Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 12 – Volume 7

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – CapĂ­tulo 12:
[Kinuko-sama]


— Estou morrendo! DĂłi demais! — gritou Ranta enquanto usava Leap Out para se posicionar na frente do inimigo. — Esse 49Âș dia claramente estĂĄ amaldiçoado!

O inimigo tentou se virar em direção a Ranta, mas, com um ótimo timing, Kuzaku avançou com o escudo que tinha adquirido recentemente à sua frente, impedindo o inimigo de fazer isso.

— Grahhhh! — gritou Kuzaku.

— Ngh…! — Ranta balançou a lĂąmina negra que tinha comprado do ferreiro contra o flanco do inimigo. — Claro que eu quis dizer que ele estĂĄ amaldiçoado para vocĂȘ, amigĂŁo!

Enquanto o leão morto tossia e jorrava sangue de sua mandíbula aterrorizante, envolveu o braço esquerdo ao redor de Ranta. Kuzaku estava atrapalhando o movimento de seu braço direito, então o inimigo não conseguia se mover como queria. Além de interferir em seus movimentos, Kuzaku estava gritando e cravando sua espada nas entranhas da criatura.

Yume soltou a corda do arco. Sua flecha voou e atingiu o morto na testa.

Haruhiro quis parabenizá-la, mas Yume gritou, consternada: — Miaaauw!

Ela devia ter mirado nos olhos, mas errou. Mesmo assim, nĂŁo tinha errado por muito.

Haruhiro manteve a calma enquanto se agarrava às costas da criatura, cravando sua espada curta no pescoço do morto. Sua densa e rígida juba atrapalhava. Ele puxou a espada de volta e a cravou de novo—Não. Ele sentiu algo. O corpo da criatura estava cheio de uma força anormal.

Haruhiro largou e saltou para trĂĄs.

— Afastem-se dele por enquanto!

— Tá! — gritou Kuzaku.

— Droga! — exclamou Ranta.

Kuzaku e Ranta imediatamente seguiram a ordem de Haruhiro e recuaram. No mesmo instante, o leĂŁo morto soltou um rugido verdadeiramente arrepiante. Era um som tĂŁo forte que parecia agarrar todos que o ouviam pelas entranhas, mexendo com eles por dentro. Mesmo que estivessem preparados, seria difĂ­cil de suportar. Dava vontade de tapar os ouvidos e gritar: Por favor, pare!. Na verdade, Haruhiro, Kuzaku, Ranta e Yume se encolheram. AtĂ© mesmo Zodiac-kun, que estava flutuando por perto sem fazer nada, se encolheu. Mary tambĂ©m, mas Shihoru, que estava ao seu lado com a mente altamente concentrada, foi a Ășnica que nĂŁo reagiu.

— Dark! — gritou Shihoru.

Quando Shihoru chamou esse nome, a coisa apareceu, como se tivesse saĂ­do de uma porta que se abriu de um mundo invisĂ­vel. Os fios longos e escuros se torceram em espiral e assumiram uma determinada forma. Parecia uma pessoa, do tamanho exato para caber na palma de uma mĂŁo humana. Uma escuridĂŁo do tamanho de uma palma. Era um elemental.

Depois de muito tentar e errar, Shihoru decidiu por essa forma. Se vocĂȘ perguntasse a ela, Shihoru diria que ainda era um trabalho em progresso, e que ele devia ter uma forma verdadeira, uma mais apropriada para ele.

Independentemente disso, Dark havia se apegado a Shihoru. Pelo menos, era o que parecia para Haruhiro. Afinal, Dark aparecia ao lado do rosto de Shihoru e se sentava em seu ombro. E isso nĂŁo era tudo.

— Vai!

Quando Shihoru deu a ordem, Dark obedeceu. Ele saiu voando do ombro de Shihoru com um misterioso grito, ou talvez apenas um som, enquanto se lançava na direção do leão morto.

Dark atingiu o peito do leĂŁo morto. NĂŁo houve impacto. Ele foi sugado para dentro de seu corpo. Isso fez alguma coisa? O que Dark causou? Isso nĂŁo era absolutamente claro. Mas, de qualquer forma, o leĂŁo morto gemeu e se curvou, como se tivesse levado um soco sĂłlido no plexo solar, depois caiu de joelhos. Dark estava surtindo efeito.

Antes que Haruhiro pudesse gritar “Agora!”, Ranta já estava avançando com Leap Out. Ele desenhou um oito com sua espada negra e—não.

Ranta estava desenhando um infinito, nĂŁo um oito.

— Dança… do PurgatĂłrio Negro Infinito!

Primeiro um infinito, depois um oito. O oito foi seguido por outro infinito. ApĂłs o infinito, mais um oito. Ele encadeou os movimentos. Encadeou e encadeou.

O leĂŁo morto nĂŁo usava nenhuma armadura real, mas seu corpo estava protegido por uma densa e dura camada de pelos, gordura que absorvia impacto e mĂșsculos espessos. Graças a isso, ataques de corte eram praticamente ineficazes contra ele. Ainda assim, Ranta o cortava. Ele cortava e cortava como um louco. No final, tropeçou para trĂĄs, sem fĂŽlego.

— O que… — Kuzaku cravou a espada na barriga do leĂŁo morto de novo, exatamente onde ele jĂĄ havia cravado antes, e a torceu. — … Era pra ser infinito?!

— Nguhhhhhhh! — O leão morto se contorcia, jorrando sangue.

— Isso Ă© tĂŁo Ranta! — Yume disparou uma flecha atrĂĄs da outra.

Ela estava usando Rapid Fire. TrĂȘs disparos. O primeiro errou, mas o segundo acertou em cheio o olho direito do leĂŁo morto, e o terceiro ricocheteou no elmo de Kuzaku.

— Whoa! — gritou Kuzaku.

— Miau?! D-Desculpa por isso!

— Wahaha! — Ranta respondeu rapidamente. — Isso Ă© tĂŁo Yume!

— Cala boca, Ranta estĂșpido!

— Ehe… É verdade, vocĂȘ Ă© barulhento demais… Cala a boca, Ranta. Pra sempre… Ehehe…

— Zodiac-kun! VocĂȘ tĂĄ basicamente me dizendo pra morrer, nĂŁo Ă©?! — Ranta gritou.

— Auugh…! — O leĂŁo morto tentou empurrar Kuzaku para longe.

Kuzaku fincou os calcanhares no chão, resistindo. Ele forçou a espada longa ainda mais fundo e a torceu.

— Rahhh!

Haruhiro pulou nas costas do leão morto, cravando sua espada curta. Ele rasgou a camada de pelos, carne e gordura. Sua lñmina passou entre as costelas—mas não adiantou. Não conseguiu alcançar os órgãos.

— Haru! — Mary o chamou, então Haruhiro decidiu se afastar silenciosamente do leão morto. Ao enfrentar um inimigo desse nível, um simples ladrão como Haruhiro dificilmente conseguiria dar um golpe fatal. Essa era a suposição mais segura. Se ele conseguisse ver aquela linha, seria diferente, mas não era algo que ele poderia enxergar só tentando.

Com um rugido, o leão morto tentou usar as quatro patas para empurrar Kuzaku. Kuzaku resistia, mas as chances não estavam a seu favor numa disputa de pura força.

— Morre logo! — Ranta acertou com força a cabeça do leão morto com sua espada negra, mas ainda assim não conseguiu cortá-lo.

O leĂŁo morto finalmente deu um chute em Kuzaku, fazendo-o perder o equilĂ­brio.

— Guh!

Imediatamente, o leão morto se virou e começou a correr.

— Acha que vai fugir?! — Ranta gritou, correndo atrĂĄs dele. NĂŁo, ele sĂł fingiu. Ranta deu dois, trĂȘs passos e entĂŁo parou, estalando a lĂ­ngua. — Perdemos a chance de matĂĄ-lo! E Ă© porque vocĂȘs sĂŁo todos inĂșteis, sabiam?! Se tivesse outro de mim aqui, terĂ­amos acabado com ele!

— …É, continua falando. — Haruhiro olhou em volta, verificando se nĂŁo havia mais nenhum outro morto por perto, e entĂŁo respirou fundo.

— Kehehe… Se houvesse dois Ranta… este mundo seria um pesadelo… Kehe… Kehehehe… — Zodiac-kun gargalhou.

— O que vocĂȘ quer dizer com isso?! — Ranta berrou.

— Exatamente o que pareceu. — murmurou Shihoru.

— Zodiac-kun Ă© tĂŁo gentil. — Mary sorriu friamente. — Se for o caso, essa foi uma avaliação generosa.

— VocĂȘs sĂŁo cruĂ©is! O que eu fiz pra vocĂȘs?!

— VocĂȘ tem feito vĂĄrias coisas. — Yume estufou as bochechas e puxou a corda de seu arco. — Essa foi por pouco… VocĂȘ acha?

— Difícil dizer. — Kuzaku levantou a viseira de seu elmo, virando o pescoço. — Achei que conseguiríamos vencer, mas não deu. Foi como se faltasse algo decisivo? Talvez?

— Mas a magia da Shihoru foi eficaz. — Haruhiro fez um sinal de positivo para Shihoru.

— VocĂȘ acha? — O pescoço de Shihoru encolheu de vergonha. — Espero que tenha sido.

— VocĂȘ foi Ăłtima. — Mary deu um tapinha nas costas de Shihoru. — Criando magia no seu prĂłprio estilo. Eu deveria aprender com seu exemplo.

— …Heh heh — Shihoru riu, sem jeito.

— Graças a mim! — Ranta estufou o peito. — É porque eu sempre mostro meu estilo prĂłprio! Foi minha influĂȘncia! Claramente!

— Kehe…

— O-O quĂȘ, Zodiac-kun? Se tem algo a dizer, diga. Somos parceiros. NĂŁo precisa se segurar comigo. — Ranta fez uma pausa. — Espera, vocĂȘ tĂĄ sumindo?! Por causa disso?! Volta aqui, Zodiac-kun, tĂĄ?! Se vocĂȘ for embora assim, vai ficar esquisito quando eu te invocar de novo, sabia?!

O leĂŁo morto era um inimigo problemĂĄtico que Ă s vezes aparecia no Distrito Noroeste da Cidade dos Mortos. AtĂ© pouco tempo atrĂĄs, eles nĂŁo teriam escolha a nĂŁo ser fugir no momento em que ele atacasse, mas agora podiam enfrentĂĄ-lo de igual para igual. Eles jĂĄ haviam lutado com ele vĂĄrias vezes, entĂŁo estavam se acostumando. Considerando a experiĂȘncia que haviam adquirido, era seguro pensar que Haruhiro e os outros estavam ficando mais fortes.

Na verdade, o equipamento deles tambĂ©m havia melhorado. Kuzaku havia conseguido um escudo curvo em forma de trapĂ©zio, segundo o ferreiro da Vila do Poço, ele aparentemente se chamava Gushtat, e, apĂłs adquirir um par de manoplas leves e resistentes, Ranta substituiu sua armadura por um conjunto mais leve e de aparĂȘncia mais sinistra. Ele estava chamando-a de Armadura da Morte. Que completo e absoluto idiota.

Quanto a Haruhiro, seu manto, armadura de couro, luvas, calças e todo o resto estavam tão gastos e esfarrapados que eram irreparåveis, então ele comprou algumas peças novas, de cor escura, no vendedor de roupas e bolsas da Vila do Poço. Para peitoral e afins, ele conseguiu um conjunto de peças de couro que, ao olhar mais de perto, parecia ser de couro de cobra. Ele estava bastante satisfeito com elas. Também teve que adaptar um par de luvas de sete dedos para suas mãos de cinco dedos, mas jå estava tão acostumado com elas que agora pareciam estranhamente familiares e fåceis de usar.

Pelo visto, Yume havia decidido aumentar sua defesa de uma maneira que nĂŁo prejudicasse sua habilidade de usar o arco. Ela estava usando vĂĄrios protetores aqui e ali. Provavelmente eram feitos de ossos revestidos com algum tipo de resina, mas eram realmente leves.

O chapĂ©u e a tĂșnica de Shihoru tambĂ©m estavam bastante desgastados, entĂŁo as garotas foram juntas comprar algo adequado para ela na loja de roupas e bolsas. Elas fizeram isso, mas parecia que estava um pouco apertado na ĂĄrea do peito. Ainda assim, talvez a tĂșnica que ela usava atĂ© entĂŁo fosse apenas um pouco larga demais.

Ranta cochichou para Haruhiro, em voz baixa para que Shihoru nĂŁo o ouvisse pela primeira vez, algo como: — Ela nĂŁo estava apenas escondendo. Aqueles sĂŁo uns peitos de torpedo. Quero dizer, cara, ela Ă© ainda mais “avantajada” do que eu pensava.

Sinceramente, Haruhiro concordava, mas ainda assim sentiu vontade de matar o Ranta por dizer isso.

Como sacerdotisa, Mary estava relutante, mas acabou se desfazendo de sua tĂșnica, que estava bastante danificada. Ela procurou um casaco branco para substituĂ­-la, mas nĂŁo encontrou, entĂŁo optou por um azul-escuro. Ficou muito bem para seu tipo fĂ­sico, e ela parecia Ăłtima com ele. Ela tambĂ©m adquiriu um cajado com uma ponta que parecia dolorosa de ser atingido, mas esse havia sido saqueado, e nĂŁo algo que ela comprou.

A propósito, todos eles compraram måscaras ou coberturas faciais na loja de måscaras, o que tornou o tempo que passaram escondidos na Vila do Poço um pouco mais confortåvel. Eles também estavam comprando suas necessidades diårias conforme a necessidade surgia. Agora havia muito menos coisas que sentiam estar faltando em suas vidas.

Além disso, o mais notåvel era a nova magia de Shihoru. Ela havia dado forma ao elemental que nomeou de Dark, que agora podia controlar.

Parece que a razĂŁo pela qual Dark se assemelhava a um elemental das sombras era porque Shihoru se especializou na magia das sombras Darsh. Elementais se alimentam do poder mĂĄgico do mago para tomar forma e exercer seu poder. Por causa disso, o mago e o elemental influenciam um ao outro diretamente. Sendo um ladrĂŁo, Haruhiro nĂŁo entendia muito bem, mas talvez fosse algo semelhante ao que acontecia com o demĂŽnio de um cavaleiro das trevas.

De qualquer forma, a nova magia de Shihoru, Dark, tinha acabado de ser criada e ainda estava em desenvolvimento, entĂŁo ainda havia todo tipo de potencial.

Shihoru havia escolhido o caminho da magia Darsh, que se especializava em feitiços de suporte e interferĂȘncia, mas tambĂ©m havia aprendido magia Falz para ganhar algum poder destrutivo, e ainda havia se aventurado um pouco na magia Kanon. Seu caminho tomou vĂĄrias voltas. No entanto, passar de uma coisa para outra provavelmente nĂŁo era o que Shihoru realmente queria fazer. Ela era do tipo dedicada, alguĂ©m que preferiria se aprofundar em um Ășnico caminho o mĂĄximo possĂ­vel.

SerĂĄ que Dark poderia se tornar esse Ășnico caminho para Shihoru? Haruhiro esperava que sim.

O 49Âș dia deles naquele mundo terminou, e o 50Âș começou.

Quando foram à Vila do Poço para lavar o rosto e tomar café da manhã, Haruhiro e os outros o encontraram novamente.

— Oh ho! — Ranta deu um salto no ar. — É o Unjo-san!

Usando um chapéu trançado, esse homem, que parecia um verdadeiro arsenal ambulante, com machados, espadas, bestas e mais pendurados no quadril e na mochila, estava tomando uma tigela de sopa de insetos. Era apenas a segunda vez que o viam, mas era inconfundível. Era o Sr. Unjo.

Quando o Sr. Unjo terminou de beber o caldo, ele pegou os insetos com os dedos e os comeu. Então, ao esvaziar a tigela, disse: — Ruo keh — devolvendo-a ao caranguejo, antes de finalmente se virar para Haruhiro e os outros.

— VocĂȘs, nĂ©? Soldados voluntĂĄrios. Ainda estĂŁo vivos, Ă©?

— Graças a vocĂȘ! — Ranta correu atĂ© ele e fez um gesto de soco no ar. — Quero dizer, cara, aquela Cidade dos Mortos! Quando vocĂȘ nos falou daquele lugar, nos ajudou muito! Desde entĂŁo, nossa qualidade de vida melhorou bastante! VocĂȘ Ă© o melhor, Unjo-san! Unjo-san para presidente! Presidente…? Talvez rei seja melhor? Bem, tanto faz. Hehehehe. VocĂȘ gostaria disso, Sua ExcelĂȘncia?! NĂŁo, na verdade, que tal Sua Majestade?! Gostaria disso?! É isso que vai ser?!

— Cara, vocĂȘ Ă© muito irritante… — Haruhiro lutou contra uma dor de cabeça latejante enquanto empurrava Ranta de lado e inclinava a cabeça em desculpas. — Desculpe pelo nosso inĂștil, estĂșpido pedaço de lixo…

O Sr. Unjo puxou a aba de seu chapĂ©u trançado para baixo. NĂŁo disse uma palavra. O que isso significava? SerĂĄ que ele estava com raiva…?

Ranta engoliu em seco audivelmente e cutucou Haruhiro de lado. — I-Idiota. E-Essa Ă© sua culpa! Tudo isso!

— Por quĂȘ…?

— VocĂȘ Ă© o lĂ­der, droga! Isso significa que tudo Ă© sua responsabilidade, seu inĂștil!

Com um olhar de volta para Haruhiro, que estava tão exasperado que nem tinha vontade de ficar propriamente irritado, o Sr. Unjo começou a andar.

Para onde ele estava indo? Para a loja de variedades ao lado da mercearia? Bem, eles chamavam de loja de variedades, mas a maioria dos itens que a loja exibia era sucata. Além disso, fora as raras ocasiÔes em que o lojista magro, que se vestia todo de cinza escuro, aparecia do lado de fora, a loja não ficava aberta.

O dono nĂŁo estava por perto agora. A porta da loja ainda estava fechada.

Uma vez, Ranta disse algo estĂșpido sobre um teste de coragem, ou algo assim, e bateu na porta. NĂŁo houve resposta.

A loja de variedades era a loja mais misteriosa de toda a Vila do Poço. Para começar, Haruhiro e os outros só a chamavam de loja de variedades por conta própria. Talvez nem fosse uma loja de verdade.

O Sr. Unjo nĂŁo bateu na porta da loja. Ele simplesmente a abriu. Era uma porta deslizante. O Sr. Unjo entrou em silĂȘncio.

Espera, hĂŁ? Haruhiro pensou, surpreso. Pode isso?

— O-O que deveríamos fazer? — Ranta havia se abrigado atrás de Haruhiro em algum momento.

— …O que vocĂȘ quer dizer com “o que”? Por enquanto, sĂł se afaste de mim.

— Ei, cara, eu nĂŁo tĂŽ me agarrando em vocĂȘ porque gosto. NĂŁo entenda errado, idiota.

— Hm. — Kuzaku pressionou o pescoço e o girou. — Tî interessado, sabe. Pra ser sincero.

— É — Yume disse distraída. — Vamos tentar entrar.

Bom, estamos dentro da Vila do Poço. Não é como se fÎssemos ser mortos, raciocinou Haruhiro. Provavelmente.

A porta da loja ainda estava aberta. Haruhiro primeiro tentou espiar lĂĄ dentro. E teve uma surpresa.

NĂŁo havia uma Ășnica janela, e as paredes, fracamente iluminadas por uma lĂąmpada, estavam cobertas de… Eram tĂĄbuas de pedra? Ou talvez tĂĄbuas de barro? De qualquer forma, a visĂŁo de muitas tĂĄbuas retangulares, grandes e pequenas, com sĂ­mbolos e figuras esculpidos nelas, era avassaladora para Haruhiro. Aqueles sĂ­mbolos eram letras? Algumas das figuras atĂ© tinham cores.

Mesmo sentado numa cadeira ao fundo, o lojista magrelo parecia longo e fino. O Sr. Unjo colocou sua enorme mochila no chĂŁo. Parecia que ele estava tentando pegar algo de dentro dela. Acontece que era uma tĂĄbua de pedra.

— Uau… — Yume se agachou na porta. — O que Ă© tudo isso? É incrĂ­vel.

Ranta levantou a viseira de seu elmo e olhou ao redor, encarando. — Tesouro, nĂ©…?

— É sĂł isso que tem? — Shihoru olhou ao redor da sala, entĂŁo suspirou. — Embora, de certo modo, pode ser um tesouro…

— Isso pode não ser uma loja de variedades — Mary disse em voz baixa. — Talvez seja um museu.

— As coisas parecem velhas o bastante pra ser. — Kuzaku entrou na loja. Ele começou a estender a mão para tocar uma das tábuas de pedra, mas logo a recolheu. — Talvez seja má ideia tocar nelas.

O lojista magrelo aceitou a tĂĄbua de pedra do Sr. Unjo, colocando-a sobre a mesa e segurando ambas as mĂŁos sobre ela.

Haruhiro estremeceu um pouco. Ele havia visto algo um tanto assustador. As mãos do lojista magrelo. Elas tinham cinco dedos, mas nas palmas—Se seus próprios olhos não o estavam enganando, havia olhos lá. O lojista magrelo estava usando aqueles olhos para examinar a tábua de pedra.

O Sr. Unjo se virou para Haruhiro. — Aqui, nĂŁo hĂĄ livros. NĂŁo livros de papel. Ainda restam registros, porĂ©m. Em pedra, em barro. Em tĂĄbuas. O sĂĄbio das mĂŁos com olhos, Oubu, Ă© um pesquisador. Ele coleciona tĂĄbuas. Se uma tĂĄbua tiver valor, ele a comprarĂĄ de vocĂȘ.

O såbio das mãos com olhos, Oubu, presumivelmente era o lojista magrelo. Quando as mãos do såbio Oubu se afastaram da tåbua, ele remexeu nas gavetas da mesa e tirou algumas moedas pretas. Eram grandes. Não pequenas, nem de tamanho médio. Moedas grandes. E não apenas uma. Duas delas.

Duas moedas grandes significavam 2 rou. Dependendo da loja a que fossem, ou melhor, da pessoa, o valor delas podia variar entre 20 e 50 ruma. Era uma fortuna.

Pegando as duas moedas do sábio Oubu, o Sr. Unjo as enfiou de forma desajeitada em sua mochila. — Ruo keh.

— Avaruu seha — respondeu o sábio Oubu, com suas mãos voltando à tábua de pedra na mesa. Com aqueles olhos nas mãos, ele examinava cuidadosamente a nova tábua adquirida.

— Lumiaris e Skullhell. — O Sr. Unjo mencionou subitamente dois nomes inesperados enquanto apontava para uma das tábuas de pedra. — A batalha entre os deuses está representada.

— Ohhh…! — Ranta correu atĂ© lĂĄ, pressionando o rosto bem perto da tĂĄbua de pedra. — Ele tĂĄ falando sĂ©rio! Esse cara Ă  direita, o rosto dele parece o sĂ­mbolo de Skullhell!

— Lumiaris sempre Ă© representado apenas pelo hexagrama, nunca desenhado, mas… — Mary parecia intrigada tambĂ©m, e apertou os olhos para enxergar melhor a tĂĄbua. — A mulher Ă  esquerda, Ă© Lumiaris…?

Essa tĂĄbua de pedra era retangular e oblonga. No lado direito, havia um homem com um rosto parecido com um crĂąnio, e no lado esquerdo, uma mulher de cabelos longos. O homem segurava uma grande foice na mĂŁo direita, uma espada na esquerda, e ele tinha apenas uma perna. A mulher estava nua, com uma esfera grande na mĂŁo direita e uma esfera pequena na mĂŁo esquerda. Havia um arco-Ă­ris nas suas costas.

A metade direita do fundo era noite, e a metade esquerda era dia. Havia muitas pequenas criaturas na parte inferior. Cada uma delas estava alinhada com o homem ou a mulher, e elas lutavam umas contra as outras. Elas se perfuravam com espadas, flechas voavam de um lado para o outro, e muitas criaturas podiam ser vistas caĂ­das. Uma batalha sangrenta estava em andamento.

— Isso aconteceu aqui — disse o Sr. Unjo em um tom baixo. — Lumiaris e Skullhell estiveram aqui. Aqui em Darunggar.

— Darung…gar? — Haruhiro perguntou enquanto olhava para as outras tĂĄbuas de pedra e barro.

— É como aqueles que vivem aqui chamam este lugar.

— O Deus da Luz, Lumiaris, e o Deus das Trevas, Skullhell, lutaram aqui em Darunggar… — disse Shihoru cautelosamente. — HĂĄ muito tempo, o povo de Darunggar se aliou a Lumiaris ou a Skullhell, e eles lutaram… É isso?

— Quem ganhou… serĂĄ? — Kuzaku esfregou o hexagrama esculpido em sua prĂłpria armadura.

— Ei, cara. — Ranta bufou. — Olha como tá escuro aqui. Obviamente, o meu amado Senhor Skullhell venceu, certo?

— Mas magia de luz tambĂ©m funciona aqui, nĂŁo? — Mary rebateu imediatamente. — Se Lumiaris perdeu, nĂŁo Ă© estranho que seu poder ainda alcance aqui?

— VocĂȘ pode dizer isso, mas vale para a minha magia das trevas tambĂ©m, sabia? Bom, ambas parecem ser menos que metade tĂŁo eficazes quanto o normal, de qualquer forma.

— Então. — Yume olhava para outra tábua de pedra. — Deve ter sido um empate, não?

— EntĂŁo, agora eles foram para Grimgar? — Haruhiro inclinou a cabeça para o lado. — …Como se chamaria um grupo de deuses, afinal? Uma banda? NĂŁo. Um aglomerado? NĂŁo. Uma party? TambĂ©m nĂŁo. Talvez um panteĂŁo…?

— O curso da batalha permanece desconhecido. — O Sr. Unjo colocou sua mochila no ombro. — O sĂĄbio das mĂŁos com olhos, Oubu, diz que ele nĂŁo sabe. Ele estĂĄ investigando isso. De qualquer forma, Lumiaris e Skullhell deixaram Darunggar. Darunggar Ă© um mundo sem deuses.

— Eles se foram… — Haruhiro puxou um pouco o cabelo na nuca. — Espere, por onde eles saĂ­ram?

Shihoru engoliu em seco. — HĂĄ… um caminho, em algum lugar? Sem um caminho de Darunggar para Grimgar, eles nĂŁo poderiam ter saĂ­do… certo?

— Isso significa uma coisa! — Ranta gritou. — A gente pode voltar pra casa, nĂŁo Ă©?!

Kuzaku olhou de relance para o Sr. Unjo. — Se pudĂ©ssemos voltar, ele jĂĄ nĂŁo teria feito isso?

— Ah, sim. — Yume soltou um suspiro profundo. — Com o Konjo-san ainda estando aqui, isso deve ser verdade, nĂ©…?

— VocĂȘ quis dizer Unjo-san, certo? — corrigiu Haruhiro, voltando a se concentrar.

Na verdade, ele não estava tão chocado assim. Ele vinha pensando, Quero voltar para casa. Seria bom se conseguíssemos, mas ultimamente havia começado a sentir, Bem, se não pudermos voltar, tudo bem também.

Se não conseguissem encontrar nenhuma pista de como voltar depois de cem, duzentos dias aqui, teriam que começar a agir como se fossem viver ali para sempre. Teriam que criar raízes em Darunggar. Por exemplo, começar uma família? Claro, isso seria algo que naturalmente começariam a considerar. Provavelmente era uma questão importante. Haruhiro não poderia se eximir disso dizendo, Eu sou o líder. Se fosse o caso, como líder, ele teria que tomar a iniciativa.

NĂŁo havia garantia de que ele nĂŁo acabaria se confessando.

Não, isso não é provåvel, né? Não posso, certo? Ou melhor, o que é uma confissão? O que eu vou confessar? Para quem? Eu nem sei o que quero dizer.

Enquanto Haruhiro fazia essas perguntas sem sentido para si mesmo, o Sr. Unjo saiu da loja do sĂĄbio Oubu, que definitivamente nĂŁo era uma loja comum. Ele poderia ter dito algo antes, mas sendo o Sr. Unjo, era difĂ­cil culpĂĄ-lo, Haruhiro supĂŽs.

Haruhiro e os outros saĂ­ram da loja tambĂ©m, e viram o Sr. Unjo se dirigindo a outra construção. Era o maior prĂ©dio da Vila do Poço, feito de pedras empilhadas, com janelas de vidro. Pela experiĂȘncia de Haruhiro, sempre havia luz vazando das janelas de vidro. AlguĂ©m tinha que morar lĂĄ. Ou assim ele sempre supĂŽs, mas nunca havia visto quem morava lĂĄ.

O Sr. Unjo tinha entrado naquele prĂ©dio da Ășltima vez tambĂ©m. Haruhiro se lembrava disso. Ele nunca tinha visto mais ninguĂ©m entrando ou saindo.

O Sr. Unjo abriu a porta, lançando um olhar para Haruhiro e os outros. Me sigam, parecia estar dizendo. Interpretando dessa forma, Haruhiro e os outros seguiram o Sr. Unjo para dentro do prédio.

Haruhiro sentiu um arrepio. Era uma sensação muito estranha.

Que lugar Ă© esse?, perguntou-se Haruhiro.

O mundo chamado Darunggar. Vila do Poço. Não parecia nenhum dos dois. Este lugar era diferente.

Ao contrĂĄrio dos outros prĂ©dios da Vila do Poço, este tinha um chĂŁo apropriado, e havia um tapete estendido. Havia prateleiras. Havia uma Ășnica mesa. Havia cinco cadeiras. Parecia haver outro cĂŽmodo nos fundos. Em ambos os lados da janela de vidro, havia cortinas. Havia castiçais espalhados por aqui e ali. Todos eles estavam acesos. Quatro das cadeiras estavam dispostas ao redor da mesa. Havia apenas uma no centro da sala.

LĂĄ, no meio de tudo, ela estava sentada.

Ela era humana. Vestindo um vestido vermelho. Com meias brancas, sapatos pretos, uma fita vermelha, cabelo loiro e olhos azuis. Ela parecia uma garota jovem, com pele pĂĄlida.

Foi o que ele pensou Ă  primeira vista. Mas logo percebeu que nĂŁo era esse o caso.

— …Uma boneca? — Haruhiro piscou e olhou novamente.

Por que ele havia pensado que ela era humana? Ela era bem-feita, mas claramente antiga, e sua pele estava rachada aqui e ali. Seus olhos estavam bem abertos. Mas seu cabelo parecia ter sido penteado, e, embora as cores de sua roupa estivessem um pouco desbotadas, ela nĂŁo estava rasgada ou desgastada em lugar nenhum.

— Espera aĂ­… — Ranta ficou sem palavras.

NĂŁo era apenas aquela boneca e os mĂłveis. Esta sala estava transbordando de coisas Ășnicas e diferentes. Nas prateleiras, sobre a mesa e atĂ© mesmo no chĂŁo. O que mais chamava atenção, porĂ©m, era que, embora nĂŁo fossem exatamente todas…

Isto, e aquilo, e isto, e aquilo, tudo Ă© familiar.

O objeto parecido com uma moldura encostado na parede. A coisa redonda sobre a mesa. O objeto grosso e retangular. O que tinha dois objetos em forma de disco conectados por uma espécie de faixa. O objeto fino e retangular que parecia caber na mão dele. O objeto em forma de placa com muitos botÔes. O objeto com vidro na frente, que era um retùngulo com cantos arredondados.

Eu jĂĄ vi isso. Provavelmente. Muito provavelmente.

Ele sabia que devia ter visto. E, no entanto, sua confiança começou a vacilar. Ela se dissipou rapidamente. Eu jå vi isso antes? Sério? Como posso dizer isso com certeza?

Ele nem sabia. NĂŁo conseguia lembrar os nomes deles, ou quando e onde os tinha visto. NĂŁo conseguia se lembrar, mas… Como podia afirmar que jĂĄ os tinha visto antes? Que evidĂȘncia ele tinha?

Ainda assim, havia coisas ali que ele conseguia identificar com firmeza. Havia alguns óculos. Um tinha armação preta, outro era de metal. Outro ainda tinha armação de casco de tartaruga. As lentes estavam quebradas ou faltando em alguns casos, mas eram claramente óculos.

As prateleiras também tinham livros. No entanto, não eram como os livros que ele havia visto em Grimgar. Eram mais finos e muitos eram pequenos. Havia também latas e recipientes transparentes. Mas, embora fossem transparentes, não pareciam ser de vidro.

O Sr. Unjo colocou sua mochila no chĂŁo e tirou algo de dentro dela. Era branco, um pequeno objeto em forma de bola. Quando o Sr. Unjo o colocou sobre a mesa, fez um som seco.

A bola nĂŁo rolou. Parecia que sua superfĂ­cie era irregular.

— O que… O que Ă© isso? — perguntou Kuzaku. — Eu conheço isso… ou sinto que deveria conhecer, mas o que Ă©?

— Quem sabe? — Sr. Unjo olhou lentamente ao redor da sala. Talvez estivesse verificando o quanto as velas tinham queimado. — Eu não sei. Não eu. Mas são diferentes, isso eu posso dizer. As coisas nesta sala são diferentes.

— …Diferentes. — Shihoru balançou a cabeça. — Eu sinto o mesmo. SĂŁo diferentes.

Mary pressionou uma mĂŁo contra o peito.

— VocĂȘ juntou tudo isso?

— Não — respondeu imediatamente o Sr. Unjo. — Quando cheguei aqui pela primeira vez, esta sala já existia.

— Miau… — Yume pegou o objeto fino e retangular da mesa. Quando o passou pelo dedo, o pĂł foi removido, e ele era surpreendentemente liso. Yume inclinou a cabeça para o lado, olhando para o objeto de forma estranha. — …Nuuh?

— Os moradores começaram a coleção, entĂŁo? — Ranta olhou para a boneca, claramente desconfortĂĄvel. — NinguĂ©m vive nesta casa? AlĂ©m daquela garota?

O Sr. Unjo fez um gesto com o queixo em direção à boneca.

— Não toquem na Kinuko.

— Kinu…ko… Espera, vocĂȘ quer dizer a boneca?

— Todos a chamam assim.

— Hmm — disse Ranta. — Bem, ela não parece uma Kinuko pra mim. Mais como uma Nancy, se for pra dizer algo.

— Ela não tem cara de Nancy — discordou Shihoru. — Nem de longe.

— E então, do que ela tem cara, hein?! Fala aí, peituda!

— Peit… — Shihoru cobriu o peito com os braços. — …T-Talvez uma Alice? Algo assim…

— Alice, Ă©? Hmm. — Ranta cruzou os braços. — De qualquer forma, Kinuko tĂĄ fora de questĂŁo.

— Os deuses abandonaram Darunggar. — Unjo levantou sua mochila. — Ela Ă© o substituto deles. Nesta vila, Kinuko Ă© adorada. Dizem que ela veio de outro mundo…

— De fato… — Haruhiro assentiu. — Ela nĂŁo parece ser deste mundo. Mas, dito isso, se vocĂȘ me perguntasse se ela veio de Grimgar—

— Nem a pau. — Yume ainda mexia no objeto fino e retangular. — Isso Ă© verdade, mas Yume, ela tĂĄ com um sentimento misterioso, sabe? É tĂŁo nostĂĄlgico, de alguma forma. Mesmo que ela nĂŁo tenha ideia do que isso deveria ser, ela sente como se conhecesse. Estranho…

— Objetos estrangeiros tambĂ©m sĂŁo adorados — disse Unjo. — Se encontrar algo por aĂ­ que pareça um, traga aqui. Ofereça Ă  Kinuko.

— VocĂȘ quer dizer, tipo… — Ranta, como sempre, era vulgar e sem classe. — De graça?

O Sr. Unjo apenas soltou um grunhido baixo e nĂŁo respondeu Ă  pergunta.

Haruhiro inclinou a cabeça levemente.

— …Desculpe por ele. SĂ©rio.

— HĂŁ? Por que vocĂȘ tĂĄ se desculpando, Parupirooo? VocĂȘ Ă© um idiota, ou algo assim? Sim, vocĂȘ Ă© um idiota, nĂ©. — Ranta nĂŁo mostrava arrependimento. — Olha, acho que funciona assim. Mesmo que nĂŁo tenha dinheiro envolvido, ele tĂĄ dizendo que Kinuko Ă© uma deusa. Talvez possamos esperar algum tipo de bĂȘnção? Isso tornaria isso valioso. Sim. Se encontrarmos algo, vamos trazer aqui.

— …Mas ainda assim. — Kuzaku estava agachado em frente ao objeto parecido com uma moldura. — Por que todas essas coisas estĂŁo aqui? Ou serĂĄ que essa Ă© a pergunta certa? O que Ă© isso? NĂŁo consigo expressar muito bem, mas nĂŁo Ă© esquisito?

Haruhiro podia entender o que Kuzaku queria dizer. Ele entendia, mas nĂŁo conseguia colocar em palavras muito bem. Era frustrante nĂŁo conseguir expressar em palavras, e ele achava tudo aquilo muito estranho.

Estamos procurando uma maneira de voltar ao nosso mundo original. As palavras de Shima voltaram Ă  sua mente.

Uma maneira de voltar. Para o mundo original deles.

A cabeça de Haruhiro doĂ­a. Nas tĂȘmporas—nĂŁo, mais profundo—ele sentia uma dor pesada, mas aguda. Havia algo lĂĄ. Ele nĂŁo conseguia evitar essa sensação. Mas suas mĂŁos nĂŁo podiam alcançar. Estava dentro de sua cabeça, afinal. Ele nĂŁo podia enfiar um dedo lĂĄ dentro e cutucar. Ah, se ao menos pudesse!

— Unjo-san — disse Haruhiro.

— O quĂȘ?

— Unjo-san, vocĂȘ… VocĂȘ jĂĄ pensou em querer voltar para o nosso mundo original, ou algo assim?

— “Mundo original”. — O Sr. Unjo repetiu as palavras, e entĂŁo ficou em silĂȘncio.

— Espera… — Mary olhou para Haruhiro de trĂĄs de sua mĂĄscara. — Quando vocĂȘ fala do nosso mundo original, vocĂȘ nĂŁo quer dizer Grimgar?

— …HĂŁ? — Shihoru cobriu a boca. — NĂŁo Grimgar, o original…

Yume olhou para o teto.

— …Funya?

— Original… — Kuzaku estava pensativo. — Nosso original…

— Ei, ei, ei. O que vocĂȘ quer dizer com original? — Ranta tentou rir, mas parou. — …O quĂȘ? A gente veio de algum outro mundo antes de Grimgar… É isso?

— Se nĂŁo viemos, de onde viemos entĂŁo? — Mary perguntou, tanto para si mesma quanto para os outros. — Eu nĂŁo me lembro de nada antes disso, mas… tĂ­nhamos que estar em algum lugar, isso Ă© certo. NĂŁo tem como termos nascido assim, do nada.

— De onde viemos mesmo? — A voz de Shihoru tremia um pouco. — Quando digo de onde viemos, quero dizer… nas minhas memĂłrias, eu me lembro… Eu perguntei a Haruhiro-kun: Onde estamos?

— …Huh, — a garota atrĂĄs dele perguntou timidamente, — onde vocĂȘ acha que estamos?

— Olha, perguntar pra mim não vai ajudar — Haruhiro tinha quase certeza de que havia respondido assim.

— …Certo, claro. Hm, a-alguĂ©m sabe? Onde estamos? — Shihoru, Haruhiro se lembrou. Isso mesmo. Aquela era Shihoru. Mas onde estĂĄvamos?

— A gente tava olhando pro Sra. Lua — Yume bateu as mãos. — Ela tava toda vermelha. Isso foi bem surpreendente.

— Ahhh — disse a de tranças, parecendo notar tambĂ©m. Ela piscou repetidamente e entĂŁo deu uma risadinha. — A Sra. Lua tĂĄ vermelha. Isso Ă© muito bonito.

Yume. Aquela tinha sido Yume. Ele conseguia se lembrar. Certo. Naquele momento, eles tinham notado a lua. Ela estava de um vermelho rubi, entre uma lua crescente e uma meia-lua.

Por que tĂĄ vermelha? Ele pensou. Uma lua vermelha parecia estranha.

Onde eles estavam?

— …A colina? — murmurou Haruhiro.

Eles estavam no topo da colina ao lado de Altana. Havia fileiras de tĂșmulos; Ă© lĂĄ que Manato e Moguzo estĂŁo enterrados. Eles estĂŁo lĂĄ… e Choco tambĂ©m.

Choco. Companheira de Kuzaku. Uma ladra. Uma das soldados voluntårias novatas. Ela tinha morrido na batalha na Fortaleza de Observação Deadhead.

…Era sĂł isso? Ele nĂŁo sabia. Algo o incomodava. Como se tivesse esquecido de algo…?

Olhos grandes. Com olheiras. LĂĄbios carnudos. Uma garota com um corte de cabelo chanel.

Choco.

Companheira de Kuzaku…

— NĂłs estĂĄvamos lĂĄ na colina. — Haruhiro olhou para seus companheiros. — …É isso, nĂŁo Ă©? Pelo menos, Shihoru, Yume, Ranta… e Manato e Moguzo estavam lĂĄ tambĂ©m. Kikkawa. Renji. Ron. Sassa. Adachi. A Chibi-chan tambĂ©m. Eles estavam lĂĄ. Vimos a lua vermelha. Kuzaku, Mary, como foi pra vocĂȘs?

— A colina… — Mary murmurou distraĂ­da. — …Eu me lembro. Vaguemente, mas me lembro. Acho que minha primeira memĂłria deve ser da colina ao lado de Altana.

— Eu tambĂ©m, acho — Kuzaku assentiu. — É meio que uma… sim, eu estava lĂĄ. Com eles. NĂŁo sei sobre o que conversamos, mas…

— Que coincidĂȘncia. — AtĂ© o Sr. Unjo entrou na conversa, sorrindo levemente. — Eu tambĂ©m me lembro de ver a lua vermelha naquela colina. “A lua estĂĄ vermelha”, pensei. “Que assustador”…

— …Isso nĂŁo Ă© estranho? — Haruhiro puxou uma das cadeiras ao redor da mesa e sentou-se. — Que tenhamos aparecido naquela colina, quero dizer. É estranho. Muito estranho. NĂŁo importa de onde viemos antes de chegar a Grimgar, se eu pensar direito. Havia tipo um tĂșnel. Algo assim por onde devemos ter passado, certo? E entĂŁo, aparecemos… na colina.

— Havia uma torre. — O Sr. Unjo tirou repentinamente seu chapĂ©u trançado. Seu cabelo curto estava parcialmente branco. Embora a parte inferior de seu rosto estivesse coberta pelo cachecol, tudo da testa para cima estava exposto. Ele tinha uma testa pronunciada e parecia um homem na casa dos quarenta ou cinquenta anos. Colocando o chapĂ©u sobre a mesa, o Sr. Unjo tambĂ©m se sentou. — Se minha memĂłria estiver correta, era a “Torre Proibida”.

— A torre sem entrada ou saĂ­da… — O corpo inteiro de Shihoru estava tremendo agora. — Eu nunca soube para que ela servia… Achava aquilo estranho. Durante todo aquele tempo…

— SerĂĄ que — Ranta sentou-se no chĂŁo. — talvez a gente tenha saĂ­do dessa torre, vocĂȘs nĂŁo acham?

— Mesmo sem ter entrada ou saída? — perguntou Mary, duvidosa.

— Hmm… — Ranta bateu na prĂłpria cabeça. — AĂ­ estĂĄ. Esse Ă© o problema. Mas, sabe, Ă© estranho se ninguĂ©m pode entrar ou sair. NĂŁo faz sentido. Deve haver uma porta secreta em algum lugar, certo?

— Hiyomu provavelmente saberia, nĂŁo acha? — disse Yume. — Hiyomu, ela nos guiou da colina atĂ© o lugar do Bri-chan em Altana, lembra.

— Foi assim pra mim tambĂ©m. — Mary assentiu.

— Sim. — Kuzaku levantou a mĂŁo levemente. — Eu tambĂ©m.

— Pra mim — O Sr. Unjo pressionou a testa. — Foi um homem, acho. …”Me chame de Saa”, ele nos disse. Quem Ă© esse tal de Bri-chan?

— Vamos ver — respondeu Haruhiro. — Ele Ă© o chefe do escritĂłrio Lua vermelha, do EsquadrĂŁo de Soldados VoluntĂĄrios do ExĂ©rcito da Fronteira de Altana. O nome dele Ă© Britney.

— Britney. — Os olhos do Sr. Unjo se arregalaram. — …Era um homem que agia como uma mulher? Com olhos azul-claros.

— …VocĂȘ o conhece?

— Eu o conheço. O nome verdadeiro dele Ă© Shibutori.

— Shibutori?! — exclamou Ranta. — O nome do Bri-chan Ă© Shibutori?!

— Shibutori era de uma geração mais jovem — disse o Sr. Unjo. — Comparado a mim. Ele Ă© o chefe do EscritĂłrio do EsquadrĂŁo de Soldados VoluntĂĄrios agora?

— Hm, Unjo-san — Haruhiro perguntou hesitante. — Quanto tempo faz que vocĂȘ chegou a Darunggar, mesmo?

— Cinco mil, seiscentas e setenta e seis vezes — disse o Sr. Unjo, com um olhar distante. — Desde que comecei a contar, isto Ă©. Esse Ă© o nĂșmero de vezes que a noite escura se dissipou e a pĂĄlida manhĂŁ chegou.

— …Cinco mil seiscentas… — Haruhiro murmurou.

O comprimento de um dia em Darunggar era igual a um dia em Grimgar? Ou seria diferente? Isso nĂŁo estava claro, mas, se fossem o mesmo, o Sr. Unjo havia passado quinze anos e duzentos e um dias completos ali em Darunggar.

— Antes de agora, vocĂȘ viu outros, hĂŁ… humanos como nĂłs? — Haruhiro arriscou perguntar.

— Nenhum. Esta Ă© a primeira vez. VocĂȘs sĂŁo os primeiros.

— SĂ©rio…? — AtĂ© Ranta pareceu abalado com isso. — Isso Ă©… Isso Ă©… SĂ©rio, isso deve ter sido bem difĂ­cil, nĂ©?

— Eu me acostumei. — Sr. Unjo abaixou os olhos para a mesa. — …Eu estava acostumado. Eu nĂŁo podia voltar de qualquer forma. JĂĄ tinha desistido hĂĄ muito tempo. A vida aqui nĂŁo Ă© tĂŁo ruim. O lar de um homem Ă© o seu castelo. As coisas que parecem estranhas se tornam normais. VocĂȘ aprende o idioma, tambĂ©m. Tenho conhecidos aqui. O idioma de vocĂȘs Ă© quase estrangeiro para mim. Esqueci metade dele. Conforme falamos, vou me lembrando. Assim. Mas, de qualquer forma, eu nĂŁo posso voltar. VocĂȘs devem se preparar para isso tambĂ©m. Aquela colina. A torre proibida. Nada disso importa. A porta secreta. Mesmo que ela exista, vocĂȘs nĂŁo podem encontrĂĄ-la. NĂŁo podem provar que ela existe. Vivam aqui. Essa Ă© a Ășnica opção. AtĂ© morrerem, vivam. NĂŁo importa onde estejam, Ă© a mesma coisa. Isso Ă© tudo o que existe para nĂłs.

— NĂŁo somos sĂł nĂłs. — Shihoru engoliu as palavras, quase sufocando. — Lala e Nono… Um par que era muito mais experiente e habilidoso que nĂłs tambĂ©m veio para Darunggar. AlĂ©m disso, nĂŁo viemos diretamente de Grimgar.

— De onde? — O Sr. Unjo bateu o dedo na mesa. — De onde vocĂȘs entraram em Darunggar?

Seria difĂ­cil para Haruhiro dizer que se lembrava claramente. A distĂąncia e a direção que tinham percorrido estavam meio turvas. Mesmo assim, Haruhiro explicou o mĂĄximo que podia, mas sem complicar desnecessariamente, a sequĂȘncia de eventos pela qual haviam viajado do Reino do CrepĂșsculo atĂ© Darunggar, e depois como chegaram Ă  Vila do Poço.

— Subindo o rio… — O Sr. Unjo riu, como se estivesse espantado. — VocĂȘs tĂȘm muita sorte. É um milagre que estejam bem.

Segundo ele, a floresta ao norte da Vila do Poço era habitada pelos yegyorns—que, de acordo com o Sr. Unjo, significava “mariposas da nĂ©voa”—uma espĂ©cie de mariposa venenosa. Seu veneno era incrivelmente potente e levava apenas um instante para fazer a maioria das criaturas vivas desmaiar de agonia. No entanto, uma criatura parecida com uma doninha, chamada getaguna, era a Ășnica exceção. Esses seres tinham resistĂȘncia ao veneno dos yegyorns, e os yegyorns nem sequer os atacavam.

Os yegyorns atacavam suas presas em enxames e as deixavam inconscientes, momento em que os getagunas corriam para devorar as entranhas. Os yegyorns bebiam o sangue das presas e depois colocavam seus ovos na carne. Com o tempo, os ovos eclodiam. A carne apodrecida fornecia sustento para as larvas, até que finalmente emergiam como mariposas e voavam.

Os yegyorns eram pequenos, do tamanho da ponta do dedo mindinho. Era praticamente impossĂ­vel evitĂĄ-los nas florestas escuras de Darunggar, e, quando vocĂȘ os notava, jĂĄ teria sido picado.

Na verdade, segundo o Sr. Unjo, a dose de veneno de um deles nĂŁo era tĂŁo perigosa, mas onde havia um, podiam existir centenas mais por perto, entĂŁo vocĂȘ seria picado muitas vezes em rĂĄpida sucessĂŁo.

Havia yegyorns no rio ao norte tambĂ©m. AlĂ©m disso, ao longo do rio, existiam os tobachi—que aparentemente significavam “nojentos” ou “difĂ­ceis de lidar”—um grupo de criaturas especializadas em ataques sorrateiros, que se escondiam por toda parte, entĂŁo era necessĂĄrio ter cuidado. Havia muitos tipos de tobachi, e o termo era mais um nome coletivo para as criaturas ferozes e carnĂ­voras que viviam ao longo do rio.

Naturalmente, os tobachi também eram frequentemente vítimas dos yegyorns e getagunas.

AlĂ©m disso, havia criaturas de rosto simiesco chamadas gaugai—provavelmente o que a party chamava de inuzarus—que estavam espalhadas por uma grande ĂĄrea. Eram onĂ­voras, mas sua refeição favorita era o getaguna.

A floresta de mariposas, Adunyeg, ao norte da Vila dos Poço, era incrivelmente perigosa, e pessoas com bom senso não entrariam lå.

Pelo que o Sr. Unjo contou, se eles planejassem cruzar Adunyeg para voltar ao Reino do CrepĂșsculo, era melhor se prepararem para morrer tentando. Se levasse trĂȘs dias, dois dias ou apenas um dia, o Sr. Unjo nĂŁo conseguia imaginar uma viagem pelo Adunyeg sem encontrar yegyorns. E se os encontrassem, seria o fim. Às vezes, um ou dois yegyorns apareciam na Vila do Poço, e, quando isso acontecia, sempre havia pĂąnico, ele disse.

— B-Bom, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ feliz que a gente nĂŁo foi descobrir por conta prĂłpria? — Ranta engoliu seco. — NĂŁo que voltar pro Reino do CrepĂșsculo fosse fazer algum bem pra gente. Aquele lugar era perigosĂ­ssimo do seu jeito. Mesmo assim, aposto que Lala e Nono nĂŁo estĂŁo se saindo tĂŁo bem, provavelmente. Digo, nĂŁo consigo imaginar que tiveram a mesma sorte que eu. Devem estar mortos. Eles nos usaram o mĂĄximo que puderam e depois nos jogaram fora, entĂŁo tenho que dizer que mereceram…

— De qualquer forma, eles não vieram pra esta vila, certo? — Kuzaku perguntou.

— Provavelmente não. Mesmo assim, existem outras vilas. Ou cidades, melhor dizendo, do que vilas.

Naturalmente, fazia sentido que houvesse. Seria estranho e antinatural se essa fosse a Ășnica vila restante apĂłs o confronto entre Lumiaris e Skullhell.

Mas Haruhiro ficou chocado.

— O quĂȘ…? — Haruhiro ficou sem palavras. Ele trocou olhares com cada um de seus companheiros.

— Mrr. — Yume pressionou as mĂŁos contra as bochechas. — EntĂŁo existem cidades…

— O-Onde elas estão?! — Ranta se corrigiu. — O-Onde, diga-me, poderíamos encontrá-las, bom senhor?!

— …Diga-me? — A voz de Shihoru transbordava de desprezo.

— NĂŁo me importo de contar para vocĂȘs. — O Sr. Unjo colocou seu chapĂ©u trançado de volta. — O motivo pelo qual nĂŁo podemos voltar para Grimgar. Enquanto explico, posso levĂĄ-los para a cidade de Herbesit tambĂ©m. Mas isso sĂł se vocĂȘs quiserem.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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