Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 7 â Volume 11
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 07:
[Guia]
Eu corro.
Corro.
EstĂĄ escuro.
Corro por um tĂșnel longo e escuro como breu.
Consigo ver o que parece ser luz lĂĄ na frente.
Corro em direção a ela. Corro.
Eu corro.
Corro pela escuridĂŁo.
Em direção à luz, eu corro.
Parece que nunca consigo alcançå-la. Mesmo assim, continuo correndo.
Eu corro.
Corro.
Estou quase lĂĄ. SĂł um pouco mais.
Parece que o tĂșnel estĂĄ prestes a acabar, mas ele nunca termina.
Corro.
Corro.
Continuo correndo, e…
De repente, a luz transborda.
Saindo do tĂșnel, continuo correndo.
Eu corro.
Corro o mĂĄximo que consigo.
Sob a luz do sol, meus braços e minha cabeça expostos sentem o calor.
Enquanto corro, o vento fresco me atinge e me faz nĂŁo querer parar.
Eu corro.
Corro pelo campo.
Quando olho para trĂĄs, o sol entra nos meus olhos e me cega.
De alguma forma, isso me parece engraçado, e eu começo a rir.
Enquanto rio, volto meu olhar para frente e continuo correndo.
â Ei, nĂŁo vĂĄ tĂŁo longe.
Ouço uma voz dizendo isso.
â Ah, nĂŁo vou, â respondo, rindo de novo, acelerando o passo.
NĂŁo quero ser pega, penso.
Não quero ser pega por ninguém.
NĂŁo Ă© como se houvesse algum lugar para onde eu quisesse ir.
Mesmo sem vento, ao correr assim, sinto como se ele estivesse soprando.
…Ei, sĂ©rio… volte jĂĄ.
Ouço a voz de novo.
Acho que preciso voltar, penso, e paro.
Papai estĂĄ sempre ocupado com o trabalho e nĂŁo faz exercĂcios o suficiente. Ele adora gravar tudo com sua filmadora, entĂŁo, nos dias de folga, ele me leva para algum lugarâĂ s vezes longe, Ă s vezes apenas ao parque perto de casaâe filma. Ele gravou minha formatura na creche, a cerimĂŽnia de entrada na escola, o Hina-matsuri, o Natal, e tambĂ©m os meus aniversĂĄrios.
Mas, por mais que ele grave, quase nunca assiste aos vĂdeos, certo?
â EstĂĄ tudo bem â diz papai. â Ă um registro. Algum dia, vai chegar o momento em que vamos querer assistir, e aĂ podemos ver juntos e relembrar. Estou gravando para quando esse dia chegar.
â Tipo, quando eu crescer? â pergunto.
â Bem, por exemplo â responde ele. â Quando vocĂȘ crescer, se casar e tiver um filho seu…
Ă muito estranho ouvir isso. Eu, me casar?
â VocĂȘ nĂŁo pode dizer com certeza que nĂŁo vai, certo? Bem, seria completamente normal se acontecesse. Provavelmente, um dia, vocĂȘ vai se casar com alguĂ©m, acho.
…SerĂĄ? Vou me casar? Ter filhos? Isso significa que vou me tornar mĂŁe?
â Talvez vocĂȘ se torne uma â diz papai.
Tenho a sensação de que isso nunca vai acontecer.
â …HĂŁ? O quĂȘ? Diga de novo â murmurei. â Espera… NĂŁo consegui ouvir direito.
MamĂŁe estĂĄ dizendo algo pelo telefone. MamĂŁe estĂĄ chorando. NĂŁo consigo ouvi-la direito por causa das lĂĄgrimas.
Mas, sinceramente, eu entendo. Ouvi bem quando ela disse que papai morreu.
SĂł que acho que deve ser mentira, ou que ouvi errado. Quero dizer, parece algo impossĂvel de acontecer, entĂŁo peço para ela repetir.
Huh?
O que foi, mamĂŁe? Fale direito.
O que aconteceu com o papai…?
Corro.
Eu corro.
Eu corro pelo corredor da escola.
Saio pela porta e corro.
Chegando a uma avenida principal, enquanto corro, procuro por um tĂĄxi. Levanto a mĂŁo e corro.
Entro no tĂĄxi que para para mim. Digo ao motorista o destino. O tĂĄxi segue lentamente. Quando o sinal fica vermelho, ele para.
Isso Ă© tĂŁo, tĂŁo lento, penso. Se era para ser assim, eu nĂŁo devia ter pego o tĂĄxi. Devia ter continuado correndo.
O tĂĄxi para em frente ao hospital. Tento sair. A porta nĂŁo abre.
â Senhorita, a tarifa. Precisa pagar a tarifa â ele me diz.
â Quanto Ă©? â pergunto, pegando minha carteira.
Fico pĂĄlida.
Dentro dela, sĂł hĂĄ 425 ienes. NĂŁo Ă© suficiente.
O que eu faço? O que eu faço?
â Hum, meu pai morreu, entĂŁo, desculpa, pelo dinheiro… â balbucio.
â Oh, tĂĄ tudo bem, tĂĄ tudo bem, eu entendo â o motorista abre a porta.
â Desculpa, desculpa, desculpa â peço desculpas repetidamente, saio do tĂĄxi e corro. Corro pelo hospital.
Em um lugar escuro, assisto aos vĂdeos que meu pai gravou. Estou correndo. Rindo. Sendo educada. Assoprando velas em um bolo. Cantando.
Ăs vezes, ouço a voz do meu pai. Algo como, âEi, nĂŁo vĂĄ tĂŁo longe.â
Ouço a risada do meu pai.
Quando eu canto, meu pai canta também.
Eu me sento no chĂŁo de um quarto com as luzes apagadas, assistindo Ă s imagens de mim mesma na televisĂŁo por sabe-se lĂĄ quanto tempo.
O rosto do meu pai nunca aparece. Nem mesmo suas mĂŁos.
Eu só ouço sua voz. Mas, de vez em quando, penso: Por que eu não gravei o meu pai também?
â Por favor, namore comigo â Hakamada-kun me diz debaixo de uma ĂĄrvore. Eu penso um pouco e, entĂŁo, respondo.
â O que exatamente isso envolve? â pergunto.
â …O que envolve? Tipo… ir para casa juntos e tal?
â SĂł preciso voltar para casa com vocĂȘ?
â NĂŁo, nĂŁo sĂł isso… tipo, sair para brincar tambĂ©m?
â NĂŁo me importo de brincar, mas…
â Mas o quĂȘ?
â TĂĄ tudo bem, de verdade.
Acho que vamos acabar nos casando, penso comigo mesma.
Hakamada-kun nĂŁo disse nada sobre casamento, Ă© claro. Ele nem mencionou o assunto.
Mas o que significa namorar se vocĂȘ nĂŁo estĂĄ pensando em casamento? Acabo me perguntando.
â O que vocĂȘ vĂȘ de tĂŁo especial no Hakamada? â Yakki me pergunta, e eu inclino a cabeça, pensativa.
Yakki estå com sua bicicleta estacionada ao lado do banco, comendo um picolé. Eu também estou comendo um. As cigarras do verão fazem barulho, e meu picolé estå supergelado, mas eu não estou suando.
â Nada de tĂŁo especial nele â respondo honestamente.
â Ele nĂŁo tem nada de bom, mas vocĂȘ ainda estĂĄ namorando com ele? â Yakki pergunta.
â Dizemos que estamos namorando, mas tudo o que realmente fazemos Ă© voltar para casa juntos.
â Isso Ă© o que chamamos de namoro â diz Yakki. â Bem, vocĂȘs jĂĄ se beijaram, pelo menos?
â Isso ainda nĂŁo aconteceu.
â O quĂȘ, vocĂȘ nĂŁo quer?
â Acho que nunca pensei que quisesse, na verdade.
â Por que vocĂȘ estĂĄ namorando com ele, entĂŁo?
Bem, se eu tiver que dizer algo, talvez eu tenha achado que namorar alguém não seria tão ruim, mas agora que penso nisso, sinto que é um pouco diferente disso.
Enquanto fico sem resposta, Yakki sugere: â Talvez vocĂȘ devesse terminar com ele.
Eu também acho. Mas como vou dizer isso para Hakamada-kun?
Quando tiro minhas pantufas do armårio e as calço, sinto uma sensação desagradåvel nos pés. Quando as tiro, vejo uma mancha vermelha nas minhas meias.
Entendi. Aposto que sei o que Ă© isso. Inspeciono-as.
Parece que tinha ketchup dentro. NĂŁo fui eu que fiz isso, entĂŁo deve ter sido outra pessoa.
â AlguĂ©m… â murmuro para mim mesma, tirando as meias. Ambas as pantufas estĂŁo cheias de ketchup.
NĂŁo sĂŁo hot docks, sabe, penso.
NĂŁo, nĂŁo hot dock, hot dogs. Um dock Ă© onde vocĂȘ amarra um barco. Um dog Ă© o melhor amigo do homem. Um hot dog Ă© um cachorro aquecido.
Mesmo pensando que não estou fazendo sentido, seguro uma das minhas meias manchadas de ketchup, caminhando pelo corredor com meu pé esquerdo ainda calçando a meia suja de ketchup e o direito descalço. Devem haver pantufas para visitantes em algum lugar.
â Huh? O que foi? â Yakki me chama.
A parte inferior do rosto de Yakki estĂĄ estranhamente relaxada. A parte superior estĂĄ um pouco tensa. Pela expressĂŁo dela, fico convencida de que foi ela quem fez isso.
â Estou procurando pantufas â respondo.
â Por quĂȘ? Huh? O que aconteceu com suas meias?
â Elas ficaram sujas, de alguma forma.
â Como vocĂȘ conseguiu sujĂĄ-las assim? VocĂȘ Ă© esquisita, minha nossa! VocĂȘ Ă© um pouco estranha, sabia?
â Sou?
Decido terminar com Hakamada-kun.
Quando digo isso para ele depois da aula, Hakamada-kun fica desconcertado.
â Hein? Eu fiz algo…?
â VocĂȘ nĂŁo fez nada, Hakamada-kun â digo.
â EntĂŁo por que vocĂȘ estĂĄ dizendo que quer terminar?
â NĂŁo acho que isso estĂĄ certo.
â Huh? O que nĂŁo estĂĄ certo?
â Como posso explicar? â digo. â Hmm, eu acho que vocĂȘ provavelmente gosta de mim.
â Claro que gosto. Ă por isso que te pedi em namoro. Espera, entĂŁo vocĂȘ nĂŁo gosta de mim?
â Acho que meus sentimentos sĂŁo muito diferentes dos seus. Eu nem sei o que significa gostar de alguĂ©m.
â EntĂŁo talvez vocĂȘ nĂŁo devesse ter começado a namorar comigo.
O rosto de Hakamada-kun estĂĄ vermelho como um tomate. Ele estĂĄ realmente bravo.
NĂŁo posso culpĂĄ-lo. Aceitei namorar sem pensar muito e estou arrependida. Acho que fiz mal a ele. Acabei machucando-o.
Percebo que nĂŁo querer machucĂĄ-lo foi o motivo de ter aceitado namorar com ele. Mas isso acabou machucando-o ainda mais.
Hakamada-kun era o tipo de pessoa com quem eu conseguia conversar casualmente, e, quando ele me chamou para sair, talvez tivéssemos ido brincar com algumas outras pessoas. Fazer isso era divertido, mas então ele me pediu em namoro.
No fim, provavelmente nĂŁo quis tornar as coisas estranhas rejeitando-o. Por isso aceitei. O resultado foi que ficou ainda mais estranho, e a atmosfera agora estĂĄ completamente desagradĂĄvel. Tenho certeza de que nunca mais conseguirei conversar casualmente com Hakamada-kun de novo.
â Eu sou terrĂvel â digo.
â Ă mesmo â ele concorda.
â Me desculpe. â Faço uma reverĂȘncia.
Hakamada-kun nĂŁo diz nada.
Eu olho para baixo. Ele tem a mão esquerda no bolso da calça do uniforme. Sua mão direita estå fortemente cerrada, tremendo.
Se eu dissesse: âVamos continuar juntos, afinalâ, serĂĄ que isso acalmaria sua raiva? Mas nĂŁo posso fazer isso.
â HĂŁ? EntĂŁo vocĂȘ terminou com o Hakamada-kun? â pergunta Yakki.
Eu respondo que foi exatamente o que fiz.
â Coitado â diz Yakki. â Azar do Hakamada-kun.
Acho que ela quis dizer mĂĄ sorte. Mas fico calada.
â Espero que vocĂȘ aprenda com isso e nĂŁo faça de novo. As pessoas vĂŁo guardar rancor de vocĂȘ.
Enquanto respondo com um âĂâ, me pergunto por que Yakki acabaria ressentida comigo pelo que aconteceu com Hakamada-kun.
Sempre que não entendia algo, eu costumava perguntar ao papai. Raramente recorria à mamãe, e ainda não o faço. Pensando bem, mamãe é um pouco parecida com Yakki.
Yakki geralmente é leve, sorridente e fåcil de conversar. Mas às vezes pode ser cruel de repente. Palavras tão duras que chegam a chocar saem de sua boca, e ela explode com alguém. Então, com o tempo, age como se nada tivesse acontecido, como se nem lembrasse do que disse.
JĂĄ aconteceu vĂĄrias vezes de uma coisinha que a mamĂŁe disse sem quererâou pelo menos acho que foi sem quererâme ferir no peito, como uma faca de vidro, me deixando em dor.
Sempre que eu falava disso com o papai, ele dizia: âEla nĂŁo quis te machucarâ, e passava a mĂŁo na minha cabeça.
Eu sempre pensava: ela sĂł estava de mau humor, ou algo assim. Ela tem dias assim.
Quando foi aquela vez que o papai e a mamĂŁe brigaram?
â Estou dizendo que nĂŁo Ă© justo vocĂȘ agir assim! â gritou mamĂŁe.
â NĂŁo precisa gritar. Eu consigo te ouvir muito bem.
â Eu sou sempre a vilĂŁ. Pode ser que vocĂȘ esteja bem com isso, mas eu nĂŁo aguento mais.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© a vilĂŁ. Eu nĂŁo acho que vocĂȘ seja mĂĄ. Se tem alguĂ©m errado aqui, sou eu.
â VocĂȘ nĂŁo pensa isso, e sabe disso!
â Eu penso, sim.
â EntĂŁo, o que tem de errado em vocĂȘ?
â Eu te deixo com raiva. Se eu nĂŁo fosse ruim, vocĂȘ nĂŁo ficaria brava comigo.
Papai era uma pessoa quieta. Estava sempre sorrindo, com um pouco de preocupação no rosto, ou parecia exausto e cansado.
No dia em que o papai morreu, mamĂŁe se sentou em um banco no hospital, com o rosto entre as mĂŁos.
â Como eu vou continuar vivendo sem vocĂȘ…?
Sentei ao lado dela, passando a mĂŁo nas costas dela. Tinha certeza de que o papai teria feito o mesmo.
â Eu estou aqui, mamĂŁe. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ sozinha.
MamĂŁe chorou por um tempo, depois assentiu. Depois disso, aconteceu um monte de coisas naquela noite, e eu fui para um quarto escuro assistir aos vĂdeos que o papai havia gravado. Papai nĂŁo aparecia em nenhum deles.
Em um vĂdeo, eu estava correndo. Onde era aquele campo, afinal?
Se eu perguntasse para mamãe, ela saberia? Mamãe provavelmente sabia. Mamãe devia estar com a gente naquela época.
Eu quero ir para aquele lugar. O sol brilha forte, quase nĂŁo hĂĄ vento, e, se eu ficar parada, Ă© quente, mas eu posso apenas correr.
â VocĂȘ nĂŁo gosta de rosa, Meri? â papai me pergunta.
â NĂŁo, nĂŁo gosto muito â digo.
â Que cor vocĂȘ gosta?
â Branco, talvez? Ah, e azul!
â Azul claro, nĂ©.
As roupas que mamĂŁe comprava para mim por conta prĂłpria geralmente eram rosas.
â VocĂȘ Ă© uma menina, entĂŁo rosa Ă© mesmo a cor mais fofa, nĂŁo acha? â ela sempre dizia.
Sempre que ela dizia isso e eu me irritava, papai dizia, prestativo: â Mesmo sendo menina, acho que ela pode usar a cor que quiser.
Eu quero correr.
Vamos correr.
Eu vou correr.
â Ei… â ouço uma voz me chamando.
Quem poderia ser?
Papai, talvez? A voz soa diferente.
Quero correr mais, entĂŁo ignoro e corro.
â Ei, Mary… â Acho que Ă© uma voz familiar.
Eu paro. SerĂĄ que Ă© o Michiki?
Viro-me para trĂĄs.
Hå alguém à distùncia. Não é apenas uma pessoa. Talvez Michiki e o grupo dele?
â Michiki? Mutsumi? Ogu?
Levanto a voz, chamando por eles. NĂŁo sei se sĂŁo trĂȘs pessoas ou nĂŁo. Eles estĂŁo longe demais. Seja como for, hĂĄ alguĂ©m bem distante, e nĂŁo se movem.
â Mutsumi? Ogu? Michiki? Yakki? Pai? MĂŁe?
NĂŁo importa quantas vezes eu chame, eles nĂŁo vĂȘm. Se nĂŁo forem Michiki e os outros, ou Yakki, ou meu pai, ou minha mĂŁe…
Eu tento chamar todos os nomes. Todos…
Quem? Quem sĂŁo todos?
NĂŁo consigo lembrar.
Por quĂȘ?
Oh, claro, penso. Se eles nĂŁo vĂȘm atĂ© mim, eu posso ir atĂ© eles.
Desta vez, corro na direção deles.
Corro.
Mas, por mais que eu corra, não consigo me aproximar dessas pessoas. Avanço e avanço, mas elas não ficam maiores.
Fico exausta e paro.
De repente, uma sombra passa.
Viro-me para trĂĄs, e algo grande e escuro voa acima de mim.
O que Ă© isso?
Eu o sigo com os olhos.
Desaparece no horizonte antes que eu consiga entender o que era.
Desisto e procuro aquelas pessoas.
Elas nĂŁo estĂŁo mais lĂĄ. Em lugar nenhum. Sumiram.
NĂŁo sei para onde. De onde vim, e para onde estava indo?
O campo gramado se estende até onde a vista alcança. A grama, o céu. Não hå mais nada.
â …Estou sozinha â sussurro.
Minha voz nem soa oca. Estå presa, reprimida dentro do meu coração.
Completamente… sozinha.
Reflito sobre essas palavras, mastigando-as até perderem todo o sabor, e então finalmente percebo.
Oh.
Olho ao redor.
O céu, a grama, e mais nada, como sempre.
Eu morri, percebo. Ă por isso que estou sozinha.
Sinto que havia alguém à distùncia antes, mas é só imaginação minha. Morri e acabei completamente sozinha, então não podia haver ninguém.
Quando vocĂȘ morre, perde a si mesmo e para de entender qualquer coisa, tenho certeza.
Mas, antes disso, eu queria vĂȘ-los. Esse desejo meu pode ter feito parecer que havia alguĂ©m ali.
Tento me sentar. Meu corpo nĂŁo obedece.
Baixo os olhos.
Não consigo ver minhas próprias mãos. Não tenho braços, nem pernas, nem corpo.
NĂŁo tenho nada.
Ah, Ă© porque eu morriâeu penso.
Porque eu morri, nĂŁo sobrou nada de mim.
Mas Ă© estranho.
Eu ainda consigo pensar assim.
SerĂĄ que realmente estou pensando?
Mesmo que eu jĂĄ nĂŁo exista?
Nesse campo infinito, com o cĂ©u tĂŁo alto…
Campo?
Céu?
Onde estĂŁo eles?
Sumiram.
NĂŁo vejo nada.
Não ouço nada porque o vento não sopra?
Tento fechar os olhos. Nada muda. Obviamente.
NĂŁo tenho corpo. EntĂŁo, nĂŁo tenho olhos.
A Ășnica coisa que posso fazer Ă© pensar.
NĂŁo sei se o que estou fazendo Ă© pensar ou nĂŁo, mas penso.
Penso.
Sobre o que devo pensar?
Decido contar.
Um. Dois. TrĂȘs. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Onze. Doze. Treze. Quatorze. Quinze. Dezesseis. Dezessete. Dezoito. Dezenove. Vinte. Vinte e um. Vinte e dois. Vinte e trĂȘs. Vinte e quatro. Vinte e cinco. Vinte e seis. Vinte e sete. Vinte e oito. Vinte e nove. Trinta. Trinta e um. Trinta e dois. Trinta e trĂȘs. Trinta e quatro. Trinta e cinco. Trinta e seis. Trinta e sete. Trinta e oito. Trinta e nove. Quarenta. Quarenta e um. Quarenta e dois. Quarenta e trĂȘs. Quarenta e quatro. Quarenta e cinco. Quarenta e seis. Quarenta e sete. Quarenta e oito. Quarenta e nove. Cinquenta. Cinquenta e um. Cinquenta e dois. Cinquenta e trĂȘs. Cinquenta e quatro. Cinquenta e cinco. Cinquenta e seis. Cinquenta e sete. Cinquenta e oito. Cinquenta e nove. Sessenta. Sessenta e um. Sessenta e dois. Sessenta e trĂȘs. Sessenta e quatro. Sessenta… sessenta… e quatro. Cinco? Sessenta… seis… sessenta… e cinco? Seis?
NĂŁo, deixe-me contar. Os nĂșmeros, por favor. Se eu nĂŁo fizer isso, ah…
Eu vou desaparecer.
Desaparecer.
Desap…
â Mary.
HĂĄ uma voz.
A voz de alguém.
Eu quero te ver.
Porque essa Ă© a Ășltima vez.
Este Ă© o fim.
Antes que eu desapareça.
Todos, por favorâ
Quem Ă© âtodosâ?
Mary? Mary…?
Ele segurou minha mĂŁo.
O que… o que eu devo fazer…?
VocĂȘ nĂŁo precisa fazer nada.
Eu nĂŁo preciso de nada.
Porque vocĂȘ jĂĄ fez o suficiente por mim.
Isso nĂŁo Ă© mentira.
Eu
Fui
Feliz
Porque eu
NĂŁo estava sozinha.
VocĂȘ esteve
LĂĄ por mim.
Haru
Eu
Ouça, eu
Haru, eu
O que era mesmo?
Eu
O que eu estava tentando dizer?
Eu esqueci.
Havia tantas coisas que eu queria te contar.
Tantas coisas.
Elas estĂŁo escapando, entĂŁo adeus.
Oh, se isso for um adeus…
Se eu estou indo para longe…
Todos…
Estou feliz por ter conseguido…
â Ei, nerdĂŁo.
Eu tenho um sorriso idiota no meu rosto cheio de espinhas quando Matt, o grandalhĂŁo que passou mais de cinco anos me zombando, me chama disso.
Nesse momento, eu perco a cabeça. Eu avanço contra ele. Meu ataque surpresa é um sucesso. Eu derrubo Matt. Eu o monto e começo a golpear seu rosto.
Meu corpo Ă© fraco. Eu nĂŁo consigo realmente machucar Matt, entĂŁo meus golpes sĂŁo ineficazes.
Matt se recupera do choque. Ele facilmente me empurra para longe. Em pouco tempo, Matt começa a me espancar, e seus golpes não são nem um pouco inofensivos.
DĂłi. Eu estou assustado. Quero que ele me poupe. Mas eu nĂŁo imploro por misericĂłrdia. Eu me defendo desesperadamente, cerro os dentes. Resisto atĂ© que a fĂșria de Matt cesse.
Os punhos de Matt começam a doer eventualmente, e ele vai embora, soltando palavrÔes enquanto se afasta.
Eu fico deitado na beira da estrada, na South Pine Street, sozinho, cantando uma pequena canção de vitória para mim mesmo. Eu sou um nerd, mas não sou fraco. Nem burro. Eu vou ficar mais forte e realizar meu sonho.
Eu estudo japonĂȘs. Meus principais materiais de estudo sĂŁo anime e mangĂĄ. TambĂ©m anisongs e J-pop. Depois, leio romances japoneses. Eu estudo.
Eu jĂĄ era bom em ciĂȘncias desde o inĂcio. Depois que começo a estudar japonĂȘs sozinho, paro de odiar tanto as matĂ©rias de humanas.
Eu corro. Faço alongamentos. Levanto peso. Treino meu corpo.
Eu nĂŁo consigo ser um grandalhĂŁo como Matt. Mesmo assim, ganhei alguns mĂșsculos. NinguĂ©m quer nada comigo agora.
Eu suporto a solidĂŁo. Me esforço ao mĂĄximo. Finalmente, piso em solo japonĂȘs como estudante de intercĂąmbio. Ă por um perĂodo de cerca de um ano.
Por que eu nĂŁo pude nascer neste paĂs? De qualquer forma, o paĂs combina comigo. Eu sou um otaku e um nerd, claro.
Com minha famĂlia anfitriĂŁ, os Hazaki, eu sinto um tipo de amor familiar caloroso que nunca experimentei com minha famĂlia de verdade.
Na escola japonesa, um lugar que sonhei em frequentar, consigo fazer amigos de verdade pela primeira vez.
Eu encontro o amor, também.
Com uma colegial japonesa, uma JK, Satsuki. Sim, eu arranjei uma namorada com o mesmo nome daquela garota de Meu Amigo Totoro.
Eu seguro as mĂŁos de Satsuki…
Caminhamos por um dique, atravessamos uma ponte, entramos em uma livraria.
â Jessie, seu japonĂȘs Ă© muito bom â diz ela. â Ă tĂŁo natural.
…Satsuki?
Jessie?
E u be ij o Sa tsu ki.
Ă um beijo doce, apenas com os lĂĄbios tocando.
…Quem? Eu? Com Satsuki?
Eu amo Satsuki de verdade. Quero amĂĄ-la com toda a sinceridade que posso reunir, mas sem deixar de ser eu mesmo.
Am ar Sa tsuk i se m de ix ar de ser e u mes mo…
Algo parece estranho. Algo estĂĄ errado. O dia em que eu deixarei o JapĂŁo se aproxima.
Satsuki me diz: â Eu fico bem com um relacionamento Ă distĂąncia.
Eu apenas digo repetidamente que a amo. Porque amo Satsuki.
Finalmente, volto para casa. Faço chamadas de vĂdeo com Satsuki vĂĄrias vezes ao dia. Conversamos sobre tudo e nada. SĂł isso jĂĄ me faz feliz.
Mas, quando as chamadas terminam, sinto-me irremediavelmente sozinho e triste. Quero ouvir a voz de Satsuki de novo. Quero ver o rosto dela.
Enquanto encerro mais uma chamada, porque jĂĄ estĂĄ tarde no JapĂŁo e Satsuki deve precisar dormir, sinto que algo estĂĄ errado.
â Jessie, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ sendo meio frio ultimamente? â diz Satsuki, e, quando peço desculpas, ela explode comigo.
Algo estĂĄ estranho. EstĂĄ errado. Tudo estĂĄ errado.
Quem sou eu? Sou Jessie? Eu…
â Ageha, estaremos juntos para sempre. â Takaya me abraça apertado e sussurra no meu ouvido.
Quero que ele me segure assim para sempre. O queixo de Takaya estĂĄ pressionado contra minha testa.
Takaya nĂŁo faz a barba direito todos os dias, entĂŁo, quando se mexe, sua barba arranha minha testa, e isso dĂłi um pouco. Lembro-me de dizer a ele para se barbear. Ele disse âtudo bemâ, mas se esquece depois de alguns dias. No fim, desisto. Acabo me acostumando.
Agora, não acho essa sensação tão desagradåvel. Desta vez, quando Takaya e eu estamos enrolados juntos em um cobertor, estå quente, minha cabeça estå enevoada, sinto sono, mas não consigo dormir, e ele é tão precioso para mim. Eu o amo, e quero pedir para que ele me beije, mas estou com vergonha. Quero que Takaya faça isso por conta própria. No entanto, Takaya estå dormindo.
Ah, qual é! Fico irritada. Tento dormir também. Quando tento, os låbios de Takaya pressionam minha testa. Lentamente, eles descem. Eu os recebo com os meus próprios låbios.
Enquanto compartilhamos um longo beijo, sinto que algo estĂĄ estranho. Algo estĂĄ errado.
O calor de Takaya desaparece. Ele estava quente até um momento atrås. Quente, até.
Ainda estou segurando Takaya. Tento aquecĂȘ-lo. NĂŁo acho que seja em vĂŁo. NĂŁo quero pensar nisso.
Rikimaru estå por perto. Karatsu estå aqui. Domiko estå aqui. Taratsuna estå aqui. Ninguém mais se move.
O sangue derramado pelos meus companheiros agora estĂĄ frio. Ouço o zumbido dos insetos. Moscas estĂŁo se juntando. Tento afastĂĄ-las com a mĂŁo. Mas nĂŁo consigo afastĂĄ-las todas. Ă difĂcil atĂ© mesmo mexer minha mĂŁo. Quando olho, as moscas tambĂ©m estĂŁo se aglomerando no meu estĂŽmago.
Quero fazer algo quanto a isso. NĂŁo sei o que fazer.
Takaya. Acorde, Takaya. Quero chamar o nome dele. Minha voz nĂŁo sai.
Uma mosca pousa nos meus låbios. Ela se move lentamente. Estå tentando entrar em mim. Tento fechar a boca. Mas não consigo direito. Em vez disso, meus olhos começam a fechar. Sinto que algo estå estranho. Algo estå errado.
â HĂĄ uma maneira. Apenas uma.
Percebo algo.
Mesmo que nĂŁo me tenham dito diretamente, nĂŁo me deram a chave? Qual o significado de sermos ensinados Magic Missile, que de certo modo Ă© um feitiço Ășnico, como nosso primeiro feitiço?
Agora entendo. EntĂŁo era isso.
â Ă assim que Ă©, nĂŁo Ă©, Mago Sarai?
Digo isso diretamente a ele, Sarai, o grande anciĂŁo da guilda dos magos, que apenas sorri e nĂŁo diz nada.
Estão me dizendo para pensar nisso por conta própria, entendo. Para abrir meu próprio caminho. Se não o fizer, nunca alcançarei a verdadeira magia. As coisas que eu descobrir assim serão minha magia.
Mesmo que pergunte sobre isso, Sarai nĂŁo confirmarĂĄ. Contudo, estou confiante. Finalmente consigo enxergar. O caminho que devo seguir. Caminharei pelo caminho onde nĂŁo hĂĄ caminho. Esse Ă© o meu caminho.
â Yasuma â diz Sarai para mim. â NĂŁo seja precipitado. Agora olhe para mim. A vida Ă© longa, sabe? VocĂȘ pode ir devagar.
Naturalmente, essa era minha intenção. Mesmo sentindo que algo estå estranho, finalmente encontrei uma pista. à estranho dizer isso de mim mesmo, mas acho que sou sério e estudioso. Quando me tornei um soldado voluntårio e mago, dediquei-me completamente a dominar a magia. Adquiri muitos feitiços.
Dou minha opinião e, se sinto que alguém estå errado, digo isso. Por causa disso, jå tive desentendimentos e me separei de algumas pessoas. No entanto, sempre hå quem precise de mim como mago.
Como mago e soldado voluntĂĄrio, vivi uma vida da qual posso me orgulhar. Tenho consciĂȘncia disso. Ainda assim, algo estĂĄ estranho.
Decido aprimorar meu Magic Missile. Tenho confiança de que isso serå meu avanço. Ainda estou no meio do caminho. Não, nem isso; pode-se dizer que estou apenas começando.
NĂŁo posso cair ainda. E, no entanto, sinto que algo estĂĄ estranho.
â Viva com força, Itsunaga. Com força…
Minha mĂŁe estĂĄ quase completamente coberta por folhas caĂdas. Eu mesmo as juntei.
Minha mĂŁe parece estar com frio. Ela estĂĄ tremendo. Por isso, penso que preciso aquecĂȘ-la.
Seguro a mĂŁo da minha mĂŁe. Ela aperta minha mĂŁo de volta. Logo, seu aperto enfraquece. Minha mĂŁe sorri.
Minha mãe estå morrendo. Eu sei disso também. Jå vi muitas criaturas morrerem, então sei o que é a morte. Minha mãe estå prestes a morrer e estå me deixando uma mensagem para que viva com força.
Acho que algo estĂĄ estranho. Algo estĂĄ estranho. Seja como for, minha mĂŁe vai morrer. Segurando sua mĂŁo enquanto ela para de se mover, juro a mim mesmo que nunca esquecerei o que as pessoas da aldeia fizeram com ela e comigo.
Minha mãe não expressa nenhuma palavra de reclamação. No entanto, não consigo perdoar as pessoas da aldeia. Simplesmente não posso.
No bolso, guardei a pequena lĂąmina que minha mĂŁe me deu para proteção. Resolvo vingar-me com esta lĂąmina. Se esta pequena lĂąmina nĂŁo alcançar suas gargantas, encontrarei uma lĂąmina mais longa e, com ela, perfurarei seus coraçÔes com um Ășnico golpe.
Se eu contar isso a ela, minha mĂŁe certamente me impedirĂĄ. EntĂŁo, nĂŁo direi nada. Silenciosamente, deixo minha mĂŁe morrer em paz.
Que ela descanse.
Mas acho que algo estĂĄ estranho.
Algo estĂĄ estranho.
Quem sou eu? Sou Itsunaga? Nem mesmo eu sei mais quem sou. NĂŁo por completo.
Nomes mudam. NĂŁo me importo com como sou chamado. Deixo de lado dez nomes, pego cem, e possuo mil.
Diha Gatt. Esse Ă© apenas um dos mil nomes que carrego. No entanto, Ă© um nome bastante antigo. Talvez o mais antigo entre eles.
Eu souâ
Jessie Smith.
Ageha.
Yasuma.
Itsunaga.
Diha Gatt.
Quem sou eu?
O nome nĂŁo importa. Tenho mil nomes. Atravessei milhares de terras.
Sem destino? Acho que algo estĂĄ estranho. Enquanto vago em busca de paisagens desconhecidas, algo estĂĄ estranho em mim.
De pĂ© nos penhascos Ăngremes da enseada, com o vento subindo, olho para o mar onde o verde brilhante se transforma em azul, e depois em tons ainda mais profundos. Inalando o intenso aroma do mar, fecho os olhos.
Contemplo minhas prĂłprias mĂŁos. Minhas mĂŁos, de tonalidade esverdeada. Meus dedos, robustos. Minhas garras, firmes e resistentes.
Eu sou um rato solitĂĄrio.
O Rei dos Ratos.
Eu sou
Je geha hĂĄ tsuna a sie yasu di su ma ie gatt mith ga didididididiha gagagagagagagagagagagagagatt gaitsutsutsutsutsuna gayasususususususususumaa geageagegegegegegegegeagehajessiejejejesiesmismismismismismismismithit hmememememememememememememe merryryryrymemememememememememememe jessiesmithagehayasuma itsunagadihagattratatatatatatatatatat kinginginginging
Eu nĂŁo devo ir mais longe.
Eu estou correndo
Cor ren do
Corr
Nenhum campo
Nenhum céu
Nada
On de Ă© is to?
Ning uém es tå a qui
Es tou soz inha
VocĂȘ nĂŁo estĂĄ sozinha, alguĂ©m diz.
Vårias pessoas dizem isso. Elas se aproximam. Me tocam. Sem hesitação. Violentamente. Forçam sua entrada em mim. Invadem.
Parem. NĂŁo entrem. NĂŁo dentro de mim. NĂŁo. Por favor.
â Mary!
Isso Ă©…
Isso Ă© o meu…
â Mary!
Chamem meu nome.
Chamem mais.
Me prendam.
NĂŁo soltem.
â Mary!
â Mary!
â Mary!
Ah…
E entĂŁo, eu tento abrir os olhos.
Kuzaku entrou na prisĂŁo.
â Mas que droga! â ele gritou para a party. â Aqueles bichos pretendem ficar aqui mesmo depois que escurecer?!
VĂĄrias vezes, mais do que podia contar, Kuzaku tinha saĂdo e voltado assim. Ele devia estar exausto. Sem dĂșvida, estava faminto e sedento. Mesmo assim, nĂŁo conseguia ficar parado.
Era fĂĄcil entender o motivo. Haruhiro sentia o mesmo. Era difĂcil se manter calado sobre aquilo. Mas ele nĂŁo podia se afastar do lado dela.
Yume estava sentada com um joelho levantado perto da entrada quebrada, onde nĂŁo havia mais porta. Embora tivesse uma katana na mĂŁo, seus dedos mal estavam segurando o cabo.
Yume continuava olhando para baixo o tempo todo. Mesmo que ele a chamasse, talvez ela nĂŁo respondesse. Era essa a impressĂŁo que Haruhiro tinha.
Shihoru estava em um estado parecido. Sentada ao lado de Haruhiro, com a cabeça baixa, ela permanecia imóvel.
Os pĂĄssaros continuavam fazendo um barulho terrĂvel. Revezando-se no buraco do teto, mais de dez corvos permaneciam tĂŁo barulhentos quanto antes.
Kuzaku chutou o chĂŁo e depois se agachou. Um momento depois, ele perguntou: â O que vamos fazer?
Haruhiro abriu a boca para dizer algo. Nada saiu.
Ele passou a lĂngua nos lĂĄbios. DoĂam um pouco. Estavam secos e rachados.
No fim, Haruhiro apenas disse: â Nada ainda.
â Certo, entĂŁo.
Kuzaku tentou se levantar. Suas pernas nĂŁo estavam funcionando? Ele acabou caindo.
Quanto a Haruhiro, ele nĂŁo estava apenas observando e sem fazer nada. Foi preciso muita coragem, mas ele verificou o estado de Mary e de Jessie, que havia se transformado em algo como uma boneca de couro fina. E fez isso nĂŁo apenas uma vez, mas vĂĄrias.
Era especialmente assustador tocar em Jessie. NĂŁo havia calor em sua pele, e ela nĂŁo parecia Ășmida, mas tambĂ©m nĂŁo estava completamente seca.
Haruhiro tentou levantar o pulso esquerdo de Jessie. Tinha peso, como deveria. Mas não o peso de um humano. Jessie era apenas pele e ossos agora? Não havia como ele estar vivo, mas também não exalava o cheiro da morte. Isso significava que ele não estava apodrecendo.
Nesse ponto, ela era igual.
Ela havia morrido. Ou deveria ter morrido. Haruhiro estava lĂĄ no momento em que aconteceu.
Mesmo agora, naquele momento, ela não estava viva. Ele havia confirmado isso. Não tinha pulso. Seu coração não batia. A temperatura de seu corpo provavelmente não era muito diferente da temperatura ambiente. Apesar disso, o rigor mortis1 não havia se instalado. Ela não estava se decompondo.
Havia mais uma coisa que ele verificou, jå que lhe chamou atenção.
Nos humanos, enquanto estavam vivos, o coração bombeava sangue constantemente por todo o corpo. Quando o coração parava, naturalmente o fluxo de sangue também cessava. O que acontecia então?
O sangue era afetado pela gravidade. Se uma pessoa estivesse deitada de costas, o sangue se acumulava na parte posterior do corpo. Isso era visĂvel atĂ© mesmo do lado de fora de um cadĂĄver. Era chamado de lividez post-mortem, e a ĂĄrea afetada ficava arroxeada.
Haruhiro tentou levantar a cabeça dela. Para isso, teve que mover Jessie, que mantinha o pulso esquerdo pressionado contra o ferimento no ombro dela. Haruhiro gentilmente desfez o pano que os prendia juntos.
Ele duvidou de seus olhos. Havia um ferimento, como um corte, no pulso esquerdo de Jessie. No entanto, o ombro dela estava limpo.
O ferimento profundo, que poderia muito bem ser considerado o responsĂĄvel por sua morte, havia desaparecido completamente. Nem mesmo os vestĂgios do sangue abundante que deveria ter saĂdo do ferimento de Jessie estavam lĂĄ. AtĂ© o pano, que deveria estar encharcado de sangue, estava seco e nĂŁo particularmente sujo.
Com um gemido, Haruhiro levantou a cabeça dela, afastando o cabelo para olhar a nuca.
Talvez o resultado fosse esperado.
NĂŁo havia sinais de lividez post-mortem ali.
O que exatamente isso significava? Ela não estava viva. No entanto, ele também não podia dizer que estava morta. Não havia como ela permanecer daquele jeito. Alguma mudança precisaria ocorrer.
Que tipo de mudança? Ele não podia prever. Era óbvio. Não havia como ele prever isso.
Haruhiro estava esperançoso de que fosse uma boa mudança. Ao mesmo tempo, estava assustado. Algo inacreditåvel poderia estar prestes a acontecer. Ou talvez jå estivesse acontecendo.
Não importava o tipo de mudança que fosse, ele não tinha escolha a não ser aceitå-la. Mas, no final, seria capaz?
Awuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…
â Whoa! â Kuzaku levantou-se rapidamente.
Yume também olhou para fora.
â Haruhiro-kun… â chamou Shihoru, e Haruhiro assentiu.
Ele nĂŁo tinha esquecido. Jessie os avisara. Quando o sol se pusesse, os vooloos apareceriam.
Yume ficou de joelhos, preparando sua katana. Alguém entrou correndo na prisão. Yume deixou a pessoa passar sem interceptå-la. Não era um dos necrófagos conhecidos como vooloos. Era Setora, carregando um cajado, seguida por Kiichi, o nyaa cinzento.
Setora sequer olhou para Yume ou Kuzaku enquanto corria até Haruhiro.
â Haru!
â Sim â foi tudo o que Haruhiro respondeu.
Setora apoiou o cajado nas grades e parou na frente de Haruhiro, respirando fundo.
Kiichi roçou-se nas pernas de Setora, soltando um miado: nyaa.
â Onde vocĂȘ esteve esse tempo todo? â perguntou Shihoru.
â Procurando, â respondeu Setora de forma seca, tirando um objeto do tamanho de um punho do bolso.
Não era apenas o tamanho. Tinha o formato de um punho cerrado também. Era de metal? Parecia duro e tinha um peso consideråvel. Havia diversos buracos nele, de onde vazava uma luz azulada.
Haruhiro olhou para o objeto. Apenas isso. NĂŁo despertava seu interesse. NĂŁo importava o que fosse, ele simplesmente nĂŁo ligava.
â Isso Ă© um receptĂĄculo de pseudo-alma â explicou Setora, por conta prĂłpria. â A pseudo-alma de Enba estĂĄ aqui dentro. Ă o que se pode chamar de corpo verdadeiro de um golem de carne. O necromante liga uma pseudo-alma a um golem feito costurando corpos mortos. Eu nasci na Casa Shuro, e mexo com cadĂĄveres de pessoas e animais desde que me lembro. Mesmo na aldeia, a Casa Shuro Ă© vista como algo inquietante. Muitas vezes, zombavam de mim, me chamando de fedorenta.
Ela fez uma pausa.
â A verdade Ă© que um necromante raramente lida com corpos apodrecidos. Na verdade, um cadĂĄver meticulosamente lavado Ă© mais limpo e menos fedorento que um humano vivo. AlĂ©m disso, quando usados corretamente, ossos, mĂșsculos, vasos sanguĂneos e ĂłrgĂŁos sĂŁo incrivelmente belos. Ver um golem de carne, feito costurando essas coisas, começar a se mover Ă©, no mĂnimo, emocionante. No entanto, depois que criei Enba, perdi a motivação para criar outro golem. Os necromantes da Casa Shuro criam golems, os destroem e criam novos, repetindo isso ao longo de suas vidas, buscando aperfeiçoar sua arte. Mas eu fiquei satisfeita com Enba. NĂŁo que os outros membros da minha casa tenham entendido isso. Consideravam excĂȘntrico que uma mulher da Casa Shuro criasse nyaas. Parece que sou uma espĂ©cie de esquisita.
Haruhiro acenou vagamente com a cabeça. Em outra situação, talvez ele tivesse ouvido Setora com atenção. Mas agora não. Ele não queria ouvir. Não podia ouvir. Para ser franco, tinha outras preocupaçÔes.
â Haru. â Setora guardou o receptĂĄculo de pseudo-alma de volta no bolso. Kiichi olhou para ela, curioso. â VocĂȘ ama aquela mulher, nĂŁo Ă©?
â O quĂȘ…? â O rosto de Haruhiro se contorceu, e ele perdeu as palavras. Por que ela diria isso, do nada?
Por que aqui? Por que agora?
Awuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…
Os vooloos estavam uivando.
Haruhiro olhou para o buraco no teto. Em algum momento, todos os corvos haviam desaparecido. Ele abaixou o olhar, piscou duas vezes e respirou fundo.
â Ă unilateral â disse ele.
NĂŁo posso mentir, pensou. Isso Ă© a Ășnica coisa que nĂŁo posso fazer.
â SĂŁo sĂł os meus… sentimentos unilaterais, pode-se dizer. Isso nĂŁo Ă© realmente da sua-
â Tudo bem. â Setora se agachou, estendendo a mĂŁo direita e cobrindo a boca de Haruhiro. EntĂŁo, por algum motivo, ela sorriu levemente e disse: â Eu entendo. Mas ouça, Haru.
A mão de Setora tremia. Ela aplicou mais força.
â Os mortos nĂŁo voltam.
Haruhiro nĂŁo conseguiu dizer nada em resposta. NĂŁo porque Setora cobria sua boca. Ele podia facilmente afastĂĄ-la. Haruhiro estava desconfiado.
Estou sonhando? Um sonho onde os mortos voltam Ă vida? Mesmo sabendo que a morte Ă© o fim para as pessoas?
Com aquela Ășnica frase de Setora, seu sonho conveniente se despedaçou, e ele acordou. Era assim que ele se sentia agora.
1 Rigor mortis, ou rigidez cadavĂ©rica, Ă© um sinal de morte que acontece devido a uma alteração quĂmica nos mĂșsculos. Isso faz com que os mĂșsculos do corpo se tornem rĂgidos e difĂceis de mover.

Setora recuou a mĂŁo direita, envolvendo-a com a esquerda e apertando-a firmemente.
â O golem foi, de certa forma, um produto de um compromisso. As pessoas que mais tarde passaram a ser conhecidas como necromantes inicialmente tentavam ressuscitar os mortos. A aquisição de uma relĂquia permitiu que eles criassem pseudo-almas, e continuaram suas tentativas apĂłs a criação do golem. No entanto, nunca tiveram sucesso, nem uma Ășnica vez. A morte Ă© um fenĂŽmeno irreversĂvel. NĂŁo sĂŁo apenas as pessoasânenhum ser vivo pode retornar da morte. Mesmo que aquela mulher volte a respirar, do meu ponto de vista, nĂŁo serĂĄ o tipo de ressurreição que vocĂȘ espera. A mulher que voltar pode ser uma pessoa diferente daquela que morreu. Espero que, pelo menos, ela nĂŁo seja algum tipo de monstro desconhecido.
Haruhiro permaneceu em silĂȘncio.
â Ainda assim, se ela for adoravelmente leal como um golem, jĂĄ Ă© alguma coisa. Mas o que vocĂȘ farĂĄ se ela nĂŁo for?
â O que eu… faria?
â NĂŁo â disse Setora. â NĂŁo hĂĄ nada que vocĂȘ possa fazer. VocĂȘ terĂĄ que reconhecer e aceitar tudo.
â Eu… sei disso.
â Sabe mesmo? Pode dizer com confiança que estĂĄ preparado para isso, Haru?
Se estivesse preparado, ele deveria ter erguido a cabeça e assentido de imediato. Mas não conseguiu.
â Se vocĂȘ nĂŁo conseguir fazer isso… â Setora suavizou o tom e falou em voz baixa. â …entĂŁo hĂĄ algo que vocĂȘ precisa fazer agora.
â Algo… que eu preciso fazer?
â Sim, exatamente. Tenho certeza de que ainda hĂĄ tempo. Perfure a cabeça e o coração daquela mulher com seu estilete. Acabe com isso dessa forma. Se nĂŁo puder fazer isso, eu posso fazer por vocĂȘ. Estou acostumada a carregar o carma ruim dos outros. Posso fazer isso sem hesitação. Farei num instante.
Ainda hå tempo. Serå? Tenho que fazer isso. Eu. Com minhas próprias mãos. Isso, ou deixar que Setora faça. Não, se alguém tiver que fazer, tem que ser eu. Mas serå mesmo necessårio? Não é. Resolução. à isso. Se eu apenas tiver a resolução. Se eu puder dizer que estou bem, não importa o que aconteça.
â Urgh… â Um gemido ecoou.
NĂŁo foi de Haruhiro. Nem de Setora. Tampouco de Shihoru, Yume ou Kuzaku.
Foi de Mary.
Os membros de Mary se estenderam para fora. Não eram apenas os braços e as pernas. Seu pescoço e torso também se arqueavam como um arco.
â Mary…! â Haruhiro jogou-se sobre ela. Sua cabeça logo foi jogada para trĂĄs.
â Uwahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! â ele gritou.
Estava escuro, entĂŁo ele nĂŁo conseguia enxergar bem, mas algo estava saindo da boca de Maryâprovavelmente de outras partes do corpo tambĂ©m. O quĂȘ? O que estava saindo de Mary?
â Ngh… â Haruhiro cobriu a boca instintivamente e prendeu a respiração.
Aquele cheiro.
Sangue?
Poderia ser sangue, talvez? Era semelhante ao cheiro de sangue. NĂŁo, mas era mais cru.
â O que…? â Setora recuou.
â M-Mary-chan?! â Yume gritou.
â Mary-san! â Kuzaku gritou.
â Eek! â Shihoru deixou escapar um gritinho.
O que era aquilo? Que diabos era aquilo? Haruhiro acabou ajoelhando-se com a mĂŁo esquerda no chĂŁo. O sangue, ou o que quer que fosse, ele nĂŁo sabia direito, mas o lĂquido que estava saindo de Mary molhou sua mĂŁo esquerda e depois seus joelhos. Era uma quantidade absurda.
â Aguh, goh, guh, gah, gwuh, gwah, agah, cack, fugagh… â Mary emitia sons bizarros em vez de sua voz enquanto continuava a vomitar a substĂąncia lĂquida.
O que agora? O que eu devo fazer? NĂŁo posso simplesmente ficar parado. Preciso tomar alguma atitude. Tenho que fazer algo. Quero dizer, ela parece estar sofrendo.
â M-Mary…! â Haruhiro deu um passo ousado Ă frente, abraçando Mary pelos ombros. Ele queria parar aquilo. Parar o lĂquido de sair. Mas seria certo fazĂȘ-lo? Ele podia parar? Como?
O lĂquido continuava saindo de dentro de Mary. Ela jĂĄ estava encharcada. Haruhiro tambĂ©m. Suas mĂŁos, braços, pernas, tudo estava coberto. O lĂquido tinha respingado atĂ© mesmo em seu rosto. Provavelmente, aquilo nĂŁo era sangue comum. Ou serĂĄ que era sangue?
Haruhiro pressionou o ombro direito de Mary com sua mĂŁo esquerda, enquanto estendia a direita atĂ© o rosto dela. NĂŁo era sĂł a boca, afinal. Parecia que o lĂquido estava saindo tambĂ©m pelo nariz e pelos olhos. Haruhiro tentou limpar. Era inĂștil. Continuava a sair. SerĂĄ que havia uma fonte inesgotĂĄvel? NĂŁo parava, nem por um instante. Mas ele nĂŁo podia deixar de tentar limpar. Porque nĂŁo era possĂvel simplesmente nĂŁo fazer nada.
â Mary, vocĂȘ consegue me ouvir?! Mary! Sou eu, Haruhiro! Mary!
Ele queria fazer algo, mas nĂŁo podia fazer nada quanto Ă quela substĂąncia lĂquida. Era impossĂvel parar algo que estava jorrando daquela forma.
â Mary! Mary! Mary! â Haruhiro continuava a chamĂĄ-la.
O corpo inteiro de Mary estava rĂgido, e ela podia começar a se debater novamente a qualquer momento. Aquilo devia ser incrivelmente difĂcil para ela. Provavelmente, ela estava sofrendo.
Se ela estava sofrendo, isso significava que estava em um estado em que podia sofrer. Nesse caso, nĂŁo estavam quase lĂĄ? Quase onde, exatamente? Era difĂcil de explicar. Mas, provavelmente, faltava muito pouco.
Haruhiro segurou Mary com força e gritou: â Vai ficar tudo bem! NĂŁo precisa se preocupar! Eu estou aqui! NĂłs estamos aqui! Mary, estamos com vocĂȘ!
Seu corpo estĂĄ aqui, mas talvez vocĂȘ ainda esteja em outro lugar. Um lugar onde minha voz nĂŁo consegue chegar. Talvez vocĂȘ nem consiga ouvir minha fraca voz. Nesse caso, vou continuar gritando atĂ© que chegue atĂ© vocĂȘ. Vou rugir, deixar minha voz ecoar, para que alcance vocĂȘ. Talvez eu nĂŁo consiga pegar sua mĂŁo, onde quer que vocĂȘ esteja, e trazĂȘ-la de volta. Mas, nesse caso, vou gritar o mais alto que puder e puxar vocĂȘ para mim.
â Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Mary. Maryyy. Maryyyyyy!
Haruhiro apertou Mary com mais força. Tentou gritar seu nome mais uma vez. Sua voz jå estava rouca hå muito tempo. Ele não se importava se arruinasse a própria garganta. Ele a chamaria pelo nome pelo tempo que fosse necessårio.
Mary inalou. AtĂ© aquele momento, tudo o que ela tinha feito era expelir a substĂąncia lĂquida.
Ela começou a tossir.
â Ha… ru?
Em meio a uma série de tosses, Haruhiro teve certeza de que ouviu Mary dizer isso.
EntĂŁo ela conseguiu murmurar: â Haru. Era vocĂȘ, Haru?
O que Mary estava pensando que Haruhiro era? Haruhiro nĂŁo sabia. Mas nĂŁo importava.
â Sim! Sou eu, Mary. Haruhiro. VocĂȘ me conhece. Consegue me ouvir, certo? Mary, vocĂȘ voltou. Mary! Mary…!
Mary assentiu. Parecia que as tosses estavam diminuindo. Sua respiração ainda era extremamente irregular. Mesmo assim, Mary havia demonstrado estar consciente. Claramente, de uma forma que nĂŁo deixava dĂșvidas. Mary havia chamado pelo nome de Haruhiro. Ela entendia o que Haruhiro estava dizendo.
O que isso significava…?
Isso Ă© inacreditĂĄvel.
NĂŁo, eu posso acreditar.
Que palavras podem expressar esse sentimento? âConseguimosâ? âGraças a Deusâ? Devo dizer, âBem-vinda de voltaâ? âEstava esperando por vocĂȘâ? âObrigado por voltar para nĂłsâ? âEu senti sua faltaâ? Todas essas sĂŁo verdadeiras, mas, mesmo se eu dissesse todas, nĂŁo seriam suficientes. Mas, se Mary estĂĄ conosco, isso Ă© mais que suficiente.
Awuuuuuu! Awuuu! Awuuuuuu! Awuuuuuu! Awuuuuuuuuuu!
â Haruhiro! â Kuzaku gritou. â SĂŁo aqueles vooloos!
â Vooloos â disse Mary claramente. Ela tentou se levantar.
Haruhiro imediatamente tentou impedi-la.
â Mary, ainda nĂŁo-
â NĂŁo Ă© hora de dizer isso.
Ela estava absolutamente certa. NĂŁo era hora de dizer que ela nĂŁo estava pronta ainda. Haruhiro ajudou Mary a se levantar.
Mary tentou andar, mas cambaleou. Seu cajado estava encostado nas grades prĂłximas.
Mary pegou-o em mĂŁos.
â Para o equipamento â murmurou, entĂŁo soltou um gemido baixo e balançou a cabeça. â Seria Ăștil ter um escudo. Um arco e flechas tambĂ©m. Eles devem estar no depĂłsito…
â Mary…?
â Precisamos nos apressar.
Mary se agachou, mexendo no corpo de Jessie, que nĂŁo era tanto um cadĂĄver quanto uma casca abandonada. O que exatamente ela estava fazendo? Antes que ele pudesse perguntar, Mary se levantou.
â Vou mostrar o depĂłsito pra vocĂȘs. Ă bem perto. Venham comigo.
â Er… Uh, tĂĄ bom.
Haruhiro tinha algumas dĂșvidas, mas as colocou de lado. NĂŁo era hora de questionĂĄ-las.
Setora e Kiichi estavam perto da entrada, assim como Yume e Shihoru.
Kuzaku estava do lado de fora, um pouco afastado. Sua grande katana brilhava com uma luz branca. Ele deve ter usado o feitiço Saber de magia de luz nela.
Awuuuuuuuu! Awuuuu! Awuuu! Awuuuuuuuuu!
Eles estavam perto. Os uivos dos vooloos ecoavam.
â Ă enorme! â gritou Kuzaku.
Ele estava falando de um vooloo? Onde estavam? Haruhiro ainda nĂŁo conseguia vĂȘ-los.
â Ă Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ. Protection.
Mary usou magia de luz. Um hexagrama brilhante surgiu no pulso esquerdo de Haruhiro e de todos os outros.
â Hahhhhh! â Kuzaku brandiu sua grande katana. Um clarĂŁo branco surgiu e…
Foi sĂł um vislumbre, mas acho que vi um. Um vooloo. Ă isso? Mas sĂ©rio, isso nĂŁo Ă© grande demais…?
â Kuza… â Haruhiro começou a falar.
â Whoa…?!
A sombra do que parecia ser um vooloo engoliu Kuzaku. Não, ele havia pulado sobre Kuzaku e o derrubado? Haruhiro não conseguia dar um passo sequer. Yume, Shihoru e Setora também estavam paralisadas.
A Ășnica que se moveu foi Mary. Deixando Haruhiro e os outros para trĂĄs, ela avançou.
â Ă Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ… â Mary lançou uma luz ofuscante em direção ao vooloo que estava sobre Kuzaku. â Blame!
A criatura soltou um grito, todo o seu corpo tremeu e, embora tenha sido apenas por um instante, dessa vez eles conseguiram vĂȘ-la claramente.
Era coberta de pelos, provavelmente de uma cor escura. Marrom-escuro, cinza-escuro ou algo assim. Era um lobo necrĂłfago.
Um lobo? Haruhiro pensou, incrédulo. Como isso é um lobo? Em que parte? Lobos não são tão grandes, certo? Eles são mais esguios, não são? Isso aà é sólido demais. Mas parece que o formato da cabeça é parecido com o de um cachorro. Parece um lobo. Mas, no geral, då uma impressão bem diferente. Aquilo parece mais com um urso.
No momento em que a palavra âursoâ veio Ă mente, ele se lembrou. Jessie tinha falado sobre eles.
âA leste das Montanhas Kuaron, hĂĄ vooloos maiores que as panteras da nĂ©voa do Vale dos Mil. Eles tĂȘm o tamanho de ursosâ ele havia dito.
Ursos.
Era isso. Ele tinha mencionado ursos!
â Gwahhryahh! â Kuzaku empurrou o vooloo para longe, saindo debaixo dele. Quase ao mesmo tempo, talvez um pouco antes ou logo depois, Mary girou e acertou a cara do vooloo com seu cajado. Parecia que isso deixou o vooloo desorientado.
Mary gritou: â Haru!
E saiu correndo. Ela estava indo para o tal depĂłsito?
â Estamos indo! â Haruhiro disse, mas logo pensou: Isso Ă© ruim. Eu nĂŁo estou tomando decisĂ”es por mim mesmo. Estou sĂł seguindo o fluxo. Qual Ă© o sentido de eu sequer existir? NĂŁo, minha razĂŁo de existir nĂŁo importa agora.
â Ahhh, droga! â gritou Kuzaku. â Obrigado, Mary-san! Ainda bem que vocĂȘ tĂĄ bem! Zahhhhhh! â Ele acertou o vooloo com sua grande katana e entĂŁo virou-se e correu.
â Corram, pessoal! Corram! â Haruhiro gesticulou, apressando-os.
Setora e Kiichi, Yume, Shihoru e, por Ășltimo, Kuzaku seguiram Mary. Haruhiro veio logo atrĂĄs de Kuzaku.
Os vooloos estavam vindo.
Awuuuuuuuuu! Awuuu! Awuuuuuuuu! Awuuu! Awuuuuuuuuu!
Os uivos dos vooloos ecoavam por toda parte. Quantos deles havia? Muitos. Como podia haver vĂĄrios daquelas coisas enormes, parecidas com ursos? NĂŁo, antes de se preocupar com os outros vooloos, ele tinha que se preocupar com aquele de antes.
Fweh, hah, hoh, hah, hah, hahh, hah, hahh.
Haruhiro ouvia sua respiração se aproximando. O vooloo de antes estava avançando em disparada. Ele os alcançaria. Estava vindo para atacar.
â Khhh…! â Haruhiro soltou uma exclamação estranha enquanto saltava para o lado, rolava e se levantava novamente.
Por pouco! Suas garras, ou algo do tipo, quase o acertaram!
O vooloo soltou um grunhido insatisfeito, curvando seu enorme corpo como se estivesse se preparando para algo. Estaria?
Oh, merda, merda, merda!
Haruhiro correu. Correu o mais rĂĄpido que podia. Mas sentia que nĂŁo tinha chances de superar aquilo em velocidade.
Olha sĂł. TĂĄ vendo? O vooloo jĂĄ tĂĄ bem perto.
Era escuro, entĂŁo ele nĂŁo conseguia enxergĂĄ-lo bem. Mas seus olhos brilhavam.
EstĂĄ perto. Ă rĂĄpido, rĂĄpido demais. Vai me pegar.
â Whaa…! â
Ele tentou escapar de alguma forma. SerĂĄ que nĂŁo conseguiu a tempo? Quando percebeu, estava sendo esmagado. Um cheiro intenso de animal o envolvia. Ele nĂŁo conseguia respirar. Seria devorado? Engolido?
â Toma issoooo…! â gritou Kuzaku.
SerĂĄ que Kuzaku tinha voltado para atacar o vooloo que tentava comer Haruhiro?
O vooloo soltou um ganido, mas nĂŁo soltou Haruhiro.
â Ei, vocĂȘ! â gritou Kuzaku, desferindo outro golpe no vooloo. â O que acha que estĂĄ fazendo com o Haruhiro? Sai de cima dele! Eu vou te matar! Morre, seu urso desgraçado! â Ele golpeava repetidamente com sua grande katana.
NĂŁo, acho que essa coisa nĂŁo Ă© um urso, refletiu Haruhiro. Ou Ă© um urso? Isso importa?
Finalmente, o vooloo saiu de cima de Haruhiro.
Imediatamente, Kuzaku puxou Haruhiro e o ajudou a se levantar.
â Haruhiro, vocĂȘ tĂĄ bem?!
â Ă… de algum jeito…
â Isso tĂĄ ruim. NĂŁo consigo cortar essa coisa. O pelo dele Ă© meioâOh…?!
Kuzaku foi arremessado para trås. O vooloo tinha investido novamente. No entanto, Kuzaku instintivamente se defendeu com sua grande katana. Ele conseguiu firmar os pés e não ser derrubado.
Awuuuuuu! O vooloo estava prestes a pular em Kuzaku.
Haruhiro sacou seu estilete. Ele nem sequer tinha preparado uma arma até agora.
O que diabos eu estou fazendo?
Ele se lançou contra o vooloo, que estava prestes a investir contra Kuzaku novamente, agarrando-o e cravando o estilete nele. Ele o esfaqueava repetidamente, definitivamente tentando esfaquear com todas as suas forças. O vooloo se contorcia porque nĂŁo gostava disso, mas… isso nĂŁo estava funcionando, estava?
O pelo. Aquele pelo oleoso e resistente era o culpado. O pelo emaranhado nĂŁo era tĂŁo duro, mas era denso e formado em camadas, como uma espĂ©cie de almofada. Com algo tĂŁo curto quanto o estilete, Haruhiro podia enfiĂĄ-lo atĂ© o cabo, e, no mĂĄximo, ele apenas perfuraria aquela âalmofadaâ de pelos.
Isso era ainda mais complicado que a pele semelhante a uma carapaça do guorella. Se fosse para fazer isso da maneira certa, teria que mirar nos olhos ou algo assim?
O vooloo soltou um uivo enquanto levantava a parte superior do corpo. Estava de pé sobre as patas traseiras.
â Ah?! â Haruhiro gritou.
Serå que essa coisa não é mesmo um lobo e, na verdade, é um urso? Quero dizer, quando estå de pé, é realmente enorme!
â Whoa?! Ohhhh?! â Kuzaku parecia surpreso.
Haruhiro se agarrou desesperadamente às costas do vooloo. Mas o vooloo uivava e balançava seu corpo violentamente, e ele não conseguia aguentar.
Isso Ă© ruim.
Eu nĂŁo consigo.
Eu não tenho força.
Ele foi lançado longe, atingindo, em vez do chão, a parede de uma construção. A parede não conseguiu segurå-lo, então ele atravessou direto.
â Ungh… Guh…
HĂŁ?
EstĂĄ… claro?
â Kyaa! â Aquela era… a voz de Yume?
Haruhiro estava de costas no chão. Ele tinha batido a cabeça com força ao atravessar a parede, aparentemente. Por isso, estava um pouco tonto.
Olhando ao redor, ele finalmente viu Yume. E Shihoru também. Além de Setora e Kiichi.
Oh, então era isso. O depósito. Esse era o depósito. Isso fazia sentido. Por isso as luzes estavam acesas. Por isso Yume estava ali, Shihoru estava ali, Setora estava ali, Kiichi estava ali e, claro, Mary também estava.
â …HĂŁ?
Que estranho.
Por algum motivo, parecia que Mary nĂŁo estava vestindo nada.
O que era isso? Uma ilusĂŁo? Tinha que ser. Afinal, nĂŁo havia motivo para ela estar nua ali.
â Haru…!
Mary veio voando em sua direção, não literalmente, é claro. Isso era óbvio. Mary não podia voar. Mas ela foi råpida.
Quando Mary, nua, o abraçou, Haruhiro pensou que talvez aquilo fosse o paraĂso. NĂŁo, provavelmente nĂŁo. NĂŁo existia um paraĂso, certo? Mas, nesse caso, isso era a realidade…?
â Ei, vocĂȘ! â Setora jogou um casaco azul para Mary. â Vista isso, pelo menos!
â Ah…! â Com a cabeça de Haruhiro ainda em seu colo, Mary pegou a peça de roupa e cobriu os seios. â E-Eu estava… hum, minhas roupas molharam, entĂŁo eu estava trocando…
â O-Oh… â Haruhiro fechou os olhos com força. â …Certo. Eu nĂŁo vou olhar. De jeito nenhum.
â Miau! Kuzakkun tĂĄ em apuros! â gritou Yume.
â Precisamos ajudĂĄ-lo! â exclamou Shihoru.
Yume e Shihoru estavam fazendo um alvoroço por algum motivo. Não, não era por qualquer motivo. Kuzaku estava enfrentando um vooloo sozinho. E eu? O que estou fazendo? à aceitåvel usar o colo de Mary como travesseiro enquanto ela troca de roupa? Não, não é, certo?
â Hum, Haru, jĂĄ vesti a parte de cima, entĂŁo…
â Oh, ohh…
Haruhiro abriu os olhos e se levantou apressadamente. Olhou de relance para Mary.
Mary estava no meio de se levantar. Ela vestia o casaco azul, como deveria. Mas suas pernas estavam nuas. Ela disse que tinha coberto a parte de cima. E a parte de baixo…?
Ele balançou a cabeça. Mesmo que ela estivesse sem nada na parte de baixo, o que importava? Além disso, se ela tinha roupas para trocar, era óbvio que iria querer se trocar. As roupas anteriores estavam completamente arruinadas. Honestamente, Haruhiro também queria se trocar.
Yume estava com um arco, com uma aljava cheia de flechas pendurada no ombro. Setora carregava uma lança e um escudo quadrado.
Shihoru também segurava um escudo, mas não para ela mesma, então provavelmente era para entregå-lo a Kuzaku.
Observando melhor, por menor que fosse, aquele lugar era definitivamente um depósito. As prateleiras estavam cheias de espadas e lanças, e vårios escudos estavam encostados nas paredes.
Havia arcos. Havia flechas. Uma prateleira com tecidos e peças de roupa. Não dava para saber o que havia dentro, mas também havia potes. Não eram apenas as lamparinas penduradas nas vigas; havia outras coisas que ele não conseguia identificar de imediato.
Haruhiro olhou involuntariamente na direção de Mary. Imediatamente desviou o olhar. Mary estava agachada, mexendo dentro do casaco. Provavelmente estava colocando alguma roupa.
â Nuwah! Zwah! Seahhhh! â Kuzaku lutava contra o vooloo sozinho.
â C-Certo! â Haruhiro voltou Ă realidade, mas antes que pudesse dar qualquer ordem…
â O escudo! â gritou Setora, correndo atĂ© Shihoru.
â Certo…! â Shihoru reagiu bem, saindo pelo buraco que Haruhiro havia aberto na parede. Yume a seguiu.
Haruhiro deu um tapa na bochecha esquerda com a mĂŁo esquerda. Concentre-se, ele disse a si mesmo. Seguiu Yume. Setora trouxe Kiichi e veio junto.
Quando olhou, Shihoru acabava de gritar: â Kuzaku-kun…! â e jogar o escudo. O escudo rolou atĂ© os pĂ©s de Kuzaku. Ele olhou de relance para ele, mas sĂł isso. Parecia que nĂŁo tinha tempo para pegĂĄ-lo.
Kuzaku avançou contra o vooloo, gritando e brandindo sua grande katana. A lùmina atingiu o ombro esquerdo do vooloo, mas não conseguiu cortå-lo, como era esperado.
Kuzaku recuou a grande katana.
â Keeahh…!
Ele a desceu com força. A lùmina atingiu a cabeça do vooloo, mas a criatura apenas cambaleou e recuou. A espessa pelagem era algo assustador. Como lidar com isso?
â Idiota, nĂŁo corte! Estoque! â gritou Setora.
Ela não apenas gritou. Correu na direção do vooloo. Com a lança estendida, cravou-a em sua garganta. Incrivelmente, a lança penetrou.
Sem hesitar, Setora soltou a lança e recuou.
â Vai logo, seu idiota!
â Rarrrghhhh!
Kuzaku investiu contra o vooloo. Quando ele entrava no modo de combate, liberando todos os seus instintos de uma vez, ficava violento a ponto de assustar. E foi exatamente assim agora.
Kuzaku colidiu com todo o corpo contra o vooloo. Sua grande katana penetrou fundo no peito da criatura. Surpreendentemente, nesse momento, Setora jĂĄ havia voltado ao depĂłsito.
â Haru! â Ao ouvir seu nome e se virar, uma lança vinha voando em sua direção.
Por quĂȘ? Haruhiro se perguntou, mas instintivamente a pegou.
â VocĂȘ tambĂ©m, caçadora! â Setora jogou outra lança para Yume e pegou uma para si mesma. â Vamos lĂĄ!
Mesmo pensando: Sou um idiota, indeciso, incompetente, inĂștil e sem esperança, Haruhiro guardou seu estilete e empunhou a lança.
Provavelmente ele nunca tinha usado uma lança antes. Mas e da�
â Recuando! â gritou Kuzaku, enquanto Setora e Yume avançavam, cada uma tentando chegar primeiro.
O golpe que Kuzaku havia desferido foi especialmente eficaz. O vooloo estava completamente na defensiva.
Dizer que as lanças de Haruhiro, Setora e Yume iriam empalĂĄ-lo seria um exagero, mas as trĂȘs lanças o perfuraram com precisĂŁo. O vooloo se arqueou de dor, mas torceu o corpo antes de cair de costas, acabando por tombar de lado. Talvez quisesse se levantar, mas parecia que as quatro lanças e a grande katana de Kuzaku, cravadas em sua garganta, peito e outras partes, estavam atrapalhando.
â Saiam da frente! â gritou Kuzaku, que havia recuado temporariamente, antes de avançar no vooloo em um frenesi. Ele arrancou sua katana e, imediatamente, a cravou novamente.
Ele o perfurou na boca. Kuzaku enfiou a grande katana na boca do vooloo e nĂŁo parou por aĂ.
â Nuwohhhhh! â Ele torceu a katana com força bruta, puxando-a para cima. A grande katana cortou a cabeça do vooloo de dentro para fora. Por mais resistente que a criatura fosse, aquilo tinha que ser um golpe fatal.
Haruhiro sentiu alĂvio. Mas, como se o repreendesse por ser ingĂȘnuo, Setora deu uma ordem ao nyaa cinza.
â Kiichi!
Ele estava mesmo sendo ingĂȘnuo. TĂŁo ingĂȘnuo que teve que se perguntar o que tinha acontecido com ele. Ainda havia vooloos uivando por toda parte, nĂŁo havia? Isso estava longe de acabar. Eles ainda nĂŁo tinham superado a situação. Se ainda nĂŁo tinham saĂdo dessa, por que estava se sentindo aliviado?
Mary saiu do deposito, com seu cajado em uma mĂŁo e uma lamparina na outra. Aquele casaco azul, que nĂŁo parecia nem um pouco sacerdotal, era um visual completamente novo para ela, e Haruhiro nĂŁo conseguia tirar os olhos dela.
Ele sĂł podia se exasperar consigo mesmo por isso. Algo estava seriamente errado com ele. NĂŁo estava conseguindo fazer nada do que um lĂder deveria. NĂŁo era Setora quem estava agindo muito mais como lĂder? SerĂĄ que ele estava em uma crise ou algo assim? Era isso?
NĂŁo, como poderia chamar isso de crise? Ele nunca foi talhado para ser lĂder desde o inĂcio. Nunca, nem uma vez, tinha sido um bom lĂder. Ainda assim, nĂŁo teve escolha a nĂŁo ser assumir o papel, entĂŁo fez o que pĂŽde, do jeito que conseguiu, nĂŁo foi?
Se fosse chamar isso de crise, ele estava em uma crise perpétua. Era normal estar em crise, e ele nunca conseguiria sair disso pelo resto da vida.
Ele era lento, mas tinha que pensar.
Setora tinha dado uma ordem a Kiichi. Parecia que Kiichi tinha ido procurar uma rota de fuga para eles.
Mary estava carregando uma lamparina. Serå que aquilo era seguro? A luz parecia chamar a atenção. Mas os vooloos eram noturnos, certo? Eles podiam enxergar no escuro. Se a party não pudesse enxergar, estaria em desvantagem. Melhor ter a luz.
De qualquer forma, por enquanto, precisavam correr. Sair dali.
Era um lĂder pouco inspirador, e havia muito mais coisas que ele nĂŁo sabia ou nĂŁo conseguia fazer do que o contrĂĄrio, mas nĂŁo podia se queixar disso, e como nĂŁo podia sair dessa sozinho, sim, teria que contar com a força de todos os outros.
â Setora! Para onde devemos ir?! â gritou.
â Espere. â Setora fez um som agudo com os dentes. Ela fechou os olhos, girando a cabeça.
Foi sutil, mas havia um leve âNyaaâ.
De que direção tinha vindo? Haruhiro não conseguia decidir. Parecia que Setora tinha ouvido. Ela abriu os olhos, apontando para a esquerda.
â Por aqui, por enquanto. NĂŁo posso garantir que Ă© seguro, mas…
â Serve. Kuzaku, vĂĄ na frente!
â TĂĄ! â Kuzaku pegou o escudo e assentiu.
â Setora, fique ao meu lado e dĂȘ as direçÔes.
â Entendido.
â Yume, fique na retaguarda.
â Miau!
â Mary, vocĂȘ… â Ele quase engasgou com as palavras. Sentiu que poderia chorar. De que adiantaria? Ele sĂł precisava fazer como sempre. Pensar que ainda conseguia dizer o de sempre a Mary era algo bom. â Proteja a Shihoru e fique na frente da Yume!
Sem perder o ritmo, Mary respondeu: â Entendido!
â Shihoru, economize sua magia â acrescentou Haruhiro. â NĂŁo sabemos o que estĂĄ lĂĄ fora.
Sua voz estava quase chorosa.
â Certo! â Shihoru respondeu rapidamente, com a voz chorosa tambĂ©m.
â Certo, vamos lĂĄ!
Haruhiro e a party começaram a correr.
Ele podia ouvir os uivos dos vooloos. Sentia-os se movendo ao redor, mas quantos eram e onde estavam? Ele nĂŁo fazia a menor ideia.
Setora frequentemente dizia: âPor aqui!â ou âPor ali!â indicando as direçÔes. Haruhiro apenas as seguia, embora sentisse como se todo o seu corpo estivesse sendo rasgado por uma sensação de impotĂȘncia. Aceitar que sempre fora assim nĂŁo fazia essa sensação desaparecer, mas ele conseguia suportar.
Olhando para trĂĄs, nĂŁo era como se nunca tivessem tido momentos em que tudo parecia estar indo bem. Eles aconteciam de vez em quando. Mas, na maior parte do tempo, as coisas nĂŁo saĂam como esperado.
Mesmo quando obtinha resultados, nunca era um placar perfeito, de cem pontos em cem. Sempre pensava: Eu devia ter feito isso, ou Eu devia ter feito daquele jeito, mas simplesmente nĂŁo consigo. Ele sabia que precisava corrigir suas falhas, mas, ao mesmo tempo, achava cansativo fazer isso e acabava nĂŁo se comprometendo.
A pontuação que ele dava a si mesmo estava sempre abaixo de cinquenta pontos. Quarenta e sete ou quarenta e oito, talvez.
â Parece que conseguimos uma saĂda! â gritou Setora.
Ă agora que preciso me recompor de verdade, pensou Haruhiro.
â Cara, tem alguma graça viver assim? â Ele pensou ouvir a voz daquele idiota do Ranta, e isso o deixou enjoado.
Se vocĂȘ estĂĄ perguntando se Ă© divertido ou nĂŁo, nĂŁo Ă© como se fosse incrivelmente divertido nem nada disso, respondeu ele mentalmente. Mas, acredite, Ă© atĂ© um pouco divertido. NĂŁo que vocĂȘ fosse entender, Ranta. Quando vocĂȘ vive como eu, nĂŁo hĂĄ altos e baixos intensos. Em vez disso, vocĂȘ fica bem feliz ou triste com pequenas coisas. Se alguĂ©m quiser chamar isso de uma vida entediante, tudo bem. NĂŁo posso evitar. Este sou eu. SĂł consigo viver como eu mesmo.
Parecia que ele havia voltado ao seu estado normal. Por causa do que aconteceu com Mary, ele havia perdido a compostura de uma forma atĂpica. Apesar disso, Mary havia retornado de alguma forma, e Kuzaku, Yume, Shihoru, Setora e Kiichi estavam todos bem tambĂ©m. Ele provavelmente devia considerar isso sorte.
Porque Haruhiro, mesmo sendo o lĂder com todos os seus defeitos, tinha sido inĂștil. Dado isso, nĂŁo seria estranho se tudo tivesse acabado em um desastre ainda maior.
Ele estava bem com uma pontuação de cinquenta em cem. Até mesmo algo na casa dos quarenta não era ruim. Procurar por sessenta seria pedir demais. Ele faria o melhor para evitar pontuar menos de quarenta. Ele mesmo era algo como um cinquenta, mas queria fazer com que todos alcançassem sessenta, talvez até setenta.
De alguma forma, ele queria transformar a party em um sessenta ou mais. Ele daria o que fosse possĂvel para que isso acontecesse. Esse era o trabalho de Haruhiro como lĂder.
Saiba o seu lugar. NĂŁo se esforce alĂ©m do que pode. Se perder o equilĂbrio por causa disso, serĂĄ contraproducente. Apenas mantenha a calma por agora. Olhe. Escute. Sinta. Use tudo o que puder. Especialmente a cabeça. Mesmo que seja repetitivo e nĂŁo haja progresso, nĂŁo perca o interesse. Continue fazendo, sem se cansar. HĂĄ algo mais importante do que seguir em frente passo a passo sozinho. Mova seus companheiros adiante. Acho que seria bom ter ambiçÔes maiores, como âQuero fazer algo grandiosoâ ou âQuero que as pessoas pensem que sou incrĂvel,â mas no fim, eu mal tenho algo assim. Desejos como âQuero ver novos horizontesâ ou âQuero ascender e olhar para a distĂąnciaâ nĂŁo tĂȘm nada a ver comigo.
Mas, pelos meus companheiros, posso me esforçar razoavelmente.
NĂŁo odeio isso em mim. Dou o meu melhor pelos meus companheiros. Isso Ă© o meu nĂșcleo. Se eu perder isso de vista, nĂŁo consigo continuar caminhando. NĂŁo, nĂŁo consigo nem me manter de pĂ©.
Eles saĂram da aldeia, reencontrando Kiichi assim que chegaram aos campos.
Awuuuuu! Awuuu! Awuuuuu! Awuuuuu!
Os uivos dos vooloos vinham de trĂĄs deles… ou pelo menos era isso que Haruhiro achava, mas ele nĂŁo tinha certeza. Se fosse verdade, talvez conseguissem fugir assim. Ele realmente esperava que fosse o caso.
â Kiichi! â Setora chamou o nyaa novamente.
Kiichi correu Ă frente de Haruhiro e da party. Se houvesse vooloos por perto, ele os alertaria.
â Ainda consigo matar mais um ou dois! â Kuzaku estava ofegante, mas sua voz soava firme.
â Mary, apague a lamparina! â gritou Haruhiro.
â Entendido! â respondeu Mary, apagando a lamparina.
Os vooloos tinham uma excelente visĂŁo noturna. Manter uma lamparina acesa no meio do campo era como anunciar que sua presa estava bem ali.
Havia muitas nuvens no céu, nenhuma lua e poucas estrelas. A escuridão era sufocante. Mesmo assim, depois que seus olhos se ajustaram, Haruhiro conseguiu distinguir vagamente as silhuetas de seus companheiros ao lado dele.
Os uivos dos vooloos nĂŁo estavam prĂłximos. Eles tinham se afastado… ou era o que parecia.
â SĂŁo necrĂłfagos, afinal de contas… â murmurou Setora.
Ela devia estar falando dos vooloos. Eles não se interessavam muito por presas vivas como a party, então talvez não estivessem tão focados neles. Idealmente, essa seria a situação. Mas isso era apenas uma esperança, e eles não podiam baixar a guarda.
â Yume acha que nĂŁo tem mais nenhum por aqui!
Se Yume sentia isso, talvez fosse verdade. Mas nĂŁo, eles nĂŁo podiam relaxar.
Mantenham a cautela. Até o ponto de serem covardes, se for necessårio.
â Shihoru?! VocĂȘ estĂĄ bem?! â Haruhiro virou-se para perguntar, mesmo sem conseguir enxergĂĄ-la direito.
â Estou bem ainda! â respondeu Shihoru.
Imediatamente, Mary acrescentou: â EstĂĄ tudo bem!
Se Shihoru estivesse se forçando além do limite, Mary teria interrompido em vez de dizer que estava tudo bem.
Setora soltou uma risada curta e irĂŽnica.
â VocĂȘs…
â Huh? O quĂȘ? â perguntou Haruhiro.
â Nada â disse Setora, balançando a cabeça.
Os passos de Kuzaku eram pesados. Ele parecia estar tendo bastante dificuldade. Era um pouco tarde para perceber, mas Kuzaku devia estar sofrendo desde o inĂcio. Haruhiro queria deixĂĄ-lo descansar, mas ainda nĂŁo era o momento. Mesmo que fosse necessĂĄrio dar um tempo mais tarde, agora nĂŁo era a hora. PorĂ©m, seria um problema se ele desabasse ali.
â Vamos diminuir o ritmo â disse Haruhiro.
â Beleza! â Kuzaku parou de correr e começou a caminhar com passadas largas.
Os uivos dos vooloos estavam bem distantes agora. SerĂĄ que conseguiriam escapar?
Haruhiro soltou um suspiro profundo. Sempre que havia uma folga, ele tentava relaxar. Essa fragilidade era seu maior inimigo.
Ele era seu prĂłprio maior inimigo. Era irĂŽnico que, quando o adversĂĄrio era ele mesmo, ele se tornava assustadoramente perigoso.
Quase pensou em Ranta, mas afastou a ideia. Por que pensaria nele? NĂŁo eram mais companheiros. Mas…
Talvez eu nĂŁo ache isso? NĂŁo acredito que ele tenha nos traĂdo completamente.
Esqueça. Posso dizer, no mĂnimo, que pensar nisso agora nĂŁo vai ajudar em nada.
Quero descansar. Honestamente, do fundo do coração, sĂł quero relaxar. Comer algo gostoso e dormir profundamente. Por apenas um dia, nĂŁo, atĂ© mesmo por meio dia, quero passar o tempo assim. Ă um luxo incrĂvel. Sei disso. Tenho que colocar de lado atĂ© mesmo esse sonho, por enquanto.
â Kuzaku â chamou Haruhiro.
â Oi.
â Setora.
â Sim.
â Shihoru.
â …Certo.
â Mary.
â Aqui.
â Yume.
â Miau.
â Certo â disse Haruhiro, aliviado.
Estou cansado?
NĂŁo adianta fingir. Estou cansado. Ă melhor estar ciente disso. Mas consigo continuar.
Quanto tempo mais temos que caminhar? Até amanhecer? Serå que aguento até lå?
Preciso calcular, prever, planejar. Ă difĂcil fazer previsĂ”es precisas. Mesmo assim, agir sem nenhum planejamento Ă© o pior que posso fazer.
â Estamos indo para o leste, mais ou menos…? â perguntou Haruhiro.
â Indo para o nordeste. Talvez um pouco mais para o leste do que para o norte, nĂ©? â respondeu Yume.
De qualquer forma, eventualmente acabaremos entrando nas montanhas. Seria melhor descansar pelo menos uma vez antes disso. As chances são boas de que não haja vooloos por aqui. Vamos descansar. Devo dizer isso agora, antecipadamente? Seria ruim perdermos o foco, então talvez seja melhor esperar até o momento certo.
UnaAAAAAAAAAAAAooOOOO!
Um grito repentino, que parecia vir de Kiichi, ecoou. Setora saiu correndo.
Parecia que algo inesperado tinha acontecido.
Haruhiro, por reflexo, gritou: â Setora, espere! â tentando detĂȘ-la.
Setora nĂŁo parou. Ela jĂĄ estava fora de vista. NĂŁo podia deixĂĄ-la assim.
â NĂŁo se precipitem! Preparem-se e avancem! â Haruhiro sacou seu estilete, passou por Kuzaku e correu atrĂĄs de Setora. Logo percebeu que havia algo Ă frente. Ele nĂŁo exatamente viu, mas sentiu. A princĂpio, parecia que o chĂŁo se erguia, como se fosse uma pequena colina.
Gyaa! Gyaa! Gyaaaaaaa!
Kiichi estava uivando. Era um som assustador, como o que gatos fazem quando estĂŁo brigando.
A colina se moveuâou, pelo menos, parecia ter se movido.
â Kiichi, volte! â gritou Setora.
â Haruhiro?! O que Ă© isso? â Kuzaku se aproximou dele.
Haruhiro havia parado em algum momento.
â NĂŁo sei, mas…
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Um som grave e profundo, como um tremor vindo da terra, se aproximava. Ele não fazia ideia do que era, mas havia uma certeza. Mesmo sem lógica nenhuma, sabia de uma coisa com absoluta convicção: aquilo era perigoso.
â Uau! Ohhhh! â Yume, com seus bons olhos, talvez pudesse ver algo que Haruhiro nĂŁo conseguia.
â Magi…! â foi tudo o que Shihoru conseguiu dizer. Ela queria falar algo sobre magia?
â Isso Ă©…
O silĂȘncio de Mary parecia ter um peso maior. Por que Haruhiro sentia isso?
â Eu nĂŁo sei o que Ă© exatamente â murmurou Kuzaku. â Mas nĂŁo tem como existir algo assim no mundo de onde vim. SĂ©rio, Grimgar Ă© tĂŁo-
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Estava chegando. O que era? Haruhiro nĂŁo sabia. Como poderia lidar com isso se nem sabia o que era? NĂŁo tinha como saber. Mas precisava fazer alguma coisa. Era horrĂvel. Por mais que nĂŁo sentisse o mesmo que Kuzaku, estava cansado das surpresas de Grimgar. Cansado ou nĂŁo, Haruhiro e os outros estavam vivos. Eles estavam vivendo ali. Em Grimgar.
A imagem de Mary, de olhos fechados, imóvel, passou por sua mente. Isso foi o suficiente para partir seu coração em pedaços. Ele nunca queria passar por aquilo de novo.
â Recuem! â Haruhiro começou a se mover para trĂĄs enquanto levantava a voz. â NĂŁo se separem!
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
O que era aquilo? Algo estava vindo. Isso era claro. Mas o quĂȘ? Se ao menos tivesse uma pista…
â Dark…! â Shihoru convocou o elemental Dark.
Yume prendeu a respiração e disparou uma flecha. Acertou? Ou não?
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Mary disse algo em um tom de dor. Era provavelmente âSekaishu1…â ou algo assim.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Era um nome? Mas por que Mary saberia esse nome? Isso nĂŁo importava agora.
Haruhiro saltou para trås. Teve a sensação de que algo tocou a ponta dos seus pés. Não, ele não apenas sentiu. Algo definitivamente o tocou.
â EstĂĄ vindo de baixo! â gritou Haruhiro, alertando os outros.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Droga, nĂŁo consigo ver. NNNNNNNNNNNNNN O que Ă© isso? NNNNNNNNNNNNNN Mas estĂĄ chegando mais perto, consigo sentir. NNNNNNNNNNNNNNNNN Sinto isso de forma intensa. NNNNNNNNNNNNNNNNN NĂŁo Ă© algo… e, ao mesmo tempo, Ă©.
Ele sentiu algo roçar na ponta dos seus pĂ©s novamente. Em vez de recuar, Haruhiro pisou firme. NĂŁo era rĂgido. TambĂ©m nĂŁo era macio. Ele conseguiu pisar, mas seu pĂ© afundou profundamente, e parecia que seria puxado.
No final, Haruhiro arrancou o pé e pulou para trås. Aquilo foi perigoso? Se tivesse deixado o pé ali, quem sabe o que teria acontecido.
Mesmo assim, era algo. NĂŁo importava quĂŁo estranho fosse, ele podia tocĂĄ-lo. Tinha uma forma fĂsica.
Aquilo tocou a ponta dos seus pés mais uma vez. Haruhiro chutou.
â NĂŁo tenham medo! Ă sĂłâsĂł algum monstro esquisito…!
â Ahahaha! â Kuzaku riu. â Ă Luz, Ăł Lumiaris, conceda a luz de proteção Ă minha lĂąmina!
Ele desenhou o sinal do hexagrama com a ponta de sua grande katana, que começou a brilhar. Quando Kuzaku brandiu a espada, alguns pedaços pretos voaram. Pareciam enormes lagartas.
â SĂŁo sĂł lagartas! â Haruhiro disse, corrigindo-se em relação ao que havia pensado antes. Mas disse isso mais para si mesmo.
Eram lagartas. Apenas lagartas. Eram lagartas, e por isso eram nojentas. Talvez fossem venenosas, entĂŁo ele precisava tomar cuidado, mas nĂŁo havia motivo para ter tanto medo.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Esse
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN… O que era isso? Era irritante, mas, mesmo que ele tentasse entender, nĂŁo chegaria a lugar nenhum, entĂŁo era melhor nĂŁo se preocupar com isso. Haruhiro chutava as lagartas que se aproximavam dele. Recuava aos poucos, chutava, chutava e chutava aquelas lagartas, que lhe davam uma sensação terrĂvel ao fazer isso.
Kuzaku nĂŁo recuava muito.
â Oooorahhhhh! â Ele brandia sua grande katana em um movimento amplo para afastar as lagartas.
Parecia que Yume também estava usando sua katana.
Serå que Mary estava balançando seu cajado? O que Setora e Kiichi estavam fazendo? Ele não conseguia verificar.
â Vai, Dark! â gritou Shihoru. Ela aparentemente havia enviado Dark.
1 äžçè « (Sekaishu) â Tumor mundial ou inchaço do mundo

Era questionĂĄvel se o elemental fazia algum efeito.
De qualquer forma, esse NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN era irritante. Era como se, no fundo de seus ouvidos, dentro de sua cabeça, uma esfera de metal vibrasse. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. Era um som Ășnico, um estrondo baixo.
Logo depois de chutar as lagartas pela enésima vez, Haruhiro percebeu que estava com sangue escorrendo do nariz.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. O que poderia ser isso? Atrås de seus olhos parecia quente, até dolorido. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN.
â Guweh! â Kuzaku de repente vomitou algo, quase caindo de joelhos enquanto sua espada reluzia ao cortar mais lagartas. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. Havia lĂĄgrimas. NĂŁo, nĂŁo eram lĂĄgrimas. NNNNNNNNNNNNNNNNNN. Sangue. Havia sangue saindo, de seus olhos. NNNNNNNNNNNNNNNN. Haruhiro tossiu. NNNNNNNNNNNN. Ele estava tonto. NNNNNNNNNNNNN. Ele foi agarrado. NNNNNNNNNN. Sua perna direita. NNNNNNNN. Pelas lagartas. NNNNNNN. Haruhiro caiu sentado. NNNNNN. Isso NNNNNN era ruim. NNNNN. Ele sentia um frio terrĂvel. NNNNN. Como se tivesse perdido NNNNNNN sua perna direita. NNNNNNN. O que era NNNNNN um Sekaishu? NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. NĂŁo, isso nĂŁo era bom, nĂŁo era bom, nĂŁo era bom. NNNNN. Ele chutou as lagartas com a perna esquerda, chutou e as afastou de sua perna direita, entĂŁo rastejou para longe e fugiu. Ele precisava escapar. Aquilo ia engoli-lo.
â Dark! â chamou Shihoru.
Dark soltou um som bizarro, como um vwoooooong, enquanto encolhia e voava. Haruhiro pĂŽde ver o arco por onde ele estava indo. Dark ia se chocar contra o corpo principal das lagartas, ou a massa primĂĄria delas, aquela coisa que parecia uma pequena colina feita de lagartas.
Mas tudo o que aconteceu foi o som NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN ficar ainda mais forte, sem nenhum outro efeito.
â Ohhhhhhhhhhh! â Kuzaku estava se saindo bem lutando sozinho, brandindo sua grande katana para todos os lados, a cinco ou seis metros de Haruhiro, mas estava sendo gradualmente engolido pelas lagartas.
â NĂŁo! NĂŁo podemos continuar assim! â Mary praticamente gritou. â Corram! Com tudo o que tĂȘm! Mantenham distĂąncia disso! Eu vou…!
O que Mary ia fazer? Por que Mary? Jogando fora suas dĂșvidas, Haruhiro virou-se para correr.
Kuzaku. Kuzaku nĂŁo fazia nenhuma tentativa de se mover. Ele nĂŁo tinha ouvido a voz de Mary?
Para Mary, Yume, Setora, qualquer um, ele gritou: â Cuidem da Shihoru!
Protejam-na! Estou contando com vocĂȘs! pensou Haruhiro enquanto corria em direção a Kuzaku. Ele pisava e passava por cima das lagartas, afastando-as, abrindo caminho.
â Kuzaku! Saia daĂ, Kuzaku! â gritou ele.
Kuzaku virou-se para ele.
â Ah! Foi mal!
â RĂĄpido!
â TĂĄ!
Haruhiro corria enquanto as lagartas, um grande nĂșmero delasânĂŁo, talvez fosse melhor dizer um grande volume delasâavançavam de todas as direçÔes.
Kuzaku corria com todas as forças também. Se as lagartas se enrolassem ao redor dele, aquela parte de seu corpo ficaria gelada.
O som NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN ficava cada vez mais forte.
De algum jeito, Haruhiro conseguiu afastar as lagartas, sacudi-las e correr por sua vida. As lagartas nĂŁo avançavam particularmente rĂĄpido. Isso era sua Ășnica salvação.
Por isso, embora ele não achasse por um momento sequer que pudesse lidar com aquela situação, sentia que talvez conseguisse despistå-los.
Alguém, provavelmente Yume, segurou sua mão. Shihoru devia estar ao lado deles. Setora provavelmente estava segurando Kiichi. Além disso, Mary.
Mary.
Mary estava…
â Delm, hel, en, saras, trem, rig, arve!
â Oof?!
â Doh?!
O âoofâ provavelmente veio de Haruhiro, e o âdohâ de Kuzaku. Haruhiro e Kuzaku tombaram para frente quase ao mesmo tempo, atingidos por uma intensa rajada de vento quente vinda de trĂĄs.
Era absurdamente quente. Mais do que vento quente, talvez fosse mais apropriado chamĂĄ-lo de uma onda de choque. Haruhiro conseguiu rolar para frente por pouco, mas, ao olhar para trĂĄs antes de se levantar propriamente, sentiu seu rosto queimar.
â Augh!
NĂŁo, talvez nĂŁo o tivesse queimado, mas o calor era tĂŁo intenso que parecia que ele tinha se chamuscado. Era algo muito maior para ser chamado de pilar de fogo. Era uma parede, ou melhor, um penhasco de chamas erguendo-se diante deles.
Magia.
Isso tinha que ser magia Arve.
Mas não era magia de Shihoru. Shihoru só usava Dark atualmente. Além disso, ela não tinha aprendido nenhum feitiço de magia Arve.
â Ai, ai, ai, ai, ai! â Kuzaku gritou enquanto rastejava para frente com uma velocidade impressionante.
Haruhiro se levantou. Estava quente. FaĂscas voavam daquele penhasco de chamas. Era mais do que apenas quente.
Haruhiro embainhou seu estilete, cobriu o rosto com as mãos e tropeçou em direção aos seus companheiros.
Shihoru estava encolhida, encarando o penhasco de chamas. Parecia um pouco perdida
Algumas palavras escaparam dos lĂĄbios de Shihoru.
â Blaze Cliff.
Esse devia ser o nome de um feitiço. Mas Shihoru não era quem havia usado aquela magia Arve.
Yume olhou para Mary, que estava ao lado dela. Imediatamente desviou o olhar.
â Eu… â Mary olhou para baixo, pressionando a mĂŁo esquerda contra a testa. â Eu… Sekaishu. Remoção. SĂł com isso. Eu nĂŁo consigo. EntĂŁo, eu… magia. Eu usei magia. Enquanto ainda posso. Eu-
Setora, que segurava Kiichi, abaixou-se e colocou o nyaa cinza no chĂŁo.
â Sacerdotisa, o que Ă© Sekaishu?
â Sekai…shu â murmurou Mary. â Eu…
Não sei, continuou, mas sua voz foi se apagando até desaparecer.
Haruhiro ficou ali, perplexo. NĂŁo havia praticamente nada que pudesse fazer.
âNĂŁo sei.â Foi o que Mary disse.
Sekaishu. Mesmo depois de ter pronunciado claramente aquela palavra desconhecida, Mary usou magia. Usou Blaze Cliff. Magia Arve. Provavelmente, era a segunda vez que eles viam aquele feitiço sendo usado. A primeira tinha sido na aldeia, com Jessie.
Mary nĂŁo sabia. Magia de Luz era uma coisa, mas uma sacerdotisa como Mary nĂŁo podia usar magia Arve.
â Precisamos correr, enquanto ainda podemos. â Haruhiro fez de tudo para que sua voz nĂŁo tremesse. EntĂŁo, caminhando atĂ© Mary, estendeu sua mĂŁo direita para ela.
Tenho a determinação? ele se perguntou. Eu vou reconhecer tudo. Vou aceitar e encarar.
â Vamos, Mary.
Mary levantou o rosto. Ele nĂŁo pretendia esperar que ela assentisse. Haruhiro pegou a mĂŁo de Mary.
Sim, claro. Tenho a determinação.
Haruhiro segurou a mão de Mary e começou a andar. Primeiro, precisavam se afastar do Blaze Cliff. Ele não sabia o que era Sekaishu, ou seja lå o que fosse, mas fugiriam daquele monstro absurdo. Depois, iriam para o leste.
Se fossem para o leste, chegariam ao mar.
Se alcançassem o mar, dariam um jeito.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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