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Hai to Gensou no Grimgar – EX 5: Capítulo 16 – Volume 14++

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – Ex 5:
[Capítulo 07: Antes do Amanhecer]


Oito horas da manhã, em frente ao portão norte de Altana. Eu nunca tinha chegado atrasada a um encontro. Costumava chegar antes de todo mundo. Naquele dia, não foi diferente.

— E é com esse climão, pessoal! Que eu apresento pra vocês a nossa nova amiga! A sacerdotisa, Mary! Vamos lá, deem uma salva de palmas bem animada…!

Quando o encaracolado Ranta gritou isso em um desespero total, o sonolento Haruhiro e o grandalhão Moguzo bateram palmas de forma hesitante. As outras duas só ficaram boquiabertas. Eram garotas. Uma parecia uma maga bem quietinha. A outra carregava arco e flechas, então devia ser uma caçadora.

Garotas. Elas realmente pareciam garotas, não exatamente material de soldados voluntários. Na verdade, ninguém naquela party parecia.

Você tá de brincadeira comigo…? Essa foi minha reação mais sincera. Achei que já tinha trabalhado com soldados voluntários bem variados. Alguns mais velhos, outros mais novos. Uns experientes, outros nem tanto. Mas nunca tinha visto um bando de crianças como aqueles.

Pareciam ter acabado de se tornar recrutas. Normalmente, depois de um ou dois dias nesse estilo de vida, a pessoa mudava um pouco.

Normal. De certa forma, talvez fossem eles os normais. Nós é que éramos os anormais. A gente tinha se adaptado. Querendo ou não. Pelo que eu sabia, todo mundo era assim. Essas crianças eram normais… mas estranhos.

— E-Essa é a Mary-san…

Quando Ranta apontou para mim de novo, a garota maga finalmente fez uma leve reverência e disse: — O-Oi…

— M-Muito prazer — disse também a garota caçadora.

O que eu deveria responder? As garotas estavam desconfiadas de mim. Claro que estariam. Era de se esperar. Mas não havia agressividade nisso. O tipo de desconfiança ao qual eu estava acostumada era mais combativo, quase hostil. Ou vinha com irritação e nojo. Desagrado. Com essas garotas, a desconfiança era tão misturada com confusão que eu mesma acabei ficando sem saber como reagir.

Não fazia ideia do que fazer. Puxei o cabelo para trás da orelha e olhei para o Haruhiro.

— São todos?

— É…

Olhei nos olhos dele, e Haruhiro rapidamente desviou o olhar. Aquela reação… era normal demais…

— Uhum. Somos todos. Com você, somos seis.

— Entendi — murmurei, soltando um risinho. Se eu não risse, não ia conseguir continuar com aquilo. Precisava mudar de postura. Isso estava difícil. Difícil demais.

— Tudo bem. Contanto que eu receba minha parte, não me importo. Vamos para Damuro?

— S-Sim… Acho que sim?

— Acho que sim? Seja direto.

— D-Damuro. A Cidade Velha. Caçar goblins… O resto, eu não sei.

— Certo, tanto faz. Então por que vocês não vão na frente? Eu acompanho.

— …Ei, sabe? — Ranta me olhou com olhos suplicantes. — N-Não dava pra você, tipo, mudar um pouco o jeito de falar, a atitude…?

— Hã?

— …N-Não, d-desculpa… Foi mal mesmo. Esquece…

Esse cara nem merecia atenção. Se eu conseguia calar a boca dele com tão pouco, então ele era fácil.

Não houve absolutamente nenhuma conversa durante a caminhada de uma hora até Damuro. Mesmo que tivessem tentado puxar assunto comigo, duvido que eu teria respondido. Sobre o que será que esses garotos costumavam conversar? Eu não conseguia nem imaginar. Só sabia que eles não combinavam comigo. Embora… ninguém mais combinasse.

Eu vim de longe, né…? Pensei de repente. Devia ter começado em um lugar parecido com o do Haruhiro e da party dele. Não foi um tempo fácil a ponto de eu dizer “aquela época era divertida”. Mas, sabe… talvez tenha sido divertido. Foi gratificante. Quando olho para esses garotos, sinto que posso me lembrar disso.

Mas eu não quero me lembrar.

Eu devia ter recusado esse trabalho.

Fiz besteira.

— …E se a gente encontrar eles de novo?

Foi o que Haruhiro murmurou, pouco antes de entrarmos na Cidade Velha.

— Se a gente encontrar — disse Ranta com um tom estranhamente sombrio —, temos que matar eles. Eu só vou ficar satisfeito depois de cortar aquele desgraçado de armadura e arrancar as orelhas do hobgoblin pra oferecer no altar do Lorde Skullhell.

— Mas… — a maga falou com um tom mais frio do que sombrio. Não combinava com ela. — A gente não tem chance. Do jeito que estamos agora, não dá para vencer.

Ranta bufou com desprezo.

— A gente luta mesmo sem chance.

— Se a gente acabar morrendo por isso… — a voz da caçadora tremia — …Se a gente morrer desse jeito, vai ser tudo em vão.

— Morrer não é bom. — Moguzo assentiu com força. — Não quero que mais ninguém morra.

Era estranho uma party não ter um curandeiro. Mais estranho ainda era nunca ter tido um. Isso era impossível.

— Alguém…

Comecei a dizer, mas mordi o lábio.

Não precisava perguntar.

Não era que eles nunca tivessem tido um curandeiro.

Eles perderam um.

Provavelmente morreu.

— …Vão ou não? Tanto faz, mas decidam logo.

Ranta desviou o olhar, estalando a língua com irritação.

— Vamos logo com isso, Haruhiro.

— Sim…

Os olhos do Haruhiro ficaram vagando, como se estivesse hesitando. Pensando bem… quem era o líder dessa party? Eu tinha a impressão de que era o Haruhiro, mas não dava pra ter certeza. Parecia uma party sem líder. Será que…

O curandeiro que morreu… era o líder deles?

Se for isso—se foi isso que aconteceu—, então foi o pior cenário possível.

Não. Foi o pior mesmo.

Esse trabalho me dá medo.

Medo demais.

Mesmo pensando assim, eu faria meu trabalho sem deixar transparecer. Era minha política. Mas, dessa vez, estava realmente difícil. Quando Haruhiro gaguejou ao dizer “V-Vamos lá”, confesso que fiquei bem para baixo. Como será que esses garotos caçavam? Não queria nem imaginar. Só esperava que tivessem noção do básico. Não era pedir muito… mas ainda assim, tive minhas esperanças destruídas.

Embora… não imediatamente.

A gente patrulhou a área, e Haruhiro até parecia um ladrão de verdade quando foi fazer reconhecimento, mas não encontramos nenhum alvo ideal.

Claro que não. Pelo jeito, esses garotos estavam se limitando a atacar apenas grupos com dois goblins ou menos.

Mas goblins não são idiotas. Eles sabiam que era mais seguro andar em grupo.

Não ia ter tantos goblins sozinhos ou em duplas.

Na minha experiência, goblins na Cidade Velha de Damuro costumavam andar em trios ou mais.

Como essa party conseguiria enfrentar três goblins juntos?

Esse era o primeiro obstáculo da caça na Cidade Velha. E, de certa forma, era ali que tudo começava.

Basicamente, esses garotos nem estavam na linha de partida ainda.

Ainda assim, se continuássemos daquele jeito, não conseguiríamos caçar nada, o que significava nenhuma renda. Haruhiro parecia ter tomado uma decisão.

O alvo que ele encontrou pouco depois do meio-dia era um grupo de três goblins.

Nas ruínas de uma construção destruída, havia um goblin com cota de malha e uma lança curta, e dois outros com roupas feitas de tecido de verdade—um com um machado e o outro com uma espada curta.

Haruhiro começou a explicar algo que lembrava uma estratégia.

— Primeiro, Yume e Shihoru atacam de surpresa o goblin da lança. Eu, Ranta, Yume e Mary vamos manter o goblin do machado e o da espada curta ocupados, então Moguzo e Shihoru eliminam o da lança. Se ficar difícil pros dois, eu ou o Ranta damos uma força. Depois que o goblin da lança cair, o resto vai ser tranquilo.

— Espera aí.

Não é que eu não esperasse por isso. Já suspeitava que esses garotos nem conheciam o básico da teoria. E era exatamente isso. Mas, mesmo assim, foi um choque. Será que eles não entendem? Foi por isso que perderam o companheiro.

— Por que eu deveria lutar contra goblins?

— Hã… I-Isso não tá certo…? Por quê…?

— Eu não vou para linha de frente. Eu sou uma sacerdotisa, o motivo deveria ser óbvio.

— Ei… — Ranta começou a responder de forma agressiva, mas se conteve. — …parceira.

— Parceira?

Fiquei irritada. Não com raiva. Não havia razão para ficar com raiva. Era só trabalho.

Para mim, isso é só um serviço.

Mas e para vocês? Tá tudo bem desse jeito?

Ranta hesitou.

— …V-Você? — corrigiu-se. Ele era o que tinha se intimidado, mas parecia não gostar nada disso. — Não, é estranho me referir a você assim… M-Mary!

— Cadê o -san?

— M-Mary…-san — uma veia saltava na têmpora do Ranta, e o corpo inteiro dele tremia.

Por que ele está tão indignado? É idiota, é?

— O-Olha, vocês sacerdotes sempre andam com aquele negócio, né? Aquele, como é que chama…? Cajado de sacerdote? Você tem um, né? Aquilo serve pra bater nos outros, não é? Ou é só de enfeite?

— Sim. É só de enfeite.

— Sua…!

— Sua?

— M-Mary…-san, você, não pode ser um pouco mais, tipo, mais… sei lá. Esquece. Faz o que quiser…

— Eu já ia fazer o que quero mesmo sem você me dizer isso.

— Mas é claro que ia! Hahahaha! Já imaginava! Droga, qual o problema dessa vadia…?

— Poderia evitar usar palavras tão imundas? Elas sujam meus ouvidos.

— M-Mil perdões! Desculpa mesmo! Se não gosta, por que não usa tampão de ouvido?

— Por que eu teria que me incomodar com isso?

— D-De qualquer forma… — Haruhiro interveio, coçando o pescoço, tentando impedir que a situação piorasse — Entendi o que você quis dizer. A Mary vai ficar na retaguarda até ser necessária. Hum, talvez perto da Shihoru seja o melhor. A Shihoru é maga, então também não vai para linha de frente. Deve estar tudo certo… né?

Ficar na retaguarda até ser necessária.

Essa era exatamente a função de um sacerdote.

Parece que ele finalmente entendeu.

A maga. Shihoru, era esse o nome?

Nem tinha ouvido o nome dela antes.

O que há com essas crianças?

Eles me irritam.

Se eu ficar irritada demais, pode atrapalhar meu trabalho.

— Parece razoável, suponho?

— B-Bem, vamos com isso então… Yume, Shihoru, por favor.

Quando Haruhiro chamou pelos nomes delas, a maga e a caçadora apenas assentiram em silêncio. Aparentemente, a caçadora se chamava Yume.

Yume e Shihoru estavam visivelmente irritadas. Devem me detestar mesmo, porque nem olhar na minha cara quiseram.

Bom, não que eu me importasse.

Talvez os três garotos nem tenham explicado direito por que eu estava ali.

Havia sinais que indicavam isso.

Se for o caso, até dá para entender as duas estarem desconfiadas.

Quer dizer, normalmente você diria alguma coisa, né?

Não era óbvio que a party toda deveria ter conversado sobre isso antes?

Eles não se comunicavam?

Mais do que inexperientes—eram piores que amadores. E nem pareciam se dar tão bem assim.

Sério mesmo, o que estava acontecendo aqui?

Haruhiro foi à frente da party, com Yume e Shihoru logo atrás.

Quando chegou ao local indicado, Haruhiro deu o sinal, e Shihoru começou a preparar uma magia, enquanto Yume armava seu arco.

Shadow Beat, hein?

A magia da Shihoru atingiu o goblin da lança.

Fez o goblin deixar a arma cair.

Mas a flecha da Yume errou o alvo.

Era uma arma de longa distância, então errar era algo esperado de vez em quando.

Mas não daquele jeito.

— …Isso foi horrível — murmurei, e Yume deu um salto, apertando o arco com mais força.

Você se concentra demais quando dispara a flecha.

Não é minha especialidade, e eu não sou sua companheira, então não vou te dizer isso diretamente.

Mas espero que perceba sozinha. Mesmo que seja difícil enxergar as próprias falhas.

— Não se preocupa com isso! — Haruhiro gritou para Yume enquanto sacava sua adaga.

Você ainda tem presença de espírito para tranquilizar a Yume, huh?

Impressionante, mas… não é nisso que deveria estar focando agora.

Moguzo e Ranta partiram para cima dos goblins.

O goblin do machado e o da espada curta se colocaram no caminho deles, e, nesse tempo, o goblin da lança se apressava para recuperar sua arma.

Haruhiro acertou um Backstab no goblin da espada curta. Foi só um arranhão.

Mas o goblin focou nele.

Ranta ficou com o goblin do machado.

Moguzo foi atrás do goblin da lança.

Ahh, mas o goblin da lança foi mais rápido.

Conseguiu pegar sua lança curta e atacou Moguzo com uma estocada.

Moguzo fez um bom trabalho encolhendo os braços e desviando com a espada bastarda.

Ele era bem habilidoso para alguém tão grande.

Yume sacou um facão e avançou.

Pelo jeito, ia apoiar o Haruhiro.

Foi uma atitude ousada, ainda mais para uma caçadora.

Diagonal Cross.

O goblin da espada curta saltou para trás e evitou o golpe, mas ainda assim foi um bom ataque.

Será que a Yume era melhor em combate corpo a corpo?

— Ohm, rel, ect, vel, darsh…!

Shihoru lançou outro Shadow Beat.

Parecia estar tentando ajudar Moguzo, mas o goblin da lança escapou.

O elemental das sombras invocado por Shadow Beat era lento. Difícil de acertar sem uma boa preparação.

Mas a pontaria da Shihoru era boa.

O goblin da lança se desequilibrou um pouco, e Moguzo aproveitou para desferir um golpe com a espada bastarda.

Mas estava longe demais.

Acertou só o ar.

Ele não conhecia o próprio alcance.

Será que nunca tinha lutado contra alguém com lança?

Ranta estava se atrapalhando contra o goblin do machado.

Não ia nada bem, mas será que ele não podia melhorar a forma como se movia?

Tinha muito movimento desperdiçado.

Era esse o estilo dos cavaleiros das trevas? Duvido. Cavaleiros das trevas se movem muito, sim, mas de forma mais precisa.

Ele parecia um sapo se debatendo em pânico.

Haruhiro e Yume estavam em vantagem numérica, dois contra um.

Eles ficariam bem.

Moguzo estava sendo pressionado por uma série de estocadas do goblin da lança, recuando cada vez mais.

Mas, contra alguém com lança, recuar assim só piorava as coisas.

Faltava experiência.

Ele não sabia como lutar.

Se eu fosse companheira dele…

Não. Mesmo se fosse, não estaria em uma posição de dizer “faz isso” ou “faz aquilo”.

— Ai…!

Ranta levou um corte na coxa esquerda e saltou para trás como um sapo.

Goblins eram mais baixos que humanos.

Ele precisava tomar cuidado com ataques na parte inferior do corpo.

Mas parecia que nem sabia disso.

— Yume, deixa esse comigo! Vai ajudar o Ranta com o goblin do machado!

Haruhiro queria que a Yume ajudasse o Ranta?

Ele estava observando a luta e não demorou muito para decidir.

Mas será que foi uma boa decisão?

Será que o Ranta realmente precisava de apoio agora?

— Mary, cura o Ranta! — ele pediu.

— Não — respondi imediatamente.

— Não?! Hã? Por quê, não?! — Ranta protestou.

— Não é um ferimento que exige tratamento imediato. Aguenta firme.

— …Mas que droga…! — Ranta descontou sua raiva no goblin do machado.

Tá vendo? Ele tá bem.

— Droga, droga, droga, droga! Só porque você é um pouco… quer dizer, muito bonita, não precisa se achar! Isso é uma merda! Uma merdaaaaa…!

— Você não tá com dor, Ranta?

— Tô com dor, sim! Com ódio…!

Ranta desceu sua espada longa em um golpe diagonal contra o goblin do machado.

Mas com um ataque tão óbvio, não tinha como acertar.

O goblin desviou com facilidade.

— Eu tô jorrando sangue, sabia?! É claro que dói! Dói pra caralho…!

O goblin da espada curta derrubou Yume com uma rasteira, e ela caiu de bunda no chão com um grito de surpresa.

Por um momento, quase fui ajudá-la, mas Haruhiro já estava lá.

Não dava para saber se viriam reforços inimigos, e eu precisava proteger a Shihoru.

Além disso, os goblins pareciam prontos para fugir.

— Seu…! — Haruhiro tentou se colocar entre o goblin da espada curta e Yume.

O goblin da espada curta correu. Estava fugindo.

Os outros goblins também.

Haruhiro ficou paralisado, sem reação.

Ranta estava frustrado.

Moguzo, Yume e Shihoru pareciam aliviados.

— Vocês estão exaustos — falei, sendo honesta.

Talvez não devesse ter dito isso.

Mas não consegui segurar.

Haruhiro me lançou um olhar fulminante, mas não respondeu.

Se tivesse falado uma palavra que fosse, tenho certeza de que eu não teria me controlado.

Bom para vocês. Ninguém morreu. Tiveram sorte dessa vez. Mas se continuarem assim, um dia a conta vai chegar. Não que isso seja problema meu. Não tem nada a ver comigo. Afinal, eu não sou companheira de vocês. E vocês provavelmente também não me veem assim. Nem eu.

Tenho uma sugestão. Por que vocês não desistem? Não acho que tenham o que é preciso pra serem soldados voluntários. Não foram feitos para isso. Claro, também não é fácil encontrar outro modo de vida.

Altana era uma base militar do Reino de Arabakia voltada para a reconquista das terras na fronteira.

Era só uma cidade-fortaleza.

O Exército da Fronteira estava aquartelado ali, e os soldados voluntários existiam para dar suporte a eles.

O Exército era formado por militares de verdade, então não era fácil entrar.

E os outros trabalhos já tinham gente demais.

Para entrar nas guildas dos ferreiros, dos artífices ou dos comerciantes, não bastava ter dinheiro—e ainda assim te fariam trabalhar pesado por quase nada.

Se fosse mulher, dava para arrumar algo nas tavernas ou em “outros tipos de negócio”, mas ainda assim não seria uma vida fácil.

No fim, a única opção era mesmo ser soldado voluntário.

Era de se suspeitar que havia uma conspiração para forçar todo mundo a isso.

Terminamos o trabalho do dia.

Chamar de “trabalho” era bondade. Não ganhamos nada.

Na verdade, saí no prejuízo.

Naquela noite, não fui até a Taberna Sherry.

Fiquei no meu quarto.

Felizmente, a estalagem onde eu alugava um quarto tinha um banho decente.

Era possível tomar um longo e relaxante banho sozinha, tarde da noite, então quase sempre escolhia esse horário.

Sempre fui uma pessoa noturna. Quase nunca dormia cedo.

A água do banho estava morna.

Precisava colocar mais água quente para acertar a temperatura.

Era um saco, mas eu já estava acostumada.

Se eu pudesse lavar o corpo e o cabelo, e depois mergulhar em uma banheira com a temperatura ideal, conseguia dar um reset nos meus sentimentos.

Como soldada voluntária, não era como se eu não conseguisse aguentar ficar sem tomar banho.

Mas, para ser honesta, se não fosse por esse ritual que fazia na estalagem, já teria perdido o equilíbrio mental há muito tempo.

No entanto, esse ritual tinha uma falha.

Durante o banho, eu tentava esvaziar a mente, mas era difícil alcançar esse estado de vazio.

Às vezes, acabava pensando em coisas que não precisava.

Será que vou sair para caçar com aquelas crianças de novo amanhã?

A pergunta pesava em mim.

Meu estômago doía.

Talvez eu devesse recusar.

Nunca abandonei um trabalho depois de aceitar.

Mas será que havia necessidade de insistir nisso?

Talvez estivesse tudo bem. Eu podia desistir.

Mesmo assim, hesitava em fazer isso sem dizer nada.

Teria que falar com eles pessoalmente.

Não posso trabalhar com vocês. Não quero morrer sendo arrastada junto.

Vocês querem morrer, não é? É por isso que são tão desorganizados, certo? Se querem morrer, então morram. Só não me arrastem junto—Não.

Isso não está certo.

Se quisessem morrer, não teriam ido atrás de uma sacerdotisa como eu.

Aquelas crianças estavam fazendo o melhor que podiam, do jeito delas.

Só não eram boas nisso.

Provavelmente estavam sofrendo por causa disso, porque não importa o que fizessem, nada dava certo.

Deve ser frustrante. Doloroso.

Era assim conosco também.

As coisas estavam indo bem, mas tropeçamos. E falhamos, às vezes.

Mas superamos isso. Seguimos em frente.

Porque conseguimos superar, ficamos convencidos. E cometemos um erro fatal.

Todo mundo erra.

Às vezes, a linha entre um erro recuperável e um erro fatal é bem tênue.

Todos aprendemos com os erros. Para não repetir.

Dá até para dizer que, enquanto não morremos, ganhamos o direito de errar de novo.

Enquanto aquelas crianças não morressem, o amanhã poderia ser melhor que hoje.

Elas seriam capazes de lidar um pouco melhor com a situação.

Se conseguissem viver hoje e amanhã…

— Vamos trabalhar mais um pouco — murmurei, deixando os lábios afundarem na água.

Não era companheira deles. Mas podia trabalhar.

Faria meu trabalho como sacerdotisa.

Para que aquelas crianças pudessem viver até amanhã.

Até o dia em que se cansassem de mim—que só sabia trabalhar.

Até lá, faria meu trabalho. Era só isso que me restava. Não havia mais nada pra mim agora.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
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