Hai to Gensou no Grimgar â CapĂtulo 2 â Volume 10 – Copy
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – CapĂtulo 02:
[Sem Mordidas]
Isso era estranho. Muito estranho. NĂŁo importava como olhasse, nĂŁo era para ser assim.
Sim, Haruhiro havia assumido um risco. Ele mesmo havia eliminado o redback. Fazer isso foi uma aposta. Ele nĂŁo podia negar isso.
Havia uma expectativa de sucesso. Mesmo assim, se não tivesse pensado que isso poderia acabar com a situação, teria escolhido uma abordagem muito mais cautelosa.
Os guorellas formavam bandos de cerca de vinte membros, liderados por machos corpulentos com chifres vermelhos e peludos, chamados redbacks. Quando perdiam seu lĂder, os machos jovens lutavam pela posição? Ou uma fĂȘmea assumia temporariamente o comando? Qualquer que fosse o caso, o bando ficava desordenado, quando nĂŁo se desfazia completamente.
Os bandos de guorellas eram caçadores persistentes e metĂłdicos. NĂŁo perseguiam suas presas com pressa ou afobação. Seguiam-nas pacientemente, aproximando-se aos poucos e esperando que suas vĂtimas perdessem as forças. Os redbacks, por sua vez, eram especialmente astutos e, embora fossem claramente mais fortes, raramente demonstravam isso. Foi por isso que essa tinha sido sua Ășnica chance.
Olhando para trĂĄs, Haruhiro talvez estivesse tentando ativamente evitar pensar sobre isso. Pensar que precisava ter sucesso a qualquer custo, que nĂŁo podia fracassar de jeito nenhum ou que, se errasse, tudo estaria acabado. Quanto mais pensava nessas coisas, mais tenso ficava, e isso Ă s vezes fazia suas mĂŁos falharem. Para uma pessoa mediana como Haruhiro realizar algo de forma adequada, era melhor manter a calma.
Com dificuldade, ele conseguiu derrubar o redback. Agora, os guorellas nĂŁo deveriam mais ser um problema. Bem, ele nĂŁo era otimista o suficiente para acreditar nisso, mas parecia provĂĄvel que tivessem algum alĂvio, pelo menos. Se a party usasse esse tempo para se afastar, poderiam ao menos recuperar o fĂŽlego. E se nĂŁo precisassem mais correr e se esconder, poderiam traçar um rumo claro e escolher um caminho.
No entanto, nada havia mudado.
Ele matou o redback, mas os guorellas ainda estavam atrĂĄs deles.
Ele começou a ouvir o som rĂtmico de batidas, tum, tum, tum, tum, tum, Quando a situação ficava realmente ruim, o som vinha do norte, e, algum tempo depois, mais tambores ecoavam ao sul. SĂł podia supor que havia vĂĄrios redbacks. Mas o que deveria ser o Ășnico redback do bando estava morto. O que, afinal, estava acontecendo ali?
A Ășnica coisa boaâembora ele nĂŁo tivesse certeza se era realmente algo bomâera que os guorellas estavam mais cautelosos depois que ele eliminou o redback. Antes, os machos jovens atacavam ocasionalmente. Isso havia parado completamente, e o tempo em que tudo o que se ouvia era a respiração e os passos de seus companheiros aumentara.
Serå que os guorellas finalmente desistiram da perseguição? Ele pensava. Mas toda vez que esse pensamento lhe cruzava a mente, ouvia tambores ou gritos, ou via uma årvore fina se dobrando à distùncia, ou um galho se quebrando.
Segundo Setora, Kiichi, o nyaa cinzento, avistava os guorellas com frequĂȘncia. Eles estavam por perto. Muito perto.
Estariam se aproximando por trås? Estariam à direita, e também à esquerda? Talvez até à frente. Ele quase sentia como se a party tivesse sido cercada.
Devia haver muitos deles. Incluindo o redback, sua party jĂĄ havia eliminado cinco… nĂŁo, seis. EntĂŁo, restariam um pouco mais de dez? SĂ©rio? SĂł isso? Parecia que havia mais.
Todos estavam extremamente calados. Quem havia sido o Ășltimo a dizer algo? Ele nĂŁo se lembrava.
Claramente, os guorellas nĂŁo tinham perdido o rastro de Haruhiro e sua party. Estavam atormentando-os, enfraquecendo-os para atacar quando nĂŁo pudessem mais se mover. EntĂŁo, talvez fosse melhor conversar um pouco. Em vez de permanecer em silĂȘncio, uma conversa ajudaria a tirar aquilo de suas mentes.
Mas o que havia para dizer? Haruhiro sentia que, se abrisse a boca, acabaria dizendo âEstou exaustoâ sem querer. O que mais ele poderia dizer?
Estou exausto. Minhas pernas doem. Meu corpo parece pesado. JĂĄ deu.
Me dĂĄ um tempo. EstĂĄ quente. Estou com fome. Estou no meu limite.
Reclamar não levaria a lugar algum. Todos estavam passando por dificuldades. Todos estavam aguentando. Shihoru, em especial, parecia que poderia desabar a qualquer momento. Mas ela não parava. Com os ombros subindo e descendo a cada respiração, ela forçava os pés a continuarem se movendo. Em seu desespero para não ficar para trås, para não ser um peso para os companheiros, Shihoru continuava seguindo.
Yume e Mary sempre estavam ao lado dela. AtĂ© mesmo Kuzaku, que caminhava na frente das trĂȘs, estava usando armadura e carregando aquele escudo ridiculamente pesado nas costas. O resto da party devia estar sofrendo mais do que Haruhiro podia imaginar.
A Ășnica exceção talvez fosse Setora, que estava ao lado ou um pouco Ă frente de Haruhiro. Afinal, na maior parte do tempo, Setora estava montada nos ombros de Enba.
Se Enba, o golem, recebesse periodicamente injeçÔes de um lĂquido misterioso e tomasse pĂlulas especiais, ele poderia funcionar praticamente para sempre. Sempre que se movia, Enba era o veĂculo de Setora. Mesmo que balançasse um pouco, isso nĂŁo devia deixĂĄ-la enjoada, e certamente era mais fĂĄcil do que andar com os prĂłprios pĂ©s. Na verdade, excluindo Enba, cujo rosto estava coberto, apenas Setora parecia manter um semblante tranquilo.
Ăs vezes, isso irritava Haruhiro.
Mas tudo bem. NĂŁo era como se ele pensasse algo como: Isso nĂŁo Ă© justo ou Sofra com a gente ou qualquer coisa assim. Se ela podia economizar energia para quando fosse necessĂĄrio, era melhor que fizesse isso. Haruhiro jĂĄ tinha em mente que, no pior dos cenĂĄrios, se nĂŁo houvesse mais nada que pudessem fazer, queria que pelo menos Setora e Enba pudessem fugir.
Afinal, Setora nĂŁo era uma companheira deles.
Mesmo que uma sequĂȘncia de eventos os tivesse reunido, eles nĂŁo tinham nenhuma conexĂŁo real, e ela havia sido arrastada para um grande problema. Haruhiro nĂŁo era um otimista, entĂŁo, embora quisesse acreditar que conseguiriam superar aquilo, ele nĂŁo podia dizer que as perspectivas eram boas.
Ele tinha certeza de que seus companheiros estavam preparados para o pior. Eles jå haviam enfrentado vårias crises juntos. Depois de darem o måximo de si, só poderiam contar com os céus para decidir o resto. Se fizessem tudo o que podiam, então, não importava o resultado, Haruhiro seria capaz de aceitar. Ele não culparia seus companheiros, e duvidava que eles o condenassem também. No entanto, Setora não precisava compartilhar o mesmo destino deles.
Onde estavam…?
Não era o Vale dos Mil. Era a porção sudoeste das Montanhas Kuaron. Ele sabia disso, mas onde, exatamente? Para onde estavam indo?
Para o leste. Mais ou menos. O que encontrariam se continuassem naquela direção? O mar? NĂŁo, o mar ainda estava muito longe. Quanto era âmuito longeâ? Cem quilĂŽmetros? Se fossem tĂŁo longe, com certeza os guorellas nĂŁo os seguiriam. Ele nĂŁo tinha base para afirmar isso, mas esperava que fosse verdade.
Se aquele idiota estivesse aqui, com certeza estaria reclamando. Ele me insultaria, faria um escĂąndalo e teria uma atitude horrĂvel. SĂł de pensar nisso, Haruhiro jĂĄ ficava irritado.
Era uma coisa boa que aquele cara não estivesse ali. Estavam melhor sem ele. Ele não era mais um companheiro. Sempre tinha sido uma fonte de preocupação. Haruhiro nem queria ver o rosto dele. Houve vezes em que ele nem queria respirar o mesmo ar que aquele sujeito.
Ele havia se esforçado para aturå-lo. Isso o tornara mais paciente. Era algo como um efeito colateral, mas o cara era tão deteståvel que parecia que qualquer outra pessoa seria melhor. Serå que ter lidado com aquele lixo humano ajudou Haruhiro a crescer como pessoa?
Agora que ele nĂŁo estava mais por perto, tudo estava realmente quieto. Ou âmortoâ poderia ser uma forma de descrever. Bom, eles estavam bem sem ele. Era muito melhor do que ter aquele cara barulhento demais por perto.
Ei, cara, aquele sujeito teria dito. Se continuar dizendo essas besteiras, vai se arrepender, sabia? Quer dizer, vocĂȘ jĂĄ estĂĄ arrependido, nĂŁo Ă©, Parupiro? NĂŁo estĂĄ? Hein?
â Ah, merda… â murmurou Haruhiro. Ele estava começando a ter alucinaçÔes auditivas.
Não, ele não tinha ouvido aquilo de verdade. Era só algo que aquele cara definitivamente diria. A frase surgiu de repente em sua mente, e ele reproduziu a cena em sua cabeça. Mesmo querendo esquecer aquele cara.
â Shihoru. â Ele ouviu a voz de Mary.
Ao se virar, viu Shihoru agachada, abraçando seu cajado e encostada em uma årvore. Seus ombros tremiam.
Yume, inclinada ao lado dela, esfregava suas costas e olhou para Haruhiro.
â Haru-kun â foi tudo o que disse.
A cabeça de Shihoru estava baixa. O rosto de Yume estava um pouco sujo, e ela parecia exausta. Quando Mary balançou a cabeça, gotas de suor voaram por toda parte.
Kuzaku soltou um suspiro exagerado e se sentou. Era sua forma de demonstrar que tinha chegado ao limite, tentando aliviar o peso psicolĂłgico de Shihoru. TĂŁo tĂpico de Kuzaku demonstrar sua consideração desse jeito.
â Vamos descansar â disse Haruhiro, respirando fundo. Olhando para cima, ele podia ver o cĂ©u escarlate espiando pelos galhos das ĂĄrvores. JĂĄ era fim de tarde? Ele queria se sentar. NĂŁo, queria dormir. Mas isso nĂŁo era possĂvel.
Ao longe, as batidas ritmadas dos guorellas começaram a soar novamente. Tum, tum, tum, tum, tum…
Sério?
Estariam sendo observados? Dado o momento, Haruhiro nĂŁo podia deixar de suspeitar disso.
Shihoru levantou a cabeça. Ela estava tentando se levantar. Claro que estava. Não tinham outra escolha além de seguir em frente.
Haruhiro começou a se mover.
Setora se adiantou.
â Descansem.
â Mas… â Haruhiro tentou argumentar, mas nĂŁo continuou. Seu corpo rejeitava a ideia. Estava tĂŁo exausto assim?
â Kiichi e eu procuraremos o inimigo. â Setora olhou para Haruhiro, com os lĂĄbios se curvando em um leve sorriso por um breve momento. â VocĂȘs fiquem aqui. Duvido que consigam relaxar, mas ao menos tentem recuperar um pouco as forças.
â Desculpe. Estamos contando com vocĂȘ. â Foi tudo o que Haruhiro conseguiu dizer. Assim que se sentou no chĂŁo, sua respiração ficou subitamente pesada e irregular. Sua visĂŁo ficou turva, como se estivesse prestes a desmaiar.
Setora desceu dos ombros de Enba. SerĂĄ que ia caminhar com Enba a seguindo? Onde estava Kiichi? NĂŁo se via sinal dele.
Yume abraçou Shihoru e afagou sua cabeça.
â Pronto, pronto…
Mary olhava para cima, com um olhar quase atordoado.
Setora e Enba desapareceram entre as ĂĄrvores em pouco tempo.
A pulsação acelerada de Haruhiro simplesmente não voltava ao normal. Era como se seu coração não lhe pertencesse mais.
Quando se deu conta, os guorellas haviam parado com as batucadas.
â …Eles fugiram? â murmurou Kuzaku.
Por um momento, Haruhiro pensou que ele se referia a Setora e Enba. Depois percebeu que tinha sido descuidado. Ela poderia usĂĄ-los como isca para escapar.
Haruhiro nĂŁo tinha pensado nisso, mas nĂŁo podia descartar completamente a possibilidade. PorĂ©m… NĂŁo, provavelmente nĂŁo. Se ela tivesse essa intenção, teria agido antes. AlĂ©m disso, nĂŁo parecia o tipo de coisa que Setora faria. Ela era fria, quase insensĂvel e indiferente, mas estranhamente fiel Ă sua palavra. Se fosse abandonĂĄ-los, ela provavelmente avisaria. Ela era impiedosa, sim, mas nĂŁo era desleal. Esse parecia ser o tipo de pessoa que Setora era.
â Descanse â disse Haruhiro.
Kuzaku respondeu: â TĂĄ. â EntĂŁo deitou de lado. Um momento depois, jĂĄ estava roncando.
â Mas ninguĂ©m disse pra dormir… â murmurou Haruhiro.
Shihoru riu baixinho, e os ombros de Yume estremeceram enquanto soltava uma risada bizarra, algo como: â Funyunyu.
Seus olhos se encontraram com os de Mary, que tentava conter um bocejo. Ela abaixou a cabeça, envergonhada.
â …Desculpe.
â NĂŁo precisa…
…se desculpar, ele ia completar. Mas entĂŁo sua pulsação, que começava a se acalmar, subitamente acelerou novamente.
Tum, tum, tum, tum, tum…
As batidas. Vindo de uma direção diferente desta vez.
Droga, ele queria xingar, mas se conteve. Perder a cabeça não ajudaria. Se se deixasse levar pela emoção, daria aos guorellas exatamente o que eles queriam.
…Mas o que isso importa, afinal? Eles nĂŁo tinham opçÔes. Por que os guorellas simplesmente nĂŁo os atacavam de uma vez? Estariam brincando com eles? A party nĂŁo teria a menor chance contra aquelas criaturas.
Ou talvez isso nĂŁo fosse totalmente verdade?
Pode ser que o nĂșmero de guorellas fosse menor do que parecia. Eles podiam estar tentando parecer mais numerosos.
NĂŁo, mas era certo que havia mĂșltiplos guorellas martelando o peito. Em outras palavras, havia vĂĄrios redbacks.
Por outro lado, isso era algo que Setora tinha dito. E Setora podia estar errada. Talvez a ecologia dos guorellas não fosse tão bem compreendida assim, e o que ela sabia fosse baseado em suposiçÔes. Mesmo que geralmente fosse o caso de que apenas os redbacks batessem no peito, podiam haver exceçÔes.
Se os guorellas nĂŁo atacavam de frente, talvez fosse porque achavam que nĂŁo poderiam vencer ou temiam sofrer grandes perdas.
Perdas, Huh.
Se eles estavam caçando para obter comida, idealmente, não queriam sofrer nenhuma baixa. Haruhiro sentia o mesmo. LesÔes que podiam ser curadas com magia de luz eram aceitåveis, mas ele não queria perder nenhum companheiro da party.
Naturalmente, os guorellas caçavam com a mesma mentalidade.
A party de Haruhiro jå tinha matado alguns guorellas. As criaturas deveriam ter desistido. Mas, se agora eles decidissem lançar um ataque total, Haruhiro e os outros talvez não conseguissem fugir. Porém, eles não morreriam sem lutar. Iriam revidar com tudo o que tinham. Haruhiro podia garantir que levariam alguns guorellas com eles.
Os guorellas deviam saber que Haruhiro e sua party nĂŁo eram adversĂĄrios fĂĄceis. Eles nĂŁo eram soldados voluntĂĄrios de primeira linha, nem de segunda, mas eram tenazes.
Se os guorellas pudessem falar, Haruhiro gostaria de dizer algo como: âVocĂȘs nĂŁo vĂŁo nos matar facilmente. Se nĂŁo querem morrer, procurem outra presa. Se querem lutar, que venham. Mas tenho certeza de que vocĂȘs tambĂ©m nĂŁo querem morrer. Vamos parar com isso.â
Houve um som de folhas se mexendo.
Haruhiro ficou de pé e sacou seu estilete.
â Ah! â Ele ficou tĂŁo assustado que sentiu como se seu coração fosse parar.
Era Setora e Enba. Eles tinham voltado?
â Que foi, Haru? â Setora perguntou, com um tom levemente provocador. â Que cara Ă© essa?
Haruhiro nĂŁo conseguiu responder de imediato. Ajustou a pegada no estilete e tentou engolir a saliva, mas percebeu que sua boca estava seca.
â Kuzaku! â Mary chamou.
â …TĂŽ acordado… â Kuzaku sentou-se lentamente, balançando a cabeça.
â Ei, Setora. â O tom suave de Yume parecia deslocado, mas Haruhiro achou reconfortante. â Pra onde os nyaas foram?
Setora ignorou a pergunta de Yume e foi atĂ© Haruhiro. Ela se aproximou mais e mais, tocando o braço direito dele, o ombro, os quadris e as laterais…
Isso faz cĂłcegas, sabia?
â …O-Q-Q-QĂȘ? â Haruhiro perguntou, nervoso.
â SĂł estou testando. NĂŁo se preocupe com isso.
â Como assim ânĂŁo se preocuparâ…
â O que exatamente vocĂȘ estĂĄ testando? â Mary perguntou, por algum motivo.
â Keh… â Shihoru soltou um som estranho, que poderia ser uma risada, uma tosse ou algo do tipo.
â Haru. â Setora lançou um olhar a Mary por algum motivo antes de se inclinar para perto do ouvido de Haruhiro. Ao fazer isso, inevitavelmente, seu corpo tambĂ©m se pressionou contra o dele. Haruhiro quase recuou. Se nĂŁo fosse pela obrigação de fingir ser seu amante, ele talvez tivesse dado um salto para trĂĄs. â Tenho um plano. Vai querer ouvir?
â Quero, mas… pode se afastar um pouco primeiro…?
â Estou fazendo isso porque nĂŁo quero me afastar. Tem algum problema com isso?
â N-NĂŁo… problema nenhum.
â Ătimo. â Setora se aninhou no pescoço e no ouvido de Haruhiro como se fosse um gato.
Umm… Ele pensou, desconfortĂĄvel. TĂĄ todo mundo olhando, sabia? O que Ă© isso? Eu realmente… nĂŁo sei o que fazer.

NĂŁo tinha o que fazer. Ele sĂł podia aguentar.
â A verdade Ă© que eu estava preocupada â disse Setora. â Achava que vocĂȘ talvez me odiasse de verdade.
â Eu nĂŁo… nĂŁo te odeio.
â Mas tambĂ©m nĂŁo gosta de mim?
â NĂŁo… NĂŁo Ă© isso.
â VocĂȘ Ă© bem honesto.
â Eu… Eu nĂŁo sei se sou.
â Nyaas entram no cio duas vezes por ano, mas nĂŁo parece haver uma estação de acasalamento para humanos â ela disse. â EntĂŁo, quando Ă© que nĂłs entramos no cio? Sempre me perguntei isso.
â O-Oh, Ă©…?
â Entendi. EntĂŁo Ă© assim que me sinto quando um homem agradĂĄvel estĂĄ ao meu lado? â Setora pressionou o nariz e os lĂĄbios no pescoço de Haruhiro, respirando como se o estivesse cheirando, e soltou um suspiro quente.
Seus companheiros não estavam exatamente surpresos, mas atordoados. Até Haruhiro estava sem reação. Se ele não parasse Setora, o que ela faria? O que poderia acontecer?
De qualquer forma, aquilo nĂŁo era meio insano? Ele deveria empurrĂĄ-la?
Enquanto ainda estava confuso, de repente, sentiu uma dor aguda do lado direito do pescoço.
â Ai! â ele gritou. â O quĂȘ?! V-VocĂȘ me mordeu?! Agora mesmo, nĂŁo foi?! Por quĂȘ?!
â Perdoe-me â Setora recuou suavemente. Seu rosto estava vermelho como um pimentĂŁo. â NĂŁo consigo te dizer o porquĂȘ, mas senti vontade de te morder. Acho que, quando as pessoas entram no cio, nunca se sabe o que vĂŁo fazer.
â Ă-Ă assim que funciona…?
â Pode haver diferenças individuais. Essa Ă© a minha primeira vez, sabia? Eu tinha interesse no amor romĂąntico e sexual, e Ă© verdade que vocĂȘ me impressionou, mas nunca pensei que me apaixonaria por vocĂȘ.
â Apaixonar… â Mary murmurou para si mesma, enquanto Shihoru soltava outra tosse estranha.
â O Haruhiro Ă© meio popular com as garotas, nĂ©? â comentou Kuzaku.
Ele estava falando coisas totalmente sem sentido. Por que Yume estava balançando a cabeça em concordùncia?
â Popular? â Setora lançou um olhar afiado para Kuzaku. â O que quer dizer? EstĂĄ dizendo que Haruhiro tem outra mulher alĂ©m de mim?
â NĂŁo, sĂł que houve outra pessoa que disse gostar do Haruhiro. Ela era de outra party, no entanto…
â O que vocĂȘ disse?!
â Mimorin, nĂ©? â Yume cruzou os braços e inflou uma das bochechas. â Faz um tempo que nĂŁo a vejo. O que serĂĄ que anda fazendo? Espero que esteja bem.
Setora estalou a lĂngua e rangeu os dentes.
â Houve alguĂ©m antes de mim? Bem, ele Ă© o tipo de homem por quem eu me apaixonaria, entĂŁo nĂŁo estou surpresa, mas ainda assim Ă© irritante.
Haruhiro, incapaz de permanecer calado, corrigiu o mal-entendido.
â NĂŁo, eu nĂŁo estou saindo com a Mimorin, tĂĄ bom?
â Oh, entendi! â exclamou Setora com um sorriso radiante. â Que bom! Prefiro que seja a primeira vez para nĂłs dois. NĂŁo quero deixar mais ninguĂ©m tocar em vocĂȘ, e nĂŁo quero que ninguĂ©m alĂ©m de vocĂȘ me toque. Se eu algum dia te encontrasse beijando outra mulher, nem despedaçå-la em pequenos pedaços seria o suficiente.
Em pedaços? VocĂȘ estĂĄ dizendo umas coisas bem extremas, sabia? Isso me assusta. E, espera aĂ, a conversa saiu tanto do trilho que jĂĄ foi completamente descarrilada…
â E-EntĂŁo, sobre o plano? â Haruhiro perguntou, nervoso.
â Ahh… â Setora estava prestes a dizer algo quando…
To, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to, to…
â De novo, nĂŁo! â Kuzaku chutou o chĂŁo.
Shihoru olhava para Haruhiro com os olhos voltados para cima. Mesmo completamente exausta, seu olhar era de determinação.
â …Parece que nĂŁo temos espaço para decidir.
Haruhiro assentiu. Ela estava certa. Ele e a party jĂĄ estavam sendo encurralados. NĂŁo importava qual fosse o plano, eles teriam que colocĂĄ-lo em prĂĄtica.
O sol iria se pĂŽr em breve. Estava sombrio; ou melhor, jĂĄ estava escuro. Os insetos cantavam. Mesmo que ocasionalmente ouvissem os guorellas batucando, os outros sons nĂŁo paravam. Sons como papel sendo rasgado, metal arranhando vidro e lamentos.
Seus ouvidos doĂam, e sua cabeça parecia prestes a explodir. Mais do que isso, seu corpo todo estava pesado.
NĂŁo, ele disse a si mesmo. NĂŁo pense em coisas difĂceis ou desagradĂĄveis. SĂł vai tornar tudo mais difĂcil. EstĂĄ mais fresco agora do que durante o dia. Isso mesmo. Nem tudo Ă© ruim.
Com Setora liderando o caminho do alto dos ombros de Enba, Haruhiro e a party avançaram cada vez mais para o leste, na porção sudoeste das Montanhas Kuaron. Embora estivessem nas montanhas, estavam próximos ao sopé, então a inclinação era suave, no geral.
Eu posso continuar, ele disse a si mesmo. Meu corpo se moverĂĄ. EstĂĄ tudo bem.
Mais do que a si mesmo, ele queria encorajar seus companheiros, especialmente Shihoru. Mas, se ele olhasse para trås e tentasse falar, sentia que suas cordas poderiam se romper. Que cordas? Não tinha certeza, mas essas cordas eram finas como fios de cabelo, esticadas ao måximo, e, se afrouxassem ou se partissem, ele estaria em sérios apuros.
De novo? Quando chegariam ao destino? Ainda tinham que continuar andando?
E se os guorellas atacassem agora?
Essa era a Ășnica coisa que ele tentava evitar pensar. Se apenas alguns atacassem, talvez pudessem dar conta, mas, se fossem mais de dez e atacassem todos de uma vez, a party nĂŁo duraria muito. Preocupar-se com coisas sobre as quais nĂŁo podia fazer nada era inĂștil.
Além disso, eles ainda não tinham atacado. Talvez não atacassem enquanto a party continuasse andando. Podiam estar esperando o momento em que suas presas estivessem exaustas e incapazes de resistir.
Era uma disputa de resistĂȘncia. O perseguidor ou o perseguido. A perseguição nĂŁo terminaria atĂ© que um deles cedesse.
Ă frente, Enba parou. Setora, sobre seus ombros, ergueu a mĂŁo direita.
Não estava claro quando ele tinha aparecido, mas havia um nyaa cinza aos pés de Enba. Kiichi.
â Hoooooooooooooooooooooohhhhh!
O quĂȘ?
Aquilo era o som de um guorella?
Haruhiro nunca tinha ouvido aquele chamado antes.
â Heh!
â Huh!
â Hoh!
â Heh! Heh!
â Huh! Huh!
â Hoh! Hoh!
â Heeeeh! Hoh!
â Hoooooooh! Huh!
â Heh! Huh! Hoh! Hoh! Hoh!
â Hoh! Hoh! Huh! Huh! Hoh! Huh! Ho-hoh!
Os gritos, provavelmente dos guorellas, vinham de todos os lados.
Haruhiro se virou. Kuzaku, Yume, Shihoru, Mary. Todos estavam prontos para correr. Haruhiro também estava assustado.
EntĂŁo, chegou a hora, huh.
â Hoh, hoh, hoh, hoh, hoh!
â Heh, heh, huh, hoh, huh, hoh, heh!
â Hah, hah, huh, heh, huh, hah, huh, hoh!
â Huh, huh, huh, huh, huh, huh, huh, huh, huh!
O cĂ©u ainda estava um pouco claro, mas o sol jĂĄ tinha se posto no horizonte ocidental, e o crepĂșsculo avançava. Apesar de nĂŁo conseguir distinguir suas figuras, as vozes indicavam que os guorellas estavam se aproximando de todas as direçÔes.
Não, não era isso. Não vinham de todas as direçÔes.
Setora desceu dos ombros de Enba. Agachando-se, estendeu a mĂŁo para Kiichi. Kiichi soltou um curto âNyaâ e correu atĂ© Setora. Ela o pegou e o abraçou apertado. Em seguida, olhou para Haruhiro e os outros.
â EstĂŁo todos prontos?
Kuzaku respirou fundo antes de responder: â …TĂĄ!
â Miau! â Yume fez um gesto semelhante a uma saudação.
Shihoru acenou silenciosamente com a cabeça.
Mary respondeu com um breve âSimâ, olhou para Haruhiro e sorriu um pouco.
â Houh!
â Huh!
â Hauh!
â Huh! Hoh-hoh!
â Heh, huh, huh, hoh, huh, huh, huh, huh!
â Hauh, hah, hah, hah, hah, hah, hah, hah, hah!
Perto.
Eles estavam bem perto agora.
Haruhiro e os outros se moveram até onde Setora e Enba estavam. Ao olhar por cima da borda, um calafrio percorreu sua espinha.
Ă bem alto…
Achando melhor nĂŁo dizer isso em voz alta, Haruhiro manteve os pensamentos para si.
Era um beco sem saĂda. Se dessem mais um passo, nĂŁo haveria nada ali. AlĂ©m deles, havia um penhasco tĂŁo Ăngreme que seria impossĂvel rolar atĂ© o fundo. NĂŁo era sĂł dez metros de altura. Eram mais de vinte. Dezenas de metros. Menos de cinquenta, no entanto. Provavelmente.
Felizmente, o que havia no fundo nĂŁo era terra, mas um rio. Se nĂŁo fosse por isso, o plano nĂŁo funcionaria. Obviamente.
Imagine se fosse terra sĂłlida lĂĄ embaixo. Se caĂssem, a morte seria instantĂąnea. NĂŁo tinham, por falta de opçÔes melhores, decidido cometer suicĂdio em massa ao invĂ©s de serem devorados pelas guorellas. Mesmo sendo uma medida desesperada, ainda havia alguma esperança. A party pretendia sobreviver.
â Hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh!
â Heuh! Hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh, hoh!
â Lembrem-se, pĂ©s primeiro â Haruhiro disse aos outros. â Caiam com os pĂ©s primeiro. Apenas foquem emâ
Antes de terminar, ele saltou. De repente, sentiu a determinação de fazer aquilo e agiu por impulso.
Serå que ele tinha cometido um erro? Estragado tudo? Feito uma bagunça?
Mas, em vez de ficarem se empurrando, dizendo âVocĂȘ vai primeiro,â âNĂŁo, vocĂȘ vai,â se alguĂ©m desse o primeiro salto, talvez fosse surpreendentemente mais fĂĄcil para o resto seguir.
â Whoaaaaaaaaaaaaaaa?!
NĂŁo pode ser, nĂŁo pode ser, nĂŁo pode ser, nĂŁo pode ser, nĂŁo pode ser, pensou freneticamente. Alto, alto, alto, alto, alto. Isso Ă© muito mais alto do que eu pensei. Merda, merda, estou com medo. Minhas entranhas. Elas vĂŁo sair. Pela minha boca. Meu cĂ©rebro estĂĄ gritando, âGuwahhhhhhhhhh!â
Ă isso que eu acho que Ă©?
Uma passagem sĂł de ida para a morte?
E é meio longa, também. Não estou caindo centenas de metros, então achei que acabaria råpido, que estaria tudo bem, sabe?
Me pergunto, por que nĂŁo Ă© assim? E os outros? Eles me seguiram? Conseguiram pular? Como foi isso?
Ah, droga. Eu tava pensando que estava demorando, mas agora vejo o rio. NĂŁo Ă© longo, nem estĂĄ longe. Rio, rio, rio. Perto, perto, perto, perto, perto, perto, perto, perto, perto, perto.
â PĂ©s primeiro! â ele gritou.
Por que estou gritando algo que jĂĄ disse? Haruhiro estava exasperado consigo mesmo.
EntĂŁo, houve um splash incrivelmente alto, e o impacto, Ă© claro, foi insano.

Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
Tradução feita por fãs.
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