Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 5 â Volume 11
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 05:
[Incapaz de Voltar]
As construçÔes da aldeia foram poupadas do avanço do fogo, e a maioria não foi queimada. Provavelmente porque, ainda que por pouco tempo, choveu forte.
Felizmente, se é que algo podia ser considerado sorte nessa situação, aquela construção também estava intacta.
Ela estava lå, no corredor de chão de terra da construção usada como prisão. Estava deitada de costas, olhando para cima, com a mão direita semiaberta ao lado do quadril. Seu braço esquerdo estava ligeiramente dobrado para fora, com a palma da mão voltada para baixo. A perna direita estava um pouco dobrada para dentro, enquanto a esquerda estava quase completamente esticada.
De forma alguma parecia que estava dormindo. Ela estava gravemente ferida.
Seu rosto, com as pĂĄlpebras fechadas, parecia completamente desprovido de sangue.
Ele queria, ao menos, colocar seus membros em uma posição correta. Mas o que era certo? A capacidade de Haruhiro de acreditar que algo fosse certo havia desaparecido hå muito tempo. Sentia que não havia nada justo neste mundo. Tudo estava errado, e era por isso que as coisas haviam chegado a esse ponto.
Se pensasse a respeito, era isso. Tinha que ser.
Yume caminhou até ela, franziu a testa, alternando entre morder e apertar os låbios, e, por um tempo, ficou olhando para baixo, para ela. Então, caiu sentada no chão. Shihoru, silenciosamente, abraçou os ombros de Yume.
Kuzaku não tentou entrar na construção.
â …Por quĂȘ? â murmurava para si mesmo. â Isso nĂŁo pode ser real…
Setora e Kiichi, o nyaa cinzento, também estavam do lado de fora.
Jessie se inclinou sobre a cabeça sem vida dela, acariciando os pelos do queixo.
Enquanto ele permanecia ali, a sombra de Haruhiro caiu sobre ela.
Jessie havia chamado o xamĂŁ, ou o que quer que fosse, para tratar Haruhiro, Kuzaku e Yume.
O xamĂŁ era um homem com pele como couro velho e rachado, que nĂŁo se assemelhava nem a um orc, nem a um humano. Jessie o chamava de Niva.
Haruhiro achou que Niva os acompanharia atĂ© a prisĂŁo, mas Jessie nĂŁo pediu isso. Haruhiro nĂŁo ficou muito surpreso. Fosse um xamĂŁ, um sacerdote ou o que fosse, uma vez que uma pessoa perdesse sua Ășnica vida, nĂŁo havia como salvĂĄ-la. âExiste uma maneira. Apenas uma,â Jessie havia dito.
Haruhiro não acreditou nessas palavras. Não havia mais nada em que ele pudesse acreditar. Ele não tinha a intenção de se agarrar a nada, mas, mesmo assim, trouxe Jessie até o local onde ela dormia e não despertaria mais.
â Entendo. Sim, ela estĂĄ bem morta. â Jessie declarou o Ăłbvio em termos diretos. Levantando o rosto, ele olhou para Haruhiro. â Posso tocĂĄ-la?

â NĂŁo pode! â Yume respondeu imediatamente, sua voz baixa, um pouco rouca, mas cheia de intensidade, algo incomum vindo dela. â Que histĂłria Ă© essa? Mary-chan Ă© minha companheira. Nem pense em tocar nela.
Jessie deu de ombros.
â Achei que seria errado tocar sem pedir permissĂŁo, por isso estou perguntando.
â JĂĄ disse que nĂŁo pode! â Yume insistiu.
â Yume… â Shihoru abraçou Yume e lançou um olhar severo para Jessie. â …Por quĂȘ? Que sentido tem isso que estĂĄ tentando fazer?
â Quero verificar se ela estĂĄ fresca â respondeu Jessie, sorrindo de forma torta. â Ah. Foi uma escolha ruim de palavras. Muito direto? Minhas desculpas. âRoundabout…âEle parou por um momento, procurando a palavra certa no idioma que todos ali falavam, e por fim disse: â NĂŁo sou muito bom em me expressar de forma indireta. Basicamente, se o corpo estiver muito danificado, isso pode causar problemas. HĂĄ preparativos envolvidos, entende? Quero verificar isso.
â O que… O que exatamente vocĂȘ estĂĄ preparando para fazer? â Shihoru conseguiu perguntar.
â Eu nĂŁo disse? NĂŁo hĂĄ dĂșvida de que ela estĂĄ morta, mas existe uma maneira de ressuscitĂĄ-la. Ă isso que estou preparando, claro.
â Re… â Yume arregalou os olhos, olhando do rosto de Mary para Jessie e de volta. â Ressuscitar… Ressuscitar? Quer dizer trazer Mary-chan de volta Ă vida?
Jessie nĂŁo respondeu Ă pergunta de Yume. Ele voltou o olhar para Haruhiro.
â Posso tocĂĄ-la?
Haruhiro olhou para Shihoru em busca de uma reação. Não, ele procurava ajuda. Não conseguia decidir nada sozinho. Não conseguia tomar nenhuma decisão. Se Shihoru não acenasse positivamente, Haruhiro provavelmente ficaria calado para sempre.
Sem esperar pela resposta de Haruhiro, Jessie colocou os dedos no pescoço de Mary, levantou o braço dela e tentou dobrar os dedos. Parecia que ele achava que Mary era algum tipo de boneca, testando a movimentação e durabilidade das juntas dela.
Haruhiro sentiu-se tonto. Pare! pensou ele. Queria gritar com Jessie e chutĂĄ-lo para longe. Por que nĂŁo fazia isso? Provavelmente porque nĂŁo achava que tinha o direito.
â NĂŁo estĂĄ em mau estado. â Jessie afastou as mĂŁos do corpo de Mary. â Se começarmos agora, nĂŁo Ă© necessĂĄrio nenhum preparo especial. Agora Ă© apenas uma questĂŁo de decidir o que fazer.
â …O que quer dizer com âo que fazerâ? â Haruhiro finalmente abriu a boca, mas foi tudo o que conseguiu dizer.
â Vamos ressuscitĂĄ-la ou nĂŁo? â Jessie se levantou e respirou fundo. â NĂŁo cabe a mim decidir isso, afinal. Depende de vocĂȘs.
â Depende… de nĂłs?
â Antes disso, acho que devo explicar pelo menos um pouco.
â Existe alguma condição…? â Shihoru perguntou, hesitante.
â Pode-se chamar de condição, sim. â Jessie ergueu uma sobrancelha e deu uma risada curta. â Querem saber de antemĂŁo o que vai acontecer, certo?
Kuzaku, que aparentemente estivera ouvindo do lado de fora, entrou na prisĂŁo e ajoelhou-se ao lado de Haruhiro. Por que ele estava ajoelhado daquele jeito? Seu corpo grande tremia.
â O que… O que vai acontecer? â Kuzaku perguntou. â Com a Mary-san?
â Bem, se eu fizer uma determinada coisa, por enquanto ela voltarĂĄ Ă vida.
Haruhiro tentou dizer algo, mas sua voz falhou.
Espere.
Aguarde.
Espere sĂł um pouco.
O que significa isso, âpor enquantoâ?
âPor enquanto.â Que palavras terrivelmente inquietantes. âPor enquanto.â Meu peito estĂĄ tĂŁo apertado que dĂłi. Minha cabeça estĂĄ uma bagunça.
â HĂĄ algum tipo de risco? â perguntou Shihoru, fazendo a pergunta certa. Provavelmente, ela era a Ășnica com a cabeça no lugarâou tentando mantĂȘ-la no lugar.
â âRisco.â â Jessie repetiu a palavra, inclinando ligeiramente a cabeça. â Risco, Ă©? Pode-se dizer que sim. Vou dizer isso, pelo menos: eu morri uma vez tambĂ©m, e voltei. NĂŁo sou o Ășnico que voltou assim. A chance de falha Ă©âbem, nĂŁo vou dizer que nĂŁo existe, mas podem assumir que Ă© praticamente inexistente.
â VocĂȘ… â Kuzaku olhou para Jessie, sem conseguir falar direito. â VocĂȘ… morreu uma vez…? HĂŁ…? Morreu…? E depois voâQ-QuĂȘ?
â Simplificando, ela pode voltar Ă vida, como eu, que jĂĄ morri uma vez. NĂŁo hĂĄ risco, mas hĂĄ um preço a pagar. Isso porque ela voltarĂĄ no meu lugar.
Foi difĂcil entender de imediato. O que Jessie tinha dito?
âEla voltarĂĄ no meu lugar?â
âNo meu lugarââo que isso significava exatamente?
Mary estava morta. Mas ele disse que poderia ressuscitĂĄ-la de uma certa maneira. EntĂŁo?
E Jessie?
â Para trazer Mary de volta… â A voz de Haruhiro parecia ecoar em algum lugar muito distante. â …vocĂȘ tem que morrer…?
â Sim. Esse seria o fenĂŽmeno â disse Jessie, como se nĂŁo fosse nada.
â Isso Ă©… â Shihoru abaixou a cabeça. â M-Mas…
Yume deu um leve tapinha nas costas de Shihoru, como se estivesse tentando confortĂĄ-la. O gesto parecia inconsciente. Enquanto movia a mĂŁo, Yume parecia estar pensando.
â Ha ha… â Kuzaku soltou uma risada curta. Ele jĂĄ nĂŁo tinha ideia do que estava acontecendo e, talvez por isso, tenha rido sem querer.
â A propĂłsito, vocĂȘs nĂŁo precisam se preocupar com essa parte. â O tom de Jessie era completamente desinteressado. Isso claramente envolvia ele, mas parecia que nĂŁo tinha nada a ver com ele. â Foi um pouco assustador da primeira vez, mas jĂĄ passei por isso antes, entĂŁo sei o que vai acontecer. Minha Jessie Land levou um golpe decisivo. DĂĄ muito trabalho recomeçar do estĂĄgio um. Estou feliz em chamar isso de fim de jogo.
â F-Fim de jogo? Isso Ă©… â Kuzaku levantou os quadris, ajustou sua posição e pressionou as mĂŁos sobre os joelhos. â …IrresponsĂĄvel, nĂŁo acha? Yanni-san ainda estĂĄ…
Jessie suspirou e estalou os dedos.
â Isso nunca foi uma caridade, para começo de conversa. Fiz isso porque era divertido. Se ficou chato, acabou. Ă isso que Ă© um fim de jogo, certo?
Esse homem era bizarro.
Ele jĂĄ havia morrido uma vez, entĂŁo, por ser sua segunda vidaâ
NĂŁo, e daĂ que ele sabe como Ă© morrer? Ele ainda vai morrer.
NĂŁo, nĂŁo Ă© isso, certo?
Jessie tinha morrido uma vez e, se eles acreditassem no que ele dizia, alguĂ©m tinha morrido para trazĂȘ-lo de volta.
Antes disso, Jessie nĂŁo era essa criatura difĂcil de chamar de humana, alguĂ©m capaz de ignorar um Backstab. Jessie tinha sido humano. Mas, quando voltou, isso mudou.
Haruhiro pressionou as mĂŁos contra a parte de trĂĄs da cabeça. Ele agarrou o cabelo. Morrendo e voltando, Jessie acabou do jeito que Ă© agora…?
âEla pode voltar Ă vida, como eu, que jĂĄ morri uma vezâ, Jessie tinha dito, certo?
Isso nĂŁo significava que… Mary ficaria como Jessie?
Haruhiro olhou para o rosto de Mary. O sorriso dela, prestes a morrer, tinha desaparecido. Ao analiså-la de perto assim, honestamente, aquilo só poderia ser chamado de uma expressão sem vida. Na verdade, ela não tinha mais expressão alguma. Porque suas funçÔes vitais haviam cessado.
Ele nĂŁo queria aceitar isso, mas a Mary ali nĂŁo era mais que um objeto. Ele nĂŁo conseguia pensar nela dessa forma, muito menos tratĂĄ-la como uma coisa, mas esse era o fato. A Mary ali nĂŁo passava dos restos do que um dia foi Mary.
Se não usassem o método que Jessie mencionava, Mary não apenas permaneceria assim; ela nem mesmo seria capaz de manter a forma que tinha agora.
Levando em conta a estação do ano, ela começaria a se decompor em pouco tempo. Eventualmente, a maldição do No-Life King entraria em efeito, e ela começaria a se mover.
Precisavam enterrå-la rapidamente. Considerando a maldição, o melhor seria cremå-la. Mas ali não era Altana, então não havia crematório. Teriam que queimå-la por conta própria. Veriam Mary sendo consumida pelo fogo com seus próprios olhos.
Ele nĂŁo queria ver isso. Mas provavelmente nĂŁo tinha escolha. Se nĂŁo encarasse isso, com certeza se arrependeria. Mesmo que encarasse, provavelmente ainda se arrependeria. Se fosse o mesmo de qualquer forma, deveria assistir. Haruhiro provavelmente ficaria para ver.
Eu nĂŁo quero ver isso.
AtĂ© mesmo imaginar issoânĂŁo, sĂł de tentar imaginar issoâparecia que cada cĂ©lula de seu corpo seria esmagada em pĂł. Se alguĂ©m enfiar uma barra de ferro quente no meu cĂ©rebro e agitĂĄ-la, talvez seja assim que se sinta.
Eu nĂŁo quero isso.
Mary.
Eu realmente nĂŁo quero.
Ele nĂŁo queria queimĂĄ-la de jeito nenhum. Mas precisava. A Ășnica outra opção era…
TrazĂȘ-la de volta Ă vida.
Jessie estava dizendo que era possĂvel. Ele morreria, e Mary voltaria no lugar dele. Isso realmente era algo que poderia ser feito?
Se ela fosse sua mĂŁe, sua amante ou alguĂ©m a quem ele devia muito, talvez fosse compreensĂvel. Mas nĂŁo era o caso. NĂŁo havia uma boa razĂŁo para ele se oferecer, mas Jessie tinha dito que nĂŁo se importava de morrer para trazer Mary de volta.
SerĂĄ que havia algo que ele nĂŁo estava dizendo?
Por exemplo, serĂĄ que Jessie estava pensando que estava pronto para morrer? Ou ele preferia estar morto e sĂł queria que tudo acabasse logo? Talvez houvesse algum tipo de desvantagem em voltar Ă vida e, embora Jessie parecesse saudĂĄvel, ele realmente nĂŁo estivesse? Talvez ele estivesse sofrendo ou sentindo algum desconforto e estivesse tentando passar isso para a Mary?
E se ela voltasse, o que aconteceria com a Mary?
Naturalmente, Haruhiro queria que ela voltasse. Se significasse que Mary viva voltaria para ele, ele faria qualquer coisa. NĂŁo se importaria em morrer ele mesmo. Na verdade, estava disposto a oferecer sua vida no lugar da de Jessie.
Mas e se isso resultasse em algo com o qual Mary nĂŁo pudesse ser feliz? âSe for para ficar assim, eu preferia que tivesse me deixado morta.â E se Mary se transformasse em algo que a fizesse sentir isso?
â Bem entĂŁo… â Jessie abriu os braços e olhou para Haruhiro e cada um de seus companheiros.
Haruhiro subitamente ficou desconfiado. Como esse homem era antes de morrer? Ele podia ter sido uma pessoa completamente diferente. Talvez tivesse acabado assim porque foi revivido. Mary poderia ser igual. Se ela voltasse Ă vida, isso nĂŁo aconteceria com ela…?
â O que vocĂȘs vĂŁo fazer? â perguntou Jessie. â EnterrĂĄ-la ou trazĂȘ-la de volta? Decidam o mais rĂĄpido possĂvel. Vai ser complicado se a condição dela piorar, e do jeito que as coisas estĂŁo, os vooloos vĂŁo aparecer atĂ© o pĂŽr do sol. Isso leva um tempo, afinal. Se formos fazer isso, quero terminar antes disso.
â …Vooloos? â perguntou Shihoru, em um sussurro.
Vooloos. Era uma palavra que eles estavam ouvindo pela primeira vez. Se ele lembrava bem, Jessie e Yanni tinham mencionado antes.
Ele nĂŁo sabia o que significava, mas âVooloo yakah,â eles haviam dito.
NĂŁo foi Jessie quem respondeu, mas Setora, que estava perto da entrada.
â Vooloos sĂŁo lobos necrĂłfagos â disse ela em um tom estranhamente neutro. â Eles sĂŁo aparentados aos canĂdeos, aparentemente, mas tambĂ©m se parecem com felinos. Embora prefiram carniça, Ă s vezes atacam criaturas vivas, incluindo humanos e orcs. Frequentemente, eles atacam caçadores que fizeram uma caça e estĂŁo no processo de levĂĄ-la para casa. O caçador se torna a caça, e tanto ele quanto sua presa sĂŁo devorados pelos vooloos. Com tantas pessoas mortas por aqui, nĂŁo seria estranho se os vooloos sentissem o cheiro.
â Os daqui do Vale dos Mil sĂŁo pequenos, certo? â Jessie apontou para o norte. â A leste das Montanhas Kuaron, hĂĄ vooloos maiores do que as panteras da nĂ©voa do Vale dos Mil. Eles tĂȘm o tamanho de ursos. Se tudo tivesse queimado, nĂŁo sei como seria, mas choveu. As ĂĄguias e corvos provavelmente jĂĄ estĂŁo se reunindo. Os vooloos serĂŁo os prĂłximos. Podemos espantar ĂĄguias e corvos, mas vooloos sĂŁo bem mais difĂceis. De qualquer forma, precisamos abandonar este lugar por agora. Eu jĂĄ avisei a Yanni.
â Eles jĂĄ começaram a evacuar? â perguntou Shihoru.
Jessie respondeu: â Sim, isso mesmo â com um sotaque que parecia deliberadamente estrangeiro. â Se eles vĂŁo voltar aqui para reconstruir, ou procurar outro lugar, isso Ă© com Yanni e os outros. NĂŁo vou me envolver. Perdi o interesse, sabe. NĂŁo faço coisas que nĂŁo quero fazer. Decidi isso antes de morrer, e mantenho essa decisĂŁo.
Jessie fez uma pausa.
EntĂŁo acrescentou: â A propĂłsito. JĂĄ que isso provavelmente estĂĄ preocupando vocĂȘs, sĂł vou dizer: nada mudou dramaticamente dentro de mim quando voltei Ă vida. VocĂȘs podem acreditar nisso ou nĂŁo. Mas eu sempre tive esse tipo de personalidade. SĂł ficou mais difĂcil para mim morrer depois que voltei. Isso foi, bem, acho que Ă© uma grande mudança, nĂŁo uma pequena. Mas nĂŁo foi algo ruim. Na verdade, Ă© conveniente.
â …Detalhes â Haruhiro disse, pressionando a garganta.
Minha voz… estĂĄ rouca. Mas Ă© isso. Era isso que eu queria dizer. Por que nĂŁo consegui dizer antes?
â Por favor, nos dĂȘ detalhes. Em termos concretos… se ela voltar, como ela vai ficar? O que acontece, e como… Basicamente, quero saber tudo. Para poder tomar uma decisĂŁo. Quero dizer, sem realmente entender… eu nĂŁo posso decidir isso. Porque… nĂŁo Ă© sobre mim. NĂŁo sei como dizer, mas sem poder obter o consentimento dela… seria revivĂȘ-la sem permissĂŁo. Preciso pensar bem nisso. Preciso de material para refletir. Sem isso, embora nĂŁo seja impossĂvel…
â Eu me recuso a explicar.
â HĂŁ?
â JĂĄ falei mais ou menos tudo o que posso. Existem coisas que eu nĂŁo posso contar diretamente para vocĂȘs, sabe? â Jessie deu de ombros. â VocĂȘs nĂŁo sĂŁo idiotas, entĂŁo entendem, certo? Isso nĂŁo Ă© normal. Ă senso comum que as pessoas nĂŁo podem voltar Ă vida, e isso Ă© um fato. Coisas assim quase nunca acontecem. Ă uma ocorrĂȘncia especial, com condiçÔes Ășnicas. Mas nĂŁo Ă© um milagre. Como nos truques de mĂĄgica, por mais misteriosos que pareçam, sempre hĂĄ uma explicação por trĂĄs. Eu nĂŁo posso revelar o truque. Tenho um motivo para isso. E tambĂ©m nĂŁo posso contar qual Ă© esse motivo. O que vĂŁo fazer? Aceitar minha oferta e trazĂȘ-la de volta Ă vida? Ou vĂŁo enterrĂĄ-la? Decidam logo. NĂŁo me importa qual serĂĄ.
Haruhiro ergueu os olhos para o céu.
Havia um buraco. Ele conseguia ver o céu. Se o céu estava claro e azul ou escuro com nuvens densas, que diferença fazia?
Isso nĂŁo valia sĂł para o cĂ©u. Pelo menos por agora, ele provavelmente nĂŁo se importava com nada. Por agora. Era sĂł agora? AmanhĂŁ, depois de amanhĂŁ, e alĂ©m dissoâcom o passar do tempo, isso mudaria?
Ă, essas coisas acontecem, huh. Isso tambĂ©m aconteceu. Ela estava viva, nĂŁo Ă©? Passamos um tempo juntos, nĂ©.
SerĂĄ que ele conseguiria olhar para trĂĄs e se lembrar disso dessa forma?
â Por favor, â Haruhiro manteve os olhos fixos no cĂ©u visĂvel pelo buraco no teto. â Se vocĂȘ realmente pode fazer isso, quero que traga a Mary de volta.
Isso Ă© um pesadelo ou um golpe? Ele ainda nĂŁo conseguia afastar essas dĂșvidas. No momento seguinte, eu vou acordar, Mary e eu estaremos sozinhos, e Mary estarĂĄ morta. NĂŁo hĂĄ mais ninguĂ©m por perto. NĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer. Mary estĂĄ simplesmente morta.
Ou entĂŁo Jessie diria, com um sorriso sem graça: âFoi mal. Era tudo mentira. Meu erro. SĂł estava te pregando uma peça. VocĂȘ sabe que nĂŁo dĂĄ para trazer os mortos de volta, certo?â
NĂŁo era nenhuma das duas coisas.
â Muito bem, vamos ao trabalho.
O que fariam? O que estava prestes a começar?
Estranhamente, nĂŁo foi apenas Haruhiro, Yume, Kuzaku ou Setora, que ainda estava perto da porta, que nĂŁo disse nada. Nem mesmo Shihoru perguntou algo a Jessie.
NinguĂ©m abriu a boca, mas quando Jessie disse âPodem sair da frente? VocĂȘs estĂŁo no caminhoâ, Yume e Shihoru se afastaram sem dizer uma palavra, assim como Kuzaku e Haruhiro.
Jessie puxou uma faca e a pressionou contra o prĂłprio pulso. EntĂŁo disse: â Se Yanni ou os outros aparecerem, nĂŁo deixem entrar, sob nenhuma circunstĂąncia. Isso vai levar horas. NĂŁo vou dizer para nĂŁo olharem, mas nĂŁo precisam assistir tudo. Alguns de vocĂȘs, fiquem lĂĄ fora de guarda.
Primeiro Kuzaku, depois Yume, saĂram com passos trĂŽpegos. Yume estava atordoada, e Kuzaku tinha lĂĄgrimas nos olhos.
Shihoru ficou. Haruhiro também.
Jessie ajoelhou-se ao lado de Mary e murmurou: â Ă aqui, certo? â Ele cortou o prĂłprio pulso esquerdo. NĂŁo demonstrou hesitação alguma. Parecia ter cortado bem fundo, porque o sangue nĂŁo apenas escorria, mas jorrava. Jessie disse: â Oops. â E rapidamente pressionou o corte contra o ombro de Mary.
Havia um ferimento horrĂvel ali. Era onde ela havia sido mordida pelo guorella, e aquele ferimento talvez fosse a causa direta de sua morte. Era evidente que Jessie tentava encostar o corte recĂ©m-feito em seu pulso no ferimento de Mary. Que bem isso faria? Haruhiro nĂŁo fazia ideia. Era uma cena terrĂvel, mas ele nĂŁo tentou impedi-lo.
Jessie descartou a faca, segurando seu pulso esquerdo com a mĂŁo direita. Parecia estar tentando mantĂȘ-lo no lugar. Ele respirou fundo. Fez uma careta.
â Haruhiro â chamou.
â …Ah… â Haruhiro tentou responder, mas sua voz mal saiu.
â Pode me ajudar com isso?
â …Com o quĂȘ?
â Estou segurando, mas quero fixar melhor. Ă minha primeira vez fazendo isso, entĂŁo nĂŁo sei bem o processo. Acho que vai dar certo, porĂ©m. Sabe como Ă©, todo cuidado Ă© pouco, nĂ©?
Foi Shihoru quem fez o que ele pediu. Ela encontrou um pedaço grande de tecido entre seus pertences e, com o corpo inteiro tremendo e respiraçÔes curtas e dificultadas, enrolou o tecido ao redor do pulso esquerdo de Jessie e do pescoço de Mary.
Haruhiro nĂŁo fez nada. Ele nĂŁo conseguiu fazer nada. Apenas assistiu.
Shihoru voltou, limpando as mĂŁos na bainha de sua tĂșnica.
â …Desculpa â Haruhiro murmurou em voz baixa.
Shihoru envolveu ambos os braços ao redor do braço direito de Haruhiro e virou a cabeça para o lado. Ainda tremia. Devia ser difĂcil para ela atĂ© mesmo ficar de pĂ©. Shihoru precisava de apoio.
Mesmo eu consigo fazer pelo menos isso, entĂŁo preciso fazer, e devo fazer, Haruhiro pensou.
â Haruhiro-kun, se vocĂȘ nĂŁo tivesse dito aquilo… â ela disse suavemente.
Eu estava errado.
NĂŁo era isso.
â …Eu teria dito. â completou ela. â âRevive a Maryâ… Eu teria dito… entĂŁo nĂŁo carregue isso sozinho. Porque a Yume e o Kuzaku-kun… Tenho certeza de que eles teriam feito o mesmo.
â Sim â Haruhiro assentiu.
Shihoru nĂŁo queria que ele a apoiasse. Ela estava tentando apoiar Haruhiro.
A pessoa que estava prestes a desmoronar naquele momento… era ele.
â Eu…
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Shihoru segurou sua mão com força.
Ele havia jurado que, pelo menos, nĂŁo se arrependeria. NĂŁo sabia o que Mary pensaria, e poderia causar sofrimento a ela. Mesmo assim, Haruhiro nĂŁo podia deixar que isso o enchesse de arrependimento. Se essa decisĂŁo fosse errada, e ele tivesse cometido um erro, Haruhiro assumiria a responsabilidade. NĂŁo poderia reclamar se Mary guardasse rancor. Que guardasse. Mas ele nĂŁo tinha outra escolha.
Qualquer outra opção seria impossĂvel para ele. NĂŁo importava quantas vezes retornasse Ă quela cena, Haruhiro, no fim, sempre pediria a Jessie para fazĂȘ-lo. Talvez nem tivesse hesitado.
Se Mary pudesse voltar Ă vida, Ă© claro que ele desejaria isso. EntĂŁo, ele nĂŁo se arrependeria.
Haruhiro apertou a mão de Shihoru em resposta. Seu coração jå não batia descontrolado. Também não tinha mais dificuldade para respirar.
Do lado de fora, havia muito barulho por algum motivo.
Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac.
Era o som de påssaros? Ele olhou para o buraco no teto. Havia vårios pontos negros voando de um lado para o outro no céu. Pareciam realmente påssaros.
Jessie, que estava ajoelhado com o joelho direito no chão e o esquerdo levantado, agora estava com os dois joelhos no chão. Seus ombros subiam e desciam levemente. Ele também começou a tossir.
Haruhiro tentou escutar, mas a voz de Jessie era tão baixa que ele não conseguiu entender. No entanto, parecia que ele estava falando com alguém, e não consigo mesmo.
Com quem, exatamente? Mary? Mas Jessie nĂŁo olhava para o rosto de Mary. Seus olhos estavam fixos no chĂŁo.
â Droga…! â Kuzaku gritou lĂĄ fora.
Quando Haruhiro olhou, os påssaros tinham descido. Os maiores eram åguias, e os menores, aparentemente, corvos. Os påssaros se amontoavam nos corpos que antes eram dos aldeÔes de Jessie Land e dos guorellas.
Kuzaku balançava sua grande katana, tentando espantar os påssaros, mas eram muitos. Yume ocasionalmente balançava sua katana, mas apenas para afastar os påssaros que chegavam perto dela.
Haruhiro nĂŁo via Setora e Kiichi. SerĂĄ que tinham ido para algum lugar?
â Shihoru â chamou Haruhiro.
â …Hm? O quĂȘ?
â Por que vocĂȘ nĂŁo se senta?
â Eu… estou bem.
â Entendi.
â E vocĂȘ, Haruhiro-kun? EstĂĄ bem?
Ele quase respondeu ânĂŁo seiâ, mas engoliu as palavras.
â Estou bem. Eu tambĂ©m.
â …Certo.
â Sim.
Jessie não estava apenas com os joelhos no chão agora; seu cotovelo direito também tocava o solo.
Aquele homem nĂŁo parece nada bem, Haruhiro pensou, mas nĂŁo conseguiu entrar no clima para dizer algo a ele.
Mary voltaria Ă vida no lugar de Jessie.
O que isso significava exatamente? Haruhiro quase voltou a questionar, mas balançou a cabeça.
NĂŁo vamos fazer isso. Mesmo que eu pense sobre isso, nada vai mudar. AlĂ©m disso, jĂĄ Ă© tarde demais. NĂŁo, ele ainda nĂŁo terminou, entĂŁo talvez nĂŁo seja tarde demais para agir. Ainda assim, nĂŁo tenho intenção de parar Jessie agora. Aconteça o que acontecer, Mary voltarĂĄ Ă vida. Vou poder vĂȘ-la novamente. Isso nĂŁo Ă© o suficiente? Talvez nĂŁo seja bom, mas estĂĄ bem.
Corvos pousaram no buraco no teto e começaram a grasnar. Estava barulhento, e ele queria espantå-los, mas o buraco estava alto demais para que ele alcançasse saltando e balançando seu estilete. Deveria pedir para Shihoru usar Dark? Não havia necessidade de ir tão longe. Por enquanto, os corvos não mostravam sinais de entrarem pelo buraco, então ele poderia deixå-los em paz.
Jessie finalmente colocou a testa no chĂŁo. Haruhiro nĂŁo conseguia mais ouvir sua voz. Suas costas se moviam devagar, levemente. Ele aparentemente ainda estava vivo.
Mas era bizarro. Mesmo depois de ter sido atingido por um Backstab, Jessie estava bem. Ele nĂŁo havia tratado o ferimento, mas a ferida havia cicatrizado sozinha.
Naquela vez, o estilete de Haruhiro havia perfurado o rim de Jessie. Era um ferimento fatal e havia cicatrizado, mas agora o homem estava nesse estado deploråvel por causa de um simples corte no braço?
Era estranho.
Croac, croac, croac. Croac, croac, croac. Croac, croac, croac, croac.
Os corvos estavam grasnando. Havia muito mais deles do que antes. NĂŁo apenas quatro ou cinco. Eram facilmente mais de dez.
â Ficou menor…? â disse Shihoru.
Haruhiro sentiu um calafrio.
Seria um truque dos seus olhos? Ele estava imaginando coisas?
Jessie nunca tinha sido musculoso, e tambĂ©m nĂŁo era excepcionalmente alto. Mesmo assim, o tamanho de seu corpo… Era porque ele estava agachado? Era difĂcil imaginar que fosse sĂł isso. Ele estava claramente menor. Jessie tinha diminuĂdo. Parecia que havia menos dele, por assim dizer.
Haruhiro apertou os olhos. NĂŁo adianta, pensou. NĂŁo consigo ver direito daqui.
Shihoru soltou o braço dele.
Haruhiro moveu-se para um ponto onde pudesse ver o perfil do rosto de Jessie. Ele usou o Sneaking naturalmente, sem pensar.
As bochechas e os olhos de Jessie estavam profundamente encovados, e ele parecia extremamente magro. Talvez âdessecadoâ fosse a palavra mais adequada. NĂŁo era sĂł o rosto. Seu corpo inteiro tinha perdido volume. O torso colapsado, as pernas dobradas, tudo estava desconfortavelmente fino. Os braços de Jessie nunca tinham sido tĂŁo magros antes. Agora pareciam galhos.
Croac, croac, croac.
Croac, croac, croac.
Croac, croac, croac, croac, croac.
Os corvos grasnavam incessantemente.
Jessie encolhia cada vez mais.
O que era aquilo?
Por que ele nĂŁo tinha achado estranho antes?
Jessie havia cortado o pulso. Mesmo que o ferimento se fechasse, ele perderia uma grande quantidade de sangue em pouco tempo. Mesmo pressionando a abertura do corte contra o ferimento de Mary e amarrando com um pedaço de tecido como aquele, não faria grande diferença. O tecido ficaria ensopado de sangue rapidamente, e uma poça de sangue se formaria. No entanto, isso não aconteceu.
Jessie continuava encolhendo. Como se ele fosse apenas um saco cheio de sangue. Como se a pele externa tivesse formado a figura humana de Jessie, e o interior estivesse preenchido apenas por sangue. Como se, ao esvaziar o sangue, restasse apenas a pele. Mas isso era impossĂvel, Ă© claro. Sem ossos, mĂșsculos e ĂłrgĂŁos, ele nĂŁo poderia ter andado ou respirado.
â …NĂŁo pode ser. â Shihoru cobriu a boca.
Jessie estava praticamente plano a essa altura.
Que diabos era aquilo?
Croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac.
Os corvos grasnavam estridentemente.
Haruhiro vomitou. NĂŁo havia como voltar atrĂĄs. Ele sabia disso.
Sério? Não, não era verdade. Se ele agisse agora, ainda poderia desfazer aquilo. Honestamente, ele achava que talvez fosse o melhor a se fazer. No entanto, se ele afastasse Jessie, que agora parecia um saco de couro, de Mary, essa possibilidade desapareceria completamente. Ele nunca mais poderia encontrar Mary novamente.
Ele estava disposto a aceitar isso?
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.
Compartilhe nas Redes Sociais
Publicar comentĂĄrio