Hai to Gensou no Grimgar – EX 5: Capítulo 12 – Volume 14++

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – Ex 5:
[CapĂ­tulo 03: Liberdade Individual]


Encontrei uma estalagem e saĂ­ da hospedaria. Era um lugar onde apenas mulheres podiam se hospedar, entĂŁo nem mesmo Hayashi poderia me visitar.

Foi mentira quando disse que tentaria seguir por conta própria. Eu não tinha a menor intenção de tentar. Mas também não podia simplesmente não fazer nada. Só o fato de estar viva jå custava dinheiro. O que eu tinha guardado na Companhia de Depósitos Yorozu acabaria em um futuro não muito distante.

Sem nenhuma pista, decidi ir até o escritório do Esquadrão de Soldados Voluntårios. Vou pedir conselhos à Britney, pensei, mas quando chegou a hora, não consegui nem ao menos entrar.

Enquanto eu estava parada bem em frente ao prĂ©dio, ouvi uma voz me chamar por trĂĄs: — Ei, vocĂȘ aĂ­, o que foi?

Quando me virei, vi um homem sorridente, com o porte tĂ­pico de um guerreiro.

— Sabe, vocĂȘ tĂĄ aĂ­ parada faz um tempo jĂĄ. Achei meio esquisito. DĂĄ pra entender por que eu fiquei preocupado, nĂ©?

O homem era um sujeito comum, mas faltava um dos dentes da frente, e tambĂ©m um dos incisivos do lado direito, o que lhe dava uma aparĂȘncia meio boba. E ainda por cima tinha um nome estranho. NĂŁo era o nome verdadeiro dele, mas se apresentou como Maron.

Tudo o que eu disse foi que tinha deixado minha party, e que estava procurando trabalho.

— Nesse caso — disse Maron, como se estivesse prestes a me fazer uma proposta —, eu tĂŽ numa coisa chamada UniĂŁo Livre. Que tal dar uma olhada? NĂŁo Ă© um clĂŁ, tĂĄ? Os soldados voluntĂĄrios freelancers participam nos prĂłprios termos, formam e desfazem partys quando quiserem. É um tipo de associação mais solta mesmo. E vocĂȘ pode entrar e sair da uniĂŁo quando quiser tambĂ©m, claro. Pode tentar montar uma party e, se der certo, continuam juntos. Isso acontece Ă s vezes, entĂŁo pode ser uma boa pra procurar companheiros.

Parecia perfeito para mim. Maron me levou a um bar no Beco Celestial onde os membros da tal UniĂŁo Livre costumavam se reunir, e me apresentou a todos. NĂŁo era tĂŁo grande quanto a famosa Taberna Sherry, mas ainda assim era um lugar considerĂĄvel, com umas vinte pessoas por ali. Parecia que mais da metade fazia parte da UniĂŁo Livre.

— NinguĂ©m aqui Ă© muito rĂ­gido, viu? TĂŽ falando sĂ©rio. Pode ficar tranquila.

Foi o que Maron disse, mas eu estava tensa, e passei a maior parte do tempo olhando para o chão. Mesmo quando alguém puxava conversa comigo, eu mal conseguia responder. Serå que só uma pessoa assim jå deixava o clima todo esquisito? Isso me preocupava, mas agir normalmente ou fingir estar alegre estavam totalmente fora do meu alcance.

— Bom, por ora, que tal tentar entrar numa party comigo? Eu junto mais quatro pessoas aleatórias. Vamos nas Minas Cyrene amanhã.

— Minas Cyrene…! — escapou da minha boca antes que eu percebesse.

O bar ficou em silĂȘncio, e uma sensação de constrangimento me atravessou o coração como mil agulhas.

— …Desculpa. NĂŁo estou muito bem pras Minas Cyrene.

— Ah, tranquilo. Entendi. Beleza. Então vamos pra outro lugar.

Rindo, Maron me tranquilizou, dizendo que estava tudo bem.

— Deixa comigo. Conheço uns lugares legais. Mas vai ser uma viagem longa, tĂĄ? Tudo certo? SĂŁo umas trĂȘs noites… Um dia pra ir, um pra voltar, entĂŁo dĂĄ isso aĂ­. Se prepara, e a gente se encontra amanhĂŁ no portĂŁo norte, beleza?

Eu estava insegura. Mas me obriguei a seguir em frente, pensando que precisava fazer isso. Talvez eu não tivesse mentido para o Shinohara, no fim das contas. Eu realmente tinha deixado Orion com a intenção de me esforçar.

Se eu ficasse em Orion—se eu ficasse com Hayashi, não conseguiria olhar para frente. Toda vez que eu olhasse para frente, veria as costas do Hayashi ali. Aquela era uma visão estranha pra mim.

NĂŁo o fato de Hayashi estar lĂĄ. Mas o fato de sĂł Hayashi estar lĂĄ. Isso era insuportĂĄvel.

Se Hayashi estava ali, então é claro que Michiki e Ogu também tinham que estar. E Mutsumi, ela tinha que estar ao meu lado. Mas eles não estavam. Meus companheiros não estavam em lugar nenhum. E nunca mais estariam.

Essa dor me atingia a cada segundo. Era mais do que eu conseguia aguentar.

Queria tentar sĂł mais uma vez. Para conseguir sobreviver pelos companheiros que deixei morrer. Foi por isso que deixei Orion. Foi por isso que me afastei de Hayashi.

Me sentia mal por Hayashi e por todos em Orion que haviam sido tĂŁo bons comigo, mas… era tudo o que eu podia fazer.

Na manhã seguinte, quando nos reunimos no portão norte, estavam lá: Maron, o guerreiro; Ryuki, o caçador; Ohjika, o outro caçador; Ponkichi, o ladrão; Jin’e, o ex-paladino; e eu—seis pessoas no total.

O lĂ­der da party nĂŁo era Maron, mas Jin’e, que tinha uns trinta e trĂȘs anos, ou algo assim, e era o mais velho de todos.

Ryuki e Ohjika eram magros, e cada um carregava um arco enorme. Pareciam irmĂŁos.

Ponkichi era baixinho, e tinha um jeito ĂĄgil, como se esperaria de um ladrĂŁo.

Embora Jin’e fosse o líder, era Maron quem guiava a party. Saímos de Altana e seguimos para o norte. Se continuássemos naquela direção, entraríamos em uma floresta. Ao sairmos da floresta, chegaríamos à Fortaleza de Observação Deadhead, onde os orcs haviam posicionado uma força para monitorar qualquer movimento dos humanos. Maron evitou tanto a floresta quanto a fortaleza, optando por um caminho pelas Planícies dos Ventos Rápidos. Fica a cerca de doze quilîmetros de distñncia. Como não estávamos andando tão rápido, levamos pouco menos de quatro horas.

— Ryuki, Ohjika.

Jin’e fez um gesto com o queixo, e os dois caçadores passaram para a frente da party, enquanto Maron recuava e se posicionava ao meu lado. De repente, ele ficou muito falante.

— TĂĄ curiosa pra saber por que o Jin’e Ă© um ex-paladino, nĂŁo Ă©?

— Bem… Estou, sim.

Era verdade que um ex-paladino era algo incomum. NĂŁo era raro um soldado voluntĂĄrio sair de uma guilda e entrar em outra. Mas, nesse caso, costumavam se chamar de guerreiro ex-paladino, ou algo assim—um guerreiro que jĂĄ foi paladino. Jin’e, Ă  primeira vista, parecia mesmo um paladino. Apesar da capa preta, usava uma armadura esbranquiçada, e o elmo tambĂ©m era branco. No entanto, onde deveria haver o hexagrama no peito, sĂł havia marcas de arranhĂ”es. Provavelmente ele mesmo tinha raspado fora. Ele dizia ter trinta e trĂȘs anos, mas jĂĄ tinha fios brancos nos cabelos longos jogados para trĂĄs e na barba, o que o fazia parecer mais prĂłximo dos quarenta.

— EntĂŁo, Mary, paladinos conseguem usar magia de luz, tipo os sacerdotes. Mas tem uma diferença na magia de luz que cada um usa. VocĂȘ Ă© sacerdotisa, entĂŁo deve saber disso, mas…

— Paladinos não conseguem curar os próprios ferimentos.

— Isso aĂ­! Mas, olha sĂł… existe uma magia chamada Crime. É tipo Ășltimo recurso, sabe? Um feitiço incrĂ­vel que cura todos os ferimentos do paladino na hora. Tipo o Sacrament, sĂł que sĂł funciona nele mesmo.

— O preço Ă© perder a bĂȘnção de Lumiaris — Jin’e interrompeu. — Eu usei uma vez. SĂł… sĂł nĂŁo queria morrer.

— Aí ficou desempregado — disse Maron, dando de ombros com um sorriso.

— Qualquer paladino que usa o Crime Ă© expulso automaticamente da guilda dos paladinos. Mas, nĂ©? VocĂȘ sĂł pode continuar em uma guilda se estiver vivo. Ele sobreviveu, entĂŁo era hora de mudar. Virar guerreiro, ou outra coisa. Era o que eu teria feito. Mas o Jin’e Ă© diferente. Desde entĂŁo, nunca mais entrou em guilda nenhuma. É por isso que ele Ă© sĂł um ex-paladino.

— NĂŁo estou mais na fase de implorar por instrução de ninguĂ©m. SĂł isso — disse Jin’e com uma risada cheia de autodepreciação. Mas havia algo em seu olhar. Como se tivesse perdido algo precioso… e carregasse feridas que jamais se curariam.

Ainda assim, ele seguia vivendo. E mais: nĂŁo fazia questĂŁo de esconder essas feridas. Viviam Ă  mostra.

Serå que um dia eu conseguiria viver assim? Não tinha confiança.

Mas, com certeza, era isso o que eu queria.

Feridas doem, e sĂŁo feias. Se eu puder escondĂȘ-las, quero esconder. Quero apagar. Se possĂ­vel, quero fazer com que nunca tenham existido.

Mas… ao que parece, nĂŁo era bem isso o que eu sentia de verdade.

As feridas criam crostas, as crostas caem, e as cicatrizes vão sumindo com o tempo. A dor também vai passando aos poucos. Mas eu não precisava disso. Estava bem com a dor.

Provavelmente era nisso que eu acreditava.

Com os caçadores indo à frente para nos ajudar a evitar feras perigosas e rotas arriscadas, seguimos andando até o fim da tarde, até finalmente chegarmos ao lugar.

Era um vale. Ou talvez fosse melhor chamar de ravina seca. NĂŁo havia nenhum riacho passando por lĂĄ. O vale tinha um formato de cruz, apontando para o nordeste. Ao sudeste, sudoeste e noroeste, as encostas eram Ă­ngremes demais para descer, mas a encosta ao nordeste era mais suave—parecia ser possĂ­vel descer por ali atĂ© o fundo do vale.

NĂŁo, nĂŁo era sĂł impressĂŁo. Com certeza dava para descer por ali. Era o Ășnico caminho para chegar ao fundo.

Era um vale bem fundo, e lĂĄ embaixo jĂĄ era bem escuro.

Mesmo parada na borda do precipĂ­cio, eu conseguia distinguir vagamente as formas que se contorciam lĂĄ embaixo.

— …Servos do No-Life King.

— Acertou — disse Maron, batendo palmas com alegria. — Isso Ă© sĂł um palpite meu, mas acho que zumbis e esqueletos detestam a luz do sol. É por isso que geralmente andam por aĂ­ sĂł Ă  noite. AĂ­, quando amanhece, eles procuram um lugar escuro pra descansar. E esse lugar acabou sendo aqui… ou pelo menos Ă© o que eu imagino. SĂł crescem uns arbustos por aqui, nem colina alta tem, quem dirĂĄ montanha. É o Ășnico lugar com sombra suficiente na regiĂŁo, entĂŁo o resultado foi natural. Pelo menos Ă© o Ășnico lugar que eu conheço assim, mas deve ter outros por aĂ­.

— …E o que vamos fazer? Se a gente descer…

— Vai ser perigoso, claro. Se todos eles vierem pra cima de uma vez, complica. Por isso a gente escolhe um alvo e puxa ele pra cĂĄ. EntĂŁo, o Ryuki e eu vamos servir de isca. Os outros quatro ficam escondidos em algum lugar. AĂ­, quando a gente trouxer o bicho, todo mundo ataca. Mas Ă© mais fĂĄcil mostrar do que explicar, nĂ©, Mary? Todo mundo aqui jĂĄ tem experiĂȘncia com isso, menos vocĂȘ. EntĂŁo nĂŁo precisa se preocupar. SĂł observa por enquanto. JĂĄ tĂĄ ficando tarde, entĂŁo vamos fazer sĂł uma tentativa hoje.

Jin’e, Ohjika, Ponkichi e eu nos posicionamos ao nordeste do vale, enquanto Maron e Ryuki desciam com agilidade pela encosta.

Ficamos em silĂȘncio. NinguĂ©m falou nada—nem mesmo eu. Maron era falante, mas os outros quase nĂŁo abriam a boca. Isso ajudava.

Eu costumava conversar muito com Michiki e o resto da party. Todo mundo gostava de bater papo, e eu nĂŁo era exceção. Mas aquilo nĂŁo era por natureza. Eu sĂł… me entrosava bem com eles, e era divertido.

Agora, eu podia ficar horas sem dizer uma palavra. Ficar calada nĂŁo me incomodava em nada. Na verdade, se nĂŁo houvesse necessidade de falar, eu preferia ficar quieta.

Passou um tempo até que Maron e Ryuki voltassem correndo. Algo os perseguia.

Seria humano? Parecia pequeno demais. Além disso, andava cambaleando, com o corpo torto para um lado.

— É um zumbi, com certeza — Ponkichi sussurrou, soltando uma risadinha estranha. Aquele homenzinho nĂŁo sĂł tinha uma cara desleixada e grosseira, como o jeito de se equipar e de se mover tambĂ©m era vulgar. — É um nanico. Devia ser um anĂŁo. Ou entĂŁo uma criança humana, ou elfa.

— VocĂȘ tambĂ©m Ă© um nanico. — retrucou Ohjika, cutucando Ponkichi. Ohjika, que lembrava Ryuki, passava uma impressĂŁo de limpeza… desde que mantivesse a boca fechada. Mas no momento em que falava, sua grosseria vinha Ă  tona.

— Preparem-se — disse Jin’e com uma Ășnica palavra, e Ponkichi e Ohjika prontamente empunharam suas armas.

Ainda assim, era estranho. Por que nunca tinha pensado nisso até agora?

Zumbis.

Restos de mortos sem alma, sem coração, movidos pela maldição do No-Life King.

Michiki. Ogu. Mutsumi.

Meus companheiros perderam a vida nas Minas Cyrene.

Eu e Hayashi não saímos de lå com facilidade. Eståvamos desnorteados, em choque, lutando para sobreviver, então não me lembro direito, mas tenho certeza de que demoramos bastante para sair das minas. Mais de um dia inteiro, provavelmente. Mesmo depois de voltarmos para Altana, não eståvamos em condição de pensar direito.

É claro que querĂ­amos dar a eles um enterro digno. Trazer os corpos, cremĂĄ-los e erguer uma lĂĄpide no morro. Mas por mais que quisĂ©ssemos—por mais que fosse necessĂĄrio—jĂĄ era tarde demais.

Eu e Hayashi voltarmos Ă s minas para procurar pelos trĂȘs? Completamente impossĂ­vel. Eles tinham sido mortos por aquele famigerado Death Spots. SĂł de considerar caçar os corpos jĂĄ era correr um risco enorme.

AlĂ©m disso, como sacerdotisa, eu sabia da maldição terrĂ­vel que podia ser ativada em apenas trĂȘs dias apĂłs a morte. Mesmo que conseguĂ­ssemos ajuda, nĂŁo daria tempo.

Sonhei com isso vĂĄrias vezes. Michiki, Ogu e Mutsumi… surgindo diante de mim como cadĂĄveres ambulantes. Os trĂȘs estavam mortos, entĂŁo nĂŁo podĂ­amos mais conversar. Mas eu conseguia ouvi-los.

“Por que nos abandonou?”

“Por que fugiu?”

Era o que me perguntavam. Eu nĂŁo tinha respostas. SĂł podia continuar pedindo desculpas.

No fim, os trĂȘs sempre me atacavam.

Cada vez que tinha esse sonho, sentia que estava manchando o orgulho dos meus companheiros caídos—e eu não conseguia me perdoar por isso.

Se eles me odiassem por aquilo, se sentissem rancor, eu nĂŁo teria como culpĂĄ-los. Mas os trĂȘs que conheci jamais me culpariam, mesmo que a culpa fosse minha.

E mesmo assim, nos meus sonhos, eles me criticavam.

Eu estava rebaixando quem eles foram. Se eu queria me punir, que fosse eu a sofrer com isso. Mas em vez disso, joguei esse peso sobre eles.

Eu nĂŁo era justa.

Era cruel. DesprezĂ­vel.

A perna esquerda do zumbi que perseguia Maron e Ryuki… olhando melhor, parecia estar quase rasgada fora do corpo. Havia um ferimento na parte inferior das costas, tĂŁo profundo que dava para ver a coluna. Por isso ele se arrastava daquele jeito.

Seja qual fosse sua raça em vida— humano ou não—o destino dele provavelmente foi o mesmo de Michiki, Ogu e Mutsumi.

Encontrou uma morte indesejada, e, sem receber um funeral, acabou transformado em servo do No-Life King.

Michiki e os outros podiam estar vagando nas Minas Cyrene daquela forma.

Não consegui encarar o zumbi. Virei o rosto. Minha visão girava. O coração doía. Um zumbido enchia meus ouvidos.

— Ataquem — ordenou Jin’e.

Eu nĂŁo me movi. Nem mesmo consegui assistir Ă  cena.

As vozes dos homens ecoaram, misturadas a outros sons. Não estavam simplesmente abatendo o inimigo—estavam pulverizando ele.

— Molezinha — riu Maron.

— Devem ter escolhido bem o alvo — disse Ryuki.

Os outros concordaram.

Eu olhava para o chão. Não estava agachada, mas ainda assim permanecia de pé, de algum jeito.

— Mary?

A voz me chamando veio tĂŁo de perto que me pegou de surpresa. Quase dei um pulo ao olhar para cima. Era Maron.

— O quĂȘ? — tentei dizer. Mas a voz nĂŁo saiu. EntĂŁo apenas assenti com a cabeça.

— O que foi? Tá bem?

— …Estou. — Forcei a palavra a sair. — NĂŁo Ă© nada.

— É mesmo? Bom, beleza então — Maron recuou facilmente.

SerĂĄ que consegui esconder? NĂŁo tinha certeza.

Ao que parecia, o zumbi tinha sido um anĂŁo, pois carregava vĂĄrios itens feitos de mithril—um metal que sĂł os anĂ”es conseguiam minerar e forjar. Um deles era um anel, e Maron me entregou.

— Aqui, vou te dar esse, Mary. TĂĄ tudo certo, nĂ©, Jin’e?

— Faça como quiser.

— Todo mundo de acordo? NĂŁo ouvi nenhum protesto. EntĂŁo tĂĄ aĂ­. Pode pegar. Considere um presente de boas-vindas Ă  UniĂŁo Livre. Dizem que anĂ©is de mithril afastam demĂŽnios.

Guardei o anel no meu bolso sem nem olhar direito. NĂŁo queria aquilo. NĂŁo precisava daquilo. Mas se recusasse, Maron com certeza ia encher o saco. Ele era assim, difĂ­cil de lidar.

Por isso, resolvi aceitar em silĂȘncio.

Por que, afinal, eu tinha me juntado à União Livre e vindo para esse Vale de Zumbis? No fim das contas, foi por dinheiro. Para ganhar algo. Com certeza, eu poderia vender o anel de mithril por um bom preço. Se ele disse que estava me dando, então eu pegaria. Mas não precisava ser grata.

Se eu visse aquilo como uma dĂ­vida, teria que retribuir de alguma forma. E isso era perigoso. Podiam se aproveitar de mim.

Montamos acampamento a cerca de uma hora do Vale dos Zumbis. Maron e os outros tinham apenas uma tenda. Quando eu ainda me perguntava onde iria dormir, disseram que eu podia usar a tenda sozinha. Os homens dormiriam ao relento. Eles também fariam turnos de vigia, então eu podia dormir tranquila até de manhã.

— NĂŁo precisam me tratar de forma especial…

— Mas vocĂȘ Ă© especial — disse Maron, em tom de brincadeira. — É a Ășnica garota aqui. Temos que tratar vocĂȘ com um certo cuidado. NĂŁo consigo te tratar como um dos caras.

— Quer dormir do meu lado, entĂŁo? — disse Jin’e, com uma risada fina e sarcĂĄstica. — Consegue tirar a roupa e se trocar na nossa frente? Ou fazer xixi? Se nĂŁo, entĂŁo nĂŁo tem escolha: vai ser tratada de forma especial. Isso Ă© Ăłbvio. Melhor aceitar logo.

A maneira direta como ele falou até facilitou as coisas. Aceitei e decidi usar a tenda sozinha.

Mesmo assim, mesmo depois de forçar a comida de trilha que tinha trazido comigo e me deitar, não consegui dormir.

A fina camada da tenda era tudo o que me separava de cinco homens que eu mal conhecia. E estĂĄvamos nas PlanĂ­cies dos Ventos RĂĄpidos. Bem longe de Altana.

Se eu parasse para pensar, essa situação era claramente perigosa.

O que significava que… eu nĂŁo tinha parado para pensar. Apenas vim junto, sem me preocupar.

Fui uma idiota. Uma completa e absoluta imbecil.

Talvez eu tivesse baixado a guarda porque Michiki, Ogu e Hayashi nunca seriam capazes de fazer algo assim.

Na verdade, nunca tive uma experiĂȘncia horrĂ­vel desse tipo, e por isso nunca senti medo. Pelo menos, nĂŁo em Grimgar.

Antes disso… nĂŁo tenho certeza. NĂŁo me lembro, afinal.

Mas talvez nĂŁo fosse verdade que eu nunca tinha passado por isso.

SerĂĄ que eu era como uma mariposa, atraĂ­da pela chama? Tinha caĂ­do direto em uma armadilha?

Quando o medo começou a tomar conta, meu corpo começou a tremer—e não parou mais.

Do lado de fora, eles haviam acendido uma fogueira.

Dava pra ver a luz através da tenda, mas não via as sombras deles. Ainda assim, podia sentir sua presença.

Se eu prestasse atenção, ouvia as vozes. Ryuki e Ohjika estavam de vigia, pelo jeito. Conversavam sobre alguma bobagem e riam.

Maron, Jin’e e Ponkichi estavam dormindo?

Ryuki e Ohjika pareciam ser do tipo que, juntos, podiam fazer qualquer coisa—não importava quão horrível fosse.

Claro, isso era só coisa da minha cabeça. Eu podia estar completamente errada. E se estivesse, estaria sendo muito mais horrível do que eles.

Era fato que eu era uma pessoa egoĂ­sta e terrĂ­vel.

Ainda assim, Ryuki e Ohjika nĂŁo pareciam do tipo que lideravam alguma coisa.

Dava a impressĂŁo de que, em vez de pensar e agir por conta prĂłpria, estavam mais propensos a seguir o plano de outra pessoa.

Eu nĂŁo conhecia Ponkichi muito bem. Mas os outros quatro claramente zombavam dele.

Mesmo assim, Ponkichi não parecia se importar. Até parecia gostar das provocaçÔes, e demonstrava certa tranquilidade estando no fundo da hierarquia.

E o Jin’e?

Mesmo depois de perder a proteção de Lumiaris, ele manteve sua integridade e seguiu em frente como um ex-paladino.

Tinha aparĂȘncia e atitudes rudes, mas talvez fosse um sujeito honrado.

NĂŁo era exatamente um cara mau. Essa era a impressĂŁo que eu tinha.

Na verdade, o mais suspeito de todos era o Maron.

Afinal, foi ele quem veio falar comigo, nĂŁo foi?

E, fala sĂ©rio… que tipo de nome era “Maron”?

Até o nome dele parecia suspeito.

Aquela atitude relaxada dele. Aquela låbia. Até agora, ele não tinha feito nada estranho comigo. Tinha sido gentil.

E isso também era suspeito.

Tomando cuidado para nĂŁo fazer barulho, tirei o anel de mithril.

Seria isso uma prova das segundas intençÔes dele?

Se fosse, era óbvio demais. Serå que ele achava mesmo que podia chamar minha atenção com algo que roubou de um zumbi?

Ele tinha dito que o anel protegia contra demĂŽnios.

Serå que isso incluía os demÎnios dos sonhos também?

Se eu dormisse usando ele, serĂĄ que me livraria dos pesadelos?

RidĂ­culo.

Tentar escapar dos pesadelos depois de ter deixado meus companheiros morrerem.

Eu devia era estar grata por Michiki, Ogu e Mutsumi ainda aparecerem nos meus sonhos.

Normalmente, nem isso deveria acontecer. Eu nĂŁo tinha o direito de olhar para eles. Nem ali.

Talvez eu merecesse passar por alguma coisa ruim.

Se Maron estava tramando algo, tudo bem.

Que fizesse o que quisesse comigo.

Eu nĂŁo ligava mais para o que acontecesse comigo.

Se eu dissesse algo assim, Michiki ficaria furioso.

Ogu ficaria triste.

E Mutsumi me daria uma bronca suave.

Me repreenderia.

Diria: “Mary, o que vocĂȘ tĂĄ fazendo? Para de ser descuidada, se concentra!”

Por favor…

Acho que acabei cochilando um pouco. Não, não foi só um pouco—deve ter sido uma ou duas horas.

NĂŁo sonhei.

Em algum momento, eu tinha apertado o anel de mithril na mĂŁo.

NĂŁo queria acreditar que foi por causa do anel que os pesadelos nĂŁo vieram.

JĂĄ fazia tanto tempo que eu nĂŁo dormia direito que nem parecia ter descansado.

Minha cabeça estava pesada. Sentia enjoo. Tudo me dava um mal-estar.

Tentei me sentar. Queria sair da tenda e tomar um pouco de ar fresco.

Foi então que a “porta” da tenda se mexeu.

Chamar de porta era exagero— era só uma aba de tecido, com fechos do lado de dentro para manter fechada.

NĂŁo era uma porta com chave.

Se enfiar um dedo na fresta, ela abre fåcil. Då até pra cortar os fios por fora.

Alguém enfiou a mão pela fresta.

E estava espiando lĂĄ dentro.

Me observando.

Reflexivamente, fingi que ainda estava dormindo.

SerĂĄ que foi certo?

NĂŁo era melhor eu ter me levantado e perguntado o que achavam que estavam fazendo?

A pessoa puxou a mĂŁo de volta.

Se afastou da tenda.

Parecia ter ido se sentar perto da fogueira.

— …Como ela tĂĄ?

— TĂĄ dormindo. O que vocĂȘ pretende fazer com aquela mulher?

Maron e Jin’e.

Pelo jeito, foi o Jin’e que tinha espiado dentro da tenda.

— Sei lĂĄ… Hmm. Acho que ela tĂĄ sofrendo agora. Se eu conseguir conquistĂĄ-la, quero tentar. Sabe como Ă©, prefiro que seja consensual, em vez de estupro, entende?

— Como se eu me importasse com as suas preferĂȘncias.

— Mas, cara, fazer Ă  força? Às vezes tambĂ©m tem seu charme. A gente fez isso com a Ășltima.

— Aquilo não foi ruim.

— VocĂȘ Ă© um brutamontes simplĂłrio. Aposto que nĂŁo consegue se excitar se nĂŁo for forçando, nĂ©? VocĂȘ adora passar elas pra frente, nĂŁo Ă© isso?

— NĂŁo entendo como alguĂ©m consegue ser gentil com uma mulher.

— O quĂȘĂȘĂȘ? SĂ©rio? É legal. Ter um momento carinhoso com uma garota bonitinha. E a Mary Ă© uma bela mulher. Ia ser divertido flertar com ela. Com certeza. Ia ser divertido.

— Por que perder tanto tempo só pra poder comer uma mulher?

— Porque vale o esforço, uĂ©. O retorno compensa. VocĂȘ que nĂŁo tem emoção nenhuma, nĂ©, Jin’e?

— Se eu jĂĄ provei uma mulher uma vez, jĂĄ Ă© o suficiente.

— Bom, dĂĄ pra entender ficar entediado. Nesse sentido, Ă© mais fĂĄcil quando nĂŁo fica aquele gosto ruim depois.

— Aquela mulher nunca vai ceder pra vocĂȘ.

— É mesmo…?

— Ainda tenho olho pra essas coisas. Não que eu precise dele.

— Ah, Ă©? Pra alguĂ©m que diz nĂŁo ligar, vocĂȘ Ă© bem esperto nessas horas. SerĂĄ que Ă© a diferença de experiĂȘncia de vida? Hmm… EntĂŁo quer dizer que nĂŁo vou conseguir conquistar ela, nĂ©? EntĂŁo, que tal a gente pegar ela agora?

Maron disse aquilo como se nĂŁo fosse nada demais, mas eu senti como se fosse sufocar.

Isso era grave. NĂŁo, era pior do que grave.

NĂŁo era sĂł o Maron. Jin’e tambĂ©m.

“Honrado”? “NĂŁo era um cara mau”? Hah. Pelo que eu tinha acabado de ouvir, ele era um estuprador em sĂ©rie.

Mesmo o Maron, que aparentemente tentava me seduzir, parecia mais “humano” do que isso.

NĂŁo que eu quisesse chamar nenhum dos dois de humano.

Isso nĂŁo vai dar certo. Eles vĂŁo me pegar.

VĂŁo me atacar.

O que eu posso fazer?

Se eu ficar aqui dentro, vou estar encurralada como um rato.

É isso. Eu não posso ficar na tenda.

Tenho que fugir.

Decidido.

Eu vou sair daqui.

Respirando sĂł pelo nariz, minha mente disparou.

SĂł os dois estavam acordados.

Maron e Jin’e. Dois homens.

Se eu me lembrava bem, depois que acenderam a fogueira, tiraram a armadura.

Ia ser difĂ­cil despistar eles em uma corrida.

Mas, mesmo pegando os dois de surpresa, serĂĄ que daria certo?

Eles nĂŁo eram civis. Eram soldados voluntĂĄrios.

Tinham resistĂȘncia.

Eu nĂŁo queria entrar em uma corrida com eles.

O começo era crucial.

Precisava abrir vantagem com um bom arranque e fazer com que desistissem.

EstĂĄvamos nas PlanĂ­cies dos Ventos RĂĄpidos.

E era bem tarde da noite.

Eles nĂŁo iam me perseguir por muito tempo.

JĂĄ tinha um plano.

Ia abrir mĂŁo das minhas coisas.

SĂł iam me atrapalhar.

Levaria sĂł o dinheiro.

Maron e Jin’e ainda não tinham se mexido.

Eu podia agir primeiro.

Pressionei o peito com a mão, como se tentasse forçar o coração—que queria saltar pela boca—a ficar no lugar.

NĂŁo era hora de hesitar.

Com os dedos tremendo, desatei os fechos da tenda.

LĂĄ fora, o silĂȘncio era total.

Estou com medo. Estou com medo. Estou com medo.

De quĂȘ? Isso Ă© assustador comparado Ă quela vez?

Isso nĂŁo era nada comparado Ă quela vez.

Death Spots. Ele era mil vezes mais aterrorizante que esses dois.

SaĂ­ da tenda.

Maron e Jin’e estavam sentados um de frente pro outro, perto da fogueira.

Os dois olharam na minha direção ao mesmo tempo.

Ryuki, Ohjika e Ponkichi estavam deitados um pouco mais afastados.

Dormindo, como eu imaginava.

Por um instante, os olhos de Maron se arregalaram.

Depois, ele sorriu: — …Huh? O que foi, Mary? Acordou?

Jin’e me encarava com olhos vidrados, mas que ao mesmo tempo tinham um brilho opaco e perigoso.

Esse homem era mais cauteloso que Maron.

Provavelmente suspeitava que eu tivesse escutado a conversa deles.

— Meio que…

Foi sĂł isso que respondi, abaixando os olhos e me aproximando da fogueira.

SerĂĄ que ia funcionar?

Tinha que dar certo.

— Estou exausta — acrescentei, suspirando.

E devia estar com a cara de quem estava mesmo.

Até eu conseguia atuar nesse nível.

Me esforcei ao máximo para não encarar nem Maron, nem Jin’e.

Se vissem meus olhos, principalmente o Jin’e, podiam perceber a verdade.

Por isso, com o olhar baixo, fui atĂ© mais perto da fogueira—para me sentar ao lado dos dois.

Obviamente, eu nĂŁo ia sentar de verdade.

Primeiro, chutei o rosto do Jin’e com toda a força que consegui, usando a sola da bota. Sem perder tempo, acertei um chute giratório na lateral do Maron.

E entĂŁo, corri.

SĂł queria me afastar da fogueira.

A direção não importava nem um pouco.

Maron e Jin’e gritaram alguma coisa.

Também não importava.

NĂŁo olhei para trĂĄs.

Me concentrei em correr o mais rĂĄpido que conseguia.

Mesmo com a garganta e os pulmÔes ardendo, mesmo com o estÎmago doendo, minhas pernas não vacilaram.

“Mary, vocĂȘ Ă© sempre tĂŁo extrema” a Mutsumi me disse uma vez. “NĂŁo importa o que faça, nunca faz nada pela metade. Isso Ă© uma força, mas tambĂ©m uma fraqueza…”

O que eu respondi, naquela hora?

“É mesmo? Não acho que seja.”

Acho que foi isso que eu disse.

Mas, sendo a Mutsumi quem disse aquilo—a Mutsumi, que observava as pessoas com atenção e era tão sensível—acho que ela estava certa.

Eu era mesmo uma pessoa extrema, que odiava meios-termos.

“Mais ou menos”? “Tá bom assim”?

NĂŁo conseguia fazer as coisas desse jeito.

Era sempre tudo ou nada para mim.

Ou melhor, era zero ou cem.

Tudo estava completamente certo, ou totalmente errado.

Ou eu amava uma coisa, ou odiava.

Não existia “mais ou menos” no meu mundo.

“NĂŁo Ă© bom ser exigente demais” foi outra coisa que a Mutsumi me disse. “Acaba sendo mais difĂ­cil para vocĂȘ do que pros outros.”

“Eu nĂŁo sou exigente assim” respondi na Ă©poca.

Mas nĂŁo era isso.

Eu sĂł era teimosa. InflexĂ­vel.

Por isso nĂŁo conseguia ceder.

Quando fiquei sem fĂŽlego, com o corpo inteiro doendo, e nĂŁo consegui dar mais nenhum passo, minhas pernas finalmente pararam.

Ninguém tinha vindo atrås de mim.

Eu estava sozinha.

Senti como se fosse ser engolida pelo céu estrelado, imenso.

Doía até mesmo ficar de pé.

Me sentei no chĂŁo.

Por enquanto, precisava recuperar o fĂŽlego.

Enquanto fazia isso, desesperadamente, um animal uivou em algum lugar distante.

Tomei um susto, e minha respiração congelou.

Vai ficar tudo bem, pensei.

O som vinha de longe.

Mas aĂ­ veio outro uivo.

Dessa vez, parecia mais perto.

Olhei ao redor.

NĂŁo via nada.

NĂŁo importava quantas estrelas houvesse, ainda era escuro.

Escuro demais.

Se ao menos houvesse uma lua…

Nunca desejei tanto ver a lua vermelha quanto agora.

Devo me mover?

Devo ficar onde estou?

NĂŁo conseguia decidir.

Eu era uma sacerdotisa.

Não uma caçadora.

NĂŁo havia como eu saber.

O animal uivou de novo.

Agora estava claramente mais perto.

NĂŁo bem ao meu lado, mas definitivamente por perto.

Isso nĂŁo vai dar certo.

NĂŁo posso ficar aqui.

Vou ser devorada por animais selvagens.

NĂŁo quero isso.

NĂŁo quero morrer assim.

Me levantei.

Mas pra onde eu vou…?

O uivo ecoou mais uma vez.

Decidi me afastar dele.

Deveria evitar fazer barulho ao andar?

Deveria me mover em silĂȘncio?

SerĂĄ que dava no mesmo para o animal?

Provavelmente me encontraria pelo cheiro.

SerĂĄ que nĂŁo havia escapatĂłria?

Talvez eu jĂĄ estivesse encurralada.

O animal jå tinha me identificado como presa e começado a caçada.

Socorro.

NĂŁo adiantava.

Ninguém ia me ajudar.

Não havia ninguém aqui.

Eu estava sozinha.

Finalmente, isso me atingiu com força.

Estou completamente sozinha.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
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