×

Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 4 – Volume 15

Home/Light Novel / Hai to Gensou no Grimgar / Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 4 – Volume 15
 

Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – Volume 15:
[Capítulo 04: A Escuridão é Fria e Gentil]


A primeira vez.

Quando recobrou a consciência, Mary tinha apenas as roupas que vestia no corpo e nenhuma lembrança além do próprio nome.

Ela não estava sozinha. Havia um grupo de onze pessoas e, entre elas, com quem acabou agindo em conjunto foram Hayashi, Michiki, Ogu e Mutsumi.

Embora não se lembrasse com clareza, Hiyomu apareceu de repente e os conduziu até Altana. Isso deve ter acontecido diante da Torre Proibida, já que Mary não tinha nenhuma lembrança de Hiyomu abaixo dela ou dentro da torre.

Enquanto Mary contava a história, Haruhiro percebeu algo estranho. Por algum motivo, os detalhes do interior da torre e da área abaixo dela estavam nebulosos. Ele confirmou com Kuzaku, Shihoru e Setora, e era o mesmo para todos.

Conforme Mary explicava, as lembranças voltavam, como um: “Ah, sim, era assim mesmo”.

Mas, quando ele tentava recordar sozinho os detalhes mais específicos daquele lugar, simplesmente não conseguia. As conversas que tivera dentro e abaixo da torre eram apenas um borrão.

Diante disso, Setora sugeriu: — Talvez tenhamos sido drogados.

De acordo com ela, embora não se lembrasse dos tipos específicos, secreções de certas plantas e animais podiam causar efeitos como alucinações, hipnose e confusão mental. Não seria estranho que alguma delas provocasse perda de memória e desorientação.

Seja como for, Mary e seu grupo foram levados a Altana receberam uma proposta: dinheiro suficiente para cobrir suas despesas de sobrevivência, desde que se tornassem soldados voluntários. Sem entender o que estava acontecendo, aceitaram para conseguir viver.

Apesar de terem chegado em outro momento, Haruhiro e os demais aparentemente haviam se tornado soldados voluntários seguindo um caminho muito parecido.

Havia centenas de soldados voluntários como eles. Uma parte morreu, teve os corpos queimados até virar cinzas e foi enterrada sob as sepulturas espalhadas pela colina.

— É meio inacreditável, né? — disse Kuzaku, suspirando.

Por “inacreditável”, ele provavelmente queria dizer “terrível”.

Hiyomu havia falado sobre mudar de lado e se tornar quem usa os outros.

Em outras palavras, Haruhiro e os demais, que tiveram as memórias roubadas, estavam sendo usados desde o começo. Isso significava que serem empurrados para virar soldados voluntários fazia parte do plano?

Quem estava por trás de tudo isso? Os figurões do Reino de Arabakia? O mestre de Hiyomu? Ou alguém diferente, puxando as cordas nas sombras?

Se tivessem obedecido Hiyomu, talvez descobrissem. Agora, era tarde demais.

Além disso, Hiyomu exigiu obediência, não parceria nem cooperação. Ela tinha vantagem total. Não era uma troca justa. Era razoável pensar que, mesmo se tivessem aceitado, ela ainda assim teria se aproveitado deles.

Haruhiro queria acreditar que isso tornava aceitável o rumo que as coisas tomaram, mas havia tão pouco de positivo na situação que ele não conseguia se sentir assim.

Eles seguiram mais ao norte pela floresta.

Depois de atravessarem aquele bosque que não era tão grande assim, deveriam encontrar uma fortaleza imponente chamada Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta, que, em teoria, era guardada pelo Reino de Arabakia. Altana havia caído nas mãos do inimigo, mas precisavam verificar o que havia acontecido com essa fortaleza também.

Quando saíram da floresta, avistaram à frente uma construção que claramente parecia uma fortaleza.

No campo árido ao redor, havia arbustos espalhados, além de madeira cortada e blocos de pedra extraídos. Mas não era só isso.

Torres de vigia estavam espalhadas pelo terreno. Ao redor de cada uma havia várias tendas. Algumas possuíam cercas.

Havia figuras sobre algumas torres e cercas.

Não. Não eram pessoas.

Haruhiro e o grupo se esconderam atrás de pilhas de madeira e pedra, observando o acampamento à distância. À primeira vista pareciam humanos, mas claramente não eram.

Eles eram talvez um pouco maiores que humanos. O cabelo tinha um tom branco muito vivo, mas provavelmente não por causa da idade. A pele parecia ser esverdeada.

— Orcs… — disse Mary.

Infelizmente, Haruhiro não se lembrava disso, mas a Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta já havia sido ocupada por orcs no passado. O Exército da Fronteira do Reino de Arabakia, junto com os soldados voluntários, atacou e retomou o local. Inacreditavelmente, Haruhiro e seu grupo haviam participado daquela batalha e, mais ainda, tinham dado uma contribuição decisiva.

Na época, Kuzaku fazia parte de outro grupo. Ele tinha outros companheiros.

Porém, Kuzaku os perdeu todos naquela batalha.

Um dos companheiros de Haruhiro também morreu ali.

Ele não se lembrava de nada disso, mas aparentemente aconteceu.

Eles venceram a batalha.

Os soldados voluntários receberam uma grande quantia em dinheiro como recompensa. Ainda assim, para o grupo de Haruhiro, aquilo custou muita dor.

O Reino de Arabakia conquistou a Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta.

Será que agora ela havia sido retomada pelo inimigo?

— Altana foi ocupada pelos inimigos, então isso não deveria nos surpreender — disse Setora, tão calma como sempre. — O Reino de Arabakia tinha alguma outra base além de Altana e dessa fortaleza?

— A gente devia ter pego aquele mapa no segundo andar da Torre Proibida… — Mary começou a desenhar algo parecido com um mapa no chão. — Se isso aqui é Altana…

Ao norte de Altana se estendia uma vasta planície, chamada Planícies dos Ventos Rápidos.

No sudoeste das Planícies dos Ventos Rápidos, cerca de trinta quilômetros a oeste-noroeste de Altana, o Exército da Fronteira do Reino de Arabakia mantinha uma guarnição no Posto do Campo Solitário.

Além disso, mais uns dez quilômetros a oeste do Campo Solitário, ao longo do Rio Jet, erguia-se a Fortaleza de Ferro Beira-Rio, que também servia como base do Exército da Fronteira. Assim como a Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta, essa fortaleza já havia estado sob controle dos orcs. O Exército da Fronteira retomou a Fortaleza de Ferro Beira-Rio ao mesmo tempo que a outra.

— Não quero ser pessimista demais, mas… — Kuzaku estava com uma expressão tão sombria que dava para sentir o quão ruim a situação era. — Tá difícil ser muito otimista sobre esse tal posto no Campo Solitário… ou essa Beira-Rio ai.

— Ele tem razão — disse Setora, em um tom neutro. — Não é impossível que os soldados que fugiram da Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta tenham se reunido na Fortaleza de Ferro Beira-Rio e estejam resistindo lá. Ainda assim, se for o caso, é bem provável que estejam cercados.

— …Não tem mais nenhum lugar pra onde a gente possa ir? — Shihoru parecia tão abatida que dava a impressão de que poderia simplesmente cair morta a qualquer momento. — Qualquer lugar… mesmo…

Mary apontou para um ponto cerca de um metro acima e à direita de Altana no mapa improvisado.

— Se voltássemos para Vele, estaríamos seguros por um tempo. A Cidade Livre de Vele é neutra. Humanos, orcs, mortos-vivos e goblins vivem juntos lá.

— Isso é… bem longe, né? — perguntou Haruhiro.

Mary assentiu.

— Não sei dizer a distância exata, mas deve ser algo em torno de quinhentos quilômetros…

— Bom… — Kuzaku forçou um sorriso. — Isso dá o quê? Uns vinte dias andando…?

— Sem garantia nenhuma de comida? — Setora lançou um olhar cansado para ele. — Se a ideia for morrer no caminho, talvez não seja uma opção tão ruim assim.

— Você tá sendo meio cruel, Setora-san…

— Não foi essa a intenção. Mas eu realmente acho que as coisas que você diz ultrapassam o limite do absurdo.

Haruhiro quase suspirou, mas acabou segurando o ar sem perceber.

Droga… parece que estamos cercados por todos os lados.

Ele queria dizer isso em voz alta. Mas não era uma situação em que pudesse simplesmente desistir. Mesmo se sentindo abatido, Haruhiro não deixava isso transparecer no rosto. Não era porque estivesse se forçando a não demonstrar. Simplesmente acontecia assim.

— Eu quero mais informações — disse Haruhiro, com um tom controlado, apesar do desespero. — Informações precisas. Isso, água… e algo pra comer também. Seria bom se conseguíssemos caçar.

— Se ao menos a Yume estivesse aqui… — disse Mary, depois balançou a cabeça. — …Mas falar isso não vai ajudar em nada.

— …Yume? — perguntou Shihoru.

— Nossa companheira — respondeu Mary com um leve sorriso. Ao lembrar dessa tal Yume, ela não conseguiu evitar sorrir de verdade. Era esse tipo de sorriso. — A Yume acabou se separando do grupo por um tempo. A gente tinha combinado de se reencontrar em Altana meio ano depois, mas… quem sabe quanto tempo realmente passou desde então…?

Shihoru pressionou as duas mãos contra o peito.

— Yume…

— Você se lembrou de alguma coisa? — perguntou Haruhiro.

Shihoru abaixou os olhos e balançou a cabeça.

— Não… não é isso. É só que… não sei por quê, mas… dói, por algum motivo…

— Você e a Yume eram muito próximas — disse Mary, sorrindo. — A Yume é uma caçadora… e uma garota incrível. De verdade. Forte, sincera… e engraçada.

Kuzaku se inclinou e cochichou no ouvido de Haruhiro: — Ela é uma garota, né? Essa Yume-san.

— Provavelmente — Haruhiro respondeu em voz baixa.

— Então só eu e você somos homens? — Kuzaku começou a contar nos dedos. — …Não tá meio alto o número de garotas?

— Cara…

— Não, eu só tô dizendo, vai. — Kuzaku falou, meio sem força. Era natural ficar curioso sobre como tinha sido a dinâmica romântica do grupo. Quando tem homens e mulheres juntos, esse tipo de coisa acaba surgindo… ou pelo menos era natural que surgisse. Haruhiro só conseguiu dar um sorriso torto.

Ele também não era totalmente indiferente ao assunto, mas…

Haruhiro não sabia elogiar uma mulher pela aparência. Em termos de palavras, ele provavelmente diria “bonita” ou “fofa”, mas que tipo de pessoa era bonita, e que tipo era fofa?

Na avaliação dele, Mary entrava claramente na categoria “bonita”. Sem dúvida. Setora também tendia mais para o “bonita”.

E Shihoru? Talvez “fofa”? Mas, no caso dela, ele não podia negar que os traços mais femininos acabavam chamando mais atenção.

De qualquer forma, as três eram atraentes, cada uma à sua maneira.

Pensando melhor, ele acabou inclinando a cabeça, meio confuso, se perguntando como conseguia interagir com elas de forma tão natural. Se fosse alto e musculoso como Kuzaku, talvez fosse fácil atrair o sexo oposto, mas Haruhiro não era.

Quando começou a pensar que era comum demais, mediano—não, pior que isso—Haruhiro levou a mão ao próprio rosto. De repente, caiu em si.

Mesmo sem ter se olhado em um espelho, ele conseguia imaginar como era o próprio rosto. Como suspeitava, ele se lembrava de mais coisas além do próprio nome.

Não que lembrar do próprio rosto sem graça fosse algo que o deixasse feliz.

— …Enfim, não estamos seguros aqui, então vamos nos afastar da fortaleza. Depois a gente decide o que fazer — disse ele.

Soava quase como um líder.

Sentindo-se um pouco envergonhado, acrescentou: — …Tudo bem assim?

Pelo visto, ninguém teve objeções.

Haruhiro voltou para dentro da floresta. Primeiro, queria garantir um lugar onde pudessem descansar. Aquela floresta ficava perto demais tanto de Altana quanto da Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta. Eles precisavam ir para outro lugar. Haruhiro pretendia discutir isso com o grupo, mas, ao que parece, seu raciocínio tinha sido ingênuo demais.

Assim que entraram novamente na floresta, Kiichi olhou para um lado, depois se levantou de repente e olhou para o outro. Ele parecia extremamente tenso.

Pouco depois, ouviram latidos de cães. Isso resolveu a dúvida.

— Devem ser os goblins vindo atrás da gente…

— A questão é o tamanho do grupo — disse Setora, ainda calma. — Se forem dez, ou até vinte, dá pra expulsar. Mas se forem cem, talvez duzentos… isso já é bem mais do que conseguimos lidar, não acha?

— Nah… — Kuzaku tentou bancar o durão por um instante, mas logo admitiu. — …Tá, tenho que concordar.

— …São só goblins? — perguntou Shihoru, hesitante. — Goblins e orcs não são aliados…?

Mary abaixou os olhos.

— Não sei qual é exatamente a relação entre goblins e orcs, mas os dois definitivamente pertencem à Aliança dos Reis…

Não dava para negar a possibilidade de que os goblins de Altana tivessem enviado um mensageiro aos orcs da Fortaleza de Vigia Cabeça-Morta, e que agora estivessem procurando por Haruhiro e os outros juntos.

Kuzaku gemeu.

— Orcs parecem fortes, né? São grandes.

Por enquanto, nem os goblins nem os orcs tinham encontrado o grupo. Mas, no momento em que isso acontecesse, a situação seria bem complicada.

— A oeste fica Damuro. As Minas Cyrene ficam a noroeste… — Mary balançou a cabeça. — Damuro é a base dos goblins, e as Minas Cyrene estão cheias de kobolds…

— E a leste? — perguntou Setora.

Mary pensou por um instante antes de responder.

— Se seguirmos para leste a partir desta floresta, devemos sair nas Planícies dos Ventos Rápidos. Depois disso… não acho que haja cidades, pelo menos.

— Ao sul… — Haruhiro olhou naquela direção. — Montanhas, né? …Uma cadeia inteira. E se formos para as montanhas?

Mary balançou a cabeça.

— Não recomendo. Existem dragões na Cordilheira Tenryu… Você sabe o que são dragões, certo?

Ao ouvir a palavra, cada fio de cabelo do corpo de Haruhiro se arrepiou.

— …Tenho uma noção.

— Espera aí, dragões? — Kuzaku franziu a testa. — Isso soa perigoso.

Os ombros de Shihoru caíram.

— Não tem lugar nenhum para onde a gente possa ir…

— Vamos para o leste.

Haruhiro disse isso, mas imediatamente pensou: Isso é mesmo uma boa ideia? E sentiu um frio na barriga.

Além disso, será que cabia a ele decidir? Ele não estava à altura disso. Nem as próprias memórias tinha. Não importava como olhasse, aquilo era demais para ele.

Ainda assim, Haruhiro não falou aquilo sem pensar. Ele tinha um motivo.

— …Não estou dizendo pra simplesmente seguir para o leste sem parar. Acho que primeiro precisamos despistar quem está nos perseguindo. E o leste é a melhor opção pra isso, não é?

Setora assentiu.

— Então vamos nos apressar.

O grupo partiu imediatamente. Não dava para saber se todos estavam realmente convencidos, mas se ficassem parados, os perseguidores poderiam alcançá-los.

Eles avançaram em ritmo acelerado, sem parar para descansar. Mesmo assim, ainda ouviam latidos de cães—não pareciam vir da frente, mas também não estavam exatamente atrás.

Os perseguidores estavam espalhados pela floresta. Provavelmente tinham se dividido em equipes de um goblin e um cão, dez equipes, talvez até dezenas, vasculhando a área.

O grupo caminhou e caminhou. Ninguém desperdiçou fôlego conversando. Mary tinha dito que aquela floresta não era tão grande, mas mesmo assim eles ainda estavam entre as árvores quando o sol começou a se pôr. Haruhiro sentia que tinham andado mais de dez quilômetros. Quinze, talvez até vinte.

O entorno estava escuro, e o céu a oeste ardia em vermelho. Quando Haruhiro parou e se virou para olhar para trás, todos pararam junto. Ele escutou com atenção. Só ouviu o canto de pássaros e o farfalhar das folhas.

— Quando você acha — Kuzaku falou pela primeira vez em um bom tempo — que foi a última vez que ouviu um cachorro?

— Já faz um bom tempo — respondeu Setora.

Os ombros de Shihoru subiam e desciam com dificuldade. Ela parecia exausta.

Enquanto conversavam, a escuridão se aprofundava. O sol logo desapareceria por completo.

— Vamos descansar aqui hoje — sugeriu Haruhiro, sorrindo para Shihoru.

Ela devolveu um sorriso um pouco sem jeito.

Quanto a montar acampamento, tudo o que podiam fazer era encontrar um lugar onde desse para se deitar. Podiam improvisar camas com folhas e grama, mas como estavam sendo perseguidos, Haruhiro não queria deixar sinais óbvios de que tinham passado por ali.

Apesar de o pôr do sol estar próximo, ainda havia um pouco de luz. Todos se sentaram em círculo.

— Ué? Cadê o Kiichi? — perguntou Kuzaku.

— Ele saiu correndo para algum lugar — Setora soou despreocupada. — Uma hora ele volta, imagino.

— Talvez vá buscar alguma coisa pra gente — Kuzaku disse, rindo.

Setora deu de ombros.

— Sou realmente abençoada.

Depois disso, todos ficaram em silêncio. Era óbvio que estavam exaustos depois de tudo o que tinham passado. Só de procurar um assunto para conversar já parecia esforço demais.

Quando já estava escuro o bastante a ponto de não dar para enxergar além de poucos metros, as mulheres foram até os arbustos para fazer suas necessidades. Quando voltaram, Haruhiro e Kuzaku se afastaram um pouco mais para fazer o mesmo.

— Você acha que a gente mijava junto assim, lado a lado, antes de perder as memórias, Haruhiro?

— …Vai saber. Eu não sei.

— Ah! Aposto que você acabou de pensar que eu sou o tipo de cara que fala besteira, não foi?

— Um pouco, sim.

— Mas esse tipo de coisa pode despertar uma memória, sabia?

— Você lembrou de alguma coisa?

— Nem um pouco.

Quando voltaram para o local do acampamento, havia um par de olhos brilhando ao lado de Setora.

— Nyaa. — Kiichi os recebeu com um miado.

— Parece que sou realmente abençoada. — A voz de Setora soava estranhamente animada. — Kiichi trouxe frutas. Não muitas, mas o suficiente para quebrar o galho.

Kuzaku deu um pulo de susto.

— Sério?!

— …Ele é um carinha esperto, né? — disse Haruhiro, e Kiichi respondeu com um miado curto.

Setora lhe ofereceu algo, e ele aceitou. Era uma daquelas frutas. No escuro, não dava para distinguir a cor, mas eram redondas, do tamanho da ponta do polegar. A casca tinha certa elasticidade.

— Provavelmente não é venenosa — disse Setora.

Então Haruhiro colocou a fruta na boca. Ao mordê-la, a casca se rompeu e o suco se espalhou, trazendo um gosto azedo, com um leve toque doce.

Kuzaku pegou uma e comeu também.

— Ah… me sinto vivo de novo…

— Isso é exagero — Setora bufou.

Aquilo não seria suficiente para saciar a fome, e embora tivesse amenizado a sede, ela logo voltaria. Ainda assim, Haruhiro entendia o que Kuzaku queria dizer. Ele também se sentia aliviado.

Sentia que poderia dormir imediatamente, mas pensou: Não é isso que eu deveria fazer agora, e reconsiderou.

— Eu fico de vigia. O resto dorme.

— …Sozinho? — perguntou Shihoru.

— É. Isso te deixa insegura? Eu fazer isso sozinho. É… imagino que sim, né…?

— N-Não é isso…

— Você também precisa dormir — disse Setora, com impaciência. — Podemos nos revezar na vigia. Seria um incômodo se você desmaiasse de exaustão.

— Você podia ter dito isso de um jeito menos agressivo… — reclamou Kuzaku.

— Quer reclamar de mais alguma coisa? — Setora retrucou.

— Não precisa ser tão assustadora por qualquer coisa…

— Covarde. Você se assusta fácil demais.

No fim, decidiram dormir em turnos enquanto aguardavam o amanhecer.

— Então eu fico com o primeiro turno. Acordo o Kuzaku antes de chegar ao meu limite.

— Beleza. — Kuzaku respondeu e, em seguida, se deitou, soltando um bocejo. — …Caramba. Acho que durmo na hora…

— Eu não… — disse Shihoru.

Então Haruhiro decidiu que ela ficaria acordada com ele.

Mary e Setora também se deitaram. Kiichi se enroscou ao lado de Setora.

Não demorou para Kuzaku começar a roncar baixinho. Mary e Setora não se mexiam. Já tinham dormido? Ou estavam apenas tentando?

Haruhiro observou ao redor, mas a floresta estava mergulhada numa escuridão tão densa que parecia sufocante. Era impressionante como ele mal conseguia enxergar.

Alguma coisa, talvez uma coruja, piava ao longe.

E aquele som agudo… seria algum tipo de inseto?

— Dá um pouco de medo, né…? — disse Shihoru em voz baixa.

Curiosamente, Haruhiro não estava com medo, mas ainda assim concordou.

— Sim.

Shihoru se aproximou do lado direito dele. Ele não conseguia vê-la, mas dava para perceber. Parecia que ela tremia levemente.

— Tá tudo bem? — perguntou Haruhiro.

— …Sim.

Ela não soava bem, mas provavelmente era a única resposta que Shihoru conseguia dar. Mesmo que dissesse que não estava, não havia o que fazer. Ele não podia fazer nada. Queria que houvesse algum sinal de que as coisas iam melhorar, mas o futuro era tão escuro quanto o entorno.

— …Desculpa — disse Shihoru.

Deve estar incomodando ela, pensou Haruhiro, mas tudo o que conseguiu fazer foi perguntar:

— O quê?

Ele odiava a sensação de impotência que isso lhe causava.

— Eu só… — Shihoru hesitou. — Estou… atrapalhando todo mundo…

— Não— — Haruhiro começou a dizer, mas, mesmo que afirmasse que não era verdade, Shihoru não conseguiria aceitar.

— Se ao menos… — Shihoru tinha dificuldade para forçar as palavras a sair. — …eu conseguisse lembrar… como usar magia…

Haruhiro continuou esfregando o nariz, tocando os lábios, coçando a testa, até que finalmente abriu a boca.

— Não adianta apressar as coisas.

— …Sim, você tem razão. Mesmo que eu tente forçar, eu esqueci… — Havia um tom choroso na voz de Shihoru.

Sinceramente, pensou Haruhiro, falar comigo sobre isso não vai ajudar em nada. Mas talvez aquilo fosse cruel demais. Ela era sua companheira, mesmo que ele tivesse esquecido dela. Não deveria pensar assim.

Ele queria tranquilizá-la, se ao menos soubesse como. Mas não encontrava palavras, e, para ser honesto, nem acreditava que as tivesse. Isso o irritava. Pelo menos, ele tentava esconder essa irritação.

Shihoru abraçou os joelhos, agarrou a grama com a mão esquerda e depois a soltou. Ela também queria fazer alguma coisa, mas não conseguia, e aquilo devia estar a frustrando.

Provavelmente foi sem querer—ou ao menos Haruhiro acreditava que sim sim—mas a mão esquerda de Shihoru tocou a coxa direita dele.

— D-Desculpa! — Shihoru puxou a mão de volta e pareceu tentar se levantar, mas algo deu errado e ela acabou caindo no chão.

— Ugh…

— S-Shihoru…?

— E-Eu não aguento mais… — disse ela, numa voz quase inaudível.

Ela estava chorando. Parecia que tentara conter o choro, mas falhou. Pelo menos para Haruhiro, que estava ao lado dela, era óbvio. Shihoru soluçava.

Ele não podia deixá-la sozinha, mas não fazia ideia do que poderia fazer por ela.

Haruhiro se atormentou com isso por um bom tempo até que, por fim, estendeu a mão. Quando seus dedos tocaram algo macio, ele suspeitou que talvez tivesse tocado um lugar que absolutamente não deveria.

Não, não era isso. Pelo posicionamento deles, pelo comportamento dela e por outros fatores, aquilo era o braço de Shihoru. Definitivamente não era, por exemplo, o peito dela. Ele tinha quase certeza de que era o braço esquerdo. Mesmo assim, ela poderia se incomodar por ele tê-la tocado de repente.

Haruhiro se arrependeu. Não deveria ter feito aquilo, mas já era tarde. Não havia como voltar atrás.

Shihoru enrijeceu por um instante, mas não tentou afastar a mão dele. Ainda assim, era cedo demais para assumir que isso significava que estava tudo bem. Ele precisava, no mínimo, se conter.

Tomando cuidado para não segurá-la com força, Haruhiro segurou o braço de Shihoru da forma mais gentil que conseguiu.

— Eu não acho que vá piorar.

Não podia ter pensado em algo melhor do que isso? Haruhiro sentiu um desespero profundo diante da própria falta de habilidade com palavras. Apesar disso, Shihoru assentiu com a cabeça. Talvez tivesse ficado com pena dele.

Lá estava ela, chorando, e mesmo assim acabou se compadecendo dele. Isso o fez se sentir péssimo.

Será que Haruhiro era melhor do que isso antes de perder as memórias? Fosse ou não, do fundo do coração, ele esperava conseguir se tornar um pouco melhor no futuro.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.

 

 

Compartilhe nas Redes Sociais

Publicar comentário

Anime X Novel 7 Anos

Trazendo Boas Leituras Até Você!

Todas as obras presentes na Anime X Novel foram traduzidas de fãs para fãs e são de uso único e exclusivo para a divulgação das obras, portanto podendo conter erros de gramática, escrita e modificação dos nomes originais de personagens e locais. Caso se interesse por alguma das obras aqui apresentadas, por favor considere comprar ou adquiri-las quando estiverem disponível em sua cidade.

Copyright © 2018 – 2026 | Anime X Novel | Powered By SpiceThemes

Capítulos em: Hai to Gensou no Grimgar