Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 18 – Volume 4

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash Volume 04

Light Novel Online – CapĂ­tulo 18[A Metodologia para Atingir seus Objetivos]


Haruhiro nĂŁo sabia o que havia acontecido, e nem queria saber, mas Kuzaku havia mudado.

— Ha! — gritou Kuzaku.

Enquanto usava Block para se defender da katana preta do samurai, ele estendeu o braço direito e desferiu um golpe contra o Soldado A. Não havia sinal do paladino tímido de antes, que se encolhia como uma tartaruga, focado apenas na defesa.

— Há! Ugh!

Como estava abrindo mais o corpo, ele dava ao inimigo vĂĄrias oportunidades de atacar. Incapaz de bloquear completamente a katana preta do samurai, Ă s vezes levava uma pancada forte no capacete. Outras vezes, era atingido por um contra-ataque do Soldado A, e parecia que ia recuar. Apesar disso, Kuzaku resistia, mantendo o samurai na sua frente enquanto atacava o Soldado A continuamente.

Nem o samurai nem o Soldado A podiam ignorar Kuzaku. Era difícil dizer que era um trabalho impressionante—ele estava se arriscando muito—mas Kuzaku estava enfrentando os dois ao mesmo tempo.

— Wahahaha! Viu sĂł, vocĂȘ consegue quando se esforça! — gritou Ranta.

Ranta, bem, ele estava como sempre.

Ranta atacava com força, usando Leap Out e Exhaust para brincar com seus oponentes. Depois de derrubar o Soldado B com Avoid, ele imediatamente passou para o Soldado C. — Continue assim! Isso facilita para eu dar um show!

— Jess, yeen, sark, kart, fram, dart! — Shihoru lançou a versĂŁo mais poderosa do Lightning, o Thunderstorm, derrubando rapidamente trĂȘs novos soldados que saĂ­ram do ninho. Outros dois soldados saltaram por trĂĄs deles, mas se Shihoru nĂŁo tivesse eliminado os trĂȘs primeiros, teriam sido cinco reforços.

— Boa, Shihoru! — Haruhiro gritou.

Haruhiro usou Swat com seu porrete no braço direito em forma de lùmina do Soldado D e também aplicou Swat com a adaga para repelir o braço esquerdo. Enquanto lutava contra os muryans, não havia esperança de utilizar Arrest ou Shatter, mas durante a noite passada, enquanto tinha dificuldades para dormir, ele passou um tempo pensando sobre isso.

Que tal isso? Haruhiro aproximou-se o mĂĄximo possĂ­vel do muryan que tentou mordĂȘ-lo, mas ele jĂĄ esperava por isso. Sem pressa e mantendo a calma, ele desferiu um golpe com seu porrete no rosto do muryan e, em seguida, enfiou sua adaga sob o maxilar da criatura. A partir daĂ­, ele torceu a cabeça do ser atĂ© arrancĂĄ-la.

Os samurais eram bem robustos, com articulaçÔes espessas nos braços, pernas e pescoço, mas os soldados não eram tanto. Na verdade, eles eram bem frågeis.

— Miaaau! — Yume cortou um dos braços do Soldado E com seu facĂŁo, rapidamente girando a lĂąmina para perfurar o topo de sua cabeça. Enquanto ele cambaleava, ela desferiu uma sĂ©rie de ataques implacĂĄveis. Completamente implacĂĄveis. Ela nĂŁo apenas cortou a cabeça do Soldado E, como tambĂ©m a esmigalhou.

Haruhiro sinalizou para Yume com os olhos, então foi em direção ao Soldado F. Yume foi atrås do Soldado G. Mary estava verificando seu pulso esquerdo. Protection ainda não tinha se desgastado.

— Ah! Ngh! Hah! — Kuzaku gritou.

Kuzaku estava sendo persistente, ainda mantendo tanto o samurai quanto o Soldado A ocupados. Ranta estava dominando o Soldado C, e parecia que iria derrubå-lo em breve. Haruhiro usou Swat no braço do Soldado F.

Vou derrubar esse aqui rapidamente também, pensou.

— Khhhh?! — Kuzaku soltou um grito estranho, então, por um momento, Haruhiro se perguntou se o seu tanque havia cometido algum erro, mas ele estava errado

É o samurai, Haruhiro percebeu. O samurai está fugindo.

— Espere… O que estĂĄ acontecendo?! — Enquanto continuava a usar Block no braço do Soldado A, Kuzaku olhou para Haruhiro.

Cara, eu também não tenho ideia do que estå acontecendo, Haruhiro pensou. Os samurais eram muryans incomumente beligerantes, e uma vez que identificavam um inimigo, lutavam tenazmente até a morte. No entanto, agora, um estava fugindo. Eles nunca tinham visto isso acontecer antes. Haruhiro estava tão desinformado sobre a situação quanto Kuzaku.

O que aconteceu a seguir nĂŁo fez mais sentido para ele.

O samurai havia dado algum tipo de sinal? Não parecia, mas os soldados começaram a recuar.

— Que inferno?! Eu nĂŁo vou deixar vocĂȘ escapar! — Ranta gritou, perseguindo o Soldado C para dar um Ășltimo golpe.

Sim, tem algo estranho aqui, Haruhiro pensou.

— Espere, Ranta! — ele gritou. — Não vá!

— Hein?! — Ranta gritou.

— Isso está errado. Tem algo acontecendo.

— O que vocĂȘ quer dizer com “algo”?!

— Se eu soubesse, eu te diria — disse Haruhiro. — Eu nĂŁo sei, mas definitivamente Ă© perigoso.

Isso nĂŁo Ă© um palpite, ele pensou. A ecologia dos muryans Ă© prĂłxima Ă  das formigas que eles se assemelham, e toda a colĂŽnia age como um Ășnico ser vivo. Pode-se dizer que os muryans nĂŁo parecem ter um senso de individualidade—Seu papel sempre vem antes de qualquer outra consideração. Eles se sacrificam alegremente, se esse Ă© o seu papel. Mais que isso, talvez os muryans nem sequer tenham a capacidade de se colocar em primeiro lugar ou um senso de autopreservação para isso.

E ainda assim, um desses muryans fugiu.

Provavelmente, o samurai não estava pensando em nada quando fez isso. Os muryans não são conscientes dessa forma. Muito provavelmente, este foi um caso em que eles sempre correm sem hesitação, fugindo da situação. É algo programado nos muryans.

Por que ele fugiria? Para recuar. Mas de quĂȘ?

Haruhiro olhou para todos os buracos ao redor. Isso incluĂ­a o buraco pelo qual o samurai e os soldados haviam fugido.

Nesta ĂĄrea chamada de ninho dos muryans, diferente do domĂ­nio dos trĂȘs demi-humanos, o tĂșnel tinha apenas cerca de dez metros de largura, e sĂł metade disso de altura. Era cheio de curvas, entĂŁo nĂŁo podiam ver muito Ă  frente. O buraco era apenas largo o suficiente para que dois muryans passassem um pelo outro. Humanos poderiam entrar.

— Vamos nos esconder — Haruhiro disse rapidamente.

Todos podiam sentir que algo estava fora do comum. Nem mesmo Ranta discutiu. Haruhiro e os outros se abrigaram no buraco dos muryans.

— O que vocĂȘ acha que Ă©? — Shihoru perguntou em um sussurro.

Haruhiro balançou a cabeça. — Eu não sei.

— Hrmm… — Yume soltou um gemido baixo ao lado de Haruhiro.

— Calem a boca, todos vocĂȘs! — Ranta gritou.

— VocĂȘ Ă© o Ășnico fazendo barulho — Kuzaku reclamou.

— Ohh? Kuuuuzakuuuu — disse Ranta. — VocĂȘ estĂĄ ficando bem atrevido comigo, nĂŁo Ă©? Mesmo sendo um tanque sem talento.

— Isso nĂŁo Ă© meio irrelevante? Nessa situação?

— É — Mary concordou.

Haruhiro e os outros ficaram alinhados com as costas pressionadas contra a parede do buraco dos muryans. Em ordem de proximidade com a entrada, a linha era Haruhiro, Yume, Shihoru, Ranta, Mary, Kuzaku.

Mary estĂĄ ao lado de Kuzaku, Haruhiro pensou. Sim, mas e daĂ­? Isso nĂŁo Ă©, se Ă© que importa, irrelevante? Sim. É completamente irrelevante. Haruhiro respirou fundo.

— Todos, fiquem onde estão — ele disse. — Eu vou verificar.

— VocĂȘ vai ficar bem? — Yume perguntou. — Se vocĂȘ vai ficar lĂĄ fora sozinho, isso nĂŁo Ă© perigoso, Haru-kun?

— Eu estou melhor sozinho — disse Haruhiro. — Eu sou um ladrĂŁo, lembra? Isso Ă© meio que minha especialidade.

Estava escuro no buraco dos muryans. Haruhiro tomou cuidado para nĂŁo fazer barulho com os passos enquanto se dirigia cautelosamente para a entrada. Ele manteve a postura baixa, espiando para olhar ao redor.

Diferente do domĂ­nio dos trĂȘs demi-humanos, que era mais parecido com um cĂąnion do que uma caverna por ser aberto para o cĂ©u, o ninho dos muryans tinha um teto. No entanto, nĂŁo era completamente coberto. Havia muitas lacunas, permitindo que a luz entrasse, entĂŁo estava razoavelmente claro.

Parece que não hå nada aqui. Por enquanto, ele pensou. Estå quieto. Quieto demais. Estava tão incrivelmente quieto que, mesmo quando entrou em seu campo de visão, ele não percebeu imediatamente. No começo, ele apenas sentiu que havia algo um pouco estranho.

HĂĄ… alguma coisa ali?

O que Ă© aquilo?

Tem algo ali… nĂŁo tem?

NĂŁo, nĂŁo questione isso, Haruhiro disse a si mesmo. Tem algo ali. Definitivamente hĂĄ. Aquela coisa… Ă© preta. NĂŁo, nĂŁo Ă© preta—é meio escura. E estĂĄ vestindo algo como uma capa de chuva.

Parece uma pessoa?

Provavelmente. Tem uma cabeça, braços e pernas. EstĂĄ andando. Andando para cĂĄ, vindo de mais fundo no tĂșnel. Tenho certeza disso, mas nĂŁo ouço passos. Ele Ă© silencioso.

EstĂĄ carregando algo longo. Isso Ă© uma lança, talvez? Mas, a julgar pela ponta, eu nĂŁo chamaria de lança. Em vez de uma lança, a ponta Ă© mais parecida com uma espada, ou uma faca grossa, algo como um cutelo. É como uma naginata. Mas, mais do que isso…

Ele Ă© enorme. Aquele cara. Ele deve ter mais de dois metros de altura. Duvido que tenha trĂȘs metros, mas pode ter dois metros e meio.

A cabeça dele é estranhamente pequena, e ele tem ombros largos. Aquele formato de corpo não poderia ser mais triangular invertido, mesmo se tentasse. Ele estå inclinado para frente, usando sua naginata como uma muleta para caminhar. Parece que a naginata toca o chão, mas não faz som.

Essa coisa Ă© perigosa. Ele Ă© perigoso, e o fato de nĂŁo parecer perigoso sĂł o torna ainda mais. Parece que ele poderia se aproximar sorrateiramente por trĂĄs de vocĂȘ, e entĂŁo te derrubar. Isso Ă© bem perigoso.

Ustrel.

Esse nome de repente veio Ă  mente de Haruhiro. Soma havia mencionado isso antes.

“Se vocĂȘs passarem pelo domĂ­nio dos trĂȘs demi-humanos e entrar no ninho dos muryans, hĂĄ ustrels espreitando por lĂĄ,” ele tinha dito. Ele tambĂ©m disse: “Uma vez que vocĂȘs consigam derrotar um ustrel, a ĂĄrea em que poderĂŁo operar deve se expandir consideravelmente.”

Ustrels. Provavelmente foi de propĂłsito que Soma nĂŁo disse mais nada sobre eles. Haruhiro e os outros eram soldados voluntĂĄrios. Talvez nĂŁo fossem dos melhores, mas eram soldados voluntĂĄrios, ainda assim.

Quando eles foram levados pela primeira vez ao escritĂłrio do EsquadrĂŁo de Soldados VoluntĂĄrios, Bri-chan lhes disse: “Usem suas habilidades e julgamento individuais para reunir informaçÔes e atacar o inimigo. Esse Ă© o jeito dos soldados voluntĂĄrios.”

Soma havia reconhecido Haruhiro e sua party como soldados voluntĂĄrios e os aceitado como camaradas. Por isso, Haruhiro e os outros teriam que aprender por conta prĂłpria.

Um ustrel, ele pensou. Esse cara. Esse cara Ă© um ustrel. Temos que derrubar esse cara.

Em silĂȘncio, em total silĂȘncio, o ustrel se aproximava constantemente.

Devo voltar e chamar meus companheiros agora? Haruhiro se perguntou. Mas, se eu me mover agora, sinto que ele vai me notar. Ainda hĂĄ uma certa distĂąncia entre nĂłs, entĂŁo devo estar bem, mas estou com medo.

Em algum momento, sem perceber, Haruhiro cobriu o nariz e a boca para impedir que o som de sua respiração escapasse.

Estou sendo cauteloso demais, ele disse a si mesmo. Calma. Preciso manter a compostura. Mas eu realmente nĂŁo consigo me mover.

Enquanto estou perdendo tempo assim, o ustrel estĂĄ se aproximando. Ele Ă© mais rĂĄpido do que eu pensei, ou melhor, mais rĂĄpido do que parecia. Quinze metros? Dez? É essa a distĂąncia que ele jĂĄ percorreu.

Ele nĂŁo me notou… certo?

Haruhiro se abaixou, dobrando um dos joelhos, e se encolheu ainda mais, esticando o rosto sĂł um pouco para fora. HĂĄ uma luz brilhando de cima, mas nĂŁo muito. Ele nĂŁo pode me ver… ou nĂŁo deveria poder.

O ustrel estava caminhando em um ritmo constante. Ele nĂŁo começou a andar mais rĂĄpido nem nada, entĂŁo ele nĂŁo me notou… Acho que nĂŁo.

Eu quero puxar meu rosto de volta. NĂŁo consigo me mover. Isso nĂŁo Ă© bom. Eu falhei. Deveria ter voltado imediatamente. Estaria melhor escondido naquele buraco. Isso Ă© ruim. Ele estĂĄ perto. Droga, ele estĂĄ muito perto. Cinco metros? Quatro? TrĂȘs? Ooh.

Ele parou.

O ustrel fez uma volta Ă  direita, tĂŁo silencioso quanto sempre. Ele estava se afastando.

Não, mas não posso ter certeza ainda, Haruhiro pensou. É muito cedo para me sentir aliviado. Só mais um pouco. Quando ele estiver um pouco mais longe. Agora está bom? Não posso dizer com certeza.

No final, assim que a figura do ustrel se dissolveu na escuridĂŁo e ele nĂŁo podia mais vĂȘ-la, Haruhiro voltou para junto de seus companheiros.

— Havia um ustrel — ele disse.

— Parecia perigoso? — Ranta perguntou.

Normalmente, Ranta provavelmente teria saĂ­do correndo antes mesmo de perguntar isso. Talvez ele estivesse amadurecendo um pouco.

Haruhiro assentiu. — Sim, muito. Ele era grande, meio escuro, e carregava uma naginata.

— Soma estava dizendo que, uma vez que conseguirmos derrotar esse cara, a ĂĄrea onde podemos operar deve se expandir, nĂ©? — disse Ranta.

— Sim.

— Nesse caso, não há apenas um ustrel, há vários deles — Ranta disse. — Eles estão vagando pelo ninho dos muryans e mais adiante, e nunca podemos saber onde vamos encontrar um.

— AlĂ©m disso… — Shihoru respirou fundo, depois soltou o ar. —…nĂŁo somos apenas nĂłs, humanos. Outras criaturas tambĂ©m tĂȘm medo dos ustrels.

— E agora? — A voz de Yume parecia mais tensa do que o normal.

Ranta de repente começou a entoar. — Ó Escuridão, Ó Senhor do Vício, Demon call.

Na frente de Ranta, algo como uma nuvem roxa escura apareceu. As nuvens giravam em um redemoinho, tomando forma. Era como um torso sem cabeça, com dois buracos no peito onde deveriam estar os olhos e uma boca em forma de fenda logo abaixo. Era o familiar de um cavaleiro das trevas, um demÎnio. Era o Zodiac-kun.

— Kehehehehe… Eu vim porque vocĂȘ me chamou… Kehe… Posso ir agora? — Zodiac-kun perguntou.

— Claro que nĂŁo pode! Opa— — Ranta cobriu a prĂłpria boca. — Zodiac-kun. Sem brincadeiras hoje. Estamos prestes a enfrentar uma grande batalha, e Ă© tudo ou nada.

—…Ehehehe… Entendi… Finalmente… chegou sua hora de morrer, Ranta… Ehehe…

— N-NĂŁo me amaldiçoe desse jeito! Caramba! — Ranta exclamou. — É… É assustador, tĂĄ?

— Vamos fazer isso? — Kuzaku estava claramente hesitante.

— Por mim, tanto faz. — Mary soava tensa. Quando olhou para o pulso esquerdo, a luz do hexagrama tinha enfraquecido. Ela piscava e estava prestes a se apagar. Mary fez o sinal do hexagrama.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ… Protection.

Num instante, a luz voltou aos hexagramas da party.

Mary respirou fundo. — Isso não muda o que eu tenho que fazer.

— Ele pode já ter ido embora — disse Haruhiro, fechando os olhos.

Estamos preparados para isso? ele pensou. Eu não sei. Quero dizer, eu não sei nada sobre o inimigo. Mas é estranho. Por alguma razão, simplesmente não consigo ver fugir como uma opção.

— Vamos esperar e observar por enquanto — disse Haruhiro. — Se aquele cara voltar, atacamos. Mas vamos atraĂ­-lo para a zona segura. Vamos sĂł testar. Se as coisas piorarem, fugimos. Podemos acabar correndo bem rĂĄpido, mas sou eu quem vai tomar essa decisĂŁo. VocĂȘs absolutamente tĂȘm que seguir. Entendido?

Ranta estalou a lĂ­ngua. — AĂ­ vai vocĂȘ, se achando todo importante. Okay, tĂĄ bom. Eu entendi.

— Kehehehe… — Zodiac-kun riu. — TĂŁo submisso, Ranta… VocĂȘ vai morrer… Kehehehehehe… Isso Ă© uma bandeira da morte…

— E-Entendi — disse Yume, acenando com a cabeça tĂŁo vigorosamente que era perceptĂ­vel atĂ© na escuridĂŁo.

— Vou me concentrar em magia de ataque… — disse Shihoru. — Mary, me proteja.

— Claro — Mary assentiu. — Deixe comigo.

— Então vamos fazer isso. — Kuzaku abaixou a viseira do capacete. — Será que eu consigo me defender contra isso?

— SĂł faça — disse Haruhiro. — VocĂȘ Ă© o tanque, nĂŁo Ă©?

Haruhiro se arrependeu das palavras assim que as disse. Ele achou que poderia ter formulado aquilo de uma maneira melhor. Mas Kuzaku riu.

— É, com certeza. Não sou lá grande coisa, mas sou um tanque, então vou fazer isso.

— Ele Ă© incrivelmente difĂ­cil de perceber, entĂŁo tomem cuidado — Haruhiro os advertiu.

Haruhiro assumiu a liderança, e eles voltaram para a entrada do buraco. Ele espiou. Ficou chocado.

—T-Tá perto!

Ele quase gritou alto, mas conseguiu se conter. Estava lĂĄ. O ustrel.

Haruhiro estava confuso naquele momento e nĂŁo conseguia confiar em sua habilidade de estimar distĂąncias, mas o ustrel parecia estar talvez a cerca de dez metros, embora mais longe do que cinco metros.

NĂŁo estava andando. Apenas parado.

De repente, Ranta enfiou a cabeça ao lado de Haruhiro. — Whoa!

— Seu idiota — murmurou Haruhiro.

— Eu vou na frente! — Kuzaku pulou para fora.

O ustrel jĂĄ estava em movimento.

Ele era incrível—realmente incrível. Não era apenas rápido, era extremamente rápido. Kuzaku tentou usar o Block, mas foi em vão. Com um grito de surpresa, Kuzaku e seu escudo foram lançados.

Ranta começou a dizer “Ó EscuridĂŁo…!” antes de perceber que nĂŁo tinha tempo para terminar seu feitiço, e usou sua espada longa em vez disso. NĂŁo para atacar, mas para defender.

A naginata do ustrel. LĂĄ vinha ela. Ranta de alguma forma conseguiu bloqueĂĄ-la com sua espada longa. Mas, claro, foi arremessado.

— —Waah!

Whoa, whoa, whoa, whoa! Isso Ă© ruim! O que fazemos? Haruhiro pensou freneticamente. Isso Ă© loucura! Mesmo se eu disser para correr, Kuzaku e Ranta nĂŁo conseguem, e o ustrel jĂĄ estĂĄ vindo para cĂĄ. Uso Swat? Isso nĂŁo vai funcionar. A naginata. LĂĄ vem uma estocada.

Haruhiro soltou um grito estranho enquanto saltava para o lado e rolava. Ele nĂŁo entendeu muito bem o que aconteceu, mas aparentemente se esquivou. O ustrel deslizou a naginata na palma da mĂŁo, ajustando rapidamente seu aperto antes de desferir outro golpe.

Claro, na direção de Haruhiro. Ele estava morto. Tão morto.

Ele queria gritar de irritação, mas não conseguia emitir nenhum som. Haruhiro rastejou, tentando se afastar. A naginata arranhou o chão.

Drogaaa, ele gemeu silenciosamente. V-V-V-Vou morrer. Vou morrer de verdade. O que Ă© isso?

Com um grito, Yume disparou uma flecha de dentro do buraco. Ela acertou. Cravou-se no lado direito do peito do ustrel. O ustrel virou-se sem uma palavra, sem fazer barulho, na direção de Yume. Mary e Shihoru estavam atrås dela também.

NĂŁo, isso nĂŁo Ă© bom, pensou Haruhiro. Eu fui salvo, mas isso Ă© ruim.

— Vuuuush! — Ranta emitiu um grito peculiar e saltou para se levantar antes de avançar em direção ao ustrel. Ele não estava apenas agindo de maneira imprudente por desespero; provavelmente estava tentando chamar a atenção do ustrel. No entanto, o ustrel nem se virou, atingindo o peito de Ranta com o pomo de sua naginata.

Ranta engasgou e quase desabou, mas Zodiac-kun o apoiou.

— Seu idiota… Ehehe… — Zodiac-kun riu.

— Maldiçããão! — Kuzaku bateu no escudo com a parte plana da espada várias vezes. O ustrel o ignorou completamente.

Kuzaku levantou o escudo à sua frente e avançou contra o ustrel. O ustrel parecia não se importar. Ele fez parecer que ia atacar Yume e as outras garotas, então de repente se virou. Sua naginata brilhou. Kuzaku não conseguiu bloquear completamente.

Na verdade, a naginata se estendeu mais do que o esperado, acertando Kuzaku não no escudo, mas no braço esquerdo. A naginata cravou-se em seu braço.

Foi arrancado? Ou quebrado? De qualquer forma, Kuzaku deixou cair o escudo e caiu no chĂŁo, rolando de dor.

— wahhhhhhhhhhhh!

— Ack! — Yume gritou, recuando sem armar uma flecha. Mary e Shihoru fizeram o mesmo. Se continuassem assim, o buraco estava logo atrĂĄs delas. Elas acabariam entrando na toca dos muryans. O buraco? Haruhiro e os outros mal precisavam se agachar para entrar, mas e o ustrel? O ustrel tinha cerca de dois metros e meio de altura. NĂŁo era impossĂ­vel que ele conseguisse entrar. No entanto, era menor do que os buracos que os trĂȘs demi-humanos usavam. Se necessĂĄrio, poderia servir como um lugar para se refugiar.

A toca dos muryans parece meio duvidosa como opção, pensou Haruhiro. Bem, entĂŁo o que fazer? O que devo fazer? Primeiro—Primeiro, preciso garantir que Yume e as outras escapem. Isso. Essa Ă© a minha maior prioridade.

O que ele poderia fazer para alcançar esse objetivo? O que Haruhiro poderia fazer? SerĂĄ que essa era sua Ășnica opção?

Ele guardou seu porrete. NĂŁo gritou como Ranta e Kuzaku. Ele correu direto para o ustrel. Suas pernas estavam trĂȘmulas. Era uma sensação estranha. Seu campo de visĂŁo estava se estreitando.

O ustrel nĂŁo se virou para enfrentĂĄ-lo. Yume e as outras garotas jĂĄ estavam na toca dos muryans.

Quando Haruhiro tentou pular sobre ele, como esperado, o ustrel foi para cima dele com o pomo de sua naginata.

Ele jĂĄ tinha visto esse movimento antes. Ele conseguiu desviar, embora por pouco. Os movimentos do ustrel eram mais afiados do que o esperado, e Haruhiro estava se movendo lentamente. Mesmo assim, Haruhiro conseguiu agarrar-se Ă s costas do ustrel.

— Yume! — ele gritou. — Saiam daqui! Enquanto ainda podem!

— Nyaahã?! — Yume gritou.

Enquanto Yume permanecia rígida e imóvel, Mary a instigou — Rápido!

— Hm! — Yume gritou.

— Ah! — Shihoru acrescentou.

Shihoru tomou a dianteira, saindo correndo da toca dos muryans. O ustrel preparou sua naginata para atacar.

Eu não vou deixar, pensou Haruhiro. Com uma punhalada invertida, ele golpeou a lateral da cabeça do ustrel. A adaga ricocheteou.

É duro, essa sensação… Um capacete? O capuz da roupa semelhante a uma capa de chuva foi puxado para trĂĄs, revelando a cabeça do ustrel. Isso Ă©… um capacete? NĂŁo sei. Parece um crĂąnio metĂĄlico.

— Uwahh! Ahh! Ahhhh! — Haruhiro golpeou repetidamente o crñnio metálico do ustrel com sua adaga. Não estava claro se estava ferindo o ustrel, mas ele não parecia gostar. O ustrel se contorceu, tentando jogar Haruhiro para fora de suas costas, e o atingiu com o cotovelo. O ustrel era incrivelmente forte. A dor, ou melhor, o impacto dos golpes, era enorme.

Shihoru, Mary e Yume passaram na frente do ustrel.

— Suuuuuuuuuuuu…

Que som foi esse? O ustrel? Sua voz? Sua respiração? Não estava claro, mas o ustrel estendeu a mão esquerda. Parecia que ele planejava agarrar Haruhiro pela cabeça. No pior dos casos, ele poderia esmagå-la.

Bem, Yume e as garotas já fugiram, então talvez seja hora de largar. Haruhiro pulou das costas do ustrel. O ustrel instantaneamente virou-se à direita, e—

EstĂĄ vindo. A naginata.

— Khhh! — Haruhiro jogou-se no chão. Era tudo o que ele podia fazer.

— Anger! — Se Ranta não tivesse feito um ataque imprudente contra o ustrel, Haruhiro certamente teria sido cortado ao meio pelo próximo ataque. Mas o ustrel usou o braço esquerdo para desviar a espada longa de Ranta.

— O quĂȘ— — Enquanto Ranta estava desequilibrado, o ustrel desferiu um golpe contra ele usando apenas o braço direito.

Ahh. Isso nĂŁo Ă© bom, pensou Haruhiro. Ele vai morrer. O Ranta vai ser morto.

— Gehe! — Era Zodiac-kun. Sem perder tempo, Zodiac-kun empurrou Ranta para fora do alcance do golpe.

Zodiac-kun tomou o golpe destinado a Ranta, sendo partido ao meio pela naginata do ustrel.

— …Uh… Uhe… Ranta… Morrer… — Zodiac-kun murmurou enquanto desaparecia.

— Depois de ter me salvado! — Ranta atacou o ustrel com raiva. — Não diga isso! Eu posso te invocar de novo a qualquer hora, entendeu? Rahhhhh!

— Não seja imprudente, Ranta! — Haruhiro se levantou. — Vamos recuar para a zona segura!

— Exhaust! — Quando Ranta saltou para trĂĄs em uma velocidade incrĂ­vel, o ustrel… nĂŁo o seguiu.

Em vez de Haruhiro ou mesmo Yume e as outras garotas, o ustrel se virou para Kuzaku, que ainda nĂŁo tinha se levantado.

— Espere…! — Haruhiro correu na direção dele, mas parecia que nĂŁo chegaria a tempo, e mesmo que chegasse, nĂŁo tinha certeza se conseguiria salvĂĄ-lo.

— Jess, yeen, sark, fram, dart!

Lightning. Era a magia de Shihoru. Um raio caiu sobre o ustrel. Seu corpo convulsionou e uma trilha de vapor, ou fumaça, ou algo semelhante subiu dele, mas serå que o feitiço foi eficaz? Pelo menos, não parecia ter causado nenhum dano significativo.

O ustrel se virou suavemente para encarar Shihoru e as outras garotas.

Isso não é bom, pensou Haruhiro. Ele vai mirar nelas agora. Mas, graças a isso, Kuzaku sobreviveu.

— Ranta! Atraia ele de alguma forma! — Haruhiro gritou.

— Pode deixar! — Ranta respondeu.

— Levanta, Kuzaku! — Haruhiro correu para o lado do paladino. O braço esquerdo de Kuzaku estava completamente inutilizado. Era uma visão dolorosa. Estava cortado, quebrado, praticamente esmagado.

Kuzaku, por sua vez, fez o possĂ­vel para resistir. Ele se levantou com suas prĂłprias forças, acenando com a cabeça para Haruhiro. — …Estou bem. Eu consigo. Desculpe. VocĂȘ pode pegar meu escudo pra mim? Se puder.

— Seu escudo? — Haruhiro perguntou.

— Quando eu curar meu braço, vou precisar usĂĄ-lo de novo. Sou praticamente inĂștil sem ele.

— Se as coisas ficarem ruins, vou largar ele, okay? — Haruhiro disse.

Ele pegou o escudo de Kuzaku. SerĂĄ que Kuzaku conseguiria acompanhar a party? Seria difĂ­cil para ele, sem dĂșvida, mas ele teria que tentar.

Yume e as garotas estavam fugindo. O ustrel as perseguia. Ranta estava fazendo o possível para desviar a atenção do ustrel, mas não estava indo muito bem. O ustrel nem olhava para trås, parando facilmente a espada longa de Ranta com o pomo de sua naginata e, em seguida, com seu braço esquerdo.

— Droga! — Ranta gritou. — Que porra Ă© esse cara?!

— Um ustrel, oras?! — Haruhiro respondeu.

Gritando coisas sem sentido enquanto movia as pernas, Haruhiro começou a pensar. Ele pensou sobre o que deveria pensar. Sobre o que ele deveria pensar?

Serå que Yume e as outras conseguiriam escapar assim? Ele não sabia. Mas provavelmente não. Eventualmente, elas seriam alcançadas. Antes que isso acontecesse, Haruhiro e os outros precisavam parar o ustrel. Serå que conseguiriam?

— Yume! Mary! Shihoru! — ele chamou. — Quando passarem pela zona segura, entrem nos buracos dos trĂȘs demi-humanos!

NĂŁo houve resposta. As trĂȘs estavam correndo com todas as suas forças.

Kuzaku estava ficando para trĂĄs. Claro que estava.

O ustrel ocasionalmente balançava sua naginata. Yume, que estava mais atrås, gritava toda vez que ele fazia isso. Parecia que a qualquer momento aquela naginata poderia alcançar Yume.

O teto se abriu e ficou mais claro. JĂĄ estavam na zona segura.

Eles chamavam de zona segura, mas nĂŁo havia nada que definisse claramente os limites dela. JĂĄ estavam quase no domĂ­nio dos trĂȘs demi-humanos. O tĂșnel principal era reto, e havia buracos laterais em cada lado.

De repente, o ustrel acelerou e deu uma estocada com sua naginata.

— Ungh! — Yume saltou diagonalmente, mas a naginata do ustrel arranhou sua cintura, causando um corte.

— Yumeeee! Leap Out! — Ranta fez um salto louco, pulando nas costas do ustrel. O ustrel se virou, cortando-o diagonalmente enquanto fazia isso.

Ranta caiu no chĂŁo como se fosse uma bola ou algo parecido, e seu capacete se soltou com o impacto. O ustrel imediatamente levantou a ponta da naginata. — Iggzo…!

Parecia que ele estava tentando gritar Exhaust, mas nĂŁo conseguiu. Ranta saltou para trĂĄs em uma pose semelhante a de um sapo, evitando por pouco a naginata.

Mary correu para um buraco lateral, praticamente carregando Yume com ela. Shihoru a seguiu.

Bom, pensou Haruhiro. Muito bem, Ranta. Certo…!

Seria difĂ­cil seguir pelo mesmo buraco que Mary e as garotas. Haruhiro levou Kuzaku com ele e se dirigiu a um buraco diferente, no lado oposto.

— Ranta, vocĂȘ vem tambĂ©m! — ele chamou.

— Claro, eu tî indo! Vai ser moleza! Como se fosse, droga!

Ranta ativou repetidamente seu Exhaust, de alguma forma conseguindo correr e evitar a naginata do ustrel. Haruhiro queria ajudar, mas esse era um truque que sĂł Ranta sabia fazer. Mesmo que ele fosse atĂ© lĂĄ, provavelmente sĂł atrapalharia. O mĂĄximo que conseguiria seria morrer enquanto comprava tempo para que Ranta pudesse escapar. Seria inĂștil.

— VocĂȘ consegue, cara! Se vocĂȘ nĂŁo conseguir, quem mais conseguiria?! — Haruhiro gritou.

— Seu idiota! — Ranta berrou. — AĂ­ vai vocĂȘ, me dizendo que eu consigo! Todo mundo jĂĄ sabe disso, entĂŁo nĂŁo diga! Leap Out!

Ranta não recuou; em vez disso, saltou para o lado do ustrel. O ustrel imediatamente virou para a direita, balançando sua arma atrås dele. No entanto, Ranta jå tinha saltado de novo.

— Leap! Leap! Leapow! Lea! Lea! Lea! Leap Out!

Ele saltou, saltou e saltou como um louco, e fugiu. Haruhiro nĂŁo sabia se ficava impressionado, ou o quĂȘ.

Haruhiro e Kuzaku entraram no buraco. Todos os buracos dos trĂȘs demi-humanos tinham pouco mais de um metro de altura e cerca de setenta centĂ­metros de largura. Se era baixo o suficiente para que atĂ© mesmo Haruhiro tivesse que se abaixar para entrar, o ustrel teria ainda mais dificuldade.

O buraco se estendia por cerca de cinquenta metros. NĂŁo parecia haver nenhum duergar, bogies ou spriggan. SerĂĄ que eles detectaram o ustrel e se esconderam mais profundamente? SerĂĄ que Ranta conseguiu escapar?

Kuzaku nĂŁo estava apenas respirando com dificuldade—ele tambĂ©m estava gemendo de dor, — Ai… Ai… Ai… — Seu braço esquerdo devia estar doendo muito. Haruhiro queria se reunir com as garotas e curĂĄ-lo, mas o buraco delas ficava do lado oposto da ĂĄrea principal. Ele nĂŁo conseguia dizer se havia uma conexĂŁo entre este buraco e o delas.

— Kuzaku, espere aqui — ele disse.

— …TĂĄ.

— Eu volto já.

Haruhiro deixou o escudo para trĂĄs e voltou para dar uma olhada na ĂĄrea principal.

O ustrel estava lĂĄ.

Ele estava parado em silĂȘncio, como se estivesse ali hĂĄ dĂ©cadas, bem no meio da ĂĄrea principal.

E quanto a Ranta? Haruhiro nĂŁo viu nenhum cadĂĄver, entĂŁo ele deve ter conseguido entrar em algum buraco lateral.

Haruhiro sabia em qual buraco Yume e as garotas tinham entrado. Ele se lembrava. Era praticamente direto Ă  sua frente. O ustrel estava bloqueando o caminho, bem no meio dos dois buracos.

Por enquanto, parecia que o ustrel nĂŁo entraria nos buracos dos trĂȘs demi-humanos. No entanto, o ustrel tambĂ©m nĂŁo tinha intenção de deixar Haruhiro e os outros escaparem. Ele estava planejando matĂĄ-los quando saĂ­ssem dos buracos.

Seria melhor tentar esperar? Se eles simplesmente ficassem nos buracos, talvez o ustrel desistisse. Eles tambĂ©m poderiam esperar por outros soldados voluntĂĄrios passarem por ali. Eles poderiam ignorar os trĂȘs demi-humanos, mas certamente nĂŁo ignorariam um ustrel.

Mas, hoje, jå haviam passado muitos soldados voluntårios por Haruhiro e sua party, indo mais fundo no Buraco das Maravilhas. Embora pudessem haver soldados voluntårios voltando, provavelmente não haveria mais entrando. Os soldados voluntårios geralmente voltavam à noite ou mais tarde. Ainda era meio-dia. Isso estava longe. Além disso, ele não tinha como se comunicar com Yume, Shihoru, Mary ou Ranta.

Mesmo que Haruhiro tomasse uma decisĂŁo ali, ela nĂŁo chegaria aos seus companheiros. E ainda havia Kuzaku para considerar.

Haruhiro voltou até onde Kuzaku estava. A respiração de Kuzaku ainda estava ofegante. Na verdade, provavelmente não era apenas cansaço. Devia ser uma lesão de algum tipo.

— Kuzaku, acha que consegue correr mais uma vez? — Haruhiro perguntou.

— Sim… afinal de contas… eu posso morrer… se nĂŁo conseguir…

— VocĂȘ estĂĄ bem? — Haruhiro perguntou.

— Sim. — Kuzaku assentiu, respirando fundo. — Estou bem. Eu posso correr.

— Certo, venha comigo. — Voltando atĂ© antes da ĂĄrea principal, Haruhiro indicou o buraco em que Yume e as garotas deviam estar. — É longe, mas vĂȘ aquele ali? Mary estarĂĄ naquele buraco. Corra atĂ© lĂĄ o mais rĂĄpido que suas pernas permitirem.

— …E vocĂȘ? — Kuzaku arfou.

— Eu, vou ser a isca. Vou atrair o ustrel para mim primeiro. VocĂȘ corre assim que eu fizer isso.

— Isso nĂŁo Ă© perigoso? — Kuzaku perguntou.

— É perigoso, sim — disse Haruhiro. — Mas Ă© nossa Ășnica opção. Se vocĂȘ nĂŁo for tratado logo, nĂŁo vai conseguir fazer nada.

— …Definitivamente nĂŁo vou — Kuzaku concordou.

— Vou deixar seu escudo aqui — disse Haruhiro. — Estou indo.

— Hein? Já? — Kuzaku perguntou.

— Quando algo precisa ser feito, Ă© melhor fazer logo — Haruhiro explicou.

Quero dizer, quanto mais eu esperar, mais vou ficar com medo, de qualquer maneira. Haruhiro bateu no peito. Ele debateu se deveria deixar sua adaga e o porrete ou não. Se eu for desarmado, talvez fique muito óbvio. Mas posso correr mais rápido de mãos vazias—Não, não se preocupe com isso. Vamos lá.

Haruhiro deslizou suavemente e silenciosamente para fora do buraco. O ustrel ainda não o tinha notado. O ustrel estava virado na direção da entrada do Buraco das Maravilhas. Haruhiro usou seu Sneaking para se esgueirar ao longo da parede na direção da entrada. Ele imaginou que logo entraria na linha de visão do ustrel.

Quando ele vai me notar? Pensou Haruhiro, e logo teve sua resposta. LĂĄ vem ele.

O ustrel se virou em sua direção e começou a correr sem fazer barulho.

Ele estĂĄ vindo. Ele Ă© realmente rĂĄpido. Haruhiro correu. Ele sentiu como se todo o seu corpo estivesse sendo puxado para trĂĄs. Era terror? PressĂŁo? Ele correu o mais rĂĄpido que pĂŽde ao longo da parede, e nĂŁo demorou muito para que o ustrel estivesse bem atrĂĄs dele.

E Kuzaku? Olha lĂĄ ele, indo devagar. NĂŁo posso vacilar agora. NĂŁo consigo correr como gostaria. Ele ainda nĂŁo chegou ao buraco. Ainda nĂŁo? Aguente firme. SĂł mais um pouco. VocĂȘ estĂĄ quase lĂĄ. Ele entrou.

Assim que viu que Kuzaku tinha conseguido chegar, Haruhiro rolou para dentro de um buraco prĂłximo.

— Uooh!

O ustrel enfiou sua naginata no buraco atrås de Haruhiro. Ele entrou em pùnico e começou a rastejar, afastando-se da entrada. O ustrel se inclinou mais de noventa graus, espiando para dentro do buraco.

Ele nĂŁo vai entrar… vai? Haruhiro parou de rastejar. O ustrel nĂŁo se moveu. NĂŁo parecia que ele ia entrar no buraco. Mas agora, estou preso aqui, nĂŁo estou?

— Ei — uma voz chamou do fundo do buraco. — Eeei. Eeeeeei! Tem alguĂ©m aĂ­? Heeeeeeeeeeeey!

— …Ranta? — Haruhiro chamou.

Ranta apareceu. — Ah, Ă© sĂł vocĂȘ, Haruhiro. EstĂĄ sozinho?

— Sim, estou — respondeu Haruhiro. — Como vocĂȘ chegou atĂ© aqui?

— Entrei por outra entrada e, depois de andar aleatoriamente, acabei saindo aqui.

— Aleatoriamente… Tenho certeza de que, se encontrarmos algum dos trĂȘs demi-humanos assim, estaremos ferrados… — Haruhiro comentou.

Haruhiro e Ranta estavam agachados, numa posição mais baixa que uma meio-sentada. Se não estivessem, suas cabeças teriam batido no teto. Eles não poderiam lutar desse jeito.

— Seu idiota — disse Ranta. — Não podemos nos preocupar com cada detalhe agora. — E, espera aí, o ustrel tá logo ali!

— Sim, estĂĄ — Haruhiro concordou. — Mas ele nĂŁo vai entrar. Precisamos nos juntar Ă  Yume e Ă s outras de algum jeito. Eu consegui levar sĂł o Kuzaku atĂ© elas.

— Do outro lado, hein… — Ranta mordeu o lĂĄbio. — Tive uma ideia.

Haruhiro nĂŁo estava muito inclinado a seguir qualquer plano que Ranta inventasse, mas nĂŁo havia alternativas. Bem, talvez houvesse, mas ele nĂŁo conseguia pensar em nenhuma.

Haruhiro seguiu Ranta mais fundo no buraco. O ustrel jĂĄ estava fora de vista. A partir daĂ­, ele e Ranta se separaram. Haruhiro ficou de espera. Ele provavelmente esperou por uns cinco minutos.

— Heeeeeey! — ele ouviu Ranta gritar ao longe.

Era um plano simples. Ranta sairia pelo buraco por onde entrou, entĂŁo atrairia o ustrel para ele. Enquanto isso, Haruhiro iria para o outro lado. Basicamente, Ranta se voluntariou para ser a isca.

Haruhiro correu de volta. O ustrel nĂŁo estava mais lĂĄ. Parecia que Ranta havia conseguido atraĂ­-lo. Quando Haruhiro saiu correndo do buraco, viu Ranta sendo perseguido pelo ustrel. Em vez de tentar despistĂĄ-lo, Ranta deixava o ustrel quase pegĂĄ-lo, entĂŁo usava Exhaust para ganhar distĂąncia.

Bom trabalho, Ranta, Haruhiro pensou. Mas, claro, nĂŁo tenho tempo para ficar admirando isso.

Ele correu a toda velocidade em direção a um buraco do lado oposto. Era um longo caminho até o buraco onde Yume e as outras deveriam estar, então talvez ele não conseguisse chegar lå. Por enquanto, ele se contentaria com qualquer buraco em que pudesse entrar.

— —HĂŁĂŁhh?! O que hĂĄ com vocĂȘ?! — Ranta gritou.

Serå que algo aconteceu? Haruhiro olhou enquanto corria e viu que o ustrel havia parado. Ranta parou de correr, balançando os braços e tentando provocå-lo.

— Qual Ă© o problema?! — Ranta rugiu. — Vem pra cima! TĂĄ com medo?!

— Suuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…

Que som era aquele? Uma voz? Respiração? Ele jå tinha ouvido isso antes, mas desta vez era muito mais alto.

Ranta também deve ter notado algo estranho. Ele tentou correr. Antes que pudesse, o ustrel deu um passo à frente, estendendo o braço direito.

Ele realmente se estendeu. Seu braço direito—nĂŁo, seu braço esquerdo—nĂŁo, ambos os braços—cresceram atĂ© o dobro do comprimento usual. EntĂŁo, usando seu braço direito estendido, ele desferiu um golpe com a naginata.

— Argh! — Ranta gritou.

Se aquele braço direito tivesse o comprimento normal, Ranta provavelmente teria conseguido desviar. Mas, como estava mais longo agora, ele não conseguiu. A naginata do ustrel decepou o braço esquerdo de Ranta.

— Ran—! — Haruhiro gritou. Ele tomou uma decisão instantñnea, quase reflexivamente. — Todos, saiam! Vamos salvar o Ranta!

Será que temos uma chance? Haruhiro se perguntou. Ou não temos? Eu não sei. Mas estou confiante de que podemos fazer isso—acho.

Os braços do ustrel. Eles ficaram mais longos. Estavam longos agora, incrivelmente longos. Muito longos.

Se ele nĂŁo deixasse isso assustĂĄ-lo, Haruhiro tinha certeza de que conseguiria se aproximar.

Haruhiro passou por Ranta, que estava sangrando muito enquanto recuava.

O ustrel. Ele era insanamente intimidador e estava vindo naquela direção. A naginata. Era um golpe lateral.

Sim, isso pode me matar, pensou Haruhiro. Mas ele nĂŁo podia recuar agora.

A naginata veio. Ao mesmo tempo, Haruhiro se lançou para frente e rolou. Estava morto? Não, parecia que não. Na verdade, ele estava vivo. Aparentemente, ele conseguiu passar por baixo da naginata enquanto o ustrel a brandia.

Haruhiro continuou e se jogou nas pernas do ustrel. As pernas do ustrel eram incrivelmente curtas em comparação com sua altura, e também finas. Enquanto balançava a naginata para o alto com o braço direito, o ustrel tentou chutar Haruhiro. Mas isso não era tão assustador quanto a naginata, pois Haruhiro conseguia ver o chute vindo. Ele evitou a perna direita do ustrel, agarrando-se à esquerda. Aplicando uma torção severa no joelho do ustrel, Haruhiro rapidamente tirou sua perna de apoio do chão.

O ustrel foi derrubado. Ele bateu as costas no chão, mas imediatamente tentou acertar Haruhiro com o braço esquerdo. O ustrel tinha caído, e isso claramente era uma oportunidade, uma que talvez ele nunca tivesse novamente, mas Haruhiro recuou sem hesitação ou arrependimento. Se ele tivesse hesitado por um momento, o ustrel teria desferido um golpe poderoso nele com o braço esquerdo.

O ustrel usou seus dois braços longos para se apoiar, levantando-se silenciosamente.

Mary e Yume estão indo em direção ao Ranta, Haruhiro notou. Onde estå o Kuzaku? Ali estå ele. Ele estå planejando pegar seu escudo? Shihoru estå com Kuzaku. Parece que tanto Yume quanto Kuzaku estão completamente curados.

— Suuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…

Lá estava novamente. Aquele som. O que era dessa vez? Seus braços—os braços do ustrel estavam encolhendo. Ficando mais curtos. Em pouco tempo, voltaram ao comprimento original.

Seus braços não só se esticam. Ele consegue tanto esticå-los quanto comprimi-los? Haruhiro se perguntou. Era muito mais fåcil lutar com ele quando os braços estavam longos. Haruhiro estalou a língua em desapontamento, movendo-se para a esquerda. Ele se movia em círculos. Com o ustrel no centro, ele rapidamente se movia ao redor dele no sentido horårio.

Se o ustrel desse um passo à frente, provavelmente conseguiria alcançar Haruhiro com sua naginata. Era por isso que Haruhiro se movia cada vez mais para a esquerda antes que ele pudesse. O ustrel girava no lugar, e no instante em que Haruhiro estivesse à sua frente, ele certamente desferiria um golpe com a naginata.

Essa tensĂŁo. Se ele baixasse a guarda por um momento, ou tropeçasse em um buraco ou saliĂȘncia, seria cortado. Quando pensava em morrer, sentia suas pernas começarem a tremer.

Råpido, Haruhiro pensou. Råpido. Råpido. Råpido, råpido, råpido, råpido. Alguém.

— Ohm, rel, ect, nemun, darsh!

Shihoru. Era magia. Shadow Bond. Um elemental das sombras voou, fixando-se ao chão aos pés do ustrel. O ustrel pisou nele. O elemental sugou seu pé. Mas parecia que ele poderia se libertar a qualquer momento.

Shihoru não hesitou em lançar seu próximo feitiço. — Jess, yeen, sark, fram, dart!

Lightning. Acertou. O ustrel foi atingido por um raio.

Seu corpo convulsionou—mas foi sĂł isso. O ustrel soltou seu pĂ©, virando-se em direção a Shihoru. Ela recuava, parecendo que poderia cair de costas, quando Kuzaku saltou na frente dela.

— Eu vou…! — gritou Kuzaku.

Num instante, o ustrel se aproximou de Kuzaku. A naginata brilhou. Houve um som estridente quando Kuzaku usou Block. Ele se firmou contra o impacto. Não só conseguiu se manter firme. Ele avançou, estocando com sua espada longa. O ustrel deslocou o corpo para o lado para evitar o golpe, então usou a naginata novamente.

Kuzaku uso Block. Ele quase foi levantado no ar, mas conseguiu se forçar a descer. Sem recuar, avançou e desferiu um golpe afiado com sua espada longa. O ustrel demonstrou novamente aquele movimento de esquiva, e então brandiu a naginata. Kuzaku usou Block mais uma vez, seguido de sua espada longa. O ustrel se esquivou e atacou com a naginata de novo. Kuzaku recorreu ao Block mais uma vez e então partiu para o contra-ataque.

— Wahaha! — Kuzaku riu. — Isso Ă© loucura! Que medo! Uou! O que Ă© isso?! Droga! Que poha?! Wahaha! NĂŁo acredito! Wahahaha! Gwehehehe!

Esse cara estå bem da cabeça? Haruhiro se preocupou. Ele realmente não parece estar, mas estå lutando desesperadamente contra o terror, contra a pressão, e apenas conseguindo se segurar no limite.

Haruhiro, Ă© claro, queria apoiar Kuzaku. Mas nĂŁo conseguia se aproximar. Tecnicamente, ele estava atrĂĄs do ustrel, mas nĂŁo conseguia se aproximar o suficiente para usar sua adaga ou porrete. Se ele se jogasse no ustrel de forma imprudente, talvez conseguisse, mas nĂŁo podia correr esse risco ainda. As costas do ustrel pareciam tĂŁo distantes.

Mary estava tentando começar a curar Ranta. Seu braço havia sido cortado, e ele estava sangrando profusamente. Era um ferimento crítico, então Mary provavelmente usaria Sacrament. Ranta logo poderia voltar para a linha de frente. Yume estava tentando se aproximar dele, mas Haruhiro gritou para ela:

— Está tudo bem! Yume, fique aí! — e a fez parar. Ele queria que Yume estivesse pronta caso o pior acontecesse. Se o ustrel voltasse sua atenção para Mary e Ranta enquanto ela estava curando-o, Yume precisaria se arriscar para impedir isso.

Shihoru estava sempre atrĂĄs de Kuzaku, procurando oportunidades para usar sua magia.

Haruhiro desejava que o ustrel voltasse para o modo de braços longos novamente. Mas, enquanto o modo de braços longos facilitava as coisas para Haruhiro, talvez não fosse o mesmo para Kuzaku. O ustrel usou seu braço esquerdo para bloquear a espada de Kuzaku.

Seus braços são duros? Ou são revestidos com armadura? Haruhiro se perguntou. A flecha de Yume cravou no peito do ustrel. Como foi quando eu estava agarrado a ele por trås? Não acho que ele era todo duro e rígido. Serå que são apenas os braços que são duros? Talvez seja realmente uma armadura, então.

No mínimo, o ustrel deve estar usando uma armadura em seu braço esquerdo. O poder ofensivo do ustrel era tão assustador quanto o do guardião da Fortaleza de Observação Deadhead, Zoran Zesh. No entanto, Zoran Zesh também se protegia usando uma armadura resistente e um capacete. O ustrel não tinha nem de perto o mesmo poder defensivo.

— Suuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…

Lå estava. Aquele som. Os braços do ustrel se esticaram. Kuzaku ficou assustado e tentou recuar.

— Avance! — Haruhiro gritou para ele enquanto corria tambĂ©m. O que Kuzaku fez? Ele nĂŁo sabia. Haruhiro se agarrou ao ustrel, cravando sua adaga nas costas dele. — Aqui!

A lñmina penetrou. Mas foi superficial, e—

De repente, o ustrel saltou. Foi um salto vertical. Ele se ergueu no ar e depois aterrissou. O impacto da aterrissagem foi incrĂ­vel. Haruhiro nĂŁo conseguiu se segurar.

— O quĂȘ…! — Haruhiro gritou.

Ele foi jogado longe. Haruhiro se preparou para o impacto da queda. Ele caiu.

Ah, Ugh, Haruhiro percebeu. É o ustrel.

O ustrel não usou a naginata. Ele pisou em Haruhiro. No estîmago, no peito—naquela área em geral.

Haruhiro tossiu e engasgou de dor.

— Eeeeeeeiiii, vocĂȘeeeeeeeeee…! — uma voz berrou.

Ranta. Era Ranta envolto em sua Dread Aura. Ele avançou, derrubando o ustrel e cravando sua espada longa nele. O ustrel imediatamente jogou Ranta para longe, mas havia um rasgo na vestimenta escura do ustrel em seu flanco.

Haruhiro tentou desesperadamente rastejar para longe. Da sua boca, olhos e nariz, ele estava pingando vĂŽmito, lĂĄgrimas, muco e sabe-se lĂĄ que outros tipos de fluidos, mas ele rastejava para longe.

— Haru?! — Era a voz de Mary.

Haruhiro gritou, — TĂŽ be…m! — mas ele estava longe de estar bem, e pensou que, nĂŁo, ele nĂŁo parecia nada bem. Bem, isso mostrava que ele ainda tinha a compostura para pensar nisso, pelo menos. Limpando o rosto com um braço, ele se levantou.

Kuzaku estava de pé na frente do ustrel, enquanto Ranta estava à direita do ustrel. Nenhum dos dois conseguia se aproximar. Mas de alguma forma, eles estavam conseguindo evitar a naginata e o braço esquerdo do ustrel, ou bloqueå-los. Estariam se acostumando? No modo de braços longos, o ustrel tinha um grande alcance, e cada um de seus ataques era pesado, mas ele não conseguia manobrar rapidamente. Isso parecia ser parte da razão.

— Se for assim…! — Yume preparou seu arco e disparou uma flecha.

Parecia que ia acertar. Acertou. No ombro esquerdo. EntĂŁo ela disparou outra logo em seguida. Desta vez, nas costas.

O ustrel parecia insatisfeito.

— Jess, yeen, sark, fram, dart! — Shihoru lançou o que agora era seu feitiço mais poderoso de magia Falz, Thunderstorm, nele. Houve um estrondo ensurdecedor, ou melhor, uma explosĂŁo. Normalmente, tratava-se de um feitiço com efeito em ĂĄrea, mas o ustrel era grande o suficiente para ser atingido por vĂĄrios raios. Mesmo o poderoso ustrel nĂŁo conseguiu sair dessa apenas com algumas convulsĂ”es. Ele espasmou violentamente antes de ficar imĂłvel. Ele parou de se mover.

— Agora?! — Haruhiro gritou e avançou.

Isso Ă© certo? Ele se perguntou enquanto avançava. É uma mĂĄ ideia? Eu nĂŁo sei, mas Ă© tarde demais para pensar nisso agora.

Kuzaku, Ranta, Yume e até mesmo Mary, todos estavam correndo em direção ao ustrel. Provavelmente, todos haviam começado a se mover antes de Haruhiro gritar a ordem. Todos planejavam resolver isso imediatamente. Eles queriam terminar isso.

Mas isso nĂŁo Ă© agir com base na situação—é mais um desejo, nĂŁo Ă©?

Haruhiro sentiu um calafrio.

Isso não era apenas intuição. Ele tinha algo que o respaldava. No rosto do ustrel, aquele crùnio metålico, a parte que provavelmente era a peça da boca do seu capacete, deslizou para cima com um rangido e se abriu.

— Espera! Segura! Afastem-se dele por enquanto! — Haruhiro gritou.

Haruhiro começou a recuar, e o ustrel começou a estalar a língua.

Chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik.

Acho que isso é ele estalando a língua, pensou Haruhiro. Nunca ouvi algo estalar a língua de forma tão ameaçadora antes.

No fundo da måscara de crùnio metålico, o ustrel estava rangendo seus dentes amarelados e estalando a língua. Ele começou a espumar pela boca.

— —Ack?! — Ranta gritou, de repente voando pelo ar.

Isso foi rápido! Um chute voador—ele pegou ele?! Haruhiro pensou. Então o ustrel girou sua naginata com ambas as mãos, fazendo o escudo de Kuzaku voar.

— Argh?! — Kuzaku gritou.

— Nyun?! — Yume guinchou.

Yume foi chutada como Ranta. Por algum motivo, o ustrel parou logo em seguida. Ele estalou a lĂ­ngua, com os ombros e as costas subindo e descendo. Haruhiro, sinceramente, estava confuso. Mary tambĂ©m ficou parada. Shihoru foi a Ășnica que nĂŁo.

— Ohm, rel, e— —

Shihoru tentou usar sua magia, mas antes que pudesse terminar o encantamento, o ustrel voltou a se mover.

O ustrel saltou, chutando Shihoru e a jogando para longe. Sem conseguir sequer soltar um som, Shihoru voou pelo ar como um objeto inanimado. Como um pedaço de lixo leve.

— Shi— — Haruhiro parou, sem palavras.

Por que consigo ver essa linha tĂȘnue de luz agora? O que estĂĄ acontecendo? Por que meu corpo estĂĄ se movendo por conta prĂłpria? Que inferno! Isso Ă© sĂł pode ser uma piada.

Quando Haruhiro começou a correr para seguir a linha, o ustrel virou-se para encarå-lo.

É as pernas, ele pensou. As pernas. Se observarmos as pernas, saberemos quando ele vai começar a se mover.

O ustrel ergueu o joelho alto, impulsionou-se com força do chĂŁo e saltou. O ustrel veio voando. Haruhiro podia vĂȘ-lo. O ustrel esticou o pĂ© direito.

Haruhiro moveu seu corpo para a esquerda, esquivando-se do pé direito do ustrel. Ele não apenas evitou o ataque, mas também desferiu um golpe diagonalmente sobre o joelho direito do ustrel. Haruhiro rolou por vontade própria e, ao se levantar, jå não conseguia mais ver a linha.

O ustrel virou-se para encarĂĄ-lo. NĂŁo foi um movimento suave. O ustrel estava claramente tentando proteger a perna direita. Isso significava que ele havia causado algum dano.

Mas—droga, Haruhiro pensou. Eu conseguia ver a linha, mas isso foi tudo o que fiz? Não consegui derrubá-lo. No entanto, apesar disso, encontrei uma pista. As pernas. São as pernas. Observe as pernas. De novo. Aí vem ele.

O ustrel levantou o joelho esquerdo alto, impulsionando-se vigorosamente do chĂŁo. Como usou a perna esquerda para o salto, parecia improvĂĄvel que o ataque com o porrete tivesse causado muito efeito.

O ustrel veio voando. Haruhiro nĂŁo conseguia ver a linha, e tudo o que conseguiu fazer foi desviar, mas pelo menos conseguiu. Haruhiro saltou para o lado esquerdo, evitando o chute voador do ustrel.

É agora que fica assustador! Ele pensou. Ele estava certo. Assim que o ustrel aterrissou, ele girou sua naginata com ambas as mãos. Se Haruhiro fosse atingido, seria o fim, mas se ele pudesse prever—Haruhiro deslizou por baixo da naginata, escapando.

— Mary, como está a Shihoru?! — ele gritou.

NĂŁo houve resposta.

Haruhiro sentiu uma tontura. Isso só podia ser uma piada. Não pode ser. Seu cérebro fervilhava.

Eu vou te matar. Desgraçado. Esse cara estå morto, absolutamente morto. Mas a verdade era que Haruhiro estava mais perto de ser morto do que de matar o ustrel. O ustrel veio voando. Haruhiro estava observando as pernas do ustrel, então sabia o momento certo. O curso, também. Ele poderia evitar. Mas apenas por pouco. Isso era o melhor que conseguia fazer.

O balanço da naginata após um chute voador não era tão assustador. Havia uma razão clara para isso. O ustrel se impulsionava do chão com o pé esquerdo, tentava chutar Haruhiro com o direito e depois aterrissava no mesmo pé direito. No entanto, com o joelho direito machucado, havia um leve atraso antes que ele pudesse passar para a próxima ação.

Meu oponente nĂŁo Ă© um monstro, pensou Haruhiro. Bem, o cara Ă© como um monstro, mas um que pode ser ferido. Espadas e flechas podem perfurĂĄ-lo. Ele nĂŁo Ă© invencĂ­vel. SĂł que derrotĂĄ-lo vai ser difĂ­cil. Isso Ă© um problema, sim. Um grande problema—Shihoru. Shihoru. Shihoru—Eu nĂŁo tenho tempo para pensar em Shihoru. Tenho que me concentrar no ustrel.

— Grahhhhhh! — Kuzaku levantou-se. — Malditoooooo!

— Observe as pernas dele, Kuzaku! — Haruhiro gritou enquanto se esquivava de um chute voador.

— Se vocĂȘ observar as pernas dele, pode saber quando ele vai atacar! — Haruhiro gritou.

— Eu voltei Ă  vida! — Ranta se levantou. — Vou ver atravĂ©s dos seus ataques!

Chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik, chik.

Assim que a luta virou trĂȘs contra um, o ustrel desistiu de usar seu chute voador, e o som de sua lĂ­ngua estalando ecoou alto pela ĂĄrea. Seus braços se contraĂ­ram.

Ele desativou o modo de braços longos, mas o que ele planeja fazer agora? Haruhiro se perguntou. Seja o que for…

— Não se distraiam! — ele gritou. — Enquanto não tirarmos os olhos das pernas dele—

Haruhiro engoliu em seco. Ele estĂĄ vindo. LĂĄ vem ele.

Dessa vez, o ustrel não saltou. O ustrel disparou. Com uma postura incrivelmente baixa, a ponta da naginata à frente, ele avançava.

Eu vou ser atropelado, percebeu Haruhiro. Não. Torcendo o corpo, ele desviou da naginata por um triz. No entanto, não conseguiu se esquivar completamente. O corpo do ustrel o atingiu em algum lugar e, embora não tenha sido pisoteado, Haruhiro foi lançado para longe. — Urgh!

— Whoa!

— Gah!

Logo atrĂĄs dele, Ranta e Kuzaku tambĂ©m foram arremessados. Haruhiro bateu as costas e os ombros ao cair, mas nĂŁo foi nada grave. O ustrel havia corrido em um cĂ­rculo distorcido, derrubando os trĂȘs, e agora parou, com o corpo todo subindo e descendo—ele estava descansando?

Haruhiro sentou-se, olhando para Yume. Yume estava tentando encaixar uma flecha.

E então havia Mary. Mary estava—sentada ao lado da caída Shihoru, fazendo uma massagem cardíaca ou algo assim, talvez.

— Aqui estĂĄ! — ela arfou. — O coração! Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ! Sacrament!

Sacrament? Ela estava usando o milagre da luz, Sacrament?

Shihoru! O coração dela havia parado? Mary a havia ressuscitado desse estado. E entĂŁo usou Sacrament, o feitiço que cura instantaneamente o alvo, desde que ainda esteja vivo. Ela jĂĄ o havia utilizado uma vez em Ranta, entĂŁo esta era a segunda vez que o usava. Seu Ășltimo Sacrament.

Yume gritou — Miuaa! — e disparou uma flecha, que cravou no peito do ustrel.

O ustrel virou-se lentamente para Yume, fazendo aquele som ameaçador de chik, chik, chik, chik com a língua enquanto fazia isso.

Ranta e Kuzaku levantaram-se, gritando para se animarem. E entĂŁo…

— T-Tudo bem! JĂĄ estou bem agora! D-Desculpa! — Shihoru tambĂ©m estava de pĂ©.

— Não peça desculpas! — Haruhiro sentiu que poderia chorar—ou melhor, ele já estava derramando lágrimas. Mas não tinha tempo para limpá-las.

Haruhiro arregalou os olhos, encarando o ustrel. Vou observar vocĂȘ. Vou ver atravĂ©s de vocĂȘ.

O ustrel levantou o joelho esquerdo.

— É um chute voador! — Haruhiro gritou. — Yume!

— Miau! — Yume se encolheu como um rato de fossa e rolou, fazendo curvas rápidas para evitar o chute voador do ustrel. O ustrel aterrissou e depois baixou a postura. Ele havia se recuperado do dano na perna direita?

— O prĂłximo Ă© uma investida! — Haruhiro gritou. — Cuidado!

Mesmo enquanto dizia isso, Haruhiro queria retrucar para si mesmo, Sim, e como devemos tomar cuidado?

O ustrel começou a correr. Seus alvos eram Mary e Shihoru. Isso não era bom. Shihoru tinha acabado de ser curada. E se algo acontecesse com ela novamente? Mas Haruhiro não conseguia parar o ustrel. Não Haruhiro.

— Isso…! — Kuzaku se colocou no caminho. Parando na frente de Mary e Shihoru, ele estava pronto para um confronto direto com o ustrel, se necessĂĄrio. Claro, isso era arriscado. Incrivelmente arriscado. Arriscado demais, mas…

— É por isso que eu sou um tanque!

Ele estava certo. Enquanto corria, Haruhiro havia gritado silenciosamente para ele, Vai! Ele nĂŁo precisou dizer, porque Kuzaku fez isso de qualquer maneira. Ele bloqueou a investida do ustrel com seu escudo.

Então algo aterrorizante aconteceu. Ele se amassou. O escudo dele. Kuzaku avançou, como se não se importasse.

O ustrel continuou avançando também. A ponta da naginata que atravessou o escudo, deslizou pelo braço esquerdo de Kuzaku e perfurou seu ombro. Kuzaku girou sua espada longa no flanco do ustrel. Kuzaku, usando seu capacete, e o ustrel, com seu crùnio metålico, colidiram as cabeças.

Kuzaku nĂŁo saiu perdendo dessa colisĂŁo. Ele se manteve firme. Kuzaku tentou puxar sua espada longa, mas ela nĂŁo saĂ­a.

O ustrel agarrou o capacete de Kuzaku com a mão esquerda, balançando a naginata para trås com a direita.

NĂŁo vou deixar, pensou Haruhiro.

Haruhiro não estava apenas sentado, mordendo os dedos em antecipação nervosa enquanto observava. Ele estava correndo. E agora, ele estava ali. Bem ao lado do ustrel.

Haruhiro nĂŁo disse nada. Ele simplesmente agarrou o ustrel em silĂȘncio, envolvendo o braço direito do ustrel por trĂĄs. Ele havia guardado seu porrete, mas estava segurando a adaga na mĂŁo. Com um golpe invertido, cravou a adaga no ombro direito do ustrel. Ele esfaqueou e torceu, torceu e rasgou.

Houve um som agudo e estridente. Não foi um grito. Não, era o ranger de dentes. O ustrel espumava pela boca, rangendo os dentes de forma extremamente violenta e agitando o braço direito. Ele estava tentando sacudir Haruhiro para longe.

Como se eu fosse soltar!

Da Ășltima vez, Haruhiro havia sido jogado por um salto vertical, mas com a espada longa de Kuzaku cravada no flanco do ustrel, ele provavelmente nĂŁo conseguiria fazer isso agora.

Kuzaku soltou um grito de guerra, jogando seu corpo contra o ustrel e balançando sua espada longa em todas as direçÔes. Incapaz de suportar mais, o ustrel tirou a mão do capacete de Kuzaku por um momento e o socou. Seu punho esquerdo golpeou repetidamente o capacete de Kuzaku com um clangor.

Kuzaku soltou grunhidos estranhos—Fugh! Gwah! Nuh!—e parecia que ele estava sentindo muita dor, mas estava aguentando firme. No entanto, desse jeito, ele não duraria muito tempo.

Essa Ă© a sua deixa, nĂŁo Ă©?, Haruhiro pensou. Certo, cavaleiro das trevas?

— Leap Out! Seguido de—Hatred!

Ranta avançou pela esquerda do ustrel, golpeando sua espada longa contra o topo do crñnio metálico—não.

— É isso que vocĂȘ acha que vou fazer! — Ranta gritou. — Mas, na verdade, Ă© Impulso do Tirano!

NĂŁo, nĂŁo existe habilidade com esse nome, Haruhiro pensou. VocĂȘ acabou de inventar isso agora? Bem, de qualquer forma, nĂŁo Ă© muito eficaz.

Quando a espada de Ranta jĂĄ estava descendo diagonalmente, ele a puxou de volta, prĂłxima Ă s suas mĂŁos, e entĂŁo a balançou novamente quase horizontalmente. Ele nĂŁo estava mirando no topo do crĂąnio do ustrel—mas na boca. E, alĂ©m disso, Ranta nĂŁo usou a lĂąmina da espada—ele usou o lado plano da lĂąmina para acertar com força os dentes cerrados do ustrel.

Grash!

NĂŁo era uma voz, era a espada longa ricocheteando nos dentes do ustrel. De qualquer forma, os dentes dele nĂŁo se quebraram. QuĂŁo duros eram esses dentes? Mesmo assim, o ustrel recuou.

Talvez pensando, Esta Ă© a minha chance, Kuzaku puxou sua espada longa do flanco do ustrel. Ele deve ter esperado poder cravĂĄ-la mais algumas vezes.

Haruhiro entrou em pĂąnico. — VocĂȘ…! VocĂȘ Ă© estĂș—!

O ustrel imediatamente pulou.

Como vocĂȘ consegue pular tĂŁo alto? Isso nem faz sentido! Haruhiro queria protestar. Esse foi o quĂŁo incrĂ­vel aquele salto foi. O corpo de Haruhiro foi lançado para cima.

O impacto quando aterrissarmos vai ser terrĂ­vel, ele pensou. Ele tentou se preparar para isso, mas foi ainda pior do que ele imaginava.

Não parecia que ele havia caído, mas sim que havia sido lançado para cima. Seu cérebro chacoalhou dentro do crùnio, e ele ficou desorientado. Mesmo nesse estado, Haruhiro não permitiu que o abalasse. No entanto, ele talvez não conseguisse manter isso por muito mais tempo.

O ustrel começou a se debater descontroladamente. Além disso, ele estava correndo para todos os lados.

Não då. Não consigo mais segurar, Haruhiro pensou enquanto finalmente era lançado para o ar.

Vou morrer?, ele se perguntou por um momento. NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. Eu nĂŁo vou deixar isso acontecer.

Eram em momentos como esse que as inĂșmeras vezes que ele havia sido lançado por Barbara-sensei se mostravam Ășteis. Haruhiro se preparou para a queda. Enquanto se levantava, o ustrel quase avançou contra ele e tentou jogĂĄ-lo novamente, mas, de alguma forma, ele conseguiu evitar isso.

Haruhiro gritou — Afastem-se! Afastem-se! — enquanto corria. Ele estava dolorido em todo o corpo, mas por agora precisava colocar alguma distñncia entre o ustrel e ele.

Eventualmente, o ustrel parou de se mover.

Havia o som de uma respiração pesada. O ustrel estava se apoiando na naginata, com os ombros subindo e descendo a cada respiração.

Parece que até mesmo o poderoso ustrel se cansa, pensou Haruhiro. Não. Isso não é tudo.

A vestimenta enegrecida do ustrel estava rasgada e dilacerada, revelando a pele marrom e os ferimentos por baixo. Um lĂ­quido viscoso que parecia Ăłleo estragado escorria desses ferimentos. Aquilo era o sangue do ustrel? Quando olhou para baixo, Haruhiro viu que sua adaga e seu corpo inteiro estavam cobertos naquele lĂ­quido.

NĂŁo era apenas exaustĂŁo. Os ataques de Haruhiro e da party estavam realmente surtindo efeito.

Nossa formação estĂĄ quebrada, Haruhiro pensou. Tecnicamente estamos cercando o ustrel, mas isso Ă© apenas coincidĂȘncia. Mary e Shihoru sĂŁo as Ășnicas que permaneceram juntas, enquanto o resto de nĂłs se espalhou.

EntĂŁo… devemos correr?

No momento em que essa opção cruzou sua mente, o ustrel levantou o joelho esquerdo. Haruhiro gritou:

— É um chute voador! Ranta!

Em vez de responder, Ranta usou Leap Out para desviar do ustrel que avançava.

No momento em que o ustrel aterrissar, ele vai virar para a direita e levantar o joelho esquerdo—ou nĂŁo, Haruhiro pensou. SerĂĄ que ele vai abaixar a postura e investir, entĂŁo? NĂŁo. Ele nĂŁo estĂĄ se movendo. O ustrel estava ofegante, suas respiraçÔes estavam pesadas e difĂ­ceis.

SerĂĄ que ele estĂĄ bastante exausto? Haruhiro se perguntou. Devemos atacĂĄ-lo todos juntos? É uma decisĂŁo difĂ­cil. Sinto que o ustrel pode revelar reservas ocultas de força. AlĂ©m disso, nĂŁo temos mais Sacrament.

Nos meros dois a trĂȘs segundos em que Haruhiro hesitou, o ustrel recuperou o fĂŽlego mais uma vez.

Ele estava investindo. Na direção de Haruhiro.

Haruhiro soltou um Oh…

Dessa vez, a naginata que normalmente era projetada para fora durante as investidas estava, em vez disso, retraĂ­da.

Serå que ele vai fazer um balanço? Haruhiro pensou freneticamente. Também pode ser uma estocada com o pomo. O que devo fazer? Difícil decidir. Eu tenho que ir. Ir para onde?

Vamos nessa. Haruhiro se dirigia para o ustrel. A naginata. Ela estå vindo. Bem antes disso, ou exatamente ao mesmo tempo, ele deslizou. O chão era basicamente rocha nua, então ele não conseguiu deslizar muito bem. Apesar disso, ele conseguiu chegar até os pés do ustrel.

Haruhiro conseguiu agarrar as canelas esquerda e direita do ustrel, ou melhor, ele colidiu com elas. Quanto ao que aconteceu depois disso, ele nĂŁo foi capaz de descobrir imediatamente.

A prĂłxima coisa que soube foi que estava rolando pelo chĂŁo.

Meus pĂ©s, ou minhas pernas como um todo, doem tanto que parecem quebrados—ou serĂĄ que nĂŁo? Na verdade, nĂŁo dĂłi, mas o principal Ă© que nĂŁo consigo movĂȘ-los. Eles nĂŁo se mexem e mal consigo senti-los. CadĂȘ o ustrel? Ele estĂĄ lĂĄ, claro, mas ele caiu.

Ranta e Kuzaku correram na direção do ustrel, tentando aproveitar a chance para acertå-lo enquanto podiam. Mas o ustrel estava tentando se levantar. Quem seria mais råpido?

Foi o ustrel. Usando sua naginata como apoio, ele se levantou. Ranta e Kuzaku conseguiram desferir um golpe cada, mas o ustrel não caiu. Além disso, ele balançou sua naginata de maneira selvagem, forçando Ranta e Kuzaku a recuarem.

Yume gritou — Toma essa! — e acertou uma flecha no ombro esquerdo do ustrel, mas ele nem se mexeu. Enquanto isso, Haruhiro não conseguia se mover.

O que estĂĄ acontecendo? Isso é—

Enquanto começava a se perguntar, Mary e Shihoru correram até ele. Sem lhe dar chance de protestar, as duas o arrastaram para longe.

Sou grato e tudo, mas nĂŁo sou um objeto… Haruhiro pensou. Acho que nĂŁo posso culpĂĄ-las.

— M-Mary, c-como estĂĄ sua magia…? — ele perguntou, quase desmaiando.

— Posso usar Cure mais algumas vezes! — Mary respondeu imediatamente.

Talvez devĂȘssemos fugir, afinal, Haruhiro pensou. Mas como…?

— Ó luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ… Cure!

Quando Mary o tratou com magia, Haruhiro logo voltou a sentir suas pernas. Graças a isso, a dor tambĂ©m voltou. Era intensa o suficiente para que ele nĂŁo conseguisse ignorĂĄ-la, entĂŁo provavelmente era um ferimento bastante sĂ©rio, mas Mary iria tratar dele—ou deveria.

Ela vai curĂĄ-lo… certo? Enquanto Haruhiro suportava a dor, Kuzaku foi arremessado pelo avanço do ustrel, e Ranta se esquivou, conseguindo um golpe superficial enquanto o ustrel passava. O ustrel parou a uma certa distĂąncia deles, ofegando enquanto fazia uma pausa.

Yume gritou — Miau! — e atirou novamente no ustrel.

Kuzaku estĂĄ bem? Ele conseguiu se levantar sozinho. O ustrel estava definitivamente ficando mais fraco.

— Podemos derrotá-lo — Haruhiro assentiu.

É isso mesmo. Podemos fazer isso. Mas não podemos nos deixar levar. Não podemos nos dar ao luxo de ser otimistas. Precisamos evitar acidentes. Em vez de tentar derrubá-lo de uma vez, precisamos desgastá-lo gradualmente, de forma dura e impiedosa.

O ustrel começou a se mover. Kuzaku gritou enquanto era derrubado, enquanto Ranta se esquivou como antes, conseguindo outro golpe, mesmo que fosse leve. O ustrel parou logo depois disso e, enquanto ofegava, Yume disparou outra flecha nele.

Infelizmente, a flecha errou o alvo, mas Ranta e Yume sabiam exatamente o que deveriam fazer.

Isso mesmo! Haruhiro os incentivou mentalmente.

A luz desapareceu da mão de Mary, que estava levantada na direção de Haruhiro. O tratamento estava concluído.

Okay. Tenho que fazer isso, entĂŁo vou fazer. Eu vou fazer isso, Haruhiro disse a si mesmo, levantando-se com um salto.

— Vamos derrubá-lo! — Haruhiro gritou. — Foquem em desviar, mas contra-ataquem quando acharem que podem! Ranta, Yume, continuem assim! Kuzaku, pare de ser acertado tanto! Observe bem os movimentos dele! Já deveria ter entendido isso! O inimigo está ficando bem fraco!

— Gwah! — Kuzaku gritou.

Momentos apĂłs Haruhiro terminar de falar, Kuzaku nĂŁo conseguiu evitar o ataque do ustrel e foi arremessado novamente.

Ranta usou Leap Out para saltar na diagonal, passando pelo ustrel e conseguindo um corte nele, soltando um grito de satisfação. O ustrel continuou avançando, mas parou de repente.

Yume gritou — Miau! — e disparou mais outra flecha, desta vez perfurando as costas do ustrel.

Kuzaku estava tentando se levantar, mas estava tendo dificuldades.

— Mary, ajude o Kuzaku! — Haruhiro chamou. — Shihoru, fique ao lado da Mary!

— Okay! — Mary respondeu.

— Certo! — Shihoru acrescentou.

Haruhiro correu com toda a sua força, escolhendo deliberadamente parar na frente do ustrel. Ele respirou fundo. O ustrel levantou seu joelho esquerdo bem alto.

Um chute voador, hein? Venha.

Ele veio.

Comparado a como as coisas estavam no inĂ­cio, a velocidade do ustrel havia caĂ­do consideravelmente. Ele nĂŁo era mais assustador. Haruhiro manteve a calma, desviando do chute voador do ustrel. Quando se virou, o ustrel tentou desferir um golpe com a naginata.

Eu consigo ver isso também, Haruhiro pensou. Estå lento. Muito lento. Talvez eu possa me aproximar? Não, melhor não arriscar.

Enquanto Haruhiro desviava facilmente e se esquivava da naginata, Ranta gritou — Toma essa! — e tentou acertar o ustrel. O ustrel bloqueou com o braço esquerdo, mas o contra-ataque foi fraco. Ranta manteve sua posição, sem ser arremessado para longe.

— Brilho! — Ranta gritou, e se seus olhos tivessem a função de brilhar, eles sem dĂșvida teriam brilhado magnificamente. Claro, eles nĂŁo tinham essa função. — Execução do DemĂŽnio do Inferno!

De novo, essas habilidades nĂŁo existe, Haruhiro pensou.

Tudo o que Ranta fez foi usar sua resistĂȘncia natural para balançar sua espada longa de forma errĂĄtica. Era sĂł isso. NĂŁo havia como aquilo funcionar contra o ustrel. Quando o ustrel tinha mais energia, ele teria desviado a espada de Ranta, e isso teria sido o fim. Mas agora, as coisas eram diferentes.

O ustrel usou o braço esquerdo e a naginata, que ele segurava mais próximo ao cabo, para bloquear a espada longa de Ranta. Ele bloqueou, e bloqueou novamente. Ele estava preso na defensiva. Ranta estava empurrando o ustrel para trås. Ele o estava encurralando.

NĂŁo adianta dizer para Ranta nĂŁo ficar arrogante agora, Haruhiro pensou. Afinal, ele Ă© o Ranta. Nesse caso, vou fazer algo antes que o Ranta perca o fĂŽlego!

Haruhiro rapidamente se posicionou atrĂĄs do ustrel. Quando estava encarando as costas de um inimigo assim, era estranhamente reconfortante. O ustrel tinha um dorso largo. Com algumas flechas cravadas nele. TrĂȘs, para ser exato.

Ali, talvez, Haruhiro pensou enquanto escolhia um alvo. Ustrel ou nĂŁo, ele ainda era uma criatura humanoide, entĂŁo, mesmo que Haruhiro nĂŁo pudesse ver a linha, ele mais ou menos sabia onde atacar.

Se algo parece um ponto vital, vou confiar que Ă©, Haruhiro pensou. Se eu estiver errado, bem, lidarei com isso quando chegar a hora. Backstab. Eu consigo.

Aproximando-se suavemente, ele cravou a adaga no ponto que havia escolhido. Não parecia ter sido um golpe ruim, e o corpo inteiro do ustrel tremeu por um momento, então talvez tenha sido—não. Haruhiro pulou para longe do ustrel imediatamente.

— Ohgoagogogogoahgoahohgaohgaohgoga!

— O quĂȘ…? — Ranta gritou.

A espada que Ranta usava para bloquear a naginata do ustrel foi arremessada para longe. O jeito que o ustrel se movia mudou de repente. Se fosse para descrever com não uma, mas duas palavras, seria violento e erråtico. Além disso, ele parou de ranger os dentes e começou a uivar.

— Uwahhhhhhhhhh?! — Ranta gritou. — Haruhiro, Maldito, o que vocĂȘ fez?!

O ustrel começou a perseguir o agora desarmado Ranta enquanto uivava loucamente.

Ranta usou uma mistura de Leap Out e Exhaust para fugir. Ele continuava correndo, ocasionalmente recebendo um arranhĂŁo da naginata do ustrel. De alguma forma, ele estava conseguindo escapar com vida por enquanto.

Foi o Backstab. Sem dĂșvida. Esse foi o efeito daquele Backstab. AlguĂ©m jĂĄ havia dito que um animal ferido Ă© o mais perigoso, e o ustrel estava encurralado. Ele estava usando suas Ășltimas reservas de força para tentar matar seus inimigos. Em outras palavras, Haruhiro e a party. Se ele nĂŁo conseguisse, o ustrel estaria acabado.

Este era o momento em que a batalha seria decidida.

— Ele só está adiando o inevitável! — Haruhiro gritou. — Vamos resistir! Aguentem firme e desgastem ele!

— Miau! — Yume disparou uma flecha na bunda do ustrel.

Ranta gritou. Ele provavelmente estava tentando chegar até sua espada longa, mas simplesmente não conseguia.

— M-M-M-Me ajudem, seus idiotas!

— Oh, sim, estou de volta! — Kuzaku estava de pĂ© novamente depois que Mary usou Cure nele.

Bem, isso Ă© bom e tudo, mas ele estĂĄ parecendo estranhamente agitado, Haruhiro pensou. SerĂĄ que ele estĂĄ bem?

Bem ou não, Kuzaku investiu contra o flanco do ustrel. Quando o ustrel balançou sua naginata em sua direção, Kuzaku brandiu sua espada longa com as duas mãos, bloqueando-a com um som estridente e depois empurrando-a de volta.

Kuzaku gritou: — Ah, simmmmmm!

— Ogoagoahhhh! — o ustrel uivou, batendo sua naginata em Kuzaku. Ele o atingiu com ela repetidas vezes.

Kuzaku nĂŁo cedeu, gritando de volta: — Gahhh! Wahhh! Zahhh! — enquanto desviava a naginata com sua espada longa. Por enquanto, ele estava conseguindo desviar, mas se errasse uma Ășnica vez, seria o fim.

Honestamente, estou com medo de assistir, Haruhiro pensou. Mas se eu gritar para ele sem cuidado, posso acabar atrapalhando. Agora, a concentração do Kuzaku estå insana. Não quero quebrar isso.

Ranta pegou sua própria espada longa. — Nos encontramos novamente, minha Excalibur!

Excalibur? Haruhiro pensou enquanto se movia para ficar atrĂĄs do ustrel.

Yume estava preparando uma flecha, mas com Kuzaku e o ustrel travados em um combate feroz, ela nĂŁo conseguia alinhar o tiro.

Os olhos de Haruhiro e Mary se encontraram. Mary imediatamente levantou dois dedos. Dois Cure sobrando, isso significava.

Shihoru deu um passo Ă  frente.

— Jess, yeen, sark, fram, dart! — ela recitou, desenhando sigilos elementais com seu cajado.

Lightning. O trovão ribombou, e um raio de eletricidade perfurou o ustrel. Seu corpo estava convulsionando, e parecia que ele ia cair. No entanto, ele conseguiu se manter em pé, mas Kuzaku aproveitou essa oportunidade para desferir um contra-ataque.

— Gah! Gah! Gahhh!

Seus golpes eram desordenados, e ele claramente estava se aprofundando demais. Ainda assim, deu certo. Quando a espada de Kuzaku empurrou e a naginata do ustrel pressionou de volta, era como se seus punhos tivessem se entrelaçado. Eles não estavam realmente entrelaçados, porque uma naginata não tem guarda-mão, mas parecia que estavam. O cabo da espada longa de Kuzaku e o punho do ustrel, que segurava a naginata, estavam se chocando um contra o outro. De qualquer forma, eles estavam em um impasse.

Agora é nossa chance! era algo que Haruhiro não precisava dizer a ninguém.

— Miau! — Yume disparou uma flecha, atingindo o ombro direito do ustrel.

— Leap Out, seguido deeeee—Golpe satñnico! Foi um nome impressionante e tal, mas tudo o que Ranta fez foi pular no ustrel e cortar seu ombro esquerdo.

Haruhiro pulou nas costas do ustrel. O capacete metålico em forma de crùnio cobria o pescoço também, mas Haruhiro sabia que o ustrel não tinha armadura cobrindo o peito, as costas, o tronco ou os ombros. Haruhiro enfiou sua adaga logo abaixo da borda daquele capacete. Ele o apunhalou com determinação e então recuou imediatamente.

— Gugohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! — o ustrel gritou.

— Merda?! — Kuzaku foi empurrado para trás e caiu de costas.

Ah, droga.

O ustrel não tentou atacar Kuzaku enquanto ele estava caído. Ele tropeçou com seu imenso corpo, balançando de maneira inståvel, enquanto apoiava o cabo da naginata no chão.

SerĂĄ que conseguimos? Haruhiro pensou. NĂŁo, parece que ainda nĂŁo.

— Ogoh! — o ustrel levantou sua naginata, girando seu corpo.

— Whoa, recuem! — Haruhiro saltou para trás.

Kuzaku gritou, rolando e se arrastando para escapar. Ranta também recuou. Yume, Mary e Shihoru jå estavam à distùncia, então estavam seguras.

O ustrel girou sete vezes, depois se apoiou na naginata, exausto. Eles observaram por um tempo, mas ele nĂŁo mostrou sinais de movimento.

Provavelmente estĂĄ descansando, Haruhiro pensou. Nada bom.

— Ataquem! — ele gritou.

Assim que todos correram para atacar, o ustrel começou a girar novamente.

Quando eles recuaram apressadamente, o ustrel ficou sem forças após girar sete vezes e se apoiou na naginata.

NĂŁo vamos deixar vocĂȘ descansar mais, Haruhiro pensou ferozmente. Ele gritou: — Vamos!

Ranta e Kuzaku conseguiram acertar alguns golpes, Yume disparou uma flecha, e o próprio Haruhiro desferiu um golpe forte com seu porrete. Nesse momento, o ustrel começou a girar novamente, então eles recuaram. Dessa vez, ele não conseguiu girar sete vezes, apenas seis. Parecia que isso estava sendo bastante difícil para o ustrel. Nesse ponto, Haruhiro nem precisava mais dar o sinal.

Haruhiro e os demais atacavam, cada um desferindo um ou dois golpes, e entĂŁo o ustrel iniciava seu grande giro. Eles recuavam, contando o nĂșmero de rotaçÔes. Um, dois, trĂȘs, quatro, cinco, seis giros. Um trabalho incessante. NĂŁo se permitiam perder tempo pensando em coisas desnecessĂĄrias antes de atacar novamente.

Eles cortavam, batiam, atiravam. O ustrel girava, forçando Haruhiro e os outros a se afastarem temporariamente.

TrĂȘs, quatro, cinco, e ele parecia prestes a perder o controle no sexto giro.

Fazendo questĂŁo de nĂŁo pensar Podemos fazer isso, ou SĂł mais um pouco, eles se aproximavam, quase mecĂąnicos em seus ataques. Eles atacavam e atacavam.

O ustrel uivou, entĂŁo todos recuaram e se prepararam, mas o grande giro nĂŁo veio.

Haruhiro e Ranta trocaram olhares.

Ranta queria avançar. Haruhiro rapidamente balançou a cabeça. Ele não iria agir de forma imprudente depois de chegar tão longe. Ele temperou cautela com ainda mais cautela. Não importava o que acontecesse, ele não iria deixar ninguém morrer ali. Essa era sua principal prioridade. Tudo bem deixar algumas oportunidades passarem. Ele só teria que aproveitar a próxima.

Haruhiro olhou para o ustrel. Sentiu vontade de piscar, mas resistiu. O ustrel estava colocando mais peso na naginata do que em suas prĂłprias pernas.

A boca do ustrel se abriu, emitindo um som sibilante, enquanto um lĂ­quido espesso e escuro escorria. Ele parecia tĂŁo pequeno, de alguma forma. O ustrel havia sido tĂŁo grande, mas agora parecia tĂŁo pequeno.

Primeiro, seus joelhos cederam. O ustrel prendeu a naginata entre as pernas, ficando em uma posição sentada, e então a måscara metålica em forma de crùnio se virou para eles. Uma língua laranja caiu para fora, e um som de gemido escapou, depois cessou. Depois disso, o ustrel não se moveu mais.

Haruhiro usou Sneaking para se aproximar do ustrel por trås. Quando estava a cerca de um metro e meio de distùncia, o capacete metålico em forma de crùnio de repente se virou na direção de Haruhiro, e ele pensou que seu coração poderia parar.

Caralho, ele pensou. Foi bem assustador. Ele vai vir? Vai mesmo? Okay. Se ele vier, eu consigo fugir. Estou preparado. Sem problemas. Eu dou conta disso. Mas nĂŁo vejo nenhum sinal de que o ustrel esteja respirando.

Haruhiro mordeu o lábio. Ele respirou fundo e curto. — Finalizem ele!

No momento em que ele gritou, Ranta, Kuzaku e Yume correram em direção ao ustrel. Depois disso, foi só espadas longas, facão, e mais cortes, esmagando e espancando o ustrel.

Haruhiro também participou. Mary e Shihoru não.

Mesmo enquanto balançavam suas armas com toda a força, Haruhiro—não, todos, incluindo Haruhiro—estavam perfeitamente calmos. O objetivo deles era claro. Terminar com o ustrel. Erradicar completamente a ameaça que ele representava.

Mesmo quando o ustrel caiu no chão, eles continuaram por um tempo. Certamente não era uma sensação boa. Mas era necessário. Parar para verificar o pulso, para se certificar de que ele estava morto—não tinham tempo para isso. Eles tinham que matá-lo completamente.

Uma vez que o ustrel estava totalmente destruĂ­do, todos pararam.

Depois de tudo isso, estou exausto. NĂŁo tenho vontade de falar, Haruhiro pensou. Se eu disser uma Ășnica palavra, parece que minha alma pode escapar junto com ela. Eu morreria se minha alma escapasse assim.

— …Conseguimos. — Ranta exalou profundamente, inclinando-se para trĂĄs e balançando os braços. — Conseguimos! Conseguimos, maldito! Matamos aquele ustrel de vez! VocĂȘ gosta disso, seu pedaço de lixo?!

— Isso foi tenso… — Yume desabou no chĂŁo. Ela estava encharcada de suor, seu cabelo grudado no rosto. Ela parecia exausta. Estava tĂŁo ruim que vocĂȘ podia se perguntar quantos quilos ela tinha perdido sĂł com essa luta. — Chega disso…

— Eu… — Kuzaku estava agachado, com a cabeça baixa. — Eu… pensei… que ia… morrer…

— Haru. — Mary sinalizou para ele com os olhos. Ela fez um gesto para indicar que ela e Shihoru ficariam de vigia.

Haruhiro assentiu, como quem diz, Isso vai ajudar. Sério.

Isso foi loucura, ele pensou. EstĂĄvamos caminhando sobre gelo fino ali. Um gelo muito fino. Isso parece uma vitĂłria? Nem um pouco. Isso Ă© uma vitĂłria? NĂŁo Ă© uma derrota. Isso eu posso dizer com certeza. NĂŁo, o ustrel estĂĄ morto ali, entĂŁo deve ser uma vitĂłria. E nĂŁo por uma grande margem, tambĂ©m. Se tivĂ©ssemos que fazer isso dez vezes, nĂŁo posso dizer que vencerĂ­amos todas, mas provavelmente ganharĂ­amos seis delas. Houve vĂĄrias crises, mas conseguimos superar de alguma forma, e faremos ainda melhor na prĂłxima vez. Se assumirmos que, desta vez, vencemos uma batalha que tĂ­nhamos sessenta por cento de chance de vencer, da prĂłxima vez, deverĂ­amos conseguir aumentar nossas chances para setenta por cento. Depois disso, serĂĄ oitenta. Depois noventa. À medida que repetimos o processo, podemos chegar ao ponto em que nunca perderemos.

ExperiĂȘncia. Isso era o que significava adquirir experiĂȘncia. E a experiĂȘncia adquirida na luta contra o ustrel poderia ser usada em batalhas contra outros inimigos.

Na verdade, se eles não tivessem enfrentado a luta até a morte em Deadhead, teriam entrado pùnico apenas ao encontrarem o ustrel, o que facilmente poderia levå-los ao extermínio. Na verdade, não poderia; teria definitivamente causado.

Ficar mais forte nĂŁo era apenas aprender habilidades, adquirir novos equipamentos, construir resistĂȘncia e fortalecer os mĂșsculos—era mais do que isso.

Eles precisavam passar por isso. Precisavam usar suas próprias cabeças e corpos para aprender o terror, a dureza, as dores e as dificuldades. Depois, tinham que superå-las.

É verdade, Haruhiro e seus companheiros nĂŁo eram fortes. NĂŁo importava o quanto treinassem, Haruhiro, por exemplo, nunca poderia se tornar como Renji. No entanto, a cada experiĂȘncia como essa, eles talvez nĂŁo se aproximassem da Equipe Renji, mas Haruhiro e a party poderiam crescer Ă  sua prĂłpria maneira. Se tivessem experiĂȘncias diferentes das de Renji e sua party, ganhariam conhecimentos diferentes, especialidades diferentes e expandiriam suas habilidades de forma distinta. Mesmo que fossem inferiores noventa e nove por cento do tempo, sĂł uma vez, eles nĂŁo perderiam. Era totalmente possĂ­vel que isso acontecesse.

Potencial.

Ele estĂĄ lĂĄ.

Ainda temos potencial.

Moguzo. Mesmo agora que te perdemos, ainda hå coisas que podemos fazer. Muitas, na verdade. Se for o caso, pode até haver coisas que teremos que fazer só porque te perdemos.

Se vocĂȘ pudesse ter ficado conosco para sempre, isso teria sido o melhor. Mas sĂł porque te perdemos, nĂŁo significa que estĂĄ tudo acabado. Me sinto mal por vocĂȘ, e me sinto muito triste, muito solitĂĄrio ao dizer isso, mas precisamos seguir em frente. Podemos continuar avançando.

Haruhiro colocou a mĂŁo no ombro de Yume. — Bom trabalho. Muitas das suas flechas acertaram o alvo hoje. Depois de todas as vezes que vocĂȘ falou sobre como era ruim nisso, vocĂȘ foi incrĂ­vel.

— …É. — Yume olhou para Haruhiro, segurando sua mĂŁo com força. NĂŁo era sĂł suor. Ela tambĂ©m tinha lĂĄgrimas nos olhos. — Yume, ela nĂŁo podia continuar dizendo que era ruim nisso. Yume precisa fazer as coisas que Yume pode fazer, sabe? NĂŁo Ă© sobre precisar se esforçar—Yume quer se esforçar.

— Yume, eu sei que vocĂȘ estĂĄ se esforçando — disse Haruhiro.

— Bem, sim, mas Yume pode fazer muito, muito mais.

— Eu diria que estĂĄ tudo bem se vocĂȘ for aos poucos, nĂŁo acha? — disse Haruhiro. — VocĂȘ nĂŁo precisa fazer tudo de uma vez. Temos bastante tempo para trabalhar nisso.

— Talvez vocĂȘ esteja certo. — Yume franziu a testa e mordeu o lĂĄbio.

Se Haruhiro e a party continuassem assim, provavelmente sobreviveriam até o amanhã de alguma forma, mas isso não era verdade para todos.

O mundo nĂŁo era nem igual nem justo. AlguĂ©m jĂĄ havia dito que a Ășnica coisa que era igual para todos era o tempo. Mas isso nĂŁo era verdade. Embora o tempo possa fluir igualmente para todos, o nosso pode ser facilmente tirado de nĂłs. Isso era algo que Haruhiro e os outros nĂŁo precisavam lembrar, porque sabiam muito bem.

Haruhiro apertou firmemente o ombro de Yume e, em seguida, soltou-o. Não tinha nada a dizer a Ranta. Deu-lhe um tapa nas costas, e Ranta respondeu com um “Heh”.

— Shihoru. — Quando Haruhiro a chamou, Shihoru encolheu o pescoço, parecendo culpada. Não, eu ainda nem disse nada. — Seu tempo de conjuração foi muito bom. Isso nos ajudou bastante.

— Ainda hĂĄ muito espaço para melhorar… — disse Shihoru. — Na verdade, ainda nĂŁo tenho poder de fogo suficiente…

Embora parecesse tĂ­mida, Shihoru tinha a coragem de enfrentar suas prĂłprias fraquezas. Isso significava que, mesmo sendo fraca, ela poderia se tornar mais forte. No caso de Shihoru, provavelmente seria melhor incentivĂĄ-la a melhorar do que consolĂĄ-la.

— Sim — disse Haruhiro. — Do jeito que as coisas estĂŁo, sua magia nĂŁo pode ser o golpe decisivo contra inimigos mais poderosos. Acho que vocĂȘ poderia buscar isso como um objetivo.

— Sim — ela respondeu timidamente.

— NĂŁo precisa ser tĂŁo submissa…

— D-Desculpe…

Shihoru baixou a cabeça, e Mary deu-lhe um tapinha nas costas.

É meio agradĂĄvel vĂȘ-las assim, Haruhiro pensou. NĂŁo estou com ciĂșmes nem nada. Quando vejo garotas que sĂŁo prĂłximas, isso me acalma de uma forma estranha. Quando Ă© um garoto e uma garota, isso Ă© mais constrangedor, porĂ©m.

Mary estava olhando para ele, entĂŁo Haruhiro lhe deu um sorriso. Mary sorriu de volta, sĂł um pouco.

Isso não é ruim também. Sinto que Mary e eu realmente conseguimos nos comunicar. Apenas como colegas na mesma equipe, mas ainda assim. Quando se trata de algo além disso, ou diferente, não tenho tanta certeza. Não sinto que poderíamos. Não que precisemos. Afinal, somos colegas na mesma equipe.

Haruhiro se virou para Kuzaku e lhe ofereceu a mĂŁo. — VocĂȘ vai ter que comprar um escudo novo, hein.

— …Acho que sim. — Kuzaku estendeu a mĂŁo, Haruhiro a segurou pelo pulso e o puxou para cima.

Ainda assim, esse cara Ă© grande, hein? Haruhiro pensou. Quando vocĂȘ Ă© alto e magro, isso Ă© uma verdadeira vantagem. Mesmo que seu rosto seja bem normal, vocĂȘ ainda parece relativamente legal.

— Diferente de antes, vocĂȘ realmente fez seu trabalho como tanque — disse Haruhiro. — Vou exigir mais e mais de vocĂȘ a partir de agora, entĂŁo prepare-se para isso.

— Eu vou fazer — disse Kuzaku. — O que for preciso. Para que eu nĂŁo morra—na verdade, para que eu nĂŁo deixe mais ninguĂ©m morrer tambĂ©m.

— Estou contando com vocĂȘ. — Haruhiro deu uma cutucada nas costelas de Kuzaku.

Talvez eu devesse criar uma regra contra romances dentro da party, ele pensou por um momento. Se as pessoas dentro da party começarem a namorar ou terminarem, isso pode causar muitos problemas, então talvez seja uma boa ideia.

Com um olhar para os restos do ustrel, ele olhou para a estreita fenda de céu visível do interior do cùnion chamado Buraco das Maravilhas.

Aqui, neste Buraco das Maravilhas, vamos ficar mais fortes, Haruhiro decidiu. Vamos acumular uma tonelada de experiĂȘncia, ganhar cada vez mais força e—essa parte me faria ser alvo de risos, entĂŁo nunca vou dizer isso em voz alta—mas um dia, vamos chegar ao ponto de podermos ficar lado a lado com o Soma. Eu juro que vamos.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui
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