Hai to Gensou no Grimgar – EX 6: Capítulo 23 – Volume 14++
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Ex 6:
[Capítulo 07: Coração, Aberto]

Ainda assim, deixar as coisas daquele jeito o incomodava. Como não iria incomodar? Ele teria que estar maluco para não se importar.
Eles decidiram se separar e fazer o que quisessem até as 18h, mas Haruhiro já sabia como pretendia passar o tempo.
Vou procurar a Mary.
Ele tinha uma ideia de onde procurar. Altana parecia uma cidade grande, mas em muitos aspectos era bem pequena também. Se ele andasse por aí, achava que acabaria esbarrando nela em algum momento.
Enquanto fazia um pouco disso, um pouco daquilo, o sino marcando meio-dia tocou—e ele ainda estava sozinho.
— Sério? Ainda não encontrei ela…
Haruhiro se agachou, sem forças, em um canto de uma praça que ficava mais ou menos no centro de Altana.
Do outro lado da praça havia uma construção alta chamada Torre Tenboro. Era a residência do margrave, Garlan Vedoy. Governante de Altana. —Pelo que diziam.
Ele sabia o nome do cara, mas nunca o tinha visto. E, para ser honesto, tudo o que realmente sabia era: “tem um figurão com esse nome por aí.” Bem, um soldado voluntário como Haruhiro dificilmente teria contato com alguém tão importante, de qualquer forma.
— …Tanto faz.
Talvez eu almoce. Embora até isso parecesse dar trabalho. Mas eu estou com fome. O estômago tá vazio, mas não tenho vontade de comer.
Enquanto andava por ali sem rumo, ouviu uma voz ao longe.
— Huh?! Haruhiro-kun?!
— …Moguzo.
Moguzo veio correndo até ele.
— Que foi, Haruhiro-kun? O que tá fazendo aqui?
— Hm. Nada de mais. Só… tô por aqui, mesmo…
— Ahm… — Moguzo parecia meio sem jeito, mas ainda assim falou. — Você conseguiu encontrar a Mary-san?
— Ah… P-Por que eu estaria procurando a Mary?
— Bem… De manhã, a Mary-san estava meio estranha, né? Aí eu pensei: “Vai ver o Haruhiro-kun ficou preocupado e saiu para procurar ela.” Para ser sincero, eu também estava procurando ela, mais ou menos.
— A-Ahhh… É. A Mary estava meio esquisita, né? Pois é. Isso me deixou um pouco incomodado, já que somos da mesma equipe…
— N-Né? Somos companheiros. E você é o nosso líder.
— Tecnicamente, eu sou, mas não combina muito comigo, e até me sinto um pouco envergonhado…
— Mas você estava mesmo procurando a Mary-san, não estava?
— Uhhh… É, mas não tipo… com muita dedicação ou coisa assim. Eu só estava andando por aí, olhando aqui e ali…
Eu procurei, sim. Dei uma boa rodada.
Mas Haruhiro hesitava em contar Isso para o Moguzo. Não queria que ele começasse a tirar conclusões. Haruhiro estava fazendo aquilo com boas intenções, como companheiro, e como líder da party, porque estava preocupado com a Mary. Só isso.
— E-Então, Haruhiro-kun, ahm… já que você tá procurando mesmo, que tal a gente procurar juntos?
— Boa ideia! — Haruhiro ficou em pé. — V-Vamos fazer isso! Vai ser mais fácil de encontrar ela assim. É. Ah, Moguzo, você já almoçou? Não? Então bora comer alguma coisa por aqui. Num carrinho de comida no mercado, sei lá. Algo leve. A Mary também deve estar comendo em algum lugar, né? Tenho certeza.
Com isso, eles foram até os Espetinhos do Dory, no mercado—e lá estavam Yume e Shihoru.
— Hah…!
Shihoru estava com um espetinho enfiado na boca naquele exato momento, e ficou visivelmente sem graça.
Yume, por outro lado, arregalou os olhos e disse: — Unyoh! — antes de terminar de devorar a carne que já estava comendo.
— Olha só, é o Haru-kun e o Moguzo. Vieram comer carne?
— Sim. — Moguzo assentiu e logo fez seu pedido. — Vou querer dois. Não, três.
— …Já vai pedir três de cara? Incrível, Moguzo. Eu vou querer só um.
— Nah. Eu sei que um não vai dar. Dois talvez, mas os espetinhos do Dory são deliciosos, e já que estou aqui…
— Ohhh. É verdade. É impressionante como a carne daqui é boa.
— Sim. A Yume tava perguntando pra Shihoru o que a gente devia fazer à tarde, aí a Shihoru disse pra gente vir no Dory.
— …E-Eu não conseguia pensar em mais nada, só isso… Ah!
Shihoru virou a cabeça apressada para o velhinho que cuidava da barraca e se curvou.
— E-Erm, a sua carne é deliciosa. De verdade. E-Eu adoro também…
O velho deu um sorriso generoso. Pensando bem, Haruhiro tinha ido a essa barraca pela primeira vez quando ainda era um recruta. O sujeito parecia lembrar deles, então dava para dizer que já eram clientes frequentes.
O número de lugares em Altana onde isso era verdade para eles estava, pouco a pouco, aumentando.
Será que com a Mary era igual? Ela também devia ter seus cantinhos preferidos por ali, né?
Enquanto comia seu espetinho, Haruhiro decidiu perguntar para Yume e Shihoru: — Ei, a gente estava pensando em procurar a Mary. Digo, sei que vamos ver ela às seis, mas… Ela estava meio esquisita hoje de manhã, né? Isso me deixou meio preocupado.
— …A gente também, na verdade.
Shihoru já tinha terminado seu espetinho e agora tomava uma bebida que tinha comprado em outra barraca. Era gaseificada, com sabor de ervas e mel. Custava duas moedas de cobre, mas, se devolvesse o copo fino de cerâmica à barraca, ganhava uma moeda de volta.
— A gente estava preocupada com a Mary… Eu estava de olho nela enquanto a gente andava pelo mercado…
Aliás, por que a Shihoru fez uma pausa depois de dizer “Mary…”? Era por isso? Por serem companheiras, ela queria se referir a Mary sem o sufixo honorífico, e estava tentando fazer isso. Mas, por não estar acostumada, ainda hesitava—seria isso?
Se o palpite de Haruhiro estivesse certo, chamar a atenção para isso podia deixá-la constrangida.
Ela se acostumaria, com o tempo. Mesmo que demorasse.
Mas o tempo não era ilimitado. Podia acabar amanhã.
Shihoru provavelmente sabia muito bem que não havia garantias de que estariam vivos no dia seguinte. Ela sentia isso mais do que qualquer um deles. Talvez fosse por isso que estivesse se esforçando tanto para diminuir a distância emocional entre ela e Mary.
Eles podiam ter tempo para relaxar, ou não.
— Onde será que a Mary-chan foi parar? — perguntou Yume, entre uma mordida e outra. — Será que já voltou pra estalagem?
— …S-Se foi, não dá pra ir atrás, né…? — resmungou Moguzo, segurando os três espetinhos com as duas mãos.
…Já terminou os três? Rápido demais!
— A estalagem, hein… — Haruhiro bateu a palma esquerda contra a testa. — Agora que você falou… O que será que o Ranta tá fazendo? Alguém sabe?
— Yume não viu, e também não sabe.
— …Nem eu. E também não faço questão de saber…
— Ah! O Ranta-kun falou alguma coisa sobre um jogo.
— Um jogo?
Que tipo de partida seria? Haruhiro não fazia ideia, mas tinha um mau pressentimento. Era o Ranta, afinal. Nunca saía coisa boa de deixar ele solto. Embora, vigiá-lo o tempo todo também era demais. Se tivesse que ficar de olho nele vinte e quatro horas por dia, ia acabar pegando raiva de verdade.
Por ora, era melhor esquecer o Ranta e procurar a Mary com os outros quatro. Era difícil imaginar que ela estivesse na parte leste da cidade, onde ficava a guilda dos magos, ou na parte oeste, onde ficavam as guildas dos ladrões e dos cavaleiros das trevas.
Será que estava no distrito sul, onde ficava a estalagem e a cidade dos artesãos? Ou no distrito norte, onde ficavam o mercado, a Rua Jardim das Flores e o Beco Celestial? Quando estavam saindo do mercado para verificar a Rua Jardim das Flores, encontraram uma aglomeração no caminho.
— Aww, éééééééééééé…!
Aquela voz, vinda do outro lado da multidão…
— É o Ranta, né?
— S-Sim.
— …A gente devia ignorar ele.
Haruhiro entendia como Shihoru se sentia, mas não conseguia fazer isso. No fim das contas, ele era o líder. E, bem, o cara ainda era companheiro deles, tecnicamente.
Ele se enfiou pela multidão, e encontrou Ranta com outros homens sentados ao redor de uma mesa baixa de madeira.
— Ranta, cara…
— Hã? Ora, se não é o Haruhiro. O que tá fazendo aqui, hein?
— Eu que devia perguntar isso… O que você tá fazendo?
— Não dá pra ver?
Ranta mostrou para Haruhiro as cartas retangulares que segurava. Tinha quatro ou cinco delas, e cada uma tinha uma imagem desenhada. Olhando melhor, havia várias outras cartas parecidas espalhadas pela mesa, sem nenhuma ordem.
— Tô no meio de um jogo aqui. Tá na cara, né? Eu nasci pra jogar, sou um mestre natural, o senhor dos jogos, entendeu?
— …Sei. Nunca ouvi isso antes, mas tá bom.
— Beleza, é minha vez! É assim que se faz!
Ranta bateu uma carta na mesa, virando outras duas ao mesmo tempo.
— Siiiiiiiiiiiiiiim! Dupla! Consegui uma dupla…!
— Droga!
Outro sujeito, de rosto sujo e avermelhado, bateu sua carta na mesa, virando três de uma vez.
— Aí! Que tal essa…?!
Ranta e os outros homens exclamaram, gritando “Um triplo?!” e levando as mãos à cabeça.
— …Ranta, você apostou dinheiro nisso, não foi? Eu sei que sim.
— Hã?! É claro que sim! Que graça teria se não valesse grana?! Eu não consigo me levar a sério se não tiver nada em jogo!
— Então… quer dizer que tá ganhando?
— Hah! — Ranta desviou o olhar. — Eu só tô começando! Agora que vai virar o jogo! Vai ser uma reviravolta daquelas…!
— …Nem vou perguntar quanto já perdeu. Estou até com medo. Mas se controla, tá?
— Seu idiota! Em qualquer jogo é tudo ou nada! Não tem esse negócio de se controlar! Não sabia disso, seu burro?! Seu asno! Vai morrer de dor com hemorroida!
Será que ele ia continuar jogando até perder tudo? Haruhiro estava preocupado, mas não conseguia reunir forças pra impedi-lo.
Ranta não ia ouvir de qualquer forma. Na verdade, quanto mais Haruhiro tentasse fazer ele parar, mais teimoso ele ia ficar. Nesse caso, era melhor deixar quieto.
— Bom, boa sorte aí.
— Vou ter mesmo sem você me dizendo! Eu vou continuar até recuperar aquele 1 ouro que eu—
— Um ouro…?! Cara, você perdeu um ouro?!
— Ainda é só um ouro! Eu tenho grana de sobra! Quem tem mais dinheiro é quem vence essas paradas no fim…!
— E tem certeza de que não vai é ser feito de trouxa e perder tudo…?
— Cala a boca! Fecha essa matraca e vaza! Cai fora! Some daqui, Parupiro!
— Tá, tô indo. — Haruhiro deu um passo para trás. — Ah, mas antes… só pra confirmar, você não viu a Mary, viu?
— Huh? Vi, sim.
— Huh?
— Lá perto da ponte, faz umas horas, quando eu voltei pra hospedaria. Ignorei completamente ela. Ela estava cabisbaixa e me ignorou também. Por quê?
— Ela estava lá?! Perto da hospedaria?! A Mary?!
— É, como eu disse. Mas já faz tempo. Ela já deve ter ido embora. E, tipo, o que ela tava fazendo lá?
Haruhiro só disse para Ranta: — Saiba a hora de parar! — e saiu correndo pela multidão.
Pelo visto, Moguzo, Yume e Shihoru estavam escutando a conversa. Todos assentiram entre si e correram em direção à hospedaria.
Segundo Ranta, ele tinha visto Mary horas atrás. Isso queria dizer que foi antes do meio-dia. Era difícil imaginar que ela ainda estivesse na ponte perto da hospedaria. Com certeza já devia ter ido embora. Não havia como ela ainda estar lá. Mas mesmo assim, eles não tinham outra pista. Então, mesmo que quase certamente ela já não estivesse mais ali, a chance de ela ainda estar era maior que zero.
— Miau! Aquela ali é a Mary-chan, não é?!
Yume, como caçadora, tinha boa visão e foi a primeira a avistá-la.
A ponte.
Ela está lá.
É a Mary.
Não tem como confundir. Ela está de pé no topo da ponte.
— Mary…!
— Mary-san…!
— M-Mary…!
— Mary-chan…!
Os quatro gritaram ao mesmo tempo, e Mary se virou na direção deles.
Seus olhos se arregalaram de surpresa. É claro. Qualquer um se assustaria ao ouvir o próprio nome sendo gritado daquele jeito. Além disso, provavelmente foi bem constrangedor para ela também.
Se Haruhiro fosse a Mary, talvez tivesse saído correndo, sem nem perceber.
Mas Mary não correu. Ela segurou seu cajado com força e os esperou.
Eles correram até a ponte e chegaram sem fôlego. Haruhiro, além de estar com a respiração pesada, não fazia ideia do que dizer. Com certeza havia coisas que ele queria dizer, mas sua cabeça estava uma bagunça.
Mary franziu um pouco a testa e apertou os lábios ao encarar Haruhiro e os outros. Parecia que ela também queria dizer alguma coisa, mas não conseguia encontrar as palavras.
Por fim, Shihoru apenas disse: — Po… — mas parou, fechando a boca. Demorou um pouco até que conseguisse abrir novamente e terminar: — Por quê…?
— Eu… — Mary baixou os olhos. — Me…
Provavelmente ela ia se desculpar. Era justamente isso que Haruhiro não queria que ela dissesse. Mary não tinha nada do que se desculpar.
— Que bom que você tá bem! — disse Haruhiro, com o tom mais animado que conseguiu. Soou meio deslocado, e o ar entre eles ficou constrangedor.
Ai. Essa foi feia. Por que eu não consegui dizer algo mais gentil? Dá vontade de chorar. Mas se eu chorar, com certeza vai piorar tudo, então não vou.
— G-Graças a Deus… Umm… ah, pelo quê mesmo…? Ah, isso! Graças a Deus que encontramos você. Mas, olha, não estou sendo exagerado nem nada, tipo… dizendo como foi incrível a gente ter se encontrado em primeiro lugar—
Aghhhhh! Isso não tá indo bem.
Haruhiro quase caiu no chão e começou a se contorcer de vergonha. Quanto mais ele falava, mais desajeitado ficava.
Mary estava ouvindo com seriedade, mas, no fim, inclinou a cabeça para o lado, pensando: O que esse cara tá tentando dizer, afinal…?
Justo. Totalmente justo.
Haruhiro sentiu que talvez conhecesse a si mesmo, ou talvez não. Não, ele não se conhecia. O que era mesmo? O que ele estava tentando dizer?
— B-Basicamente… Quer dizer… Como eu posso explicar…? É tipo…
Talvez não aguentando mais ver aquilo, Yume resolveu intervir: — Pensando bem… faz quanto tempo que você tá aqui, Mary-chan?
— Acho que desde… — Mary hesitou e depois, com a voz bem baixa: — Desde umas nove horas…?
— …Nove? — Shihoru repetiu, olhando para Haruhiro.
— …Nove…? — Haruhiro repetiu, olhando para Moguzo.
— N-Nove… — Moguzo repetiu, olhando para Yume.
— Nove…? Pera… Humm… — Yume fez cara de quem pensava, piscando. — É tempo pra caramba, né? Você disse nove horas, mas já passou do meio-dia… Uaaaah! É tempo demais…!
— …Eu queria explicar. — Mary encolheu um pouco, tremendo. — …Achei que, se esperasse aqui, alguém ia acabar aparecendo.
— Umm… — Moguzo abaixou a cabeça, encolhendo o corpo quase como Mary. — Explicar o quê?
— …Sobre o que aconteceu na Oficina Masukaze. O jeito como eu agi lá, digamos…
— Mwah. Você tava agindo de um jeito tão firme, tão decidido… achei mó legal.
— …P-Para. Foi errado. Eu não devia agir daquele jeito.
— Sério…? — Shihoru parecia um pouco brava, lembrando de como o ferreiro Riyosuke tinha tratado eles. — Acho que com gente como ele, você precisa mesmo ser dura… Não que eu conseguisse. Sou tímida demais… Não tenho confiança, eu acho…
— Eu também… não tenho confiança em mim mesma.
— E-Eu também!
— A Yume também não tem confiança em si mesma, sabe?
— …Eu também não.
O que que é isso? O que tá acontecendo aqui? Uma espécie de revezamento de confissão de falta de confiança?
Mas, como líder, Haruhiro devia mesmo estar admitindo que não tinha confiança? Ele realmente não tinha, mas quem ia querer um líder assim? Se ele era o líder, então, sinceramente, mesmo sem confiança, ele devia pelo menos fingir que tinha.
— Ah, não!
Haruhiro bateu palmas, e todos olharam para ele. Pareciam meio surpresos. Ele se sentiu mal por isso.
— Mary… I-Isso foi só um meio pra um fim. Acho que foi por isso que você agiu daquele jeito. Você fez por nós. Mesmo sabendo como ia parecer. É isso… certo?
— Sim, mas…
— Huh? Mas?
— Se eu não tivesse esse lado em mim… acho que nem conseguiria agir assim. Talvez… esse seja o meu verdadeiro eu.
— Sério? A Yume acha você uma boa garota, Mary-chan. Porque você é legal. Hmm. A Yume tá só dizendo que você é “legal”, mas, tipo… se não fosse, não teria feito aquilo.
Sim. Eu entendi o que você quis dizer, Yume, mas… por favor, chega!
Se você diz isso assim, na cara da pessoa, ela vai ficar super envergonhada! E a Mary tá claramente super envergonhada agora!
— Erm… — Moguzo provavelmente queria tentar aliviar a situação, mas não conseguiu pensar em nada e só ficou segurando a cabeça e gemendo.
Beleza!
Hora de agir como líder!
Haruhiro estava determinado, mas… não conseguia pensar em nada.
— O-O que importa é…!
Shihoru. A Shihoru está ajudando. Obrigado, Shihoru.
— É que você tentou… falar com a gente… eu acho. Que você queria conversar… isso, uh… isso me deixa feliz.
— Né?! — Haruhiro abriu um sorrisão e gritou. Depois, ficou chocado consigo mesmo por ter feito aquilo.
Quero ser uma pessoa mais refinada algum dia. Mas, honestamente? Difícil.
— É… Isso mesmo. Como seu companheiro, isso também me deixa feliz, sabia? É, ah, como posso dizer…? Eu não acho que o que a gente conversa importe tanto. Não, quer dizer, importa sim, e conversar é importante, mas… bem, como um pré-requisito, sabe? A gente precisa de um ambiente onde possa conversar. Ter ou não ter isso é a primeira questão, acho…? Hrm… Será que tudo bem eu ser assim? Hmm… Tá tudo bem eu ser assim? Não, não tá certo…
— Não é “não tá certo”. — Mary balançou a cabeça. Então, ela disse claramente: — Você não é“não tá certo”, Haru.
— …Sério?
Nossa, tô sentindo que vou começar a sorrir.
Haruhiro se forçou a manter a expressão séria. Tinha certeza de que as pálpebras dele estavam tremendo.
— B-Bom… Sim. É, acho que é isso mesmo, né? Ficar me menosprezando assim, não é bom. Mas, se eu tivesse aquele tipo de autoconfiança sem base que o Ranta tem, aí seria um problema também. D-De qualquer forma, sobre o que aconteceu na oficina. Ninguém achou nada demais. Você não precisa se preocupar. Além disso, olha com quem a gente estava lidando. Não entendi direito aquele tal de Riyosuke, mas, sabe… acho que a gente realmente precisava ameaçar ele daquele jeito.
— Sobre isso. — Mary suspirou. O olhar dela de repente pareceu ficar… mais afiado?
— Estive pensando. — disse ela. — Talvez eu não tenha feito o bastante. Pessoas como ele nunca aprendem. Acho que deveríamos ficar de olho. Ele precisa ser controlado.
Haruhiro se arrepiou.
Talvez… talvez essa fosse a verdadeira Mary.
Mas no fim, Mary estava absolutamente certa. Quando eles reuniram o Ranta e voltaram para a Oficina Masukaze, encontraram o ferreiro Riyosuke mexendo na cabeça do Trigon.
— Ah! N-Não! Isso é, tipo… só tô relaxando! Já ia começar mesmo, eu juro!
— Anda logo. — Mary ordenou, fria, sem levantar a voz.
Sinceramente, Mary era bem assustadora quando ficava assim. Isso provavelmente não era algo que ela pudesse imitar, mesmo que tentasse. Será que era algo com o qual ela nasceu?
Seu verdadeiro eu, hein?
Mesmo que fosse, Mary era mais do que apenas aquilo.
E não era só a Mary. Todos tinham várias facetas. Mudavam de acordo com a situação, e as pessoas também mudavam com o tempo. No futuro, talvez até o Ranta deixasse de ser tão irritante—Tá, não. Isso parecia improvável.
De qualquer forma, decidiram se revezar vigiando o ferreiro, para garantir que Riyosuke continuasse trabalhando. Caso contrário, ele nunca terminaria. E eles não podiam fazer nada até a arma do Moguzo ficar pronta.
— Tá bom! Já entendi! Entendi mesmo! Só tenho que fazer, né?! Eu faço! Não precisa me mandar! Já ia começar mesmo…!
Riyosuke finalmente começou a trabalhar. Haruhiro não conseguiu evitar de pensar: Por que tá gritando com a gente, cara…?
Mas, uma vez que começou, ele não se distraiu. Tinha três aprendizes. Era até satisfatório ver os quatro trabalhando juntos na forja. O mestre batia com o martelo como se estivesse possuído.
— Não é que o nosso mestre seja lento… — explicou um dos aprendizes, baixinho — É que ele demora pra engatar. Tipo… ele é meio artista, sabe? A mão dele só se mexe depois que encontra inspiração. Mas… e sei que é meio estranho eu, como aprendiz, dizer isso… ele faz um trabalho sólido.
Haruhiro não conhecia o mundo dos artesãos, mas sabia que havia muitos tipos de soldados voluntários. Talvez fosse a mesma coisa com os artesãos.
No fim, eles nem precisaram esperar até o sino das 18h tocar. A arma do Moguzo ficou pronta quase uma hora antes disso. Surpreendentemente, não parecia tão diferente da época em que Death Spots usava. E ainda assim, havia sido devidamente ajustada para o tamanho do Moguzo.
— Aí está! — Riyosuke disse com um sorriso de pura satisfação ao entregar a lâmina para Moguzo. — Trabalho de primeira! Tenta pegar ela!
— …Certo. — Moguzo segurou o cabo da nova arma.
No mesmo instante…
— Uwah?! — A expressão dele mudou. — O-O que é isso…?! É pesada, mas leve ao mesmo tempo?! Isso é possível…?!

— O que você disse?! Moguzo, me dá isso aqui! — Ranta arrancou a espada das mãos do Moguzo.
— Gwuh?! — ele largou imediatamente.
— E-Essa coisa é pesada demais! Não tem como carregar isso por aí, né…?!
Ranta não tinha o tamanho nem a força do Moguzo. Parecia ser só por isso, mas Riyosuke, com um ar convencido, explicou que havia mais por trás.
— A facilidade de uso de uma arma depende quase que inteiramente do centro de gravidade estar no lugar certo. Esse centro de gravidade é uma característica da arma, mas cada um sente isso de forma diferente! Basicamente, essa espada aqui, eu ajustei pra que o centro de gravidade fique perfeito pra ele! Qualquer outra pessoa vai penar pra usar! Mas, pra ele, vai parecer leve, mesmo sendo pesada! Que tal, hein?!
Haruhiro ficou sinceramente impressionado, e Moguzo estava radiante.
Shihoru assentiu diante da explicação, enquanto a Yume só soltou um “Fweh…” Claramente sem entender nada.
Ranta, por sua vez, já estava pedindo para Riyosuke fazer uma arma para ele também.
— Hahaha! Calma, calma. Antes de tudo, eu preciso receber meu pagamento. Isto aqui ainda é um negócio, afinal.
Riyosuke piscou de forma travessa, e Moguzo disse “Ah, é mesmo!” e já ia pegar o dinheiro, quando—Mary o impediu.
— Espera. Sobre isso.
— …S-Sim? — Riyosuke imediatamente murchou. Estava visivelmente com medo da Mary.
— Depois de ter estourado o prazo sem nem esconder, você não vai ter a cara de pau de pedir as 40 pratas que tinha cobrado, vai?
— …N-Não posso?
— Pensa um pouco.
— …Eu não posso… né? É claro que não. Faz sentido… Na verdade, eu já imaginava que seria isso. Hahaha… Tá bom, 38…
— Hããã?
— 37—
— Pensa direito.
— 30… pratas.
— Talvez assim esteja bom. Se você acha que é o justo.
— …Então faz 25 pratas, por favor.
E foi assim que Moguzo conseguiu a espada do Death Spots, com desconto graças à Mary.
Obviamente, aquela conversa meio ameaçadora era só um teatrinho que Mary fez em favor do Moguzo. Haruhiro sabia disso. Ainda era um pouco assustador, mas se ela não tivesse levado tão a sério, não teria surtido efeito. Ela deve ter se esforçado ao máximo para parecer realmente intimidadora.
Moguzo prometeu pagar um jantar caro para todos, então o grupo se reuniu na Vila das barracas perto da cidade dos artesãos.
— Ufa! Caramba, Mary, tenho que admitir! Nunca vi alguém com tanto medo na cara. Foi hilário!
— Ranta, cara…
Haruhiro ia dar uma bronca nele, mas Mary deu uma risadinha.
— Foi uma negociação mais inteligente do que você conseguiria fazer, né?
— Heh. Eu sou do tipo que vai empurrando, empurrando e empurrando. Não tô mirando em “inteligente” pra começo de conversa. O que importa são os resultados no fim.
Mary parecia não se incomodar mais com aquilo. Será que ela tinha superado? Talvez ter se aberto com eles sobre seus sentimentos tenha ajudado. Se fosse o caso, Haruhiro se sentia feliz por ela—como companheiro.
— Yume, eu estava pensando… — Shihoru sussurrou para Yume — Sobre a hospedaria. Talvez esteja tudo bem. Por enquanto…
— Hmm. Sim. Bom, também não tem motivo pra sair correndo, né?
Ela não estava dizendo isso porque a Mary metia medo… certo?
As duas estavam cochichando bem baixinho, mas parece que Ranta ouviu. Ele deu um sorrisinho e murmurou alguma coisa consigo mesmo. Algo como: ainda não consegui ver direito…
— …Não conseguiu ver direito?
— Hã?
Seus olhos cruzaram com os de Ranta.
Não conseguiu ver direito. Ainda. Ver o quê?
— Ah… — Quando Haruhiro percebeu, Ranta desviou o olhar. — …Cara. Não é sobre lembranças, ou sobre estar sozinho—é sobre isso…?
De repente, Ranta jogou os braços nos ombros do Haruhiro e do Moguzo, soltando uma risada toda pervertida.
— Isso quer dizer que a diversão só tá começando. Não me faz falar. É constrangedor.
— …Você é constrangedor.
— V-Verdade…
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui
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