Hai to Gensou no Grimgar – EX 5: Capítulo 11 – Volume 14++

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

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[CapĂ­tulo 02: Autoconhecimento]


De qualquer forma, independentemente do que eu pensava sobre mim mesma—ou do fato de que às vezes eu nem conseguia pensar—nada disso importava.

Quando chegasse a hora de agir, eu teria que fazer direito.

Tinha que mudar de mentalidade.

NĂŁo precisava ser eu mesma; bastava assumir meu papel.

Na verdade, eu precisava separar o “eu” do “eu”.

Tirar apenas a parte de mim que era uma sacerdotisa.

Eu nĂŁo era a Mary.

Era apenas uma sacerdotisa.

O clĂŁ Orion era famoso.

Seu lĂ­der, Shinohara, era um sujeito carismĂĄtico, e os outros eram soldados voluntĂĄrios bastante competentes.

NĂŁo era um grupo ruim, nem um pouco.

A capa branca que me deram trazia as sete estrelas, sĂ­mbolo do Orion.

Quando eu a vestia, sentia que podia me tornar outra pessoa.

Quando Hayashi vestia a capa, também parecia outra pessoa.

O pessoal do Orion era atencioso comigo e com o Hayashi.

Fomos colocados em uma party liderada por uma mulher chamada Tanamori, e partimos para enfrentar goblins na Cidade Velha de Damuro.

Era estranho uma party de veteranos, sob a liderança de alguém como Tanamori, se aventurar em Damuro.

Claramente, aquilo nĂŁo era para testar nossas habilidades, mas sim um aquecimento.

Era como uma espécie de reabilitação física.

Tanamori tinha traços gentis, mas era mais alta do que eu.

Tinha o porte de uma guerreira, embora sua arma fosse um cajado curto.

Era uma sacerdotisa com experiĂȘncia em combate.

Ao lado dela, estavam Yokoi, um ex-ladrĂŁo que agora era lutador, Shingen, o mago, e os guerreiros Matsuyagi e Hayashi.

Éramos uma party de seis.

Matsuyagi liderava a linha de frente, junto com Hayashi e Yokoi, enquanto Tanamori e eu protegĂ­amos o Shingen.

Como Yokoi era ågil e usava equipamentos leves, ele podia voltar para reforçar a retaguarda se necessårio.

Quando os goblins viam Matsuyagi, com seus 1,80m de altura, balançando uma espada bastarda, ficavam prontos para fugir.

Hayashi e Yokoi investiam contra os goblins em pĂąnico, e Shingen aproveitava para esmagĂĄ-los com magia.

Era assim que decidĂ­amos a maioria das batalhas.

Depois que os goblins se desorganizavam, sĂł restava finalizĂĄ-los antes que escapassem.

Nessa etapa, virava um massacre unilateral.

NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer.

Eu apenas assistia, como uma espectadora indiferente, enquanto Matsuyagi destroçava os goblins da linha de frente.

Hayashi parecia cheio de vida—embora não tanto quanto antes.

Mas, mesmo essa cena, para mim, parecia distante, como se eu apenas estivesse observando de longe.

O pessoal do Orion estava sendo cuidadoso conosco.

Seria pedir demais que participĂĄssemos de combates intensos logo apĂłs o choque que havĂ­amos sofrido.

Primeiro, queriam que enfrentåssemos inimigos que pudéssemos derrotar com facilidade, para que recuperåssemos a confiança.

Ao mesmo tempo, esperavam reacender nossos instintos de combate.

Provavelmente, era a decisĂŁo certa.

Se estivéssemos na posição deles, tenho certeza de que teríamos feito o mesmo.

E parecia estar funcionando com o Hayashi.

Quando Matsuyagi elogiou sua investida com um “Boa carga”, ele atĂ© sorriu.

Foi um sorriso tĂ­mido, Ă© claro, e logo depois Hayashi olhou para mim, com uma expressĂŁo meio constrangida.

Mas, sendo alguém naturalmente competitivo, enfrentar inimigos e brandir a espada parecia ser mesmo o caminho certo para a recuperação dele.

Hayashi provavelmente conseguiria superar isso.

E eu acreditava, de todo o coração, que isso era algo bom.

Eu nĂŁo guardava rancor do Hayashi por ter me tirado de lĂĄ.

Eu nĂŁo o odiava.

Hayashi era meu precioso companheiro.

O Ășnico que me restava.

Eu queria que ele se recuperasse logo.

E, se houvesse algo que eu pudesse fazer para ajudar, eu queria fazer.

Ainda que… nĂŁo conseguisse imaginar o que poderia ser.

Quando exterminamos nosso terceiro grupo de goblins, fui forçada a perceber algo que até então não tinha notado.

Gostaria de nĂŁo ter percebido.

Preferia nunca ter sabido.

Era uma parte irreparavelmente feia de mim mesma.

Estar ao lado da Tanamori—uma sacerdotisa muito superior a mim—me fez sentir, de forma visceral, o quão arrogante e equivocada eu tinha sido.

No fundo, a culpa por aquele fracasso irreversĂ­vel era minha.

Matsuyagi, Yokoi e Shingen confiavam completamente em Tanamori.

Se algo acontecesse, ela os curaria.

Tanamori era uma presença sólida atrås deles, dando instruçÔes curtas e precisas de vez em quando.

Eu também não duvidava dela.

O grande e forte Matsuyagi, que sempre avançava sem jamais ser imprudente, era em quem Yokoi, Shingen e até Tanamori mais confiavam.

Todos contavam com a astĂșcia de Yokoi, e todos os companheiros de Shingen sabiam que ele usaria sua magia com eficiĂȘncia, no momento exato em que fosse mais necessĂĄria.

Hayashi talvez ainda nĂŁo tivesse entendido todas as manias e particularidades deles, mas se mantinha firme, guiado por sua seriedade e diligĂȘncia inatas. Seus companheiros reconheciam o esforço de Hayashi com carinho. Eles o aceitaram e estavam tentando apoiĂĄ-lo.

NĂŁo havia lugar para mim. Eu bem que podia nĂŁo estar ali. Eles nĂŁo precisavam de mim.

Se enfrentåssemos inimigos mais poderosos, eu teria que fazer algo. Haveria algo que eu poderia fazer. Talvez isso fosse verdade. Mas esse não era o ponto. Ao ser colocada em um papel desnecessårio, fui forçada a encarar uma verdade.

Como eu era antes.

Eu achava que estava indo bem—não, se for para ser honesta, eu achava que estava indo muito bem.

Tentava fazer tudo o que podia. NĂŁo fazer isso me parecia errado. Quanto mais eu fazia, mais realizada me sentia. Todos me elogiavam. Eu era necessĂĄria. Isso me deixava feliz. Eu estava nas nuvens.

Eu achava que estava fazendo aquilo por todos. Pelos meus companheiros. Pela party. Por todos nĂłs. Era isso que eu pensava. Mas eu estava errada.

NĂŁo era isso.

Eu queria me sentir realizada. Queria ser elogiada. Queria me sentir necessĂĄria. Queria aquela felicidade. Queria cada vez mais dela. Procurava por isso, insaciavelmente.

Michiki, Ogu, Mutsumi, Hayashi. Olhem para mim. Ei, eu sou incrível, não sou? Eu consigo fazer isso, e também consigo fazer aquilo. Eu consigo fazer qualquer coisa. Me elogiem. Gostem de mim. Me amem. Me deem um lugar para existir.

NĂŁo era por eles.

Era tudo por mim.

E por isso, quando ninguém precisava de mim, como agora, eu ficava amuada.

Chega. Eu nĂŁo quero estar aqui. Quero dizer, essas pessoas nĂŁo precisam de mim.

Era isso que eu estava pensando.

Esse era o meu verdadeiro eu.

Uma narcisista patética, que só queria ser reconhecida, reafirmada, bajulada, valorizada.

Que nojo.

Naquele dia, eu nĂŁo usei magia nem uma vez. Apenas fiquei lĂĄ, parada, observando.

Tanamori e Hayashi tentaram falar comigo algumas vezes. Estavam preocupados. Devia estar mesmo em um estado preocupante. Tentei disfarçar. Mas eu não fazia ideia de como agir normalmente.

— Que tal irmos para a Cidade Nova amanhã? — Tanamori sugeriu, quando já estávamos prestes a nos separar.

A Cidade Velha era tranquila demais. Aquilo nem servia como reabilitação, a menos que enfrentåssemos batalhas mais sérias na Cidade Nova. Foi assim que eu entendi. E talvez fosse exatamente isso. Talvez alguma coisa mudasse para mim no dia seguinte. Talvez eu me acalmasse e conseguisse agir de forma um pouco melhor.

Eu nĂŁo esperava por isso. Mas precisava dar um jeito. Precisava fazer o que era preciso. Era assim que eu me sentia.

NĂŁo consegui dormir. Entrei na Cidade Nova de Damuro no dia seguinte sem ter pregado os olhos nem por um instante.

Parecia que eu só estava acompanhando os outros. Hayashi logo se entrosou com a party, e eu era apenas uma convidada. Matsuyagi e Yokoi não faziam mais do que me cumprimentar, e Tanamori e Shingen não sabiam o que fazer comigo. Hayashi também parecia frustrado.

“VocĂȘ sabe que nĂŁo pode continuar assim.”

Era isso que o olhar dele parecia dizer.

Se era isso que ele pensava, entĂŁo devia ter dito. Mas Hayashi nĂŁo diria. Ele se sentia culpado.

Hayashi foi quem me salvou. Não havia outra opção. E ele fez a coisa certa. Provavelmente, não se arrependia. Mas, ao mesmo tempo, Hayashi entendia. Que não era isso que eu queria.

Hayashi nĂŁo tinha culpa. Ele nĂŁo fez nada de errado. Mas eu nĂŁo conseguia me sentir grata a ele.

Não conseguia dizer: “Obrigada por me salvar.”

Os goblins da Cidade Nova estavam armados como os soldados voluntĂĄrios humanos. Atuavam de forma organizada, e, se estivessem em menor nĂșmero, com certeza chamariam reforços.

Entramos apenas na periferia da Cidade Nova, nada além disso. Mas mesmo isso jå bastava para nos envolver em batalhas em um nível de intensidade completamente diferente das anteriores. Ainda assim, aquilo não foi o suficiente para me despertar.

Usei o Cure algumas vezes apĂłs os combates. Fora isso, sĂł permaneci ao lado de Tanamori, sem me mover, sem nem conseguir acompanhar o que estava acontecendo.

Mesmo sem fazer nada, só de ver Hayashi trocando golpes com um goblin, minha respiração ficou ofegante.

Comecei a perder o fĂŽlego, com o peito apertado. NĂŁo suportava olhar para Hayashi. Mas, se desviasse o olhar, para onde mais eu olharia?

Hayashi estava lutando. E eu? O que eu estava fazendo?

Hayashi estava tentando seguir em frente. E eu? O que era que eu queria?

Durante trĂȘs dias, fui atĂ© a Cidade Nova de Damuro e tomei consciĂȘncia de que tinha me tornado uma sacerdotisa inĂștil.

Disse a Hayashi que estava deixando o clĂŁ Orion. Depois, pedi desculpas a Shinohara e menti, dizendo que tentaria seguir por conta prĂłpria por um tempo.


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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