Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 4 â Volume 11
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 04:
[Meu Querido Professor e Ele]
Quando isso começou?
Eu realmente odiava voltar para casa.
Ficar em frente Ă porta me fazia sentir como se estivesse sendo trancado em um lugar ridiculamente apertado, e isso me deixava nauseado.
Sempre foi assim? Não podia ser. Quando começou? Eu realmente não sabia.
De qualquer forma, eu odiava minha casa.
Hoje, eu queria muito cantar. Convidei algumas pessoas, fomos para o karaokĂȘ, estendemos, estendemos mais e mais. Uma pessoa foi embora, depois outra, e mais outra. Quando todos disseram que precisavam ir para casa, terminei relutantemente, mas, no fim, ficamos lĂĄ por um total de quatro horas. Generosamente, paguei a conta toda. Afinal, fui eu quem os convidou, certo? Enquanto cantava como louco, tambĂ©m comia e bebia, entĂŁo nĂŁo estava com fome.
A essa hora, provavelmente alguém jå estava em casa. As luzes estavam acesas, também.
Peguei a chave na bolsa e destranquei a porta. Ela se abriu. Entrei.
O truque era fazer tudo isso de uma vez sĂł. Se eu parasse no meio do caminho, teria vontade de fugir. NĂŁo que isso fosse adiantar.
Mesmo que eu dissesse para irmos a algum lugar depois, tĂnhamos acabado de passar quatro horas no karaokĂȘ. NinguĂ©m viria comigo. Brincar sozinho tambĂ©m nĂŁo era divertido. Ăs vezes podia ser bom. Hoje mesmo fui a um fliperama sozinho.
As luzes do hall de entrada acenderam quando o sensor captou meus movimentos. Havia sapatos de salto alto. Os sapatos da minha mĂŁe.
Tirei meus sapatos e entrei na casa.
Subi as escadas do hall para o segundo andar. Entrei no meu quarto e acendi a luz. Joguei minha bolsa no chĂŁo e, tentando nĂŁo pisar nos objetos espalhados, fui para a cama.
Sem tirar o uniforme, mergulhei na cama e me virei de costas.
Olhando distraĂdo para os pĂŽsteres no teto, pensei: Huh, quando foi que coloquei esses aĂ?
Os pÎsteres variavam: de idols, revistas de mangå, a filmes. Havia de tudo. Depois de ficar sem espaço nas paredes, comecei a colocå-los no teto também.
Tirei as meias e as joguei em qualquer lugar. Meu pé direito tocou algo. Era uma mini bola de basquete. Peguei-a com os pés, joguei para o alto e a peguei com as mãos. Sentando-me, mirei na cesta de basquete em miniatura no canto do quarto. Arremessei.
â Vamos lĂĄ! Entra…!
A bola foi implacavelmente rejeitada pela cesta.
â Ahhhh! Que droga! JĂĄ chega disso!
Fiquei irritado e decidi dormir.
NĂŁo… Eu adoraria dormir, se conseguisse, mas ainda nĂŁo era possĂvel.
â …Ahhh. â Soltei a voz sem motivo.
Puxei meu cabelo.
â Argh. â Resmunguei.
Suspirei.
Soltei um: âUhhhâ.
Depois, mudei o tom: âEhhhâ.
Troquei de novo: âOhhhâ.
Heh heh. Ri sozinho.
â …Que tĂ©dio.
Deitado de bruços, pressionei meu rosto contra o travesseiro. Ele cheirava a produtos de cabelo, xampu e outras coisas. Não era nada agradåvel. Mas eu não odiava. Não era bom, mas também não era ruim.
Talvez a vida seja assim, pensei de repente.
â Pode ser… Talvez seja isso mesmo. Ă. Droga, sou incrĂvel. Nossa. Minha garganta estĂĄ seca…
Levantei e cocei a cabeça. Devia ter passado na conveniĂȘncia e comprado algo para beber. Mas agora sair de novo era muito trabalho. NĂŁo tinha escolha.
â Acho que vou descer…
SaĂ da cama, deixei meu quarto e desci para o primeiro andar. Havia um corredor estreito saindo do hall de entrada. A porta Ă esquerda era o banheiro, e a porta no final levava Ă sala de estar.
Quando abri a porta, a TV estava ligada. Minha mĂŁe ainda estava com as roupas de sair, sentada no sofĂĄ e bebendo alguma coisa. Provavelmente vinho, como de costume.
Havia uma adega absurdamente grande nesta casa, com quase cem garrafas. Quase todas as noites, minha mãe bebia vinho em uma taça ridiculamente grande.
Minha mãe lançou um olhar na minha direção e não disse nada. Se tivesse dito qualquer coisa, eu teria ficado bravo, mas ser ignorado também era irritante.
Passei pela sala até a cozinha e comecei a revirar a geladeira.
â …Droga. Por que essa casa sĂł tem ĂĄgua com gĂĄs e mineral? Que porcaria Ă© essa? NĂŁo dĂĄ pra acreditar.
Quando murmurei isso sem querer, ouvi minha mĂŁe estalar a lĂngua, e isso me incomodou ainda mais.
â …O quĂȘ? â perguntei. â NĂŁo falei nenhuma mentira. Tem algum problema comigo?
â Por que vocĂȘ tem a boca tĂŁo suja? NĂŁo sei a quem vocĂȘ puxou. Mas deve ter sido ao seu pai, com certeza.
Minha mĂŁe aparentemente estava bĂȘbada. Mas isso nĂŁo significava que eu era obrigado a engolir calado. Bati a porta da geladeira com força.
â Quando vocĂȘ diz âmeu paiâ, estĂĄ falando do seu marido? Ou Ă© de outra pessoa?
â Hein? Outra pessoa? Do que vocĂȘ estĂĄ falando? â ela retrucou.
â Como vou saber? VocĂȘ parece nĂŁo gostar muito do seu marido, entĂŁo pensei que talvez esteja tendo um caso. Ou, sei lĂĄ, jĂĄ teve antes?
â Para de falar besteira.
â NĂŁo Ă© besteira. Ă um problema bem sĂ©rio. SerĂĄ que eu sou mesmo filho do velho?
â NĂŁo diga bobagens. Mas Ă© verdade, vocĂȘ nĂŁo se parece com seu irmĂŁo ou sua irmĂŁ. Eles nĂŁo sĂŁo mal-educados como vocĂȘ.
â TĂĄ dizendo que o mano e a mana nĂŁo sĂŁo como eu, que eles sĂŁo alunos exemplares, Ă© isso? Sabia.
â O quĂȘ? TĂĄ com inveja? A razĂŁo de vocĂȘ ser um fracasso Ă© que nĂŁo faz nenhum esforço, nĂŁo Ă©? Isso Ă© culpa sua.
â NĂŁo tĂŽ com inveja. Quer dizer, claro que tĂŽ com ciĂșmes, sim. Eles me deixaram sozinho nessa casa de merda e saĂram assim que puderam. Tipo, que droga Ă© essa? SĂ©rio. SĂ©rio mesmo.
â Se vocĂȘ pensa assim, por que nĂŁo sai tambĂ©m?
â NĂŁo precisa me dizer isso. Assim que eu terminar o ensino mĂ©dio, tĂŽ fora.
â Se nĂŁo quer depender dos seus pais, por que nĂŁo larga os estudos e arruma um emprego?
â Nossa, vocĂȘ Ă© incrĂvel, hein? NĂŁo conheço muitos pais que dizem pro filho largar o ensino mĂ©dio.
â Ă sĂł se vocĂȘ nĂŁo quer ficar nessa casa. Se vai brincar com o dinheiro que seus pais ganham, pode pelo menos parar de reclamar tanto?
Fiquei tĂŁo irritado que chutei o balcĂŁo da cozinha.
Minha mĂŁe gritou: â O que vocĂȘ tĂĄ fazendo?!
â O que parece que eu tĂŽ fazendo?! Chutei, uĂ©!
â O jeito como vocĂȘ desconta sua raiva nas coisas Ă© igualzinho a ele!
â Isso nĂŁo me deixa nem um pouco feliz!
â NĂŁo tĂŽ tentando te deixar feliz!
â Hoje Ă© meu aniversĂĄrio, droga…!
Depois que soltei essas palavras, nĂŁo consegui tapar minha boca. Era tarde demais.
Honestamente, por que eu disse isso? Obviamente, não tinha intenção. Não importava nem um pouco que fosse meu aniversårio. Isso não tinha nada a ver com essa conversa.
AlĂ©m disso, pense bem. Quando foi a Ășltima vez que comemoraram meu aniversĂĄrio? No ensino fundamental? Terceira sĂ©rie, talvez quarta? SĂł podia ser isso. O clima nessa casa estava pĂ©ssimo havia tanto tempo. E depois que minha mĂŁe começou a trabalhar, as coisas pioraram ainda mais.
Meu pai só vinha pra casa umas duas vezes por semana. Mesmo quando vinha, era tarde da noite. Provavelmente tinha outra casa. Minha mãe devia ter um amante também. Apesar disso, ela aparecia todo dia.
Eu nem sabia quantas vezes jĂĄ tinha visto minha mĂŁe e meu pai brigando. Sempre me perguntava: se eles se davam tĂŁo mal, por que nĂŁo se divorciavam?
Meu irmĂŁo conseguiu um emprego no ano passado. Minha irmĂŁ estĂĄ na universidade. Nenhum dos dois aparece mais aqui em casa.
Para meu irmĂŁo e minha irmĂŁ, aparentemente era assim que viam a situação: âBem, Ă© entre eles como marido e mulher. Deixa eles fazerem o que quiserem. Eles estĂŁo nos mandando dinheiro como deveriam.â
Bom, claro, eles podiam pensar assim. Sem dĂșvida. Quando meu irmĂŁo conseguiu um emprego, meu pai comprou um carro caro para ele, e quando minha irmĂŁ teve sua cerimĂŽnia de maioridade, encomendaram um lindo quimono para ela. Quando meu pai ocasionalmente ia a TĂłquio a negĂłcios, ele comia sushi com meu irmĂŁo em Ginza. Minha irmĂŁ mantinha contato frequente com minha mĂŁe.
Foi meu pai quem comprou aquele anel da Tiffanyâs para minha irmĂŁ, ou foi minha mĂŁe? Bem, foi um dos dois.
Eu não tinha expectativas em relação aos meus pais. A questão era que eu recebia dinheiro. Tinha uma conta exclusiva, e quando o saldo ficava baixo, fosse porque eles faziam depósitos ou por outro motivo, o saldo aumentava sozinho.
Nunca me faltou nada. Isso era suficiente. NĂŁo havia necessidade de esperar nada deles.
Quem se importa com aniversĂĄrio? Era sĂł um dia entre 365 no ano. Naturalmente, eu nĂŁo tinha contado aos meus amigos que hoje era meu aniversĂĄrio. Mesmo que perguntassem, eu nĂŁo diria.
âComo assim, vocĂȘ nĂŁo sabe meu aniversĂĄrio? Cara, vocĂȘ Ă© inĂștilâ, seria minha Ășnica resposta.
Mesmo assim, eu me esforçava para descobrir os aniversĂĄrios dos meus amigos e planejar festas para eles. Comprava pequenos presentes, essas coisas. Por que nĂŁo? Ă o bĂĄsico da decĂȘncia humana. Eu nĂŁo esperava nada em troca, tĂĄ? SĂł fazia isso porque queria.
Sim, isso não importava. Sério, não importava. Assim como o fato de hoje ser meu aniversårio.
â E? â Minha mĂŁe parecia ainda mais perto de perder a paciĂȘncia, por algum motivo.
Ela ia explodir comigo, sendo que eu é que deveria estar bravo? Virando sua taça, ela segurou o vinho na boca por um momento antes de engolir. Eu não suportava o jeito que ela bebia.
â E… nada, na verdade â murmurei.
â Se Ă© dinheiro que vocĂȘ quer, eu jĂĄ estou te dando, nĂŁo estou? Por que nĂŁo compra o que quer?
â NĂŁo Ă© isso…!
â Eu sei que vocĂȘ nĂŁo vai ficar feliz se eu te comprar algo, entĂŁo pode parar de esperar por isso? â ela rosnou.
â Eu nunca disse que queria que vocĂȘ comprasse algo, e eu nĂŁo quero!
â EntĂŁo o quĂȘ?! Seu irmĂŁo e sua irmĂŁ me mandaram mensagens no meu aniversĂĄrio e atĂ© me enviaram presentes, mas vocĂȘ nem sequer me desejou feliz aniversĂĄrio, sabia?! NĂŁo acha um pouco demais esperar que eu celebre o seu depois disso?! VocĂȘ nĂŁo faz nada, mas reclama que eu nĂŁo faço isso ou aquilo! VocĂȘ Ă© igual a ele! Quando olho para vocĂȘ, me dĂĄ nojo!
â EntĂŁo passe mal! â gritei. â Vomita, vomita atĂ© as tripas saĂrem! Engole seu vinho e depois bota tudo pra fora, sua vadia!
â Como vocĂȘ se atreve…!
De repente, minha mãe engasgou. Ela deixou cair a taça e levou as mãos à boca. Curvou-se no sofå.
Oh, droga. Tentei desviar o olhar rapidamente, mas era tarde demais. Vi claramente o momento decisivo.
â O que estĂĄ fazendo, nessa idade? â murmurei.
Eu sabia que ela estava bebendo muito, mas não pensei que chegaria ao ponto de vomitar. Isso me deixou enjoado também. Se eu não tomasse cuidado, ficaria nauseado. E, se isso acontecesse, seria o pior. O absoluto pior.
Minha mĂŁe parecia ter desistido e decidiu deixar tudo sair ali mesmo. Ela se inclinou sobre a mesa baixa em frente ao sofĂĄ, tossindo e engasgando.
Eu devia ter deixado essa mulher e voltado para meu quarto. Apesar disso, quando percebi, jå estava pegando uma caixa de lenços e jogando para ela.
â …Obrigada â disse minha mĂŁe de forma constrangida, em voz baixa, enquanto começava a limpar as mĂŁos e o rosto.
Nojento. Isso era patético demais. Eu nunca gostei da minha mãe, mas essa foi a primeira vez que senti um desprezo tão forte por ela.
â Um pano… â comecei a dizer, mas me calei. PorĂ©m, minha mĂŁe aparentemente jĂĄ tinha me ouvido.
â No banheiro, embaixo da pia…
â TĂĄ, tanto faz.
Sem pressa, mas com passos longos e råpidos, fui até o banheiro e abri as portas do armårio sob a pia. Baldes, panos e produtos de limpeza. Tentei encher um balde de ågua, mas a torneira atrapalhava, e não consegui colocar na pia.
â SĂ©rio que tenho que usar o chuveiro…?
Sem alternativa, usei o chuveiro para encher o balde e joguei o pano dentro. Quando levei o balde e o sabĂŁo para a sala de estar, minha mĂŁe disse: â Me desculpe.
Por quĂȘ, exatamente, ela estava pedindo desculpas? Queria perguntar, mas nĂŁo queria saber a resposta.
Deixei o balde e o sabĂŁo, voltei para o meu quarto, apaguei a luz e me joguei na cama. Assim que me cobri, tirei o uniforme, ficando apenas de camiseta e roupa de baixo.
Virei de lado e me encolhi. Eu ficava mais calmo nessa posição, com o braço direito entre as pernas e o esquerdo segurando os joelhos.
Mas era meu aniversĂĄrio, eu queria murmurar.
Sério, que piada.
Meu velho tinha cabelo permanente natural, mas meu irmĂŁo mais velho e minha irmĂŁ mais velha nĂŁo tinham nem um fio cacheado. A propĂłsito, o cabelo da minha mĂŁe era completamente liso. Dos trĂȘs irmĂŁos, eu era o Ășnico cacheado. Puxei ao meu pai.
Mas, sinceramente, eu tinha certeza de que ele me odiava. Nunca tinha me elogiado, nem uma vez. Mas me lembro de incontĂĄveis vezes em que ele ficou bravo comigo.
Ultimamente, ele nem mesmo brigava mais comigo. Mal nos encontråvamos. Talvez ele não me odiasse, mas simplesmente não ligasse. Meu irmão mais velho e minha irmã mais velha também não pensavam em mim. Mesmo hoje, no meu aniversårio, nenhum dos dois me mandou uma mensagem.
Eu tinha amigos. Muitos amigos. Sempre fui popular, sabe? Nunca faltavam pessoas para sair comigo.
Se eu dissesse que ia pagar, todos vinham. Se eu nĂŁo pagasse? Quem sabe. Eles estavam acostumados. Eu sempre os bancava. NĂŁo iam crescer para se tornarem adultos decentes.
Eram lixo. Ă, lixo. Nada alĂ©m de lixo.
Lixo. Lixo. Lixo. Lixo. Lixo. Lixo. Lixo. Lixo.
Este era um mundo podre, cheio de nada além de lixo coberto por mais lixo.
Argh, eu não me importava mais. Nada fazia diferença. Talvez fosse melhor ficar aqui, desse jeito, para sempre. Eu gostava de espaços apertados, afinal.
Estar sozinho não era ruim. Todo mundo era lixo, afinal. Nada além de lixo.
Vamos, pelo menos me mandem uma mensagem. Hoje era meu aniversĂĄrio.
Mas e daĂ? NĂŁo importava. NĂŁo tinha nada a ver com isso. NĂŁo significava nada. Droga, eu estava cansado. Tipo, sĂ©rio, tĂŁo can…
â» â» â»
â …Uh? â Ranta murmurou, esfregando os olhos.
Por um instante… ele tinha dormido?
â SĂ©rio? â murmurou.
NĂŁo se lembrava do que era, mas parecia que tinha tido um sonho. Provavelmente um sonho ruim.
Cara, eu sou corajoso mesmo, Elepensou, rindo baixinho.
Ranta estava numa ĂĄrvore.
Para descrever a ĂĄrvore com uma metĂĄfora, era como se dezenas… nĂŁo, centenas de cobras estivessem entrelaçadas, se apoiando umas nas outras enquanto tentavam alcançar o cĂ©u. Ranta estava escondido, encostado no tronco.
Claro, ele não estava ali para passar o tempo ou brincar. Obviamente. Ranta achava importante manter sempre um toque de brincadeira, mas, considerando que o cara que o perseguia, o velho Takasagi, era uma ameaça concreta e estava no seu encalço, ele não podia se dar esse luxo agora.
Por isso, quando a voz de Takasagi começou a se aproximar, Ranta percebeu que estava em apuros. Saiu do esconderijo na sombra da årvore e foi para dentro dela.
O tronco da årvore, que parecia feito de centenas de cobras entrelaçadas, não só parecia assim: era realmente formado por muitos troncos finos. Graças a isso, com um pouco de procura, ele encontrou uma abertura que parecia grande o suficiente para ele entrar.
Ele sabia que era uma jogada arriscada. De fora da ĂĄrvore, provavelmente nĂŁo dava para vĂȘ-lo. Da mesma forma, ele nĂŁo conseguia ver o exterior, entĂŁo era forçado a adivinhar a situação pelos sons.
Tinha dado trabalho entrar, então provavelmente sair também não seria fåcil. Isso significava que, se Takasagi descobrisse sua localização, ele não teria como fugir.
Seu coração estava disparado, para dizer o mĂnimo.
O velho gritava constantemente: â Ranta! Rantaaaaa!
A voz do velho estava cada vez mais perto.
Honestamente, sabe de uma coisa? Acho que talvez, sĂł talvez, eu tenha me ferrado.
Sim. Bem, claro? Se perguntassem se ele realmente pensava isso, nĂŁo era bem assim, ou talvez um pouco, mas talvez nĂŁo. Isso seria derrotismo, sabe? Ele era um homem que nunca duvidava de seu sucesso, okay? De que adiantava pensar no que aconteceria se falhasse? Ele resolveria isso quando chegasse lĂĄ. Era um homem raro, com sabedoria, coragem e nobreza tudo em um sĂł pacote, afinal…
Ele nĂŁo estava com medo. Nem um pouco. Isso podia ser dito com certeza.
Como prova, Ranta nĂŁo se mexeu nem um centĂmetro quando, bem ali pertoâera difĂcil dizer exatamente quĂŁo perto, mas provavelmente bem pertoâele ouviu a voz de Takasagi gritando: â Rantaaa!
Ele prendeu a respiração e ficou parado. Estava apavorado? Não, não, não. Não era isso, tå? Ele estava convencido de que ia ficar bem, entendeu? Era tudo tranquilo daqui para frente, afinal, sabe? Cara. Sério.
Queria poder mostrar a vocĂȘ quĂŁo calmo e autoconfiante Ranta-sama estava naquele momento, ele pensou, com um sorriso. Mostrar ao mundo inteiro e anunciĂĄ-lo para todos ouvirem. Algo como: âAqui estĂĄ o grande Ranta-sama, o mais poderoso de todos os cavaleiros das trevas!â
Seja como for, jĂĄ que nĂŁo podia fugir, ele tinha que ficar em silĂȘncio. Estava honestamente e verdadeiramente preparado para isso.
Mas, obviamente, nĂŁo esperava cair no sono, okay…?
Agora, entĂŁo.
Quanto tempo eu dormi?
Exatamente quantos minutos haviam se passado desde que ouviu a voz de Takasagi extremamente perto? Dezenas de minutos? Ou algumas horas?
Ele pensou nisso, masâ
Ă, sei lĂĄ. Como eu saberia? Sobre a duração do tempo e tal. Mas devo aguentar por mais um tempo, certo? Esse Ă© o momento de ser paciente, certo? O velho ainda pode estar por perto, afinal, nĂŁo Ă©? Se ele estiver, eu estaria encrencado, e muito. Tipo, uma quantidade insana de encrenca. PaciĂȘncia, paciĂȘncia. A ĂĄrvore. Torne-se parte da ĂĄrvore. NĂŁo, torne-se a prĂłpria ĂĄrvore. Eu sou uma ĂĄrvore. TĂŁo ĂĄrvore. NĂŁo importa como olhem pra mim, nĂŁo tem nada alĂ©m de ĂĄrvore. A ĂĄrvore mais arvoreante. Perfeitamente ĂĄrvore…
Ele… tentou ser paciente, sabe?
Estou sendo paciente.
Mas, ainda assim…
Ă difĂcil.
Isso Ă© sofrimento.
O que Ă© isso? Treinamento?
Meditação?
Sou um monge agora?
Por que eu seria um monge? Não sou nenhum santo. Isso não faz sentido. Mas, sério?
Eu tĂŽ querendo mijar.
Mijar aqui provavelmente nĂŁo seria uma boa ideia. Talvez ele tivesse que considerar isso num cenĂĄrio de pior caso, no entanto. Era desnecessĂĄrio dizer que Ranta-sama era um realista, e, se fosse preciso, ele faria o que fosse necessĂĄrio. Mas agora, era tĂŁo urgente assim? Isso era uma situação de crise? O fim do mundo estava prĂłximo? NĂŁo, nĂ©…?
Deixa eu falar logo. Um homem nĂŁo pode vencer sua bexiga. Isso Ă© um fato.
Bem, ele estava com os ouvidos atentos como um radarâsĂł que nĂŁo, porque ouvidos nĂŁo ficam atentos como um radar, isso vocĂȘ faz com os olhosâmas, deixando de lado se ouvidos podem ser como radar, ele prestou atenção enquanto segurava a bexiga e nĂŁo ouviu nada que indicasse que alguĂ©m estava por perto. EntĂŁo, provavelmente, estava tudo bem.
Takasagi com certeza tinha passado por ali. No entanto, ele nĂŁo estava mais por perto. Assim como o fim do mundo, Takasagi nĂŁo estava ali.
Ninguém tinha o direito de reclamar se ele chegasse a essa conclusão. Tipo, ele não aguentava mais segurar. Não podia. Ele tinha que mijar, mijar, mijar, droga. Se não o fizesse, ia virar um demÎnio do mijo. Ele podia implorar por ajuda, mas ninguém ia ajudå-lo, então teria que lidar com isso sozinho.
Basicamente, eu vou fazer isso!
Ă a Ășnica opção! SĂł isso!
Empurrando os troncos flexĂveis, ou galhos, ou o que quer que fossem, ele saltou para o mundo exterior. Naturalmente, olhou em volta e confirmou que nĂŁo havia ninguĂ©m por perto.
Olha, olha, olha, tå vendo? Não tinha ninguém, viu? Assim como ele pensou, certo? O que significava, basicamente, que estava tudo dentro do planejado, não estava? Nossa, ele ia explodir.
NĂŁo, calma, nĂŁo entre em pĂąnico, disse a si mesmo. Ele cantarolou algo enquanto relaxava, mas rapidamente abaixou as calças e…
â Ah… â Sua voz escapou.
A sensação de A-L-I-V-I-O…
Mas, nossa, como estava saindo. E como estava. Estava jorrando. Ele tinha segurado tanto assim?
Pensando bem, fazia uma eternidade que ele nĂŁo ia, entĂŁo tinha que estar segurando muito, mas serĂĄ que tanto mijo cabia numa Ășnica pessoa? Como assim? Esse volume de urina. NĂŁo era estranho? Era difĂcil acreditar que tudo isso era dele. SerĂĄ que seu sistema urinĂĄrio estava conectado a algum outro lugar? Tipo, um tanque com urina de dez pessoas? Ele suspeitava que, na verdade, esse mijo vinha dali…
â Ooh… â Ele estremeceu.
Parece que acabou tudo.
Ranta esqueceu de guardar as partes Ăntimas na calça enquanto soltava o suspiro mais profundo de todos.
Essa sensação de realização, não era algo para subestimar.
Tipo, sei lå. Talvez eu tenha nascido para este momento? E assim, vou começar a caminhar de novo para criar minha lenda?
Para exagerar um pouco, naquele momento, Ranta estava mergulhado numa sensação de ter se tornado um deus todo-poderoso e onisciente. Tudo ia dar certo, e nada era impossĂvel. Ele acreditava nisso, entĂŁo, quando de repente ouviu seu nome sendo chamado, nunca esperou por isso.
â Ranta!
Foi por isso que nĂŁo parecia real, e Ranta virou-se lentamente.
Um homem com um olho e um braço só saiu da sombra de uma årvore, a cerca de dez metros de distùncia.
â EntĂŁo era aĂ que vocĂȘ estava, hein? â disse ele.
O primeiro pensamento de Ranta foi algo como: Essa deveria ser a minha fala, mas ele não conseguiu dizer nada. Em vez disso, um soluço escapou.
â Eep…
Takasagi parou de andar e franziu o cenho.
â Ei. â Ele fez um gesto com o queixo.
Com isso, Ranta finalmente respondeu: â …Sim, senhor.
O que eu tĂŽ fazendo dizendo âSim, senhorâ? NĂŁo somos professor e aluno, pensou ele, profundamente envergonhado por um momento.
No entanto, pensando bem, o relacionamento deles nĂŁo tinha sido tĂŁo diferente do de um mestre e um aprendiz por um curto perĂodo.
Bem, talvez isso seja normal entĂŁo, pensou Ranta. NĂŁo, nĂŁo Ă©. SerĂĄ que Ă©? Hm. Qual Ă© a certa…?
â Por enquanto, dĂȘ um jeito nessa coisa aĂ â disse o velho.
â …Que coisa?
â NĂŁo me diga que saiu do esconderijo sĂł para mijar.
â Ah…!
Ranta percebeu que a âcoisaâ ainda estava exposta e rapidamente a colocou de volta dentro das calças. Com um movimento atrapalhado, sacou RIPer e assumiu uma posição de combate.
Takasagi nĂŁo dava o menor sinal de colocar a mĂŁo na bainha de sua katana. O que serĂĄ que ele enxergava com aquele olho direito? O que exatamente aquele homem estava pensando? Sua expressĂŁo parecia dizer algo como âTalvez seja hora de um cigarroâ, mas claramente nĂŁo era isso.
Ranta respirou fundo. Seu corpo parecia encolher. VocĂȘ nĂŁo pode se mover assim. Esse velho vai te derrubar com um sĂł golpe. Concentre-se, cara! Ele se alertou. Ou serĂĄ que vocĂȘ deveria relaxar? DifĂcil dizer. Espera aĂ, como Ă© que vocĂȘ pode relaxar, seu idiota?!
A distùncia entre ele e Takasagi era de cerca de sete metros. Serå que ele devia usar o Leap Out para se aproximar com um ataque surpresa? Não, de jeito nenhum. Esse adversårio não era alguém que cairia nessa.
Takasagi estava sozinho? Tinha aliados? Ele gostaria de olhar ao redor, mas seria perigoso tirar os olhos de Takasagi agora. Muito perigoso. Seria praticamente suicĂdio. SĂ©rio, sĂ©rio, esse velho Ă© insano. Isso Ă© ridĂculo.
Em pouco tempo, Ranta jĂĄ estava suando.
â SĂł quero dizer uma coisa… â Takasagi suspirou. Ele girou o pescoço, e houve um som de estalo vindo da articulação. Aquele barulho fez Ranta saltar, e ele sentiu uma vergonha ardente por ter reagido assim.
â …O-O-O quĂȘ?
â VocĂȘ nĂŁo tem nem uma chance em um milhĂŁo de me derrotar agora.
â S-Se Ă© uma chance em um milhĂŁo, vale a pena tentar, pelo menos…
â Eu disse que vocĂȘ nĂŁo tem nem essa chance em um milhĂŁo.
â Isso Ă© o que vocĂȘ pensa! NĂŁo dĂĄ pra saber atĂ© eu tentar!
â EntĂŁo tente. Estou aqui.
Takasagi sacou sua katana com facilidade.
Seu braço esquerdo pendia inerte, e a ponta da espada quase tocava o chão.
Mesmo eu sei disso, pensou Ranta, cerrando os dentes. Não sou idiota. Estou bem ciente de que ele não é um adversårio que eu posso vencer. Qual é a diferença entre nossas habilidades?
Se Ranta fosse nĂvel 50, Takasagi seria nĂvel 99…
Huh? NĂvel? Que tipo de nĂvel? Bem, nĂvel de combate, ou algo assim? Seja como for, mesmo que nĂŁo fosse o dobro de sua força, Takasagi estava perto disso. E isso jĂĄ era uma diferença enorme. Para dar um exemplo, Ranta tinha cerca de 1,70m de altura, entĂŁo o dobro seria algo como 3,40m. Se ele lutasse contra um cara assim, sua chance de vencer seria zero.
Havia alguma abertura que ele pudesse explorar?
Fundamentalmente, nĂŁo havia nenhuma.
Esse homem nunca se descuidava. Se parecesse que havia uma brecha, isso era ainda mais motivo para ter cautela; provavelmente seria uma armadilha.
Como esse homem de um braço só, um olho só e de meia-idade era tão poderoso?
Por um curto perĂodo, Takasagi havia treinado Ranta como um mestre treina um discĂpulo. EntĂŁo, claro, Ranta tinha pensado sobre isso Ă sua maneira. Qual era o segredo do poder de Takasagi?
Em termos de habilidades fĂsicas, provavelmente nĂŁo eram acima da mĂ©dia. Isso significava que ele nĂŁo era excepcionalmente rĂĄpido ou forte. Quanto Ă resistĂȘncia, ele jĂĄ nĂŁo era jovem, entĂŁo devia estar alĂ©m do auge. Seria a experiĂȘncia? Ele tinha isso, obviamente. Mas isso certamente nĂŁo podia ser tudo.
Não era só Takasagi. Havia algo que todos os caras fortes pareciam ter em comum, e isso era determinação. Se havia algo sobre os caras fortes, acima de tudo, era que nada os abalava. Mesmo em uma crise em que deveriam pensar: Estou ferrado. Vou morrer com certeza, eles permaneciam completamente calmos, não é? Eles tinham a coragem necessåria para ser assim.
SerĂĄ que todos os caras durĂ”es eram insensĂveis? SerĂĄ que nĂŁo sentiam medo ou ameaça?
Provavelmente nĂŁo era isso. Se fosse, seriam apenas idiotas.
Não era que eles não tivessem medo; era que sabiam que agir assustados não ajudaria em nada, e lidavam com a ameaça reconhecendo-a como tal, mas sem se deixarem dominar por ela. Era isso, não era?
Takasagi era assustador. Super assustador. Tão assustador que, mesmo jå tendo se aliviado, Ranta podia acabar molhando as calças. Quando ele tinha um inimigo tão assustador bem na sua frente, o que poderia fazer?
Ele parou de suar.
Sua respiração, que estava ofegante até então, se normalizou.
Os lĂĄbios de Takasagi se curvaram para cima de um lado.
â Ă, isso Ă© bom.
Ele acha que Ă© meu professor ou algo assim?
Não, se eu ficar bravo, as coisas vão continuar como antes. Preciso olhar para a situação como ela é e aceitå-la. Não sei o que Takasagi quer, mas isso não importa. Hå muito o que aprender com ele. à isso que importa.
â E agora, sensei? â perguntou Ranta.
O Ășnico olho de Takasagi estreitou-se um pouco.
â NĂŁo sou um professor de palavras. VocĂȘ vai ter que aprender enquanto fazemos.
â Ah, Ă©? Bem, tudo bem entĂŁo. â Ranta saltou direto para trĂĄs. â Isso me serve melhor tambĂ©m!
Exhaust. Para quem assistisse, podia parecer que ele estava apenas pulando, mas era diferente. Quando uma pessoa comum tentava pular alto ou longe sem impulso, ela dobrava os joelhos, agachava e então os esticava rapidamente para saltar. Cavaleiros das trevas faziam diferente. Eles usavam um método especial em que, em vez de dobrar, torciam os tornozelos, joelhos e quadris, gerando instantaneamente uma explosão de força.
AlĂ©m disso, alternando o impulso dos calcanhares e das pontas dos pĂ©s, aumentavam ainda mais a propulsĂŁo. Essa tĂ©cnica especial, chamada de Shadow Step, era, de certa forma, o que definia um cavaleiro das trevas. Usava mĂșsculos das pernas que geralmente nĂŁo eram utilizados, entĂŁo nĂŁo podia ser aprendida apenas observando, e provavelmente sĂł um cavaleiro das trevas sabia exatamente como funcionava.
Por causa de Shadow Step, as panturrilhas dos cavaleiros das trevas eram anormalmente desenvolvidas e deformadas. Além disso, o uso do Shadow Step não só aprimorava as habilidades de movimento, como Exhaust, Leap Out e Missing, mas também aumentava a precisão de vårias técnicas de ataque, como Hatred.
A diferença de poder entre os dois era óbvia, mas Takasagi não era um cavaleiro das trevas. Havia coisas que Ranta, como cavaleiro das trevas, podia fazer e Takasagi não.
Se havia algo em que Ranta tinha vantagem sobre Takasagi, era isso: o fato de ele ser um cavaleiro das trevas.
â Ă sĂł conversa, Ranta…?
Takasagi avançou imediatamente. Para um homem de meia-idade, ele era absurdamente råpido ao arrancar. Dito isso, não era tão råpido quanto o Exhaust de um cavaleiro das trevas.
Sem dizer uma palavra, Ranta usou Exhaust uma segunda, depois uma terceira vez, ganhando ainda mais distĂąncia de Takasagi. Se pudesse usar Exhaust para sempre, seria possĂvel fugir assim. No entanto, obviamente, isso era impossĂvel. O Vale dos Mil tinha muitas ĂĄrvores e o terreno era irregular.
No meio de seu quarto Exhaust com Shadow Step, enquanto desviava de årvores, quase prendeu o pé em um galho seco. Ele não podia se dar ao luxo de cair. Tropeçando um pouco, Ranta parou.
Takasagi estava se aproximando. Ainda estava a mais de dez metros de distùncia. Bem, talvez doze ou treze metros. Ranta tinha espaço para manobrar.
â AtĂ© logo, velho…!
Ranta virou as costas para Takasagi. Se isso fosse uma brincadeira de pega-pega, sendo mais jovem, Ranta nĂŁo perderia.
Além disso, ele tinha uma vantagem inicial de doze metros, então podia fugir. Fazer parecer que iria lutar, depois escapar. Isso era bem a cara de Ranta. Um movimento comum, mas eficaz.
Enquanto confirmava as posiçÔes das årvores, Ranta correu por mais vinte metros.
A distĂąncia entre ele e Takasagi mal havia mudado.
E os caras da Forgan? Por enquanto, ele nĂŁo via nenhum. SerĂĄ que eles nĂŁo estavam por ali?
Ă hora?
No momento em que pensou isso, Ranta saltou para trĂĄs com Exhaust sem hesitar.
Torcendo o corpo no ar, ele usou Leap Out. Ele se lançou contra Takasagi.
Takasagi… riu.
Ria. Ria o quanto quiser.
Ranta desceu RIPer em um golpe diagonal.
Hatred. Um golpe com toda a sua velocidade e força, mas a katana de Takasagi desviou facilmente. Ranta estava sendo tratado como uma criança.
Claro.
Eu sabia que seria assim.
Ranta recuou imediatamente usando Exhaust. Em seguida, usou Missing. Com essa habilidade, explicando de forma simples, ele balançava a parte superior do corpo para a esquerda ou direita e saltava na direção oposta. A maioria das pessoas confiava na visão, o que tornava fåcil enganå-las com esse movimento. O oponente se fixava nos movimentos do cavaleiro das trevas, seguindo instintivamente a direção para onde o tronco dele balançava. No entanto, Ranta se movia para o lado oposto, dando a sensação de que desaparecia por um instante.
Mas Takasagi nĂŁo se deixou enganar. Seu Ășnico olho estava fixo em Ranta.
Isso significava que truques como aquele nĂŁo funcionariam contra um veterano endurecido como ele.
Se não fosse por mais nada, pelo menos estava claro agora. Takasagi parecia alguém que se destacava em enganar os adversårios, afinal. Mas Ranta não tinha intenção de lutar com ele dessa maneira.
Ranta usou Leap Out na diagonal para a esquerda, afastando-se cerca de sete ou oito metros de Takasagi.
Takasagi nĂŁo se moveu. Ele estava esperando. SerĂĄ que ele tinha percebido tudo?
Impressionante, velho. Mas eu nĂŁo vou desistir sĂł porque vocĂȘ consegue prever meus movimentos. Eu vou continuar.
Ranta torceu o corpo, usou Exhaust e, em seguida, combinou com Leap Out. Era o mesmo ataque de antes, mas desta vez ele nĂŁo brandiu a RIPer.
Ele estocou.
Anger.
Takasagi nĂŁo bloqueou com a katana. Ele desviou suavemente para a esquerda.
AĂ vem um contra-ataque… uĂ©?
Ranta usou Missing, fingindo que ia para a esquerda, e entĂŁo saltou para a direita.
Takasagi não levantou a katana. Parecia ter hesitado, mas quem saberia ao certo? O movimento da parte superior de seu corpo com o Missing deveria ter um efeito ainda mais forte a curta distùncia, então talvez até mesmo Takasagi tivesse pensado: Oh!
SerĂĄ que ele poderia usar isso?
Era hora de testar.
Mesmo que mantivesse a calma e usasse toda a sua força e habilidade, isso não seria suficiente por si só. O poder de Ranta estava muito longe de se equiparar ao de Takasagi, então ele precisava de algo a mais.
Ele usou Exhaust e Leap Out novamente para ganhar distùncia, torceu o corpo e então usou as mesmas habilidades para avançar na direção de Takasagi.
Ranta assumiu a posição de Hatred. A distùncia era a mesma de Hatred também.
Takasagi estava se preparando para bloquear com a katana. Talvez desta vez, ao invés de desviar o ataque, ele pretendesse repelir.
Antes que isso acontecesse, Ranta usou Missing, fingindo que ia para a esquerda, e saltou para a direita enquanto balançava a espada.
Parecia que ele tinha conseguido surpreender Takasagi, que recuou para evitar a lĂąmina de Ranta.
â Interessante.
Ah, Ă©? Isso Ă© interessante para vocĂȘ, velho? Bem, eu sĂł estou começando, pensou Ranta, mas nĂŁo disse nada. Era preciso muita perseverança para lutar sem falar. Mas Ranta precisava fazer isso.
Ele usou Exhaust e Leap Out para se afastar de Takasagi.
Remova tudo o que for desnecessĂĄrio.
Finalmente ele começava a entender.
Eu nunca estive sério de verdade. Quero ficar mais forte. Eu vou ficar mais forte. Eu com certeza vou. Eu só falava da boca pra fora. Talvez eu achasse que estava dando meu måximo, mas isso nem chegava perto.
Pois é, né? Quando surgia uma crise, eu me esforçava ao måximo. Mas isso vale para qualquer um. Não importa o quanto alguém seja um idiota despreocupado, a pessoa fica desesperada quando as coisas ficam ruins. Eu só fazia o que qualquer um faria, mas me achava demais, pensando que estava agindo da forma certa.
Eu era ingĂȘnuo.
No fim, fui complacente.
Deve haver mais coisas que eu poderia ter feito, mas eu nĂŁo fiz.
EntĂŁo, o que eu fiz?
Eu culpei os outros.
âEstou fazendo o que devo fazer muito bem, entĂŁo qual Ă© o problema com vocĂȘs? VocĂȘs sĂŁo um bando de inĂșteis sem nenhum talento, nĂŁo Ă©? Bem, acho que nĂŁo posso culpĂĄ-los. No fim das contas, somos apenas os restos. Um bando de peixes pequenos. Eu sou diferente, no entanto, sabem? Quero dizer, eu jĂĄ sabia disso desde o começo. Eu percebo muitas coisas. Nunca esperei nada de vocĂȘs, para começo de conversa, tĂĄ bom? Apenas façam o melhor que puderem. Mas, de qualquer forma, se tivermos sucesso, serĂĄ graças a mim, e se falharmos, serĂĄ culpa de vocĂȘs. Haruhiro. Especialmente vocĂȘ. Ă culpa sua por ser o lĂder sem ter aptidĂŁo para isso. NĂŁo Ă© por isso que estamos nesse estado lamentĂĄvel? Porque vocĂȘ erra em tudo. Se Ă© isso que vocĂȘs conseguem fazer, entĂŁo por que eu deveria ser melhor?â
NĂŁo Ă© como se eu realmente pensasse assim, Ranta refletiu. Mas parte de mim olhava para vocĂȘs com uma sensação de superioridade. Mesmo que vocĂȘs façam tudo o que puderem com a Ășnica vida que tĂȘm, hĂĄ limites para o que conseguem fazer. Quero dizer, olhem para vocĂȘs.
Eu sou diferente. Porque estou com vocĂȘs, parece que nĂŁo consigo subir na vida, mas se eu me juntasse a uma party melhor, eu trabalharia como um louco e alcançaria coisas incrĂveis. Eu sou um cara que o prĂłprio Renji reconheceu, tĂĄ bom? Eu sou feito de outra matĂ©ria comparado a vocĂȘs. Outra matĂ©ria.
Mesmo acreditando nisso, no fundo, ele provavelmente também sentia uma pontada de incerteza.
Ranta girou o corpo e usou Exhaust, seguido de Leap Out, fechando a distĂąncia com Takasagi. Dessa vez, foi com Anger.
Takasagi apoiou o peso na perna direita e ergueu ligeiramente a katana. Apesar disso, a ponta ainda estava abaixo da cintura, em uma postura defensiva e baixa. Ele observava, atento ao que Ranta faria. Takasagi havia ficado cauteloso. Ranta o forçou a erguer a guarda.
Mas não fique feliz, disse a si mesmo. Não deixe isso subir à cabeça.
Ranta nĂŁo desencadeou Anger. Em vez disso, usou Missing no Ășltimo momento, fingindo ir para a direita e saltando para a esquerda. No entanto, nĂŁo balançou a espada. Takasagi acompanhava seus movimentos com os olhos perfeitamente. Sua katana nĂŁo se movia nem um centĂmetro.
E que tal isso?
Ele usou Missing mais uma vez.
Takasagi ergueu a katana ligeiramente.
Ranta atacou com Hatred.
A katana de Takasagi colidiu com RIPer, e faĂscas voaram.
Quando as lùminas quase se entrelaçaram, Ranta usou Reject. Com os pulsos, cotovelos, ombros, cintura e até as pernas, ele empurrou o oponente para longe.
Takasagi deu apenas um passo para trås antes de se estabilizar. Ele avançou contra Ranta.
Ranta recuou com Exhaust. Mais Exhaust. E mais uma vez.
Takasagi nĂŁo perseguiu.
Ranta respirou fundo e relaxou. Tenho potencialâou pelo menos deveria ter.
Mas, sério, sério, é só isso que eu consigo?
O verdadeiro eu Ă© mais forte?
A razĂŁo de eu nĂŁo conseguir mostrar todo o meu poder Ă© porque ando com um bando de fracotes?
Mas, mesmo assim…
Se eu me esforçasse ao limite dos limites, até onde não pudesse mais, com treino ou qualquer coisa, e isso fosse tudo o que eu fosse capaz de fazer, eu ficaria mais do que chocado.
Eu sei. Gritar o tempo todo no meio do combate Ă© inĂștil. Eu invento esses nomes de ataques especiais, mas eles nĂŁo sĂŁo tĂŁo especiais assim. O Haruhiro e os outros estĂŁo se esforçando de verdade, de verdade mesmo, atĂ© o limite deles, e eu… na verdade, estou sendo salvo por eles. Eu sei. Mas esse nĂŁo Ă© meu estilo, Ă©? Ficar focado em uma Ășnica coisa feito um idiota e continuar nisso. Ficar pensando demais sobre isso e aquilo. Eu sou assim, e eles nĂŁo tentam me parar de verdade, entĂŁo qual o problema?
Tenho energia sobrando. Ainda tenho espaço para crescer. Isso é fåcil para mim. Fåcil. Por que eles levam tudo tão a sério? Eles são sérios demais. Que bando de estraga-prazeres. Sério mesmo.
VocĂȘs sĂŁo tĂŁo sĂ©rios, e isso Ă© tĂŁo chato. NĂŁo Ă© legal, okay. Quero dizer…
Quero dizer, vocĂȘs se esforçam ao mĂĄximo, se cobrem de sangue e lama, continuam se esforçando, e, se isso nĂŁo der certo, o que acontece…?
âEu nĂŁo consigo me dar bem com elesâ Eu pensei. âNossas filosofias sĂŁo diferentes. Nossas crenças nĂŁo batem. Existe uma diferença entre o modo como eles pensam e como eu penso. No fim, somos incompatĂveis. Esse nĂŁo Ă© meu lugar.â Mas, bem, continuar com algo porque jĂĄ comecei? Isso existe. Aguentei firme e consegui chegar atĂ© aqui.
Mas, eventualmente, nossos caminhos iriam se separar. Sempre seria assim. Porque tinha que existir, em algum lugar, o lugar onde eu pertenço. Pessoas de quem eu realmente gostasse, de coração. Eles me valorizariam de verdade, e eu os respeitaria também.
A razĂŁo de eu ser assim, Haruhiro, Ă© culpa sua.
NĂŁo Ă© minha culpa. Eu nĂŁo estava errado. Eu nĂŁo sou fraco.
Eu sou o vilĂŁo. Todos me odeiam. Tudo bem. NĂŁo me incomoda nem um pouco. Esse tipo de papel, na verdade, Ă© mais fĂĄcil de interpretar, sabe?
Eu nĂŁo preciso ser amado. Se eu aceitar isso, nĂŁo preciso me preocupar com as necessidades de vocĂȘs. NĂŁo preciso me contorcer. Posso fazer o que eu quiser. Ă, falem o que quiserem. NĂŁo importa o que vocĂȘs pensem, eu estou bem, droga.
â Rantaaa.
Takasagi ergueu sua katana. A mão esquerda, que segurava o cabo da arma, estava próxima ao queixo. A lùmina inclinava-se um pouco para a direita de Ranta. Seu pé esquerdo estava à frente. Os joelhos dobrados e os quadris abaixados.
Ranta nĂŁo entendia muito sobre o uso de uma katana, mas, especulando, aquilo provavelmente era uma postura tanto ofensiva quanto defensiva.
Na prĂłxima vez, logo no inĂcio, ou seja, quando Ranta tentasse atacar, Takasagi pretendia esmagĂĄ-lo. NĂŁo deixando sequer que ele começasse, por assim dizer. Takasagi jĂĄ tinha visto o suficiente dos movimentos de Ranta e os compreendido. Pelo menos, era nisso que Takasagi confiava.
Ele acha que pode me subestimar.
Bora ver entĂŁo!
Se acha que pode me parar, vem tentar!
Se fosse o mesmo de antes, Ranta teria deixado o sangue subir à cabeça e avançado contra Takasagi daquele jeito. Isso seria não demonstrar nenhum crescimento.
Estavam a oito metros de distĂąncia. Ranta deliberadamente parou.
â …HĂŁ? â Takasagi franziu ligeiramente a testa.
NĂŁo se preocupe. NĂŁo perdi a coragem. Sou um cavaleiro das trevas.
Ele podia lutar como um cavaleiro das trevas. Era sua Ășnica vantagem.
E um cavaleiro das trevas tinha mais do que apenas habilidades de movimento.
â Ă EscuridĂŁo…
Quando Ranta começou a conjurar seu feitiço, Takasagi avançou. Ranta, de alguma forma, conseguiu continuar a entoação sem perder a concentração.
â Ă Senhor do VĂcio, Demon Call.
â Seu cĂŁo de Skullhell…! â A katana de Takasagi avançou. NĂŁo foi um corte nem uma estocada. Era como se o braço de Takasagi tivesse se fundido Ă katana, transformando-se em um chicote.
Foi por muito pouco. Se tivesse sido um instante mais lento ao recuar com Shadow Step, Ranta teria caĂdo vĂtima da katana de Takasagi. Se tivesse entrado em pĂąnico e fugido um pouco antes, mesmo conseguindo manter a entoação enquanto corria, o feitiço talvez nĂŁo tivesse sido concluĂdo.
No lugar onde Ranta estava um momento antes, bem atrås de Takasagi, uma espécie de nuvem negra arroxeada apareceu. A nuvem rapidamente formou um redemoinho.
Ofegando, Takasagi começou a se virar, então saltou para o lado.
A nuvem jĂĄ estava tomando uma forma familiar. Parecia um humano coberto por um lenço roxo, empunhando uma faca na mĂŁo direita e uma arma semelhante a um porrete na esquerda. Apesar de flutuar, tinha duas pernas bem definidas, o que lhe conferia um aspecto estranhamente ârealâ. Seus olhos pareciam buracos, e abaixo deles havia algo como uma boca em forma de fenda.
Seu nome era Zodiac-kun.
O demĂŽnio do cavaleiro das trevas Ranta.
â Kehe… Ehehehehe…! Quanto tempo, Ranta inĂștil…! VĂĄ morrer dez mil vezes agora mesmo…!
â NĂŁo… â Takasagi balançou sua espada com força. â Quem vai morrer Ă© vocĂȘ!
Zodiac-kun deu um salto mortal flutuante para trĂĄs, desviando do golpe de Takasagi.
â Kehe… Kehehe… Quer morrer antes do Ranta, idoso…?
â Eu nĂŁo sou idoso! Estou apenas na meia-idade!
Takasagi avançou contra Zodiac-kun. Ele parecia surpreendentemente irritado.
Zodiac-kun recuava, escapando de Takasagi. Ăs vezes fazia mais um salto mortal flutuante ou se torcia para desviar da katana de Takasagi.
Enquanto recuperava o fĂŽlego, Ranta observava Takasagi. SerĂĄ que alguĂ©m como ele perderia a compostura tĂŁo facilmente? Ele nĂŁo sabia. Poderia ser um truque, ou talvez Takasagi fosse sensĂvel ao envelhecimento e tivesse se irritado sem querer. Ranta nĂŁo conseguia dizer qual era o caso.
Takasagi era um bom ator. NĂŁo revelava o que sentia com facilidade. Isso significava que ele estava atuando? Tentando atrair Ranta? Ou seria seu objetivo confundi-lo?
Cada movimento tem um propĂłsito.
Isso Ă© uma batalha, huh.
Tenho que usar minha cabeça ao måximo assim?
Que saco. NĂŁo consigo fazer isso. Melhor resolver isso de uma vez. NĂŁo Ă© hora de dizer adeus ao meu velho eu, que pensava assim?
â Ă EscuridĂŁo, Ă Senhor do VĂcio, Dread Venom! â Ranta invocou um miasma escuro e tentou envolver Takasagi nele.
Takasagi fugiu do miasma e de Zodiac-kun. Ele corria com uma agilidade que ninguém esperaria de um homem de meia-idade, afastando-se rapidamente. O miasma tinha pouca capacidade de persegui-lo. Porém, Ranta havia previsto a direção em que Takasagi recuaria.
Ranta usou Leap Out para pular na direção de Takasagi e desferiu um Slice. Ele balançou RIPer em um movimento em forma de oito. Não, no meio do movimento, a espada de Ranta foi desviada pela katana de Takasagi.
â Kehe…! â Zodiac-kun alcançou Takasagi e estava descendo com sua arma parecida com uma faca.
Foi aĂ que Takasagi fez algo incrĂvel. Ele provavelmente girou, cortando diagonalmente para baixo com sua katana, e imediatamente, sem parar, girou novamente e golpeou para cima.
Zodiac-kun, de alguma forma, bloqueou com sua arma, e Ranta fez o mesmo com sua espada, mas…
Ranta caiu de costas, com as mĂŁos dormentes, quase deixando sua espada cair, enquanto Zodiac-kun foi arremessado a cinco ou seis metros de distĂąncia.
Que poder.
Eu mal consegui ver tambĂ©m. Foi diabolicamente rĂĄpido, sabe…?
NĂŁo, agora nĂŁo era hora de se surpreender. Ranta se inclinou e usou Exhaust, criando alguma distĂąncia entre ele e Takasagi.
Que merda…
Vai se ferrar, velho.
â EntĂŁo vocĂȘ consegue, se tentar, Rantaaa. â Takasagi bateu com o lado plano da katana no prĂłprio ombro esquerdo, exibindo um sorriso torto.
Isso Ă© fĂĄcil para vocĂȘ, nĂ©?
Ă, faz sentido. Agora hĂĄ pouco, Takasagi tinha deixado Ranta escapar. Enquanto Ranta estava sentado no chĂŁo, ele poderia tĂȘ-lo partido ao meio, se quisesse. Ele deliberadamente escolheu nĂŁo fazer isso.
Takasagi soltou uma risada gutural.
â VocĂȘ acabou de morrer uma vez.
Por quĂȘ? Por que ele nĂŁo me matou? Ele quer que eu fique em dĂvida com ele? SerĂĄ que ainda estĂĄ bancando o professor ou algo assim? Vai se ferrar. Vai se ferrar atĂ© morrer.
â …Ă. â Ranta aceitou tudo.
Zodiac-kun estava olhando para ele, mas nĂŁo soltava nenhuma das provocaçÔes verbais que eram sua especialidade. No fundo de seus olhos parecidos com buracos, algo brilhouâou talvez Ranta sĂł estivesse imaginando.
â VocĂȘ estĂĄ certo. â Ranta reconheceu, suspirando. â Mas eu nĂŁo estou morto. Isso significa que eu ainda posso lutar com vocĂȘ.
â Nem tanto. â Takasagi deu de ombros e fungou. Ele olhou para baixo, mas logo ergueu o rosto e fixou seu Ășnico olho em Ranta. â SĂł vou dizer uma coisa. Vamos perdoar vocĂȘ sĂł dessa vez. O chefe nĂŁo estĂĄ bravo. NĂŁo sei sobre o resto, mas se eu ficar do lado do chefe, eles vĂŁo obedecer. Volte comigo, Ranta.
Ranta tentou abrir a boca. Mas o que ele deveria dizer…?
Tenho que te ouvir? Ă isso que vocĂȘ realmente sente, velho? VocĂȘ nĂŁo estĂĄ tentando me pegar de surpresa, estĂĄ? NĂŁo faria isso, nĂ©. VocĂȘ faria se precisasse, claro, mas nĂŁo contra mim. Mesmo sem fazer isso, vocĂȘ pode me matar. Nesse caso…
VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio?
Quer dizer isso de verdade?
VocĂȘ veio atĂ© aqui, nĂŁo para me matar por ter apunhalado vocĂȘ pelas costas, mas para me trazer de volta?
VocĂȘ vai me perdoar?
Eu, que basicamente cuspi na cara de vocĂȘs? Eu posso ser perdoado? VocĂȘ estĂĄ dizendo que posso voltar para a Forgan? Isso Ă© mesmo…
Ranta piscou. NĂŁo uma vez. Ele piscou repetidamente. Sentiu algo se acumulando no fundo do nariz. Seus olhos estavam irritados. Ele quase estalou a lĂngua. Cerrou os dentes.
Não faça isso.
NĂŁo diga essas coisas para mim.
Eu finalmente me decidi a sair, e vocĂȘ vai me segurar.
â …Eu estava no meu limite â disse Ranta.
Mesmo que o velho dissesse aquilo, eu nĂŁo deveria estar dizendo essas coisas. Isso nĂŁo Ă© bom. Fique de boca fechada. Eu os apunhalei pelas costas. Foi uma traição clara, e eu fiz isso com um: âHeh, o que acharam disso?â
NĂŁo importa o que eu diga agora, Ă© sĂł uma desculpa. Tudo bem. Foi por isso que eu os traĂ desse jeito. Para que, mesmo se eu quisesse voltar, nĂŁo pudesse.
â Se eu continuasse com vocĂȘs… eu me tornaria um membro da Forgan, de corpo e alma â disse Ranta. â Eu sentia que começaria a amar vocĂȘs de verdade. Viver e morrer com vocĂȘs. Sentia que começaria a aceitar isso sem nenhuma dĂșvida… Esse era meu limite. Eu estava em uma encruzilhada. Eu tinha que fazer uma escolha. Me tornar um membro da Forgan, ou…
â Ou o quĂȘ?
â …Continuar sendo eu mesmo.
â Quando vocĂȘ diz âvocĂȘ mesmoâ, o que quer dizer?
â Tipo… O eu de antes de encontrar vocĂȘs.
â O vocĂȘ que estava perdendo tempo, brincando com um bando de moleques que mal conhecia?
â NĂŁo era que eu estivesse brincando.
â Huh?
â Pareceu que estĂĄvamos brincando, nĂ©? Mas cada um deu o seu melhor Ă sua maneira. Passamos por muita coisa, e alguns atĂ© morreram.
â Se vocĂȘ estĂĄ vivo, todo mundo morre eventualmente. VocĂȘ e eu tambĂ©m. AtĂ© o nosso chefe, que parece impossĂvel de matar. Mesmo Arnold, o morto-vivo, se vocĂȘ partir a cabeça dele ao meio, ele fica quieto de vez. E daĂ?
â …Eu tinha um parceiro. NĂŁo fui forte o suficiente e deixei ele morrer.
â VocĂȘ âdeixouâ ele morrer? Palavras grandes, hein, Ranta. VocĂȘ se acha tĂŁo importante a ponto de carregar a vida e a morte de outras pessoas nas costas?
â Se eu tivesse mais controle, ele talvez nĂŁo tivesse morrido.
â NĂŁo, estĂĄ errado. Ele morreu porque nĂŁo teve a sorte ou o poder pessoal para lutar contra o destino. Ă assim que todos nĂłs morremos, cada um por conta prĂłpria.
â Tenho certeza de que vocĂȘ estĂĄ certo â disse Ranta. â Velho, provavelmente Ă© exatamente como vocĂȘ diz. Se eu ficasse na Forgan, eventualmente pensaria como vocĂȘ. Mesmo que vocĂȘs se deem bem, nĂŁo sĂŁo grudados de forma estranha. Cada um se sustenta sozinho. Mesmo andando com caras que pensam como vocĂȘ, sabe que vai estar sozinho quando morrer. Ă assim que Ă©. VocĂȘs sĂŁo homens de verdade. SĂŁo incrĂveis, e eu respeito isso. Quero ser como vocĂȘs tambĂ©m.
â EntĂŁo seja como nĂłs. NĂŁo vacile por qualquer coisa e viva com coragem, seja a vida longa ou curta. Ă essa a determinação que vocĂȘ precisa.
â Seria uma mentira.
â O quĂȘ?
â Esse nĂŁo Ă© o tipo de pessoa que eu sou. Eu poderia ficar na Forgan e imitar vocĂȘs. Tenho certeza de que me divertiria. Mas esse nĂŁo sou eu de verdade.
â Um conselho de um cara de meia-idade. Ouça, Ranta. NĂŁo existe algo tĂŁo importante quanto um âvocĂȘ verdadeiroâ que estĂĄ por aĂ em algum lugar. Isso nĂŁo serve sĂł para vocĂȘ. Serve para mim tambĂ©m. NĂŁo ache que hĂĄ um caminho preparado de antemĂŁo para nenhum de nĂłs. Se vocĂȘ vĂȘ um caminho Ă sua frente, Ă© uma ilusĂŁo. O caminho Ă© deixado para trĂĄs conforme vocĂȘ o percorre. Quando vocĂȘ olha para trĂĄs e vĂȘ as pegadas que deixou, aquilo Ă© vocĂȘ. Um segundo depois, elas podem mudar completamente de direção. Isso tambĂ©m Ă© vocĂȘ. O âvocĂȘ verdadeiroâ nĂŁo Ă© algo que se busca e encontra. A forma como vocĂȘ vive decide quem vocĂȘ Ă©. Em outras palavras, isso Ă© vocĂȘ.
â VocĂȘ fala bastante â Ranta riu, mas Takasagi sorriu levemente, sem vergonha.
â JĂĄ estou ficando velho, afinal. NĂŁo parece, nĂ©?
â Parece, sim, droga.
â Parece, Ă?
â Ă. DĂĄ para perceber que vocĂȘ viveu o dobro do que eu. Honestamente, o que vocĂȘ disse me atingiu. Basicamente, vocĂȘ estĂĄ dizendo que, nĂŁo importa quem eu seja ou quem eu tenha sido, se eu decidir, posso ser quem eu quiser, certo? Se eu quiser viver como um membro da Forgan, posso fazer isso…
Ranta respirou fundo e depois soltou o ar.
Takasagi nĂŁo disse nada. No entanto, se Ranta permanecesse em silĂȘncio, Takasagi acabaria pressionando por uma resposta ou repetindo a pergunta: âVocĂȘ vai voltar?â
Ele nĂŁo queria que Takasagi dissesse essas palavras. Apesar do curto tempo, Takasagi realmente tinha treinado Ranta como um professor. Mesmo agora, estava lhe ensinando coisas. SerĂĄ que gostava de fazer isso? Provavelmente.
Se fossem apenas suas habilidades, ele não seria tão confiåvel entre os caras da Forgan, nem estaria em uma posição de autoridade e liderança. Jumbo talvez não fosse muito exigente, mas ainda assim era humano.
SerĂĄ que Takasagi estava cuidando de Ranta porque ambos eram humanos? Talvez fosse parte disso. De qualquer forma, Takasagi tinha vindo buscĂĄ-lo.
Ranta estava grato.
Mas nunca diria isso em voz alta.
â No começo, sĂł me juntei a vocĂȘs para salvar minha pele e ajudar aquela mulher inĂștil â disse Ranta. â Foi sĂł por conveniĂȘncia. Eu pensei que poderia me dar bem com vocĂȘs, e achei que nĂŁo seria ruim passar um tempo com a Forgan tambĂ©m. Se eu estivesse com vocĂȘs, nĂŁo teria que pensar em cada detalhe, poderia beber boa bebida, festejar e ter uma vida e morte divertida. Foi o mĂĄximo, droga! Foi tĂŁo bom que me deu nojo! NĂŁo importa o inferno que eu tenha que atravessar, eu tenho um motivo para abrir o Ramen Moguzo & Ranta! Que motivo, vocĂȘ pergunta?! Porque decidi que Ă© isso que vou fazer! Eu sou! Um cavaleiro das trevaaaaas…!
Ele perdeu o rumo no meio da frase, mas havia algo fervendo dentro dele, tĂŁo quente que parecia prestes a explodir.
Isso era sangue. Sangue quente. Algo que ele nĂŁo tinha sentido nenhuma vez enquanto estava com a Forgan.
Naquela época, era morno. Entendi. Então era isso.
Quando eu estava com o Parupiro e o resto, eu estava sendo mole comigo mesmo, e isso me deixava morno no final. Mesmo assim, eles eram um bando de perdedores tĂŁo inĂșteis que a situação geralmente era severa, e crises de vida ou morte eram quase diĂĄrias, entĂŁo meu sangue acabava fervendo sozinho. PorĂ©m, quando tentei fugir para a Forgan, fiquei morno de novo.
Eu podia respeitar Jumbo, admirar Takasagi e fazer amizade com vĂĄrias pessoas. Esse Ă© o meu caminho na vida?
Digo que nĂŁo.
Era realmente atraente, e tenho certeza de que teria sido bom, mas não é isso que eu, o grandioso eu, busco do fundo do meu coração e alma.
â Kehehehehehehe…! â Zodiac-kun soltou uma risada sinistra de repente.
Takasagi ficou um pouco tenso e virou-se para encarar Zodiac-kun.
â Ehe…! Ehehehehehe…! Muito bem dito, Ranta…! Seja amaldiçoado atĂ© a morte…!
â VocĂȘ…
Takasagi ficou sem palavras. Bem, claro. Até o velho ficaria chocado.
Quero dizer, até eu estou perdido aqui, tå bom?
Zodiac-kun estava mudando diante de seus olhos.
Espera, Zodiac-kun, aquele troço parecido com um lenço… VocĂȘ estava realmente usando isso?
O lenço agora estava se enrolando, ou melhor, se descascando, e uma figura lisa que não era exatamente masculina nem feminina, que era humanoide, mas claramente não humana, apareceu. Tinha uma cabeça, mas sem rosto! Não havia olhos, nem nariz, nem boca.
Sério? Isso é meio nojento.
Embora tenha sido por apenas um segundo, ele conseguiu ver o corpo nu de Zodiac-kun, algo pelo qual estava curioso, mas nĂŁo queria realmente ver. O troço parecido com um lenço que foi arrancado do demĂŽnio se despedaçou e caiu, transformando-se em algo como fios que se enrolaram ao redor de Zodiac-kun. AlĂ©m disso, as armas parecidas com faca e porrete fizeram um âbamâ e tambĂ©m se transformaram em fios, assumindo novas formas nas mĂŁos de Zodiac.
â He… Hehehehehe…Hehehehehehehehehehe… Hehehehehehehehehehehehehe…
Isso Ă© insano.
Sério, insano.
Minhas lĂĄgrimas.
Meu nariz escorrendo.
Ranta estremeceu.
Havia alguém com uma armadura roxa-escura cobrindo todo o corpo magro, sem deixar lacunas, segurando uma longa arma tipo naginata com uma lùmina muito curvada em ambas as mãos.
O formato da arma, o design da armadura, nĂŁo poderiam ser mais sinistros, e isso era indescritivelmente incrĂvel.
Sim. Isso Ă© o que importa.
Certo?
Isso Ă© o que importa, certo?
Se estamos falando de cavaleiros das trevas, Ă© assim que deve ser, certo?
â …Maneiro pra caralho â disse Ranta.
â Ehe… Ehehehe… Me elogie mais… Morra me elogiando…
â NĂŁo, espera aĂ, Zodiac-kunâIsso Ă© vocĂȘ?
â Ehe… Hehehe… Exijo um -san, seu pedaço de lixo fraco…
â Uh, tĂĄ bom, entĂŁo, Zodiac-kun-san…?
â …
â Zodias-san? Melhor assim?
â …
â Ah! Que tal mudarmos seu nome para Zodie? DaĂ eu adiciono um -san, ficando Zodie-san.
â …-sama.
â Zodie-sama? Sama, Ă©? Hm… â Ranta inclinou a cabeça para o lado. â Ă, sobre esse -sama. Zodie-sama. Isso nĂŁo soa certo. NĂŁo Ă© ruim, acho. Que tal Zodi-sama? Nah, pensando bem, -sama nĂŁo parece certo. Nem -san. Mas, falando nisso, vocĂȘ Ă© meu demĂŽnio, nĂŁo Ă©? Espera aĂ, o que estĂĄ fazendo evoluindo sozinho?! Eu nem fiz aqueles rituais de oferecer sacrifĂcios a Skullhell para acumular vĂcios ultimamente! Faz sĂ©culos que nĂŁo faço isso! Mesmo que quisesse, nĂŁo teria como! Eu rezava no meu coração, mas estĂĄvamos em Darunggar, e entĂŁo aconteceu um monte de coisas!
â Sobre isso…
â O quĂȘ?
â Heheh…
Algo como fogo-fĂĄtuo acendeu nos olhos de Zodie e tremeluziu. NĂŁo era sĂł isso. Havia uma leve aura reminiscentemente venenosa emanando de todo o corpo do demĂŽnio.
â Ă um segredo da empresa… Ehe… Contorça-se e sofra atĂ© morrer lentamente…
â Mas vocĂȘs nem sĂŁo uma empresa!
â Skullhell estĂĄ observando…
â HĂŁ?
â Eu sou… Skullheeeell… O Deus das Trevaaaas…
â N-NĂŁo pode ser! Skullhell?! O prĂłprio?! VocĂȘ se manifestou?! NĂŁo, espera, nĂŁo Ă© âo prĂłprioâ, acho que vocĂȘ Ă© tecnicamente um deus…
â TĂ©cniiiicamente…?!
â D-Desculpa! NĂŁo tecnicamente! VocĂȘ Ă© totalmente um deus, Deus! Quero dizer, caramba, olha essa aura divina! Ei, Deus! VocĂȘ Ă© tĂŁo divino! Um deus entre deuses! Se nĂŁo fosse vocĂȘ, Skullhell-sama, nem haveria deuses em lugar nenhum!
â FĂșria… Heh…
â E-Eu sinto muito…!
Havia apenas uma coisa a fazer ali.
No momento em que teve essa ideia brilhante, seu corpo jå estava se movendo. Ele saltou, contorcendo o corpo no ar, e, ao aterrissar com tanta força que quase bateu a cabeça no chão, caiu de quatro e pressionou a testa contra a terra. Era sua cartada final.
ESTA ERA A DOGEZA!
NĂO!
ESTA ERA A DOGEZA SALTITANTE!
â Eu imploro…! Perdoe-me, Skullhell-sama!
â Heheheh… Heh…
â Eu faço qualquer coisa, tĂĄ bem?! Talvez âqualquer coisaâ seja demais?! Erm, eu faço tudo, menos entregar minha vida. Bom, sinceramente, espero que aceite sĂł essa demonstração dos meus sentimentos, mas eu vou fazer o que puder para negociar, sĂ©rio…
â VocĂȘ nĂŁo parece… arrependido o suficiente… Ehehe…
â V-VocĂȘ acha?! Eu nĂŁo acho, nĂŁo! Ei, velhote, vocĂȘ concorda comigo, nĂ©?!
â EstĂĄ jogando a conversa para mim? â Takasagi perguntou, incrĂ©dulo. â QuĂŁo descarado vocĂȘ pode ser?
â VocĂȘ estĂĄ vendo, nĂŁo estĂĄ? Sou descarado assim, tĂĄ legal?!
â NĂŁo tenho palavras…
â Vai me abandonar?! Seu covarde!
â SĂ©rio, o que eu deveria dizer…?
â Pense por si mesmo, idiota! Opa, fui longe demais agora. Desculpa, desculpa. â Ranta riu, levantou-se e posicionou RIPer em prontidĂŁo. â TĂĄaa bem, nĂŁo sei como aconteceu, mas acho que sair matando vĂĄrias coisas de maneira bem Cavaleiro Das Trevas fez meu Zodie evoluir ou algo assim! Agora, bora fazer as coisas na vibe cavaleiro das trevas e destruir o velhote!
â VocĂȘ Ă© um pedaço de lixo natural, nĂŁo Ă©? â Takasagi exibia uma expressĂŁo de exasperação.
Não era só que seu corpo não estava tenso; ele parecia até relaxado. Talvez fosse mais do que apenas falta de tensão; talvez sua guarda estivesse baixa. Se fosse isso, ótimo.
Zodie, possuĂdo por Skullhellâmas nĂŁo de verdade, jĂĄ que o demĂŽnio sĂł estava fazendo isso como uma piadaâgirou a longa naginata ameaçadora uma vez, entĂŁo começou a se aproximar lentamente de Takasagi.
â Ă EscuridĂŁo, Ă Senhor do VĂcio… Dread Aura. â Ranta imediatamente convocou um ar negro arroxeado, envolvendo-se nele.
Esse ar era a manifestação do favor de Skullhell, aumentando as habilidades fĂsicas de um cavaleiro das trevas, e essa melhora crescia com a quantidade de vĂcio acumulado. Em algum momento, Ranta havia acumulado vĂcio suficiente para fazer Zodiac-kun evoluir para Zodie.
Estou no meu auge.
Meu corpo estĂĄ leve. Parece que meu peso caiu pela metade.
Cara, isso Ă© incrĂvel.
O poder nĂŁo estĂĄ apenas transbordando, sabe?
Parece que vou ter uma hemorragia nasal.
Mesmo assim, ele não podia deixar isso subir à cabeça. Era råpido para se empolgar e tropeçar. Era um mau håbito de Ranta. Não importava o quão quente sua alma estivesse, ele precisava manter a cabeça fria.
Se fosse honesto consigo mesmo, queria gritar. Soltar um grito de guerra. Mas nĂŁo faria isso. NĂŁo porque fosse inĂștil. Porque seria negativo.
Takasagi lançou um olhar para Ranta, depois para Zodie. Houve uma leve tensão no braço esquerdo de Takasagi quando ele balançou a katana. Ele abaixou o queixo, colocando-se em uma linha reta entre Ranta e Zodie. Takasagi não encarava Ranta ou Zodie, mas também não lhes dava as costas.
Pega ele! Ranta deu a ordem e Zodie avançou.
Não restava nenhum sinal do tempo em que Zodie era o adoråvel Zodiac-kun. Ao mesmo tempo, Ranta via uma representação de si mesmo no demÎnio, e jå estava criando um apego. Contudo, um demÎnio era apenas um demÎnio. Podia humanizå-lo e adorå-lo em seu tempo livre, mas tinha que uså-lo eficientemente na batalha.
Seja frio, Ranta disse a si mesmo. NĂŁo, era um erro demonstrar afeição por um demĂŽnio desde o inĂcio.
â Heeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee…! â Zodie girou sua longa naginata em direção a Takasagi.
Ranta saltou com Leap Out, mas nĂŁo direto para frente. Ele tentou contornar para trĂĄs de Takasagi. Era Ăłbvio que Takasagi queria evitar isso, mas Zodie estava ali.
A katana de Takasagi rebateu a longa naginata de Zodie.
Zodie usou o impulso do golpe para girar a naginata e desferiu outro ataque.
Takasagi deu um salto diagonal para a esquerda. Foi nesse momento que Ranta o atacou.
Anger.
Takasagi torceu o corpo para desviar da espada de Ranta.
E, antes que Ranta percebesse, lĂĄ estava o contra-ataque.
A katana de Takasagi fez um movimento semelhante a um ataque de backhand, difĂcil de prever. Se o corpo de Ranta nĂŁo estivesse afiado pela Dread Aura, ele provavelmente nĂŁo teria conseguido reagir e se esquivar tĂŁo rĂĄpido.
Mesmo assim, Ranta perdeu o equilĂbrio e mal conseguiu escapar com outro Leap Out. Takasagi nĂŁo teve chance de segui-lo e atacĂĄ-lo.
â Eeeeeeeee…! Eeeeeee…! Eeeeeeeeeeeeeee…! â Zodie atacou com sua longa naginata. Estocada, estocada, continuava atacando Takasagi.
Takasagi não bloqueava com sua katana. Ele desviava os ataques com facilidade. Porém, ele não ignorava Zodie para ir atrås de Ranta. Ele não podia.
Zodie nĂŁo estava tentando matar Takasagi. NĂŁo havia como Zodie vencer Takasagi sozinho, entĂŁo o demĂŽnio apenas o mantinha ocupado, focando apenas nisso. Na verdade, era Ranta quem estava comandando o demĂŽnio para agir assim.
Mesmo assim, mesmo com Zodie cumprindo um papel de tanque, aquilo não duraria muito. Takasagi logo entenderia os padrÔes de ataque de Zodie. E quando isso acontecesse, Zodie cairia. E råpido.
Ranta torceu o corpo e encadeou um Exhaust com outro Leap Out para investir contra Takasagi.
Hatred.
Embora a respiração de Takasagi estivesse ofegante por um breve momento, ele afastou a longa naginata de Zodie com sua katana e imediatamente se voltou para RantaâNĂŁo, isso nĂŁo era tudo.
Quando a naginata foi desviada, Zodie ficou completamente exposto Ă sua frente.
Takasagi entrou no alcance de Zodie, derrubou o demĂŽnio com um empurrĂŁo e, virando-se novamente para Ranta, desferiu um golpe diagonal com sua katana.
Quando Takasagi derrubou Zodie, isso foi contra as expectativas de Ranta, que jĂĄ estava no meio de seu golpe.
Parecia que o tempo estava se estendendo enquanto a katana de Takasagi se aproximava lentamente. Ranta tentava inclinar o corpo para trĂĄs para desviar, mas nĂŁo conseguiria a tempo.
Por que estou lento também, não só o velho?! Se nós dois estamos lentos, qual é o ponto?
Sua raiva era mal direcionada. Ele sabia disso. O tempo nĂŁo tinha culpa. Mas por que parecia estar se movendo devagar? Era como se sua mente estivesse mais rĂĄpida, e ele tinha tempo para argumentar consigo mesmo sobre o que fazer. Pensar nĂŁo adiantava, se ele nĂŁo conseguia agir rĂĄpido.
A katana de Takasagi parecia prestes a atingir o queixo de Ranta.
Faltava tĂŁo pouco. Se conseguisse inclinar o corpo sĂł mais um pouco, desviaria por um fio de cabelo.
Mas ele nĂŁo conseguia.
Se ele me acertar bem na parte inferior da cabeça, vai doer pra caramba, e eu não vou conseguir lutar direito. Contra um inimigo experiente como esse velho, serå o fim, não é?
NĂŁo.
NĂŁo acabou. Eu nĂŁo vou morrer… Provavelmente. Eu nĂŁo vou morrer.
Nesse caso, ainda tenho cartas para jogar. Levar o menor ferimento possĂvel e contra-atacar. Consigo fazer isso, certo?
Sim, consigo. Vou fazer. Eu sou um cavaleiro das trevas. E da� Que cavaleiro das trevas jå desistiu com elegùncia? Cavaleiros das trevas são teimosos até parecer ganùncia. Provavelmente, pelo menos!
Mas… hein?
Que estranho.
A katana de Takasagi perdeu o Ămpeto. Talvez eu consiga desviar disso?
â Gwah…! â O corpo de Ranta arqueou de repente. Sua cabeça bateu no chĂŁo.
Ai!
Uma ponte, certo? à assim que chamam essa posição?
â Hungh…! â Era Ăłbvio que ele nĂŁo podia ficar assim, entĂŁo usou a cabeça como ponto de apoio, girou o corpo inteiro, pegando impulso, e se levantou com um salto. â Hoh…!
Takasagi, com um olhar desconfortĂĄvel, estalou a lĂngua ao errar o golpe e avançou com uma estocada direta usando sua katana.
â Argh…!
Isso nĂŁo Ă© tĂpico de vocĂȘ, velho.
Ranta gritou e desviou a katana de Takasagi, atacando-o logo em seguida com um corte. Takasagi bloqueou com sua lĂąmina e, antes que suas espadas se cruzassem, ajustou o Ăąngulo e empurrou.
Takasagi queria manter distĂąncia. Ele nĂŁo queria cruzar lĂąminas. Se era assim, Ranta nĂŁo o deixaria escapar.
â Ngh…! Rah…! â o som escapava involuntariamente da boca de Ranta.
Takasagi era astuto como uma velha raposa. Usava pequenos movimentos, empurrÔes e puxÔes, mudanças na direção que encarava e para onde olhava, tudo para desestabilizar Ranta. Ele estava claramente tentando afastå-lo.
NĂŁo havia dĂșvidas: Takasagi nĂŁo queria cruzar espadas.
Pensando bem, era óbvio. Takasagi tinha um porte maior do que Ranta. Provavelmente mais força nos braços também. Mas ele só tinha um braço. Se competisse diretamente em força contra Ranta, que empunhava sua espada com as duas mãos, Takasagi enfrentaria dificuldades, mesmo sendo habilidoso com a katana.
Por mais mestre que fosse, não podia usar algo que não tinha: o braço dominante perdido.
Era verdade que a habilidade de Ranta nĂŁo se comparava Ă de Takasagi. Por causa disso, Ranta tinha superestimado o adversĂĄrio. Basicamente, tinha ficado assustado.
Ele nĂŁo podia se deixar levar pela confiança, mas tambĂ©m nĂŁo podia hesitar demais. Se sua determinação fosse como uma balança, precisava mantĂȘ-la equilibrada. Isso nĂŁo era fĂĄcil. PorĂ©m, mesmo difĂcil, ele faria o possĂvel.
â Droga…! â Takasagi gritou.
Talvez impaciente, Takasagi tentou varrer a perna direita de Ranta com a sua própria. Ranta não estava apenas atento à katana, mas também a ataques com as pernas, então achou que poderia lidar com isso. Nesse momento, uma imagem surgiu em sua mente, e seu corpo se moveu por conta própria.
Elevando sua espada em um movimento giratĂłrio ascendente, ele deslizou a lĂąmina ao longo da katana de Takasagi. Com isso, a ponta de sua espada ficou posicionada para atingir o rosto de Takasagi.
Takasagi também girou sua lùmina, tentando desviar a espada de Ranta para cima.
Ranta escolheu nĂŁo resistir e, apĂłs elevar a espada, virou-a para baixo. A ponta voltou a mirar o nariz de Takasagi.
O Ășnico olho de Takasagi se arregalou.
Ranta avançou com a espada.
Takasagi torceu o corpo, arfando, e deu um salto para trĂĄs.
Foi superficial. Muito superficial. A espada de Ranta havia feito apenas um corte de uns dois centĂmetros na bochecha direita de Takasagi. Era apenas um ferimento leve.
Ranta recuou usando Exhaust e respirou fundo. Hora de se concentrar novamente. Ele precisava focar no prĂłximo movimento.
Mas, ainda assim…
Eu consegui, parceiro.
Ele queria gritar o nome de seu parceiro em agradecimento, mas segurou o impulso.
Agora nĂŁo Ă© hora de sentimentalismos. Certo, parceiro?
â Wind, huh. â Takasagi girou levemente o ombro esquerdo, depois cuspiu no chĂŁo. Seu olho estava fixo em Ranta. Estava diferente de antes. Selvagen, mas incrivelmente frio. Aquilo era… sede de sangue.
â O quĂȘ, vocĂȘ Ă© um guerreiro? â Takasagi zombou. â NĂŁo Ă© um cavaleiro das trevas?
Ranta nĂŁo respondeu. Estava no meio de uma batalha sĂ©ria. NĂŁo ia perder tempo com palavras. Mesmo que quisesse falar, duvidava que conseguisse. Era como se tivesse engolido uma pedra; sua voz simplesmente nĂŁo saĂa.
Takasagi.
â VocĂȘ Ă© mais habilidoso do que eu esperava, Ranta. Se eu te treinasse por alguns anos, com certeza vocĂȘ seria bem Ăștil.
Velho…
Droga, vocĂȘ Ă© assustador.
Se eu desviar os olhos por um segundo… NĂŁo, se eu sequer respirar, posso ser cortado. Isso nĂŁo pode estar certo, nĂ©? Pelo menos acho que nĂŁo. Mas serĂĄ que Ă© verdade? Posso dizer com certeza que nĂŁo serei cortado? NĂŁo sei. NĂŁo dĂĄ pra ter certeza. De qualquer forma, esse Takasagi agora Ă© completamente diferente do de antes.
Um matador de homensâessa foi a palavra que passou pela cabeça de Ranta. Seria essa a verdadeira natureza de Takasagi?
â Da minha parte, era isso que eu pretendia fazer, â disse Takasagi. â Para o bem ou para o mal, no nosso grupo, todos somos meio irresponsĂĄveis. Entre nĂłs, esse tipo de relação de mestre e discĂpulo Ă© fundamentalmente impossĂvel. Achei que estava bem com isso, mas estou ficando velho. Estupidamente, pensei que poderia tentar treinar alguĂ©m. VocĂȘ tinha uma boa dose de experiĂȘncia e jĂĄ tinha visto o inferno. TambĂ©m tinha coragem. Isso, muitas vezes, Ă© mais importante do que talento. Quero dizer, se vocĂȘ deixar um gĂȘnio por conta prĂłpria, ele vai crescer sem vocĂȘ. VocĂȘ Ă© medĂocre, mas nĂŁo Ă© um material ruim para trabalhar. Eu estava pensando em enfiar tudo o que eu sei em vocĂȘ. Achei que seria um bom jeito de passar o tempo. Estou decepcionado.
Ranta balançou a cabeça.
NĂŁo vacile.
Não importa o que Takasagi diga, não posso deixar isso me afetar. Ignore-o. Não ouça.
AlĂ©m disso, por que estou deixando esse velho falar tanto? Ele estĂĄ perdendo o fĂŽlego. Tem que haver uma abertura para aproveitar. NĂŁo pode nĂŁo haver nada. Mas, apesar disso…
Não só Ranta não conseguia avançar, como a mão que segurava a espada tremia levemente.
Ei, Zodie. Faça alguma coisa. Nada, huh.
Zodie, que havia sido derrubado antes, jĂĄ tinha se levantado hĂĄ muito tempo. O demĂŽnio podia atingir Takasagi com sua naginata de onde estava agora, mas nĂŁo se movia.
O que eu sou, um sapo congelando porque uma cobra estĂĄ me encarando?
NĂŁo. Eu nĂŁo sou um sapo. Vou devorar essa maldita cobra. Engoli-la inteira.
Ranta se preparou para pular, mas Takasagi o antecipou. NĂŁo parecia coincidĂȘncia. O timing fazia parecer que ele havia lido seus movimentos.
Quando percebeu, Takasagi estava bem na sua frente.
Ele Ă© enorme.
O velho, com seu Ășnico olho arregalado e os lĂĄbios torcidos num leve sorriso, parecia um gigante. Ranta tentou se defender com RIPer. Embora, nĂŁo intencionalmente. Foi um tipo de reflexo instintivo de autodefesa.
Mesmo assim, a espada de Ranta bloqueou a katana de Takasagi. Ou talvez Takasagi tivesse deliberadamente atingido a espada de Ranta. Ele a havia esmagado, vocĂȘ poderia dizer. Ou melhor: espancado-a brutalmente.
Houve um som incrivelmente alto. A katana de Takasagi parecia um dos pilares de um gigante. A espada de Ranta estava gritando. E Ranta estava quase gritando tambĂ©m. A Ășnica coisa que nĂŁo fez foi fechar os olhos. Isso era o melhor que conseguia fazer.
Olhe, ele dizia a si mesmo. Continue olhando. Se eu nĂŁo mantiver os olhos abertos e olhar, vou morrer. Ele vai me matar. Embora, mesmo olhando, ele ainda possa me matar.
â Wahahahahaha…! â Takasagi gargalhava.
Que tipo de criatura horrĂvel Ă© essa? Esse cara Ă© humano? Ele Ă© um monstro.
Ranta nĂŁo pensava nisso; ele sentia. Aquele homem havia se libertado das limitaçÔes de ser humano. Era uma loucura. Era claramente impossĂvel.
Não era uma questão de vencer ou perder. Esse não era o problema. Ele estava a um passo de sua força de vontade se quebrar.
Mas eu ainda estou vivo, nĂŁo estou?
Mesmo agora, ele se lembrava. Aquilo estava gravado em sua memĂłria e nunca se apagaria.
A Fortaleza de Observação Deadhead. O orc guardiĂŁo. A armadura de um vermelho venenoso que cobria seu corpo maciço. O cabelo preto e dourado que escapava do elmo. As duas terrĂveis cimitarras. O portador das duas espadas, Zoran Zesh.
Até Renji havia sido arremessado, mas seu parceiro não vacilou. Ele tentou acertå-lo com um Thanks Slash.
Zoran não era apenas enorme; ele era råpido. Ele atingiu o parceiro de Ranta antes que pudesse ser atingido. Primeiro no ombro esquerdo. Depois na parte superior do braço direito. Antebraço esquerdo. Quadril direito. Lado esquerdo da cabeça. Até o topo da cabeça.
Mesmo depois de tantos golpes, seu parceiro ainda estava de pé, com Zoran claramente incomodado.
Por que esse humano não cai? Ele devia estar perplexo e assustado também.
Foi graças ao parceiro de Ranta que conseguiram derrubar Zoran. Porque, atĂ© que sua força se esgotasseânĂŁo, mesmo depois dissoâseu parceiro permaneceu de pĂ©.
Moguzo.
NĂŁo preciso gritar que Ă© graças a vocĂȘ que consigo aguentar aqui. Vou arriscar minha vida e provar isso.
Se eu fizer isso, serĂĄ a prova de que vocĂȘ viveu.
NĂŁo Ă© que ele falhou em bloquear a katana, mas sim que nĂŁo conseguia mais fazĂȘ-lo. RIPer estava em uma situação crĂtica e foi arremessada. No entanto, essa tambĂ©m era sua Ășltima chance.
Quando a espada saiu da mĂŁo de Ranta, Takasagi recuou o braço como se fosse matĂĄ-lo com o prĂłximo golpe e, naquele instanteâ
â Ramen…!
Por que aquela palavra saiu? Naturalmente, estava ligada à loja de ramen de Moguzo e Ranta, que um dia eles abririam. Em outras palavras, era esperança, era ganùncia e era a expressão de sua vontade de viver a qualquer custo.
Ranta recuou com o melhor Exhaust que conseguiu realizar.
Naturalmente, Takasagi o perseguiu de perto. Para um homem de meia-idade, ele era rĂĄpido!
O que vocĂȘ Ă©, velho, uma fera selvagem? Bom, eu jĂĄ esperava isso.
â Keeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee…!
Zodie atacou Takasagi por trĂĄs. O demĂŽnio tinha mantido Takasagi ao alcance de sua longa naginata o tempo todo. NĂŁo tinha conseguido se mover antes porque Ranta estava intimidado, mas, assim que conseguiu, atacou imediatamente.
Takasagi teve que responder. Se nĂŁo o fizesse, seria cortado pela longa naginata.
No fim, Takasagi desviou e evitou a naginata de Zodie. Sem perder o ritmo, gritou: â Oorah…! â e fez um golpe incrĂvel que parecia estender seu braço. A katana perfurou o peito de Zodie sem erro.
â He… â Zodie transformou-se em algo como vapor negro, que se dissipou num instante.
â Rantaaa! â Takasagi se virou e gritou.
Ranta nĂŁo conseguia mais ver o rosto dele. Ou melhor, nĂŁo estava olhando para Takasagi.
Ele correu.
Estava determinado a correr.
Ele nĂŁo pensava: Eu nĂŁo vou morrer, ou, Eu quero viver, ou, Eu vou viver, ou qualquer coisa do tipo. Corpo e alma, ele corria. Era sĂł nisso que ele estava focado.
A direção não importava. Ele nem estava conscientemente fugindo. Ranta apenas corria e corria.
Ele continuou correndo com tudo o que tinha.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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