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Hai to Gensou no Grimgar – EX 1: Capítulo 3 – Volume 14+

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – Ex 1:
[Capítulo 03: A Ilusão na Qual Existo]


Dia após dia, continuamos vagando pela floresta.

As frutas vermelhas cresciam aqui e ali, então não parecia que passaríamos fome tão cedo.

Encontramos um poço d’água que não era tão turvo. Pequeno demais para tomar banho, mas pelo menos servia para beber. Tinha um gosto meio lamacento, mas já havíamos bebido água muito pior na Cidade Nova, então isso até parecia um luxo.

Um dia, encontramos os restos de uma fera. Ainda estava fresco, mal havia apodrecido, então comemos juntos.

Gobuta encontrou o cadáver de um humano. Esse já estava ali há algum tempo e dava para ver sinais de que animais selvagens o haviam dilacerado. Gobuta pegou as roupas e uma faca do corpo.

Achei os pertences do morto assustadores e sinistros, mas quanto mais lâminas tivéssemos, melhor. O arco que Yumelin tinha encontrado em algum lugar não acertava nada e não seria de grande ajuda.

No começo, só tínhamos espadas quebradas, machados de pedra e pedaços de pau. Do jeito que estávamos, se tivéssemos que lutar, estaríamos em apuros.

— Gobuhiro! Eles estão indo para o seu lado também! — Gobuto gritou.

Ajustei rapidamente a empunhadura da minha espada quebrada.

Havia essas criaturas grandes, parecidas com ratos, correndo entre nós seis. Não era só um. Vários deles.

Um veio direto na minha direção.

— Gwah…! — Balancei minha espada quebrada.

O golpe não acertou.

Quando percebi, uma dor lancinante atravessou minha canela.

— Arrrgh!!

Ele me mordeu?!

Não, espera, ele ainda está mordendo!

Sacudi a perna com força para me livrar dele, mas outro daqueles ratos pulou em mim e cravou os dentes no meu braço esquerdo.

— Agh…!

— Gobu-kun! — Yumelin armou uma flecha no arco. Ela estava mirando na minha direção.

Hã? Em mim?!

— N-Não faz isso, Yumelin! — gritei.

Ela queria acertar os ratos que estavam me atacando, mas não havia chance de ela conseguir. Não tinha como. Digo, ela ia me acertar em vez disso—

— Mrrawr! — Yumelin soltou a flecha.

No fim, meu medo foi completamente em vão.

A flecha voou para uma direção totalmente diferente.

Basicamente, nada mudou. Os ratos ainda estavam me devorando vivo.

— Fwaghh! Waghh! — Não dava para saber se Hobuzo estava balançando aquele tronco enorme ou se era o tronco que estava balançando ele.

— Nããããããão! — Shiholin corria sem rumo.

— Droga… — E quanto ao Gobuta? Ele já tinha subido sozinho em uma árvore e olhava para a gente lá de cima. — Isso aqui é um desastre total…

— Aí! — Era Gobuto. Ele era o único que conseguia repelir os ratos, ainda que com dificuldade, usando um pedaço de pau. — Hah! Grahh! Gobuhiro! Você tá bem?!

Gobuto também não estava tendo vida fácil, então apenas respondi que sim, mas minha canela direita e meu braço esquerdo estavam latejando de dor. Eu não estava nada bem. Mal conseguia segurar o choro.

— Uwagh…!

No fim, tropecei em algo e caí no chão.

Os ratos continuavam cravando os dentes em mim, sem nenhuma intenção de soltar.

Eu nem conseguia me levantar.

— Urgggggghh! — gemi.

Eu vou morrer…?

Vou ser morto por ratos…?

— Gobuhiro!

Os ratos soltaram meu braço esquerdo primeiro, depois minha canela direita. Gobuto correu até mim, espantando-os com seu bastão.

— Consegue ficar de pé?! — ele gritou.

— S-Sim!

— Fica de costas pra mim! Yumelin, Shiholin, fiquem atrás do Hobuzo!

— Miau!

— C-Certo!

— Gobuta, desce logo! Não dá pra fazer isso sem você, cara!

— B-Bem, acho que vou ter que descer então! Se vocês insistem, eu vou salvar vocês!

— Todo mundo, mantenham a calma! O pelo dessas coisas é duro para caramba, então lâminas provavelmente não vão funcionar! Não cortem nem perfurem, esmaguem com tudo o que tiverem! Hobuzo, você não precisa desse tronco! Seu próprio corpo é uma arma!

— Ngh! Ngh! Nghhhhhhh!

A maré virou num instante—ou melhor, não.

Eu, por exemplo, estava no meu limite só de ficar de costas para Gobuto, como ele pediu. Tudo o que eu podia fazer era rezar: “Que nenhum rato venha pra cá, não venha, por favor, não venha!”

Mas, conforme continuávamos, os ratos acabaram fugindo para algum lugar.

Nos sentamos.

— Ratos são assustadores… — Gobuta gemeu, então balançou a cabeça. — Não! Mas eu não fiquei com medo, tá bom?! S-Só estou dizendo que eles são uma ameaça para vocês, fracotes.

— E-Eu fiquei com medo… — Hobuzo estava suando frio. — Ainda estou…

— Isso foi exaustivo… — Yumelin se deitou. — Os ratos eram enormes. Mas eram tão fofinhos…

— F-Fofinhos…? — Shiholin pareceu um pouco enojada. — Você… acha mesmo?

— Gobuhiro. — Gobuto pegou meu braço esquerdo e examinou o ferimento. — Não é muito profundo, mas pode piorar se não tratarmos. O da sua perna também.

— Um pouco de cuspe e melhora. — Olhei para o chão. — …Provavelmente.

Foi tudo o que consegui dizer. Não havia mais nada a ser feito. O máximo que podíamos fazer era lavar o ferimento com aquela água lamacenta.

Mesmo assim, Gobuto e os outros rasgaram pedaços de suas roupas e pressionaram os panos limpos sobre os cortes. Me fizeram beber algo parecido com remédio, feito de ervas moídas. Arrumaram um canto para eu descansar e me deixaram repousar. Fizeram tudo o que podiam.

Mas eu tive febre.

Uma febre absurda, como se meu corpo inteiro estivesse pegando fogo.

Devia ser algum ar ruim ou coisa assim que entrou pela ferida. Eu já estava assustado desde o ataque dos ratos, mas, por alguma razão, agora me sentia estranhamente calmo. Se eu perdesse para esse ar ruim, eu morreria. Senti pena dos meus companheiros e pedi desculpas.

Não conseguia me mover. Um deles sempre ficava ao meu lado, cuidando de mim, enquanto os outros saíam para procurar comida ou fazer outras coisas.

Quando era a vez de Yumelin cuidar de mim, ela se deitou ao meu lado e me abraçou.

— Escuta, Gobu-kun, se você não gostar disso, é só dizer, tá bom?

— Não… Tá tudo bem. Totalmente bem, mas… por quê?

— Hmm, bem, Yumelin tava pensando… Se ela estivesse passando por um momento difícil, ia querer que alguém fizesse isso por ela.

— Entendo… Faz sentido… É meio… reconfortante…

— Pode relaxar muuuuuito mais. Aí, se sentir sono, dorme. Se dormir um monte, com certeza vai melhorar.

Enquanto Yumelin me abraçava e fazia carinho na minha cabeça, parece que acabei pegando no sono.

Dormia, acordava, dormia, acordava—tantas vezes que já nem sabia mais o que era o quê. Estava dormindo? Ou acordado?

Shiholin conversou comigo.

— Acho que sua aparência tá um pouco melhor, talvez?

— Oh… Sério? Se estiver… Que bom.

— Acho que você tá melhorando, aos poucos — ela disse. — Todo mundo tá dando o seu melhor… e sei que você também tá lutando, Gobuhiro-kun.

— Mas tudo o que eu faço é dormir…

— Gobuhiro-kun.

— …Huh? O quê?

— Você não pode morrer. Por favor, só… não morra.

— Você tá exagerando… Isso não é nada…

Ri. Mas, sério, eu ainda estava vivo? Tinha certeza de que não estava morto?

— Ei! Levanta, Gobuhiro! — Gobuta gritou.

Senti uma dor no lado do corpo.

— Ai! …Não me chuta, Gobuta. Tô machucado aqui…

— Como se eu me importasse, seu idiota! Melhora logo e levanta! Ficar te vendo jogado assim é muito deprimente! Se recupera rapidinho, por mim! Isso é uma ordem!

— Não seja irracional… Eu tô me sentindo meio lerdo…

Ou melhor—

Sim. É mais como se eu não conseguisse dizer se meu corpo estava pesado ou leve. Tudo parecia distante. Como se eu estivesse em outro lugar, longe daqui.

Que sensação estranha. O que é isso…?

— Haruhiro-kun… Haruhiro-kun? Haruhiro-kun…

— Hã… Moguzo?

— Você estava dormindo? Seus olhos estavam abertos, então achei que estivesse acordado…

— Eu… não sei… Eu estava acordado… Acho?

— Fiz uma sopa. Acendi o fogo. Consegue comer? Você devia comer alguma coisa, mesmo que tenha que se forçar…

— É… Eu devia… Vou comer… Você fez isso… só por mim…

— Vamos, eu te ajudo a se sentar, tá?

— Ngh… Eu tô bem…

— Aqui, come. Já esfriou um pouco, então não deve estar quente.

— Ngh… Haww… Ngh… Tá boa, Moguzo… Você cozinha bem…

— Não, eu não… Eu só gosto de comer, então—

Mas que gosto tinha?

Espera aí, o que é que eu estava comendo mesmo?

Eu não sabia.

— Ei, Manato.

— Huh? — Manato se virou para mim.

Não. Não era Manato.

— Gobuhiro — Gobuto disse. — Como é que você me chamou agora?

— Eu te chamei de… alguma coisa… — Pisquei. — O que foi mesmo…? Não, mas você é o Gobuto. Hã…? Mas, de alguma forma, eu…

— Você não me chamou de Manato?

— Manato… — Passei a mão no canto da boca. — É verdade. Eu te chamei de Manato. Sim. E acho que… Eu estava sonhando? Chamei o Hobuzo de Moguzo. E o Hobuzo me chamou de… Haruhiro.

— É igual.

— Hã? Igual como?

— Comigo também, Haruhiro—Não, espera, Gobuhiro. Às vezes eu tenho sonhos. E nesses sonhos, nós não somos goblins… Somos humanos. Você é Haruhiro. Gobuta é Ranta. Hobuzo é Moguzo. Yumelin é Yume, e Shiholin é Shihoru. E eu… Todo mundo me chama de Manato.

Ao me sentar, tentei encontrar as palavras certas. Mas nada me veio à mente. O que exatamente isso significava? Manato e eu—não, Gobuto e eu—estávamos tendo o mesmo sonho, e nele, não éramos goblins, éramos humanos, e—

Espera, eu estava… de pé?

— Ah! Eu… melhorei? — exclamei.

— Oh! — Os olhos de Gobuto se arregalaram. — V-Você… tá bem, né? Quer dizer, você se levantou sozinho…

— S-Sim. Bem… Ainda me sinto um pouco tonto, mas acho que tô bem melhor.

— Graças a deus. — Quando Gobuto cobriu o rosto com as mãos, algo que eu jamais esperaria aconteceu. Seu corpo inteiro começou a tremer.

Então, huh? Será que ele…? Pensei.

Gobuto estava… chorando?

— Que bom… De verdade… Eu sempre acreditei que você ia melhorar, mas sempre existia a possibilidade… Não queria pensar nisso, mas não conseguia evitar… Mas, enfim, que bom que você tá bem.

Comecei a estender a mão, mas a recolhi e cocei a cabeça. Até que Gobuto recobrasse o fôlego, afastasse as mãos do rosto e me desse um sorriso, eu não consegui fazer nada além de ficar ali, em silêncio.

— Vou chamar os outros — ele disse. — Gobuhiro, fica aqui. Tenho certeza de que você ainda não tá 100%.

— Beleza. Entendido. Hm… — Devolvi o sorriso. Sei lá, me senti meio envergonhado, então a única coisa que consegui fazer foi sorrir. — Obrigado. Por tudo.

Gobuto me deu um leve tapa no ombro e foi chamar os outros. Talvez eu ainda estivesse meio fora de órbita. Me sentia um pouco fraco, então deitei de novo. Mas, bem, eu tinha certeza de que ficaria bem. Como o Gobuto disse, era óbvio que eu ainda não tinha recuperado toda a minha força. Devia ser só isso.

Foram mais três dias antes que eu conseguisse me mover normalmente de novo.

Enquanto eu estava de cama, meus companheiros encontraram nozes duras que podiam ser comidas depois de descascadas, cogumelos não venenosos, insetos de aparência duvidosa, mas com um gosto não tão ruim, e água de nascente cristalina. Eles também voltaram à Cidade Velha, observando como as coisas estavam por lá.

Nossa vida estava melhorando um pouco. Os ratos grandes e de pelo duro ainda exigiam cuidado. Se viessem em bando, o melhor era correr.

De vez em quando, víamos outras criaturas. Uma delas tinha pernas finas, um pescoço longo e grandes olhos negros. Pegamos uma, comemos e, olha, era bem gostosa.

Às vezes, encontrávamos ferramentas que pareciam ser de humanos. Mesmo que estivessem quebradas ou desgastadas, sempre as pegávamos.

Também fomos até a Cidade Velha. Quando encontrávamos outros goblins, a situação ficava meio estranha, e alguns tentavam nos intimidar. Sempre que isso acontecia, Gobuta perdia a paciência.

Se parecia que uma briga séria ia começar, arrastávamos Gobuta para longe e íamos embora.

Muitos dos goblins da Cidade Velha—mas não todos—estavam bem armados e até usavam armaduras. Havia grupos não só de alguns poucos, mas de mais de dez goblins. Esses geralmente controlavam um poço e pareciam conseguir comida de alguma forma.

Consideramos entrar para um desses grupos. Teríamos que nos humilhar bastante, mas, desde que nos garantisse uma vida segura, eu não acharia tão intolerável. Mas não era só Gobuta que rejeitava a ideia; Gobuto também se opôs.

— Não saímos da Cidade Nova para sermos governados por outra pessoa — ele disse.

— Você ouviu, Gobupiroh — rosnou Gobuta. — Nem isso você entende, cara? Seu imbecil. Seu cérebro é tão podre que não tem salvação. Você é um lixo! Um pedaço de merda!

— Mesmo que eu seja um lixo, não quero ouvir isso de um verme como você.

— Hã? Eu? O quêêêê? O que você disseêêê? Desculpa, eu não falo a língua dos pedaços de merda, então não entendi nadaaa.

— Espero que você vire poeira — murmurou Shiholin.

— Oh, ho. Isso é jeito de falar com um companheiro, Shiholin? Você não tem classe, hein? Totalmente depravada. Mas, se me deixar apalpar seus peitos antes, eu aceito virar poeira.

— M-Meus pe…?! N-Nem em sonho eu deixaria!

— Caramba! Gobutaaa! Até onde você quer chegar sendo nojento?! — gritou Yumelin.

— Oooh, me insulta mais! Não tô nem aí pro que uma idiota me diz!

— Ha ha — riu Hobuzo. — Você é… incrível, Gobuta. Dá pra dizer que tem um coração forte…

— Hobuzo! Com esse tamanho todo, seu coração é pequeno demais, cara!

Se Gobuto se opunha, não íamos nos juntar a nenhum grupo, Gobuta à parte. No fim das contas, eu também não queria ter que puxar o saco de ninguém. Se fosse possível, eu queria evitar isso.

Se não precisássemos escolher esse caminho—se pudéssemos viver sem fazer o que não queríamos, então não havia motivo para fazê-lo.

Como poderíamos continuar juntos assim pelo máximo de tempo possível?

Gobuto pensaria nisso. Eu só precisava segui-lo.

De vez em quando, eu quase começava a pensar desse jeito. Pior ainda, às vezes nem pensava. Só me via confiando em Gobuto para tudo enquanto levávamos nossa vida diária.

Hoje, encontramos muitos cogumelos comestíveis.

Hoje, matamos uma fera e a comemos juntos. Estava uma delícia, e todos ficamos satisfeitos.

Hoje, pegamos uma espada muito boa. Era grande, então deixamos Hobuzo carregá-la.

Hoje, choveu.

Hoje, alguns goblins da Cidade Velha arranjaram briga conosco. A situação ficou tensa.

Hoje, nada de bom ou ruim aconteceu.

Hoje, dormi bem.

Hoje, tive aquele sonho. Falei sobre isso com Gobuto.

Hoje, atravessamos a floresta. Era absurdamente vasta.

Hoje, tentamos nos aproximar da cidade dos humanos.

Hoje, parece que Gobuta fez alguma besteira, porque Yumelin deu uma surra nele.

Hoje, nada deu certo, e foi deprimente.

Hoje, tive um dia até que bom.

Hoje—

Nossa situação estava bem melhor do que quando saímos da Cidade Nova. Era raro passarmos um dia sem encontrar algo para comer. Bem alimentados e nos movendo bastante, naturalmente ganhamos resistência. Provavelmente, agora éramos mais fortes do que antes. Vimos, ouvimos e aprendemos muito. O que havia em cada lugar, o que fazer em diferentes situações. Ficamos um pouco mais sábios.

Era como se estivéssemos avançando. De um jeito concreto.

Não estava tudo bem assim?

Não estava tudo bem não pensar demais, não se angustiar com tudo?

— Não que eu esteja fazendo isso — murmurei.

Eu estava tirando um cochilo à tarde.

O motivo? A chuva da noite passada tinha sido forte, e foi difícil se acomodar e dormir direito. Mas, ao nascer do sol, o tempo abriu, e o chão secou rapidinho. O calor era intenso, então acabamos decidindo cochilar no meio do campo.

Será que era seguro? Talvez eu me perguntasse isso, mas parecia óbvio que, escolhendo um lugar com boa visão, perceberíamos qualquer coisa se aproximando. Gobuto ficou um pouco hesitante, mas não disse que não podíamos.

Então, estava tudo bem, certo?

Será que todo mundo já estava dormindo?

Dava para ouvir roncos. Hobuzo? Ou talvez Gobuta?

— Pfft… — Shiholin soltou uma risadinha de repente.

Ela estava acordada? Não, não era isso. Olhei para o lado e vi que seus olhos estavam fechados, parecendo dormir. Mas ela tentava segurar o riso.

— Heheheh…

Talvez estivesse tendo um sonho esquisito. Se fosse Yumelin, eu entenderia, mas vindo de Shiholin, era inesperado.

Yumelin estava deitada de barriga para cima, as mãos cruzadas sobre o abdômen, respirando suavemente.

E Gobuto? Seus olhos estavam fechados, mas será que estava dormindo ou apenas descansando?

Soltei um suspiro.

Honestamente, isso era tão… confortável.

Esse estado em que eu estava ficando ridiculamente sonolento, prestes a apagar, mas sem conseguir, era ótimo.

Minha mente embotada divagava sobre várias coisas.

Mas esses pensamentos se dissolviam assim que surgiam. E quando outra coisa vinha à mente, eles desapareciam sem deixar rastros.

Se eu estivesse sozinho, jamais teria algo assim.

Com certeza. Era praticamente garantido.

Se eu estivesse sozinho, ficaria ansioso.

Só porque os outros estavam ali, eu podia tirar um cochilo assim.

Cochilos são incríveis.

Não, mais do que isso—ter companheiros é incrível.

Viver é incrível.

Incrível…

Mesmo com os olhos fechados, tudo estava claro. O vento era suave, a terra e a grama, acolhedoras. A presença dos meus companheiros era reconfortante.

Tudo isso se unia, e eu estava no meio disso. Não, mais do que estar no meio, eu fazia parte disso…

Era como se estivesse prestes a ter outro sonho…

Foi essa a sensação que tive.

Manato.

Moguzo.

Ranta.

Yume.

Shihoru.

Eu ia vê-los de novo.

— Levanta!

Manato? Não. Era Gobuto.

Ele parecia desesperado. Eu fiquei de pé sem demora.

Shiholin já estava de pé. Gobuta e Yumelin estavam apenas se sentando, esfregando os olhos.

— Droga, temos que correr! — Gobuto tentava puxar Hobuzo para cima. — Não, não vai dar tempo—temos que nos preparar para lutar!

— Lutar?! — Gobuta agarrou a espada que tinha conseguido há pouco tempo ao se levantar com um salto. — Q-Q-Q-Quem foi que disse que esse lugar era seguro?!

— Você também estava dizendo isso, cara! — retruquei, balançando a cabeça.

Minha visão tremia.

O que é isso? O que é isso? O que diabos está acontecendo? Não entendo. Tanto faz, eles estão vindo. São os humanos. Eles estão avançando. Quero dizer, já estão quase em cima da gente. Estão perto. Perto demais. Não vai dar tempo. É, correr não é mais uma opção. Temos que encarar. Encara-los? Quer dizer lutar? Com aqueles humanos?

— Toma essa! Hatred!

Ranta.

Ranta veio voando na minha direção.

Desviei. Pulei para o lado, evitando desesperadamente a espada longa de Ranta.

— Uwaaah!

— Tch…! Errei, hein? Mas você não vai escapar!

— Obrigadoooo…!

O próximo foi Moguzo. Moguzo tentava acertar Gobuto com sua espada bastarda.

— Ah! — Gobuto aparou a espada bastarda de Moguzo com seu bastão de madeira.

— Marc em Parc!

Era Shihoru. Vestida com seu traje de maga, Shihoru desenhou sigilos elementais com a ponta do cajado, e uma esfera de luz do tamanho de um punho disparou—em direção a Shiholin.

— Augh! — A esfera de luz atingiu Shiholin no peito, jogando-a no chão.

— Miau! Shiholin! — Yumelin tentou disparar uma flecha contra Shihoru.

Uma flecha voou.

Era Yume. Yume havia atirado. A flecha foi na direção de Yumelin e, embora não a tivesse acertado diretamente, passou de raspão.

Yumelin deixou seu arco cair, assustada. — Fwah…?

— Hmph, essa passou perto! — Yume exclamou ao largar o arco e sacar um facão. Ela avançou.

Naquele momento, senti um calafrio e me joguei no chão. Quando olhei, lá estava ele—o eu humano, Haruhiro.

Haruhiro tinha se esgueirado até mim, o eu goblin, tentando enfiar uma adaga nas minhas costas, pelo visto.

Consegui evitar levar uma apunhalada nas costas por um triz. Mas, sério, o que era isso? O que estava acontecendo? Como isso estava acontecendo? Que diabos estava rolando aqui?

— Rahhhh!

Haruhiro avançou contra mim.

Consegui aparar a adaga dele com minha espada, de alguma forma. Bloqueei, desviei, mas Haruhiro não parava.

Seus olhos estavam vermelhos de sangue. Ele estava falando sério. Haruhiro não estava brincando. Ele estava tentando me matar.

Assustador. O que é isso? Assustador. Assustador pra caramba.

Fiquei paralisado. Tropecei. Haruhiro pulou em mim. Ele me imobilizou.

Eu nem tinha mais minha espada. Tinha soltado em algum momento.

Haruhiro tentou cravar a adaga em mim. Segurei seus braços, impedindo-o.

— Larga! Larga! Caramba, você é bem forte!

Haruhiro estava tentando me matar.

Gritei. — Para! Para com isso! Sou eu! Eu sou eu?! Você é eu! Eu sou eu! Me matar é loucura!

Mas talvez Haruhiro não pudesse me ouvir. Porque eu era um goblin? Mas eu conseguia entender o que Haruhiro dizia. Quer dizer, ele era eu. Eu era Haruhiro. Não, eu era Gobuhiro, não era? Bom, tanto faz, isso era insano.

— Morre! — ele gritou. — Só morre logo! Por favor, morre! Desiste! Por favor!

De jeito nenhum eu ia desistir. Eu não podia desistir, né? Mas isso não ia acabar bem. Ele ia me dominar nesse ritmo. Ele ia superar minha resistência.

Ahhh. Não é bom. Sério. A adaga.

Estava bem na frente do meu olho. Não metaforicamente. A ponta da adaga estava quase tocando. Se eu piscasse, podia encostar na minha pálpebra.

Para. Isso está errado. Alguém me ajuda.

Manato…!

— Hm…? — murmurei.

Manato.

Era o Manato.

— O que foi, Haruhiro? — Manato perguntou. — Huh? Você estava dormindo?

— …Hã… — balancei a cabeça. Pisquei. Isso deveria ser óbvio, mas não havia nenhuma adaga tocando meu olho.

Espera. O que foi isso? Que adaga?

— O quêêêêê?! — Ranta me olhou zombeteiro. — Parupiro, cara, aqui estava eu achando estranho você estar tão quieto, e você tava dormindo no meio do serviço? Não acredito. Tirando uma soneca em Damuro?! Inacreditável. Aqui é território inimigo, cara. Território inimigo. Você é um lixo?!

— …Damuro. — Minha cabeça estava confusa, então nem consegui ficar irritado. — Eu… estava dormindo? Huh? Mas…

— Nyohoh? — Yume se agachou ao meu lado, espiando meu rosto. — Haru-kun, você tava dormindo? Será que não descansou direito?

— Ah… Vai ver. Hm…

— Pensando bem… — Moguzo estava sentado no chão, praticando golpes com sua espada bastarda. — Haruhiro-kun, você quase nunca vai dormir antes de mim, não é?

— Acho que sim? — murmurei. — Talvez você tenha razão.

— Ah! Yume nunca viu o rosto da Shihoru dormindo! Ou será que já viu?

— Hm… Eu tenho dificuldade para dormir. E costumo acordar cedo também.

— Isso é meio frustrante. Yume, da próxima vez, vai ficar acordada até você dormir. Yume vai olhar pro seu rostinho dormindo um monte!

— Isso… não tem problema. Mas, falando assim, é meio constrangedor.

— Deixem-me participar da conversa de garotas! Não, me deixem ver seu rosto dormindo também! Não, aliás, não só o rosto, mas o corpinho dormindo inteiro… Gweheheheh…

— Ranta, seu pervertido! — Yume gritou.

— Você é o pior — Shihoru concordou.

— Digam o que quiserem! Eu não ligo! Geheheheheh!

— Haha… Ranta-kun, você realmente não desiste… — Moguzo comentou.

— Moguzo! Você devia aprender comigo! Você é um guerreiro! Se não ficar durão, de corpo e alma, como vai servir de isca pra mim?!

— T-Talvez tenha razão. É. Vou dar o meu melhor.

— Não, não vai! — Yume berrou. — Se você acabar agindo como o Ranta, Yume vai odiar isso!

— S-Sério…?

— Eu também — Shihoru assentiu sem hesitação.

Manato riu, observando a nossa conversa.

Damuro.

Isso mesmo. Essa era a Cidade Velha de Damuro. Viemos aqui, como sempre, para caçar goblins. Depois, paramos para descansar em uma construção em ruínas.

Eu me sentei e então… cochilei…? Talvez?

— O cansaço está acumulando? — Manato perguntou.

— Ah… — Inclinei a cabeça para o lado. — Pode ser. Mas não sei direito. Se eu simplesmente dormi assim, então deve estar. Hm.

— O quê? Teve um sonho estranho?

— Um sonho… — murmurei.

Isso mesmo.

Eu sentia que… tinha sonhado.

E foi um sonho bem… complexo… digo, longo.

— Manato — chamei baixinho. — Quanto tempo eu fiquei apagado?

— Só um pouquinho, eu acho. Por quê?

— Não…

Parecia que… o sonho tinha sido longo demais para isso ser verdade.

Mas eu não lembrava do que era.

Não só um pouco. Absolutamente nada.

— Não é nada… Acho que estou só cansado mesmo.

— Ah, é? Bom, então vamos encerrar o dia mais cedo.

— Hã? Mas eu tô bem. Se eu fizer todo mundo voltar mais cedo, vou ficar meio sem graça…

— Não é culpa sua, Haruhiro. É importante levar em conta nossa condição. Para o bem de todos.

Quando ele disse isso de forma tão gentil, eu não tive como recusar. Nunca senti vontade de discutir com Manato.

— Que tal voltarmos para Altana enquanto ainda está claro e relaxarmos? — Manato sugeriu a todos.

Ranta resmungou um pouco, mas todos os outros ficaram felizes. E, mesmo Ranta, provavelmente não estava realmente irritado; só queria implicar. Manato sabia como lidar com isso. Era uma habilidade que eu nunca conseguiria imitar.

Se Manato não estivesse por perto, alguém já teria perdido a paciência com Ranta e algo irreversível poderia ter acontecido.

Saímos de Damuro.

Era culpa minha, e eu me sentia um pouco mal por isso, mas, sendo honesto, também achava que tudo bem ter dias assim.

— Quer que eu cozinhe? — Moguzo perguntou no caminho de volta. — Estamos voltando bem cedo, então dá tempo. Além disso, é mais barato.

— Eu vou comer nas barracas — Ranta disse.

— Por que você tem que estragar nossa caminhonha de equipe desse jeito, hein?!

— Yume. — Não pude deixar de apontar. — É “trabalho”, não “caminhonha”. Trabalho em equipe…

— Mewww. Era assim mesmo?

— Claro que era — Ranta zombou. — Caminhar pra quê, sua idiota?

— Murgh. Quando o Ranta fala, fica super irritante.

— Então não me faça falar. Isso é, se conseguir!

— M-Mas… — Shihoru murmurou hesitante. — Eu não acho que uma caminhonha de equipe seria uma ideia tão ruim…

— Oh, Shihoru, eu estava pensando nisso também — disse Manato. — Todos nós caminhando juntos. Trabalho em equipe é para trabalhar, então talvez uma caminhonha de equipe combine mais com a gente.

— N-Não é? Eu… Eu acho isso também…

— Shihoruuuu! — Yume gritou.

— Fwah, o-o quê?! Yume, i-isso foi tão de repente…

— Você é demais!

— P-Para—espera, não, se me abraçar, eu vou tropeçar!

— Esperem — Manato levantou a mão, sinalizando para pararmos. — Lá na frente. Tem alguma coisa ali.

Abaixamos nossas posturas e apertamos os olhos. Ele estava certo. Havia algo se movendo do outro lado do campo. Fiquei um pouco surpreso. Pareciam goblins. Não era Damuro, mas eles estavam em grupo.

— Um… Dois… Três… Quatro… Cinco… Seis deles, hein? — contei. — Isso é bastante.

— Mas, mesmo assim, esses caras parecem meio burros, sabe? — Ranta lambeu os lábios, levando a mão ao cabo da espada longa. — Por que não matamos eles? Com um ataque surpresa, vai ser moleza.

— Isso é verdade, assumindo que o ataque surpresa funcione — disse Moguzo, em uma rara ocasião em que parecia animado. — Talvez seja possível?

— Muh… — Yume preparou o arco. — Parece que eles nem perceberam Yume e todo mundo, sabe?

— Se vamos atacar — Shihoru apertou seu cajado —, temos que decidir rápido.

— Você tem razão.

Manato estava um pouco hesitante?

Era natural. A decisão era dele, afinal. Quem sabia no que isso poderia dar? Claro, aceitaríamos qualquer escolha, mas Manato carregava a responsabilidade.

Ele olhou para mim.

Não achei que estivesse pedindo conselho. Provavelmente só estava observando como eu estava.

Mas, ainda assim, se eu assentisse agora, Manato tomaria sua decisão? Foi o que pensei. Bem, eu poderia pelo menos dar um empurrãozinho. Eu devia isso a ele.

Estava prestes a assentir quando algo passou pela minha mente.

Coisas que talvez tenha visto, talvez tenha ouvido. Pareciam fazer sentido, mas ao mesmo tempo, não. Tudo misturado. Era difícil de explicar, mas… algo ficou preso no meu peito, e tive dificuldade para respirar.

Só sabia de uma coisa. Não podíamos fazer isso. Seria um erro.

— Podemos não fazer? — perguntei. — São muitos. Um deles parece grande demais, também. Não estou sentindo que vai dar certo… Acho que não estamos prontos pra isso.

— Hã?! — Ranta veio para cima de mim. — Você é o único que não tá pronto aqui! Eu tô mais do que preparado! Agora escuta—

— Wah! — Yume apontou para os goblins. — Eles fugiram!

— É verdade — Moguzo pareceu um pouco aliviado.

Shihoru também parecia aliviada. — Mesmo que fôssemos atrás deles agora…

— Não conseguiríamos alcançar — Manato riu um pouco. — Bom, talvez isso tenha sido o melhor. As coisas acontecem como devem acontecer.

— Tch! — Ranta estalou a língua e chutou o chão. — Aqueles desgraçados acabaram de ganhar mais tempo de vida.

Enquanto eu observava os goblins desaparecendo na distância, pensei no longo sonho que havia acabado de me lembrar.

Sim.

Aquilo foi um sonho.

Um sonho longo que tive em um tempo muito curto.

Mas… foi mesmo um sonho? Como eu podia ter certeza de que isso aqui não era o sonho?


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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