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Hai to Gensou no Grimgar – EX 5: Capítulo 12 – Volume 14++

 

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[Capítulo 03: Liberdade Individual]


Encontrei uma estalagem e saí da hospedaria. Era um lugar onde apenas mulheres podiam se hospedar, então nem mesmo Hayashi poderia me visitar.

Foi mentira quando disse que tentaria seguir por conta própria. Eu não tinha a menor intenção de tentar. Mas também não podia simplesmente não fazer nada. Só o fato de estar viva já custava dinheiro. O que eu tinha guardado na Companhia de Depósitos Yorozu acabaria em um futuro não muito distante.

Sem nenhuma pista, decidi ir até o escritório do Esquadrão de Soldados Voluntários. Vou pedir conselhos à Britney, pensei, mas quando chegou a hora, não consegui nem ao menos entrar.

Enquanto eu estava parada bem em frente ao prédio, ouvi uma voz me chamar por trás: — Ei, você aí, o que foi?

Quando me virei, vi um homem sorridente, com o porte típico de um guerreiro.

— Sabe, você tá aí parada faz um tempo já. Achei meio esquisito. Dá pra entender por que eu fiquei preocupado, né?

O homem era um sujeito comum, mas faltava um dos dentes da frente, e também um dos incisivos do lado direito, o que lhe dava uma aparência meio boba. E ainda por cima tinha um nome estranho. Não era o nome verdadeiro dele, mas se apresentou como Maron.

Tudo o que eu disse foi que tinha deixado minha party, e que estava procurando trabalho.

— Nesse caso — disse Maron, como se estivesse prestes a me fazer uma proposta —, eu tô numa coisa chamada União Livre. Que tal dar uma olhada? Não é um clã, tá? Os soldados voluntários freelancers participam nos próprios termos, formam e desfazem partys quando quiserem. É um tipo de associação mais solta mesmo. E você pode entrar e sair da união quando quiser também, claro. Pode tentar montar uma party e, se der certo, continuam juntos. Isso acontece às vezes, então pode ser uma boa pra procurar companheiros.

Parecia perfeito para mim. Maron me levou a um bar no Beco Celestial onde os membros da tal União Livre costumavam se reunir, e me apresentou a todos. Não era tão grande quanto a famosa Taberna Sherry, mas ainda assim era um lugar considerável, com umas vinte pessoas por ali. Parecia que mais da metade fazia parte da União Livre.

— Ninguém aqui é muito rígido, viu? Tô falando sério. Pode ficar tranquila.

Foi o que Maron disse, mas eu estava tensa, e passei a maior parte do tempo olhando para o chão. Mesmo quando alguém puxava conversa comigo, eu mal conseguia responder. Será que só uma pessoa assim já deixava o clima todo esquisito? Isso me preocupava, mas agir normalmente ou fingir estar alegre estavam totalmente fora do meu alcance.

— Bom, por ora, que tal tentar entrar numa party comigo? Eu junto mais quatro pessoas aleatórias. Vamos nas Minas Cyrene amanhã.

— Minas Cyrene…! — escapou da minha boca antes que eu percebesse.

O bar ficou em silêncio, e uma sensação de constrangimento me atravessou o coração como mil agulhas.

— …Desculpa. Não estou muito bem pras Minas Cyrene.

— Ah, tranquilo. Entendi. Beleza. Então vamos pra outro lugar.

Rindo, Maron me tranquilizou, dizendo que estava tudo bem.

— Deixa comigo. Conheço uns lugares legais. Mas vai ser uma viagem longa, tá? Tudo certo? São umas três noites… Um dia pra ir, um pra voltar, então dá isso aí. Se prepara, e a gente se encontra amanhã no portão norte, beleza?

Eu estava insegura. Mas me obriguei a seguir em frente, pensando que precisava fazer isso. Talvez eu não tivesse mentido para o Shinohara, no fim das contas. Eu realmente tinha deixado Orion com a intenção de me esforçar.

Se eu ficasse em Orion—se eu ficasse com Hayashi, não conseguiria olhar para frente. Toda vez que eu olhasse para frente, veria as costas do Hayashi ali. Aquela era uma visão estranha pra mim.

Não o fato de Hayashi estar lá. Mas o fato de só Hayashi estar lá. Isso era insuportável.

Se Hayashi estava ali, então é claro que Michiki e Ogu também tinham que estar. E Mutsumi, ela tinha que estar ao meu lado. Mas eles não estavam. Meus companheiros não estavam em lugar nenhum. E nunca mais estariam.

Essa dor me atingia a cada segundo. Era mais do que eu conseguia aguentar.

Queria tentar só mais uma vez. Para conseguir sobreviver pelos companheiros que deixei morrer. Foi por isso que deixei Orion. Foi por isso que me afastei de Hayashi.

Me sentia mal por Hayashi e por todos em Orion que haviam sido tão bons comigo, mas… era tudo o que eu podia fazer.

Na manhã seguinte, quando nos reunimos no portão norte, estavam lá: Maron, o guerreiro; Ryuki, o caçador; Ohjika, o outro caçador; Ponkichi, o ladrão; Jin’e, o ex-paladino; e eu—seis pessoas no total.

O líder da party não era Maron, mas Jin’e, que tinha uns trinta e três anos, ou algo assim, e era o mais velho de todos.

Ryuki e Ohjika eram magros, e cada um carregava um arco enorme. Pareciam irmãos.

Ponkichi era baixinho, e tinha um jeito ágil, como se esperaria de um ladrão.

Embora Jin’e fosse o líder, era Maron quem guiava a party. Saímos de Altana e seguimos para o norte. Se continuássemos naquela direção, entraríamos em uma floresta. Ao sairmos da floresta, chegaríamos à Fortaleza de Observação Deadhead, onde os orcs haviam posicionado uma força para monitorar qualquer movimento dos humanos. Maron evitou tanto a floresta quanto a fortaleza, optando por um caminho pelas Planícies dos Ventos Rápidos. Fica a cerca de doze quilômetros de distância. Como não estávamos andando tão rápido, levamos pouco menos de quatro horas.

— Ryuki, Ohjika.

Jin’e fez um gesto com o queixo, e os dois caçadores passaram para a frente da party, enquanto Maron recuava e se posicionava ao meu lado. De repente, ele ficou muito falante.

— Tá curiosa pra saber por que o Jin’e é um ex-paladino, não é?

— Bem… Estou, sim.

Era verdade que um ex-paladino era algo incomum. Não era raro um soldado voluntário sair de uma guilda e entrar em outra. Mas, nesse caso, costumavam se chamar de guerreiro ex-paladino, ou algo assim—um guerreiro que já foi paladino. Jin’e, à primeira vista, parecia mesmo um paladino. Apesar da capa preta, usava uma armadura esbranquiçada, e o elmo também era branco. No entanto, onde deveria haver o hexagrama no peito, só havia marcas de arranhões. Provavelmente ele mesmo tinha raspado fora. Ele dizia ter trinta e três anos, mas já tinha fios brancos nos cabelos longos jogados para trás e na barba, o que o fazia parecer mais próximo dos quarenta.

— Então, Mary, paladinos conseguem usar magia de luz, tipo os sacerdotes. Mas tem uma diferença na magia de luz que cada um usa. Você é sacerdotisa, então deve saber disso, mas…

— Paladinos não conseguem curar os próprios ferimentos.

— Isso aí! Mas, olha só… existe uma magia chamada Crime. É tipo último recurso, sabe? Um feitiço incrível que cura todos os ferimentos do paladino na hora. Tipo o Sacrament, só que só funciona nele mesmo.

— O preço é perder a bênção de Lumiaris — Jin’e interrompeu. — Eu usei uma vez. Só… só não queria morrer.

— Aí ficou desempregado — disse Maron, dando de ombros com um sorriso.

— Qualquer paladino que usa o Crime é expulso automaticamente da guilda dos paladinos. Mas, né? Você só pode continuar em uma guilda se estiver vivo. Ele sobreviveu, então era hora de mudar. Virar guerreiro, ou outra coisa. Era o que eu teria feito. Mas o Jin’e é diferente. Desde então, nunca mais entrou em guilda nenhuma. É por isso que ele é só um ex-paladino.

— Não estou mais na fase de implorar por instrução de ninguém. Só isso — disse Jin’e com uma risada cheia de autodepreciação. Mas havia algo em seu olhar. Como se tivesse perdido algo precioso… e carregasse feridas que jamais se curariam.

Ainda assim, ele seguia vivendo. E mais: não fazia questão de esconder essas feridas. Viviam à mostra.

Será que um dia eu conseguiria viver assim? Não tinha confiança.

Mas, com certeza, era isso o que eu queria.

Feridas doem, e são feias. Se eu puder escondê-las, quero esconder. Quero apagar. Se possível, quero fazer com que nunca tenham existido.

Mas… ao que parece, não era bem isso o que eu sentia de verdade.

As feridas criam crostas, as crostas caem, e as cicatrizes vão sumindo com o tempo. A dor também vai passando aos poucos. Mas eu não precisava disso. Estava bem com a dor.

Provavelmente era nisso que eu acreditava.

Com os caçadores indo à frente para nos ajudar a evitar feras perigosas e rotas arriscadas, seguimos andando até o fim da tarde, até finalmente chegarmos ao lugar.

Era um vale. Ou talvez fosse melhor chamar de ravina seca. Não havia nenhum riacho passando por lá. O vale tinha um formato de cruz, apontando para o nordeste. Ao sudeste, sudoeste e noroeste, as encostas eram íngremes demais para descer, mas a encosta ao nordeste era mais suave—parecia ser possível descer por ali até o fundo do vale.

Não, não era só impressão. Com certeza dava para descer por ali. Era o único caminho para chegar ao fundo.

Era um vale bem fundo, e lá embaixo já era bem escuro.

Mesmo parada na borda do precipício, eu conseguia distinguir vagamente as formas que se contorciam lá embaixo.

— …Servos do No-Life King.

— Acertou — disse Maron, batendo palmas com alegria. — Isso é só um palpite meu, mas acho que zumbis e esqueletos detestam a luz do sol. É por isso que geralmente andam por aí só à noite. Aí, quando amanhece, eles procuram um lugar escuro pra descansar. E esse lugar acabou sendo aqui… ou pelo menos é o que eu imagino. Só crescem uns arbustos por aqui, nem colina alta tem, quem dirá montanha. É o único lugar com sombra suficiente na região, então o resultado foi natural. Pelo menos é o único lugar que eu conheço assim, mas deve ter outros por aí.

— …E o que vamos fazer? Se a gente descer…

— Vai ser perigoso, claro. Se todos eles vierem pra cima de uma vez, complica. Por isso a gente escolhe um alvo e puxa ele pra cá. Então, o Ryuki e eu vamos servir de isca. Os outros quatro ficam escondidos em algum lugar. Aí, quando a gente trouxer o bicho, todo mundo ataca. Mas é mais fácil mostrar do que explicar, né, Mary? Todo mundo aqui já tem experiência com isso, menos você. Então não precisa se preocupar. Só observa por enquanto. Já tá ficando tarde, então vamos fazer só uma tentativa hoje.

Jin’e, Ohjika, Ponkichi e eu nos posicionamos ao nordeste do vale, enquanto Maron e Ryuki desciam com agilidade pela encosta.

Ficamos em silêncio. Ninguém falou nada—nem mesmo eu. Maron era falante, mas os outros quase não abriam a boca. Isso ajudava.

Eu costumava conversar muito com Michiki e o resto da party. Todo mundo gostava de bater papo, e eu não era exceção. Mas aquilo não era por natureza. Eu só… me entrosava bem com eles, e era divertido.

Agora, eu podia ficar horas sem dizer uma palavra. Ficar calada não me incomodava em nada. Na verdade, se não houvesse necessidade de falar, eu preferia ficar quieta.

Passou um tempo até que Maron e Ryuki voltassem correndo. Algo os perseguia.

Seria humano? Parecia pequeno demais. Além disso, andava cambaleando, com o corpo torto para um lado.

— É um zumbi, com certeza — Ponkichi sussurrou, soltando uma risadinha estranha. Aquele homenzinho não só tinha uma cara desleixada e grosseira, como o jeito de se equipar e de se mover também era vulgar. — É um nanico. Devia ser um anão. Ou então uma criança humana, ou elfa.

— Você também é um nanico. — retrucou Ohjika, cutucando Ponkichi. Ohjika, que lembrava Ryuki, passava uma impressão de limpeza… desde que mantivesse a boca fechada. Mas no momento em que falava, sua grosseria vinha à tona.

— Preparem-se — disse Jin’e com uma única palavra, e Ponkichi e Ohjika prontamente empunharam suas armas.

Ainda assim, era estranho. Por que nunca tinha pensado nisso até agora?

Zumbis.

Restos de mortos sem alma, sem coração, movidos pela maldição do No-Life King.

Michiki. Ogu. Mutsumi.

Meus companheiros perderam a vida nas Minas Cyrene.

Eu e Hayashi não saímos de lá com facilidade. Estávamos desnorteados, em choque, lutando para sobreviver, então não me lembro direito, mas tenho certeza de que demoramos bastante para sair das minas. Mais de um dia inteiro, provavelmente. Mesmo depois de voltarmos para Altana, não estávamos em condição de pensar direito.

É claro que queríamos dar a eles um enterro digno. Trazer os corpos, cremá-los e erguer uma lápide no morro. Mas por mais que quiséssemos—por mais que fosse necessário—já era tarde demais.

Eu e Hayashi voltarmos às minas para procurar pelos três? Completamente impossível. Eles tinham sido mortos por aquele famigerado Death Spots. Só de considerar caçar os corpos já era correr um risco enorme.

Além disso, como sacerdotisa, eu sabia da maldição terrível que podia ser ativada em apenas três dias após a morte. Mesmo que conseguíssemos ajuda, não daria tempo.

Sonhei com isso várias vezes. Michiki, Ogu e Mutsumi… surgindo diante de mim como cadáveres ambulantes. Os três estavam mortos, então não podíamos mais conversar. Mas eu conseguia ouvi-los.

“Por que nos abandonou?”

“Por que fugiu?”

Era o que me perguntavam. Eu não tinha respostas. Só podia continuar pedindo desculpas.

No fim, os três sempre me atacavam.

Cada vez que tinha esse sonho, sentia que estava manchando o orgulho dos meus companheiros caídos—e eu não conseguia me perdoar por isso.

Se eles me odiassem por aquilo, se sentissem rancor, eu não teria como culpá-los. Mas os três que conheci jamais me culpariam, mesmo que a culpa fosse minha.

E mesmo assim, nos meus sonhos, eles me criticavam.

Eu estava rebaixando quem eles foram. Se eu queria me punir, que fosse eu a sofrer com isso. Mas em vez disso, joguei esse peso sobre eles.

Eu não era justa.

Era cruel. Desprezível.

A perna esquerda do zumbi que perseguia Maron e Ryuki… olhando melhor, parecia estar quase rasgada fora do corpo. Havia um ferimento na parte inferior das costas, tão profundo que dava para ver a coluna. Por isso ele se arrastava daquele jeito.

Seja qual fosse sua raça em vida— humano ou não—o destino dele provavelmente foi o mesmo de Michiki, Ogu e Mutsumi.

Encontrou uma morte indesejada, e, sem receber um funeral, acabou transformado em servo do No-Life King.

Michiki e os outros podiam estar vagando nas Minas Cyrene daquela forma.

Não consegui encarar o zumbi. Virei o rosto. Minha visão girava. O coração doía. Um zumbido enchia meus ouvidos.

— Ataquem — ordenou Jin’e.

Eu não me movi. Nem mesmo consegui assistir à cena.

As vozes dos homens ecoaram, misturadas a outros sons. Não estavam simplesmente abatendo o inimigo—estavam pulverizando ele.

— Molezinha — riu Maron.

— Devem ter escolhido bem o alvo — disse Ryuki.

Os outros concordaram.

Eu olhava para o chão. Não estava agachada, mas ainda assim permanecia de pé, de algum jeito.

— Mary?

A voz me chamando veio tão de perto que me pegou de surpresa. Quase dei um pulo ao olhar para cima. Era Maron.

— O quê? — tentei dizer. Mas a voz não saiu. Então apenas assenti com a cabeça.

— O que foi? Tá bem?

— …Estou. — Forcei a palavra a sair. — Não é nada.

— É mesmo? Bom, beleza então — Maron recuou facilmente.

Será que consegui esconder? Não tinha certeza.

Ao que parecia, o zumbi tinha sido um anão, pois carregava vários itens feitos de mithril—um metal que só os anões conseguiam minerar e forjar. Um deles era um anel, e Maron me entregou.

— Aqui, vou te dar esse, Mary. Tá tudo certo, né, Jin’e?

— Faça como quiser.

— Todo mundo de acordo? Não ouvi nenhum protesto. Então tá aí. Pode pegar. Considere um presente de boas-vindas à União Livre. Dizem que anéis de mithril afastam demônios.

Guardei o anel no meu bolso sem nem olhar direito. Não queria aquilo. Não precisava daquilo. Mas se recusasse, Maron com certeza ia encher o saco. Ele era assim, difícil de lidar.

Por isso, resolvi aceitar em silêncio.

Por que, afinal, eu tinha me juntado à União Livre e vindo para esse Vale de Zumbis? No fim das contas, foi por dinheiro. Para ganhar algo. Com certeza, eu poderia vender o anel de mithril por um bom preço. Se ele disse que estava me dando, então eu pegaria. Mas não precisava ser grata.

Se eu visse aquilo como uma dívida, teria que retribuir de alguma forma. E isso era perigoso. Podiam se aproveitar de mim.

Montamos acampamento a cerca de uma hora do Vale dos Zumbis. Maron e os outros tinham apenas uma tenda. Quando eu ainda me perguntava onde iria dormir, disseram que eu podia usar a tenda sozinha. Os homens dormiriam ao relento. Eles também fariam turnos de vigia, então eu podia dormir tranquila até de manhã.

— Não precisam me tratar de forma especial…

— Mas você é especial — disse Maron, em tom de brincadeira. — É a única garota aqui. Temos que tratar você com um certo cuidado. Não consigo te tratar como um dos caras.

— Quer dormir do meu lado, então? — disse Jin’e, com uma risada fina e sarcástica. — Consegue tirar a roupa e se trocar na nossa frente? Ou fazer xixi? Se não, então não tem escolha: vai ser tratada de forma especial. Isso é óbvio. Melhor aceitar logo.

A maneira direta como ele falou até facilitou as coisas. Aceitei e decidi usar a tenda sozinha.

Mesmo assim, mesmo depois de forçar a comida de trilha que tinha trazido comigo e me deitar, não consegui dormir.

A fina camada da tenda era tudo o que me separava de cinco homens que eu mal conhecia. E estávamos nas Planícies dos Ventos Rápidos. Bem longe de Altana.

Se eu parasse para pensar, essa situação era claramente perigosa.

O que significava que… eu não tinha parado para pensar. Apenas vim junto, sem me preocupar.

Fui uma idiota. Uma completa e absoluta imbecil.

Talvez eu tivesse baixado a guarda porque Michiki, Ogu e Hayashi nunca seriam capazes de fazer algo assim.

Na verdade, nunca tive uma experiência horrível desse tipo, e por isso nunca senti medo. Pelo menos, não em Grimgar.

Antes disso… não tenho certeza. Não me lembro, afinal.

Mas talvez não fosse verdade que eu nunca tinha passado por isso.

Será que eu era como uma mariposa, atraída pela chama? Tinha caído direto em uma armadilha?

Quando o medo começou a tomar conta, meu corpo começou a tremer—e não parou mais.

Do lado de fora, eles haviam acendido uma fogueira.

Dava pra ver a luz através da tenda, mas não via as sombras deles. Ainda assim, podia sentir sua presença.

Se eu prestasse atenção, ouvia as vozes. Ryuki e Ohjika estavam de vigia, pelo jeito. Conversavam sobre alguma bobagem e riam.

Maron, Jin’e e Ponkichi estavam dormindo?

Ryuki e Ohjika pareciam ser do tipo que, juntos, podiam fazer qualquer coisa—não importava quão horrível fosse.

Claro, isso era só coisa da minha cabeça. Eu podia estar completamente errada. E se estivesse, estaria sendo muito mais horrível do que eles.

Era fato que eu era uma pessoa egoísta e terrível.

Ainda assim, Ryuki e Ohjika não pareciam do tipo que lideravam alguma coisa.

Dava a impressão de que, em vez de pensar e agir por conta própria, estavam mais propensos a seguir o plano de outra pessoa.

Eu não conhecia Ponkichi muito bem. Mas os outros quatro claramente zombavam dele.

Mesmo assim, Ponkichi não parecia se importar. Até parecia gostar das provocações, e demonstrava certa tranquilidade estando no fundo da hierarquia.

E o Jin’e?

Mesmo depois de perder a proteção de Lumiaris, ele manteve sua integridade e seguiu em frente como um ex-paladino.

Tinha aparência e atitudes rudes, mas talvez fosse um sujeito honrado.

Não era exatamente um cara mau. Essa era a impressão que eu tinha.

Na verdade, o mais suspeito de todos era o Maron.

Afinal, foi ele quem veio falar comigo, não foi?

E, fala sério… que tipo de nome era “Maron”?

Até o nome dele parecia suspeito.

Aquela atitude relaxada dele. Aquela lábia. Até agora, ele não tinha feito nada estranho comigo. Tinha sido gentil.

E isso também era suspeito.

Tomando cuidado para não fazer barulho, tirei o anel de mithril.

Seria isso uma prova das segundas intenções dele?

Se fosse, era óbvio demais. Será que ele achava mesmo que podia chamar minha atenção com algo que roubou de um zumbi?

Ele tinha dito que o anel protegia contra demônios.

Será que isso incluía os demônios dos sonhos também?

Se eu dormisse usando ele, será que me livraria dos pesadelos?

Ridículo.

Tentar escapar dos pesadelos depois de ter deixado meus companheiros morrerem.

Eu devia era estar grata por Michiki, Ogu e Mutsumi ainda aparecerem nos meus sonhos.

Normalmente, nem isso deveria acontecer. Eu não tinha o direito de olhar para eles. Nem ali.

Talvez eu merecesse passar por alguma coisa ruim.

Se Maron estava tramando algo, tudo bem.

Que fizesse o que quisesse comigo.

Eu não ligava mais para o que acontecesse comigo.

Se eu dissesse algo assim, Michiki ficaria furioso.

Ogu ficaria triste.

E Mutsumi me daria uma bronca suave.

Me repreenderia.

Diria: “Mary, o que você tá fazendo? Para de ser descuidada, se concentra!”

Por favor…

Acho que acabei cochilando um pouco. Não, não foi só um pouco—deve ter sido uma ou duas horas.

Não sonhei.

Em algum momento, eu tinha apertado o anel de mithril na mão.

Não queria acreditar que foi por causa do anel que os pesadelos não vieram.

Já fazia tanto tempo que eu não dormia direito que nem parecia ter descansado.

Minha cabeça estava pesada. Sentia enjoo. Tudo me dava um mal-estar.

Tentei me sentar. Queria sair da tenda e tomar um pouco de ar fresco.

Foi então que a “porta” da tenda se mexeu.

Chamar de porta era exagero— era só uma aba de tecido, com fechos do lado de dentro para manter fechada.

Não era uma porta com chave.

Se enfiar um dedo na fresta, ela abre fácil. Dá até pra cortar os fios por fora.

Alguém enfiou a mão pela fresta.

E estava espiando lá dentro.

Me observando.

Reflexivamente, fingi que ainda estava dormindo.

Será que foi certo?

Não era melhor eu ter me levantado e perguntado o que achavam que estavam fazendo?

A pessoa puxou a mão de volta.

Se afastou da tenda.

Parecia ter ido se sentar perto da fogueira.

— …Como ela tá?

— Tá dormindo. O que você pretende fazer com aquela mulher?

Maron e Jin’e.

Pelo jeito, foi o Jin’e que tinha espiado dentro da tenda.

— Sei lá… Hmm. Acho que ela tá sofrendo agora. Se eu conseguir conquistá-la, quero tentar. Sabe como é, prefiro que seja consensual, em vez de estupro, entende?

— Como se eu me importasse com as suas preferências.

— Mas, cara, fazer à força? Às vezes também tem seu charme. A gente fez isso com a última.

— Aquilo não foi ruim.

— Você é um brutamontes simplório. Aposto que não consegue se excitar se não for forçando, né? Você adora passar elas pra frente, não é isso?

— Não entendo como alguém consegue ser gentil com uma mulher.

— O quêêê? Sério? É legal. Ter um momento carinhoso com uma garota bonitinha. E a Mary é uma bela mulher. Ia ser divertido flertar com ela. Com certeza. Ia ser divertido.

— Por que perder tanto tempo só pra poder comer uma mulher?

— Porque vale o esforço, ué. O retorno compensa. Você que não tem emoção nenhuma, né, Jin’e?

— Se eu já provei uma mulher uma vez, já é o suficiente.

— Bom, dá pra entender ficar entediado. Nesse sentido, é mais fácil quando não fica aquele gosto ruim depois.

— Aquela mulher nunca vai ceder pra você.

— É mesmo…?

— Ainda tenho olho pra essas coisas. Não que eu precise dele.

— Ah, é? Pra alguém que diz não ligar, você é bem esperto nessas horas. Será que é a diferença de experiência de vida? Hmm… Então quer dizer que não vou conseguir conquistar ela, né? Então, que tal a gente pegar ela agora?

Maron disse aquilo como se não fosse nada demais, mas eu senti como se fosse sufocar.

Isso era grave. Não, era pior do que grave.

Não era só o Maron. Jin’e também.

“Honrado”? “Não era um cara mau”? Hah. Pelo que eu tinha acabado de ouvir, ele era um estuprador em série.

Mesmo o Maron, que aparentemente tentava me seduzir, parecia mais “humano” do que isso.

Não que eu quisesse chamar nenhum dos dois de humano.

Isso não vai dar certo. Eles vão me pegar.

Vão me atacar.

O que eu posso fazer?

Se eu ficar aqui dentro, vou estar encurralada como um rato.

É isso. Eu não posso ficar na tenda.

Tenho que fugir.

Decidido.

Eu vou sair daqui.

Respirando só pelo nariz, minha mente disparou.

Só os dois estavam acordados.

Maron e Jin’e. Dois homens.

Se eu me lembrava bem, depois que acenderam a fogueira, tiraram a armadura.

Ia ser difícil despistar eles em uma corrida.

Mas, mesmo pegando os dois de surpresa, será que daria certo?

Eles não eram civis. Eram soldados voluntários.

Tinham resistência.

Eu não queria entrar em uma corrida com eles.

O começo era crucial.

Precisava abrir vantagem com um bom arranque e fazer com que desistissem.

Estávamos nas Planícies dos Ventos Rápidos.

E era bem tarde da noite.

Eles não iam me perseguir por muito tempo.

Já tinha um plano.

Ia abrir mão das minhas coisas.

Só iam me atrapalhar.

Levaria só o dinheiro.

Maron e Jin’e ainda não tinham se mexido.

Eu podia agir primeiro.

Pressionei o peito com a mão, como se tentasse forçar o coração—que queria saltar pela boca—a ficar no lugar.

Não era hora de hesitar.

Com os dedos tremendo, desatei os fechos da tenda.

Lá fora, o silêncio era total.

Estou com medo. Estou com medo. Estou com medo.

De quê? Isso é assustador comparado àquela vez?

Isso não era nada comparado àquela vez.

Death Spots. Ele era mil vezes mais aterrorizante que esses dois.

Saí da tenda.

Maron e Jin’e estavam sentados um de frente pro outro, perto da fogueira.

Os dois olharam na minha direção ao mesmo tempo.

Ryuki, Ohjika e Ponkichi estavam deitados um pouco mais afastados.

Dormindo, como eu imaginava.

Por um instante, os olhos de Maron se arregalaram.

Depois, ele sorriu: — …Huh? O que foi, Mary? Acordou?

Jin’e me encarava com olhos vidrados, mas que ao mesmo tempo tinham um brilho opaco e perigoso.

Esse homem era mais cauteloso que Maron.

Provavelmente suspeitava que eu tivesse escutado a conversa deles.

— Meio que…

Foi só isso que respondi, abaixando os olhos e me aproximando da fogueira.

Será que ia funcionar?

Tinha que dar certo.

— Estou exausta — acrescentei, suspirando.

E devia estar com a cara de quem estava mesmo.

Até eu conseguia atuar nesse nível.

Me esforcei ao máximo para não encarar nem Maron, nem Jin’e.

Se vissem meus olhos, principalmente o Jin’e, podiam perceber a verdade.

Por isso, com o olhar baixo, fui até mais perto da fogueira—para me sentar ao lado dos dois.

Obviamente, eu não ia sentar de verdade.

Primeiro, chutei o rosto do Jin’e com toda a força que consegui, usando a sola da bota. Sem perder tempo, acertei um chute giratório na lateral do Maron.

E então, corri.

Só queria me afastar da fogueira.

A direção não importava nem um pouco.

Maron e Jin’e gritaram alguma coisa.

Também não importava.

Não olhei para trás.

Me concentrei em correr o mais rápido que conseguia.

Mesmo com a garganta e os pulmões ardendo, mesmo com o estômago doendo, minhas pernas não vacilaram.

“Mary, você é sempre tão extrema” a Mutsumi me disse uma vez. “Não importa o que faça, nunca faz nada pela metade. Isso é uma força, mas também uma fraqueza…”

O que eu respondi, naquela hora?

“É mesmo? Não acho que seja.”

Acho que foi isso que eu disse.

Mas, sendo a Mutsumi quem disse aquilo—a Mutsumi, que observava as pessoas com atenção e era tão sensível—acho que ela estava certa.

Eu era mesmo uma pessoa extrema, que odiava meios-termos.

“Mais ou menos”? “Tá bom assim”?

Não conseguia fazer as coisas desse jeito.

Era sempre tudo ou nada para mim.

Ou melhor, era zero ou cem.

Tudo estava completamente certo, ou totalmente errado.

Ou eu amava uma coisa, ou odiava.

Não existia “mais ou menos” no meu mundo.

“Não é bom ser exigente demais” foi outra coisa que a Mutsumi me disse. “Acaba sendo mais difícil para você do que pros outros.”

“Eu não sou exigente assim” respondi na época.

Mas não era isso.

Eu só era teimosa. Inflexível.

Por isso não conseguia ceder.

Quando fiquei sem fôlego, com o corpo inteiro doendo, e não consegui dar mais nenhum passo, minhas pernas finalmente pararam.

Ninguém tinha vindo atrás de mim.

Eu estava sozinha.

Senti como se fosse ser engolida pelo céu estrelado, imenso.

Doía até mesmo ficar de pé.

Me sentei no chão.

Por enquanto, precisava recuperar o fôlego.

Enquanto fazia isso, desesperadamente, um animal uivou em algum lugar distante.

Tomei um susto, e minha respiração congelou.

Vai ficar tudo bem, pensei.

O som vinha de longe.

Mas aí veio outro uivo.

Dessa vez, parecia mais perto.

Olhei ao redor.

Não via nada.

Não importava quantas estrelas houvesse, ainda era escuro.

Escuro demais.

Se ao menos houvesse uma lua…

Nunca desejei tanto ver a lua vermelha quanto agora.

Devo me mover?

Devo ficar onde estou?

Não conseguia decidir.

Eu era uma sacerdotisa.

Não uma caçadora.

Não havia como eu saber.

O animal uivou de novo.

Agora estava claramente mais perto.

Não bem ao meu lado, mas definitivamente por perto.

Isso não vai dar certo.

Não posso ficar aqui.

Vou ser devorada por animais selvagens.

Não quero isso.

Não quero morrer assim.

Me levantei.

Mas pra onde eu vou…?

O uivo ecoou mais uma vez.

Decidi me afastar dele.

Deveria evitar fazer barulho ao andar?

Deveria me mover em silêncio?

Será que dava no mesmo para o animal?

Provavelmente me encontraria pelo cheiro.

Será que não havia escapatória?

Talvez eu já estivesse encurralada.

O animal já tinha me identificado como presa e começado a caçada.

Socorro.

Não adiantava.

Ninguém ia me ajudar.

Não havia ninguém aqui.

Eu estava sozinha.

Finalmente, isso me atingiu com força.

Estou completamente sozinha.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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Anime X Novel 7 Anos

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