa. â Assim estĂĄ bom!
De fato, agora devia estar mais fĂĄcil de se mover, mas ela nĂŁo parecia estar usando nada por baixo, o que deixava Haruhiro sem saber se ela estava exposta demais ou nĂŁo, mas isso nĂŁo importava.
Sem descer totalmente a encosta, Haruhiro e sua party avançaram para o oeste. O vento soprou. A névoa de repente se adensou. Em pouco tempo, a visibilidade foi reduzida a menos de dez metros.
Yume colocou uma flecha no arco.
Havia algo Ă frente. Um orc?
â Ă luz, Ăł Lumiaris. â Kuzaku ergueu sua lĂąmina negra, fazendo o sinal do hexagrama no centro da guarda da espada. â Conceda a luz da proteção Ă minha lĂąmina.
Imediatamente, a lùmina negra começou a brilhar. Era o feitiço de magia de luz do paladino, Saber (Sabre). A luz de Lumiaris afiava o fio da espada do paladino gravada com o hexagrama. Aquela luz ofuscava quem olhasse diretamente para ela de perto e tinha um outro efeito importante: quando a espada brilhava assim, chamava a atenção.
â Wooooooooh! â Quando Kuzaku ergueu a espada e avançou, os inimigos se reuniram. Como mariposas atraĂdas pela chama.
NĂŁo enfrente mais do que pode aguentar! Haruhiro quis gritar para ele, mas se conteve. Esse era o papel de Kuzaku. Kuzaku, com sua armadura pesada, era o Ășnico que podia enfrentar vĂĄrios inimigos ao mesmo tempo. Haruhiro e os outros tinham outras tarefas a cumprir. Obviamente, torcer por Kuzaku nĂŁo era uma delas.
De qualquer forma, eram trĂȘs orcs. TrĂȘs orcs batendo em Kuzaku.
Kuzaku rebateu a katana de um dos orcs com Block.
â Kwah! â Ele usou a tĂ©cnica Bash para empurrĂĄ-los para trĂĄs. Brandindo sua espada com determinação, tentava fazer com que os orcs recuassem.
Os orcs eram tão altos quanto Kuzaku, ou até mais, e muito mais robustos. Estavam tentando cercå-lo e espancå-lo sem dó. Parecia que Kuzaku seria esmagado em pouco tempo, mas ele se manteve firme. E mais: estava longe de ser encurralado.
Kuzaku previa a força e o Ăąngulo dos ataques num piscar de olhos, decidindo com precisĂŁo se deveria bloquear com o escudo, desviar ou resistir ao golpe. Em uma luta de trĂȘs contra um, Kuzaku basicamente nĂŁo tinha chance de contra-atacar, mas, sob outro ponto de vista, isso significava que ele podia se concentrar totalmente em defender. Se tudo o que tinha que fazer era se proteger, Kuzaku sabia muito bem como fazer isso. Quando alguĂ©m se defendia com tanta confiança, derrubĂĄ-lo era difĂcil atĂ© mesmo para os guerreiros mais experientes.
â Dark â Shihoru parou para invocar Dark, o elemental.
Haruhiro se posicionou à esquerda de Kuzaku, enquanto Yume foi para a direita. Ele não queria deixar Shihoru sozinha, mas não havia muito o que fazer quando eram apenas quatro pessoas. Tudo bem, porém. Kuzaku manteria os inimigos ocupados, custasse o que custasse.
Yume disparou uma flecha a curta distĂąncia. A nĂ©voa tornava difĂcil enxergar, e mais ainda acertar alvos distantes. No entanto, ao se aproximar assim, seria mais fĂĄcil nĂŁo errar.
Parece que ela acertou um dos orcs. Onde exatamente, nĂŁo dava para saber.
Haruhiro, por sua vez, usava Stealth para dar a volta nos orcs. Kuzaku estava atraindo a atenção deles, e Yume também estava no campo de visão deles. Graças a isso, não haviam notado Haruhiro.
Mais inimigos? Nenhum sinal deles ainda.
Haruhiro ficou atrĂĄs dos orcs. A armadura de cobre que usavam parecia fina e leve, mas os protegia bem atĂ© o pescoço. Provavelmente, era de boa qualidade. Eles tambĂ©m usavam proteçÔes como cotoveleiras, joelheiras, grevas e manoplas, e, embora os elmos fossem do tipo que deixava o rosto exposto, suas cabeças estavam bem protegidas. Eles eram mais de vinte centĂmetros mais altos que Haruhiro. Seus corpos eram a prĂłpria imagem da força. Era fĂĄcil ver o quĂŁo poderosos eram.
Pense. Pense. Pense rĂĄpido e chegue a uma conclusĂŁo.
Parecia improvĂĄvel que conseguisse derrotĂĄ-los com um Backstab. Spider muito provavelmente terminaria em fracasso. O que significava que…
Haruhiro desferiu uma voadora nas costas do Orc A, o orc que estava Ă direita, segundo sua perspectiva, e Ă esquerda para Kuzaku.
Quando Orc A quase se inclinou para frente, perdendo o equilĂbrio, Kuzaku gritou: â Rah! â e usou Bash.
O orc no meio, Orc B, tentou cobrir seu companheiro. Kuzaku nĂŁo o perseguiu demais. Enquanto Orc A recuperava o equilĂbrio, ele se virou para procurar por Haruhiro.
Nesse momento, Haruhiro jĂĄ havia focado no Orc C, o que estava Ă esquerda de sua perspectiva e Ă direita de Kuzaku.
A flecha de Yume estava cravada no braço esquerdo do Orc C. Apesar disso, ele segurava a katana com ambas as mãos e estava prestes a golpear Yume.
Isso nĂŁo precisava matĂĄ-lo. Backstab.
O estilete de Haruhiro não conseguiu perfurar a armadura do Orc C, mas ele nunca teve a intenção de fazer isso. Incapaz de ignorar Haruhiro, Orc C se virou para ele.
Aproveitando essa brecha, Yume disparou Ă queima-roupa.
â Miau!
Contact Shot. NĂŁo, nĂŁo era sĂł um disparo. Ela imediatamente seguiu com outro. Rapid Fire.
Ela usava uma combinação das habilidades Rapid Fire e Contact Shot. Uma das flechas errou, e outra ricocheteou na armadura. Mesmo assim, foi o suficiente para intimidar Orc C. Vendo seu oponente recuando, a corajosa Yume não estava disposta a recuar.
Uma flecha. Yume não a colocou no arco; avançou com a flecha na mão e a cravou na coxa direita do Orc C.
Narrow Spear. Essa era aparentemente uma habilidade para emergĂȘncias, mas era bem tĂpico de Yume usĂĄ-la ao atacar um inimigo em fuga.
Haruhiro não deixaria o Orc, que gemia de dor, fugir, nem acertar Yume com a katana. Ele usou Arrest no braço do Orc C. Travou a articulação do cotovelo esquerdo do orc e derrubou sua perna.
Orc C se esforçou para não cair, mas, por ter uma flecha na coxa, não conseguiu se equilibrar completamente. Quando Orc C caiu de joelhos, inclinando-se para trås, Haruhiro inverteu a pegada no estilete e o cravou no olho esquerdo do orc.
Yume sacou Wan-chan e derrubou a katana da mĂŁo direita do Orc C.
Haruhiro girou o estilete, puxou um pouco para fora e depois o cravou de novo. Ele puxava e enfiava novamente, mas Orc C ainda estava vivo.
Enquanto gritava: â Yume, vĂĄ ajudar o Kuzaku!
Haruhiro acabou com o Orc C.
Ainda não havia reforços inimigos, mas eles não podiam baixar a guarda.
Kuzaku, ao usar Block na katana do Orc B, gritou “Zwah!â e usou Thrust no Orc A, que desviou com sua katana.
Em seguida, Kuzaku usou Punishment em Orc B, enquanto aplicava um Bash para repelir uma estocada do Orc A.
Nesse instante, Orc A deu um passo para trĂĄs, e Yume atacou com um salto mortal para a frente, seguido de um golpe poderoso. Raging Tiger.
Com uma reação instintiva, Orc A saltou para o lado para desviar.
â Vai! â Shihoru lançou Dark.
Orc A tentou se contorcer para desviar, mas Dark virou em sua direção e o acertou. Dark deslizou para dentro do corpo do orc, como se estivesse sendo sugado.
ConvulsÔes. Orc A espumava pela boca. Suas pernas cederam.
Haruhiro nĂŁo era como Moyugi para dizer âExatamente como planejadoâ ou âEra isso que eu esperava.â Eles nĂŁo tinham sinalizado nada, e sua esperança de que Shihoru pudesse fazer algo foi apenas uma esperança. Foi incrivelmente prĂłximo de uma decisĂŁo improvisada.
Enquanto se repreendia, Ainda tenho muito a aprender, ele agarrou Orc A por trĂĄs. Spider.
Com a ação de Dark enfraquecendo as reaçÔes do orc, Haruhiro rapidamente enfiou seu estilete no olho direito do Orc A, atravessando até o cérebro.
Mas ele nĂŁo parou por aĂ. Usando toda a sua força, ele torceu o pescoço do Orc A enquanto caĂa no chĂŁo com ele. NĂŁo importa quĂŁo resistente fosse o corpo de um inimigo, eles se tornavam surpreendentemente frĂĄgeis quando atingidos num ponto vital por um ataque surpresa.
Orc A ficou mole. Estava praticamente derrotado. Haruhiro saltou para longe dele.
â Nuwahh! â Kuzaku continuava a se defender da katana do Orc B com seu escudo, usando ocasionalmente sua espada, mas sem avançar para finalizĂĄ-lo.
Agora que os Orcs A e C estavam fora de combate, seria normal querer partir para o ataque, mas Kuzaku continuava a aguentar firme. Essa dedicação quase teimosa ao seu papel era uma das forças de Kuzaku, além de mostrar sua confiança em Haruhiro e nos outros.
Shihoru mantinha distĂąncia. Algum novo inimigo? NĂŁo. Haruhiro sinalizou para Yume com o olhar.
Seria possĂvel para Kuzaku, Haruhiro e Yume atacarem por trĂȘs direçÔes, mas eles fariam algo diferente aqui.
Haruhiro correu para trĂĄs de Yume.
Yume se aproximou de Orc B por trĂĄs.
O Orc B rapidamente percebeu a sua presença e saltou para trås em um ùngulo, com o intuito de posicionar Kuzaku e Yume à sua frente.
Haruhiro se abaixou e saltou da sombra de Yume.
Para fora. Para fora.
Kuzaku e Yume fecharam o cerco em Orc B, que recuou. NĂŁo teve outra escolha. Ele havia perdido completamente Haruhiro de vista.
Quando ficou em posição para encarar as costas do Orc B, Haruhiro respirou fundo. Seu alvo não havia notado sua presença. Haruhiro estava observando suas costas. Por um instante, parecia que ele havia compreendido completamente o inimigo. Claro, era apenas uma ilusão, mas Haruhiro queria propor a teoria de que, enquanto muitos acreditam que os olhos dizem mais que a boca, deveriam acreditar que as costas dizem ainda mais. Pelo menos, o que ele precisava fazer a seguir era evidente num relance.
Orc B colocou o peso no pé direito, que havia recuado, com o cotovelo direito projetado, de modo que sua katana ficou ao lado direito de seu rosto.
Quando Haruhiro cortou com seu estilete a mĂŁo daquele braço direito, Orc B reagiu primeiro com choque. Quem Ă© vocĂȘ? O que estĂĄ fazendo aqui?
Esse era o tipo de expressĂŁo.
Apesar dos dedos da mĂŁo direita nĂŁo estarem completamente cortados, ele nĂŁo conseguiria usĂĄ-los muito bem, exceto o polegar. Orc B segurou o cabo da katana com a mĂŁo esquerda. Era tudo o que ele podia fazer.
â Gaarah! â Kuzaku o derrubou com o escudo, pressionando-o no chĂŁo. Ele manteve o escudo contra o braço esquerdo do orc, imobilizando a katana. Sem perder o ritmo, usou sua lĂąmina negra para cortar o rosto do orc, sem chance para o orc reagir. Parecia que Kuzaku daria conta do resto, mas nĂŁo era hora de relaxar.
â Haruhiro-kun! â Shihoru gritou.
Estão chegando, hein, pensou Haruhiro. Reforços.
Era isso?
Algo grande avançava vindo da névoa.
â …Um gigante? â Haruhiro lembrou-se dos gigantes brancos do Reino do CrepĂșsculo. Parecia tĂŁo grande quanto.
Na verdade, não era tão grande assim. Mas transmitia uma sensação de perigo.
Kuro tinha lhe dito: Assim que pegarmos o pacote, vocĂȘs podem ir roubar o tesouro.
O objetivo da party de Haruhiro nĂŁo era lutar contra Forgan. Aquele grandĂŁo estava vindo em sua direção, mas, se possĂvel, eles preferiam evitar um confronto com ele.
â Vamos â disse Haruhiro em um sussurro, indo para o sudoeste. Seus companheiros o seguiram em silĂȘncio.
Enquanto subia a encosta sul da ravina na diagonal, ele observava os movimentos do grandĂŁo.
Estamos bem! Haruhiro quase gritou de alegria, mas obviamente se conteve. O grandão não tinha mudado de direção. Não parecia ter notado sua localização. Mesmo assim, quando encontrasse os corpos dos orcs, poderia começar a procurar pelos responsåveis. Precisavam sair dali rapidamente.
A nĂ©voa tornava impossĂvel saber como a batalha estava indo, mas havia confrontos esporĂĄdicos entre aliados e inimigos. Estavam vencendo ou perdendo? Se os Rocks, Arara e Katsuharu fossem mortos ou se retirassem, Haruhiro e os outros ficariam para trĂĄs. Isso seria incrivelmente ruim.
Havia também a questão de saber se eles conseguiriam encontrar Mary. Mesmo que a encontrassem, conseguiriam resgatå-la? Olhando para trås, ter subestimado a gravidade da punição de Arara tinha sido um erro. Isso os havia prejudicado bastante.
A inclinação estava ficando mais Ăngreme. Seria difĂcil subir mais.
â Mal consigo ver nada… â murmurou Kuzaku para si mesmo.
Haruhiro estava prestes a dizer algo, mas se calou. Havia um som vindo de cima, e algumas pedras rolavam pela encosta.
Haruhiro olhou para cima e imediatamente gritou: â Acima! â Mas, para ser sincero, ele nĂŁo tinha ideia do que fazer.
NĂŁo era o grandĂŁo de antes, mas aquele inimigo parecia igualmente perigoso. Era ele. O lobo gigante. Descendo a encosta agilmente. Nas costas do lobo gigante estava um goblin. Onsa, o mestre das feras.
â Saiam! â Kuzaku abriu os braços, empurrando Shihoru e Yume para longe.
NĂŁo, isso nĂŁo vai funcionar!
Haruhiro tentou impedi-lo. Era tarde demais.
O lobo gigante avançou contra Kuzaku com um rosnado. Kuzaku não foi arremessado para longe. Ele tinha se agarrado e se mantido firme? Fez mais do que apenas isso. Ele tentou se estabilizar, mas ao perceber que não daria certo, torceu o corpo.
â Rahhhhhh! â gritou Kuzaku.
O lobo gigante tombou de lado com Kuzaku. Os dois deslizaram juntos pela encosta. Onsa segurava a parte de trås do pescoço do lobo gigante, como se fossem rédeas. Ele devia estar tentando fazer o lobo se levantar.
Mas Kuzaku nĂŁo deixou. Ele rolou.
O lobo gigante e Kuzaku lutavam enquanto rolavam pela encosta sul.
Não demorou muito para que Onsa fosse lançado para longe. Ele se levantou rapidamente, correndo atrås do lobo gigante e de Kuzaku.
â Kuzaaaaku! â Haruhiro correu atrĂĄs de Onsa como se estivesse descendo uma escadaria aos saltos de dois ou trĂȘs degraus por vez. â Yume, cuide da Shihoru!
Kuzaku! Kuzaku! Kuzaku! Droga! Haruhiro gritava em sua mente.
Ele nĂŁo tinha conseguido se mover. NĂŁo tinha conseguido fazer nada. Kuzaku o havia salvado.
â Hou, hou, hou, hou, hou, hou, hou, hou, hou! â Onsa fazia um som estranho.
O que aquilo significava? Haruhiro teve um mau pressentimento. Estaria ele chamando algo?
Kuzaku e o lobo gigante finalmente pararam. O lobo gigante sacudiu a cabeça.
E Kuzaku? Haruhiro nĂŁo conseguia vĂȘ-lo. Onde ele estava? Estaria embaixo? Ele começou a sair debaixo do lobo gigante.
Kuzaku.
Ele estĂĄ se movendo! Ele estĂĄ vivo! Haruhiro queria gritar.
Mas ainda nĂŁo. Era cedo demais para comemorar.
O lobo gigante subiu em cima de Kuzaku.
â Vai se ferrar! â gritou Kuzaku, lutando para se soltar.
Onsa logo alcançaria o lobo gigante e Kuzaku. Ele chegaria até eles.
â Funahhh!
Era Yume. A voz de Yume. Uma flecha. Uma flecha voava.
Ela passou de raspĂŁo no ombro de Onsa. Onsa correu para a sombra de uma ĂĄrvore prĂłxima, sem olhar para trĂĄs.
Certo, pensou Haruhiro. Ătimo! Esta Ă© a nossa chance!
Haruhiro nĂŁo estava exatamente correndo, mas pulando. Cada vez que se impulsionava no chĂŁo, avançava dois a trĂȘs metros, saltando, saltando, saltando. Era perigoso e assustador, mas isso era muito mais rĂĄpido do que correr. Finalmente, ele passou por Onsa. Continuou avançando e pulou em cima do lobo gigante.
â Saia de cima do Kuzaku! â Haruhiro gritou.
Ele se agarrou às costas do lobo gigante, cravando seu estilete em seu pescoço. Puxou e apunhalou de novo repetidamente. O lobo gigante se contorcia em agonia, sacudia-se tentando jogå-lo para fora, mas sem sucesso.
NĂŁo vou te soltar!
Talvez o lobo gigante tenha decidido que lidar com Haruhiro era sua prioridade, pois se levantou e começou a correr.
O quĂȘ? O quĂȘ? O quĂȘ? Por que estĂĄ correndo em direção Ă quela ĂĄrvore?! Ficou louco? Vamos colidir!
â Ngah?! â Haruhiro gritou.
Ele soltou o lobo gigante no Ășltimo momento possĂvel e acabou rolando pelo chĂŁo. O lobo acabou batendo as costas na ĂĄrvore, mas parecia bem. Quando Haruhiro saltou para se levantar, o lobo gigante jĂĄ estava exibindo suas presas, encarando-o. Ele nĂŁo tinha sentido que seu estilete tinha feito muito efeito. Provavelmente os ferimentos nĂŁo eram profundos, graças ao pelo grosso e Ă camada de gordura sob a pele.
Kuzaku tinha se levantado, mas estava de joelhos. Estava ferido? Ele nĂŁo podia estar completamente ileso.
QuĂŁo grave era?
Onde estava Onsa?
NĂŁo. NĂŁo era hora de se preocupar com ele.
O lobo gigante investiu.
Era impossĂvel pensar. Quando se deu conta, o corpo de Haruhiro jĂĄ estava se movendo por conta prĂłpria.
O lobo gigante passou por cima dele.
Por que Haruhiro estava deitado de costas? Ele não sabia, mas parecia que ele havia acabado naquela posição ao se jogar no chão. Graças a isso, ele escapou de alguma forma.
No entanto, o lobo gigante se virou imediatamente e estava prestes a atacĂĄ-lo de novo. Haruhiro se levantou apressado, masâ
Isso nĂŁo Ă© meio impossĂvel?
Ele nĂŁo conseguiria desviar do prĂłximo ataque. Ele seria pego.
Isso nĂŁo significava que ele tinha desistido, no entanto.
Sua garganta. Ele protegeria isso. Se o lobo cravasse as presas em sua garganta, seria o fim. Em vez de tentar escapar de forma desleixada, era melhor ficar pronto e evitar um ferimento fatal. NĂŁo morrer era a chave. Ele nĂŁo morreria instantaneamente. De qualquer forma, ele garantiria isso.
O lobo gigante estava se aproximando.
Cada vez mais perto.
Chegando.
Quando uma flecha afundou em seu olho direito, Haruhiro pensou: Yume?
A cabeça do lobo gigante se retraiu. Ele estremeceu, sacudindo a cabeça e soltando um gemido.
â NĂŁo Ă© como se eu me importasse com meus novatos â Kuro disse friamente.
Kuro? pensou Haruhiro.
O guerreiro, que era um ex-caçador, estava surpreendentemente perto. Ele havia aparecido da sombra de uma pedra a menos de cinco metros de Haruhiro.
Kuro soltou duas flechas.
â NĂŁo entenda errado, novato.
O lobo gigante repentinamente virou a cabeça. Por causa disso, as flechas acertaram seu ombro. Haruhiro não sabia o quão grave era o dano, mas as flechas estavam firmemente cravadas ali.
Que arco poderoso.
Houve o som de um assobio, e o lobo gigante se virou. Era Onsa assobiando. Eles iriam fugir?
â Kuzaku?! â Haruhiro olhou para Kuzaku.
â Estou bem. â Kuzaku estava de joelhos. Ele virou a cabeça para olhar para Haruhiro. â De alguma forma.
â Eu quero matar esse cara â disse Kuro, preparando uma flecha para atirar em Onsa.
Onsa pulou para o lado, desviando, e depois saltou para as costas do lobo gigante. Kuro disparou outra flecha, mas Onsa abaixou a cabeça e conseguiu evitar.
â Hou, hou, hou, hou, hou, hou, hou, hou!
Aquela vocalização estranha de novo.
O que isso deveria significar? Haruhiro se perguntou.
Haruhiro correu até Kuzaku. Kuzaku se ergueu com dificuldade e olhou para o alto da encosta sul. Haruhiro seguiu seu olhar. Yume e Shihoru estavam descendo.
â Maldito goblin insolente. â Kuro preparou uma flecha em seu arco. Ele puxou a corda. No meio do movimento, parou e olhou para o cĂ©u. â …HĂŁ?
Havia o som de asas batendo. Eram pĂĄssaros? Estavam perto. Se aproximando. Insetos grandes? PĂĄssaros? Ou talvez morcegos? Eram muitos deles.
Haruhiro se abaixou, gritando: â Whoaaaa?! â enquanto agitava os braços.
Os pĂĄssaros, ou morcegos, ou o que quer que fossem… aquelas coisas estavam voando contra ele. Batiam em seus braços, costas, peito, cabeça e rosto. E batiam com força.
Ele conseguia vĂȘ-los, embora nĂŁo claramente. NĂŁo eram pĂĄssaros. TambĂ©m nĂŁo eram insetos. Pareciam morcegos, mas diferentes.
Lagartos? Como lagartos alados.
Do tamanho das suas duas mĂŁos juntas e abertas. DragĂ”es? Eram como pequenos modelos de dragĂ”es, mas era evidente que nĂŁo eram modelos. Eles se moviam e voavam. Estavam atacando Haruhiro e os outros. PorĂ©m, se conseguiam voar com tanta agilidade, deviam ser bem leves. Mesmo quando o atingiam, sĂł doĂa um pouco, entĂŁo nĂŁo era um grande problema. Eram apenas um grande incĂŽmodo.
â Mas que inferno?! â Haruhiro usou seu estilete para cortar uma das asas de um dos mini wyverns. O mini wyvern soltou um grito agudo e caiu no chĂŁo. Quando viu isso, percebeu que era hora deâbem, nĂŁo, mesmo que nĂŁo tivesse visto isso, jĂĄ seria hora de fugir.
O enxame de mini-wyverns se dispersou enquanto ele corria. Haruhiro não conseguia mais ver o lobo gigante. Serå que Onsa havia usado aquela vocalização estranha para chamar os mini-wyverns como distração?
O mini-wyvern que Haruhiro tinha cortado uma asa estava se arrastando para longe. Ele pensou em dar um bom chute nele, mas se conteve.
â Isso me pegou de surpresa… â Kuzaku levantou a viseira do elmo e suspirou.
â Perdemos ele, nĂ©. â Kuro soltou uma gargalhada e estalou a lĂngua. â Ah, lĂĄ estĂĄ o Kajita.
De fato, eles conseguiam ouvir vĂĄrios gritos de batalha masculinos e roucos. Mas a outra voz, de quem era? Era profunda e baixa, como o rugido da terra. NĂŁo parecia humana. EntĂŁo era um inimigo.
Em algum lugar prĂłximo, Kajita estava enfrentando um inimigo. Provavelmente um poderoso.
â Kuzaku-kun! â Shihoru correu atĂ© Kuzaku, carregando seu escudo. Ele o tinha deixado cair no meio da batalha?
Yume estava ao lado de Shihoru, com seu arco pronto, olhando ao redor, inquieta.
â Talvez seja melhor vocĂȘs ficarem perto de nĂłs, afinal. Pelo menos por enquanto â disse Kuro, desaparecendo na nĂ©voa.
Haruhiro queria tempo para organizar seus pensamentos. Sabia, porém, que não teria essa chance.
Algo estava vindo do oeste. Sem dĂșvida, inimigos. Do leste, tambĂ©m.
Aqui. Esse lugar provavelmente veria uma luta pesada em breve.
â Fiquem juntos! â Haruhiro correu atĂ© onde estava Kuzaku. â Por agora, vamos apoiar os Rocks aqui!
A figura que ele conseguia ver vagamente na névoa, seria Kajita?
â Zweh! â Kajita brandia sua espada cogumelo enorme, e o sujeito absurdamente grande que eles viram antes, provavelmente um orc, bramou âFuuuuuungh!â ao bloquear com sua katana.
Kajita era bem alto por si sĂł, mas aquele orc ainda era uma cabeça ou duas maior, nĂŁo, talvez atĂ© mais que isso. TrĂȘs metros de altura parecia exagero, mas ele devia ter pelo menos dois metros e meio. E, por causa dissoâ
â Goahhhh! â A gigantesca katana que o orc levantou acima de sua cabeça, em um Ăąngulo inclinado, devia ter uma força incrĂvel por trĂĄs. Era claramente um golpe a ser evitado a qualquer custo, mas Kajita tentou segurĂĄ-lo com sua espada cogumelo.
â DoeHH! â gritou Kajita.
NĂŁo havia como ele parar o golpe. O corpo de Kajita voou pelo ar.
Espera aĂ, Haruhiro se deu conta. Ele estĂĄ voando na minha direção.
E agora? Eu devo segurå-lo? Não, eu não consigo. Mas, dito isso, também não sei se devo simplesmente desviar.
Para o bem ou para o mal, Kajita caiu com um estrondo bem à frente de Haruhiro. Ele estava totalmente estatelado. Seus óculos de sol estavam começando a cair.
â Ka… Kajita-san…? â Haruhiro chamou timidamente.
O orc gigante vinha marchando em sua direção.
â Ha-Haruhiro-kun, corra! â gritou Shihoru.
O orc gigante levantou sua gigantesca katana acima da cabeça.
Não pode ser! Ele jå estava no alcance? Ele conseguia alcançar de lå? Consegui? Parecia que sim. Por ser tão grande, talvez o orc estivesse confundindo a percepção de distùncia de Haruhiro.
NĂŁo tenho outra escolha, pensou Haruhiro. Eu vou ter que correr.
â Heh! â Kajita se levantou com uma exibição impressionante de força nas pernas, abdĂŽmen e costas, que parecia quase sobre-humana. Com a espada cogumelo virada de lado, ele bloqueou a katana do orc gigante. Desta vez, o golpe parou. E nĂŁo sĂł isso, Kajita empurrou e fez o orc gigante se curvar para trĂĄs. Ele avançou e depois desferiu um golpe diagonal.
O orc gigante nĂŁo bloqueou com sua katana. Com um âGwah!â, ele apenas desviou o golpe. Era surpreendentemente ĂĄgil.
Kajita girou sua espada cogumelo, travando as lĂąminas com o orc gigante.
â Nghhhh! Nuhhhh!
â Guhhhh! Ohhhhhhhgh!
â Zwehhh! Humph! Zeahahh!
Kajita usou pura força bruta para empurrar o orc gigante para trås, então, rapidamente ajeitando os óculos de sol, ele segurou sua espada cogumelo em uma posição baixa.
â Hmph… Qual Ă© o seu nome? â Kajita disse em uma lĂngua que era estrangeira para Haruhiro.
â Gai, Godo Agaja! Danjinba?
â Meu nome Ă© Kajita.
â Den, dogaran…
â ha ha ha! Eu tambĂ©m.
Mas o que hĂĄ com esses caras? Haruhiro se perguntou. Eles claramente falam idiomas diferentes, mas ainda assim estĂŁo conseguindo manter uma conversa?
Melhor eu nĂŁo me meter. Deixem eles com isso. Bem, nem Ă© como se eu pudesse me envolver, e os dois parecem estar se divertindo, entĂŁo deixo que continuem pelo tempo que quiserem. Parece que eu tenho outras coisas pra fazer.
Cada vez mais orcs e mortos-vivos estavam vindo do oeste. Eles estavam indo para o lesteâera Arara? Katsuharu tambĂ©m estava lĂĄ. E Rock.
Gettsu, o mirumi, estava correndo logo atrĂĄs de Rock. Eram trĂȘs pessoas e uma criaturinha, avançando para o oeste pelo vale. NĂŁo muito atrĂĄs estava Tsuga, com seu corte de cabelo raspado. Depois, Moyugi. Sakanami, o ladrĂŁo, nĂŁo estava em lugar algum.
Tsuga e Moyugi pareciam estar sendo perseguidos por orcs e mortos-vivos. NĂŁo, sendo o Moyugi, talvez ele estivesse deliberadamente evitando o combate direto e atraindo os inimigos dessa maneira.
Parecia que inimigos também estavam vindo em direção a Haruhiro e aos outros, que ainda não tinham descido totalmente a encosta sul.
Dois orcs e dois mortos-vivos. Quatro contra quatro, hein. DifĂcil, mas nĂŁo poderiam fugir agora. Teriam que se preparar para o pior. Teriam que lutar.
â Kuzaku, vocĂȘ fica na frente! Shihoru, Yume! â gritou Haruhiro.
â Certo!
â Okay! Dark!
â Miau!
Yume disparou uma flecha. Dark avançou. Kuzaku serviu como escudo.
Haruhiro procurou brechas, tentando acertar um golpe decisivo sempre que possĂvel. Quando era possĂvel, claro. Rapidamente, o combate virou um caos.
Sua mente parece que vai se tornar um turbilhĂŁo caĂłtico, mas nĂŁo se perca. Olhe ao seu redor.
Ele não conseguia ver através da névoa. Isso não era verdade apenas para Haruhiro; também era verdade para o inimigo. Não era uma desvantagem unilateral. Isso significava que estavam em condiçÔes iguais. O campo de visão dele era extremamente limitado.
Mantenha a cabeça fria.
Kuzaku estava mantendo os inimigos Ă sua frente sob controle. Isso nĂŁo significava que ele poderia relaxar, mas Haruhiro precisava confiar nele.
Não era só Haruhiro; Shihoru também estava atenta. Yume ocasionalmente fazia algo cuidadoso também.
NĂŁo tente fazer tudo sozinho.
Ele nĂŁo conseguiria fazer tudo, de qualquer maneira. Faria o melhor que pudesse, Ă© claro. Ele, seus companheiros e todos os outros dariam tudo de si.
NĂŁo precisamos nos estender demais para derrotar inimigos. Sobreviver Ă© o essencial. Primeiro, defender. Aguardar firme. Depois, ser persistente. Atrapalhar o inimigo.
Não ficar parado no mesmo lugar, também. Mover-se.
NĂŁo havia razĂŁo para lutarem diretamente com o inimigo. Podiam atacar os grupos inimigos que Arara, Katsuharu e os Rocks jĂĄ estavam enfrentando pelos lados ou pelas costas. Assim que os provocassem um pouco, deveriam recuar imediatamente e mirar em outros inimigos.
Leia o fluxo. Se os Rocks, Arara e Katsuharu começarem a empurrar o inimigo e avançar, sigam imediatamente. Se o fluxo estagnar, de forma alguma avancem para a linha de frente.
Fundamentalmente, ficariam sempre prontos para recuar e agiriam para desestabilizar o inimigo. NĂŁo precisavam pensar em dar um golpe decisivo e esmagador. Na verdade, nem deveriam pensar nisso.
Houve momentos em que lutaram com um inimigo, e tudo o que puderam fazer foi proteger Shihoru. NĂŁo importava o quanto estivessem assustados, nĂŁo entravam em pĂąnico.
Os Rocks tinham Kuro, que adorava derrubar inimigos com um ataque surpresa, e era muito bom nisso. Sakanami era do mesmo jeito. Haruhiro nĂŁo estava completamente contando com esses dois para salvĂĄ-los, mas sabia que eles nĂŁo perderiam a chance perfeita quando surgisse.
Todos estavam mais expostos ao tentar atacar. Mesmo sabendo que não deveriam baixar a guarda, era natural que brechas surgissem em momentos assim. Se o inimigo demonstrasse a menor abertura, Kuro os derrubaria com um tiro certeiro de seu arco poderoso, ou Sakanami os eliminaria com um ataque tão frenético que parecia carregar algum tipo de rancor.
Haruhiro começava a entender a dinùmica. Os Rocks não faziam nada que pudesse ser chamado de coordenação. Cada um agia por conta própria. Rock e Kajita lutavam individualmente, e até Moyugi vagava sem muito critério. Tsuga, sendo o sacerdote, observava as coisas, indo de um lado para o outro, mas Kuro e Sakanami sumiam na maior parte do tempo para emboscar os inimigos.
Na party de Haruhiro, todos agiam como uma unidade sĂł. Se um deles faltasse, a capacidade de combate caĂa drasticamente. Podiam atĂ© se tornar completamente disfuncionais.
Com os Rocks era diferente. Cada um deles era como uma unidade própria. Para Moyugi, que era o comandante, se contasse a si mesmo e sua demÎnio Moira, ele tinha até sete unidades para movimentar e com as quais poderia criar estratégias.
Se a party de Haruhiro conseguisse aumentar o nĂșmero de unidades, tambĂ©m teriam mais opçÔes. Isso ampliaria o alcance de suas açÔes.
Mas serĂĄ que eles poderiam fazer isso?
Primeiro, havia Mary. Mary era indispensĂĄvel. De qualquer forma, eles iriam resgatĂĄ-la.
E… Ranta.
Se tivessem Ranta…
NĂŁo, Ranta os havia traĂdo. Como isso tinha acontecido ainda nĂŁo estava claro, mas provavelmente ele acabou em uma situação em que estava prestes a ser morto, e entĂŁo se rebaixou, talvez atĂ© se ajoelhou para que a Forgan o deixasse entrar.
Ranta era um inimigo. Eles ainda nĂŁo tinham se deparado com ele, mas ele poderia aparecer como inimigo a qualquer momento. Os Rocks jĂĄ poderiam tĂȘ-lo matado. Se o tivessem, bem, paciĂȘncia.
Mas ele realmente os havia traĂdo?
O sujeito estava com eles desde que chegaram em Grimgar, entĂŁo talvez Haruhiro sĂł nĂŁo quisesse acreditar, mas algo o incomodava sobre isso.
O que era?
NĂŁo era hora de pensar em Ranta. O fato de estar divagando mostrava que Haruhiro estava com a cabeça leve, mas havia um motivo: Rock liderava como vanguarda e avançava com confiança. A resistĂȘncia dos inimigos era fraca. Haruhiro e sua party avançavam quase sem enfrentar oponentes.
Embora a névoa ainda estivesse espessa, o ambiente parecia incrivelmente claro. Brilhante, até.
Eles chegaram a uma ĂĄrea aberta. Finalmente tinham passado pelo vale.
â Ha ha ha ha ha ha ha! â Rock soltou uma gargalhada excessivamente animada.
Quando ele ria assim, Haruhiro se sentia impotente. Rock fazia parecer que nada era impossĂvel. Se ficassem com ele, tudo daria certo de alguma forma.
Ele não só empurrava todos; ele os arrastava consigo. A força propulsora criada pela simples presença de Rock era insana. Aquilo devia ser algum tipo de carisma. Parecia perigoso, mas não havia outra escolha a não ser continuar avançando.
Haruhiro olhou para trĂĄs enquanto corria. Eles tinham estabelecido um sistema em que ele liderava a caminhada, e, ao encontrarem inimigos, rapidamente trocava de lugar com Kuzaku. Kuzaku e Yume caminhavam com passos estranhamente leves. Apenas Shihoru, que estava entre os dois, olhava ao redor inquieta, questionando se estava tudo bem e se havia algum problema.
â Mary deve estar mais Ă frente! â Haruhiro gritou para os companheiros. â Mantenham-se atentos e vamos avançar o mĂĄximo que pudermos!
â Miau!
â Beleza!
â Certo!
Rock. Arara. Katsuharu. Esses trĂȘs estavam Ă frente e Ă esquerda da party de Haruhiro.
Serå que Kajita ainda estava lutando com Godo Agaja em algum lugar? Tsuga estava atrås de Rock e dos outros. Moyugi estava sumido. Kuro e Sakanami estariam escondidos na névoa?
Não era só a party de Haruhiro; ninguém estava trocando golpes com os inimigos. Mesmo que ainda houvesse oponentes. Ele conseguia ver silhuetas que pareciam orcs e mortos-vivos aqui e ali.
Espera, estamos sendo atraĂdos…?
Um uivo ressoante e inquietante, provavelmente vindo do lobo gigante, ecoou.
Havia uma colina Ă frente. No topo da colina, havia pessoas. TrĂȘs pessoas e um grande animal. E tinha uma pessoa em cima do animal, entĂŁo eram quatro pessoas.
EntĂŁo, na base da colina, havia um nĂșmero muito maior de inimigos.
Rock, depois Arara, Katsuharu e Tsuga, todos pararam um após o outro. Haruhiro e sua party foram obrigados a parar também.
Moyugi os alcançou caminhando num ritmo despreocupado. Sua espada fina estava embainhada, e ele pressionou o dedo médio da mão direita na ponte dos óculos.
â As coisas foram exatamente como planejei, pelo que vejo.
SerĂĄ que isso era verdade? Parecia uma mentira descarada, mas, mesmo que fosse verdade, era isso que ele havia planejado?
â Dohhhh! â gritou Kajita.
Algo grande veio voando na direção deles por trås. Bem, ora, quem mais senão Kajita-san.
Kajita aterrissou ao lado de Tsuga. Deitado de braços e pernas abertos, como antes. Não parecia morto, mas também não se movia.
O gigante orc Godo Agaja se aproximava deles, com sua enorme katana descansando no ombro. Havia uma horda de orcs e mortos-vivos atrås dele. Lobos negros também. Entre eles, alguns membros de outras raças que Haruhiro não reconhecia. Não eram muitos, mas estavam lå.
De qualquer forma que olhasse, Rocks, Arara, Katsuharu e a party de Haruhiro estavam sendo cercados num ataque em pinça. Além disso, Sakanami e Kuro não estavam presentes, então eram apenas dez pessoas e um mascote.
O inimigo nĂŁo era sĂł um grupo de cem, o que jĂĄ seria dez vezes o nĂșmero deles. NĂŁo era possĂvel contar claramente por causa da nĂ©voa, mas havia provavelmente centenas deles.
As quatro figuras no topo da colina, da direita para a esquerda, eram o lobo gigante com Onsa montado nele, o humano de meia-idade Takasagi, com um braço e um olho, um pequeno orc com uma åguia negra pousada em seu ombro e um morto-vivo de quatro braços, Arnold.
Entre a grande massa de membros da Forgan na base da colina, havia um rosto familiar. Bem, nĂŁo era possĂvel ver seu rosto. Ele estava usando um elmo. Mas nĂŁo havia como ser outra pessoa.
Ele cruzou os braços, inflando o peito. Mais pomposo do que qualquer um ali. Parecia que ele jå estava bem acomodado como membro da Forgan.
â Rantaaaa! â Kuzaku deu um passo Ă frente, apontando para Ranta. â Como ousa mostrar a cara na nossa frente! Eu sabia que vocĂȘ era descarado, mas ainda assim nĂŁo consigo acreditar!
Ranta deu de ombros em silĂȘncio. NĂŁo ia responder?
Haruhiro rangeu os dentes.
Isso nĂŁo Ă© do seu feitio, Ranta.
Ele era um cavaleiro das trevas desagradĂĄvel, arbitrĂĄrio, ilĂłgico, estĂșpido e idiota, mas, de alguma forma, astuto, estranhamente confiante, mal-educado, irritante sĂł por estar ali e de personalidade podre, entĂŁo deveria estar jogando alguma provocação contra eles agora. Afinal, ele era um cavaleiro das trevas.
â Murrgh! â Yume bateu os pĂ©s, com os olhos cheios de lĂĄgrimas. â Yume te odeia, Ranta!
â Yume… â Shihoru estendeu a mĂŁo e acariciou as costas de Yume.
â E entĂŁo? â Takasagi girou o pescoço lentamente. â O que vocĂȘs querem fazendo provocação contra a gente? Querem apenas lutar? Se for isso, podemos enfrentar vocĂȘs. NĂŁo nos importamos de lutar um pouco. Se for para fazer isso, vamos atĂ© o fim. Vamos esmagar todos vocĂȘs aqui. Matar cada um de vocĂȘs.
â Eu nĂŁo vim aqui para lutar com vocĂȘ. â Rock riu, erguendo sua espada em direção a Arnold. â Arnold! Quero um duelo comâ
â NĂŁo! â Arara saltou Ă frente, colocando-se entre Rock e Arnold. â Rock! Sou grata a vocĂȘ por me trazer atĂ© aqui, mas isto, isto Ă© uma coisa que nĂŁo posso deixar para vocĂȘ! Arnold, o Redemoinho Sangrento! Se vocĂȘ Ă© um guerreiro de honra, enfrente-me em um duelo!
Haruhiro viu Katsuharu baixar a cabeça e balançar-a. Kajita ainda não havia se levantado.
E quanto a Kuro? Sakanami? Ele nĂŁo tinha sentido um nyaa desde que o nyaa preto matou o listrado. Setora teria conseguido reprimir os nyaas da Forgan para eles?
Se fossem lutar um contra um, Haruhiro ficaria feliz em deixĂĄ-los lutar. Por sua parte, queria sair dali o mais rĂĄpido possĂvel. Precisava encontrar Mary e salvĂĄ-la.
Com sorte, poderiam escapar com os quatro, mas isso talvez fosse difĂcil. No mĂnimo, mesmo que Haruhiro tivesse que ir sozinho, nĂŁo haveria uma maneira de escapar? Forgan estava na frente e atrĂĄs, mas nĂŁo nos lados. Se ele acertasse o momento, talvez nĂŁo fosse impossĂvel, certo?
O momento. O momento era crucial. Mas, mesmo que Haruhiro conseguisse escapar sozinho e, supondo que de alguma forma conseguisse resgatar Mary, e os seus companheiros? O que faria com os outros trĂȘs? Seria melhor desistir de Mary e tentar voltar vivo apenas os quatro? Se fizesse isso, teria que questionar o porquĂȘ de terem vindo atĂ© aqui. Mas, deixando de lado o motivo da vinda, nĂŁo deveria ele usar o melhor mĂ©todo, o melhor caminho disponĂvel para a situação em que se encontrava? Afinal, Haruhiro era o lĂder da party.
Como tinham chegado a esse ponto? Importava? Esse era apenas o jeito do acaso. Mesmo sem procurar problemas, ainda poderiam se encontrar em uma situação perigosa. Coisas assim aconteciam o tempo todo. Reclamar nĂŁo adiantaria nada. A questĂŁo era o que fazer diante da situação em que se encontravam. Ou, se ele poderia mudar a situação de alguma forma, movĂȘ-la para uma direção melhor, ainda que sĂł um pouco. Para isso, precisava pensar e, entĂŁo, agir.
â Por qual razĂŁo? â perguntou o pequeno orc em uma fala humana fluente.
Isso pegou Haruhiro um pouco de surpresa. Aquele era Jumbo. Jumbo, o lĂder da Forgan, hein.
â Mulher da vila â disse Jumbo. â Por que deseja um duelo com meu companheiro Arnold?
â Havia um homem â disse Arara. â Eu o adorava. E ele tambĂ©m me amava. No entanto, fomos separados. Ele era desprezado na vila. Ao construir sua fama como guerreiro, esperava fazer com que a vila reconhecesse e aceitasse o amor que ele sentia por mim.
â De fato, houve um que veio sozinho Ă noite para desafiar Arnold â disse Jumbo.
â Ahh… Tatsuru-sama…
â Foi com um Ășnico golpe â Takasagi falou, dando uma risada debochada. â Eu nĂŁo vi, sĂł ouvi falar depois, mas aquele homem foi derrubado por Arnold mais facilmente do que se espantaria uma mosca irritante.
â …Ele nunca voltou â murmurou Arara suavemente.
â Bem, Ă© claro que nĂŁo â retrucou Takasagi. â Se ele fosse habilidoso, alguns de nossos mortos-vivos talvez tivessem interesse em um braço ou uma perna dele. Mas o corpo de um fraco nĂŁo serve pra ninguĂ©m.
â Como ousa zombar dele?! â Arara gritou.
â SĂł estou dizendo a verdade. E? VocĂȘ tem um rancor equivocado contra Arnold e estĂĄ me dizendo que causou toda essa confusĂŁo sĂł para ter um duelo com ele?
â Meu rancor nĂŁo Ă© equivocado! O primeiro a cometer um ato de violĂȘncia foi Arnold! Foi por isso que Tatsuru-sama foi para matĂĄ-lo, o inimigo jurado da vila!
â Ah, sim, isso realmente aconteceu, nĂ©? â Takasagi refletiu. â Bem, Ă s vezes o Arnold fica sedento por sangue e faz coisas estranhas. Ă como um surto. Quando isso acontece, nem nĂłs conseguimos detĂȘ-lo. Ele estĂĄ fazendo o possĂvel para se controlar e nĂŁo atacar os nossos. Temos que deixĂĄ-lo em paz. Ele nĂŁo quer dizer nada com isso, entĂŁo perdoe o cara.
â V-VocĂȘ acha que o que ele fez Ă© perdoĂĄvel?!
â Bem, vocĂȘ tem um ponto.
Aquele homem, Takasagi… era difĂcil dizer se estava zombando ou se era sĂ©rio. De qualquer forma, o fato de Arara estar enfurecida, pronta para explodir, fazia dela um brinquedo para Takasagi. Ele nĂŁo apenas a estava enfrentando; estava brincando com ela. NĂŁo poderia tratĂĄ-la de forma mais desdenhosa.
â Chega, Arara â Rock disse calmamente. Com uma Ășnica palavra, o clima mudou drasticamente.
Rock estava de costas para Haruhiro, entĂŁo ele nĂŁo podia ver, mas era provĂĄvel que Rock nĂŁo estivesse sorrindo. Nem um pouco. Haruhiro jĂĄ sentia um arrepio e agora seus pelos estavam completamente arrepiados.
â Quando uma pessoaâ â Rock deu um passo Ă frente. Haruhiro sentiu um frio na barriga. â Seja humano, seja qualquer outra coisa, quando uma pessoaâ â Rock estava com raiva. â Ela arriscou a vida para exigir que vocĂȘ a enfrentasse em um combate justo, e Ă© essa sua atitude?
A cada passo que Rock dava, o estĂŽmago de Haruhiro parecia encolher mais alguns milĂmetros. Era assim que ele se sentia.
â VocĂȘs sĂŁo lamentĂĄveis, Forgan. Dizem que tĂȘm orcs, goblins e atĂ© humanos, entĂŁo achei que seriam um grupo mais interessante. Mas eu estava enganado. VocĂȘs sĂŁo um bando de escĂłria.
A maioria dos Forgan provavelmente nĂŁo entendia a lĂngua humana. Ainda assim, conseguiriam entender que haviam sido insultados? Os membros da Forgan começaram a ferver de raiva e a fazer barulho.
â Calem a boca! â Rock bradou.
Com isso, ele silenciou a Forgan.
Rock começou a caminhar em direção Ă colina. NinguĂ©m podia detĂȘ-lo. Nem Arara, nem ninguĂ©m.
Gettsu ficou sobre as patas traseiras e observou Rock se afastar. Os membros da Forgan na base da colina pareciam paralisados, incapazes de se mover.
â Venham â Rock parou a alguns metros da colina, acenando com uma das mĂŁos. â Todos vocĂȘs, venham pra cima. Vou lançar cada um de vocĂȘs pelos ares. Entenderam? Estou furioso. NĂŁo pensem que vĂŁo sair impunes depois de me irritar. Sou um cara gentil, mas, sabem, uma vez que perco a paciĂȘncia, nĂŁo sossego atĂ© as coisas estarem resolvidas. Isso sĂł termina quando eu caio, ou todos vocĂȘs sĂŁo eliminados. NĂŁo gosto muito de matar, mas vocĂȘs… eu vou matar. Quero ver vocĂȘs levarem isso a sĂ©rio. Foi pra isso que vim, afinal. NĂŁo estou planejando voltar vivo. NĂŁo dĂĄ pra viver com medo de morrer. Se vocĂȘ vive com medo, nĂŁo aproveita o que hĂĄ pra aproveitar. Vou mostrar pra vocĂȘs. A chama brilhante da vida que queima dentro de mim. Quero ver a de vocĂȘs tambĂ©m. Vivam, lutem e morram aqui. Me entretenham. Se fizerem uma luta chata, nĂŁo vou deixar barato. Me matem. Se conseguirem, claro. Vou matar todos vocĂȘs. Vou lutar, lutar e matar vocĂȘs. Vamos começar? EstĂŁo prontos? Quem quer morrer? Quem vai me entreter? Eu aceito qualquer um de vocĂȘs. Gosto de quem me entretĂ©m. Amigo? Inimigo? Tanto faz. E aĂ? Por que ninguĂ©m vem? NĂŁo me digam que estĂŁo com medo. VocĂȘs sĂŁo tĂŁo patĂ©ticos assim? Mostrem coragem. Quero ver como vocĂȘs vivem e morrem!
â Eu que… duel… com… voc…
Aquilo… era uma voz?
Arnold saltou da colina. Ele fez isso com uma leveza que não deixava perceber seu verdadeiro peso. A própria personificação da morte havia descido. Era essa a impressão que passava.
Rock nĂŁo se mexeu. Arnold se aproximava.
Agora havia menos de um metro entre eles. Quando essa distĂąncia reduziu para cinquenta centĂmetrosânĂŁo, trinta centĂmetrosâArnold finalmente parou.
â Essa serĂĄ nossa segunda vez. â Finalmente, um tom de riso surgiu na voz de Rock. â Vamos lĂĄ, Arnold. Eu nĂŁo sou o mesmo de antes, entĂŁo Ă© bom se cuidar. Estou no auge da minha forma fĂsica e mental, sabe.
â Eu vo… mat… voc…
â Claro. Pode tentar.
LĂĄ estavam eles de novo. Falando lĂnguas diferentes. Como se entendiam?
Takasagi bateu a mĂŁo esquerda na testa e suspirou.
â VocĂȘs vĂŁo mesmo fazer isso?
â Uh-hm… â Arara estendeu a mĂŁo, hesitante. â E quanto a… mim…?
â Vou ser direto, Arara â Rock disse, ainda encarando Arnold. â Esse cara Ă© forte pra caramba. VocĂȘ nĂŁo tem a menor chance contra ele sozinha. Talvez vocĂȘ esteja disposta a perder e morrer. Eu nĂŁo. Vou vingar Tatsuru por vocĂȘ. Deixe isso comigo.
Em vez de insistir, Arara abaixou a cabeça. Haruhiro sĂł podia deduzir, mas talvez Arara estivesse bem ciente, desde o inĂcio, da dolorosa diferença de habilidade entre ela e Arnold. Mesmo que nĂŁo tivesse chance, talvez ela pretendesse fazer o mĂĄximo que pudesse e, depois, seguir atrĂĄs de Tatsuru. Se esse fosse seu plano, bem, era praticamente suicĂdio. No entanto, talvez Arara tivesse mudado de ideia, e isso abalara sua determinação de lutar atĂ© o fim. Se ela nĂŁo pretendia mais morrer, nĂŁo poderia lutar contra Arnold. Mesmo Haruhiro podia perceber que ele era um adversĂĄrio perigoso demais.
A ĂĄguia negra ergueu voo do ombro de Jumbo.
Parecia que estavam prestes a começar. Poderia acontecer a qualquer momento.
Mas, espera… isso…
Poderia ser a chance de Haruhiro?
Quando o duelo um contra um entre Rock e Arnold começasse, aliados e inimigos ficariam concentrados neles. Durante esse tempo, ele poderia escapar silenciosamente. Era possĂvel. NĂŁo, ele conseguiria. Ele iria.
Faltava apenas o momento certo. Quando ele deveria agir? Consultaria seus companheiros? Iriam todos? Ou apenas ele? Iria sem dizer uma palavra?
Jumbo se abaixou, sentando-se no chĂŁo com um joelho erguido.
A grande åguia negra ergueu-se diante deles, desaparecendo na névoa.
Todos prenderam a respiração e aguardaram o momento decisivo.
Quem faria o primeiro movimento? De qualquer forma, eles nĂŁo estavam prĂłximos demais uns do outros?
Haruhiro nĂŁo conseguia decidir o que fazer. Era seguro se mover agora? Estaria cedo demais?
Ele olhou para Ranta. Ainda usava o elmo, mas a viseira estava levantada. Parecia estar observando Rock e Arnold.
Se Ranta tivesse traĂdo completamente a party, talvez estivesse vigiando Haruhiro discretamente. Se notasse algo, poderia reportar a Jumbo ou a alguĂ©m. Isso seria ruim.
E… começaram.
Foi Arnold. Aquele morto-vivo tinha quatro braços. Enquanto se movia para trås, usou dois daqueles braços, um de cada lado, para desembainhar katanas.
Rock nĂŁo deu um Ășnico passo atrĂĄs. Ele rebateu as katanas com sua espada.
Ele avançou.
Arnold sacou outras duas katanas, parando e permanecendo imóvel. Quatro katanas e uma espada colidiam como se entrelaçassem umas nas outras.
Nem Rock nem Arnold se moviam, como se ambos estivessem fincados em seus respectivos lugares. Eles apenas continuavam trocando golpes.
Como isso era possĂvel? Especialmente Rock? Seu oponente empunhava quatro lĂąminas, entĂŁo como ele conseguia rebater todas com uma Ășnica espada?
TĂŁo rĂĄpido.
As quatro katanas e a espada aceleravam o ritmo.
Assustador.
Isso inevitavelmente desmoronaria em algum momento. Se qualquer um deles hesitasse, mesmo que um pouco, esse equilĂbrio ruiria. E, se alguĂ©m fosse vacilar, seria Rock.
Pensando normalmente, não havia como ele continuar defendendo ataques incessantes vindos de quatro direçÔes diferentes indefinidamente.
Mas veja.
Essa previsão estava completamente errada. Uma das katanas de Arnold quebrou e foi lançada ao ar.
No momento em que ficou com trĂȘs katanas, Arnold moveu-se suavemente para a esquerda. Rock guardou a espada na bainha e sacou outra.
Ele se aproximou e atacou.
Arnold bloqueou a sĂ©rie de ataques de Rock com suas trĂȘs katanas. Enquanto se defendia, movia-se cada vez mais para a esquerda, como se tentasse desviar o impulso de Rock.
De repente, Rock parou e trocou de espada novamente.
â Parece que meus movimentos estĂŁo afiados hoje. E vocĂȘ, Arnold? Vamos logo, comece a levar isso a sĂ©rio.
Haruhiro voltou a si. Tinha ficado observando, hipnotizado.
Isso era inesperado. Rock nĂŁo era simplesmente incrĂvel? Honestamente, Haruhiro achava que, no melhor dos casos, seria um empate, ou que Arnold teria a vantagem. Mas Rock tinha dito que estava em plena forma, entĂŁo talvez fosse isso.
SerĂĄ que ele conseguiria vencer? Rock estava prestes a ganhar? Talvez ele resolvesse isso de forma surpreendentemente rĂĄpida e fĂĄcil?
Se conseguisseâe entĂŁo?
Se dissesse: Muito bem, vencemos, agora devolvam a Mary, que estĂĄ presa, serĂĄ que conseguiria que eles aceitassem isso? Provavelmente seria esperar demais. Se o resto agisse como Rock, desafiando-os para um duelo e pedindo a devolução dela em caso de vitĂłria, talvez aceitassem. Mas quem lutaria? Haruhiro? Contra quem? Ranta estava dizendo que âaquela mulher pertence a mimâ ou algo assim. EntĂŁo, com Ranta, talvez?
â KYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY! â Arnold gritou.
Os pensamentos de Haruhiro foram interrompidos Ă força. Aquele som assustador. Arnold estava com os braços abertos e arqueado para trĂĄs. Estava vindo, lĂĄ vem, lĂĄ vem… Agora…!
Arnold deu um salto giratĂłrio. Era como se tivesse se tornado um redemoinho.
Provavelmente esse era Arnold lutando a sĂ©rio. NĂŁo era possĂvel. NĂŁo havia como defender isso. Rock precisava recuar, nĂŁo havia outra escolha.
Mas, claro, Rock nĂŁo recuou. Mais do que isso, ele avançou. Houve um estrondo incrĂvel, e Arnold foi empurrado para trĂĄs.
Como Rock conseguiu conter o ataque giratĂłrio de Arnold? Ele o rebateu? Haruhiro nĂŁo conseguia ver direito, entĂŁo nĂŁo sabia. Mas, de qualquer forma, estava completamente surpreso. A sequĂȘncia de surpresas continuava.
Mesmo depois de ser empurrado, Arnold continuou girando!
Assim, ele se aproximou de Rock novamente.
â Haha! â Rock finalmente riu.
Quebrou.
Uma das katanas se despedaçou.
Rock tinha empurrado Arnold para trås novamente e, além disso, quebrado outra katana.
â LĂĄ vai eu â disse Rock.
Ele trocou de espada mais uma vez e se aproximou de Arnold. Até então, estava usando a espada apenas com a mão direita, mas dessa vez segurou-a com as duas mãos.
â Ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora! â ele gritava.
Era uma sequĂȘncia rĂĄpida demais para o olho acompanhar. AlĂ©m disso, cada golpe vinha com uma força impressionante.
Ele estava pressionando Arnold. Talvez fosse até mais correto dizer que estava sufocando Arnold. Sim, isso fazia sentido.
As katanas. As espadas de Rock estavam focadas nas katanas de Arnold. Quando Arnold começava a balançar sua katana, Rock golpeava com sua espada. Arnold nem conseguia girar. Ele tinha problemas muito maiores.
Rock tinha duas espadas, mas usava apenas uma de cada vez. No entanto, o comprimento e a espessura das duas eram consideravelmente diferentes. Ao alternar entre as duas, dependendo da necessidade, ele dificultava a reação do oponente. Essa parte era um pouco fora do comum, mas, no resto, era um ataque direto.
Rock nĂŁo possuĂa uma tĂ©cnica especialmente refinada. Seus ataques e defesas eram, na verdade, bem definidos. Como ele era tĂŁo forte?
Ele tinha um porte pequeno, mas uma habilidade fĂsica elevada. Se isso fosse correto, talvez o segredo estivesse nos olhos. Rock tinha bons olhos. Sua visĂŁo cinĂ©tica era impressionante.
Ele nĂŁo estava apenas em boa forma. Rock jĂĄ havia enfrentado Arnold uma vez antes. Naquela ocasiĂŁo, ele observou os movimentos de Arnold.
Rock havia decifrado Arnold.
Provavelmente, por isso ele estava tĂŁo confiante. Rock sabia que, se lutassem uma segunda vez, ele poderia vencer. Mais do que isso, talvez desde o inĂcio tivesse planejado cruzar espadas com Arnold de leve na primeira vez e resolver tudo de uma vez na segunda.
A terceira katana quebrou.
Falta apenas uma.
Por um momento, Arnold parou de se mover. Ele havia sentido a derrota e sido tomado pela surpresa? Ou seria uma armadilha?
Seja como for, Rock nĂŁo se precipitou para dar o golpe final. Com a espada erguida nas duas mĂŁos, ele relaxou todos os mĂșsculos do corpo. Em meio a uma batalha tĂŁo intensa, nĂŁo era normal que ele conseguisse aliviar a tensĂŁo assim. Isso demonstrava domĂnio sobre sua mente e corpo.
Arnold balançou a katana contra ele. Rock imediatamente a rebateu.
No momento seguinte, Haruhiro duvidou de seus prĂłprios olhos.
Arnold segurava a katana com uma de suas duas mĂŁos direitas. Ele desferiu um golpe em Rock com as duas mĂŁos esquerdas vazias. Se fizesse isso…
Ă claro, o inevitĂĄvel aconteceu.
Rock cortou ambas as mãos esquerdas de Arnold com sua espada. Não foi com força suficiente para arrancå-las.
Uma das mĂŁos.
A espada de Rock cortou uma das mĂŁos esquerdas de Arnold e penetrou fundo na outra. Ele nĂŁo conseguiu separĂĄ-las.
Arnold podia estar sacrificando seu braço esquerdo numa tentativa de roubar a espada de Rock. De fato, a mão direita livre de Arnold estendeu-se em direção a Rock. Mas antes que sua espada fosse tomada, Rock a soltou e sacou a outra.
â Se vocĂȘ quer, Ă© toda sua.
A espada de Rock lançou a katana de Arnold pelos ares. Ele fez um corte superficial no ombro de Arnold. Um dos braços direitos estava bastante machucado.
Arnold cambaleou para trås. Cada passo que Arnold recuava, Rock avançava.
â Zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah! â Rock gritava.
Era unilateral.
Arnold fugia desesperadamente, tentando escapar. Ele nĂŁo dava as costas para Rock, mas nĂŁo por escolha; era porque nĂŁo conseguia.
â Ei â alguĂ©m sussurrou no ouvido de Haruhiro.
Haruhiro quase teve um ataque cardĂaco. Ele queria se elogiar por nĂŁo ter gritado e pulado. NĂŁo, talvez nem fosse algo tĂŁo digno de elogio.
Havia alguém atrås dele. Não estavam tocando-o, mas estavam tão próximos que era como se estivessem.
Pensar que ele não perceberia até estarem tão próximos. Ele estava tão absorto no duelo entre Rock e Arnold. Isso enquanto Haruhiro tinha coisas importantes a fazer. Ele era tão tolo.
Pelo tom da voz, ele tinha uma ideia de quem era.
Sem virar o rosto, Haruhiro disse: â …Sakanami-san?
â Eu sou seu substituto â respondeu Sakanami. â NĂŁo deixe que a luz da juventude se ofusque, pois Ă© uma maldição de alta densidade. NĂŁo deve ser manchada com sangue. Se tiver tempo para se arrepender, abrace a ambição. Seu coração vai se partir de qualquer forma.
â NĂŁo faz sentido nenhum, cara…
Mas Haruhiro entendeu o que ele queria dizer. Sakanami estava sugerindo: VĂĄ procurar Mary. Ele ia atuar como substituto de Haruhiro.
Meu substituto?
â …NĂŁo â sussurrou Haruhiro. â NĂŁo nos parecemos muito, Sakanami-san, entĂŁo, se trocarmos de lugar, vĂŁo perceber na hora que nĂŁo sou eu.
â Compartilhamos o mesmo sangue.
â NĂŁo, nĂŁo compartilhamos. NĂŁo tem como sermos parentes de sangue.
â Sua mentora Ă© a Barbara? Aquela mulher te amarra e te faz desmaiar?
â Ah, porque nĂłs dois somos ladrĂ”es? Isso Ă© um pouco simplista, nĂŁo acha?
â VocĂȘ consegue distinguir orcs de mortos-vivos? â perguntou Sakanami.
â Bem, nĂŁo tĂŁo bem assim, nĂŁo, â confessou Haruhiro.
Haruhiro compreendeu. Precisava fazer isso. Rock estava perseguindo Arnold. Ele não tinha confiança no sucesso, não podia prever o resultado, mas era agora ou nunca.
Onde estava Ranta? NĂŁo estava olhando para cĂĄ. Parecia estar acompanhando a luta entre Rock e Arnold. Kuzaku, Shihoru e Yume estavam iguais.
A grande ĂĄguia negra nĂŁo estava Ă vista. Talvez fosse exagero pensar que ela poderia estar vigiando Haruhiro e os outros de cima.
Haruhiro fez um leve aceno com a cabeça.
â Vou nessa.
â Trocamos de lugar na contagem de cinco, oito.
â …Por que nĂŁo um, dois?
â Cinco, oito.
Segurando a vontade de dizer: Escute quando as pessoas falam com vocĂȘ, Haruhiro se virou e trocou de lugar com Sakanami. Ao olhar, ficou surpreso com o que viu das costas de Sakanami. A postura, a posição do centro de gravidade, o jeito de ficar de pĂ©… era exatamente igual a Haruhiro. Ele estava imitando? Que tipo de talento especial era aquele? Chegava a ser perturbador.
Shihoru colocou a mĂŁo direita atrĂĄs das costas e fez um punho. Essa era Shihoru. Ela foi a Ășnica a notar. Ela estava silenciosamente se despedindo de Haruhiro, dizendo: DĂȘ o seu melhor, para incentivĂĄ-lo.
Haruhiro acenou com a cabeça.
Stealth. A névoa. Esta névoa que envolve o Vale dos Mil. Torne-se um com a névoa.
Primeiro, ele foi para o sul. Não havia ninguém ali.
Ele se esforçou para prestar o mĂnimo de atenção possĂvel ao duelo entre Rock e Arnold. Isso o distraĂa, por mais que tentasse ignorar.
NĂŁo tenha pressa.
Vai suave.
NĂŁo se apresse.
Não permita, sob nenhuma circunstùncia, que sua respiração se descontrole.
Meu coração estå sob controle.
Eu consigo.
Esse foi seu Ășltimo pensamento antes de entrar em pĂąnico.
â AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH! â Arnold virou um redemoinho novamente. Dessa vez, estava mais baixo. Dobrou o corpo, abaixando-se o mĂĄximo que podia, e girou como um piĂŁo.
â Oh?! â Rock deu uma cambalhota.
Arnold o derrubou? Aquilo nĂŁo era um pouco ruim?
Arnold rapidamente pegou sua katana e foi atrĂĄs de Rock. Rock se levantou e se preparou para revidar.
A espada de Rock e a katana de Arnold se quebraram.
Virou uma briga de socos. Se acabassem lutando corpo a corpo, quem teria vantagem? Haruhiro nĂŁo sabia ao certo. Contudo, a Ășnica coisa clara era que seria mais complicado do que uma luta com espadas e katanas que poderiam causar ferimentos letais. Com certeza ia ser uma bagunça.
NĂŁo hesite, repreendeu a si mesmo. VĂĄ.
Siga em frente.
Transforme seu coração em gelo. Não sinta nada agora.
Se vir algo com forma humanoide, apenas evite. Enquanto se certifica de nĂŁo ser visto, siga para o sul. Depois, para o oeste.
Se procurasse sem direção, jamais encontraria Mary. Com o mapa aproximado que tinha em mente, ele sabia, ainda que vagamente, o tamanho do acampamento da Forgan. Primeiro, tentaria focar sua atenção no centro.
Era como tentar agarrar uma nuvem. Talvez estivesse fazendo algo imprudente.
Isso talvez fosse imprudente da parte dele. SerĂĄ que estava tudo bem? Ele nĂŁo estava cometendo um erro?
Haruhiro afastou toda hesitação. Dependendo de como as coisas fossem, talvez fosse inĂștil.
Mary.
Mary.
Eu quero vocĂȘ.
Quero ouvir sua voz. Quero ver seu rosto. Quero que me chame de Haru. Quero saber que vocĂȘ estĂĄ segura o mais rĂĄpido possĂvel. SerĂĄ que estou agindo por impulso aqui? Sim, estou. SĂŁo meus sentimentos. NĂŁo consigo me livrar deles.
Não då. Meu coração estå tão acelerado que parece que vai explodir.
Calma. Mesmo que eu tirasse meus sentimentos da equação, nĂŁo poderia abandonar um companheiro. Em primeiro lugar, Mary Ă© nossa sacerdotisa, o centro da party. O quanto a ausĂȘncia de um curandeiro limita uma party? Aprendemos isso naquele outro mundo onde nĂŁo podĂamos usar magia de luz. Agora, quando finalmente voltamos para Grimgar, isso acontece. NĂŁo ter a Mary Ă© mais do que um incĂŽmodo.
Eu vou.
Para o centro do acampamento da Forgan.
â Nyaa.
Inspirando fundo, Haruhiro preparou seu estilete e a faca com guarda-mĂŁo, sem perceber.
Ele tinha ouvido o miado de um nyaa. Onde? NĂŁo estava longe. Estava perto.
Ali.
Adiante, à direita. Havia um nyaa cinza espiando com a cabeça para fora dos arbustos.
O nyaa cinza fez um miado silencioso para Haruhiro. Dizia que era um amigo.
Poderia confiar nele? Era difĂcil decidir.
Quando o nyaa cinza saiu dos arbustos, começou a andar de quatro. Foi um pouco à frente e, então, olhou para trås. Fez outro miado silencioso.
Haruhiro mordeu o canto dos lĂĄbios. â …Quer que eu te siga?
O nyaa cinza virou-se para frente e começou a correr a meio galope.
Tenho que ir, decidiu Haruhiro.
Intuição, era só isso que podia chamar. Mas havia, pelo menos, uma certa lógica por trås disso.
Os nyaas da Forgan estavam sendo contidos pelos nyaas de Setora. Isso significava que provavelmente era um dos nyaas de Setora. Setora sabia qual era o objetivo de Haruhiro. Aquele nyaa devia ter encontrado onde ela estava. Estava tentando levar Haruhiro até lå.
Dito isso, ele havia montado toda essa lógica enquanto seguia o nyaa cinza. Parecia lógico, mas ele só tinha juntado essas peças depois. A intuição veio primeiro.
No fim, foi bom ter seguido seus instintos. Porque, com o nyaa cinza guiando o caminho, ele sĂł precisou ter o mĂnimo de cautela, e pĂŽde focar-se em avançar enquanto cruzavam dois pequenos vales. AlĂ©m deles, havia um lugar como uma bacia, pequeno, mas amplo e profundo, provavelmente com mais de cem metros.
No canto dele, ela estava ali.
Era Mary.
Ela estava com a cabeça baixa, sentada no chão. Serå que estava acorrentada ou amarrada de alguma forma?
Perto dela, seria um humano? Era de uma raça que parecia humana, uma criança…? Seria? Havia uma criatura assim deitada, com a cabeça apoiada nos cotovelos. Estava guardando Mary? Se fosse o caso, ele nĂŁo podia estar dormindo. SerĂĄ que estava apenas descansando, sem nada para fazer?
Haruhiro e o nyaa cinza estavam espiando por trås de uma elevação no chão para ver como estava a situação, então ainda estavam a certa distùncia. O guarda de Mary ainda não os havia notado. Pelo que parecia, não havia mais nada se movendo.
O nyaa cinza olhou para Haruhiro. Quando Haruhiro assentiu, o nyaa cinza fez outro miado silencioso e saiu correndo.
Ainda não parecia real. Ele sentia como se seus pés não estivessem tocando o chão.
Mary estava ali. Viva. Ele deveria estar feliz, mas não sentia nenhuma emoção.
Estranho. Ele estava calmo? SerĂĄ que era isso? Ele precisava ajudar Mary. Certo. NĂŁo importava de que jeito; ele sĂł precisava fazer isso rĂĄpido.
Mary estava virada para o norte. O guarda, que parecia uma criança, estava a sudeste dela, a uns dois metros, com o corpo voltado para o noroeste.
Por trås. Ele iria se aproximar do guarda por trås. Não podia deixå-lo escapar. Também não queria que ele fizesse barulho. Derrubå-lo? Não, isso não era bom. Tinha esquecido o erro que cometeu em Waluandin?
O guarda tinha que morrer. Ele faria isso com um golpe.
Esse… nĂŁo Ă© uma criança, certo? Haruhiro pensou. Ă um guarda, entĂŁo nĂŁo pode ser. Provavelmente Ă© de uma raça que Ă© assim. AlĂ©m disso, mesmo que fosse uma criança humana, isso nĂŁo mudaria o que eu preciso fazer.
Eu vou matĂĄ-lo.
Eu consigo.
Haruhiro se aproximou cuidadosamente do guarda usando Stealth. A possibilidade de fazer barulho nem passava por sua cabeça. Sua maior preocupação era que o guarda, por acaso, olhasse em sua direção. Ou que Mary o visse e isso chamasse a atenção do guarda para sua presença.
NĂŁo havia como evitar acidentes como esse. Se acontecesse, ele resolveria rapidamente. Estava preparado. Mas ficou aliviado por nĂŁo ter chegado a esse ponto.
Haruhiro estava quase alcançando o guarda de aparĂȘncia infantil. Ele era baixo e gordo, tinha orelhas pontudas e cantarolava uma melodia alegre. Haruhiro nĂŁo precisava se preparar com um âUm, dois, jĂĄâ.
Ele se inclinou sobre o guarda e usou Spider. Com a mão esquerda, cobriu a boca do guarda, virou-o e enfiou a faca em sua garganta com a mão direita, então cortou. O guarda se debateu, mas jå era tarde. Enquanto Haruhiro usava toda sua força para segurå-lo, Mary ergueu o rosto. Quando olhou na direção dele, seus olhos se arregalaram.
â …Haru â ela sussurrou.
Haruhiro não sabia como responder. Para começar, ele sorriu. Devia ser um sorriso terrivelmente desajeitado. Afinal, o guarda ainda estava vivo. Lutando desesperadamente. Mas, claro, era tudo em vão. Finalmente, o guarda parou de se mover.

Haruhiro estava prestes a se afastar do guarda morto, mas pensou melhor. Mary estava algemada. A chave. Provavelmente o guarda tinha a chave.
Ele apressou-se a revistar o corpo do guarda. Esse sujeito realmente nĂŁo era uma criança. O osso do nariz era grosso, mas incrivelmente baixo, e o formato de sua cabeça, com a testa larga e pronunciada, era uma caracterĂstica distinta. Seus pelos grossos pareciam os de um animal.
Havia um cordão em volta do pescoço do guarda. Era ali. A chave estava pendurada no cordão.
Haruhiro correu até Mary e removeu suas algemas. Nenhum dos dois disse uma palavra. Não havia tempo para cortesias. Haruhiro estendeu a mão para Mary e a ajudou a se levantar.
Eles nĂŁo podiam voltar para a vila, Ă© claro. Haviam combinado um ponto de encontro com antecedĂȘncia. Aquela caverna. De onde estavam, era a nordeste. Devia ser por volta de oito quilĂŽmetros. Ele queria correr, mas Mary estava exausta. O melhor era nĂŁo se forçarem demais. Eles partiram imediatamente.
â Passei um aperto horrĂvel â disse Mary em voz baixa, dando uma risadinha.
Talvez ela estivesse tentando tranquilizar Haruhiro com uma piada. Mas ele queria ser o responsĂĄvel por tranquilizĂĄ-la.
âAperto horrĂvel.â O quĂŁo horrĂvel tinha sido? O que tinham feito com ela? Aquilo o incomodava. Mas qual o motivo para perguntar? Que bem isso traria? Pelo menos, agora nĂŁo era o momento.
â Agora vocĂȘ estĂĄ bem â disse Haruhiro.
â Sim.
â Queria ter chegado mais rĂĄpido.
â VocĂȘ foi bem rĂĄpido. Onde estĂŁo os outros?
â Ah, bem…
Honestamente, ele não podia dizer que não havia problemas, ou que ela não precisava se preocupar, porque isso não era necessariamente verdade. O que havia acontecido durante o confronto de Rock e Arnold? Como as coisas tinham se desenrolado a partir dali? Como estavam Shihoru, Yume e Kuzaku? Havia coisas demais desconhecidas, ou melhor, nada além de incógnitas. Mas o que importava?
Mary estava bem. O resto se resolveria de alguma forma. Eles conseguiriam superar. Iriam superar. Para isso, ele precisava manter a cabeça funcionando. Não relaxar. Porque ele não baixava a guarda, conseguiria detectar.
Haruhiro parou e levantou uma mão. Mary parou imediatamente também.
Perto dali, havia um buraco que provavelmente nĂŁo tinha nem um metro de profundidade. Os dois desceram para dentro dele e se sentaram.
Ele tinha ouvido.
Era fraco, mas era o som de um nyaa. Os nyaas da Forgan ainda estavam por perto? NĂŁo, provavelmente nĂŁo. Era o nyaa de Setora. Seria um sinal? Estaria tentando dizer algo para Haruhiro? O quĂȘ?
â Ei! â chamou uma voz.
Ah, entĂŁo era isso. O nyaa provavelmente estava tentando avisar Haruhiro que o dono daquela voz estava se aproximando.
â Sei que vocĂȘ estĂĄ aĂ, Haruhiro! Saia daĂ, seu pedaço de merda!
Mary se encolheu perto dele. Estava tremendo. Sua respiração ficou subitamente descompassada.
Haruhiro espiou para fora do buraco. Era isso? A voz vinha do leste. Ele podia ver silhuetas. Não estavam longe. Estavam obscurecidas pela névoa, mas não estavam a mais de cinquenta metros de distùncia.
E nĂŁo estavam sozinhos. Quatro… nĂŁo, cinco pessoas.
Isso nĂŁo era bom. Se fossem fugir, teriam que fazer isso rĂĄpido. Aqueles caras estavam cada vez mais perto. Quanto mais se aproximavam, menores as chances de escaparem.
Ele havia tomado a decisĂŁo errada. De que adiantava se esconder? Eles deveriam ter corrido imediatamente. Ele falhou.
Deveria servir de isca para Mary escapar sozinha? Mary nĂŁo conhecia a ĂĄrea, entĂŁo a probabilidade esmagadora era que ela se perdesse. Eles a pegariam eventualmente. Precisavam fugir juntos.
Por que Haruhiro hesitava assim? Ele sabia. Porque, se chegassem a esse ponto, provavelmente nĂŁo conseguiriam escapar. Pelo menos, uma abordagem Ăłbvia nĂŁo funcionaria. A menos que algo acontecesse, ou que ele fizesse algo acontecer, eles nĂŁo conseguiriam fugir.
Para Haruhiro, isso significava que ele precisava fazer algo acontecer. NĂŁo fazia ideia do quĂȘ, mas faria alguma coisa.
â Mary, quando eu der o sinal, corra â disse ele com urgĂȘncia. â Comigo.
Mary respirou fundo. â …Entendi.
Mesmo que ele dissesse: VĂĄ sozinha, nĂŁo havia chance de Mary concordar. De qualquer forma, eles ficariam juntos. Ele nĂŁo deixaria Mary sozinha nunca mais. De jeito nenhum.
â Saia daĂ, Haruhiro!
â Pare de gritar. â Haruhiro nĂŁo apenas levantou a cabeça, mas saiu do buraco.
Isso é o pior, pensou, sentindo o coração afundar.
Com o grupo que incluĂa Ranta estava o homem de meia-idade, de um braço sĂł e um olho sĂł, chamado Takasagi. AlĂ©m dele, havia dois orcs e o homem magro, com um semblante doentio e orelhas longas, que parecia ser um elfo.
Ranta, pensou Haruhiro. Droga, Ranta.
Os orcs e o elfo poderiam até ser ignorados, mas por que, de todas as pessoas, ele tinha que trazer Takasagi? Aquele velho era claramente problema.
Takasagi segurava seu cachimbo na boca e coçava a nuca com a mão esquerda. Entre ele e Haruhiro, quem tinha os olhos mais sonolentos?
Quando Takasagi parou e apontou para a esquerda e para a direita com o queixo, os dois orcs foram para a direita, e o elfo foi para a esquerda.
â Ei, Parupirorin. â Ranta foi andando direto atĂ© ele. â Onde estĂĄ a Mary?
â NĂŁo sei.
â Aposto que ela estĂĄ por aĂ em algum lugar. Escondida.

Haruhiro nĂŁo respondeu, segurando o cabo de seu estilete. Devo fazer isso? Posso lutar com ele?
â Eu vejo atravĂ©s de vocĂȘ. â Ranta baixou a viseira e sacou a RIPer. â Cada pensamento que vocĂȘ tem.
â …Como o quĂȘ?
â Desde o começo, vocĂȘ planejava sair de fininho e salvar a Mary, nĂŁo era? Esperei e esperei, mas vocĂȘ nĂŁo fazia isso, entĂŁo pensei que tivesse ficado com medo.
â Como se euâ
Droga.
Suas mĂŁos estavam fracas. NĂŁo eram sĂł as mĂŁos. Era o corpo todo.
Isso estĂĄ certo?
Ranta.
Isso estĂĄ mesmo certo para vocĂȘ…?
â Takasagi. â Ranta inclinou-se um pouco para frente, preparando a RIPer. â Deixe que eu o mate. Tenho que provar minha lealdade. VocĂȘ estĂĄ bem com isso, nĂŁo estĂĄ?
â Faça o que quiser. â Takasagi deu de ombros. â Mas, deixe-me dizer, eu nĂŁo duvido particularmente de vocĂȘ.
â Mentiroso. Bem, tanto faz. Logo vou fazer vocĂȘ acreditar em mim.
…Ah, pensou Haruhiro. Entendi.
EntĂŁo Ă© isso.
Haruhiro sacou não apenas seu estilete, mas também a faca com guarda-mão.
Ranta avançou para cima dele. Leap Out.
EntĂŁo, de fora de seu alcanceâ
â Hatred!
Haruhiro avançou, deslocando-se de forma diagonal para a direita, conseguindo desviar por pouco. Evitar o golpe com uma margem maior estava além de suas capacidades. A ofensiva era uma aterradora e precisa cortada, repleta de vigor. Se ele nunca tivesse testemunhado essa técnica antes, poderia ter sido atingido. Mas ele jå a conhecia.
Mais do que isso, ele tinha visto Hatred de Ranta com seus próprios olhos, centenas de vezes, talvez mais de mil até agora. Ele estava observando todo esse tempo.
Mas agora que estĂĄ voltado contra mim, Ă© tĂŁo difĂcil assim?
DoĂa. Sentia como se seus nervos estivessem expostos.
Ranta usou outro Leap Out, tentando alcançar o flanco de Haruhiro. Sua especialidade era combinar isso com um Slice.
NĂŁo vou deixar, pensou Haruhiro. VocĂȘ nĂŁo vai me derrotar.
Haruhiro continuou se movendo para manter Ranta diretamente Ă sua frente. Por mais que ele se movesse, Ranta sempre estava se movimentando agilmente ao redor com Leap Out. Ele brandia a RIPer e atacava com estocadas. Haruhiro nĂŁo conseguia respirar direito.
Ele era rĂĄpido. Ou melhor, era ofuscante. Isso estava complicado.
Haruhiro conhecia todas as cartas na mĂŁo de Ranta, entĂŁo ainda conseguia lidar de alguma forma. Se nĂŁo conhecesse Ranta, jĂĄ teria levado um ou dois golpes hĂĄ muito tempo. AtĂ© conseguir entender seu estilo, seria uma luta difĂcil. Poderia ser derrotado, incapaz de aguentar tempo suficiente.
Ele precisava se levar a sério, ou estaria em apuros. Não, ele jå estava sério, e estava usando tudo o que tinha para desviar. Isso não era o suficiente.
Se ele nĂŁo tivesse a intenção sĂ©ria de derrotar Ranta, poderia ser derrotado. Precisava adotar uma abordagem de âmate antes de ser mortoâ. NĂŁo podia ficar na defensiva desse jeito. Se fosse para atacar, quanto mais cedo, melhor. Enquanto ainda estava ileso.
â Nuwah! â Ranta usou Leap Out para tentar ir para o lado esquerdo de Haruhiro.
Haruhiro avançou em um movimento diagonal para a esquerda.
Ele passou por Ranta e se virou.
Chegou lĂĄ.
AtrĂĄs dele.
Ele o pegaria rapidamente com Backstab ou Spider, eâ
â Missing! â Ranta tremulou e desapareceu.
NĂŁo, ele estava usando um estilo de movimento particular, que fazia seu oponente, ou seja, Haruhiro, alucinar.
Esquerda. Da esquerda.
Ele veio.
Imediatamente, Haruhiro interceptou a RIPer de Ranta com seu estilete. Tinha certeza de que seria repelido com o Reject. Antes disso, Haruhiro saltou para trĂĄs para ganhar distĂąncia entre eles.
Sem perder tempo, Ranta avançou. Como esperado. Se continuasse a se esquivar, Haruhiro ficaria sem fÎlego primeiro. Ele usaria Swat.
Swat. Swat. Swat. Swat. Swat. Swat. Swat. Swat. Swat.
Droga!
Ranta.
Cada ataque dele Ă© mais forte do que eu pensava.
â Fraco! Fraco! Fraco! Fraco, fraco! O que foi?! Por que estĂĄ tĂŁo fraquinho, hein?!
Ugh. Cala a boca. VocĂȘ Ă© irritante. VocĂȘ Ă© sĂł o Ranta. Droga, Ranta estĂșpido.
Era compatibilidade. Ele sabia que sua personalidade nĂŁo combinava com a de Ranta, mas ele tambĂ©m era um adversĂĄrio ruim para lutar. Ranta era o tipo que lutava com agilidade, variação e pela quantidade de movimentos que tinha Ă disposição. Assim como Haruhiro conhecia Ranta, Ranta conhecia Haruhiro tambĂ©m, entĂŁo era quase impossĂvel pegĂĄ-lo por trĂĄs em uma luta um contra um. Se nĂŁo pudesse surpreendĂȘ-lo, nĂŁo conseguisse torcer suas articulaçÔes para trĂĄs e nĂŁo fosse mais rĂĄpido que ele, como exatamente deveria vencer?
SerĂĄ que eu nĂŁo posso vencer…?
Perder para o Ranta?
Haruhiro era um ladrão. LadrÔes, ao contrårio dos cavaleiros das trevas, não eram especialistas em combate. Eles não eram adequados para lutas diretas desde o começo. Mesmo seu equipamento era leve e sutil. Era por isso que estava indo desse jeito. Haruhiro não era de forma alguma inferior a Ranta. Não, não importava quem era melhor ou pior. No entanto, antes de se preocupar com o fato de odiar perder para Ranta, ou de como não queria perder, havia o problema mais pråtico de que, se perdesse, estava acabado.
Ele tinha que vencer. Precisaria arriscar tudo. Como fez quando derrotou o orc na Montanha do DragĂŁo de Fogo. Precisava aceitar isso. Se o poder de Ranta era dez, Haruhiro era sete, talvez oito no mĂĄximo. NĂŁo era tĂŁo ruim quanto com o orc na Montanha do DragĂŁo de Fogo, mas Ranta era mais forte que Haruhiro. Ainda assim, havia coisas que ele podia fazer. Poderia acabar machucado e cheio de hematomas tambĂ©m, masâ
EstĂĄ tudo bem, nĂŁo Ă©? Pensou Haruhiro. Ranta, vocĂȘ estĂĄ bem com isso? Sabe, nĂ©? Eu nĂŁo posso me segurar, certo?
Como Haruhiro havia derrotado o orc na Montanha do DragĂŁo de Fogo era algo que Ranta nĂŁo tinha visto. Isso significava que ele nĂŁo tinha visto Haruhiro dando absolutamente tudo de si. Ranta nĂŁo conseguiria lidar com isso.
Swat.
Swat.
Swat.
Swat.
Cada vez que usava Swat, seus sentidos ficavam mais aguçados.
Ranta deu uma grande balançada com a RIPer. Foi de propósito.
Haruhiro nĂŁo cairia naquela isca. Ainda nĂŁo. NĂŁo era o momento. Ele sĂł usou Swat.
â Heh! â Ranta riu e usou um leve Exhaust, saltando para trĂĄs e aumentando a distĂąncia entre eles. â Cara, o que vocĂȘ tĂĄ tentando fazer? Beleza. Pode vir. Isso nĂŁo vai funcionar comigo. Vou provar aqui que, no fim das contas, vocĂȘ nĂŁo consegue me vencer!
â Tanto faz. SĂł vem, Ranta.
â NĂŁo precisa me dizer isso!
Ranta avançou contra ele com Leap Out. A postura era para usar Anger. Ele ia encadear aquele golpe em um combo. Haruhiro não deixaria.
Assault.
Superando seus limites, Haruhiro avançou com uma velocidade que surpreendeu Ranta.
A ponta de RIPer roçou a bochecha esquerda de Haruhiro. Usando sua faca com guarda-mão, Haruhiro aplicou um Slap na mão esquerda de Ranta.
Ele bateu o pomo do estilete na testa de Ranta, que usava um elmo, enquanto derrubava sua perna esquerda com uma rasteira.
Ranta caiu para trĂĄs. Nesse ponto, Haruhiro jĂĄ estava atrĂĄs dele. NĂŁo estava raciocinando de forma consciente; mesmo sem pensar, seu corpo agia por conta prĂłpria.
Ele enfiou o estilete no ombro direito de Ranta.
â Agh! â Ranta gemeu e soltou RIPer.
Enquanto puxava o estilete de volta, Haruhiro envolveu o pescoço de Ranta com o braço esquerdo. Mesmo com a viseira abaixada, o elmo tinha aberturas para ver atravĂ©s. Se ele enfiasse o estilete aliâ
Se ele enfiasse o estilete aliâ
Se ele fizesse issoâ
â Haru! â uma voz gritou.
Haruhiro puxou o estilete para trĂĄs.
â NĂŁo…!
Mary. Ela estava de pé, gritando.
â Haruhiro! â Ranta se soltou do braço esquerdo de Haruhiro. â Seuâ
â Ur… â Um dos orcs caiu, segurando o rosto.
Era uma flecha.
O rosto do orc tinha sido atingido por uma flecha, provavelmente no olho.
â HĂŁ?! â Takasagi sacou sua katana, derrubando algo no ar.
Esse algo era uma flecha. Alguém estava disparando flechas de algum lugar.
Haruhiro correu. Quem quer que fosse, qualquer que fosse o objetivo, não importava. Por ora, algo tinha acontecido. Graças a isso, uma chance em mil tinha surgido.
Mary jå estava correndo também.
Haruhiro logo a alcançou.
â Drogaaaa! Haruhiroooo! Marryyyyy! â Os gritos de Ranta ficavam mais distantes a cada segundo.
E os outros? Estariam perseguindo? Mesmo que estivessem, Haruhiro os despistaria.
Haruhiro corria, continuando a perceber apenas a presença de Mary ao seu lado. Seu corpo estava pesado devido à sensação de letargia, efeito colateral do Assault. O que era um pouco de peso? Não iria matå-lo.
Quando percebeu, a névoa havia ficado mais espessa. Mesmo sem ver o sol e tendo perdido toda a noção de direção, Haruhiro não parou. Norte. Ele sabia que devia estar indo em direção ao norte.
Provavelmente nĂŁo tinham perseguidores. Pelo menos, ele achava que nenhum estava por perto.
â VocĂȘ me deve, novato. â Surpreendentemente, havia uma voz. Haruhiro nĂŁo tinha conseguido contar com suas prĂłprias habilidades de detecção. Parte disso era porque ele havia enfrentado um oponente difĂcil.
Haruhiro parou e olhou ao redor. â …Kuro-san?
Uma årvore à esquerda balançou, e houve um farfalhar de folhas. Quando olhou para cima, viu Kuro sentado em um galho.
â O Moyugi me mandou ajudar vocĂȘs, entendeu? Ele disse pra eu dar uma força. Fique Ă vontade para me agradecer, viu?
â Bem, claro que eu estou agradecido â disse Haruhiro. â Aquilo antes, foi vocĂȘ, Kuro-san?
â …Quem? â Mary o encarou, enquanto arfava com cada respiração.
â AhhâEle Ă© dos Day Breakers… Basicamente, isso faz dele nosso aliado, ou, se preferir, um companheiro.
â Sou o cara que salvou sua vida, nĂŁo? Se quer simplificar.
â Acho… que sim â Haruhiro suspirou, balançando a cabeça logo em seguida.
Isso nĂŁo era bom. Sentia que ia relaxar. Ainda era cedo demais para baixar a guarda.
â …Como estĂŁo Rock e os outros?
â NĂŁo sei. Bom, tenho certeza de que estĂŁo indo bem. Tudo saiu conforme o plano do Moyugi, como sempre. â Kuro apoiou a mĂŁo em um galho, pendurou-se e desceu ao chĂŁo com um âUfâ. Depois, bocejou e se espreguiçou. â Certo. Bem, atĂ© mais, novato.
â …HĂŁ? Aonde vocĂȘ vai?
â Trabalhei um pouco demais hoje. Vou arrumar um lugar para dormir. Estou cansado, afinal de contas. Ah, sim. VocĂȘs estavam planejando se encontrar naquela caverna, nĂ©? â Kuro apontou para frente e para a direita. â Ă pra lĂĄ. Uns seis quilĂŽmetros daqui. Bom, Ă© isso, tchau.
â …Certo.
Kuro acenou para eles e desapareceu na nĂ©voa. Talvez pudessem tĂȘ-lo parado e pedido mais direçÔes, mas Haruhiro nĂŁo sentia vontade de fazer isso. Na verdade, ele nĂŁo sentia vontade de nada.
Suas mãos tremiam um pouco. Seus pés não se moviam.
Por que ele estava ali, parado, com a mente em branco? Bem, na verdade, ele nĂŁo estava com a mente vazia.
EntĂŁo, o que estava sentindo?
â Haru, vocĂȘ estĂĄ bem?
Ele sentiu a mĂŁo de Mary em suas costas.
Haruhiro assentiu. Dar aquele aceno foi o mĂĄximo que conseguiu fazer.
SerĂĄ que Haruhiro teria matado Ranta se Mary nĂŁo o tivesse impedido? No fim das contas, talvez ele nĂŁo tivesse conseguido. Ou talvez tivesse feito.
Ranta tinha mesmo a intenção de matar Haruhiro?
Parecia que sim, mas talvez estivesse planejando mostrar misericĂłrdia no Ășltimo instante.
De qualquer forma, Haruhiro havia ferido Ranta com seu estilete. NĂŁo fora apenas um arranhĂŁo. Fora um ferimento profundo. Se nĂŁo tratado adequadamente, era bem possĂvel que se tornasse algo realmente sĂ©rio. Era uma ferida grave. NĂŁo era o tipo de coisa que vocĂȘ fazia a um companheiro.
Haruhiro queria se agachar. Se se abaixasse, certamente Mary o animaria. Ela o consolaria. Talvez até o abraçasse. Haruhiro queria isso. Para ser sincero, ele queria muito. Mas ele não podia fazer isso.
NĂŁo queria se aproveitar da bondade de Mary. NĂŁo seria apropriado para Haruhiro agir assim. Ele nĂŁo tinha esse direito.
Obviamente, ele nĂŁo podia perdoar Ranta. NĂŁo importava o que acontecesse com Ranta, ele merecia. Ainda assim, pelo menos no momento, ele nĂŁo estava pronto para perdoar o que tinha feito com suas prĂłprias mĂŁos e nĂŁo estava disposto a se perdoar.
Ele nĂŁo queria aceitar que Ranta nĂŁo era mais seu companheiro.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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