Hai to Gensou no Grimgar â EX 1: CapĂtulo 1 â Volume 14+
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Ex 1:
[CapĂtulo 01: Uma HistĂłria a Ser Contada]
â Uh, nyuh, nyuh, nyuh, nyuh… â Puxando a corda do arco atĂ© o limite, Yumelin soltou. â Mrriawr!
A flecha cortou o ar.
O corvo solitårio, empoleirado em um lugar alto, não foi atingido. Com um bater de asas, ele alçou voo.
Enquanto isso, a flecha nem sequer alcançou o poleiro do corvo, perdendo velocidade e despencando no chão.
â …Noo-hyoo. â Yumelin abaixou os ombros.
Eu nĂŁo encontrava palavras para consolĂĄ-la. Honestamente, eu nem estava tĂŁo desapontado quanto Yumelin. Afinal, nem parecia que tinha sido por pouco.
Se me perguntassem se, por um segundo sequer, eu acreditei que ela poderia acertar… nĂŁo. NĂŁo acreditei.
Além disso, eu estava com tanta fome que me sentia lento.
Isso estava complicado.
Estava ficando bem ruim.
â Heh, heh, heh, heh… â Gobuta estava esparramado no chĂŁo. â VocĂȘ Ă© pĂ©ssima… Heh, heh, heh, heh, heh…
â NĂŁo diga que a Yumelin Ă© pĂ©ssima! â Yumelin reclamou, quase chorando. â A Yumelin tĂĄ dando o melhor dela, tĂĄ bom? Ela nĂŁo Ă© boa em atirar com arco, entĂŁo nĂŁo Ă© culpa dela! Se vai dizer que a Yumelin Ă© pĂ©ssima, faz vocĂȘ entĂŁo, Gobuta!
â …Nem ferrando. NĂŁo quero me mexer… E para de gritar… NĂŁo faz bem com o estĂŽmago vazio…
â Fuh, gyuh. Gyuh, gyuh, gyuh! â Por fim, a raiva de Yumelin explodiu… sĂł que nĂŁo. Ela simplesmente murchou ali mesmo. â …Ooh-hyooh. TĂŽ com tanta fome…
Eu entendo, pensei.
Sinceramente, completamente, profundamente entendo.
Puxa vida. Nem conseguia culpar o Gobuta. Eu simplesmente não tinha forças para isso. Eu podia não estar deitado como ele, mas em algum momento tinha me agachado e ainda não tinha conseguido me levantar.
NĂŁo era sĂł eu; Hobuzo tambĂ©m estava sentado, olhando para o cĂ©u, imĂłvel. Shiholin estava encolhida. AtĂ© mesmo Gobutoâ
â Um corvo nĂŁo vai ser o suficiente â murmurei.
Mas ele era Gobuto, afinal de contas. Gobuto se levantou de imediato, erguendo o punho no ar de maneira decidida.
â Mesmo que conseguĂssemos acertar o corvo, ele nĂŁo seria o bastante para encher nossos estĂŽmagos. Um corvo nĂŁo Ă© o suficiente. Precisamos encontrar outra presa!
â NĂŁo, mas… â Comecei a responder, e isso na verdade me surpreendeu. â O que devemos fazer? Quer dizer, na Cidade Velha, sĂł tem… ĂłrfĂŁos como nĂłs… ou corvos, e sĂł. Talvez ratos tambĂ©m…
â JĂĄ tĂĄ na hora daquilo? â A garganta de Gobuta fez um som estranho, um gorgolejo. â TĂĄ na hora do canibalismo…? Digo… eles fazem isso, nĂ©…? O pessoal da Cidade Velha…? NĂŁo culparia eles…
â Goooobliiin… â Hobuzo murmurou. Sua voz era assustadora, como se viesse das profundezas da terra.
Quando olhei para ele, seus olhos estavam vermelhos, com os brancos Ă mostra, e a baba escorria de sua boca. Isso nĂŁo era brincadeira; ele estava num estado perigosĂssimo.
â Qualquer coisa, menos isso… â Os ombros de Shiholin tremiam. â Qualquer coisa, menos isso, nĂŁo… Como goblins… temos que evitar isso a todo custo…
â Ohhhh… â Yumelin lançou um olhar intenso na direção de Shiholin. â Agora que vocĂȘ mencionou, faz um tempo que a Yumelin tĂĄ achando que a Shiholin parece bem saborosa…
â Iiih! â Shiholin deu um pulo para trĂĄs.
â NĂŁo, nĂŁo! â Gobuto interrompeu, colocando uma animação forçada na voz. â Ă Ăłbvio que nĂŁo vamos recorrer ao canibalismo. Isso seria o Ășltimo recurso… nĂŁo, tĂŽ brincando, tĂĄ? O que eu quero dizer Ă© que nĂŁo vejo motivo para ficarmos parados aqui na Cidade Velha.
â Whaa…? â Gobuta olhou para Gobuto com olhos vazios. â Mas… a gente veio atĂ© aqui. SaĂmos da Cidade Nova, entĂŁo voltar seria…
â Eu nunca disse nada sobre voltar.
â Huh? Se nĂŁo vamos voltar, entĂŁo para onde…?
â NĂŁo vamos voltar… â murmurei, piscando.
â Para onde, entĂŁo…? â Shiholin perguntou, piscando. â VocĂȘ… quer dizer?
â Nuhoh…? â Talvez imitando Shiholin, Yumelin olhou para o horizonte.
â Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh… â Hobuzo soltou um gemido.
Gobuto assentiu firmemente.
â Para fora. Vamos sair de Damuro. Tenho certeza de que todos vocĂȘs sabem disso, mas existe um mundo imenso alĂ©m de Damuro.
â Mas ainda assim… â Baixei a cabeça. â NĂŁo Ă© perigoso? Digo, lĂĄ fora. NĂŁo que eu realmente saiba. Tem, tipo, humanos, orcs e essas coisas…
â Gobuhiro. A gente ainda nĂŁo encontrou nenhum, mas humanos tambĂ©m vĂȘm para a Cidade Velha.
â Isso Ă©… Bom, Ă©, eu jĂĄ ouvi histĂłrias.
â Mas aparentemente nĂŁo hĂĄ orcs em lugar nenhum perto de Damuro. Eles ficam muito mais longe, em uma regiĂŁo chamada Nananka ou Ishmal. Ă lĂĄ que vivem os orcs e os mortos-vivos.
â Gobuto, vocĂȘ… â Gobuta pareceu um pouco impressionado. â VocĂȘ realmente sabe das coisas. Onde ouviu tudo isso?
â Ah, um pouco daqui, um pouco dali. â Gobuto sorriu de um jeito surpreendentemente refrescante, considerando que era um goblin.
Estreitei os olhos, pensando mais uma vez: ele Ă© mesmo um cara misterioso.
Todos nós éramos órfãos, mas Gobuto tinha algo diferente. Para começar, ele sabia de muitas coisas e era incrivelmente tranquilo. Desde que nos conhecemos, ele sempre foi assim.
SerĂĄ que Gobuto nĂŁo era realmente um ĂłrfĂŁo? NĂŁo poderia ser um goblin respeitĂĄvel, com um nome de linhagem?
Mas isso nĂŁo fazia sentido. Se ele nĂŁo fosse um ĂłrfĂŁo, nĂŁo estaria conosco. Se tivesse um nome de linhagem, estaria vivendo bem na Cidade Nova.
â LĂĄ… fora… â Shiholin repetiu, hesitante. â O que tem lĂĄ? Que tipo de lugar Ă© o lado de fora…?
â Isso Ă© sĂł o que eu ouvi falar, mas… â Gobuto bateu o pĂ© no chĂŁo para dar ĂȘnfase. â A terra se estende para sempre.
â Fukyoh… â Yumelin apertou as bochechas com as mĂŁos. â Para sempre…?
â Isso mesmo. Continua atĂ© alĂ©m de Nananka e Ishmal. Quanto ao que existe lĂĄ, eu tambĂ©m nĂŁo sei. Mas justamente por nĂŁo saber, quero descobrir.
Levei a mão ao peito. O que era isso? Dentro de mim, havia uma sensação de aceleração, um pulsar intenso. Era uma sensação estranha, algo que eu nunca havia sentido antes.
â AlĂ©m disso â Gobuto continuou â, os goblins nĂŁo estĂŁo em Damuro desde sempre. Pelo que dizem, viemos do norte de Ishmal e Nananka, ou do oeste. Mas entĂŁo surgiu esse tal de No-Life King, que formou uma Aliança dos Reis, e isso levou ao surgimento de um rei goblin. Antes disso, nunca tivemos um rei. Por isso, os orcs nos desprezavam e oprimiam. Mesmo depois de entrarmos na Aliança dos Reis, continuamos em uma posição inferior. Os goblins eram usados como soldados rasos, e muitos dos nossos morreram nas linhas de frente. Ainda assim, na esperança de sermos reconhecidos pelas outras raças, nunca reclamamos e lutamos com bravura. Foi assim que Damuro nos foi concedido como domĂnio do nosso reino. Esta Ă© a terra que nossos ancestrais conquistaram, e por isso Ă© nossa terra sagrada. Ă por isso que os goblins se agarram a Damuro, nĂŁo importa o que aconteça. A Cidade Nova, em especial, que ainda se parece com o que era quando os humanos viviam lĂĄ, Ă© motivo de orgulho, conquistada com o sangue dos goblins. Nunca podemos abandonĂĄ-la. NĂŁo importa o que aconteça, devemos protegĂȘ-la…
â H-Hey, Gobuto. â Gobuta piscou, confuso. â Essa histĂłria tĂĄ ficando complicada, e eu nĂŁo tĂŽ entendendo direito. VocĂȘ tava falando daquele No-Time Kong e da Aliança dos AnĂ©is, mas… Sei lĂĄ, se tem alguma coisa que vocĂȘ quer dizer, pode encurtar? Vai direto ao ponto. NĂŁo, sĂł pra deixar claro! NĂŁo Ă© que eu nĂŁo entenda, tĂĄ?! Eu tĂŽ de boa, mas esses outros idiotas, vocĂȘ vai ter que explicar de um jeito mais simples pra eles…
â Foi mal, foi mal. â Gobuto coçou a cabeça. â Bom, basicamente, o mundo Ă© enorme. Os goblins estĂŁo expandindo a Cidade Nova, construindo por baixo dela. Mas nunca tentamos sair. Na verdade, hĂĄ boatos de que temos um pacto secreto com os humanos… Mas isso nĂŁo vem ao caso. O que importa Ă© que acho isso estranho. Se o mundo continua para sempre, por que precisamos ficar presos aqui? Temos pernas para andar. Se andarmos, seguimos em frente. EntĂŁo, por que nĂŁo podemos ir para onde quisermos?
â Nghboaghhhhhh…! â De repente, Hobuzo saltou de pĂ©. â Eu vou! Vamos! Comida, comida, comida! Vamos buscar comida! Comiiiiida! Comida para comeeeeer!
â Ugahhh! â Yumelin ergueu os braços. â Foooooooooood…!
Shiholin olhava para Gobuto como se ele fosse uma luz ofuscante.
â N-NĂŁo, mas ainda assim! â Gobuta parecia relutante. â Mesmo que a gente vĂĄ lĂĄ fora, nĂŁo tem garantia de que vai ter comida, nĂ©? Cara, vocĂȘ acha que vale esse risco?
Antes que Gobuto pudesse abrir a boca, eu falei: â VocĂȘ tĂĄ com medo?
â HĂŁ?! Q-Quem disse alguma coisa sobre estar com medo?! Eu nunca falei nada disso!
â EntĂŁo por que tĂĄ enrolando?
â E-Eu nĂŁo tĂŽ! Eu sĂł…
â SĂł o quĂȘ? Quero dizer, vocĂȘ tĂĄ dizendo que Ă© arriscado, mas ficar aqui procurando comida que pode nem existir, ou sentar e esperar quieto por uma presa que pode nunca aparecer, isso Ă© muito mais arriscado, nĂŁo acha?
â C-Cala a boca, Gobupiro! Eu nĂŁo preciso ouvir isso de vocĂȘ, eu sĂł… sĂł tĂŽ fazendo o papel do cara do contra, ou sei lĂĄ, tĂĄ bom?! Isso Ă© necessĂĄrio! AlguĂ©m tem que fazer! VocĂȘs sĂŁo um bando de idiotas, entĂŁo nĂŁo percebem como eu sou importante, seus merdinhas! â Gobuta se levantou e avançou. â Vamos lĂĄ! Todo mundo comigo! O mundo lĂĄ fora Ă© enorme e maluco! A gente pode ir a qualquer lugar, se sĂł botarmos isso na cabeça!
Gobuto e eu trocamos olhares. Até mesmo Gobuto teve que sorrir de canto de boca diante daquilo.
Primeiro, Hobuzo seguiu atrås de Gobuta, depois eu fui, um tanto relutante. Gobuto pegou Shiholin pelo braço e a ajudou a se levantar. Yumelin enlaçou o braço dela e começou a pular animada, enquanto Shiholin parecia prestes a tropeçar a qualquer momento.
Foi assim que deixamos a Cidade Velha de Damuro.
A histĂłria de Gobuto serviu como um gatilho, enchendo-nos de esperançaâmas, quanto mais nos afastĂĄvamos da Cidade Velha, mais essa esperança ia se esvaziando.
Afinal, estĂĄvamos Ă beira da fome.
Eu até comecei a sentir saudade do tempo em que fui um trabalhador forçado, cavando buracos na Cidade Subterrùnea.
Para um ĂłrfĂŁo, a Ășnica forma de conseguir comida, ainda que pĂ©ssima e sempre insuficiente, era cavar buracos.
As Ășnicas ferramentas disponĂveis eram espadas velhas e prestes a quebrar. Com elas, os ĂłrfĂŁos iam lascando a rocha incrivelmente dura, pedacinho por pedacinho. CarregĂĄvamos as pedras escavadas atĂ© um local designado. Do amanhecer atĂ© a noite, sem parar, atĂ© que, finalmente, recebĂamos uma Ășnica refeição: dois bolinhos pequenos e uma tigela de sopa.
NĂŁo era suficiente, obviamente, mas era melhor do que nada.
Quer dizer, para ser honesto, era sĂł um pouquinho melhor do que nada. Se possĂvel, eu nĂŁo queria voltar a cavar buracos. Mas nĂŁo era como se o gado das boas famĂlias goblins fosse escapar convenientemente para que pudĂ©ssemos caçå-los todos os dias.
O lugar onde jogavam restos de comida geralmente era dominado por ĂłrfĂŁos mais durĂ”es, entĂŁo sĂł conseguĂamos pegar as sobras em raras ocasiĂ”es. Quando o rei distribuĂa ajuda de vez em quando, brigas estouravam na mesma hora.
Cavar buracos era nossa Ășnica salvação. Se nĂŁo fosse por esse trabalho, era provĂĄvel que nenhum dos ĂłrfĂŁos tivesse sobrevivido.
Aqueles bolinhos que pareciam cheios de lama. A sopa com gosto de mijo, que quase nĂŁo tinha nada sĂłlido dentro, era ruim, mesmo com o estĂŽmago vazio. A comida era horrĂvel. Isso era verdade. Mas agora, eu tinha que pensar que atĂ© mesmo aqueles bolinhos e aquela sopa podiam parecer deliciosos.
Quando decidimos deixar a Cidade Nova, estĂĄvamos empolgados, achando que nunca mais precisarĂamos comer bolinhos de lama e sopa de mijo. Mas o que aconteceu? NĂŁo sĂł os bolinhos de lama e a sopa de mijo eram melhores do que nada, como, sem eles, estĂĄvamos em apuros. QuerĂamos eles de volta. Agora que eu tinha percebido isso, nĂŁo conseguia pensar em outra coisa alĂ©m de bolinhos de lama e sopa de mijo.
Se eu olhasse para baixo, sentia que ia desabar, então continuei andando com a cabeça erguida.
O sol brilhava forte, e, do jeito que as coisas estavam, eu sentia que ia secar completamente.
Thud! Um som alto ecoou.
Olhei para o lado e vi Gobuta caĂdo de cara no chĂŁo, com a bunda empinada para cima.
â V-VocĂȘ tĂĄ bem, Gobuta? â perguntei.
â Nngh… â Um som estranho veio dele. NĂŁo, pera, era sĂł o Gobuta mesmo.
â Cara… vocĂȘ tĂĄ… comendo alguma coisa?
â Washagushagushagoshawashagoshagushagusho.
â Ahhh! â Yumelin correu atĂ© ele e apontou. â Gobutaaa! Ele tĂĄ comendo grama!
â Grama… â Gobuto caiu de joelhos, como se desabasse. â Grama, Ă©? Essa era uma opção.
â HĂŁ? Ei… Gobuto? Quero dizer, grama Ă© sĂł… grama, sabe…?
â Oooobrigadooo! â Hobuzo se jogou no chĂŁo, como se estivesse se curvando diante de um lorde, e começou a enfiar grama na boca violentamente. â Uoghuohguohguogoh! Hobuhobuhobuboh!
â NĂŁo?! Hobuzo?! â Meus olhos se encheram de lĂĄgrimas. â Ă grama, tĂĄ bom?! Grama! NĂŁo dĂĄ pra comer grama, nĂ©?! Quero dizer, Ă© grama! Mas, espera… naquela sopa de mijo que a gente tomava, tinha umas coisas que pareciam grama… Era super amarga e tinha um gosto horrĂvel, mas…
â Gubwahhhhh?! â Gobuta vomitou uma quantidade absurda de grama. â Ă amaaaaaaaaaaaaaaarga?!
â Uohhhaegh?! â Hobuzo cobriu a boca com as duas mĂŁos, estremecendo com o amargor. â Queeeeeee nooooooooooooojoooooooooooooooooooo?!
Esse momento ficou conhecido, mais tarde, como o Incidente da Grama.
Enquanto observava Gobuta se contorcer de agonia, eu esfregava as costas de Hobuzo.
â Eu sabia… Grama Ă© sĂł grama…
â S-Sim… E-Eu sei, mas… E-Eu… nĂŁo consegui me segurar… Eu estava com fome, tanta fome… Eu perdi o controle…
â N-NĂŁo chora, Moguzo. NĂŁo, quero dizer, Hobuzo. Huh…?
Eu acabei de chamar Hobuzo de Moguzo? Eu imaginei isso? SĂł podia ser. Hobuzo era Hobuzo.
Shiholin engoliu em seco.
â O que foi? â Gobuto perguntou. Sua voz parecia prestes a morrer, o que nĂŁo combinava nada com ele.
â I-Isto… â Shiholin puxou algo do meio da grama.
â Nyoh? â Yumelin pegou o que Shiholin encontrou, erguendo-o enquanto inclinava a cabeça.
Meus olhos se arregalaram.
â I-Isso Ă©…
â Opa. â Gobuta apontou para mim, ainda com a cara suja de grama. â Gobuhiro, cara, vocĂȘ sempre tem esses olhos sonolentos, entĂŁo, quando arregala desse jeito, fica assustador. Tipo, muito assustador. Assustador demais.
â Gobuta, cala a boca, sĂ©rio â eu disse. â O mais importante aqui Ă©…
â Cogumelos… â Gobuto engoliu em seco.
Sim.
O que Shiholin tinha encontrado no meio da grama, e o que Yumelin agora segurava no alto, era algo amarelado e viscoso, com um chapéu e um caule.
Era um cogumelo.
NĂŁo importa como eu olhasse para ele, era, sem sombra de dĂșvida, um cogumelo. Mas, ah, que glorioso exemplo de cogumelidade.
C-O-G-U-M-E-L-O.
â E-E-E-E-E-E-E-E-Esperem! â Abri os braços, impedindo todos. â Ă um cogumelo, sim, mas eles sĂŁo perigosos! Eu ouvi dizer que sĂŁo perigosos, entenderam?! VocĂȘs sabem disso, nĂ©?! Mesmo que pareçam apetitosos, podem ser venenosos! Isso Ă© senso comum, certo?! Eu ouvi falar de gente na Cidade Nova que morreu depois de comer cogumelos, tĂĄ bom?!
â VocĂȘ tĂĄ certo â Gobuta assentiu. â Eu jĂĄ ouvi falar disso. Mas eu sĂł ouvi falar…
â Yumelin. â Gobuto? Por que… ele estava com um sorriso tĂŁo bonito agora? NĂŁo, ele sempre teve um sorriso bonito, mas esse era o melhor de todos, nĂŁo era?
â Me dĂĄ o cogumelo.
â N-NĂŁo seja precipitado, Gobuto! â Sacudi minha cabeça com força. â VocĂȘ nĂŁo pode! E se acontecer alguma coisa com vocĂȘ, e entĂŁo?! Se alguĂ©m tem que testar se Ă© venenoso, nĂŁo podemos fazer o Gobuta fazer isso?! Isso mesmo! Isso seriaâ
â Ei, Parupiro! NĂŁo, Gobupiro! Como assim eu que tenho que testar se Ă© venenoso?! TĂĄ dizendo que, se eu comer e morrer, vocĂȘ tĂĄ de boa com isso?! Cara, Ă© assim que vocĂȘ se sente sobre mim?! Eu vou chorar aqui, droga!
â Um pouquinho de veneno nĂŁo vai te matar, nĂ©?! â rebati. â Quer dizer, dizem que quanto mais odiĂĄvel vocĂȘ Ă©, mais longe vai na vida, certo?!
â Oh?! EntĂŁo vocĂȘ admite que eu vou longe, hein?! A verdade Ă© que eu realmente vou longe! O mundo Ă© meu, droga!
â Ha ha. â Gobuto soou estranhamente revigorado, atĂ© para os padrĂ”es dele. â TĂĄ tudo bem, Gobuhiro. Eu tĂŽ confiante nisso. NĂŁo tem nada de errado com esse cogumelo. Por algum motivo, eu sei. Eu consigo ver isso.
â Gobuto-kun… â Shiholin cruzou os braços, encarando Gobuto com intensidade. â VocĂȘ consegue ver? O que exatamente vocĂȘ vĂȘ?
â De qualquer forma, eu sĂł consigo ver! Eu vejo! Eu vejo coisas! Se eu digo que vejo, entĂŁo vejo! Eu vejo tanto que Ă© assustador! TĂŁo assustador! O que eu faço?! Eu vejo!
â Gobuto! â Agarrei os ombros de Gobuto apressadamente e o sacudi. â Ei, Gobuto, vocĂȘ tĂĄ agindo estranho! Se controla, Gobuto! Se vocĂȘ enlouquecer tambĂ©m, o que eu vou fazer?!
â Certo, Yumelin! â Gobuta gritou.
â Onyoh?!
â Esse cogumelo, me dĂĄ ele! Eu vou comer inteiro! Vou devorar sem deixar nada!
â NĂŁo, Yumelin! Eu! Me dĂĄ o cogumelo! Eu vou comer! Eu tenho que comer! Isso Ă© destino! â Gobuto gritou.
â NĂŁo, Gobuto, eu jĂĄ disse que vocĂȘ nĂŁo pode! â implorei. â Por favor, Gobuto…!
â …Eu. â Por um momento, nĂŁo soube de quem era aquela voz.
Era difĂcil acreditar que ele podia falar com um tom tĂŁo aterrorizante, fazendo todos nĂłs estremecermos de medo.
â Eu vou comer! Me deem o cogumelo! Eu vou comer tudo! Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eeeeeeu…!
â Nyueek?!
Hobuzo arrancou o cogumelo das mĂŁos de uma Yumelin completamente intimidada.
Gobuto, Gobuta, Shiholin e eu olhamos para ele, cada um em um estado diferente de choque.
Hobuzo pegou o cogumeloâ
â e comeu.
Ele nem mastigou.
Engoliu inteiro.
â …Mastiga, pelo menos â Gobuta disse.
â Cogumelos! â Hobuzo berrou. â Descendo suave! Eles sĂŁo uma bebida!
NĂŁo.
NĂŁo Ă© assim que funciona… certo?
NĂŁo consegui dizer nada. NĂŁo tive coragem de fazer uma piada.
â NĂŁo Ă© suficieeeeeeeeeeeeente!
Hobuzo caiu de quatro, procurando mais cogumelos. Se procurĂĄssemos, serĂĄ que havia muitos? No instante em que Hobuzo os encontrou, ele os enfiou na boca.
â Cogumelo! Cogumelo! Cogumelo?! Cogumelo! Coguuuumelo! Cogumelo, cogumelo, cogumeeelo!
â E-Ele tĂĄ bem?! â Gobuta começou a rir. â O cogumelo! Ele comeu! Hobuzo tĂĄ comendo os cogumelos! Ele tĂĄ bem! Hobuzo nĂŁo morreu! Isso significa que podemos comer, nĂ©?! Eles sĂŁo comestĂveis! Eu tambĂ©m! Vou comer!
â Viu?! â Gobuto exibiu um sorriso perfeito. â Eu disse! TĂĄ tudo bem! Eu sabia! Eu podia ver! Os cogumelos! Os cogumelos sĂŁo a nossa salvação! Agora, pessoal, vamos comer cogumelos!
â Y-Yumelin tambĂ©m! Yumelin tambĂ©m! Yumelin nĂŁo consegue mais se segurar!
â E-Eu tambĂ©m! â Shiholin gritou. â Se Gobuto-kun estĂĄ comendo, eu tambĂ©m vou! NĂŁo importa o que aconteça depois… Eu nĂŁo me importo! NĂŁo vou me arrepender!
â M-Manato… Yume… AtĂ© mesmo Shihoru… HĂŁ?
Por um instante, fiquei calmo.
Eu tinha dito algo estranho? Agora hå pouco? Era coisa da minha cabeça, né?
â Digo, isso importa…? â murmurei.
Sim. NĂŁo importava. Antes de qualquer coisa, isso vinha primeiro.
Caminhei com as pernas bambas.
Olhei para baixo.
Entre as folhas de grama, havia cogumelos. Cogumelos. Cogumelos.
Me abaixei. Estendi a mĂŁo para um cogumelo. Era viscoso ao toque. Isso era um cogumelo. Ah, era tĂŁo… tĂŁo maravilhoso. Quase dava pena arrancĂĄ-lo da terra, mas eu ia fazer isso. Eu ia arrancĂĄ-lo e comĂȘ-lo.
â Ohh… Cogumelo! â exclamei.
Tinha um gosto bom? Ou ruim? Eu nĂŁo sabia dizer. Tanto faz, era um cogumelo. Eu sĂł podia dizer que tinha gosto de cogumelo. Isso, isso era um cogumelo. A experiĂȘncia suprema dos cogumelos. Era um cogumelo. Na minha prĂłxima vida, que eu renasça como um cogumelo.
Era assim que funcionava? Para renascer como um cogumelo, eu precisava comer cogumelos? Tipo, cada vez mais cogumelos? Comer tantos cogumelos que eu mesmo virasse um cogumelo? Espera, depois de comer um, depois dois, comecei a pensar: Ei, isso é bom. Cogumelos são os melhores, não são? Os cogumelos enchiam minha boca, não, meu corpo inteiro. Eram suaves e delicados, sem serem enjoativos, e cogumelos começaram a dançar na minha cabeça.
Cogumelos, cogumelos, cogumelos, cogumelos. Cogucogucogucogucogucogucogucogucogucogucogucogu.
Era meio que, uau, haviam faĂscas nos meus olhos?
Uma pontada no estĂŽmago?
Minha garganta queimava?
O que era tudo isso?
Eu nĂŁo estava suando de maneira estranhamente oleosa?
â Ai! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, aiii!
Me rolei pelo chĂŁo.
Era meu estĂŽmago. Provavelmente era dor de estĂŽmago, mas nĂŁo era sĂł isso; eu doĂa por inteiro. DoĂa demais.
Enquanto era atormentado por uma dor como nunca antes senti, olhei ao redor e vi que eu nĂŁo era o Ășnico sofrendo. Era todo mundo. Todos nĂłs estĂĄvamos no mesmo estado.
â N-NĂłs vamos morrer? â gritei. â Uaghaghhh, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai!
O céu continuava azul.
Isso era o que mais tarde ficaria conhecido como o Incidente dos Cogumelos.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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