Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 09 – Volume 7

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – CapĂ­tulo 09:
[Etiqueta Para Uma ConfissĂŁo]


Embora todos fossem chamados de “mortos”, eles vinham em uma infinidade de formas diferentes.

Kuzaku atingiu um morto no rosto com um Bash. A cabeça do morto foi jogada para trås, mas seus quatro braços ainda tentavam agarrar Kuzaku.

Ranta veio pela direita, e Yume pela esquerda, ambos avançando contra o morto. Betrayer Mk. II e o facão de Yume cravaram-se em seus flancos.

Com o morto tossindo e engasgando, e um brilho intenso emanando de seus olhos brancos enquanto expelia um muco marrom de sua boca semelhante a uma fenda, Haruhiro o segurou por trås, cravando sua espada curta em seu pescoço.

Golpear um morto dessa maneira nĂŁo era o suficiente para matĂĄ-lo. Ou melhor, para detĂȘ-lo. Os mortos nĂŁo paravam atĂ© estarem completamente mortos.

Gritando de esforço, Haruhiro moveu sua espada violentamente, torcendo o pescoço do morto de um lado para o outro. De repente, ele ouviu um estalo. Ou melhor, o pescoço se soltou. A força drenou-se do corpo do morto. Ele caiu. Para trås.

Haruhiro rapidamente se afastou, perdendo o equilíbrio e caindo de costas. Ele estava prestes a jogar fora a cabeça decapitada do morto, mas pensou melhor e a colocou no chão.

— Hora de saquear! — Ranta atacou os restos do morto com toda a ousadia.

Haruhiro sempre se pegava pensando nisso, mas ele nĂŁo podia ser um pouco menos grosseiro?

— Haruhiro-kun! — Shihoru apontou para a nĂ©voa com seu cajado.

Mary rapidamente se posicionou ao lado dela, com seu cajado curto em mĂŁos.

Kuzaku, ofegante, levantou seu escudo mais uma vez, girando o braço direito, que segurava sua espada longa, em um movimento circular para se aquecer.

Outro, hein, Pensou Haruhiro, levantando-se com um suspiro. — Ranta, e aí?

— Calma, droga! — Ranta soltou uma risada vulgar. — Okay, temos duas moedas de tamanho mĂ©dio e uma pequena! Isso dĂĄ 2 ruma e 1 wen! Nada mal, se querem saber!

— Se já terminou aí, tenta se preparar pra ajudar! — Yume deu uma joelhada nas costas de Ranta.

— Ei, não me chuta, sua tábua!

— Kehe… — Zodiac-kun murmurou. — Tanto faz, sĂł se apresse… Seu inĂștil… Kehehe…

— Zodiac-kun! Quem vocĂȘ pensa que Ă© pra chamar seu invocador e mestre de inĂștil?! — Ranta gritou.

— Combina com vocĂȘ… — Haruhiro estreitou os olhos.

Estava vindo. Olhos brancos. Era outro morto. Correndo em direção a eles. Esse morto tinha um jeito de caranguejo, de alguma forma. Lembrava o grande caranguejo da mercearia. Isso o tornaria difícil de lutar, mas Haruhiro não podia se dar ao luxo de dizer isso.

— Parece difícil, então tenham cuidado! — Haruhiro avisou.

Os mortos vinham em vĂĄrias formas. Mas havia algo que todos tinham em comum. Em termos de aparĂȘncia, eram os olhos. Todos os mortos tinham olhos brancos. NĂŁo era que nĂŁo tivessem Ă­ris, ou algo assim, mas era como se suas Ăłrbitas estivessem preenchidas com algum lĂ­quido branco. Quando morriam, os olhos voltavam ao normal, entĂŁo isso aparentemente fazia parte do processo que os transformava em mortos.

Além disso, parecia que os mortos realmente não sentiam dor. Graças a isso, a menos que os matassem destruindo o coração ou o cérebro, ou cortando suas cabeças, eles continuariam lutando.

Outra coisa que todos eles tinham em comum era que eram canibais. Os mortos nĂŁo se moviam em grupos. Parecia que viam outros mortos como inimigos, ou melhor, como presas.

Fazia sete dias desde que Haruhiro e os outros começaram a ir e vir da Cidade dos Mortos. Nesse tempo, eles haviam testemunhado vårias vezes os mortos se alimentando. Em todas as ocasiÔes, era um morto comendo outro morto.

Os mortos atacavam uns aos outros, e o vencedor devorava a carne e as entranhas do derrotado, roubando qualquer equipamento utilizåvel. Depois, pegavam as moedas pretas do morto derrotado para si. Esse era o comportamento típico dos mortos. Ou melhor, até agora, eles não haviam encontrado nenhum morto que agisse de forma diferente.

Se todos os mortos fossem assim, então a Cidade dos Mortos era um alvo especialmente interessante para Haruhiro e os outros, que haviam se visto forçados a continuar como soldados voluntårios, mesmo agora que estavam neste novo mundo sombrio e perigoso.

Havia muitos tipos diferentes de mortos. Isso significava que havia uma grande variação nas habilidades de combate de cada um. Podia haver mortos tĂŁo incrivelmente fortes que Haruhiro e os outros nĂŁo teriam a menor chance de derrotĂĄ-los, e eles podiam muito bem encontrar um assim amanhĂŁ… ou atĂ© hoje.

Então, havia riscos, claro. No entanto, geralmente, eles não precisariam se preparar para uma batalha contra vårios mortos. Isso porque, além de os mortos não formarem grupos, eles estavam ativamente caçando uns aos outros.

Surpreendentemente, quando um morto tinha a escolha entre atacar Haruhiro e sua party ou outro morto, ele escolheria o outro morto. Quando dois mortos estavam lutando, essa era uma excelente oportunidade para tirar proveito da situação. Claro, era algo horrível de se fazer, mas ser um soldado voluntårio sempre foi um trabalho sujo, no qual consideraçÔes éticas não tinham muito espaço. Esse não era um ofício que Haruhiro poderia recomendar a alguém que fosse uma boa pessoa ou que gostasse de pensar em si mesmo como uma boa pessoa.

De qualquer forma, os dois mortos ignorariam Haruhiro e os outros, completamente focados em derrotar o outro morto e devorĂĄ-lo. Sendo assim, Haruhiro e os outros podiam cercar os dois mortos, que sĂł tinham olhos um para o outro, e matĂĄ-los ambos.

Mesmo que nĂŁo dissessem em voz alta, a maioria dos soldados voluntĂĄrios provavelmente pensava isso depois: Obrigado pela kill grĂĄtis.

Por acaso, aqueles como Haruhiro, que nĂŁo eram tĂŁo insensĂ­veis ao que estavam fazendo, embora pudessem ser covardes a esse respeito, inventavam desculpas para si mesmos. NĂŁo Ă© que achassem que o que estavam fazendo era certo ou que nĂŁo tivessem dĂșvidas sobre isso. Diziam para si mesmos que precisavam fazer aquilo para sobreviver, para aliviar suas consciĂȘncias, atĂ© eventualmente se acostumarem. Mesmo que, de vez em quando, voltassem Ă  razĂŁo e ficassem enojados consigo mesmos, provavelmente esqueceriam disso atĂ© o prĂłximo dia.

Com o sétimo dia de caça na Cidade dos Mortos concluído, a party retornou à Vila do Poço.

Hoje, eles haviam coletado 9 ruma e 11 wen. Os equipamentos dos mortos estavam incrivelmente desgastados, e qualquer peça geralmente valia apenas 1 wen, então eles não se davam ao trabalho de trazer de volta nada, a menos que estivesse em boas condiçÔes.

Os bens compartilhados da party agora superavam 20 ruma, e cada um deles deveria ter acumulado vĂĄriaz ruma em bens pessoais, jĂĄ que começaram a dividir o dinheiro entre si trĂȘs dias atrĂĄs. A comida ainda custava 1 ruma para os seis, entĂŁo, com duas refeiçÔes por dia custando 2 ruma, eles agora tinham uma margem razoĂĄvel de gastos.

Hoje, enquanto as meninas estavam no banho, Ranta começou a beber na mercearia.

Isso mesmo. A mercearia vendia ĂĄlcool.

Havia uma variedade de bebidas alcoólicas que vinham em garrafÔes, e as mais baratas custavam 1 wen. Haruhiro não era muito fã do sabor, mas Ranta gostava muito e vinha bebendo bastante ultimamente. Era bem provåvel que a maior parte do dinheiro de Ranta estivesse sendo gasta em ålcool.

Dessa forma, Haruhiro e Kuzaku optaram por deixar Ranta, que se encontrava completamente embriagado, e foram tomar banho sozinhos apĂłs as meninas terminarem.

O buraco no leito do rio que eles estavam usando como banho havia sido cavado em um lugar onde os moradores da Vila do Poço provavelmente não veriam. Seus coraçÔes dispararam nas primeiras vezes em que se banharam ali, mas agora, eles simplesmente se despiram e até deixavam seus rostos descobertos. Mantinham seus elmos ou qualquer outra coisa por perto, só para garantir; se alguém se aproximasse, eles poderiam se cobrir rapidamente. Ainda não havia causado nenhum problema, então provavelmente estava tudo bem.

Os rapazes não se importavam muito em ficar nus juntos. Mesmo com os olhos jå ajustados à escuridão, ainda estava escuro. Enquanto não se esforçassem demais para ver alguma coisa, não conseguiriam ver nada.

Primeiro, lavaram as mãos e os rostos no Rio Morno. Por algum motivo, a mercearia vendia sabão, então isso era conveniente. Eles lavaram rapidamente o resto dos corpos também. Finalmente, afundaram no banho.

A ågua do Rio Morno estava abaixo da temperatura do corpo; era, como o nome que haviam dado sugeria, morna. Eles adorariam tomar um banho quente, mas se começassem a exigir luxos como esse, não haveria fim para os pedidos.

— Ufa… — Haruhiro virou a cabeça lentamente de um lado para o outro e começou a massagear os prĂłprios ombros. Se ele se sentasse com a bunda encostando no fundo do buraco, a ĂĄgua chegava atĂ© seus ombros. Ele podia esticar as pernas tambĂ©m, mas, para Kuzaku, com seu corpo maior, o espaço ficava um pouco apertado. Ser alto nem sempre era tĂŁo bom assim. Ainda assim, Haruhiro o invejava um pouco.

— Carambaaa… — Kuzaku esfregou o rosto com as duas mĂŁos. — Sabe, hoje foi um dia cansativo nĂ©…

— Foi mesmo — concordou Haruhiro. — VocĂȘ fez um bom trabalho. Deve estar cansado.

— Ah, nĂŁo, deve ter sido muito mais cansativo pra vocĂȘ. Comparado a mim, pelo menos.

— VocĂȘ Ă© quem estĂĄ lĂĄ na linha de frente, Kuzaku. Eu sĂł… sei lĂĄ, fico lĂĄ atrĂĄs.

— VocĂȘ usa sua cabeça — contradisse Kuzaku. — Isso dĂĄ trabalho, nĂ©? De certa forma. Eu sĂł faço o que vocĂȘ me manda. Desde que eu faça isso, tudo dĂĄ certo de alguma forma. VocĂȘ deve estar planejando as coisas pra que isso aconteça, certo?

— Isso Ă© porque vocĂȘ estĂĄ fazendo um bom trabalho como tanque.

— SĂ©rio? Eu tĂŽ fazendo um bom trabalho?

— Tá sim, cara.

— Nah, ainda tenho um longo caminho pela frente. Não sou tão bom assim.

— Eu sou bem sĂ©rio quando faço elogios, sabia? VocĂȘ Ă© bem exigente consigo mesmo.

— Um pouco, sim… — Kuzaku de repente ficou quieto. Houve uma pausa estranha antes de ele falar de novo. — …Humm, eu nĂŁo tenho muita chance de fazer isso, quero dizer, de falar com vocĂȘ a sĂłs assim. VocĂȘ se importa se eu perguntar uma coisa?

— Hein? Ah, claro — respondeu Haruhiro.

— É sobre o Moguzo.

— …Moguzo?

Ah, é sobre isso, Haruhiro pensou, mas então também pensou: Se não fosse isso, sobre o que mais ele perguntaria? De qualquer forma, a pergunta o pegou desprevenido. Ele não esperava ouvir o nome de Moguzo vindo de Kuzaku.

— Claro, eu nĂŁo me importo. De jeito nenhum. Mas, Kuzaku, hum… VocĂȘ nunca, bem, nunca teve nada a ver com o Moguzo, pelo menos diretamente, certo?

— Bem, não. Mas eu sei quem ele era.

— …Isso te incomoda? — perguntou Haruhiro.

— Tipo, vocĂȘs nunca falam sobre isso. VocĂȘs nunca me comparam com o Moguzo, nĂ©? Pelo menos, nunca me dizem quando fazem isso.

— Eu nĂŁo faria isso… nĂŁo.

— Mas, sabe, eu penso nessas coisas. NĂŁo tem como vocĂȘs nĂŁo estarem me comparando com ele. Fico pensando, “Estou indo tĂŁo bem quanto o Moguzo?” ou “Estou conseguindo preencher o buraco que ele deixou?” Desculpa.

— NĂŁo… NĂŁo precisa se desculpar do nada.

— NĂŁo, eu sĂł estava pensando, nĂŁo Ă© certo falar em preencher o buraco. Isso nĂŁo Ă© algo que eu posso preencher. NĂŁo Ă© algo que pode ser preenchido. É assim que Ă© com os camaradas, nĂ©? Eu, depois de passar esse tempo com vocĂȘs, consigo sentir isso. InsubstituĂ­vel, essa Ă© a palavra que estou procurando. É o que os camaradas sĂŁo. NĂŁo Ă© a melhor forma de dizer isso, mas sĂł porque um cara morre, vocĂȘ nĂŁo pode simplesmente colocar outro no lugar. NĂŁo Ă© tĂŁo simples. Mesmo que vocĂȘ seja forçado a fazer isso, parece errado, sabe? NĂŁo consigo explicar direito. Tipo, eu nunca vou ser um substituto do Moguzo. Mas, por outro lado, quero encontrar uma maneira de proteger todos vocĂȘs, de um jeito diferente do que ele fazia. Eu sou um paladino, mesmo que nĂŁo seja tĂŁo bom assim, entĂŁo, sinto que tenho que proteger todos vocĂȘs.

— …Cara…

Ah, isso nĂŁo tĂĄ legal, pensou Haruhiro. Ele jogou ĂĄgua no rosto. Que merda, cara? Para com isso. VocĂȘ me pegou desprevenido aqui. NĂŁo sei o que dizer. NĂŁo sou bom com essas coisas.

Não era como se Kuzaku estivesse apenas se acostumando gradualmente ao seu papel e crescendo como tanque naturalmente. Enquanto sentia a presença de uma parede chamada Moguzo, que ele não podia ver, Kuzaku enfrentava o inimigo e a si mesmo, lutando com tudo o que tinha. Ele tinha um senso de propósito firme, derramando sangue por seus camaradas enquanto melhorava a si mesmo passo a passo, com muito esforço.

SerĂĄ que Haruhiro havia sido capaz de ver isso?

SerĂĄ que Haruhiro tinha conseguido entender as dificuldades pelas quais Kuzaku estava passando?

Não havia como ele dizer que sim. Sua mente estava ocupada demais com outras coisas. Mas chega de desculpas. O fato era que Haruhiro não estava dando a Kuzaku todo o crédito que ele merecia.

Desculpa por ser um lĂ­der tĂŁo inĂștil e por falhar de tantas maneiras, pensou Haruhiro desanimadamente.

Seria fåcil abaixar a cabeça. Mas o que ele ganharia pedindo desculpas a Kuzaku? Haruhiro talvez se sentisse melhor se o fizesse, mas provavelmente seria só isso. Pura satisfação pessoal.

— O Moguzo era… — Haruhiro apertou o nariz e respirou pela boca.

Acho que vou chorar—Não, estou bem. Consigo segurar.

— Ele era um amigo importante. É. NĂŁo acho que alguĂ©m possa substituĂ­-lo. NĂŁo podemos esquecer dele, e nĂŁo vamos. Mas, ainda assim… Ele morreu. Se foi. O Moguzo se foi. NĂŁo quero dizer que seja por isso, mas agora… Kuzaku, vocĂȘ Ă© o tanque da nossa party, e acho que vocĂȘ Ă© o Ășnico que pode ser.

— …Nossa.

— Hã?

— Ha ha ha… — Kuzaku cobriu o rosto com suas grandes mĂŁos. — Estou chorando aqui. Que piada…

— Eu nĂŁo vou rir de vocĂȘ…

— Sinceramente, seria melhor se vocĂȘ risse — disse Kuzaku. — Cara, isso Ă© embaraçoso.

— NĂŁo, nĂŁo Ă©.

— VocĂȘ pode me fazer um favor e nĂŁo contar isso pra ninguĂ©m? Especialmente pro Ranta.

— …VocĂȘ acha que eu contaria?

— Nah, não acho. Só tî falando por segurança.

— Não vou falar sobre isso. — Sem motivo aparente, Haruhiro usou o dedo para jogar um pouco de água na direção de Kuzaku.

— Ei! — Kuzaku revidou com um respingo. — Pra que foi isso? VocĂȘ parece uma criança!

— NĂŁo, vocĂȘ que parece.

— Foi vocĂȘ quem começou.

— Não vou fazer de novo, tá?

— Jura?

— Juro, juro — disse Haruhiro, então imediatamente pegou um pouco de água e jogou na cabeça de Kuzaku.

— Sabia que vocĂȘ faria isso! — Kuzaku revidou na hora.

O que estamos fazendo, afinal? Haruhiro começou a se sentir bobo e decidiu parar a briga de ågua, mas ainda demorou um pouco até que realmente parassem. Sinceramente, o que estamos fazendo?

Mas foi divertido. Era tĂŁo idiota que ele nĂŁo conseguia evitar rir. Agora, ele sentia que podia falar sobre o assunto.

Deveria perguntar diretamente, Haruhiro pensou. Ele precisava esclarecer as coisas. Por mais estranho que parecesse, ele realmente queria que Kuzaku encontrasse a felicidade.

Isso era um exagero? Não, ele não achava. Por enquanto, Haruhiro e os outros estavam presos aqui. E se isso durasse um ano, dois anos, cinco anos, uma década, ou até mais? Eles não poderiam continuar como soldados voluntårios para sempre, apenas caçando, comendo e dormindo. Precisavam ter algum tipo de vida além disso. Eles poderiam conseguir permissão dos moradores da Vila do Poço para construir uma casa dentro da vila, por exemplo. Ou, pensando no futuro, poderiam encontrar trabalhos além da caça.

Se ambos os lados quisessem, poderiam formar casais. Se tivessem filhos, poderiam todos protegĂȘ-los e criĂĄ-los juntos, e isso poderia motivar a party.

Da forma como as coisas estavam, tudo isso era apenas um sonho, um devaneio passageiro da sua imaginação, mas poderia acontecer. Não seria estranho se qualquer coisa acontecesse.

— Escuta, Kuzaku — disse Haruhiro. — VocĂȘ se importaria se eu perguntasse algo tambĂ©m… talvez?

— Claro. O quĂȘ?

— É meio pessoal, porĂ©m.

— NĂŁo se reprima. NĂłs somos amigos, cara—NĂŁo, talvez eu tenha me empolgado um pouco. TĂŽ agindo de forma embaraçosa de novo…

— Agora ficou difĂ­cil eu falar…

— Eu sei, nĂ©? — disse Kuzaku. — Desculpa. Ah, mas sĂ©rio, pode perguntar qualquer coisa. Acho que nĂŁo tĂŽ escondendo nada.

— B-Bom, entĂŁo… — Haruhiro pigarreou.

O que Ă© isso? Um zumbido nos meus ouvidos? Algo assim? Ou Ă© outra coisa? Eu estou ridiculamente tenso. Como eu começo isso? NĂŁo sou bom em falar sobre essas coisas. Mas, aĂ­, tem algo em que eu sou bom? NĂŁo, nĂ©. É, nĂŁo sou bom em nada. Tudo bem, normal. Vou perguntar direto. Essa Ă© a Ășnica maneira.

— C-Como estĂŁo as coisas? Com a M-M-M… M-Mary?

Ele gaguejou. Gaguejou completamente. Ele queria fazer isso sutilmente, como se nĂŁo fosse nada demais. Mas nĂŁo conseguiu. No fim, era impossĂ­vel. Esse foi o melhor que Haruhiro conseguiu.

— Uh… — Kuzaku mordeu o lĂĄbio superior com os dentes inferiores. Foi uma espĂ©cie de demonstração habilidosa, pelo menos no quesito morder os lĂĄbios. — O que vocĂȘ quer dizer com “como estĂŁo as coisas”?

— HĂŁ? — Haruhiro hesitou. — Mas… hum… O Quero dizer, vocĂȘ sabe? Kuzaku, vocĂȘ e a Mary estĂŁo… Bem, vocĂȘs estĂŁo, hum…

— O que Ă© isso sobre eu e a Mary… -san?

— H-HĂŁ? VocĂȘ… estĂĄ bravo? — Haruhiro perguntou.

— Não, eu não tî bravo.

— NĂŁo, mas, de algum modo, vocĂȘ parece meio irritado…

— Não, cara, não tî irritado, beleza?

— NĂŁo, nĂŁo, vocĂȘ tĂĄ bravo, nĂ©? Quero dizer, vocĂȘ parece super incomodado.

— NĂŁo Ă© isso… Ngahh. — Kuzaku começou a bater a cabeça com as duas mĂŁos. — Guhh. Como eu explico isso? NĂŁo Ă© isso, sĂ©rio. Eu nĂŁo tĂŽ bravo. AlĂ©m disso, o que tem eu e a Mary? O que vocĂȘ tĂĄ tentando dizer? Aghhhh.

— C-Calma, Kuzaku.

— Não me manda me acalmar! — Kuzaku rebateu.

— Eu posso ver. VocĂȘ claramente nĂŁo tĂĄ calmo. Parece que estĂĄ perdendo a cabeça. P-Por quĂȘ? Quero dizer, vocĂȘ e a Mary estĂŁo…

— Eu entendi! Vou te contar toda a histĂłria, tĂĄ? — Kuzaku interrompeu, gesticulando com entusiasmo enquanto falava. — Olha, aconteceram vĂĄrias coisas entre a Mary… -san e eu. Na verdade, nem tanto. Eu achava ela incrĂ­vel. Honestamente, vocĂȘ sabe como Ă©. Eu tinha uma queda por ela.

— …É.

— Quero dizer, ela nĂŁo Ă© sĂł bonita, ela Ă© engraçada tambĂ©m. NĂŁo sei, ela Ă© sĂ©ria, mas tem algo meio… imprevisĂ­vel nela. ImprevisĂ­vel? NĂŁo, nĂŁo Ă© isso. O que Ă©? Ela Ă© fofa.

— …Ah, Ă©… Acho que sim.

— Eu acho — disse Kuzaku. — Então, bom, foi por isso que eu me apaixonei por ela. Tive a chance de conversar com ela a sós às vezes, então eu meio que ia jogando umas indiretas sobre isso.

— …Tipo quando estĂĄvamos no Posto Avançado do Campo SolitĂĄrio?

— Huh? VocĂȘ sabia disso? Percebeu?

— …Sim, meio que percebi.

— Bom, eu nĂŁo sei o que dizer — Kuzaku disse. — Ela Ă© provavelmente o tipo que cede um pouco se vocĂȘ insistir, sabe. Insegura, acho que dĂĄ pra dizer. EntĂŁo, quando eu disse que queria o conselho dela sobre umas coisas que me preocupavam, ela estava disposta a me ouvir, sabe. E tambĂ©m, eu e a Mary… -san, nĂłs dois nos juntamos a equipe depois de todo mundo. TĂ­nhamos isso em comum, entĂŁo tinha isso tambĂ©m.

— …Entendi.

— Parecia que as coisas estavam indo bem. Tipo, talvez ela tenha uma queda por mim. As coisas estĂŁo indo bem, nĂ©? Foi o que eu pensei.

— …Foi o que vocĂȘ pensou.

— Isso mesmo! Foi o que eu pensei. EntĂŁo, Ă© claro, tive que arriscar.

— …Arriscar o quĂȘ?

— Confessar, Ă© claro.

— …VocĂȘ se declarou pra ela?

— Exatamente isso — disse Kuzaku com firmeza. — Quero dizer, eu não podia deixar as coisas ficarem no ar para sempre. Isso não seria bom. Para nenhum de nós dois.

— …É assim que vocĂȘ vĂȘ?

— É diferente pra cada um — disse Kuzaku. — Mas, pra mim, se vejo uma chance e parece certo, eu vou em frente.

— VocĂȘ a chamou de canto? — perguntou Haruhiro.

— Ia ser uma conversa longa, afinal. Foi lĂĄ no Assentamento do Reino do CrepĂșsculo.

— …Naquela vez, antes de voltarmos para Altana?

— Sim. HĂŁ? Como vocĂȘ sabe disso? Ah, naquela vez, vocĂȘ nĂŁo estava na tenda, nĂ©. Estava do lado de fora olhando, talvez?

— …Um pouco, sim.

— Urgh. VocĂȘ viu isso, hein. Que vergonha. Foi logo depois disso. Eu fui e me confessei para a Mary… -san. Achei que ia dar certo. Recebi uma resposta imediata.

— …Imediata? — perguntou Haruhiro.

— Quando se trata desse tipo de coisa, ela Ă© bem direta. Pensando bem, ela sempre manteve limites firmes, sabe. Eu estava sĂł me iludindo, por assim dizer, ou sendo otimista demais. Achei que havia um clima bom entre nĂłs dois.

— …E?

— Foi assim — Kuzaku abaixou o queixo, balançando a cabeça de um lado para o outro. — “Não.”

— …Isso foi pra imitar a Mary? — perguntou Haruhiro.

— Sim. É bem assim que ela Ă©, se quer saber. Foi uma resposta de uma palavra, afinal. Claro, ela me explicou depois. Ela disse que, jĂĄ que somos companheiros, ela poderia ser minha amiga, mas nada alĂ©m disso. Ela nĂŁo estava interessada agora. NĂŁo queria se distrair. Mary… -san, ela foi bem apologĂ©tica, e eu me senti mal por tĂȘ-la colocado nessa posição. EntĂŁo, eu disse: Desculpa por deixar isso estranho. Vamos manter as coisas como sempre foram. E concordamos em fazer isso.

— …EntĂŁo… — Haruhiro começou devagar. Ele terminou em silĂȘncio: …os dois nĂŁo estĂŁo juntos? É isso?

Haruhiro percebeu que estava afundando. A ĂĄgua jĂĄ estava chegando ao queixo. Depois Ă  boca. Depois atĂ© o nariz. Ei, vocĂȘ vai se afogar, ele avisou a si mesmo.

— Haruhiro…? — Kuzaku perguntou, preocupado.

— Ahh! — Haruhiro se empurrou rapidamente para fora da ĂĄgua, evitando a morte por afogamento. — EntĂŁo foi assim. Oh… Eu… Entendi. Cara, eu pensei… Sei lĂĄ, que vocĂȘs dois estavam apenas escondendo isso, ou algo assim… Eu estava… errado, nĂ©?

— Se tivesse dado certo, eu planejava contar pra todos vocĂȘs — disse Kuzaku. — Seria estranho manter algo assim em segredo. Se alguĂ©m estivesse fazendo coisas pelas suas costas, nĂŁo seria meio desagradĂĄvel?

— Eu provavelmente nĂŁo ficaria feliz com isso… nĂŁo — respondeu Haruhiro. — VocĂȘ tem razĂŁo.

— É uma pena que eu nĂŁo consegui fazer o meu grande anĂșncio.

— …É, acho que sim.

— Oh, vocĂȘ tĂĄ tentando me consolar?

— …Mais ou menos?

— TĂĄ tudo bem, cara. Eu jĂĄ superei. Quer dizer, claro que eu ainda gosto dela, e seria mentira dizer que isso nĂŁo me incomoda nem um pouco. Mas temos preocupaçÔes maiores.

— É… — murmurou Haruhiro.

— Posso viver sem romance. Pelo menos por enquanto. Vou deixar isso para o Ranta-kun. Embora ele possa estar procurando algo diferente.

— No caso dele, Ă© algo mais primitivo, quase infantil…

— Ele sĂł Ă© honesto consigo mesmo — disse Kuzaku. — Gosto disso nele.

— Eu, nem tanto.

Kuzaku riu, esfregando o rosto algumas vezes com suas grandes mĂŁos. Provavelmente, ele nĂŁo tinha superado tanto quanto dizia. Era o que Haruhiro achava. Mesmo assim, o cara nĂŁo precisava ser consolado. Kuzaku estava seguindo em frente.

E quanto a Haruhiro, comparado a isso?

Ele pensou sobre isso. Eu nĂŁo sei direito, mas, por enquanto, serĂĄ que estou um pouco aliviado demais…? Por que me sinto tĂŁo aliviado agora?


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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