Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 11 – Volume 14
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Capítulo 11:
[Abrace-me com Delicadeza (Nunca_Me_Decepcione)]
Setora estava se esforçando ao menos para não pensar, Que diabos está acontecendo?
Ou melhor, em algum momento, ela tinha parado de pensar nisso. Isso provavelmente porque estava enraizado nela a crença de que pensar sobre isso não ia adiantar nada.
Ela também tinha desistido de olhar para trás para o caminho que tinham percorrido e tentar memorizá-lo. Eles simplesmente seguiam reto, e encontravam pântanos sem fundo com bolhas brancas, e penhascos que pareciam raios.
Se dessem meia-volta e retornassem pelo mesmo caminho, naturalmente deveriam ver lugares familiares, mas por algum motivo nem sempre era o caso. Não, seria mais justo dizer que quase nunca era o caso.
Impossível! Algo está errado! Talvez fosse uma rejeição à falta de consistência, ou um medo e incerteza mais primitivos, ou confusão, mas fosse o que fosse, era difícil suprimir o sentimento.
Ainda assim, enfrentar a realidade à sua frente enquanto carregava esses sentimentos seria ainda mais difícil. Para se adaptar à realidade irreal em que estava, ela tinha que aceitar tudo.
Primeiro, ela abandonou quaisquer preconceitos sobre como a realidade deveria ser. Ela aceitou a realidade que tinha, mas e depois?
Isso a deixava sonolenta, então quando o vento doce soprava, ela cobria a boca com um pano. Beber água a deixava intensamente triste, então ela não bebia. A falta de comida e água não a fazia definhar, então ela não comia nem bebia nada.
— Mas isso é…
Quando ela subiu ao topo de uma colina que parecia girar, não, que realmente estava girando, uma cidade se espalhava abaixo dela.
Era uma cidade? Havia fileiras de prédios e casas grandes e pequenas com telhados de ardósia, ou algo semelhante, e ruas entre elas. Ela podia ver jardins e muros também. Havia uma névoa fina, então ela não conseguia enxergar claramente, mas seria possível que as coisas se movendo para cima e para baixo nas ruas fossem humanos?
— Eles ainda parecem incrivelmente normais, ou racionais. Oh, acho que é a mesma coisa, não é? — comentou sua companheira de viagem com uma risada.
Essa mulher também estava agindo de maneira muito estranha, mas era questionável se isso deveria ser simplesmente aceito junto com os outros eventos. Ela não tinha certeza do que fazer a respeito disso.
Apenas olhando para mulher, ela não era diferente de antes. Não como Kiichi, que tinha se transformado massivamente e agora carregava sua mestra nas costas.
Sim, Kiichi tinha mudado. Olhando para Kiichi com ela nas costas, apenas uma em dez mil pessoas ainda poderia pensar que ele era um nyaa.
Nyaas eram criaturas que às vezes também eram chamadas de macacos-gatos, ou gatos-macacos, e quando medidos do topo da cabeça até a base do corpo, excluindo a cauda, mesmo os maiores eram menos da metade do tamanho de uma pessoa adulta. Eles andavam de quatro ao se mover, mas podiam ficar de pé nas patas traseiras, e com treinamento, podiam usar as patas dianteiras com destreza como mãos. Mas e agora?
Agora Kiichi era aproximadamente mais que o dobro do tamanho de sua mestra, suas quatro pernas eram todas assustadoramente grossas, e ele tinha o rosto de um carnívoro feroz. Não havia um pingo de charme a ser encontrado.
Ela não podia negar que sua ferocidade excessiva era fofa de certa forma, mas ainda assim, ele tinha saído do alcance do que ela chamaria de nyaa e entrado numa dimensão completamente diferente.
Enquanto defendia sua mestra, mordendo até a morte os monstros que tentavam atacá-los, Kiichi gradualmente ficava maior, e mais forte. Será que todos os monstros neste mundo eram altamente nutritivos?
Não… mesmo que ele comesse suplementos nutricionais em grandes quantidades, como um nyaa adulto, Kiichi não teria crescido tanto assim.
Ela não conseguia entender, mas tinha que aceitar. Não importava como ele parecesse agora, Kiichi era Kiichi. Ele era leal à sua mestra mesmo sem disciplina severa, tinha uma personalidade rara que incluía tenacidade além de sua forte curiosidade, e era excepcionalmente inteligente, adaptável e atlético. Entre todos os nyaas que ela tinha visto, ele demonstrou o maior potencial.
Era preferível para ela assumir de maneira otimista que, devido à natureza de Kiichi, mesmo após ter se tornado assim, ele continuava a servir sua mestra como sempre.
Neste mundo, tudo mudava. Tudo estava mudando. Será que estava realmente tudo bem concluir que sua companheira de viagem não era exceção a isso?
Guarrrr… Talvez sentindo a perturbação no coração de sua mestra, Kiichi soltou um rosnado baixo.
Enquanto acariciava o pescoço de Kiichi, ela virou para ver o que sua companheira de viagem, que estava ao seu lado olhando para cidade abaixo, estava observando. Talvez fosse melhor fazer a pergunta diretamente.
“Quem é você?” Não, talvez ela precisasse ser mais direta. “Você não é ela, é? Não é a mulher chamada Mary. Você é outra pessoa. Estou certa, né?”
— Hm? — A mulher com o rosto de Mary olhou para ela e sorriu.
Era um sorriso falso, um que Setora só podia imaginar que a mulher havia se acostumado a exibir após repeti-lo milhões de vezes. Não que ela conhecesse a mulher tão bem, mas será que ela era do tipo que fazia um sorriso assim?
A mulher nunca sorrira muito para começar. Sempre que sorria, era hesitante, como se temesse que seu sorriso pudesse ferir outra pessoa. Essa era a impressão que ela passava.
— Algum problema, Setora? — perguntou a mulher.
— Não importa.
— Entendo. Bem, tudo bem então.
— Se há algo errado com uma de nós, é com você, não é? — perguntou Setora.
Não era como se ela tivesse murmurado isso. Ela disse de forma clara e direta, mas a mulher não reagiu, como se nem tivesse ouvido.
Se ela ia ignorar Setora, havia maneiras melhores de fazer isso. Ela tinha que ser bem ousada para agir assim.
— Parece ser uma cidade — disse Setora. — Parece que há pessoas vivendo lá.
— Acho que sim.
— Desta vez você responde, é?
— Talvez seja melhor dizer que são coisas parecidas com pessoas, no entanto. Só porque parecem pessoas, não significa que sejam.
— …Bem, suponho que não.
— Este lugar tem suas próprias regras. São um pouco diferentes das regras que conhecemos. Não, não apenas um pouco, acho. São muito diferentes. Aprendemos isso aqui.
— Você mesma está bem diferente — disse Setora. — Não é assim que você falava antes.
— O que você quer fazer? Tentar descer até lá?
— Você pretende me ignorar completamente, então. Muito bem. Nesse caso, tenho algumas ideias próprias.
— Ei, Setora. — A mulher exibiu aquele sorriso falso novamente.
Setora sentiu um forte impulso de arrancar aquela máscara, mas se realmente fizesse isso, qual seria o verdadeiro rosto que surgiria?
— Podemos deixar isso de lado por agora? Estamos meio que enfrentando uma crise. Claro, quem sabe por quanto tempo isso vai durar.
— Só quero saber o que está acontecendo com você, é só isso. Há coisas demais que não entendo acontecendo como está.
— Você não vai aceitar e seguir em frente? — perguntou a mulher.
— Quando foi que eu disse isso? Não acho que disse isso em voz alta.
— Era a expressão no seu rosto.
— Se Haru te encontrasse agora, fico imaginando como ele se sentiria.
— …Haruhiro, huh?
— Diferente de mim, Haru gosta de você — disse Setora. — Ele se sente apegado a você, imagino.
— Posso precisar considerar essa possibilidade, mas será que ele ainda está vivo? Não consigo imaginar um soldado voluntário do nível dele conseguindo sobreviver neste—
A mulher fechou a boca e assumiu uma expressão séria. Não, não era uma expressão séria; talvez fosse mais apropriado chamar de ausência de expressão. Mas foi só por um momento. A mulher rapidamente colou aquele sorriso suspeito de volta ao seu rosto bonito.
— Por enquanto, vamos presumir que ele sobreviveu. Parece mais seguro.
— Que estranho…
— “Essa expressão não é ruim.” Entendo por que você gostaria de dizer isso, mas… não tenho tanta certeza. Até sairmos das nossas dificuldades atuais, por que não cooperamos como antes? Se pudermos simplesmente ignorar um problema menor, nós duas podemos nos dar bem. Você deve sentir o mesmo. Foi por isso que não disse nada até agora, certo?
— Você não se importa mais em manter as aparências, hein? — perguntou Setora.
— Porque você é uma pessoa razoável. A verdade é que lidar com pirralhos idiotas é muito trabalhoso. Não você, claro.
A identidade dessa mulher ainda era desconhecida, mas, independentemente disso, Setora podia sentir intuitivamente que ela era um ser maligno. Talvez movida pela necessidade, esse ser estava revelando suas cartas. A verdade disso não estava totalmente clara, no entanto.
Era verdade que, no momento, seria mutuamente benéfico para elas trabalharem juntas. Mas se as coisas mudassem e ela se tornasse mais um prejuízo do que valia, essa mulher poderia se livrar de Setora para silenciá-la.
Naturalmente, Setora não tinha intenção de cair facilmente, e ela precisava fazer uso dos movimentos que tinha disponíveis.
— Nesse caso, mantenha a atuação, pelo menos — disse Setora. — Nunca se sabe quando podemos encontrar os outros. Não tenho interesse no que há dentro de você, mas os outros vão sentir diferente.
— Bem, sim, suponho que você está certa.
— Por favor, não deixe Haru preocupado ou triste. Ele é o primeiro homem que amei. Não é como se eu já tivesse superado ele completamente.
— Vou levar isso a sério — disse a mulher.
— Por favor, faça isso.
Setora tentava mostrar a expressão e o tom de uma mulher que não conseguia esquecer seus sentimentos românticos, fazendo o seu melhor pelo homem que amava, mas não tinha certeza se isso estava dando certo. Não era como se ela não tivesse esses sentimentos, então não deveria parecer totalmente falso.

— Bem, então… vamos? — perguntou Setora. — Para aquela cidade?
Setora, montada em Kiichi, e a mulher que estava se passando por Mary desceram a colina coberta de saliências e fendas, dirigindo-se para a cidade.
A névoa não se intensificava nem se dissipava. A área ao redor da cidade era apenas ligeiramente enevoada. Era bizarro, mas não tão aberrante a ponto de ela não conseguir aceitar. As coisas deviam ser assim às vezes aqui.
Enquanto pulavam sobre fendas e desviavam de saliências afiadas como espadas, eles conseguiram, de alguma forma, descer a colina.
A cidade parecia ser cercada por uma cerca de treliça retorcida. Ao se aproximarem, descobriram que ela variava de altura, indo de tão alta quanto uma pessoa até três vezes isso, e estava completamente coberta por uma hera espessa com espinhos.
Não era impossível escalá-la se estivessem dispostos a serem um pouco imprudentes, mas deveria haver uma entrada e saída em algum lugar.
Eles seguiram a cerca e encontraram um portão. Sem porta, sem guardas. Aparentemente, estavam livres para entrar.
Setora passou pelo portão e entrou na cidade. A névoa continuava a mesma. Não havia ninguém perto do portão, mas ela podia ver figuras aqui e ali ao longo da rua.
— Está silencioso — disse Mary Falsa em um sussurro, lançando um olhar para Setora. — Está silencioso — repetiu ela.
Ela estava certa. Se não houvesse ninguém por perto, seria uma coisa, mas havia pessoas andando, e ainda assim estava tão silencioso quanto se ela estivesse tapando os ouvidos. Será que ninguém nesta cidade fazia barulho ou falava?
Kiichi, que tinha uma audição mais sensível que a de um humano, não movia as orelhas. Isso significava que ele também não estava ouvindo nada.
— Vamos dar uma olhada por enquanto — disse Setora.
Ela e os outros continuaram direto pela estrada.
Névoa. Figuras ao longe. Névoa. Figuras ao longe. Névoa…
Figuras ao longe. Névoa. Figuras ao longe. Névoa. Figuras ao longe. Névoa…
— Hm… — Mary Falsa gemeu antes de dar de ombros. — Não estamos cruzando com ninguém.
— Parece que estão nos evitando.
— Não esperava ser recebida de braços abertos… mas mesmo assim.
— Por que não tenta fingir um pouco mais?
— Copy that — disse Mary Falsa em uma língua estrangeira.
— O que você disse?
— Entendido.
— Está zombando de mim?
— Nem pensar.
— Vamos voltar por enquanto, Kiichi.
Apenas ao ouvir seu nome, Kiichi previu seus comandos e fez um giro de 180 graus.
— Não podemos ir juntas? — resmungou Mary Falsa enquanto seguia.
— Se você fosse a verdadeira, talvez fosse uma coisa, mas de jeito nenhum eu deixaria alguém como você montar em Kiichi.
— Não sou exatamente uma falsa, mas mesmo que eu explicasse, duvido que você aceitaria.
— Explicar significa contar de uma forma que a outra pessoa possa entender — disse Setora. — Você está falando apenas para esconder algo ou para desviar do assunto. Isso não é uma explicação.
— Conversar com você é divertido — disse Mary Falsa. — É sinceramente como me sinto.
O portão estava fechado. Não era como se uma porta antes inexistente tivesse surgido do nada. A hera espinhosa tinha crescido densamente, entrelaçando-se e cobrindo completamente a abertura do portão.
— Bem, agora… — disse Setora. — Você acha que não deixa as pessoas saírem depois que entram?
— Essa seria uma forma de interpretar… acho. Como estou me saindo?
— Chega. Parece que não vou ter tempo para me preocupar com você.
Tremor. Tremor. As orelhas de Kiichi estremeceram.
Grrrr… ele rosnou.
Setora podia ouvir algo. Como o vento. Mas não havia nem uma leve brisa.
Mary Falsa também estava olhando ao redor ativamente.
Setora escutou com atenção.
Bem-vindos…
…venham…
Setora inclinou a cabeça para o lado. — Posso estar errada, mas… talvez sejamos mais bem-vindas do que pensávamos.
Bem… vindos…
…para… nossa…
…cidade…
Bem-vindos…
Hmph. Mary Falsa bufou. — Nesse caso, não estão nos recusando a sair, mas tentando nos manter aqui.
O tom dela não estava muito distante do original. Mas isso, por si só, já era perturbador.
Se… seguirem as regras… todos podem ficar… felizes… nesta cidade…
Regra… Um… Fiquem quietos… Não façam alarde…
Regra… Dois… Lutar é… ruim… Sejam pacíficos… gentis… divertidos…
Regra… Três… Não podem… deixar esta… cidade… nunca…
Regra… Quatro… Imitem… todos…
Se… seguirem as regras… todos podem ficar… felizes… para sempre…
De quem era essa voz? Podia ser ouvida vindo de todas as direções. Ou talvez estivesse vindo de dentro de suas cabeças.
Mary Falsa ergueu apenas a sobrancelha esquerda. — Parece que sair é proibido, afinal.
Regra… Um… Fiquem quietos… Não façam alarde…
— Ficar de boca fechada e não falar, é isso? — Setora deu um sorriso irônico.
Ela não sabia quem era o falante, mas estavam sendo extremamente insistentes. Pelo menos, Setora tinha certeza de que a vida feliz nesta cidade não ia combinar nada bem com ela.
Então, o que ela faria a respeito disso? Nem precisava pensar. Ela ia sair da cidade imediatamente.
Setora apertou Kiichi com força usando as duas pernas.
Foi quando aconteceu.
A parede de hera bloqueando o portão, que ela estava prestes a fazer Kiichi atacar e atravessar, foi destruída do outro lado.
— O quê…?!
O que derrubou a parede de hera e passou por ela foi um grande disco… não, seria um espelho?
Mesmo aqui, um espelho enorme não ia se mover sozinho. Havia alguém carregando-o. O homem corpulento que o segurava ergueu o espelho, girando-o, e então lançou um olhar afiado para Setora e Mary.
— Vocês, são Yomu?
— Yomu? — Setora olhou para Mary Falsa sem querer.
Parecia que Mary Falsa não tinha mais ideia do que ele estava falando do que ela, e inclinou a cabeça para o lado. — Não… acho que não?
— Não parecem Yomu, então o que são?! — gritou o homem. — Pelo que vejo, não são meios-monstros, nem monstros dos sonhos. Também não parecem desvirtuados. Isso significa o que eu acho que significa?! O que são vocês?! Podemos acabar com vocês?!
— O que tá fazendo, Tonbe?! Você é um saco de banha inútil! — Outro homem apareceu do buraco na parede de hera.
— Esse sotaque é dos infernos — murmurou Mary Falsa.
Era verdade, ele tinha uma entonação distinta que era difícil de entender, mas sua aparência também era bastante peculiar. Será que realmente existiam pessoas com queixos tão longos?
Esse homem tinha a boca coberta com um pano, mas não conseguia conter totalmente seu queixo exageradamente longo. Ele se projetava.
Sobrancelhas poderiam crescer em triângulos equiláteros perfeitos assim? Seus olhos eram terrivelmente pequenos. Aqueles olhos sanpaku eram vistos como um sinal de má sorte há muito tempo, um motivo para exclusão.
Além disso, o que havia com a testa daquele homem? Ou melhor, havia algo nela? Era estreita, quase inexistente. Era difícil até chamar de testa quando era tão estreita. Será que o homem não tinha testa, então? O que significava não ter testa?
A frase “Ele tem um impacto danado” passou pela cabeça de Setora. Essas palavras não faziam parte do seu vocabulário usual. Soava como algo que Kuzaku poderia dizer. Ainda assim, era verdade, a aparência do homem tinha um impacto danado.
O homem colocou a mão no cabo da espada longa presa às costas, encarando Setora e Mary Falsa. — Quem diabos são vocês?
Deixando o Homem do Espelho de lado, esse cara parecia bastante capaz—embora, por causa de sua aparência extremamente impactante, Setora não conseguisse evitar rir dele.
— Eu poderia perguntar o mesmo.
Reprimindo o riso com esforço, Setora teve que se esforçar para manter uma expressão séria. Se risse, o Homem de Impacto Exagerado atacaria Setora imediatamente.
Ela não tinha certeza se conseguiria sequer bloquear o primeiro golpe. Dependendo de como as coisas se desenrolassem, poderia acabar com esse primeiro golpe. A aura maligna e feroz que o Homem de Impacto Exagerado exalava era suficiente para inspirar esse senso de urgência nela.
O Homem do Espelho preparou seu espelho gigante. Seu corpo corpulento estava quase todo escondido pelo espelho massivo. O espelho gigante parecia um espelho de mão ampliado para aquele tamanho, mas como ele conseguia carregá-lo? Ela realmente não sabia.
Com os lábios abaixados e o braço esquerdo pendendo frouxo, o Homem de Impacto Exagerado se aproximava aos poucos, segurando e soltando o cabo de sua espada longa com a mão direita.
Mesmo para Kiichi, que estava com os pelos eriçados e pronto para lutar, lidar com o Homem de Impacto Exagerado provavelmente seria difícil. Eles também não podiam subestimar o Homem do Espelho. Quem sabia o quanto Mary Falsa lutaria? De qualquer forma, Setora precisava estar pronta para uma batalha total.
Setora desceu das costas de Kiichi, segurando firmemente o recipiente de pseudo-alma escondido em seu bolso. — Enba!
A pseudo-alma, que foi feita com o poder de uma relíquia, e o recipiente de pseudo-alma que a continha eram o verdadeiro corpo do golem Enba. Dito isso, o cadáver de Enba, que havia sido feito de corpos mortos e metal, estava quebrado e perdido. O cadáver não podia funcionar sem um recipiente de pseudo-alma, e não passava de uma mera marionete, mas o recipiente de pseudo-alma também não era mais que uma gema dura sem um cadáver.
Aqueles que vieram antes dela diziam que era possível ler a vontade da pseudo-alma pela luz azul que piscava através de vários orifícios. Setora achava que isso era uma alucinação. Se ela não refizesse o cadáver, Enba não se moveria.
Se Setora fosse fazer um cadáver em qualquer lugar que não fosse sua aldeia natal, ela teria que reunir todas as ferramentas e materiais do zero, então, para dizer o mínimo, seria uma tarefa monumental. Seria incrivelmente difícil preparar um novo cadáver para Enba.
Enba estava essencialmente morto a essa altura.
Por algum motivo, ela nasceu na Casa de Shuro, e o primeiro golem de carne que criou como necromante foi Enba. Ela não conseguia se acostumar com o método da Casa de Shuro de fazer e destruir novos golems um após o outro, buscando criar um golem de ponta.
Ela havia criado vida com suas próprias mãos. Agora que o fizera, não podia destruí-lo. Decidiu que Enba seria seu último golem.
O silencioso Enba a serviu em silêncio. Ele sempre esteve ao seu lado. Como um amigo.
Isso causou a morte de Enba.
Era como se Setora tivesse matado Enba ela mesma.
Ela não sentia culpa. Enba era um golem. Ele estava pronto para dar sua vida pela necromante que era sua mestra a qualquer momento. Enba apenas fez o óbvio. Enba, obviamente, não culparia Setora. Ninguém poderia culpá-la por nada.
Enba não existia mais. Provavelmente nunca voltaria. Setora só precisava aceitar esse fato. Não havia nada mais que pudesse fazer. Era assim que deveria ser.
O Homem de Impacto Exagerado pulou e avançou em sua direção. Ele estava indo mais rápido do que a visão cinética de Setora poderia acompanhar.
Setora ou Kiichi, possivelmente ambos, teriam sido perfeitamente cortados ao meio pela espada longa do Homem de Impacto Exagerado se Enba não tivesse surgido de repente para bloquear seu caminho.
O braço longo e reforçado com metal de Enba desviou a espada longa do Homem de Impacto Exagerado. Sem perder o ritmo, seu braço direito rugiu.
O Homem de Impacto Exagerado recuou com um movimento estranho que o fez desaparecer, apenas para reaparecer em outro lugar, esquivando-se do braço direito de Enba.
— Que diabos…?! — ele gritou.
— Mwuhuh…? — O Homem do Espelho bloqueou um ataque súbito de Kiichi com seu espelho massivo.
Kiichi pulou para trás, assumiu uma posição de luta e rosnou.
Aquele espelho massivo tinha um poder defensivo considerável. O Homem do Espelho tinha um martelo de guerra nas costas, mas certamente não podia usá-lo ao mesmo tempo que o espelho.
O Homem de Impacto Exagerado e o Homem do Espelho eram uma equipe, um cuidando do ataque, o outro da defesa, não é?
Mary Falsa bateu o cabo de seu cajado duas vezes no chão, observando em silêncio. Parecia que ela não tinha intenção de se envolver. Era impossível saber o que ela faria se as coisas piorassem, mas, por enquanto, Setora precisaria que Kiichi e Enba fizessem o seu melhor.
Por que Enba, que deveria ter perdido seu cadáver, estava aqui? Mais que isso, quando Setora segurou seu recipiente de pseudo-alma e desejou que ele viesse, ele apareceu. Como esse fenômeno funcionava? Setora não fazia ideia, mas Enba estava aqui.
Ele havia defendido Setora várias vezes neste mundo bizarro, eliminando seus inimigos, e acabara de fazer um bom trabalho ao desviar a espada longa do Homem de Impacto Exagerado. Ele não era uma ilusão.
A pele de Enba não estava exposta de forma alguma. As bandagens elásticas de cadáver, que Setora havia feito para seu cadáver com suas próprias mãos, envolviam todo o seu corpo, cobrindo-o adequadamente. Quem havia blindado seus braços onde era necessário também fora Setora.
Não importava como o olhassem, Enba só podia ser Enba. No entanto, era difícil dizer que ele estava completamente inalterado. Na verdade, era impossível.
Enba tinha a altura de um homem adulto, talvez um pouco menor. Quando Setora começou a fazer Enba, ela tinha nove anos, então ele parecia grande na época, mas não mais.
Ele não era grande antes.
Enba havia crescido.
Será?
Não, claro que não. Isso não podia estar certo.
Golems de carne não encolhiam nem emagreciam, e também não cresciam nem engordavam. Não deveria ser possível, mas o Homem de Impacto Exagerado provavelmente tinha uma altura acima da média, e ainda assim era mais baixo que Enba. Sim, ele era definitivamente mais baixo.
Enba havia claramente ficado maior.
— Vai, Enba, Kiichi! — chamou Setora.
O que importava se Kiichi tinha se transformado no que era agora? Enba apenas ficou maior. Não era grande coisa.
Enba atacou o Homem de Impacto Exagerado, enquanto Kiichi avançou contra o Homem do Espelho. O Homem de Impacto Exagerado se movia flexivelmente para a esquerda e para a direita, esquivando-se dos ataques ferozes dos braços esquerdo e direito de Enba.
Quando parecia que ele apenas esquivaria, ele esticou sua espada longa como uma lança para um contra-ataque. Enba se curvou para trás para evitar, caindo para trás enquanto o fazia.
Antes que pudesse recuperar o equilíbrio, o Homem de Impacto Exagerado rugiu e pulou sobre ele. — Gyahhhhhh…!
Será que Enba poderia lidar com isso?
Por favor, lide com isso de alguma forma, Setora suplicou silenciosamente.
Seu oponente nem estava sério ainda. Eles estavam na fase em que o inimigo havia percebido todos os movimentos disponíveis para eles.
Os socos de gato de Kiichi, usando ambas as patas dianteiras, e o chute que ele realizou após uma cambalhota para a frente, foram bloqueados pelo Homem do Espelho, o que dificultou sua capacidade de atacar.
Se o Homem de Impacto Exagerado determinasse que poderia dominar Enba, provavelmente partiriam para o ataque. Ela queria fazer algo antes disso, mas Setora não tinha cartas para jogar.
Olhando para Mary Falsa, a mulher estava sentada, abraçando as pernas. O que ela estava fazendo?
Incapaz de suportar isso por mais tempo, Setora finalmente perdeu a paciência e começou a gritar com Mary Falsa. — Sua—
— Espera, espera, espera! — Alguém tropeçou pelo buraco na parede de hera e entrou na cidade.
Essa pessoa era alta e, possivelmente como medida contra o vento doce, tinha um pano cobrindo a boca.
Era…
— Para, para, para! Tonbe-san! Gomi-san! Eles não são inimigos! São meus camaradas! Não há necessidade de lutar!
— Hã?!
— Como é que é?!
O Homem de Impacto Exagerado e o Homem do Espelho recuaram em uníssono.
— Espera! — gritou Setora.
Quando Setora deu a ordem, Enba e Kiichi recuaram.
O homem tirou o pano que cobria sua boca. — Oooohhhhhhhhhhh! Mary-san! Setora-san! Isso é insano!
O que era supostamente “insano”? O que havia com aquele rosto? Ela se sentia envergonhada só de olhar para ele.
Como alguém podia sorrir com o rosto todo bagunçado assim? Seus olhos estavam cheios de lágrimas também. Era compreensível que ele estivesse feliz, mas não era estranho chorar? Tinha que ser.
Apesar disso, Setora sentiu uma irritação profunda no nariz, e a área ao redor de seus olhos ficou quente.
De jeito nenhum. Ela sentiu como se fosse chorar—ou será que não?
Enquanto isso, Mary Falsa se levantou num instante e estava acenando para ele com um sorriso. — Faz um tempo, Kuzaku.

Talvez fosse de se esperar. Não fazia Setora sentir nada muito forte de um jeito ou de outro, mas será que ela não poderia se esforçar um pouco mais na sua atuação?
Parecia que Kuzaku estava tão emocionado que seu julgamento estava nublado, e ele apenas dizia, “Sim, sim”, enquanto tentava enxugar as lágrimas, então provavelmente estava tudo bem por enquanto.
— …Peraí. Hã? — Kuzaku olhou para Kiichi, virou-se para olhar Enba, e então gritou. — O quêêêê?! H-Hããã?! O quêêêê?! O-O-O quê?! O quêêêêê…?!
— Você tá fazendo barulho demais, Bossari! — gritou uma voz feminina.
Ainda havia outra?
Quem agora?
Setora podia dizer que era uma mulher pela voz. Presumivelmente, ela estava viajando com Kuzaku, mas não era Shihoru.
Não havia apenas monstros neste mundo. O Homem do Espelho e o Homem de Impacto Exagerado eram ambos humanos. Muito provavelmente, eram soldados voluntários, como Haruhiro e a party. Nesse caso, será que aquela mulher também era uma deles?
A mulher ficou do outro lado do buraco na parede de hera, com os braços cruzados. Ela não fez nenhuma tentativa de entrar na cidade.
Como o Homem de Impacto Exagerado e Kuzaku, sua boca estava coberta com um pano, e ela usava um uniforme branco com detalhes azuis. Era o que chamavam de uniforme de sacerdotisa.
— O que você é? — exigiu Setora.
— Não, você. O que é você?
— Eu sou Shuro Setora. Quem é você?
— Eu sou Io. Não me importaria de permitir que me chamasse de Io-sama.
— Não preciso de permissão.
— Por quê?!
— Porque não há motivo para eu te chamar com -sama.
— Você não sabe por que deveria me chamar de Io-sama por respeito? — zombou a mulher. — Nossa, será que você é meio lerda, talvez?
— Isso não descreve melhor você? — perguntou Setora friamente. — A propósito, Kuzaku.
— Hã?
Kuzaku apontou para si mesmo com uma expressão idiota no rosto. Ela já sabia que ele não era um homem particularmente brilhante, então isso não a irritava. Isso, à sua maneira, era um aspecto louvável dele.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Setora. — Por que vieram para esta cidade?
— Ahh. Sobre isso, é que—
Regra… Um… Fiquem quietos… Não façam alarde…
Regra… Dois… Lutar é… ruim… Sejam pacíficos… gentis… divertidos…
Regra… Três… Não podem… deixar esta… cidade… nunca…
Regra… Quatro… Imitem… todos…
Não seguir… regras… ruim… Saiam…
Eles ouviram aquela voz. Ou talvez, por causa de todo o tumulto que fizeram, não tivessem notado antes. Era possível que estivessem ouvindo o tempo todo.
Se não saírem… Matar…
Setora se virou. Ela tinha sido descuidada. Por causa de tudo o que estava acontecendo, não havia notado antes.
Nas ruas, no topo dos telhados, nos espaços entre os prédios, eles estavam lá. Seus contornos eram indistintos através da névoa, mas enquanto alguns eram parecidos com humanos, outros eram semelhantes, porém diferentes, e outros eram completamente inumanos. Eles podem ter se reunido de toda a cidade. Havia enxames deles.
— …É, viemos aqui para ganhar id? — perguntou Kuzaku hesitante.
Ele se aproximou de Setora, sacando sua grande katana. Mas esse homem, que já era alto para começar, estava assim tão grande?
— Se eu disser isso, você entende? — perguntou ele.
— Não, nem um pouco… mas se preparem, Enba, Kiichi.
Enba e Kiichi defenderam os flancos de Setora. Mary Falsa, relutantemente, também preparou seu cajado. O Homem do Espelho e o Homem de Impacto Exagerado avançaram também.
Os moradores da cidade pareciam não estar se movendo à primeira vista. No entanto, eles não estavam lá antes. Estavam definitivamente avançando. Eles se aproximavam aos poucos, e então cairiam sobre eles como se uma represa tivesse rompido.
— Massacre-os — disse Io.
Foi como se Io tivesse dado a ordem. Eles estavam vindo. Os moradores da cidade estavam avançando.
Por um momento, um pensamento ocorreu a Setora.
Não seremos nós que os massacraremos.
Não serão eles que nos massacrarão em vez disso?
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui
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