Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 19 – Volume 7

Home/Light Novel / Hai to Gensou no Grimgar / Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 19 – Volume 7

Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – CapĂ­tulo 19:
[O Arco-Ă­ris do Outro Lado]


Todos os orcs estavam com panos decorativos amarrados sobre os ombros e pintados com tintas vermelhas e pretas. Homens, mulheres, jovens e velhos. Havia orcs batendo em tambores, outros tocando instrumentos de corda, e alguns soprando em flautas. Todos, inclusive as crianças, batiam palmas, pisavam no chão e cantavam em uníssono.

Os orcs que carregavam bastĂ”es com desenhos de dragĂ”es nĂŁo estavam cantando, mas sim dizendo algo em voz alta. O jeito que falavam no ritmo, com gestos de mĂŁos e corpo, parecia que estavam dando um discurso ou regendo os mĂșsicos e cantores.

Eles estavam incrivelmente animados, e, embora parecesse que a qualquer momento tudo poderia desmoronar, havia uma unidade impressionante. Eram selvagens, mas de forma alguma grosseiros. Na verdade, era algo extremamente refinado. Até bonito. O som era arrebatador.

NĂŁo, Haruhiro pensou, balançando a cabeça enquanto se escondia atrĂĄs da cerca de um cercado gigante de lagartas. NĂŁo ouça isso. É incrĂ­vel, eu sei que vale a pena escutar, mas nĂŁo posso. NĂŁo Ă© hora de me apaixonar por uma mĂșsica.

Haruhiro espiou por trĂĄs da cerca para ver os orcs comemorando na praça central da aldeia. Na verdade, ainda era meio-dia, mas os orcs adultos jĂĄ estavam bebendo, e as crianças tambĂ©m estavam agitadas. AlĂ©m disso, ele estava a mais de vinte metros da praça. Mesmo durante o dia, eles nĂŁo conseguiriam vĂȘ-lo a essa distĂąncia. NĂŁo havia como serem descobertos.

Haruhiro acenou com a mão, sinalizando para Ranta e os outros. Então, deu o sinal para Lala e Nono. Houve um pequeno incidente em que Yume acertou a cabeça de Ranta, que estava distraído olhando para longe, e quando ele tentou reclamar, Mary o golpeou com o cabo de seu cajado. Mas todos se abaixaram e seguiram em frente.

No caso de Kuzaku, sua armadura fazia um barulho bem alto enquanto se movia. Mas o som do festival encobria, o que tornava o arranjo perfeito.

Haruhiro assentiu e seguiu para o próximo ponto. Ele confirmou que estava seguro, então chamou seus companheiros, além de Lala e Nono. Era um trabalho chato e repetitivo, então ele ficou um pouco surpreso que não só seus companheiros, exceto o Ranta (aquele lixo), mas também Lala e Nono seguiram suas instruçÔes sem dizer uma palavra. Mas não havia como saber quando poderiam se virar contra ele.

Lala tinha um relĂłgio de bolso, o que permitia medir o tempo com relativa precisĂŁo. Esse festival barulhento havia começado trĂȘs horas depois do pĂŽr das chamas no cume. Haruhiro e os outros entraram na ĂĄrea da aldeia uma hora depois, e passaram mais uma hora e meia avançando em direção a Waluandin.

Aliås, segundo Lala-sama, o tempo desde o nascer do sol, ou nascer das chamas, até o pÎr do sol, ou pÎr das chamas, era de aproximadamente dez a quinze horas, e o tempo de pÎr das chamas até o nascer das chamas também variava de dez a quinze horas. Havia variação na duração do dia e da noite, mas somando tudo, dava cerca de vinte e cinco horas. Isso significava que um dia em Darunggar era uma hora mais longo que um dia em Grimgar.

De qualquer forma, em mais uma hora e meia, estariam fora da ĂĄrea das aldeias… ou pelo menos era isso que Haruhiro estava pensando quando outro incidente ocorreu.

Merda, pensou Haruhiro. É um dragão.

O dragĂŁo estava vindo de Waluandin!

Para ser mais preciso, o dragĂŁo era… um modelo…?

Tinha mais de trĂȘs metros de altura e mais de dez metros de comprimento. Era bem grande. Estava pintado de vermelho e preto, como os corpos dos orcs, e suas cavidades oculares estavam preenchidas com gemas amarelas cintilantes, ou algo semelhante. Seu pescoço, mandĂ­bula, corpo, cauda e quatro membros eram todos mĂłveis, e mais de trinta orcs cobertos com trajes negros o carregavam e o manipulavam com bastĂ”es.

Quando o dragĂŁo portĂĄtil apareceu, os orcs da aldeia ficaram super animados. Provavelmente era mais uma parte do Festival do DragĂŁo de Fogo. Houve mais cantoria e mĂșsica, e os gritos dos orcs com os bastĂ”es de dragĂŁo ficaram mais altos. As crianças orcs correram apavoradas, e algumas choravam e gritavam. As mulheres, que provavelmente eram as mĂŁes, riam enquanto consolavam seus filhos.

Ranta estava claramente se coçando para participar das festividades, mas obviamente isso estava fora de questão. Haruhiro seguiu em direção a Waluandin. Com a agitação, era impossível serem descobertos. Esse era o objetivo deles, e a razão pela qual haviam esperado o começo do Festival do Dragão de Fogo.

A årea da aldeia era barulhenta praticamente em qualquer lugar que fossem, mas o barulho também estava concentrado em certos pontos. Todos os orcs agricultores das aldeias ao redor estavam reunidos em vårias praças com suas famílias. Eles cantavam, tocavam instrumentos, aproveitavam o dragão portåtil quando ele era trazido e ficavam completamente eufóricos. Todo o resto estava deserto, sem ninguém à vista, seja orc ou pessoa. Mesmo assim, Haruhiro não relaxou. Ele fazia questão de não se apressar, sempre tomando os devidos cuidados antes de avançar. Era tão meticuloso que até ele próprio ficou exasperado consigo mesmo.

Waluandin estava fervilhando com o espírito festivo. No entanto, parecia ser um feriado, pois não havia sinal de waluos no distrito das oficinas ou na mina. As oficinas dos ferreiros tinham armazéns espalhados aqui e ali. Ele encontrou um que não era muito grande nem muito pequeno, usou Picking para destrancar a fechadura e decidiu uså-lo como um local para se esconder temporariamente.

Ranta, Shihoru, Yume, Mary, Kuzaku e Lala ficaram de prontidão. Quando Haruhiro e Nono se separaram para fazer reconhecimento, descobriram que a situação em Waluandin era basicamente a mesma da årea da aldeia. Os waluos estavam concentrados nas ruas principais, cantando, se apresentando, dançando e fazendo barulho. Cada waluo vestia tecidos decorativos e tinha pintura corporal, e um a cada vinte ou trinta carregava um daqueles bastÔes de dragão e estava com trajes festivos completos. Havia comida e bebida espalhadas por toda parte, e os waluos pareciam livres para pegar o que quisessem.

Haruhiro voltou para onde seus companheiros estavam escondidos, camuflando seus passos e andando pelos becos da årea residencial. Não havia ninguém, nenhum orc, nem alma viva à vista. Cada casa estava vazia. Dito isso, ainda poderiam haver waluos que estavam em casa por algum motivo. Ele não podia baixar a guarda. Haruhiro se manteve atento enquanto entrava no beco.

Ele engoliu em seco.

Havia um orc claramente muito jovem e magro, agachado ali. O waluo estava segurando a cabeça com as duas mãos. Ele estava pintado, mas tinha tirado o tecido decorativo, que estava enrolado de forma desordenada aos seus pés.

O que eu faço? O que eu faço? O que eu faço? Haruhiro se perguntou isso mais de dez vezes em um segundo. E então encontrou sua resposta. Haruhiro decidiu voltar silenciosamente. Foi nesse exato momento que o waluo olhou em sua direção.

O waluo inspirou fundo, tentando gritar. O corpo de Haruhiro se moveu sozinho, e ele avançou no waluo. Derrubou-o no chão e o estrangulou.

Se ele fizesse isso em pé, o waluo poderia bater a cabeça ou outra parte do corpo na parede ou no chão de maneira perigosa, enquanto se debatia. Se ele o imobilizasse primeiro, estaria mais ou menos seguro. O braço direito de Haruhiro estava firmemente envolto no pescoço do waluo. Ele estava apoiando o braço direito com a mão esquerda, então não seria fåcil escapar.

O waluo tentou arranhar o rosto de Haruhiro com as duas mĂŁos, mas ele conseguiu evitar de alguma forma.

Eu consigo fazer isso, Haruhiro disse a si mesmo. Parece que vai funcionar. Certo. Ele desmaiou. O waluo havia desmaiado, com as presas Ă  mostra. A força tinha sumido completamente de seu corpo. NĂŁo havia dĂșvida. NĂŁo era fingimento; ele estava realmente inconsciente.

Haruhiro o virou de lado e se levantou. Estava prestes a sair, mas entĂŁo…

NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo… Haruhiro balançou a cabeça. Isso Ă© suficiente? Quer dizer, claro, ele estĂĄ inconsciente. Provavelmente vai ficar apagado por um bom tempo. Mas nĂŁo posso simplesmente deixĂĄ-lo assim, certo? Tenho que fazer algo. ImobilizĂĄ-lo? AmarrĂĄ-lo? Ou… fazer com que ele nunca mais acorde? EliminĂĄ-lo?

— …Droga. — Haruhiro pressionou a palma da mĂŁo na testa.

Eu não sei o que fazer. Estou dividido. Estou hesitando. Esse jovem orc estava sozinho. Mesmo no meio do Festival do Dragão de Fogo. Por que ele estava sozinho em um lugar como este? Será que ele não gostava de grupos? Um solitário? Talvez estivesse sendo intimidado? Pode ser. Mas nada disso importa. Ele me viu. Seria perigoso deixá-lo viver. Vou matá-lo. Um golpe rápido. É só fazer isso.

Com isso feito, Haruhiro saiu do beco e apressou-se em voltar para o esconderijo.

NĂŁo deixa isso me abalar. Stealth, Stealth. Concentra. Se aconteceu uma vez, pode acontecer de novo. Posso encontrar outro waluo. TĂĄ tudo bem. Eu resolvi isso direitinho. TĂĄ tudo bem. Sem problemas. Que coisa… Essas coisas podem acontecer. Caramba, ele me pegou de surpresa. Preciso tomar mais cuidado. Claro. Vou tomar cuidado, certo? Vou tomar muito cuidado. Obviamente. Isso nem precisa ser dito. CĂ©us…

Haruhiro se virou e olhou para trås. Nono estava lå. Parado como um cadåver. Não, cadåveres não ficam de pé. Diziam muitas vezes que Haruhiro tinha olhos sonolentos, mas os de Nono pareciam os de um homem morto. Estava olhando para Haruhiro, ou não? Não tinha como saber.

Haruhiro fez uma leve reverĂȘncia e levantou uma mĂŁo.

— …E aĂ­.

A cabeça de Nono girou para a direita e depois lentamente para a esquerda. Sua expressão não mudou. Ou melhor, por causa da måscara, Haruhiro não conseguia ler absolutamente nada.

Hum, vocĂȘ Ă© meio assustador…

— Hm… Quer voltar… lĂĄ? — Quando Haruhiro hesitante apontou para o esconderijo, Nono assentiu. Ele sabia que o homem nĂŁo falava, mas Haruhiro nĂŁo pĂŽde deixar de pensar: Diz alguma coisa! Talvez a mĂĄscara parecida com um arnĂȘs o impedisse de falar, no entanto.

O caminho de volta com Nono foi estranhamente tenso. Quando foi que Nono tinha ficado atrås dele? Haruhiro tinha se virado porque notou a presença de Nono? Ou foi só porque ele teve uma sensação vaga? Ele não tinha certeza.

Finalmente chegaram ao esconderijo no armazĂ©m. Nada parecia fora do comum. Quando entraram, Ranta, que estava sentado no canto, se levantou de repente e disse: — Ei!

Foi aĂ­ que aconteceu.

Nono de repente o agarrou pelo pescoço.

Foi um golpe surpresa, e Haruhiro nĂŁo teve como se esquivar. Mesmo que tivesse antecipado, nĂŁo tinha certeza se conseguiria evitar.

Nono pressionou sua boca mascarada perto do ouvido de Haruhiro. Sua voz, Ă© claro, estava abafada. Parecia um gemido. Era realmente difĂ­cil entender o que ele dizia, mas, por algum motivo, Haruhiro entendeu claramente o que ele quis dizer.

Quando Haruhiro respondeu: — …Entendi — Nono o soltou.

Nono foi até Lala e imediatamente se colocou de quatro. Ele tinha acabado de voltar, mas jå estava se tornando uma cadeira novamente. Lala não lhe dirigiu palavras de agradecimento. Em vez disso, sentou-se impiedosamente nas costas de Nono, como se isso fosse algo perfeitamente normal, e cruzou as pernas. Ela parecia satisfeita.

Haruhiro caminhou até Ranta e os outros, arrastando os pés como um cadåver.

— O-O que foi isso…? — perguntou Shihoru, preocupada.

— …Nada. — Haruhiro balançou a cabeça. — NĂŁo foi nada.

— Ele te disse alguma coisa? — Ranta indicou Nono com um olhar. — Pera, esse cara consegue falar? Bom… Acho que deve conseguir.

— Não chama ele de “esse cara” — corrigiu Haruhiro, sem muita energia. — É Nono-san, ok?

— C-Certo — disse Ranta. — Mas, cara, vocĂȘ tĂĄ bem? TĂĄ agindo estranho, sabia? Aconteceu alguma coisa?

— Haha… Se atĂ© vocĂȘ estĂĄ preocupado comigo, entĂŁo eu realmente estou acabado…

— VocĂȘ Ă© um cara muito rude, sabia? — Ranta retrucou. — Eu posso nĂŁo parecer, mas sou cheio de amor, tĂĄ? Sou o Cavaleiro do Amor, entendeu?

— VocĂȘ ama o Haruhiro? — perguntou Mary, com uma voz irritada.

— E-E-Ei, claro que nĂŁo! NĂŁo Ă© isso que eu estou dizendo!

— NĂŁo Ă© qualquer amor, Ă© amor romĂąntico, nĂ©? — Yume deu uma risadinha.

— Eu nĂŁo amo ele, nem de forma romĂąntica nem de qualquer outra, droga! Isso Ă© Ăłbvio, sua idiota!

Kuzaku soltou uma risada curta.

— Quanto mais desesperado vocĂȘ fica pra negar, mais suspeito parece.

— Eu vou te transformar em carne moĂ­da, Kuzacky! SĂ©rio, sĂ©rio mesmo! NĂŁo subestime um cavaleiro das trevas!

— Ei — Lala-sama interveio. — VocĂȘ, o macaco ali. EstĂĄ sendo irritante. Fique quieto.

Ranta imediatamente ficou em posição de sentido e fez uma continĂȘncia. Sua boca se moveu, mas nenhum som saiu. Sim, senhora! Pelo jeito, em algum momento, ele havia sido completamente treinado por Lala.

Aterrorizante.

Honestamente, ela era assustadora. Haruhiro estremeceu. NĂŁo era sĂł Lala-sama. Nono tambĂ©m. O que ele fez hĂĄ pouco foi muito assustador, uma verdadeira loucura. Isso que Nono disse a Haruhiro: — Se a Lala-sama se machucar por culpa de vocĂȘs, eu mato cada um de vocĂȘs.

Foi isso.

Provavelmente não era uma ameaça vazia. Nono estava falando sério. Além disso, o cara não parecia normal. E era extremamente competente. Se Nono decidisse matå-los, ele provavelmente faria isso sem que eles sequer tivessem tempo de piscar.

A questão era: por que Nono escolheu aquele momento específico para dizer isso a Haruhiro? Não é que ideias não viessem à mente, mas ele não queria pensar nisso. Também não era algo que ele pudesse resolver só pensando. Decidiu esquecer o assunto por enquanto. Havia outras coisas que precisavam ser pensadas. Muitas e muitas coisas.

Haruhiro e os outros saĂ­ram do armazĂ©m. SaĂ­ram do distrito das oficinas e passaram pela ĂĄrea residencial alĂ©m dele. Haruhiro liderava o grupo, verificando se estava tudo seguro antes de chamar os outros, assim como antes. Eles estavam evitando as ĂĄreas de festivais, entĂŁo havia poucas pessoas— ou melhor, poucos waluos—passando por ali, mas ele precisava tomar cuidado com os que vagavam por aĂ­. Mesmo que parecesse que nĂŁo havia nenhum, nada era absoluto. Mas, dito isso, se fosse muito cauteloso, eles nĂŁo conseguiriam se mover. Se fossem encontrados, ou se encontrassem um waluo, teriam que lidar com isso na hora. Ele precisava aceitar. Nada era perfeito.

Certo?

Seu estĂŽmago doĂ­a. Ele estava suando como louco. Sua garganta estava seca. A prĂłxima rua era meio grande. Mas quando ele a tinha checado antes, parecia que poderiam atravessĂĄ-la.

Ele espiou rapidamente. Nenhum waluo. Deu o sinal e atravessou a rua primeiro. Seus companheiros, junto com Lala e Nono, seguiram Haruhiro.

Eles ainda estavam na årea residencial, mas a inclinação ficou subitamente mais íngreme. Era uma subida consideravelmente difícil. Era difícil ver de baixo para cima, mas a vista de cima era boa. Ele precisava se esconder habilmente enquanto avançava.

Seu estĂŽmago realmente doĂ­a. Ele sentia como se estivesse envelhecendo um ano a cada segundo que passava. NĂŁo conseguia evitar esse sentimento.

Em vez de seguir diretamente para a Montanha do Dragão de Fogo, ele escolheu ruas laterais sempre que possível. Não importava o tipo de estrada, ele verificava minuciosamente antes de entrar. Mesmo assim, isso não era perfeito. Precisava garantir que, não importa o que acontecesse, ele não perdesse a cabeça.

Ele estava se esforçando demais. Forçando todo o seu corpo.

NĂŁo force, ele disse a si mesmo. Fique calmo, fique calmo.

Não, ele não conseguia. Seu coração parecia prestes a se quebrar em mil pedaços. Ele estava se segurando por um triz. Talvez com força de vontade, teimosia, ou algo assim. Esse era o estado em que ele se encontrava, mas provavelmente seus olhos sonolentos davam a impressão de que ele estava apenas fazendo seu trabalho sem muito interesse. Ele não sabia se isso era bom ou ruim. De qualquer forma, ainda não estava no limite.

Eu consigo aguentar de alguma forma.

Desde aquela Ășltima vez, ele nem tinha visto um waluo. Talvez eles fossem conseguir atravessar Waluandin desse jeito? Sempre que ele pensava que seria fĂĄcil, algo ruim acontecia. Bem, suas previsĂ”es mais sombrias tambĂ©m tendiam a se realizar, entĂŁo talvez fosse tudo igual, nĂŁo importava como ele pensasse.

— O som dos tambores… NĂŁo parece que estĂĄ meio perto? — comentou Ranta.

Antes mesmo de Ranta falar, Haruhiro jå tinha percebido. Se até Ranta havia notado, Lala e Nono deviam estar cientes bem antes dele também. Mesmo assim, não disseram nada.

Mais uma vez, Haruhiro foi lembrado de que não podia confiar neles. Não sabia se eram maus ou não, mas Lala e Nono pensavam apenas em si mesmos. Estavam acompanhando Haruhiro e os outros porque, no momento, tinham decidido que valia a pena uså-los. Se isso mudasse, provavelmente os abandonariam sem hesitação. Usando-os como peÔes de sacrifício, se necessårio. E nem sentiriam culpa por isso.

Dito isso, Haruhiro e seus companheiros estavam trabalhando com eles porque isso tambĂ©m era benĂ©fico para eles. EntĂŁo, nesse sentido, estavam quites. Mas se ele seria capaz de abandonar Lala e Nono se precisasse, isso era outra questĂŁo. Ou melhor, provavelmente teria muita dificuldade em fazer isso. Estaria sendo… ingĂȘnuo, talvez? Ele poderia estar.

Haruhiro fez os outros sete esperarem enquanto subia em um prédio próximo. Quando olhou do telhado, conseguiu ver colunas de luzes que supÎs serem tochas se movendo por Waluandin. Uma das colunas estava a menos de cem metros de distùncia. Isso era bem perto, considerando tudo.

O que fazemos?

Haruhiro desceu do telhado. Como ele deveria explicar isso? Sua cabeça não estava funcionando direito.

Enquanto ele ficava parado, Ranta o repreendeu.

— O que tá fazendo parado aí, encarando o nada?! O que tá pegando, cara?! O que tá acontecendo?! Haruhiro! Tî te fazendo uma pergunta, então diz alguma coisa, seu idiota careca!

— …Acho que estamos em problemas.

— Em problemas como?!

— Eles podem estar… nos procurando.

— Procurando a gente…? Espera, o quĂȘeeee?!

— O Ranta tá falando bem alto faz um tempo, afinal de contas — disse Yume.

— Cala a boca, Nanica! Cala a boca! Estamos tendo uma conversa importante aqui!

— Por que eles estariam nos procurando? — perguntou Shihoru.

Era uma pergunta perfeitamente razoåvel. Do ponto de vista de seus companheiros, devia ser um mistério. No entanto, para Haruhiro, não era mistério nenhum. Ele tinha uma boa ideia. Não queria que fosse verdade, mas tinha que assumir que provavelmente era.

— Primeiro, precisamos correr — Mary disse, como se estivesse tentando convencer a si mesma, depois olhou para os companheiros. — Seja qual for a causa ou o motivo, pode esperar.

— Parece certo. — Kuzaku assentiu. — Devíamos correr antes que nos encontrem.

— Pra onde a gente vai correr?! — gritou Ranta. — Estamos bem no meio de Waluandin, sabia?! VocĂȘ acha que tem algum lugar pra onde correr aqui?!

— NĂŁo precisamos correr. — Lala lambeu seus lĂĄbios vermelhos e apontou para a Montanha do DragĂŁo de Fogo. — Para os orcs de Waluandin, a Montanha do DragĂŁo de Fogo deve ser uma terra sagrada. Eles nĂŁo nos perseguiriam atĂ© lĂĄ, nĂŁo Ă©?

Nono lançou um olhar de desprezo para Haruhiro.

…A-Assustador, pensou Haruhiro. Aquele olhar, ele estĂĄ totalmente irritado. Eles sacaram.

No mínimo, Nono sabia. Sabia quem tinha causado essa situação.

Sim. Isso mesmo. Era culpa de Haruhiro. Provavelmente. Bem, quase com certeza. Haruhiro daria de oito a nove em dez chances de que era ele o culpado.

Ele não matou o orc. Não conseguiu. Não aquele jovem waluo. Ele amarrou os pés e as mãos do orc, colocou uma mordaça e o deixou lå.

Devo contar a eles? Haruhiro se perguntou. Mas estavam com pouco tempo, certo? Talvez não agora? Ainda assim, por que Nono não o condenou por isso? Não importa como Haruhiro olhasse, isso era uma crise. Lala também estava em perigo. Então por que? Porque Nono não queria falar? Ele preferia matå-lo primeiro e depois culpar? Estava esperando a oportunidade? Seja como for, eles precisavam se apressar.

Mary estava certa. Quanto Ă  causa ou ao motivo, isso podia esperar.

— Vamos! Para a Montanha do Dragão de Fogo! — Haruhiro comandou.

Os waluos batiam seus tambores, balançavam suas tochas e gritavam enquanto procuravam por Haruhiro e os outros. Mesmo contando de forma aproximada, havia muitas tochas. Facilmente na casa dos trĂȘs dĂ­gitos. AlĂ©m disso, nĂŁo era certo que todos estivessem carregando tochas. Podia ser um para cada poucos, cada dez ou atĂ© menos.

Seria melhor presumir que havia cerca de dez vezes mais na equipe de busca do que havia de tochas. Eram mais de mil, e possivelmente havia milhares de waluos caçando Haruhiro e os outros.

Haruhiro fez o que pÎde para tentar liderar o grupo, mas Nono passou à frente dele. Ele teve que segui-lo. Não poderia dizer: Deixem isso comigo. Se Haruhiro dissesse isso, Nono provavelmente o mataria. Além disso, ele sentia que provavelmente erraria de novo.

Era melhor tirar da cabeça o que aconteceu com o jovem waluo por enquanto. Ele sabia disso, mas não conseguia simplesmente esquecer. Honestamente, Haruhiro não conseguia ter confiança em sua capacidade de tomar decisÔes no momento. Agora? Só agora? E no futuro? Serå que um dia ele seria capaz de dizer: Agora eu estou bom?Ele não conseguia imaginar isso acontecendo.

Nono avançava sem problemas, às vezes seguindo em frente sem hesitar, às vezes virando, e outras vezes descendo por becos. Como ele conseguia continuar assim, sem hesitar? De vez em quando, Lala gritava para ele do fundo, dizendo “Direita”, “Esquerda” ou “Em frente”. Era graças a Lala? Se ele fosse fazer algo errado, Lala o corrigiria. Era porque, mesmo se ele errasse, Lala estava lá para cobrir? Era a confiança entre eles? Porque ele não estava sozinho? Porque eles eram uma dupla? E Haruhiro? Ele confiava em seus companheiros? Não era que ele não confiasse neles, mas era só que—

— Parem! — gritou Lala, e Haruhiro percebeu que um grupo de waluos havia aparecido à frente.

Os waluos tinham mais de dois metros de altura e usavam pinturas corporais, então eram assustadores só de olhar. O coração de Haruhiro disparou, causando uma dor aguda e intensa no peito.

Nono atacou o primeiro waluo. Kuzaku preparou o escudo e avançou. Ranta foi logo atrås.

Nono usou sua faca com a mĂŁo direita para cortar o pescoço do primeiro waluo em um piscar de olhos, entĂŁo saltou para outro. Kuzaku bateu com o escudo em um, provavelmente tentando derrubĂĄ-lo, mas o inimigo era maior do que ele e conseguiu se segurar. Ranta atacou o waluo que carregava a tocha, mas, embora tenha conseguido fazĂȘ-lo recuar, nĂŁo havia causado um ferimento grave.

Haruhiro agarrou o cabo de seu estilete, ajustou a pegada e o segurou com força.

Inferno. Inferno. Inferno. Ele estava parado, com as pernas rĂ­gidas como gravetos.

O que ele estava fazendo? Nada. Haruhiro nĂŁo estava fazendo nada.

Ele olhou ao redor. Olhou e pensou. Ele fingia que estava pensando. A verdade era que nĂŁo estava pensando em nada.

— Por aqui! — gritou Lala.

No momento em que ouviu Lala gritar, ele sentiu um alĂ­vio enorme. Ela estava apontando para um beco um pouco para trĂĄs, no caminho de onde tinham vindo.

Ele mandou Yume, Shihoru e Mary irem à frente, depois esperou por Ranta, que jå havia virado e corrido, e por Kuzaku, que estava recuando lentamente enquanto usava o escudo para bloquear os chutes de um waluo. Nono não era só råpido; ele usava técnicas de artes marciais de diferentes velocidades com sua faca de maneira impressionante, controlando os waluos. Ele não era tão grande e só tinha uma faca curta, mas estava contornando os grandes waluos com facilidade. Como ele conseguia fazer algo assim?

Agora nĂŁo era a hora de se impressionar.

Ranta entrou no beco. Kuzaku ainda nĂŁo estava lĂĄ. Havia um waluo o incomodando.

Tenho que fazer alguma coisa sobre ele, pensou Haruhiro. Isso mesmo. Tenho que fazer pelo menos isso.

Haruhiro correu ao lado de Kuzaku e do waluo, então fez uma curva repentina e acertou um Backstab nele. Ele tentou atingir o rim pelas costas, mas não conseguiu alcançar o órgão.

O waluo se virou.

Kuzaku o acertou no queixo com um Bash, depois seguiu com um Thrust usando sua lùmina negra. Não precisaram dizer: Vamos lå. Eles seguiram para o beco juntos. Nono os seguiu também.

Para o beco.

Para o beco.

Era um beco estreito, com cerca de um metro de largura, e Lala estava lĂĄ, elegantemente apontando para a direita. Por que Lala ainda nĂŁo havia abandonado Haruhiro e a party? O que Nono estava pensando?

NĂŁo. Isso nĂŁo importava. NĂŁo por enquanto. Ele iria calar a boca e fazer o que Lala dissesse. Era sua Ășnica escolha. Isso era o melhor a fazer. Afinal, Haruhiro nĂŁo conseguia lidar com isso sozinho. Ele nĂŁo tinha um plano para sair dessa. SĂł podia correr Ă s cegas.

Lala era diferente. Ela nĂŁo mostrava nenhum sinal de pĂąnico. Nono era igual. Eles estavam calmos. Como sempre.

Tenho que ser assim, pensou Haruhiro. Ele queria ser como eles, mas serĂĄ que conseguia? Bem, isso era questionĂĄvel. Provavelmente nĂŁo. NĂŁo havia como. Ele poderia trabalhar a vida inteira e nunca seria como Lala e Nono.

Quando saĂ­ram em uma grande estrada de paralelepĂ­pedos, tinham uma boa visĂŁo de Waluandin em sua totalidade. Estavam em uma altitude bastante alta. JĂĄ estavam na extremidade de Waluandin. Os waluos os pressionavam pela outra ponta da estrada.

— Aha! — Lala riu. — Lerdos! Nós vencemos!

SerĂĄ que eles realmente haviam vencido? Ela estava mentindo? Lala tomou a dianteira correndo pela grande estrada subindo a colina.

Ranta gritou: — Isso Ă© muito maneiro!

Os waluos finalmente haviam encurralado Haruhiro e os outros. Aquela grande estrada parecia se estender do distrito do palåcio, serpenteando um pouco até a Montanha do Dragão de Fogo. Como ele sabia disso? Porque ele podia ver. As tochas iluminavam claramente o caminho.

IncrĂ­vel. Havia um nĂșmero absurdamente grande de waluos.

Se Kikkawa estivesse ali, talvez ele chamasse isso de “avassaladoramente incrível”. Ou talvez não.

Cara, Haruhiro sentia falta de Kikkawa. Supostamente ele estava bem, então serå que eles se encontrariam de novo? Não havia muita esperança nisso. Ele não conseguia evitar esse sentimento.

Um fluxo lamacento. Com suas pinturas corporais e as faixas decorativas que usavam como um manto, os waluos, balançando seus bastÔes de dragão e tochas, pareciam um rio de lama subindo a estrada, tentando engolir Haruhiro e os outros. Honestamente, era difícil dizer quantos metros havia entre Nono, que estava na retaguarda do grupo, e a linha de frente dos waluos, mas era menos de dez metros. Bem, eram alguns metros.

Nono provavelmente poderia despistå-los se levasse a sério. Mas Shihoru e Kuzaku teriam dificuldades, e Mary também não parecia que conseguiria facilmente. Havia uma sensação no ar de que era apenas uma questão de tempo.

Eles não tinham mais opçÔes? Era o fim?

Tudo isso era culpa de Haruhiro. Haruhiro havia acabado com tudo.

Desculpa, pessoal. Eu realmente sinto muito. A culpa Ă© sĂł minha. O que eu posso fazer para que vocĂȘs me perdoem? Na verdade, acho que nĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer.

Haruhiro correu o mais rĂĄpido que conseguiu, chorando e gritando para si mesmo. Ele nĂŁo olhou para trĂĄs. Apenas olhou para frente. Ele estava apenas com medo. NĂŁo queria ver nada, nem saber de nada.

Estava acabado de qualquer forma. Por causa de Haruhiro, tudo havia acabado. Todos iam morrer. Seriam brutalmente assassinados.

Era estranho. NĂŁo importava quanto tempo passasse, isso nĂŁo acontecia. Deveria acontecer a qualquer momento, mas Haruhiro ainda estava vivo.

Ele passou entre dois pilares de pedra com um padrĂŁo de dragĂŁo. Finalmente havia saĂ­do da cidade. A estrada de paralelepĂ­pedos Ă­ngreme continuava, mas nĂŁo havia mais prĂ©dios. A montanha rochosa se espalhava para ambos os lados. NĂŁo havia sequer uma Ășnica ĂĄrvore crescendo ali. Aqui e ali, lava jorrava como se viesse de uma veia pulsante, e Ă s vezes saĂ­a uma fumaça.

— Eles não tão vindo atrás da gente! — Yume gritou, com a voz cheia de alegria.

Entendi. É isso mesmo. Haruhiro limpou o suor, as lágrimas, o muco e a saliva do rosto enquanto se virava. Os waluos estavam lá. Eles não haviam recuado. Mas tinham parado nos pilares de pedra. Era como se algum tipo de barreira invisível os estivesse impedindo de avançar.

Terra sagrada. A Montanha do Dragão de Fogo provavelmente era uma terra sagrada para os orcs de Waluandin, então talvez eles não os perseguissem até lå. Essa havia sido a leitura de Lala, e ela havia dito isso claramente. No final, estava certa.

Lala havia conquistado uma vitĂłria calculada. NĂŁo apenas Nono, mas Ranta, Yume, Shihoru, Mary e Kuzaku talvez todos tivessem agora alguma esperança. Haruhiro era o Ășnico que nĂŁo.

Haruhiro estava sozinho em seu completo desespero.

Ele havia entrado em pĂąnico de tal forma que havia perdido a capacidade de pensar direito. Estava envergonhado. Incrivelmente envergonhado. Queria simplesmente desaparecer. NĂŁo queria viver mais com essa vergonha.

A estrada se transformou em degraus de pedra. Era tão íngreme que, se não fosse por uma escadaria, parecia que eles rolariam morro abaixo. Quando passaram por aquela inclinação, ela se nivelou, ficando quase plana, e a estrada chegou a um fim abrupto.

— Oofwhah..! — Ranta soltou uma exclamação estranha. — LĂĄ! LĂĄ estĂŁo elas! Aquilo sĂŁo salamandras, nĂ©?! Pera, como elas conseguem ficar de boa naquela lava?!

Dali em diante, havia verdadeiros altos e baixos na encosta da montanha, rios de lava por toda parte e também nascentes de lava borbulhando. As salamandras flutuavam na lava, nadavam nela e saltavam ao redor.

Na verdade, se fosse para descrevĂȘ-las exatamente como pareciam, elas eram como aglomerados de lava derretida em forma de lagartos. Quando nĂŁo se moviam, eram indistinguĂ­veis da lava. Era por isso que, de fato, Haruhiro nĂŁo fazia ideia de quantas salamandras havia. Era possĂ­vel que toda aquela lava fosse composta por salamandras. Bem, isso provavelmente nĂŁo era verdade, mas ele nĂŁo podia negar a possibilidade.

— Vamos ser um pouco mais cuidadosos daqui pra frente — disse Lala em voz baixa, como se nĂŁo tivessem sido cuidadosos atĂ© agora.

Que tipo de nervos ela tinha? Ou serå que ela estava apenas fingindo ser forte? Isso não podia ser. Ela simplesmente tinha nervos de aço.

Nono estava na frente, verificando seus passos enquanto avançava. Lala vinha em segundo lugar, e atrås dela a fila seguia com Ranta, Kuzaku, Mary, Shihoru, Yume e, finalmente, Haruhiro. Eles não haviam discutido isso previamente; simplesmente acabou ficando assim naturalmente. Provavelmente porque Haruhiro não havia dito nada ou tomado qualquer atitude, todos assumiram que ele pretendia ficar na retaguarda.

Na verdade, Haruhiro não estava pensando em nada, mas não tinha do que reclamar. Se fosse para dizer algo, ele estava até grato. Ficar atrås era ótimo; ele não precisava sentir os olhares de ninguém sobre ele. Ele não podia assumir um papel de liderança naquele estado.

— O motivo de estarmos de olho nesse lugar — Lala começou a explicar sem que ninguĂ©m pedisse — foi por causa da presença de orcs. Porque eles estĂŁo em Grimgar tambĂ©m. Quando uma raça existe em dois mundos diferentes, como regra geral, vocĂȘ pode presumir que esses mundos estĂŁo conectados. Com base em nossa experiĂȘncia, se essa raça criou raĂ­zes em um lugar especĂ­fico, geralmente hĂĄ um caminho entre eles lĂĄ. Embora, em muitos casos, haja um motivo pelo qual nĂŁo conseguem ir e vir facilmente.

— Tem um dragĂŁo de fogo aqui… — Shihoru segurou o chapĂ©u enquanto pulava com medo sobre um fino riacho de lava.

Logo depois, uma salamandra saltou, quase tocando a perna de Shihoru.

— …Ohhh!

— CĂȘ acha que realmente tem um dragĂŁo de fogo? — Yume pulou facilmente e, claro, a salamandra saltou de novo. Yume atravessou tanto o riacho quanto a salamandra com facilidade. — TĂĄ muito quieto por aqui, afinal.

Haruhiro correu e pulou o mais forte que pĂŽde, tentando nĂŁo olhar para o riacho ou para a salamandra. Ele tinha que dizer algo. Era estranho ficar tĂŁo quieto assim. Mas o que ele diria? NĂŁo era como se ele nĂŁo tivesse coisas que deveria dizer. Mas se ele dissesse, o que aconteceria? Ele nĂŁo sabia. NĂŁo queria imaginar.

— VocĂȘ acha que aquele Ă© o cume ali? — Kuzaku apontou diagonalmente para a esquerda, Ă  frente deles.

Definitivamente havia uma forma montanhosa escura naquela direção. Qual era a distùncia até lå? Uns poucos cem metros à frente? Talvez mais?

— Pera aĂ­… — Ranta parou de repente. — Haruhiro. VocĂȘ disse algo antes, nĂŁo disse, cara? LĂĄ em Waluandin. E, cara… vocĂȘ tava chorando. Eu sĂł imaginei isso?

Haruhiro apenas balançou a cabeça. Ele não respondeu. Quando tentou continuar, Ranta empurrou os outros companheiros para chegar até Haruhiro.

— VocĂȘ disse alguma coisa, algo sobre como tudo era culpa sua. O que vocĂȘ quis dizer com isso? VocĂȘ tĂĄ agindo estranho tambĂ©m, sabia? Quer dizer, eu sei que vocĂȘ jĂĄ Ă© estranho a maior parte do tempo. Tem esses olhos sonolentos e tal. Mas, mesmo assim, vocĂȘ nĂŁo tĂĄ agindo normal. Cara, o que deu em vocĂȘ?

— …Depois — Haruhiro sussurrou.

— Hã?

— Eu vou te contar depois. Prometo. Por enquanto… nĂŁo importa.

— Importa sim. — Ranta agarrou Haruhiro pela gola. — De jeito nenhum isso não importa! Não me venha com essa! Escuta, cara, eu odeio mais que tudo quando as coisas ficam vagas desse jeito!

— É por isso que eu disse que vou te contar depois! Pensa na situação!

— Que situação? VocĂȘ nĂŁo vai escapar dessa! Quando eu decido fazer algo, eu faço! Eu vou te perseguir e arrancar a verdade de vocĂȘ, custe o que custar!

— Ranta! Para! — Yume tentou se colocar entre Haruhiro e Ranta.

Isso empurrou Haruhiro para trĂĄs. — Ah…! — Ele perdeu o equilĂ­brio, e na direção em que pisou, pequena ou nĂŁo, havia uma poça de lava. Seu pĂ© nĂŁo caiu direto nela, mas o calcanhar direito roçou levemente a lava, que chiou e queimou. — Urgh…!

— H-Haru-kun?! — Yume gritou.

— …NĂŁo, eu tĂŽ… bem…? — Haruhiro se agachou e esfregou o calcanhar. Ele havia retirado o pĂ© imediatamente, entĂŁo nĂŁo achava que fosse algo sĂ©rio. Pelo menos, era o que ele esperava. Ele passou os dedos pelo contorno da bota. Como estava? O calcanhar parecia meio derretido? Era sĂł a bota? E por dentro? Estava dolorido e talvez quente…?

— Eu… eu nĂŁo vou me desculpar, tĂĄ! — Ranta disse arrogantemente. — I-I-Isso… isso foi culpa da Yume, e sua tambĂ©m! NĂŁo foi minha culpa, nem um pouco!

— VocĂȘ Ă© insignificante… — Shihoru murmurou.

— HĂŁ?! O que foi que vocĂȘ disse, sua bombardeira de peitos caĂ­dos?!

— P-Peitos… c-caĂ­dos…?!

— Haru! Deixa eu ver! — Mary passou por Shihoru, Yume e Ranta para se agachar ao lado de Haruhiro.

Lala deu de ombros, olhando para eles com total espanto. Nono aproximou o rosto de Lala e sussurrou algo em seu ouvido. Talvez estivesse pressionando-a a tomar uma decisĂŁo. Algo como, NĂŁo estĂĄ na hora de abandonĂĄ-los?

Nada bom. A party precisava que eles reconsiderassem, ou estariam encrencados.

— Ei, espera — Haruhiro afastou Mary enquanto ela tentava curá-lo e se levantou. A dor percorreu seu calcanhar direito, e ele soltou um grito agudo de dor.

— Hã? — Kuzaku disse algo incrivelmente estranho. — O cume se moveu?

— Montanhas nĂŁo se movem — Lala disse com um estranho ronronar de alegria na voz. — Em outras palavras, aquilo nĂŁo Ă© uma montanha, certo?

— S-Se nĂŁo for… — Ranta se virou e olhou para o cume, ou melhor, para a coisa que eles pensavam ser o cume. — Q-Que… que coisa Ă© aquela…?

Ela balançava de um lado para o outro—não, não só isso. Esse som. Estava vibrando. Ou melhor, o chão estava tremendo. A coisa estava se aproximando.

— Corram! — Haruhiro gritou instintivamente.

— P-P-Pra onde?! — Ranta gritou de volta.

— Eu nĂŁo sei pra onde…

Pra onde? Para onde eles correriam? De volta? Pelo caminho que vieram? Até onde? Serå que poderiam descer a montanha? Mas eles não poderiam fugir para Waluandin. Isso era óbvio. O que deveriam fazer? Como ele saberia? Haruhiro naturalmente tentou se agarrar a Lala e Nono.

Eles jĂĄ nĂŁo estavam mais lĂĄ.

Tinham estado ali até um momento atrås. Não. Ele podia ver suas costas. Eles estavam avançando. Ele os havia perdido de vista por um momento quando a sombra de uma rocha à frente bloqueou sua visão. Dito isso, eles jå estavam a mais de quinze metros de distùncia.

— C-Corram atrás deles! Sigam aqueles dois! Rápido!

— Maldição! Aquela vadia! — Ranta gritou.

— Shihoru, vai na frente! — Yume gritou. — Yume vai logo atrĂĄs de vocĂȘ!

— S-Sim! Entendido!

— Mary-san, vai tambĂ©m!

— Certo! Haru, vocĂȘ consegue correr?!

— E-Eu consigo, sim! Agora vai! Kuzaku, vocĂȘ tambĂ©m!

— Tá!

Os tremores se tornaram maiores e mais violentos. Haruhiro correu desesperadamente atrås de Kuzaku. Quando seu calcanhar direito tocava o chão, a dor subia até o topo da cabeça. Tudo o que ele podia fazer era tentar evitar que o calcanhar tocasse o chão, correndo sobre a ponta dos pés. Não era nada fåcil.

Levando em consideração o peso do equipamento e dos pertences, Haruhiro era, ou o mais råpido, ou o segundo mais råpido corredor da party. Kuzaku era o mais lento. Apesar disso, aquilo era desesperador. Não só ele não estava alcançando Kuzaku, como estava ficando para trås.

De vez em quando, Kuzaku olhava para trås, diminuía o ritmo e esperava por Haruhiro. Ele estava tão feliz que quase chorou, mas aquilo não era uma solução. Mesmo que ele fechasse um pouco a distùncia, logo ela se abria novamente, e às vezes até piorava.

De repente, ele perdeu Kuzaku de vista. SerĂĄ que ele finalmente desistiu dele? NĂŁo, isso nĂŁo podia ser. Ele passou por uma estreita fenda entre duas rochas e saiu em um lugar mais aberto.

Não era só Kuzaku. Todos estavam ali. Até mesmo Lala e Nono estavam ao longe.

Kuzaku olhou para trĂĄs, observando Haruhiro, e depois para algo mais adiante.

— …! — Kuzaku soltou um grito mudo, sinistro, para dizer o mĂ­nimo.

Pode ter sido um pouco de exagero, mas Haruhiro sentiu como se estivesse sendo avisado sobre o fim do mundo.

Ele não conseguia decidir. Deveria ver com seus próprios olhos, ou seria melhor não ver? Antes que pudesse tomar uma decisão, seus olhos foram atraídos para aquilo. Ele não desejava não ter visto, e também não estava feliz por ter visto. Ele simplesmente ficou perplexo.

Ele gostava de pensar que jĂĄ havia encontrado sua cota de criaturas. Como o deus gigante no Reino do CrepĂșsculo. Bem, provavelmente havia margem para debate sobre se aquilo era ou nĂŁo uma criatura viva, mas era enorme.

Essa coisa nĂŁo era tĂŁo maior do que eles como o deus gigante tinha sido. Mas havia algo no formato de seus olhos que fez Haruhiro sentir uma emoção especial e profunda. Eles nĂŁo eram bonitos ou belos. Era algo diferente disso. Se fosse resumir em uma palavra…

Aterrorizantes. Isso provavelmente era o que eles eram, mas certamente nĂŁo era tudo.

Todo o seu corpo era coberto por escamas avermelhadas, ou talvez escamas negras com um brilho vermelho. Nesse ponto, era semelhante a um réptil. Na verdade, poderia ser justo chamå-lo de um lagarto gigante, mas era realmente diferente. Parecia andar sobre quatro patas, mas suas patas dianteiras também pareciam capazes de agarrar coisas. Elas tinham mãos que pareciam surpreendentemente håbeis. Seu pescoço era bem longo, e sua cabeça era relativamente pequena. Pequena, talvez, mas provavelmente ainda grande o suficiente para engolir uma pessoa inteira. Era uma questão de tamanho relativo.

Não era gordo. Não parecia lento, e, para seu grande tamanho, parecia se mover råpido. Se corresse com toda a força de suas poderosas pernas traseiras, provavelmente seria realmente muito veloz. Ele levantou a longa cauda, esticando-a.

Isso Ă© um dragĂŁo.

Provavelmente, mesmo que nĂŁo soubessem que dragĂ”es existiam, qualquer pessoa seria capaz de dizer, Ă  primeira vista, que essa criatura ocupava uma posição especial. Se, entĂŁo, alguĂ©m dissesse que aquilo era um dragĂŁo, a pessoa aceitaria imediatamente. Mesmo sem saber o que eram dragĂ”es, ela sem dĂșvida pensaria: Ah, entendi, entĂŁo Ă© isso que Ă© um dragĂŁo. DragĂ”es precisavam estar gravados nos instintos de todos.

NĂŁo era de se admirar que os orcs de Waluandin o adorassem. TambĂ©m era fĂĄcil entender por que queriam oferecĂȘ-lo em sacrifĂ­cio.

Haruhiro tremia, Ă© claro. Esse medo nĂŁo era algo que ele normalmente experimentava. No entanto, ao mesmo tempo, havia algo que ele nĂŁo conseguia deixar de sentir.

DragÔes são incríveis.

Honestamente, era impressionante. Criaturas como essa realmente existiam. De certa forma, era perfeito. Pode nĂŁo estar claro de que maneira, mas era impressionante.

O dragão de fogo abriu sua mandíbula, torceu o pescoço e inalou. Estaria tomando um fÎlego profundo? Haruhiro não sabia o que estava acontecendo, mas observava atentamente. Talvez fosse mais preciso dizer que ele estava hipnotizado. Havia pequenas luzes piscando no fundo da garganta do dragão de fogo.

O que sĂŁo essas coisas? Ele se perguntou. Isso foi tudo o que pensou.

— Uwahhhhhhhhhhhhhhh! — Ao ouvir o grito de Ranta, Haruhiro começou a suspeitar que talvez estivesse faltando a ele um verdadeiro senso de urgĂȘncia. Ele olhou e viu seus companheiros correndo desesperadamente para se afastar. Pareciam herbĂ­voros fugindo de uma matilha de lobos. Claro, Ranta e os outros nĂŁo eram herbĂ­voros, e nĂŁo havia lobos naquela montanha. SĂł havia salamandras e o dragĂŁo de fogo. Parecia que Ranta e os outros estavam tentando fugir daquele dragĂŁo de fogo.

Claro que eles estĂŁo correndo.

Por que Haruhiro estava apenas parado ali? Se alguma coisa estava estranha, era isso.

O dragão de fogo inalava, inalava e inalava, até finalmente expelir o ar. Não se tratava apenas de uma simples exalação. Ou seria essa a natureza da respiração do dragão de fogo?

Haruhiro rolou para trĂĄs. A massa quente que o atingiu o deixou incapaz de se levantar.

Fogo. Chamas. O dragão de fogo cuspiu fogo. Ele achou que também poderia ter queimado. Estava tão quente que ele não teria ficado surpreso se tivesse se derretido completamente. Era assim que ele se sentia.

Quanto tempo havia se passado? Alguns segundos? Alguns minutos? Mais do que isso? Ele nĂŁo sabia.

Haruhiro estava deitado de lado, como uma lagarta ressecada. Ele estava literalmente ressecado. Vapor subia de todo o seu corpo. Ele estava crocante e quebradiço. Seus olhos, seu nariz e sua boca estavam secos. Sua pele parecia prestes a rachar a qualquer momento. Ele estava com medo atĂ© de piscar. Mas, se nĂŁo piscasse e nĂŁo conseguisse lĂĄgrimas de alguma forma, algo muito ruim aconteceria com seus olhos. O mesmo valia para a boca e o nariz. Seu corpo precisava usar toda a ĂĄgua restante para umedecĂȘ-los, ou ele estaria com sĂ©rios problemas.

Ele nĂŁo parecia estar pegando fogo. O sopro flamejante nĂŁo o queimou. Bem, provavelmente porque ele nĂŁo foi atingido diretamente. Haruhiro sĂł foi atingido pelos efeitos colaterais. Mesmo isso foi o suficiente para deixĂĄ-lo assim. Se ele tivesse sido atingido diretamente, certamente teria sido reduzido a cinzas em um instante.

Isso significava que o dragĂŁo de fogo nĂŁo estava mirando em Haruhiro com seu sopro flamejante. EntĂŁo, para onde havia mirado? Qual era o alvo?

Ele podia ouvir os tremores, os passos do dragĂŁo de fogo. Ele sentiu. O dragĂŁo de fogo estava se movendo.

— Ranta e… os outros… Mary… Yume… Shihoru… Kuzaku… — ele conseguiu murmurar.

Seus companheiros estavam tentando fugir. Do dragĂŁo de fogo, provavelmente. O dragĂŁo de fogo estava mirando neles? NĂŁo em Haruhiro, mas em seus companheiros? Foi por isso que Haruhiro foi poupado? O que estava acontecendo?

— Eu tenho… que procurar por eles…

Isso mesmo. O que tinha acontecido nĂŁo era o problema. Primeiro, ele precisava encontrĂĄ-los.

Haruhiro usou uma saliĂȘncia rochosa na encosta da montanha para se levantar. Seu calcanhar direito doĂ­a tanto que ele pensou que poderia desmoronar. A dor, na verdade, foi o que o salvou. Ele ficou grato por isso. Queria desmaiar de tanta dor, mas nĂŁo teve essa sorte. Ele precisava procurar.

Quando seguiu na direção em que seus companheiros haviam fugido, viu as costas do dragão de fogo. A årea onde suas chamas haviam explodido estava afundada, e havia um pùntano de rocha derretida no fundo do buraco. Isso mostrava claramente o poder das chamas. Elas teriam feito mais do que transformå-lo em cinzas. Se ele tivesse sido atingido diretamente, talvez não restasse nada dele.

Se esse fosse o caso, talvez ele nĂŁo fosse capaz de encontrar seus companheiros.

NĂŁo pense nisso, disse a si mesmo. NĂŁo pense em coisas estĂșpidas. NĂŁo pode pensar. Mova-se. Faça seu corpo se mover. Tudo começa com isso.

Ele nĂŁo conseguia se convencer de que queria seguir o dragĂŁo de fogo de perto. Isso era perigoso demais. Haruhiro decidiu dar uma volta mais longa. O dragĂŁo de fogo poderia estar procurando por algo. Talvez seus companheiros tivessem conseguido escapar. O dragĂŁo de fogo poderia ainda estar perseguindo seus companheiros. Se ele desse a volta e fosse para a frente do dragĂŁo, talvez pudesse se encontrar com eles.

Era isso. Havia esperança. Não era impossível.

Mantendo sempre o dragão de fogo à vista, tomando cuidado para não se aproximar demais nem se afastar muito, ele traçou seu caminho. O terreno era seu inimigo. Era muito irregular, afinal. Lava surgia dos lugares afundados que pareciam ser caminhos que ele poderia usar. Havia sempre salamandras na lava.

Quando perdeu o dragĂŁo de fogo de vista, entrou em pĂąnico repentino. Na pressa febril, acabou se queimando aqui e ali.

Eu deveria pular na lava e acabar com tudo. Ele se pegava pensando nisso com frequĂȘncia.

Quando avistou o dragĂŁo de fogo Ă  distĂąncia, aquilo lhe deu coragem. O dragĂŁo de fogo estava lĂĄ. Isso o aliviou, e ele nĂŁo pĂŽde deixar de rir.

— Eles estão vivos, certo? Todos eles — murmurou para si mesmo.

NĂŁo duvide. Se duvidar, jĂĄ perdeu. Perdeu? Perdeu para o quĂȘ?

Para mim mesmo, provavelmente.

Para a fraqueza do meu próprio coração.

Ele não achava que fosse forte, mas serå que sempre fora tão frågil assim? Ele não sabia o quanto pensava ter crescido, mas que diabos era esse estado lamentåvel? Era além de horrível.

Eu achava que tinha crescido? Pensava que podia fazer isso? Eu cresci? Esperei algo de mim mesmo? Que estupidez. No fim, sou só um qualquer. Um sem-talento. Quero dizer, não tenho talento nenhum. Eu trabalhei duro porque não tinha outra escolha. Sinto que fiz o que pude. Não foi o suficiente? Talvez não seja uma questão de suficiente ou não. Era sem esperança de qualquer jeito. Não importa o quanto eu trabalhasse, desse o meu melhor, não importa o que eu fizesse, sempre haveria limites.

Eu pensava que realmente seria capaz de fazer algo? Isso é hilårio. Olhe para a realidade. Eu sabia desde o começo. Eu não posso ser ninguém além de mim mesmo. Não posso ser nada mais do que eu mesmo. Eu sou apenas eu. Sou infinitamente fraco e frågil, e não mudei quem sou. No fim, isso não pode ser mudado. Não hå como eu mudar.

Sou pequeno e miserĂĄvel, me agarrando pateticamente a algo, e embora eu ainda esteja vivo por enquanto, nĂŁo vai durar muito.

Esse sou eu.

Veja, o dragĂŁo de fogo estĂĄ tĂŁo longe. Chegar Ă  frente dele? Como se eu pudesse. DĂłi. NĂŁo sĂł meu calcanhar direito. Meu corpo dĂłi por inteiro. NĂŁo quero andar. NĂŁo consigo me mover.

Vou ficar aqui.

Sentar e ficar parado.

De fato, Haruhiro sentou-se e abraçou os joelhos por um bom tempo.

— Cara, sou medĂ­ocre… — murmurou.

Que piada. Sério. Se desisti de mim, por que não paro de vez? Não consigo fazer isso? Não, claro que não. Não sou tão bom assim. Isso me faz pensar que é assim que as coisas são. Me sinto tão insignificante que acabo me odiando.

Eu queria ser alguĂ©m especial. Essa Ă© a verdade, eu esperava que pudesse ser. Por exemplo, admiro os gĂȘnios. Soma e Kemuri, ou Akira-san e Miho, ou atĂ© Tokimune e sua equipe, e entĂŁo tem o Renji. Eles sĂŁo incrĂ­veis. Me faz pensar: “Se ao menos eu pudesse ser assim.” SĂł tento pensar nisso. Porque Ă© impossĂ­vel. O que posso fazer sobre a diferença entre nĂłs? Nada. Nada que eu possa fazer. NĂŁo hĂĄ nada que possa ser feito a respeito. Eu sei disso e tudo, mas vou morrer sem nunca, nem uma vez, me tornar alguĂ©m especial. O que se pode pensar de uma vida assim? Parece solitĂĄrio, e triste. Bem, estou bem com isso, no entanto.

NĂŁo importa que tipo de vida vocĂȘ tenha, Ă© a Ășnica que vocĂȘ terĂĄ, entĂŁo Ă© especial e insubstituĂ­vel, certo?

NĂŁo hĂĄ necessidade de me comparar com os outros. Quando vocĂȘ se compara com os outros, existe apenas um padrĂŁo. No fim, Ă© sobre como vocĂȘ se sente em relação a si mesmo, certo?

Eu consigo ver onde isso vai parar, mesmo sem conseguir realmente. Parece que estĂĄ tudo prestes a acabar, entĂŁo, pelo menos, eu deveria dar minha prĂłpria bĂȘnção a essa vida insignificante.

— Como se vocĂȘ pudesse, idiota — murmurou.

Eu queria levar uma vida da qual pudesse me orgulhar e me gabar para qualquer um. Queria ser alguém de quem eu pudesse me orgulhar. Fiquei covarde, pensando que não conseguia fazer as coisas, e é por isso que acabei assim. Mas então usei isso como desculpa, agi como se estivesse dando o meu melhor e tentei ficar satisfeito com isso, mas no fim, quer saber, isso é patético. Eu não fiz tudo o que poderia, parece algo feito pela metade, e isso não é nada bom. Mas a cortina provavelmente vai cair comigo ainda insatisfeito com tudo.

NĂŁo era como se ele tivesse pensado, Vou dar tudo de mim, e tentado olhar para frente. Simplesmente doĂ­a demais ficar daquele jeito. Ele simplesmente nĂŁo conseguia ficar parado e se levantou porque nĂŁo tinha escolha. Essa era a verdade.

Ele não podia dizer que havia aguçado seus sentidos naquele momento, mas sentiu uma presença ameaçadora. Sem se virar, deu uma cambalhota para frente. Algo caiu logo atrås dele.

Para evitar usar o calcanhar direito, Haruhiro usou a perna esquerda como eixo para se virar, sacando o estilete enquanto fazia isso. Seu inimigo tinha uma arma semelhante a um facão longo, que havia descido em direção a ele.

Não era que Haruhiro acreditasse que seria eliminado ao tentar desviar, ou algo do tipo. Seu corpo reagiu de forma instintiva. Haruhiro lançou-se de cabeça em direção à parte inferior de seu inimigo.

Quando tentou apunhalar o oponente com seu estilete, o inimigo saltou para trås e conseguiu evitar o golpe. Haruhiro avançou, sem parar para pensar em perguntas como quem era o inimigo ou por que aquilo estava acontecendo. Em algum momento, ele percebeu que, além do estilete, sua faca com proteção no cabo também estava em sua mão esquerda.

Seu calcanhar direito doĂ­a. Seria mentira dizer que ele nĂŁo sentia a dor, mas ele nĂŁo deixou que isso o incomodasse. Ele atacou.

Ele estava no ataque.

A lùmina do inimigo tinha cerca de 1,2 metros de comprimento, o que significava que ela tinha muito mais alcance do que as armas de Haruhiro, e o inimigo era maior do que ele também, então ele não seria capaz de se defender por muito tempo com o Swat. Haruhiro não analisou a situação e chegou a essa conclusão; ele sabia instintivamente. Precisava fechar a distùncia e atacar.

O inimigo não fazia nada além de correr ao redor. Ele tinha uma arma, mas estava seminu. Pelo que parecia, ele parecia ser um orc. Era mais esguio do que os orcs de Waluandin. Mas provavelmente não era apenas magro. Seu corpo lembrava a corda de um arco esticada ao måximo. Sua pele carecia de um tom esverdeado e não era lisa. Estava elevada em algumas partes, torcida em outras.

Talvez fossem cicatrizes de queimaduras. NĂŁo era apenas uma parte dele. Era o corpo inteiro. Aqueles olhos. SerĂĄ que ele conseguia ver com eles? Ambos os globos oculares estavam turvos e brancos.

Mesmo que ele pudesse ou não ver, mesmo quando recuava, ele nunca chegava perto da lava. Seus movimentos eram elegantes, como algum tipo de mestre em artes marciais. Era verdade, Haruhiro estava pressionando no ataque e o orc estava na defensiva. No entanto, isso não significava que ele estava encurralado. Ele tinha espaço para manobrar. E bastante, provavelmente.

Talvez Haruhiro estivesse sendo forçado a atacar. Se não atacasse, seria ele o atacado. Se fosse atacado, era bem provåvel que não conseguiria se defender. Se não fosse pelo ferimento em seu calcanhar direito, ele talvez tivesse assumido o risco e tentado fugir, mas não havia chance disso funcionar quando ele nem sequer conseguia correr direito. Ele queria poder sair daquela situação falando, mas isso também não era possível. Mesmo que achasse que não ia ganhar, ele precisava fazer isso.

Havia apenas um resultado. Era matar ou morrer.

Não era hora de calcular as probabilidades, mas mesmo sem considerar isso, incontåveis pensamentos passavam pela sua cabeça a toda velocidade.

O jogo de pĂ©s do inimigo era Ășnico. Ele estava nas pontas dos pĂ©s. Pareciam afundar no chĂŁo.

Seu corpo era incrivelmente flexĂ­vel. Ele controlava o facĂŁo apenas com a mĂŁo direita. Sua mĂŁo esquerda nem tocava nele.

Aquele facĂŁo. NĂŁo parecia ser de metal. Pedra? Parecia ter sido esculpido em pedra. Aquele longo facĂŁo de pedra provavelmente era feito Ă  mĂŁo.

SerĂĄ que ele vivia aqui? Como comia e bebia? Esse era um ambiente habitĂĄvel? Ele atacaria logo.

LĂĄ vem ele.

O orc torceu o corpo e puxou-o na diagonal. O longo facão de pedra avançou.

Haruhiro nĂŁo recuou. NĂŁo podia desviar. Colocou toda sua força em um Swat com sua faca com proteção no cabo. Ele nĂŁo conseguiria lidar com um combo, mas se fosse apenas um golpe…

Era pesado.

A força do orc era imensa, mas Haruhiro conseguiu. Ele desviou o golpe e imediatamente partiu para o contra-ataque, mas o orc recuou, afastando-se rapidamente, enquanto torcia o rosto.

Aquilo era um sorriso? Tudo bem. Pode sorrir. Haruhiro nĂŁo sorriria. Ele atacaria.

Chegou perto, desferindo golpes com o estilete. Haruhiro sabia. Não precisava pensar nisso, ele sabia. O orc estava se divertindo. Talvez fosse louco, até mesmo para os padrÔes dos orcs. Ele estava aproveitando a luta e tentando saboreå-la.

O orc provavelmente pretendia forçar Haruhiro a dar tudo de si, e, quando estivesse satisfeito com o que tivesse visto, o mataria. Diante disso, Haruhiro tinha apenas uma pequena chance de vitória.

Além do mais, ele jå estava dando o måximo de si. Não conseguia se mover mais råpido, nem balançar o estilete com mais força. Esse era seu limite, e só manter esse ritmo jå era cansativo. Ele só pioraria a partir dali. Não podia transformar isso em uma batalha prolongada. Quanto mais tempo passasse, menos chances teria de atacar. O orc provavelmente sabia disso também. Se eles lutassem, lutassem e lutassem até o fim, então a sorte, a situação e uma variedade de outros fatores diversos cairiam, até que, no final, o mais forte estaria garantido para vencer.

E, nesse caso, esse nĂŁo era Haruhiro. Era o orc.

Por isso, antes que chegassem a essa fase final, Haruhiro teria que lançar tudo o que tinha em um Ășltimo esforço desesperado. Claro, o orc sabia disso tambĂ©m. Ele estava provocando Haruhiro, incitando-o a tentar.

Vem, me ataca, ele parecia dizer.

Vai, ataca, ele dizia.

Aquela linha nĂŁo aparecia em lugar nenhum. Haruhiro via uma ponte invisĂ­vel, estreita, diante dele, e nĂŁo tinha escolha a nĂŁo ser atravessĂĄ-la. E o orc estava do outro lado da ponte. Ele sabia que Haruhiro estava vindo, e o aguardava ansiosamente, pronto para demoli-lo. As chances de Haruhiro conseguir talvez nĂŁo fossem zero, mas estavam perto disso. Mesmo assim, Haruhiro atravessaria a ponte.

Porque eu nĂŁo tenho escolha? Porque eu preciso fazer isso?

NĂŁo.

NĂŁo Ă© isso.

É porque eu quero viver. Eu não quero morrer. Eu não posso me deixar morrer. Eu vou matá-lo, e vou viver. Viver. Viver. Viver com tudo que tenho. Eu vou ganhar essa luta. Agora, atravesse a ponte.

Assault.

Ele achava que jĂĄ estava dando tudo de si antes, mas talvez estivesse errado. Haruhiro surpreendeu a si mesmo. NĂŁo sabia que conseguia se mover tĂŁo rĂĄpido.

Graças a isso, em um golpe de sorte, parece que Haruhiro conseguiu superar as expectativas do orc. Ele se aproximou rapidamente, tornando-se inalcançåvel para o adversårio. A partir daí, tudo o que tinha que fazer era esfaquear loucamente com o estilete e cortar com sua faca.

O orc, na tentativa de se defender, rapidamente levantou o joelho. Haruhiro, porém, o feriu com intensidade, desferindo estocadas e cortes.

O orc estendeu a mĂŁo esquerda, tentando agarrar Haruhiro para conter seus ataques.

Haruhiro não se preocupou, enfiando o estilete na barriga do orc e o torcendo. Sua faca entrou na axila direita do orc. Ele estava em uma posição para derrubå-lo.

O orc envolveu suas pernas em torno de Haruhiro e o apertou, segurando o cabelo de Haruhiro com a mão esquerda. Então, bateu com o cabo de seu longo facão de pedra na cabeça de Haruhiro.

Mesmo assim, Haruhiro continuou girando o estilete dentro das entranhas do orc. Movendo a faca vigorosamente, tentou cortar o braço direito do orc na altura do ombro. Ele mordeu o pescoço do orc. Rasgou a pele, a carne e os vasos sanguíneos. O sangue transbordou. Não era apenas quente, era quente demais.

Haruhiro mordeu ainda mais aquela ferida aberta. O orc gritou. Haruhiro nĂŁo soltou nem um grunhido.

Destruir, destruir, vou destruir vocĂȘ, destruir atĂ© que nĂŁo possa mais se mover. Viver, viver, eu vou viver, eu vou sobreviver. Vencer, eu vou vencer e viver, eu vou sobreviver. É matar ou morrer, viver ou morrer, eu nĂŁo sou quem vai morrer, Ă© vocĂȘ.

Talvez eu possa parar agora…?

Não, ainda não. Precisava fazer mais. Haruhiro não parou até que o sangue saindo do orc esfriasse. Quando teve absoluta e completa certeza de que o orc estava morto, toda a força se esvaiu de seu corpo, e ele desabou em lågrimas. Sentiu que estava chorando como uma criança.

Ele tinha vencido. Haruhiro venceu.

Seu oponente havia sido forte. Em termos de pura força, provavelmente mais forte que Haruhiro. Muito mais forte, talvez.

Por que Haruhiro conseguiu vencer?

Ele nĂŁo achava que o inimigo tinha sido arrogante. O orc nunca baixou a guarda. No entanto, se a força do orc era dez, ele provavelmente havia assumido que a de Haruhiro era cinco, ou talvez quatro. Haruhiro tambĂ©m se sentia mais ou menos assim. Mas, no Ășltimo momento, conseguiu adicionar sĂł um pouquinho a mais a esse cinco. Isso foi tudo o que decidiu a batalha. De fato, Haruhiro estava apostando tudo. Tudo correu como planejado. Nesse sentido, foi uma vitĂłria perfeita. O fraco superou o forte, sozinho, apenas com sua prĂłpria força, sua prĂłpria habilidade, e conquistou essa vitĂłria.

Haruhiro olhou para os restos de seu oponente derrotado. Queria aprender o que pudesse sobre ele.

O orc tinha, talvez, dois metros e vinte centĂ­metros de altura. NĂŁo havia como pesĂĄ-lo, mas devia ter facilmente mais de cem quilos. Talvez duzentos, quem sabe trezentos quilos. Era enorme. Parecia esguio, mas ainda assim era imenso.

Havia marcas de queimaduras cobrindo todo o seu corpo. As cicatrizes iam até a ponta dos dedos dos pés. Isso tinha que ser deliberado. Ele provavelmente se queimou de propósito. Havia algum tipo de desenho intrincado esculpido em suas presas expostas. Um dragão, aparentemente.

Haruhiro revistou todos os pertences do orc. Ele usava um cinto na cintura, com bolsos para itens e uma bainha. Tinha algo que parecia um anel dourado, quatro objetos escuros parecidos com escamas e uma pequena faca. Haruhiro decidiu pegar tudo.

Os olhos do orc estavam abertos, então ele os fechou e juntou as mãos, porque isso parecia o certo a se fazer. Era um pensamento estranho, e ele percebeu isso, mas Haruhiro sentia que aquele orc havia compartilhado sua vida com ele, e que, graças a ele, Haruhiro estava vivo agora. Era assim que ele se sentia.

Ainda assim, Haruhiro estava coberto de hematomas e em uma condição tão ruim que seria mais difícil encontrar uma parte dele que não doesse agora. A vida que o orc havia lhe dado talvez se apagasse eventualmente. Mesmo assim, ele estava vivo de alguma forma. E, jå que estava vivo, havia coisas que deveria fazer, ou melhor, coisas que realmente queria fazer, e outras que não tinha escolha a não ser fazer.

Ele queria ver seus companheiros.

Nem por um segundo pensou: Tenho certeza de que estão todos bem ou Tenho certeza de que nos encontraremos de novo. E ele não tinha grandes esperanças de que isso acontecesse, mas queria que acontecesse. Então decidiu procurar. Até que sua vida se esgotasse, continuaria procurando.

Deixando o orc para trĂĄs, Haruhiro se afastou. Quando se virou depois de caminhar um pouco, salamandras estavam tomando conta do corpo do orc. Sem um pingo de ironia ou sarcasmo, Haruhiro achou que aquele era o segundo fim mais adequado que ele poderia ter recebido. O mais adequado provavelmente seria desafiar o dragĂŁo de fogo e ser incinerado pelo seu sopro de fogo ou ser devorado. Ele nĂŁo teve essa chance.

Haruhiro não tinha pistas. Nem sequer uma direção a seguir.

Sempre que via o dragĂŁo de fogo Ă  distĂąncia, ele se sentia estranhamente encorajado, e um sorriso surgia naturalmente em seu rosto.

Quando a dor e o cansaço tornavam muito difĂ­cil caminhar, ele aceitava e sentava-se para descansar. Às vezes, tambĂ©m se deitava. Se nĂŁo conseguisse se levantar novamente, seria isso. Poderia apenas aceitar. No entanto, isso provavelmente nĂŁo aconteceria. Se perdesse a consciĂȘncia, obviamente nĂŁo haveria o que fazer. PorĂ©m, atĂ© que seu tempo chegasse, ele tinha certeza de que seu desejo nĂŁo desapareceria.

Quero ver meus companheiros.

Depois de tudo que passei, não vou achar que isso é patético.

Na verdade, não quero ficar sozinho. É solitário.

Às vezes, ele não dormia, mas desmaiava. Quando voltava a si, ficava feliz.

Ainda estava vivo. Podia continuar procurando.

Sabe, assim, parece que jĂĄ estive em todos os lugares. Quando foi a Ășltima vez que pensei nisso?

Eu estava andando de bicicleta… Bicicleta…?

NĂŁo sei o que Ă© isso, mas eu achava que podia ir a qualquer lugar com ela.

Eu sentia que podia ir a todos os lugares. O que me levou a isso? Ah, certo. Uma dessas coisas que vocĂȘ sempre vĂȘ. O arco-Ă­ris. Foi depois da chuva. Eu vi um arco-Ă­ris. Onde o arco-Ă­ris começava, e onde terminava? Eu pensei que iria descobrir. Jurei que o encontraria.

Naquela vez, desisti pelo caminho. Agora, não desistiria. Iria até onde pudesse, e mesmo que o arco-íris desaparecesse, eu poderia esperar ele aparecer de novo.

Quando fecho os olhos, ah… consigo ver claramente.

O arco-Ă­ris.

O arco de sete cores além do céu.

Vou em direção ao arco-íris. Vou em direção ao arco-íris, e nunca vou parar de ir.

Ele sentiu um tremor e abriu os olhos, encontrando o dragĂŁo de fogo relativamente perto. Estava tĂŁo perto que ele podia olhar para cima e vĂȘ-lo. Haruhiro foi estender a mĂŁo para cumprimentĂĄ-lo, mas parou.

Decidiu ficar onde estava. Parecia que ele poderia ser esmagado. Se acontecesse, nĂŁo haveria nada que pudesse fazer a respeito.

Fechou os olhos e observou o arco-Ă­ris.

Em algum momento, o dragĂŁo de fogo se foi.

Ele ainda estava vivo, mas seu corpo parecia realmente pesado ou talvez lento.

Acho que posso descansar. É. Vou descansar um pouco.

Ele havia encontrado um bom lugar. Havia uma depressĂŁo. Por alguma razĂŁo, era um pouco fresca. Um pouco? NĂŁo, era muito fresca. Era um milagre para ele como o solo poderia ser fresco. Estava quente em todo lugar aqui.

Aos poucos, ele percebeu que estava rastejando. Afinal, era muito difícil andar. Rastejar não era fåcil também, mas era melhor que andar.

Até onde essa depressão ia? Parecia que continuava por um bom tempo. Mas talvez aqui fosse bom, pensou ele. Aqui estava bom.

De repente, ele foi envolvido por uma escuridĂŁo total.

À beira disso, teve uma vaga lembrança de pensar: Talvez eu esteja acabado. E, no entanto, seus olhos se abriram de repente.

Parecia que ele ainda estava vivo. Teimoso, hein.

Viver era nĂŁo morrer, afinal.

Ele não conseguia mover nem mesmo um dedo. Estava tendo dificuldades apenas para respirar. Ficou nesse estado por um bom tempo, sem realmente ter esperanças de se recuperar, mas, de repente, lhe ocorreu que talvez pudesse se levantar, e nunca se sabe até tentar, então tentou, e conseguiu.

Se continuasse assim, talvez demorasse a morrer. Teria que continuar vivendo até lå? Bem, nesse caso, viveria.

Mesmo assim, quando sentou-se com as costas contra a parede de rocha, todos os mĂșsculos do corpo relaxaram, como se algum nĂșcleo vital tivesse se soltado.

NĂŁo consigo ver o arco-Ă­ris.

Estå bem escuro, né? Este lugar é escuro.

Espera, que lugar Ă© este…?

Uma depressĂŁo.

Uma depressĂŁo fresca?

Ele se virou para ela.

Isso Ă©… um buraco, nĂŁo Ă©?

— …SĂ©rio? — sussurrou.

Estava escuro e sua visĂŁo estava turva, entĂŁo ele nĂŁo conseguia ver muito bem, mas provavelmente era um buraco. No fundo da depressĂŁo, havia um buraco com cerca de dois metros de largura. NĂŁo era vertical; estava inclinado. NĂŁo conseguia imaginar que fosse apenas uma caverna qualquer. NĂŁo com esse frescor.

Era anormal. Afinal, estavam no topo de uma montanha coberta de lava. Haruhiro estava bem na frente do buraco.

Tinha que ser o tĂșnel.

Aquele buraco levava de volta a Grimgar.

— Isso… nĂŁo pode estar acontecendo… — sussurrou.

Ele podia voltar.

Para Grimgar.

— Este Ă©… o arco-Ă­ris…

Um gemido escapou de sua garganta.

—Como?

Como isso Ă© o inĂ­cio do arco-Ă­ris? É o fim do arco-Ă­ris. NĂŁo existe arco-Ă­ris. Nunca existiu. É uma ilusĂŁo.

Sempre foi impossível. Quer dizer, a essa altura, eu realmente não consigo mais me mover. Além disso, o que vou fazer se voltar sozinho? Isso não adianta. Preciso dos meus companheiros comigo.

Mesmo que eu procure sozinho e acabe encontrando o destino que estĂĄvamos procurando, nĂŁo terĂĄ sentido, terĂĄ?

Esse Ă© o desfecho que me aguardava?

É assim que termina?

Que inĂștil.

Mas, e isso Ă© sĂł talvez, se ao menos um pouco da minha força voltasse, e eu conseguisse avançar, tenho certeza de que procuraria por eles. Meus companheiros. No fim das contas, eu morreria sozinho. Mesmo que seja inĂștil, doloroso e desagradĂĄvel, viverei por alguma coisa atĂ© morrer. Continuarei vivendo.

Ainda nĂŁo sei se conseguirei acordar novamente. NĂŁo consigo me permitir pensar que desejaria acordar, mas se isso acontecer, tenho a certeza de que continuarei a lutar em vĂŁo. Neste momento, vou me permitir dormir.

Gostaria de ter alguĂ©m que cantasse uma canção de ninar para mim. NĂŁo gosto de estar sozinho. AlguĂ©m, esteja comigo. Por favor. Tudo o que preciso Ă© que vocĂȘ esteja aqui.

— Desperte.

Um sonho. Deve ter sido um sonho.

Aquela voz. Ele jĂĄ a tinha ouvido antes.

Era a voz de um homem. Quem era? Mas ele nĂŁo a ouviu agora. Por isso, devia estar sonhando.

Seus olhos estavam grudados com remela ou algo assim. Ele lutou para abri-los. O que ele pensava sobre isso? Estou vivo, talvez? Era um milagre que ele estivesse. Mas ele estava realmente vivo? Este nĂŁo era o mundo apĂłs a morte, era? Era difĂ­cil nĂŁo ter um pouco de dĂșvida.

Ele ouviu algo. Se nĂŁo fosse uma ilusĂŁo auditiva, eram passos. Ele ainda era um ladrĂŁo, mesmo que nĂŁo fosse grande coisa, entĂŁo podia perceber isso.

Os passos estavam se aproximando. VĂĄrias fontes. Provavelmente cinco pessoas.

— Ah… —

Ouviu uma voz. Ele não pÎde evitar forçar-se a levantar a cabeça e virar os olhos na direção de onde a voz vinha.

Estou vivo.

— Haru…! — Mary veio correndo. Ela o abraçou e tocou seu rosto de todos os jeitos possĂ­veis.

Mary. Ela Ă© tĂŁo bonita, nĂ©? Estou percebendo isso tudo de novo. É. NĂŁo sei. O que posso dizer? NĂŁo tenho palavras.

Haruhiro tentou sorrir. Não sabia se conseguiu. Não tinha confiança.

— Haru-kun, Haru-kun! — Yume gritou.

— Haruhiro-kun…! — Era Shihoru.

— Haruhiro! — Mary gritou.

— NĂŁo acredito, caramba! SĂ©rio, seu merda… —

NĂŁo me chama de merda, cara, Haruhiro pensou. Tanto faz, tudo bem. NĂŁo, nĂŁo estĂĄ tudo bem.

Na verdade, nĂŁo estĂĄ.

— Vou te curar agora! Haru! VocĂȘ me ouve?! Aguenta firme! Vai ficar tudo bem! Todo mundo estĂĄ aqui! —

Haruhiro acenou com a cabeça, então fechou os olhos.

Ele podia ver o arco-Ă­ris.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.


Compartilhe nas Redes Sociais

Publicar comentĂĄrio

Anime X Novel 7 Anos

Trazendo Boas Leituras AtĂ© VocĂȘ!

Todas as obras presentes na Anime X Novel foram traduzidas de fĂŁs para fĂŁs e sĂŁo de uso Ășnico e exclusivo para a divulgação das obras, portanto podendo conter erros de gramĂĄtica, escrita e modificação dos nomes originais de personagens e locais. Caso se interesse por alguma das obras aqui apresentadas, por favor considere comprar ou adquiri-las quando estiverem disponĂ­vel em sua cidade.

Copyright © 2018 – 2025 | Anime X Novel | Powered By SpiceThemes

CapĂ­tulos em: Hai to Gensou no Grimgar