Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 9 – Volume 14
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Capítulo 09:
[A Vida é Cheia de Armadilhas (Rip_Van_Winkle)]
Se não tivessem dito a ele que havia uma cidade aqui antes, Haruhiro nunca teria notado.
Toda a Ruínas Nº 7 ficava numa depressão baixa, e eles podiam ver tudo de uma vez da borda.
Para descrever de forma simples, era um poço repleto de buracos. Além disso, esses buracos apresentavam formas indescritíveis.
Não, talvez não fossem indescritíveis. Eram buracos meio arredondados, mas deformados, e ver tantos deles tão próximos no chão assim, ele achava insuportavelmente desagradável. Dava arrepios, seu corpo coçava, e ele queria desviar o olhar. Aquela repulsa visceral por eles nunca diminuía.
Haruhiro não era fã de colmeias, mas isso era bem pior que um favo de mel.
Alice estava ao lado de Haruhiro, olhando para o poço cheio de buracos, aparentemente imperturbável. Não parecia causar nenhum efeito em Alice.
Não posso ser compatível com alguém que tá de boa com isso, pensou Haruhiro. Não consigo imaginar a gente se entendendo, mas quando chego perto de Alice, posso parar de ser eu, e virar nós. Ou melhor, simplesmente viro. Será que posso controlar se viro nós ou não?
Ele não poderia dizer com certeza sem testar, mas era claramente causado pela magia de Haruhiro, Ressonância. Aparentemente, era uma variedade de magia excepcionalmente rara, e o caso de Haruhiro também era o primeiro que Alice tinha visto. Por causa disso, ainda havia muito que eles não sabiam.
Devia haver elementos secretos, ou pelo menos desconhecidos, da Ressonância. Tipo, talvez ela não apenas fortalecesse a magia de outra pessoa, mas permitisse que ele entrasse no coração dela. Ou talvez o fizesse simpatizar com ela.
Ele não tinha dito uma palavra disso a Alice ainda. Sua lógica era que era melhor não dizer nada vago, e ele meio que se convenceu de que era por isso, mas a verdade era que seria simplesmente constrangedor falar sobre isso. Tipo, qualquer um odiaria o que ele estava fazendo, né?
Intencionalmente ou não, Haruhiro havia espiado dentro do coração de Alice. Se tivesse a escolha, ele não teria desejado isso. Mas Alice via a Ressonância de Haruhiro como algum tipo de item de power-up. Um que tinha o nome Alice C escrito, e podia ser usado a qualquer hora.
Mais que isso, apesar de ser um item, ele ativava automaticamente, e quando Alice quisesse, o item dizia, “Já vou aí”, e vinha por conta própria.
Conveniente.
Se houvesse um item desse tipo, ele teria desejado. Ah, espera, tinha um bem aqui.
No entanto, bom e ruim são dois lados da mesma moeda, e provavelmente não deveria ser surpreendente que um item conveniente tivesse desvantagens.
Normalmente, quando você toma um remédio, faz isso ciente dos efeitos e efeitos colaterais. Se o que ele dissesse ia ser vago ou não, Haruhiro provavelmente precisava se abrir com Alice sobre isso.
Devo falar? Como devo falar? Talvez eu não deva, afinal? Não, tenho que falar, né?
Enquanto ele ainda agonizava sobre isso, eles chegaram às Ruínas Nº 7.
— Alice — começou Haruhiro.
— Cala a boca.
Essa é a resposta que eu recebo, depois de tudo isso? Ele estava frustrado. Decido, “Tá, vou falar,” e claro que é assim que acontece. A gente simplesmente não se dá bem. Não é questão de gostar ou não gostar. Acho que somos uma má combinação. Estamos juntos há um tempo, mas simplesmente não parece certo. Talvez eu deva simplesmente virar nós. Segurar firme, ativar a Ressonância, e ver o que acontece. Será que simplesmente abraço Alice de repente? Isso não vai funcionar. Vou ser empurrado, depois espancado.
Tenho um monte de outras coisas que quero dizer. Tipo, quero procurar meus camaradas, quero encontrar meus camaradas, e quero ver meus camaradas. Digo isso de vez em quando, mas Alice ou ignora completamente, ou me dispensa com um, “É, podemos fazer isso depois.” Alice é muito boa em dar a impressão de que trazer essas coisas à tona não adianta nada.
Além das Ruínas Nº 7, estendia-se uma floresta cuja tonalidade era mais intensa que o vermelho. Não era um vermelho puro; apresentava um toque amarelado. Era uma cor vibrante, embora excessivamente brilhante, com uma profundidade notável. As Ruínas Nº 7 estavam suficientemente próximas da Floresta Escarlate para que fosse possível avistá-la a partir deste ponto.
De acordo com Alice, o castelo do rei no centro da Floresta Escarlate era as Ruínas Nº 1, ou algo assim. Podia parecer que as Ruínas Nº 1 e Nº 7 estavam bem próximas, mas não era isso; a Floresta Escarlate ao redor das Ruínas Nº 1 era simplesmente incrivelmente vasta.
A Floresta Escarlate estava infestada de monstros tão fortes que nem mesmo Alice, potencializada pela Ressonância de Haruhiro, conseguia derrotar.
Eles não podiam chegar ao castelo do rei sem atravessar a floresta, mas passar pela floresta era incrivelmente difícil. Na verdade, era justo dizer que era impossível. Pelo menos para Haruhiro e Alice como estavam agora.
— Essa floresta, não estava sempre aí, né? — disse Haruhiro. — Não é a própria ruína…
Em Parano, com exceção da Torre de Ferro do Céu, do Vale dos Desejos Mundanos, do Rio Sanzu e das sete Ruínas, tudo estava em fluxo e mudava sem intervenção humana.
Embora Alice não olhasse na direção de Haruhiro, ele recebeu uma resposta pela primeira vez.
— Bem, sim — disse Alice. — Quando fugi do castelo, ela era bem menor.
— Foi assim que você conseguiu sair da floresta?
— Só fui porque havia uma chance de sucesso. A Floresta Escarlate foi criada pelo Homem Adormecido. O Homem Adormecido tá dormindo em algum lugar na floresta ainda, sonhando.
— Então, se o encontrarmos e o acordarmos…
— Procurar um cara que não sei como é a cara? Naquela floresta? Não seja louco.
— Acho que não podemos chegar ao castelo sem passar por um atalho, né?
— Bem, se sua Ressonância fosse mais impressionante, eu poderia ter forçado meu caminho.
— Reclamar comigo não vai ajudar…
— Tá saindo.
— Hã?
— Olha.
Haruhiro olhou na direção que Alice indicou.
Aquilo, é?
Ele viu algo rastejar para fora de um dos centenas de buracos. Estava bem longe, então ele não conseguia distinguir. Provavelmente era humano, no entanto.
Alice agarrou Haruhiro pela cabeça e o forçou a se agachar. — Esconde.
— Se você tivesse só me dito pra…
— Cala a boca. Você é irritante.
Os dois se agacharam baixo, observando o que a pessoa que saiu do buraco faria.
— Eu sabia o tempo todo que as Ruínas Nº 7… o Ninho da Toupeira Arco-Íris estava conectado ao castelo daquele desgraçado.
— Toupeira… Arco-Íris?
— Igual com o Homem Adormecido, nunca o conheci. Ele tá por aí há mais tempo que eu. Ouvi dizer que a Toupeira Arco-Íris cavou todos aqueles buracos.
— Tem de tudo um pouco, né…
— Tinha mais, antes daquele desgraçado começar a capturar e matar todo tipo de gente. O resto virou vassalos dele, como Ahiru, Homem Adormecido ou Toupeira Arco-Íris. Também tinha um monte de gente que foi esmagada e virou sombras.
— Sombras?
— Se você só observar, vai ver.
Foi tudo o que Alice disse antes de ficar quieta.
A pessoa que saiu do buraco estava caminhando por uma trilha estreita entre os buracos. Embora fosse estreita, ainda era larga o suficiente para dois adultos passarem um pelo outro.
Era cedo demais para distinguir as coisas claramente, mas julgando pela cor do casaco, devia ser Ahiru. Ahiru usou a passagem secreta no Ninho da Toupeira Arco-Íris para ir ao castelo, encontrar o rei, e agora estava voltando.
— Você vai se encontrar com ele, certo? — perguntou Haruhiro.
Alice não respondeu. Não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso, então ele seguiu Ahiru com os olhos. Eles tinham se dado ao trabalho de convencer Ahiru a espionar para eles, então o que exatamente Ahiru estava fazendo aqui? Ele gostaria de uma explicação cuidadosa.
— Você poderia confiar um pouco mais em mim…
— É, isso é uma sombra — disse Alice, acrescentando, — Sabia.
Uma sombra? Onde?
— Ah…! — Haruhiro piscou.
Será que é isso, talvez?
Uma forma preta apareceu do mesmo buraco de onde Ahiru tinha saído. Parecia uma sombra. Mas Parano não tinha sol, então nada projetava algo que pudesse ser chamado de sombra.
Pera, o que estava projetando aquela sombra? Sombras eram criadas quando a luz era obstruída e uma área escurecia. Era impossível uma sombra existir por si só.
Não, Alice tinha acabado de dizer que Parano era um lugar onde coisas aconteciam mesmo que fossem impossíveis. Além disso, que havia muitas pessoas que foram esmagadas pelo rei e viraram sombras.
A sombra parecia seguir Ahiru, mas, talvez por manter uma distância considerável, ele já havia deixado de olhar para trás há algum tempo. Será que ele não havia percebido a presença da sombra ou estava apenas simulando indiferença?
— O que é essa sombra? — perguntou Haruhiro.
— São os verdadeiros espiões. Não que tenham alguma inteligência de verdade. Não têm muito… acho que você chamaria de independência. Eles patrulham ao redor do castelo, e seguem os vassalos e os monitoram assim.
— Então o Ahiru tá sendo vigiado?
— Nem sempre. Não tinha sombras nas Ruínas Nº 5, na verdade.
— Talvez você não estivesse olhando todas as estátuas, mas sim procurando por sombras?
— Por que eu ia querer checar umas estátuas ruins que o Ahiru fez?
— Não, eu achei que era estranho…
— Eu não podia fazer contato com o Ahiru se ele tivesse sombras seguindo ele.
— E que tal acabar com elas?
— Quer dizer, são sombras. Não sei como matá-las. Acho que, em teoria, se você jogasse uma luz forte nelas, isso poderia ajudar, mas onde a gente vai encontrar uma luz assim? Mesmo que a gente tivesse uma, a maioria das sombras são humanos que acabaram assim porque desafiaram aquele desgraçado.
— Então é melhor não apagá-las.
— Você mesmo pode acabar virando uma sombra, sabe?
— O mesmo vale pra você, Alice.
— Aquele idiota quer me fazer me submeter a ele. Ele não vai simplesmente me transformar numa sombra sem falar comigo antes. Isso me dá uma brecha.
Alice se levantou. Parecia que o plano era se afastar daqui. Para onde agora?
Mesmo que estivesse cansado de tudo isso, Haruhiro não tinha escolha senão seguir. Sua magia era Ressonância, afinal. Por causa disso, ele nem conseguia se proteger sozinho.
Philia tirava poder de objetos. Narci aumentava o próprio poder.
O que era Doppel mesmo? Se ele lembrava, Alice disse algo sobre pessoas com baixa autoestima conseguirem produzir doppels.
Narci devia ser o oposto disso.
Pra Philia, a dependência do objeto talvez fosse a chave. Alice tinha dito algo sobre a postura mental de uma pessoa, sua tendência também decidindo a magia dela.
Bem, o que é Ressonância, então?
Ele não conseguia fazer nada sozinho. E ele podia simpatizar com os outros. Na verdade, não era algo que ele fazia de propósito, mas simplesmente acontecia. Quando ativava, ele se tornava aquela pessoa.
Pensando bem, não é exatamente quem eu sou…?
Alice já estava se afastando.
Haruhiro se sentiu fraco, incapaz até de ficar de pé.
Não tem nada que eu possa chamar de meu próprio eu. Não posso negar isso… acho.
Se tirassem seus camaradas de Haruhiro, o que sobraria? Ele mal tinha desejos como, “Quero sair de Parano”, ou, “Quero voltar para Grimgar”.
Seus camaradas, seus camaradas… tudo era sobre seus camaradas. Se perguntassem se ele não gostava disso em si mesmo, no entanto…
Não? Acho que não.
Dito isso, também não era como se ele gostasse disso. Ele não conseguia pensar em nada que não pudesse viver sem.
Não é um encaixe perfeito?
Ressonância.
O que mais eu teria?
Além disso, havia algo de valor especial no eu? Se perguntasse a muitas pessoas isso, elas poderiam dizer, “Não, tem que ter.”
Haruhiro só podia dizer, “Talvez você esteja certo. Talvez isso seja verdade pra você. Tenho certeza que você é o personagem principal.”
Bem, se você visse a vida como uma espécie de peça, naturalmente, você mesmo seria o personagem principal nela, mas nem todo mundo quer estar no centro do palco. Haruhiro, honestamente, nem queria subir no palco. Ele estava bem sendo parte da plateia. Se houvesse algum motivo pelo qual não pudesse fazer isso, ele preferiria estar nos bastidores.
Agora, se perguntassem se ele não admirava heróis, seria mentira dizer que não sentia nada disso. Ainda assim, mesmo que lhe dessem algum poder especial, e perguntassem o que ele ia fazer com isso, ele não teria resposta.
Iniciar uma nova trajetória de vida com suas próprias mãos e alcançar a autorrealização não despertava um grande interesse nele.
Não era que ele não tivesse ganância. Ele tinha. Só que ele não era especialmente ganancioso. Talvez fosse justo dizer que ele não conseguia ser ganancioso. Ele claramente não era o que se poderia chamar de um homem de carma profundo; ele era bem raso, na verdade. Provavelmente, mesmo que sondassem as profundezas da personalidade de Haruhiro, não encontrariam nada de incomum.
Ele soltou um suspiro. Não estava decepcionado. Estava aliviado, na verdade. Era menos um, “Tá tudo bem assim”, e mais um, “É assim que eu sou, não tem jeito.” Talvez fosse algo próximo de uma aceitação desafiadora.
Quando estava prestes a correr atrás de Alice, algo vagamente humano saiu de um buraco. Era o mesmo buraco de onde Ahiru tinha saído.
— Alice, tem mais alguém… — ele começou.
Não tá sozinho? Tem várias pessoas. Duas, três—quatro pessoas?
Era frustrante que a distância dificultasse a visão.
Eventualmente, Alice voltou. — São vassalos daquele desgraçado também, huh?
— Você os conhece?
— Saíram do mesmo buraco que o Ahiru. O que mais poderiam ser? O líder é… parece uma mulher. O resto são homens. Um gordo, dois caras altos… Ahh. Uma sombra saiu também. Tão sendo vigiados.
— É o Kuzaku.
— Hã?
— Kuzaku!
Haruhiro quase saiu correndo. Se Alice não o tivesse segurado, ele teria.
— Ei, seu idiota! — gritou Alice.
— É o Kuzaku! O cara bem atrás. É o Kuzaku! Eu nunca me enganaria. Ele tá bem!
— Se acalma, droga. Quem são os outros três?
— Os outros são… — Haruhiro balançou a cabeça.
Droga. Alice estava certa. Ele precisava se acalmar.
— Não sei… ou pelo menos acho que não sei. Não acho que sejam meus camaradas.
— Nesse caso, Kuzaku, é? Esse seu camarada pode ter sido convencido pelos outros três e virado um dos vassalos daquele desgraçado. Se ele vai sobreviver em Parano, essa é uma escolha válida. Não pra mim, no entanto.
— Se eu falar com ele, Kuzaku vai ficar do nosso lado.
— Mesmo que você fale, não adianta. As sombras tão observando.
— Se esperarmos as sombras sumirem… se seguirmos eles, garantirmos que as sombras não nos vejam…
— Se quer fazer isso, faz sozinho. Vou para Torre de Ferro do Céu. Combinei de encontrar o Ahiru lá.
— Hã…? A Torre de Ferro do Céu? O quê? Não ouvi nada sobre isso.
— Porque eu não disse. Se você tivesse prestado atenção quando eu estava falando com o Ahiru, saberia sem eu precisar te contar.
Porque ele deixava tudo nas mãos de Alice, ele estava perdendo o foco. Não era como se ele já não tivesse falta de independência antes, mas ele nem estava pensando com a própria cabeça. Não estava tomando decisões.
Porque ele era o líder, e porque seus camaradas dependiam dele, ele conseguia dar o seu melhor em Grimgar. Agora era diferente. Ele não era o líder, não era nada.
Basicamente, Haruhiro tinha meio que desistido de qualquer esperança de que seus camaradas estivessem vivos.
Mas ali estava Kuzaku.
Ele tinha sobrevivido.
— Kuzaku e aquelas outras pessoas apareceram logo depois do Ahiru — disse Haruhiro. — O Ahiru pode saber algo sobre eles.
— Pode ser. Mas sem garantias.
— Tá bom. Vou pra Torre de Ferro do Céu também.
Antes de partir, Haruhiro gravou a imagem de Kuzaku em seus olhos, depois deu um tapa nas próprias bochechas.
Ele recuperou o ânimo. Não gostava de argumentos de que tudo se resumia a ter um espírito positivo, e não gostava de fazer coisas assim com frequência, mas de vez em quando tudo bem.
Primeiro, eles se encontrariam com Ahiru. Ele queria descobrir quem eram as pessoas com Kuzaku. A partir daí, ele descobriria como se reunir com Kuzaku. Obviamente, ele também encontraria Mary, Shihoru, Setora e Kiichi. Por enquanto, ele não fazia ideia de onde estavam os outros além de Kuzaku, mas trabalharia sob a suposição de que todos tinham que estar vivos.
Ele não ia depender de Alice. Ele ia usar Alice. Alice estava usando a Ressonância de Haruhiro, então era justo. Depois, não importava o que fosse preciso, todos voltariam para Grimgar.
Haruhiro deixou as Ruínas Nº 7 sem olhar para trás.
Além do horizonte, uma linha vertical tênue dividia o céu de bolinhas. Era a Torre de Ferro do Céu.
Isso era Parano, então ele frequentemente encontrava terrenos sem sentido, mas se mantivesse os olhos na Torre de Ferro do Céu, nunca perderia o caminho. Graças à máscara, ele ficava bem mesmo quando o vento doce soprava. Se você soubesse como, era possível sobreviver mesmo num lugar como esse. Ele não tinha intenção de ficar pra sempre, no entanto. Queria continuar segurando esse sentimento. Era importante se adaptar ao ambiente, mas ele não podia se acostumar a estar em Parano. Esse não era o lugar dele. Ele não tinha intenção de viver aqui.
Vamos para casa. Para Grimgar.
— Você não quer voltar pro seu mundo original, Alice? — perguntou ele.
Era difícil ficar em silêncio o tempo todo, então ele tentava falar com Alice de vez em quando. Na maioria das vezes, era ignorado, mas quando recebia uma resposta, sentia-se estranhamente bem.
— Na verdade, não.
— Você não pode deixar sua amiga pra trás?
— Eu não era tão próxima da Nui.
— Você não pode ficar feliz vivendo o resto da sua vida aqui.
— Eu questiono se isso vai acabar algum dia, no entanto.
A Torre de Ferro do Céu continuava sendo uma linha vertical, igual a antes. Não parecia que estavam se aproximando nem um pouco.
Simplesmente não parece real, pensou Haruhiro. É um pouco tarde pra falar isso agora, no entanto. Isso tudo é só um sonho? Quantas vezes já pensei isso? Na verdade, queria que tudo fosse só um sonho. Já pensei isso antes, também.
— Ei, escuta. — Era raro Alice ser quem começava uma conversa. — Você conhece o Urashima Taro?
— Urashima… Taro… Isso é um nome? Nome de uma pessoa, né? Hmm. Sinto que talvez tenha ouvido, mas talvez não…
— Taro era um pescador — disse Alice. — Ele viu uma tartaruga sendo maltratada na praia e a salvou. Acho que talvez porque, como pescador, ele pensou que tartarugas não são pra serem maltratadas, são pra serem capturadas.
— Ele não sentiu pena dela…? — perguntou Haruhiro.
— Tem uma teoria de que ele capturou a tartaruga também. Mas dizem que uma tartaruga vive dez mil anos, sabe? Então, como dá má sorte matá-las, ele a soltou.
— De qualquer forma, do ponto de vista da tartaruga, ela deve a vida a ele — disse Haruhiro.
— É por isso que, pra agradecer, a tartaruga levou Taro pra um lugar chamado Ryugujo, no fundo do mar.
— No fundo do mar… Você pensaria que ele ia se afogar.
— Ele conseguia respirar, por algum motivo. Talvez essa parte do “fundo do mar” seja mentira. Pode ter sido outro lugar.
— Ryugujo, é?
— Taro foi recebido por uma mulher suspeita chamada Otohime, mas todos os outros lá eram peixes. Peixes nadando, dançando e fazendo comédia.
— Bem, isso é surreal. Embora Parano também seja bem surreal…
— Sei lá. Era como uma grande festa com canto e bebida. Ele se divertiu muito com tudo sendo novo no começo, mas acabou se cansando no final. Tipo, a comida? Os peixes estavam servindo sashimi, peixe frito e ensopado de peixe. Isso é bem assustador, se você pensar.
— Então Taro decidiu que queria voltar pra casa?
— Ele achou que já tinha tido o suficiente, e quando disse a Otohime que estava na hora de ir embora, a verdade era—
— Peraí, será que a Otohime era… a tartaruga, ou algo assim?
— É tipo, “Você nem era humana?!”, certo? Pelo menos para o Taro.
— É como se ela tivesse mentido pra ele.
— Otohime respondeu: Desculpe-me. Isso foi errado da minha parte. Toma, você pode levar esta caixa de tesouro como presente de despedida. Por favor, vá para casa agora. Mas ela também disse: Você absolutamente não deve abrir essa caixa.
— Mesmo sendo um presente? — perguntou Haruhiro.
— A coisa toda é suspeita, né? Acho que o Taro foi enganado. Não sei por quê. É um pouco como Parano nesse sentido.
— Então… o Taro conseguiu voltar pra casa?
— Tecnicamente, sim.
— Como assim, tecnicamente…?
— Quando ele voltou, era definitivamente a mesma praia, mas algo estava diferente. Mesmo sendo a cidade natal do Taro, não tinha ninguém que ele conhecia lá. A surpresa é que, enquanto ele se divertia em Ryugujo, passou muito tempo.
— E a caixa de tesouro?
— Ah, é verdade. A verdadeira reviravolta foi essa. Sem saber o que fazer consigo mesmo, Taro abre a caixa que Otohime disse que ele não podia abrir.
— Bem, nessa situação, ele não teria outra escolha, acho.
— Quando ele faz isso, uma fumaça branca sai da caixa de tesouro, e num piscar de olhos, o cabelo do Taro fica totalmente branco.
— Então, ele envelhece? — perguntou Haruhiro.
— Sim. Taro vira um velho. É uma história horrível, né?
— Você também é bem horrível por trazer essa história agora, sabe?
A linha que subia verticalmente da superfície tinha ficado muito mais grossa em algum momento.
A Torre de Ferro do Céu não tinha mudado nadinha desde a última vez que estiveram ali. Dez a vinte camadas de paredes enferrujadas cercavam a torre de ferro. Depois de um longo tempo caminhando pelo caminho labiríntico entre as paredes de ferro, eles chegaram a uma montanha de sucata de ferro. No topo dela, a torre de ferro se erguia reta.
Os dois começaram a subir as escadas do lado de fora da torre.
— E se a sombra vier com o Ahiru? — perguntou Haruhiro.
— Não notou? — Alice apontou para o labirinto de paredes de ferro.
— Hã? — Haruhiro inclinou a cabeça para o lado, mas não conseguiu imediatamente descobrir o que parecia misterioso para ele. Pensou por um momento, até que finalmente percebeu.
— Entre as paredes, tem sombras. Não tem luz solar, então por quê?
— Quem sabe? Essas podem ter sido sombras móveis também, em algum momento. Podem ser sombras mortas, ou sombras enferrujadas. Seja como for, de uma coisa eu tenho certeza, e é que uma sombra não pode passar por outra. Isso significa que as sombras daquele desgraçado são bloqueadas de se aproximar da torre de ferro.
— É seguro aqui?
— Se você ficar muito tempo, vai enferrujar, no entanto.
— Isso não é seguro…
Haruhiro abaixou a cabeça, suspirando. Esse lugar não era nada seguro.
— Alice.
— O quê?
— Abaixo.
— O que tem abaixo? — Com um tom de voz descontente, Alice olhou para o fundo das escadas também.
O ferro-velho acumulado em uma montanha ao redor da torre vinha em vários tamanhos, grandes e pequenos, algumas peças muitas vezes maiores que uma pessoa. Haruhiro, e provavelmente Alice também, não tinha notado, mas aquelas garotas deviam estar escondidas entre as peças.
Vestidas com vestidos de várias cores, elas saíram em enxame e olharam para Haruhiro e Alice.
De longe, pareciam garotas de verdade. Mas não eram. Eram todas bonecas.
Não, nem todas.
As bonecas eram esguias, mas a que subia as escadas e se aproximava delas, com um andar bizarro que envolvia cruzar as pernas a cada passo, era de longe a mais magra. Era magra demais. Parecia uma pessoa de palito em movimento.
Seu corpo emaciado estava vestido com uma roupa que era praticamente lingerie, com um chapéu extravagante que parecia um bolo por cima, e ela usava vários pares de óculos ao mesmo tempo. Parecia mais uma boneca que as próprias bonecas, mas originalmente era humana. Não estava claro, porém, se ela ainda podia ser chamada de humana.
— A mestra das bonecas — sussurrou Haruhiro.
— Nui… — sussurrou Alice em uníssono.
Elas se olharam. Foi meio constrangedor. Desviaram o olhar.
— O que você acha que ela tá fazendo aqui? — perguntou Haruhiro.
— Sei lá. Como eu saberia o que alguém com quem nem posso falar tá pensando?
— Estou achando que ela pode estar aqui por vingança.
— Ei, a gente só enterrou ela viva um pouco, né? Ela parece estar bem.
— Não me diz isso.
— Eu diria pra Nui, mas não podemos falar, então qual seria o sentido?
— Ela tá subindo.
A mestra das bonecas colocou o pé nas escadas. As bonecas a seguiram.
— Se vamos fugir, devemos descer.
— Não preciso que você me diga. Haruhiro, você tá ficando atrevido ultimamente.
— Tem algo que eu quero tentar.
— Huh?!
— Não acho que a Ressonância só amplifica magia. Quero tocar a mestra das bonecas. Pode me ajudar?
— Você tá me dizendo pra lutar contra a Nui sem a sua Ressonância, e levá-la pra algum lugar onde você possa se esgueirar por trás dela, ou algo assim, é isso?
— É, é mais ou menos isso.
— O que você tá planejando fazer com a Nui?
— Não saberei até tentar. Se não vamos fazer do meu jeito, subindo vamos nos desgastar, então ou espalhamos elas ou pulamos. Você consegue lidar com o impacto com sua pá, certo? Também tem a opção de acabar com a mestra das bonecas.
— Isso é…
— Vocês eram amigas, não é? Bem, agora ela é outra coisa. Acho que se fosse você quem pusesse um fim nela, seria aceitável. Eu não faria essa escolha, claro.
— O que você faria, então?
— Encontraria um jeito de trazê-la de volta.
— Se eu pudesse, já teria feito.
— Talvez seja só você que não consegue.
— Você tá dizendo que poderia?
— Não disse que tinha algo que quero tentar? Ainda não fiz, então não tem como saber se consigo ou não.
— Ito Nui. Esse é o nome dela.
Alice ajustou o aperto na pá. A pele preta descascou, envolvendo o braço de Alice e formando uma espécie de lança.
A mestra das bonecas… não, o que restava da amiga de Alice, Ito Nui… estava subindo a torre com as bonecas a reboque.
— Se a Nui não tivesse me convidado, eu nunca teria ido explorar cavernas. Claro, tenho certeza que também nunca teria acabado em Parano. Ela podia ser um pé no saco, mas não era uma má pessoa no fundo.
Haruhiro se moveu sutilmente para trás de Alice. Ele deixou toda a força excessiva escoar do seu corpo. Os degraus das escadas não eram especialmente grossos, então era difícil dizer que eram resistentes. Ele visualizou a si mesmo afundando nesses degraus.
Stealth.
Ele teve a sensação de estar observando a si mesmo e a área ao redor de cima. Estava indo bem. Ainda assim, ele não podia deixar isso subir à cabeça. O coração era como uma piscina de água. A menor perturbação causava ondas.
As ondas se espalhavam gradualmente. Haruhiro estava num barquinho. Era um barco pequeno, então capotaria facilmente. Ele não podia deixar seu coração ser perturbado.
Nui subia as escadas. Haruhiro estava escondido atrás de Alice. Ele não podia ver Nui. No entanto, podia ouvir os passos. Eram rápidos. Muito mais rápidos que antes. Perto. Estavam bem perto.
Haruhiro se moveu lentamente, como se tivesse parado de respirar.
Alice avançou.
Nui parou e ficou imóvel em vez de avançar.
Alice não investiu, em vez disso deu um passo à esquerda e balançou a pá em sua forma de lança.
Nui não recuou. Ela avançou, desviando da pá.
Alice girou, e Nui virou para não deixar Alice ficar atrás dela.
Agora, Nui tinha virado as costas para Haruhiro. Ela estava exposta. Nui não notou Haruhiro.
Ele estava claramente ali, e não havia como ela não o ter visto, mas ela o perdeu como se ele tivesse caído em algum ponto cego. Quando ele entrava perfeitamente em Stealth, essas coisas aconteciam.
Sem pressa ou alarde, Haruhiro agarrou Nui por trás. Nui de repente tentou lutar, mas não havia necessidade de rejeitá-lo.
— Ito Nui — disse ele. — Eu sou— Antes que ele pudesse dizer “você”, ele tinha se tornado ela.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui
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