Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 5 – Volume 10

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – CapĂ­tulo 05:
[Eu Coço Suas Costas, VocĂȘ Coça as Minhas.]


Que lugar Ă© esse? Mary se perguntava. E essas pessoas?

Depois de serem ordenados a descer a montanha por aquele homem chamado Jessie, um grupo usando mantos verdes, iguais ao dele, surgiu correndo e amarrou Mary e os outros com cordas. Eles podiam mover os pés livremente, mas Jessie estava logo atrås, carregando Haruhiro, então escapar era impossível.

Se ele dizia marchar, eles marchavam. Se dizia rastejar, rastejavam. Essa era a situação de Mary e dos outros no momento.

Haruhiro talvez lhes dissesse para deixĂĄ-lo para trĂĄs, mas isso era impensĂĄvel. Eles jamais o abandonariam.

O rosto de Haruhiro estava esmagado, e ele permanecia inconsciente. Mary, claro, havia pedido para curĂĄ-lo, mas Jessie nĂŁo permitiu.

— Se for sĂł isso, ele ficarĂĄ bem — disse Jessie, atĂ© mesmo esboçando um leve sorriso. — Eu peguei leve, sabe? Ele nĂŁo vai morrer. EstĂĄ desacordado, entĂŁo provavelmente nem estĂĄ sofrendo muito.

Isso Ă© mesmo o problema? Mary fervia de raiva por dentro.

Se pudesse, ela o golpearia repetidamente na nuca com um objeto contundente, nocauteando-o, e entĂŁo diria: “Eu peguei leve, sabe? Acho que vocĂȘ nĂŁo vai morrer de imediato. EstĂĄ desacordado, entĂŁo provavelmente nem estĂĄ sofrendo muito, nĂŁo Ă©?”

Por outro lado, ela sabia que precisava se acalmar. Jessie. Ele tinha cabelos loiros, olhos azuis e falava a mesma lĂ­ngua que Mary e os outros, ou seja, a lĂ­ngua humana. Ele parecia, sem dĂșvida, um homem humano. Mas aquele homem tinha resistido a um Backstab certeiro de Haruhiro.

Mary, que jå havia trabalhado como sacerdotisa de aluguel, conhecia bem o estilo de luta dos ladrÔes. Eles, por natureza, tentavam atacar seus inimigos pelas costas, mas mesmo assim, era raro ver um ladrão tão dedicado ao uso da habilidade Backstab como Haruhiro. Não era apenas dedicação à técnica; havia algo mais nisso.

Embora nĂŁo soubesse exatamente o que Haruhiro pensava sobre isso, Mary sabia que ele nĂŁo era de forma alguma medĂ­ocre em seu uso do Backstab. Aquele golpe tinha atingido um ponto vital de Jessie. NĂŁo havia como aquele homem estar bem apĂłs ter o rim perfurado pelas costas.

Para os humanos, a dor excruciante de uma lesão como aquela poderia ser fatal por choque, e mesmo que não fosse, raramente alguém sobrevivia por muito tempo. No entanto, depois de forçar Mary e os outros a se renderem, Jessie simplesmente puxou o estilete de suas costas, sem se preocupar com os primeiros socorros.

Ele estava sangrando. Isso incomodava Mary, entĂŁo ela continuava observando.

Jessie havia perdido sangue o suficiente para encharcar suas calças e botas. Contudo, o Backstab de Haruhiro deveria ter atingido os rins, onde hå um grande fluxo de sangue, além de possivelmente ter destruído o fígado e algumas artérias. Apesar disso, o volume de sangue parecia pequeno. Mais impressionante ainda, Jessie não demonstrava estar ferido. Sua expressão permanecia inalterada e calma.

Jessie parecia um humano, mas nĂŁo era.

Ou talvez fosse humano, mas possuĂ­a algum tipo de poder especial.

Qual seria a interpretação correta?

E…

Mary entendia um pouco sobre Jessie. NĂŁo, na verdade, ela realmente nĂŁo entendia, mas tinha algumas pistas para especular. Mas quem eram aquelas pessoas que pareciam segui-lo?

Mary e os outros caminhavam em fila por trilhas endurecidas que cortavam campos onde algo parecido com trigo estava sendo cultivado.

As pessoas com os mesmos mantos verdes de Jessie caminhavam em trĂȘs Ă  frente e trĂȘs de cada lado da fila. Nove no total.

Os mantos tinham capuzes, e alguns usavam o capuz levantado, enquanto outros nĂŁo. Um dos que estavam ao lado de Mary nĂŁo usava capuz, deixando seu rosto Ă  mostra.

Ela era claramente diferente de Jessie. Em outras palavras, nĂŁo era humana. Qual seria a melhor forma de descrever a cor de sua pele? NĂŁo era branca nem amarelada. Talvez um tom cremoso com um leve toque de verde fosse prĂłximo?

Seu cabelo nĂŁo era muito diferente em cor de sua pele. Seus olhos eram vermelhos. O nariz era baixo e curto, com narinas que pareciam fendas. Sua testa era saliente, mas estreita. As bochechas eram fundas, como se tivessem sido escavadas, e o maxilar era sĂłlido e pontudo. Entre os lĂĄbios entreabertos, dentes fortes e cerrados se destacavam, e suas gengivas tinham um vibrante tom alaranjado.

Seu peito era saliente o suficiente para ser perceptĂ­vel mesmo com o manto. Por isso, Mary assumiu que provavelmente era uma mulher.

Ao que parecia, a mulher inumana percebeu os olhos de Mary sobre ela e virou-se em sua direção. Por algum motivo, Mary não conseguiu desviar o olhar.

Eventualmente, a mulher bufou e voltou a olhar para a frente.

Ela nĂŁo Ă© humana.

Também não era uma orc.

Era muito mais alta do que Mary. Provavelmente tinha mais de 1,80 metro. Os outros tinham alturas similares, ou eram ainda mais altos. Nem todos eram mulheres, no entanto. Alguns pareciam homens.

Ainda assim, os homens não eram como ela. Suas formas corporais, cores de pele, cabelos, olhos e características faciais eram completamente diferentes. Se havia algo que tinham em comum, era que todos possuíam dois braços, duas pernas e eram bípedes como os humanos. Isso, e os mantos verdes. Apenas isso.

Se fosse adicionar mais um detalhe, entre os moradores que trabalhavam nos campos, aqueles que haviam parado para observar a party e os que saíam para a estrada, apenas para serem enxotados por Jessie, quase ninguém se parecia com outra pessoa. Alguns até eram similares, mas havia tanta diversidade que era difícil dizer quem se parecia com quem.

“Jessie Land”, o homem havia chamado aquele lugar. Jessie devia ser o líder ou administrador daquela aldeia.

Mas Jessie era claramente diferente dos moradores. Olhando apenas as aparĂȘncias, Jessie e a party de Mary pareciam de um lado, enquanto os moradores estavam do outro.

Por outro lado, Jessie podia apenas parecer humano. Mary e os outros, entretanto, eram humanos.

Ele era um inimigo?

Ou um aliado?

Que pergunta estĂșpida.

Se fosse um aliado, Haruhiro não estaria naquela situação.

Mesmo assim, Jessie havia dito: “NĂŁo quero matar vocĂȘs.”

Não seria estranho se ele os tivesse matado, mas Mary e os outros estavam apenas com os pulsos amarrados e ainda estavam vivos. Haruhiro também ainda respirava.

Por enquanto.

— Ei. — Mary não parou de andar, mas virou-se para Jessie, que estava no final da procissão.

Haruhiro, pendurado em seu ombro como se fosse apenas uma bagagem, nĂŁo se mexia.

Jessie encontrou o olhar de Mary, mas não disse nada. Seus frios olhos azuis não demonstravam qualquer emoção.

Mary tremia, e seus dentes batiam. Seus olhos ficaram marejados.

NĂŁo.

Ela se obrigou a manter a calma. Quanto mais nervosa eu ficar, mais esse cara, Jessie, terå vantagem sobre nós. Jå estamos em uma posição incrivelmente desfavoråvel. Pelo menos quando se trata dos meus sentimentos, não quero perder para ele. Não posso me dar a esse luxo. Controle-se. Não deixe sua voz tremer.

— VocĂȘ nĂŁo pretende deixĂĄ-lo morrer, certo? — Mary perguntou. — EntĂŁo me deixe curĂĄ-lo.

— Não.

— Por quĂȘ?

— VocĂȘ Ă© uma sacerdotisa de Lumiaris, certo? Se bem me lembro, existe um feitiço de magia de luz que funciona como Parupunte ou Hocus Pocus. Se vocĂȘ usĂĄ-la, nĂŁo faço ideia do que pode acontecer, e isso seria um problema. Aqui em Jessie Land, temos uma xamĂŁ. Vou deixar que ela cuide dele.

— Eu não adquiri esses feitiços — Mary protestou.

— VocĂȘ acha que vou confiar em vocĂȘ quanto a isso?

— Isso Ă©…

— Mary.

Shihoru chamou seu nome.

Quando Mary se virou para olhar, Shihoru balançou a cabeça. Seu rosto estava tenso e pålido.

Shihoru também estava preocupada com Haruhiro. Se fosse possível curå-lo, ela queria. Mas, ainda assim, Agora não é hora de tomar uma posição firme, ela estava tentando dizer a Mary.

Se essa era a avaliação de Shihoru, Mary precisava confiar nela. Shihoru era cautelosa e ponderada. Haruhiro era o líder da party, mas, em momentos em que ele não podia tomar decisÔes, como agora, Shihoru era a mais adequada para liderar.

Mary voltou a olhar para frente.

Haruhiro.

Haruhiro.

Por favor, nĂŁo morra.

Jessie provavelmente nĂŁo vai deixar Haruhiro morrer, ela disse a si mesma. Ele mesmo disse isso, e essa Ă© a interpretação de Shihoru tambĂ©m. Preciso confiar em Shihoru. Haruhiro estĂĄ bem. Ele com certeza vai ficar bem. Ele jĂĄ esteve Ă  beira da morte tantas vezes, entĂŁo mesmo que pareça que ele vai cruzar para o outro lado, ele sempre volta. Ele sempre nos faz suar frio. Queria que ele parasse com isso. Se eu o tivesse curado com magia desta vez, tenho certeza de que ele teria sorrido, um pouco envergonhado, e entĂŁo se desculpado. Mas isso nĂŁo Ă© algo que se resolve com um pedido de desculpas. Por que vocĂȘ nĂŁo entende isso?

NĂŁo podemos nos dar ao luxo de perder vocĂȘ.

Mary teve uma realização repentina.

Como Setora deveria estar se sentindo? Parecia que ela realmente amava Haruhiro. Provavelmente, estava consumida pela preocupação. Mary sequer tinha tido a presença de espírito para se preocupar com ela.

Mary percebeu que nĂŁo era a Ășnica sofrendo. Shihoru, Yume e Kuzaku tambĂ©m deviam estar atormentados pela preocupação. E Setora, que decidira ser a amante de Haruhiro, provavelmente sentia como se estivesse Ă  beira da morte.

Quero dizer, se… Mary hesitou. Se Haruhiro fosse meu amante, e ele estivesse nessa situação…

NĂŁo, isso era algo que ela nem queria imaginar.

Mesmo sendo apenas sua companheira, jĂĄ era difĂ­cil o suficiente. Honestamente, mais do que ficar parada ou sentada, Mary queria caminhar agora. Se parasse, sentia que suas pernas poderiam ceder.

Se pudesse chorar, ela gostaria de fazĂȘ-lo, mas as lĂĄgrimas provavelmente nĂŁo sairiam. Mesmo que quisesse gritar, sua voz nĂŁo seria tĂŁo alta.

Haruhiro. Sem vocĂȘ, meu mundo estaria mergulhado na escuridĂŁo.

Mary nĂŁo teve coragem de olhar para ver como Setora estava aguentando. NĂŁo queria ver seu rosto. Quando pensava no quanto aquela mulher devia estar sofrendo, era tomada por uma onda de compaixĂŁo.

Mesmo sendo uma sacerdotisa, pensou Mary. Mesmo podendo curĂĄ-lo…

— Ei — Yume chamou Jessie.

— Hm? — Jessie respondeu, surpreendentemente tranquilo. — O que foi?

— Chessie, vocĂȘ Ă© humano?

Essa era a Yume, direta alĂ©m da conta. E nĂŁo era “Chessie”, era Jessie…

— VocĂȘ quis dizer Jessie — ele a corrigiu com uma risada leve. — E, sim, sou humano.

— É mesmo?

— Parece que vocĂȘ estĂĄ duvidando.

— Quero dizer, vocĂȘ foi esfaqueado bonito. Normalmente, um golpe desses dĂłi de verdade e faz a pessoa parar de se mexer.

— Bem, doeu — respondeu Jessie. — O Stealth dele foi impressionante e o Backstab foi perfeito. Esse garoto Ă© um bom ladrĂŁo.

— Ele Ă© mesmo. Yume sempri pensa isso.

Eu tambĂ©m acho, pensou Mary. Mas, Yume, a palavra nĂŁo Ă© “sempri” desse jeito estranho…

— Sempre, Huh. — Jessie riu. — NĂŁo, foi “sempri” que vocĂȘ disse?

— Huh? Sepri?

— VocĂȘ Ă© engraçada.

— Yume Ă©? Yume nĂŁo acha que Ă© engraçada. Yume Ă© “gucho” sĂ©ria.

— “Gucho”, hein — disse Jessie, divertindo-se. — Isso Ă© mesmo uma palavra em japonĂȘs?

— “JaponĂȘs”? Fwuh…?

— Não. Só falando comigo mesmo.

Jessie falava com Yume em um tom descontraĂ­do, como se a tensĂŁo do momento estivesse se dissipando um pouco.

Mas logo voltou a apertar.

— JĂĄ chega de conversa fiada. Eu vou fazer as perguntas. VocĂȘs sĂł respondem ao que eu perguntar. Se tentarem algo idiota, esse garoto nĂŁo vai viver muito.

O tom de Jessie não mudou. Não era frio; na verdade, até parecia amigåvel. Isso tornava ainda mais assustador.

Yume ficou em silĂȘncio, e ninguĂ©m mais se atreveu a abrir a boca.

Estavam quase chegando à aldeia. As construçÔes eram de madeira, com paredes e outras partes feitas de terra, e os telhados eram de palha. Não dava para chamar de impressionante, mesmo tentando ser gentil, mas também havia construçÔes com piso elevado. Seriam armazéns?

Havia uma praça que parecia ser o centro da aldeia, com um poço ali.

Jessie deitou Haruhiro no chão da praça e chamou Mary.

— Venha aqui, sacerdotisa. VocĂȘ pode curĂĄ-lo. Quer fazer isso vocĂȘ mesma, nĂŁo Ă©?

Mary correu em disparada até Haruhiro e se ajoelhou. Jessie dizia algo sobre suas mãos, ou algo assim. Mary mal prestou atenção, com os olhos arregalados enquanto encarava Haruhiro.

Ahhh. É mentira. Mentira. NĂŁo… NĂŁo Ă© mentira. Esta Ă© a realidade. Tenho que encarĂĄ-la. Mas, isso Ă© horrĂ­vel. Seu rosto estĂĄ esmagado. EstĂĄ ensanguentado e inchado. Pelo menos os olhos nĂŁo explodiram. Como posso achar que isso Ă© algo bom? Seus dentes estĂŁo afundados. VĂĄrios deles. Pelo menos nĂŁo caĂ­ram. Ele estĂĄ respirando. Ele estĂĄ vivo. Ele estĂĄ vivo, mas… Droga! Como ele pĂŽde? Como ele pĂŽde fazer isso? Jessie! Quero espancĂĄ-lo atĂ© a morte. Mas antes disso… Certo. Tenho que curĂĄ-lo.

Com minhas prĂłprias mĂŁos. Haruhiro. Vou curĂĄ-lo.

As mĂŁos de Mary estavam amarradas firmemente. Por causa disso, era difĂ­cil.

Oh, certo, ela se lembrou. Isso era o que Jessie havia mencionado. Precisa que eu te desamarre?

Ela se recordou dele perguntando isso.

NĂŁo, ela pensou. Pode esperar.

Trazendo os dedos da mão direita até a testa, ela fez o sinal do hexagrama.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre vocĂȘ… Sacrament!

Ela nĂŁo desviaria o olhar. Nem por um instante.

A luz envolveu Haruhiro, e seus ossos, sua carne, seus vasos sanguíneos, sua pele, cada célula foi regenerada por aquele milagre literal.

Do fundo do coração, Mary pensou: Estou feliz por ter me tornado uma sacerdotisa.

Se foi o destino que lhe deu a oportunidade de servir Lumiaris, ela era grata. Ofereceria qualquer coisa a Lumiaris. Até mesmo sua própria vida. Entregaria de bom grado qualquer coisa, exceto Haruhiro, cujos ferimentos estavam sendo rapidamente curados naquele exato momento.

Mesmo quando seus ferimentos desapareceram completamente e ele estava como antes, Haruhiro nĂŁo mostrou sinais de acordar. Bem, Ă© claro que nĂŁo acordaria. Ele havia desmaiado devido Ă  gravidade dos ferimentos. NĂŁo despertaria por um tempo.

Mary estendeu as duas mĂŁos, tentando tocar o rosto de Haruhiro.

Recobrando a consciĂȘncia, ela recolheu as mĂŁos.

Olhando para o céu, ela apertou os olhos.

Eu nĂŁo posso.

Mary não era nada além de uma companheira de equipe, e a amante de Haruhiro era Setora, mesmo que aquele relacionamento fosse apenas fruto de um contrato temporårio. Setora estava bem ao lado deles. Devia ser como se seu coração estivesse sendo esmagado, e, de alguma forma, Mary sentia que não deveria fazer isso.

Por mais feliz que estivesse e por mais importante que Haruhiro fosse para ela, isso era apenas como um companheiro de equipe, e não havia outro significado por trás disso. Mesmo que seus sentimentos escapassem sem querer, e mesmo que fosse só isso—ela sentia que não era certo.

Havia o risco de ser mal interpretada, afinal.

Se estivesse na posição de Setora, ela também não gostaria.

Mary nĂŁo entendia muito bem os relacionamentos entre homens e mulheres, mas provavelmente era assim que funcionava.

Ela abriu os olhos e respirou fundo.

Levantando-se, virou-se para Jessie.

Sua expressão não era apenas tranquila; podia até ser chamada de suave, mas os olhos azuis de Jessie, como sempre, pareciam duas poças de ågua parada, impossíveis de ler.

Mary curvou-se, inclinando o tronco.

— Obrigada.

— De nada — Jessie riu. — Espera, soa meio estranho eu dizer isso.

— …Ufa. — Kuzaku caiu de joelhos, como se desabasse.

Yume miou como um gato, depois esfregou os olhos com as mãos amarradas. Ela estava começando a chorar.

Quando os olhos de Shihoru encontraram os de Mary, ela sorriu um pouco e acenou com a cabeça. Mary teve vontade de abraçå-la.

Desde quando Shihoru havia se tornado tĂŁo confiĂĄvel? Shihoru estava apoiando Haruhiro. Era Mary quem precisava ajudar Shihoru.

Setora olhava para Haruhiro, mas sua mente parecia distante. SerĂĄ que o grande alĂ­vio a havia feito perder o foco?

De repente, ocorreu a Mary que ela nĂŁo odiava Setora.

Setora parecia um pouco distorcida, mas era aberta sobre seus sentimentos. Parecia preferir agir por conta própria, sem restriçÔes dos outros, mas nunca abandonava seu golem. Ela amava os nyaas e se aconchegava às pessoas de quem gostava. Diferente dela mesma, Mary achava que Setora tinha um certo charme e era adoråvel.

Mary gostava de pessoas como Setora. Apesar disso, vinha resistindo a ela.

Era porque Setora estava tentando monopolizar Haruhiro.

Haruhiro era o lĂ­der de todos, e poderia-se dizer… Sim, Haruhiro pertencia a todos. Pode parecer estranho dizer isso, como se ele fosse um objeto, mas causaria problemas ao restante se alguĂ©m tentasse monopolizĂĄ-lo. AlĂ©m disso, Setora nem sequer era membro da party.

Dito isso, Setora havia arriscado a vida ao lado deles. Eles eram algo como companheiros de guerra agora.

Vai ficar tudo bem agora, ela queria dizer para Setora. Seu amado nĂŁo vai morrer por algo assim. Eu nĂŁo vou deixar.

Enba estava bem atrĂĄs de Setora, e o nyaa cinza estava empoleirado em seus ombros.

Por ora, todos estavam bem. NĂŁo havia como saber o que viria depois, mas eles superariam, acontecesse o que acontecesse. Acreditar nisso e seguir em frente era a Ășnica coisa que podiam fazer no momento.

— Agora, entĂŁo. — Jessie olhou ao redor para Mary e os outros antes de dar instruçÔes ao grupo de mantos verdes. Suas palavras estavam em uma lĂ­ngua diferente da que Mary e os outros falavam. Parecia um pouco com o idioma dos orcs, mas provavelmente nĂŁo era a mesma coisa.

O grupo dos mantos verdes afastou Mary, depois virou Haruhiro de lado.

— Sobre aquelas perguntas — Shihoru disse, dando um passo à frente. — Eu responderei.

Jessie sacou sua espada, apontou a lĂąmina para a garganta de Haruhiro e voltou seus olhos azuis para Shihoru.

— Quem sĂŁo vocĂȘs?

— Exatamente o que parecem. Soldados voluntários de Altana.

— Vejo uma necromante da aldeia oculta tambĂ©m. AlĂ©m disso, trouxeram um nyaa com vocĂȘs.

— Ela… Ă© uma amante de nyaas.

— Pelo que sei, treinadores de nyaas geralmente comandam vários nyaas.

Shihoru olhou para Setora. Setora ainda parecia distante, sem sequer ouvir a conversa.

— No momento, só temos este — disse Shihoru. — Algumas coisas aconteceram, e nos separamos.

— Algumas coisas, nĂ©. Entendo. — Jessie deu de ombros. — Parece que vocĂȘs estavam fugindo de algo. Se foram orcs ou mortos-vivos, podemos ter um pequeno problema.

Shihoru franziu as sobrancelhas, mordendo levemente o lĂĄbio inferior. Ela estava pensando. Mary achou aquilo suspeito.

Estavam nas montanhas da Cordilheira Kuaron, ao nordeste dos Planaltos de Nargia. Mary nĂŁo sabia ao certo, mas aquele territĂłrio provavelmente fazia parte do antigo domĂ­nio do Reino de Arabakia ou do Reino de Ishmal. De qualquer forma, aquele era territĂłrio inimigo para os humanos, domĂ­nio de orcs, mortos-vivos e semelhantes. Por que seria ruim se a party estivesse sendo perseguida por orcs ou mortos-vivos?

Jessie não parecia ser um orc ou um morto-vivo, mas ele também não estava do lado da party. Ele devia estar aliado ao outro lado, certo?

Mary vinha encarando a situação de forma simples assim, mas estaria errada?

— NĂŁo eram orcs e tambĂ©m nĂŁo eram mortos-vivos — respondeu Shihoru. NĂŁo era a verdade completa, mas tambĂ©m nĂŁo era mentira. O Ășltimo grupo que havia perseguido Mary e os outros certamente nĂŁo era formado por orcs ou mortos-vivos. — EstĂĄvamos fugindo de bestas.

— VocĂȘs sĂŁo soldados voluntĂĄrios, nĂŁo sĂŁo? — Jessie ergueu a sobrancelha esquerda. — Se fosse sĂł um de vocĂȘs, eu entenderia, mas vocĂȘs tĂȘm um grupo inteiro. Se fossem apenas bestas, poderiam afastĂĄ-las. Que patĂ©tico.

— Era um bando de guorellas — disse Setora quase num sussurro. — Matamos vários, mas eles não recuavam.

— Ohh. — Os olhos de Jessie se arregalaram levemente. — Que azar miserável. Se estiverem dizendo a verdade, claro.

— É um fato — respondeu Shihoru, em um tom surpreendentemente firme para ela. — Nós finalmente conseguimos despistá-los, mal segurando nossas vidas, e encontramos essa aldeia. Mas não sabíamos que tipo de pessoas viviam aqui, então Haruhiro saiu sozinho para explorar o lugar.

— Para roubar ou saquear comida, era isso? — perguntou Jessie.

— Se houvesse algo que pudĂ©ssemos oferecer em troca, preferirĂ­amos negociar — disse Shihoru. — Mas… nĂŁo sabĂ­amos se vocĂȘs eram pessoas com quem poderĂ­amos negociar, e precisĂĄvamos descobrir isso por conta prĂłpria.

— Suponho que seja uma explicação razoável. — Jessie recuou a espada.

De repente, Mary sentiu que podia respirar mais aliviada, como se até então tivesse estado completamente sem ar.

Se pudesse, ela trocaria de lugar com Haruhiro. De jeito nenhum poderiam se dar ao luxo de perdĂȘ-lo. NĂŁo importa o custo, ela tinha que protegĂȘ-lo. NĂŁo queria que ele se machucasse mais.

Conhecendo Haruhiro, ele sempre tentava ser atencioso com uma coisa ou outra, assumindo tudo para si mesmo e sem descansar direito. Mary queria alimentĂĄ-lo com boa comida e deixĂĄ-lo descansar bem.

— Algo! — Incapaz de aguentar mais, Mary gritou. Imediatamente pensou: O que estou fazendo? E se arrependeu profundamente, sentindo uma intensa vergonha.

Seu rosto estava quente. Tão quente que doía. Ela queria cavar um buraco sem fundo sob os pés e pular nele.

Claro, ela nĂŁo podia fazer isso.

Obviamente.

— Algo! — Mary acrescentou, agora em um tom mais normal. — Não tem algo que eu possa fazer? Eu faço qualquer coisa.

— Uau! — Jessie gritou, levantando uma das mĂŁos com uma expressĂŁo surpresa. — Isso nĂŁo Ă© algo que uma garota deveria dizer.

— Eu… eu nĂŁo quis dizer nesse sentido…

— NĂŁo, se vocĂȘ vai dizer que faz qualquer coisa, essas coisas meio que estĂŁo incluĂ­das, nĂŁo acha?

— S-Se vocĂȘ exigir…

— M-Mary, nĂŁo! VocĂȘ nĂŁo pode! — disse Shihoru, em pĂąnico.

— E-Eu tambĂ©m faço qualquer coisa, tĂĄ?! — gritou Kuzaku, com a voz aguda. — N-NĂŁo tem problema, sĂ©rio! Eu faço qualquer coisa, mesmo! NĂŁo Ă© grande coisa pra mim, tĂĄ?!

— Yume tambĂ©m faz qualquer coisa! — exclamou Yume. — Tipo, ela pode imitar o Deus Branco Elhit!

— Oh? — Jessie acariciou o queixo. — Quero ver. Mostre-me seu Elhit.

— Pode deixar! — Yume curvou as costas como um lobo e uivou. — Auuuu! Auuuu! Au, au, au. Auuuuuuuuuuuu!

— Hmph. EntĂŁo Ă© assim que Elhit Ă©?

— É sim! Yume vĂȘ Elhit nos sonhos dela Ă s vezes, e Elhit uiva assim! Auuuu! Elhit-chan Ă© super fofo, sabia? Bem fofinho e gentil!

— Oh — disse Jessie. — Certo, entĂŁo. VocĂȘ Ă© uma caçadora, afinal. Eu tambĂ©m era.

— Funya?! Então conhece o mestre de Yume, talvez?! Ah, pera, o nome dele era Itsukushima.

— Sim, eu o conheço. EntĂŁo vocĂȘ Ă© pupila de Itsukushima, huh?

— Isso mesmo! Faz muito tempo que Yume nĂŁo vĂȘ seu mestre, sabia? Seria bom vĂȘ-lo…

— Espero que consiga. — Jessie sorriu amplamente, mas, embora não parecesse falso, havia algo vazio naquele sorriso.

Era importante não esquecer que esse homem deveria ter recebido um golpe fatal do Backstab de Haruhiro, mas estava perfeitamente bem. Ele parecia humano e era aparentemente um ex-soldado voluntårio. Disse ser um caçador como Yume. Mesmo assim, estava claro que ele não era um humano normal.

— Como jĂĄ disse antes, nĂŁo Ă© como se eu tivesse um desejo ardente de matar vocĂȘs — disse Jessie. — Eu faço isso se precisar, e nĂŁo vai me tirar o sono, mas… Ă©. Como as coisas vĂŁo daqui em diante depende de vocĂȘs.

— O que isso significa? — perguntou Shihoru, se preparando.

— É simples. — Jessie embainhou a espada. Se eles tomassem esse ato como um sinal de reconciliação, provavelmente estariam redondamente enganados. — É dar e receber. VocĂȘs entendem?

O que Mary e os outros poderiam oferecer a Jessie?

Ao mesmo tempo, Mary pensava nisso.

O que ela poderia fazer para retribuir tudo o que Haruhiro havia feito por eles até agora?


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
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