Hai to Gensou no Grimgar â PrĂłlogo â Volume 10
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – PrĂłlogo:
[O Mundo]
Sua respiração se transformava em vapor branco ao exalar, enquanto ele preparava seu chå de agulhas de pinheiro.
Como sempre tinha agulhas jovens de pinheiro, jĂĄ lavadas em ĂĄgua de nascente, secas e torradas, o processo era simples. Primeiro, acendia o fogo no fogareiro caseiro em frente Ă sua tenda. Depois, colocava uma chaleira cheia de ĂĄgua sobre a chama. Sentado em sua cadeira dobrĂĄvel feita Ă mĂŁo, esperava a ĂĄgua ferver. Assim que começava a borbulhar, retirava a chaleira do fogo e a colocava sobre um suporte de madeira. EntĂŁo, adicionava o sachĂȘ cheio das folhas na chaleira.
Ele tinha um relĂłgio mecĂąnico de precisĂŁo, feito pelos anĂ”es da Cordilheira Kurogane, mas nĂŁo se dava ao trabalho de pegĂĄ-lo. Enquanto olhava para o cĂ©u do amanhecer, contava mentalmente e esperava. Se quisesse um chĂĄ mais forte, contava atĂ© 300. Normalmente, parava aos 180. Em outras palavras, cerca de trĂȘs minutos.
Despejou o chĂĄ da chaleira em sua caneca de madeira favorita. O chĂĄ feito de agulhas de pinheiro torradas era quase incolor.
Inalou o vapor, deixando o aroma refrescante do pinheiro preencher suas narinas. Um sorriso involuntĂĄrio surgiu em seu rosto barbado. Soprou o chĂĄ com cuidado. â Phew… Phew… â Tomou um gole. O sabor suave espalhou-se por sua boca, descendo por sua garganta atĂ© o estĂŽmago.
â Isso Ă© muito bom â murmurou para si mesmo, apreciando o retrogosto.
Ahh, ele queria outro gole. NĂŁo conseguia se conter. Quando finalmente cedeu Ă vontade, levou a caneca aos lĂĄbios novamente. O segundo gole era ainda mais delicioso.
Todas as manhĂŁs, ao acordar, essa era a primeira coisa que fazia, a menos que estivesse chovendo. Quando nĂŁo estava em uma ĂĄrea onde a neve se acumulava, sempre montava sua tenda ao ar livre, o que tornava impossĂvel fazer isso em dias chuvosos, mesmo que quisesse. Era um luxo que sĂł podia saborear quando nĂŁo chovia. No fim das contas, podia desfrutar desse luxo em mais da metade dos dias do ano.
Sempre pensava consigo mesmo: NĂŁo Ă© uma vida ruim.
Depois de terminar o quanto queria do chĂĄ de pinheiro, ele começava a decidir o que faria no dia. Algumas nuvens pairavam no cĂ©u, o ar estava seco, mas nĂŁo parecia que choveria nas prĂłximas trĂȘs horas. Para um dia dessa Ă©poca do ano, em que o inverno se aproximava cada vez mais, a temperatura nĂŁo estava tĂŁo fria.
Pescar, talvez? Ir ao riacho na montanha parecia uma boa ideia. Ele tinha estoques suficientes, entĂŁo podia passar o dia sem pressa, e isso nĂŁo seria problema.
Faria o que quisesse, do jeito que quisesse e pelo tempo que desejasse. No fim das contas, esse estilo de vida lhe caĂa bem.
Para viver dessa forma, ele havia deixado para trås a vida de soldado voluntårio. Mesmo que não tivesse isso em mente ao trocar de classe e se tornar um caçador, o que aconteceu depois de certos eventos, devia ter sido um preparo para isso. Sempre quisera esse tipo de vida.
Tendo realizado seu desejo, estava plenamente satisfeito. Raramente se lembrava dos rostos de seus antigos companheiros agora. Onde estariam e o que estariam fazendo? Estariam bem?
NĂŁo era como se nĂŁo se importasse, mas, se ainda estivessem vivos, nĂŁo era impossĂvel que se reencontrassem. No entanto, se perguntassem se ele queria revĂȘ-los, a resposta seria nĂŁo.
Honestamente, hesitava em encontrĂĄ-los. Para conquistar sua liberdade, precisara seguir sozinho.
Seu Ășnico receio havia sido se conseguiria suportar a solidĂŁo. Ainda havia noites em que ela era insuportĂĄvel, mas ele aprendera, pouco a pouco, como lidar com isso. A solidĂŁo dilacerante nĂŁo durava mais tanto tempo. Gradualmente, ela se acumulava atĂ© atingir um pico, e entĂŁo desaparecia rapidamente. Ao contrĂĄrio da fome ou do sono, nĂŁo era algo que pudesse matĂĄ-lo. No fim, era apenas solidĂŁo. Depois de chorar por causa dela, tudo passava, e as lĂĄgrimas lavavam qualquer emoção.
Ele obedecia apenas a si mesmo e Ă natureza, sem precisar se preocupar com pensamentos desnecessĂĄrios. Esse estilo de vida tinha um valor que ele nĂŁo trocaria por nada.
Levantando-se, ele dobrou sua cadeira e decidiu: Hora de dar uma caminhada. Terras com cenĂĄrios distintos, como as PlanĂcies dos Ventos RĂĄpidos, o Deserto de Nehi e os Planaltos de Nargia, eram interessantes, mas as montanhas eram deslumbrantes em qualquer lugar. NĂŁo precisava ser uma cadeia montanhosa importante como os Tenryus, os Kuarons, os Rinstorms ou os Kuroganes. AtĂ© mesmo montanhas pequenas, espalhadas aqui e ali, tinham seu prĂłprio apelo Ășnico.
Quanto mais caminhava, mais descobertas fazia, e simplesmente nunca se cansava disso. Mesmo que um dia se cansasse, sempre poderia partir em uma nova jornada. O mundo era vasto. Mesmo se dedicasse a vida inteira, provavelmente nĂŁo conseguiria ver tudo.
Ele se preparou, afastou-se de seu acampamento e seguiu por uma trilha de animais no meio da vegetação rasteira.
De forma alguma havia baixado a guarda. No momento em que sentiu o forte cheiro de um animal, olhou ao redor.
Havia um ruĂdo. Algo vindo por entre a grama e as ĂĄrvores. Estava Ă sua frente, Ă esquerda.
Se eu fugir ou lutar, nĂŁo vou ter tempo suficiente, pensou.
O que estava enfrentando? Tinha uma ideia. Aquele cheiro. Provavelmente era um urso.
Cobriu o rosto com as mĂŁos antes que o animal o atacasse. Ursos miram o rosto. Ele sabia disso por experiĂȘncia prĂłpria. Como esperado, o urso mordeu sua mĂŁo esquerda, que estava protegendo seu rosto, e o derrubou ao mesmo tempo.
Sua mão esquerda era uma causa perdida. Ele desistiu dela imediatamente, empurrando a mão jå ferida em direção à boca do animal. Com um objeto estranho na boca, o urso soltou um gemido. Enquanto gemia, tentava desferir golpes com ambas as patas.
NĂŁo era pequeno. Era um urso consideravelmente grande. Provavelmente tinha quase trĂȘs metros de altura. Um golpe de suas garras era capaz de rasgar carne e osso. Ele sabia disso, entĂŁo se agarrou desesperadamente Ă fera.
Enterrando o rosto no pelo fedorento, com a mão esquerda ainda presa na boca do urso, ele envolveu o pescoço do animal com o braço direito e pressionou o corpo contra ele. As garras do urso cravaram em seu ombro esquerdo e depois em seu lado direito. Se a fera o arrastasse, seria o fim.
Ele enfiou os dedos indicador e médio da mão direita no olho esquerdo do urso. A fera uivou de dor. Suas patas se agitavam violentamente. Suas garras o feriram por toda parte. Ele não sentia dor.
Reaja.
Ele precisava reagir.
Gritou, incapaz de aceitar a derrota. Enquanto ambos urravam, ele empurrou sua mão esquerda, que jå não sabia em que estado estava, garganta adentro do urso. Com a outra mão, começou a socar o rosto do animal. Socava freneticamente.
De repente, seu corpo foi lançado pelo ar. Aparentemente, o urso tinha girado seu corpo inteiro de forma abrupta, e a força disso o jogou longe.
No ar, ele puxou sua faca.
Parecia que o urso tentava atacar sua presa em queda. Seu corpo estava gravemente ferido. Alguma parte dele havia sido destruĂda? NĂŁo sabia.
O impacto o fez perder a consciĂȘncia por um instante. Apenas por um instante.
O urso estava sobre ele. Parecia que estava sendo pressionado. Usando o braço esquerdo, que jå não tinha mais forma original, tentou proteger o rosto e o pescoço enquanto balançava a faca descontroladamente. Queria erguer as pernas para proteger o abdÎmen, mas, por algum motivo, não conseguia fazer isso direito.
O urso devia ter pensado em um plano, pois ergueu a parte superior do corpo. NĂŁo era bom. Suas garras aterrorizantes estavam prestes a descer.
Desvie.
Ele rolou para a direita, mas nĂŁo conseguiu sair totalmente do caminho, e um golpe praticamente esmagou seu ombro esquerdo.
Engatinhou, tentando escapar. NĂŁo deu certo. NĂŁo conseguia se afastar. O urso o pegou.
Parecia estar sendo pressionado. NĂŁo conseguia respirar. O urso cravou os dentes nele.
No lado esquerdo do corpo. Ele estava usando couro, mas isso não fazia diferença. O urso estava mordendo. Não só mordendo; estava o devorando. Sua carne.
Sem conseguir conter, ele gritou em agonia: â Gyahhhhhh!
Mesmo assim, não perdeu a chance de reagir contra a criatura, que estava focada em devorå-lo. Torcendo todo o corpo, ele mudou a posição da faca para uma empunhadura reversa e mirou no olho direito do animal. A lùmina não penetrou profundamente, mas conseguiu ferir o globo ocular. O urso jå tinha sido ferido no olho esquerdo antes. Agora não enxergava bem com nenhum dos dois olhos. Ganiu de forma patética e se afastou dele.
Em momentos como aquele, animais selvagens nĂŁo hesitavam. O urso virou-se e correu. Estava fugindo.
â …Que inferno? â Ele tossiu. A dor era intensa. NĂŁo soltou a faca. O urso poderia voltar. NĂŁo, isso era improvĂĄvel. Pelo menos, por enquanto, nĂŁo parecia provĂĄvel que ele retornasse. AlĂ©m disso, mesmo com uma faca, ele nĂŁo tinha mais condiçÔes de lutar.
Fechou os olhos. Esperou a tosse diminuir. Abriu a boca para tentar respirar um pouco melhor. NĂŁo tinha certeza se ajudava. NĂŁo tinha coragem de tentar se mexer.
Era assustador. QuĂŁo ferido ele estava, e onde? NĂŁo queria saber o estado em que se encontrava.
Bom, isso não vai acabar bem, percebeu. Provavelmente estava tão gravemente ferido que era um mistério ainda estar vivo. Ele sabia disso perfeitamente, mas deliberadamente evitava avaliar a situação.
Decepção.
Desespero.
Arrependimento.
Vergonha.
Isso é patético. Sou um idiota? ele se perguntou.
Mas não conseguia evitar. Sentia também uma espécie de resignação. Era isso que significava viver sozinho na natureza.
Ursos eram geralmente noturnos. Mas as coisas mudavam antes de hibernarem para o inverno. Ele sabia disso e não era como se não estivesse em alerta. Do lado do urso, provavelmente ele também não estava atrås de um humano. Ursos se alimentavam principalmente de cervos, coelhos, peixes, ratos e frutas. Suspeitava que o urso tivesse se assustado ao encontrå-lo e o atacado reflexivamente.
Por causa disso, estava nesse estado deploråvel, e o urso também tinha sofrido ferimentos significativos. Fora um acidente infeliz para ambos.
Se vocĂȘ nĂŁo vivia em uma cidade cercada por muros de pedra, acidentes como esse podiam acontecer a qualquer momento. No momento em que escolheu viver longe das pessoas, ele jĂĄ antecipava esse tipo de fim. Se tivesse mais sorte, talvez pudesse ter ido embora de forma mais pacĂfica, mas isso simplesmente nĂŁo aconteceu. Era sĂł isso.
Felizmente, parecia que ele nĂŁo iria morrer imediatamente. Abriu os olhos. NĂŁo conseguia reunir coragem para verificar seus ferimentos. SerĂĄ que conseguia se mover?
Tentou virar-se de barriga para baixo. Seu braço esquerdo estava inutilizado, e ele não tinha forças nas pernas, mas o braço direito estava intacto, então conseguiu, de alguma forma.
â …Muito bem.
Era hora de se divertir rastejando. Completamente dependente do braço direito, ele levava mais de trinta segundos para avançar um Ășnico metro. AlĂ©m disso, precisava fazer pausas frequentes ou ficava difĂcil continuar. DoĂa tambĂ©m. Provavelmente perderia as forças para prosseguir em breve.
â Quando acontecer, aconteceu…
Ele iria até onde conseguisse. Aprendeu isso durante seu tempo como soldado voluntårio. Não importava o que fosse, ele deveria fazer o melhor que pudesse. Isso era tudo que ele podia fazer.
Focou-se em seguir em frente, talvez porque nĂŁo quisesse pensar. Estava preparado, mas agora, diante do fim, alguns arrependimentos vinham Ă mente. NĂŁo queria se arrepender agora. NĂŁo havia nada que pudesse fazer sobre eles.
Sua vida teve muitos altos e baixos, mas ele viveu da forma que quis. Estava prestes a concluir a vida que escolheu. Queria pensar assim. NĂŁo queria pensar nos companheiros que deixou para trĂĄs, por exemplo.
Eu deveria ter feito isso. Eu deveria ter feito aquilo.
Havia outro caminho. Se olhasse para o passado, poderia acabar preso nesses arrependimentos.
Ele ia morrer de qualquer jeito. NĂŁo importava o caso, ele nĂŁo havia errado. Queria morrer acreditando nisso.
A morte nĂŁo era assustadora. Ele jĂĄ tinha perdido companheiros antes, e visto isso acontecer. Sentia que entendia o que era a morte.
Os mortos não voltavam. Permaneciam apenas nas memórias dos vivos. Se ninguém os lembrasse, desapareceriam por completo.
Naturalmente, era difĂcil lidar com a morte de pessoas prĂłximas. Houve momentos em que parecia que uma parte dele tinha sido arrancada. O tempo podia amenizar a tristeza e o sentimento de perda, mas, se ele pensasse nisso, seu peito se apertava.
Quero ver aqueles que morreram. Por que nĂŁo posso? ele pensava. Este mundo era injusto.
â Se for sĂł comigo, ninguĂ©m perde nada… â murmurou.
SerĂĄ que isso era verdade?
Era por isso que ele havia se afastado dos amigos e escolhido viver sozinho?
NĂŁo, isso nĂŁo podia ser tudo. Ele queria se livrar de todos os seus fardos, viver sem amarras, ser livre. Queria viver apenas para si mesmo.
Em troca disso, não podia contar com ninguém. Não incomodaria mais ninguém.
Ele jĂĄ estava farto de tudo.
Estava bem sozinho.
NĂŁo precisava de mais nada.
Viveria e morreria sozinho.
NĂŁo era isso o ideal?
Ainda assim, era difĂcil acreditar nisso. Que surpresa. Ele tinha conseguido voltar ao acampamento.
Montara sua barraca em um espaço levemente aberto, com boa visibilidade, construĂra um fogareiro, organizara todos os utensĂlios de cozinha e colocara uma cadeira dobrĂĄvel. Ele gostava desse tipo de trabalho minucioso. Sempre que olhava a bela paisagem enquanto cozinhava, sentia, do fundo do coração, que estava feliz por estar vivo.
Que pessoa pequena e entediante eu sou, ele riu.
E estava bem com isso. Era a verdade.
Apoiado no fogareiro, com os olhos baixos, nĂŁo podia ver a encosta da montanha ou as planĂcies Ă distĂąncia. Mas o cĂ©u se estendia infinitamente, e, mesmo enquanto a dor gĂ©lida o atormentava, ele sentia uma leve sensação de conforto.
Isso nĂŁo era tĂŁo ruim. Ele morreria ali. Seria um final digno.
â …SerĂĄ mesmo? â murmurou.
A quem estou perguntando? Ele riu. SĂł havia ele ali. Quando sua vida acabasse, as feras viriam devorar seus restos, sem dĂșvida. Ele rezava para que, antes que a maldição do No-Life King surtisse efeito, elas dessem um fim completo nele.
Bem, mesmo que nĂŁo fosse tĂŁo simples, seria depois de sua morte. NĂŁo precisava se importar. Podia terminar sua jornada em silĂȘncio ali.
Era o melhor. Muito melhor do que ver outra pessoa morrer.
Ele odiava isso. Nunca queria passar por isso de novo.
Se vivesse interagindo com outras pessoas, mesmo que não fosse como soldado voluntårio, um dia acabaria perdendo alguém. As pessoas, todos os seres vivos, estavam destinados a morrer, afinal.
Morrer.
E daĂ…?
Era simples… inevitĂĄvel…
â Ei, nerdĂŁo.
Fazia muito tempo desde que alguém me chamara assim. Tanto tempo que eu quase esquecera que jå me haviam chamado.
Keenesburg. NĂŁo a de Nova Jersey, mas a do Colorado.
Nessa cidade com cerca de 1.000 habitantes, quase todo mundo conhecia todo mundo. E, sendo um otaku desde pequeno, eu era uma criatura rara, o que tornava incrivelmente difĂcil viver ali.
Sempre fui um otaku, desde que me lembro, e, em algum momento, começaram a me chamar de nerdĂŁo. Apesar de ser cruelmente zombado pelas outras crianças do bairro, eu nĂŁo tinha outra escolha senĂŁo agir como um inseto que se agarra Ă s suas roupas e entra em sua casa sem que vocĂȘ perceba, tentando, de forma sutil, que me aceitassem no grupo.
Eu me odiava por fazer isso e pensava que talvez fosse mais feliz se me rejeitassem de vez e me afastassem. Mas, para eles, eu não passava de uma barata otaku, nem valia o esforço de ser intimidado.
Bom, eu mesmo conseguia perceber o quanto era insignificante e, em parte devido Ă influĂȘncia do meu pai, que tinha problemas com bebida e era ateu, tambĂ©m nĂŁo acreditava em Deus. NĂŁo havia salvação. Eu vivia com a ideia de que esta cidade, este paĂs e todas as pessoas simplesmente iriam desaparecer um dia, e eu jĂĄ estava pelo menos um terço do caminho para aceitar isso com seriedade.
Mas eu definitivamente nasci otaku. Um dia, descobri os animes japoneses na internet e comecei a ler mangås também.
Agora eu tinha um sonho. Eu queria ir para o JapĂŁo. NĂŁo havia Deus, nem paraĂso, mas no JapĂŁo, existia o paraĂso. Isso me deu forças para seguir em frente.
â Ei, nerdĂŁo.
Eu estava com um sorriso idiota no meu rosto cheio de espinhas. Mas quando Matt, o grandalhão que tinha passado mais de cinco anos zombando de mim, me chamou daquilo, eu perdi a cabeça e pulei nele. Meu ataque surpresa foi um sucesso, e eu derrubei Matt, montei nele e comecei a desferir golpes desajeitados em seu rosto.
Naquele momento, meu coração estava ficando mais forte, mas meu corpo ainda era fraco, entĂŁo eu nĂŁo consegui realmente machucar Matt. Naturalmente, uma vez que ele se recuperou do susto, Matt me empurrou com facilidade. Os golpes dele, ao contrĂĄrio dos meus, nĂŁo eram nada ineficazes, e eu realmente levei uma surra. Mesmo assim, nĂŁo implorei por misericĂłrdia. Me defendi o melhor que pude, cerrei os dentes e aguentei firme atĂ© que a fĂșria de Matt diminuĂsse.
Parecia que, eventualmente, os punhos de Matt começaram a doer, e ele foi embora, despejando palavrÔes enquanto se afastava.
Keenesburg.
Eu fiquei deitado ao lado da estrada na South Pine Street, sozinho, cantarolando uma pequena canção de vitória para mim mesmo. Eu era um otaku, mas não era fraco. Nem burro. Eu ficaria mais forte e realizaria meu sonho.
Quanto tempo havia se passado desde entĂŁo?
Por que eu estava aqui?
Meu sonho nĂŁo tinha se realizado?
Sim. Eu estudei japonĂȘs. Meus materiais de estudo eram, na maioria, animes e mangĂĄs. AlĂ©m disso, mĂșsicas de anime e J-pop. TambĂ©m li romances japoneses. E estudei.
Originalmente, eu me saĂa melhor em ciĂȘncias, mas depois de estudar japonĂȘs, parei de odiar tanto as matĂ©rias de humanas. Enquanto corria e fazia alongamentos, tambĂ©m fiz musculação e treinei. Mesmo que nunca fosse tĂŁo grande quanto Matt, consegui ganhar algum mĂșsculo.
Eu não era popular com as garotas. Não, não apenas com elas. Ninguém, nem mesmo os caras, queria ter algo a ver comigo.
Suportei a solidĂŁo e, finalmente, pisei em solo japonĂȘs como estudante de intercĂąmbio. Foi por um perĂodo de cerca de um ano. Passei meus dias pensando: Eu nunca quero voltar para casa.
Por que eu nĂŁo podia ter nascido neste paĂs? De qualquer forma, o JapĂŁo combinava comigo.
Naturalmente, eu ainda era um otaku, mas isso fazia os japoneses sentirem uma espĂ©cie de simpatia por mim. Com minha famĂlia anfitriĂŁ, os Hazaki, senti um tipo de amor familiar caloroso que nunca havia experimentado com minha famĂlia de verdade. Em um colĂ©gio japonĂȘs, um lugar que eu sempre sonhei em frequentar, consegui fazer amigos de verdade pela primeira vez.
TambĂ©m encontrei o amor. Com uma colegial japonesa, uma JK, Satsuki. Sim, eu arranjei uma namorada com o mesmo nome da menina de Meu Amigo Totoro. Satsuki e eu dĂĄvamos as mĂŁos e saĂamos em encontros. CaminhĂĄvamos ao longo de um dique, atravessĂĄvamos uma ponte, entrĂĄvamos em uma livraria e nos sentĂĄvamos em um banco de parque.
â Jessie, seu japonĂȘs Ă© muito bom â Satsuki sempre me dizia. â Ă tĂŁo natural â ela dizia.
Eu me sentia como se tivesse ido para o paraĂso. Talvez eu nĂŁo acreditasse em Deus, mas, se ele me levasse ao paraĂso, era assim que tenho certeza de que seria. Eu beijei Satsuki. Foi um beijo doce, em que apenas nossos lĂĄbios se tocaram. Mas foi sĂł isso. Eu hesitei.
Quer dizer, eu teria que voltar, e nĂŁo poderia ficar com Satsuki para sempre. Aquele foi o primeiro beijo dela? Queria perguntar a Satsuki, mas nunca consegui.
Quer dizer, se não fosse, o que isso importaria? Se eu fosse o segundo ou o terceiro, me sentiria mais à vontade para avançar no relacionamento, talvez até transar com ela se as coisas dessem certo, era isso?
Eu não conseguia pensar assim. Eu amava Satsuki de verdade. Por mais infantil que isso pareça em retrospecto, eu queria amar Satsuki com toda a sinceridade que pudesse reunir, enquanto permanecia fiel a mim mesmo.
Naturalmente, eu tinha meus desejos. Ficava tĂŁo frustrado depois dos nossos encontros, mas nĂŁo queria usĂĄ-la apenas para aliviar isso. Mesmo depois que eu voltasse para casa, terĂamos a internet, entĂŁo poderĂamos dar um jeito. NĂŁo havia garantia de que um romance Ă distĂąncia nĂŁo daria certo.
Ainda assim, mesmo dizendo isso para mim mesmo, era difĂcil acreditar. Se eu pudesse permanecer no paĂs e visitĂĄ-la de Shinkansen ou algo assim, seria uma coisa, mas terĂamos o vasto Oceano PacĂfico nos separando. Se eu pensasse com calma, nĂŁo iria funcionar.
Ă medida que o dia de voltar para casa se aproximava, Satsuki me disse: â Eu estou bem com um relacionamento Ă distĂąncia.
Eu apenas repetia para ela que a amava. Era o que eu realmente sentia. Mas não queria deixar claro que eståvamos terminando e machucå-la. Também não estava pronto para me machucar.
Por um tempo, depois que deixei o JapĂŁo, continuamos nos comunicando pela internet, mas as vĂĄrias videochamadas por dia acabaram se tornando uma sĂł, depois uma a cada vĂĄrios dias.
Eventualmente, Satsuki disse: â Jessie, vocĂȘ nĂŁo acha que tem sido meio frio ultimamente?
Quando pedi desculpas, ela perdeu a paciĂȘncia comigo.
E foi isso. Provavelmente, ela encontrou outro cara de quem gostava. Eu jĂĄ tinha sentido que isso ia acontecer, mas nĂŁo tinha intenção de perguntar. Ainda amava Satsuki, mas justamente por isso nĂŁo queria prendĂȘ-la. Queria que ela fosse feliz, mais do que qualquer coisa.
Sem estar ao lado dela, nem mesmo podia segurar sua mão. Por isso, fiquei bem com essa situação. Fiquei repetindo isso para mim mesmo.
Mesmo assim, ainda planejava voltar ao JapĂŁo. NĂŁo era que eu odiasse meu paĂs, mas ele realmente nĂŁo combinava comigo. Morando lĂĄ, eu me sentia um estranho. Sentia que meus pais nĂŁo eram realmente meus pais. Parecia que eu tinha nascido em uma terra distante e sĂł tinha crescido ali por um erro.
Quero dizer, de qualquer forma que olhassem para mim, eu era apenas um cara comum que cresceu em uma pequena cidade americana como Keenesburg, teve uma vida familiar ruim, mas nĂŁo terrĂvel, tirou boas notas, conseguiu frequentar uma boa escola e foi para uma universidade razoavelmente decente.
Mas isso estava errado. Esse não era eu. Tenho certeza de que ninguém entenderia, mas eu entendia.
NĂŁo podia ser feliz ali. Se estivesse no JapĂŁo, poderia ser eu mesmo. Poderia viver da forma que queria e, mesmo que nĂŁo conseguisse reatar com Satsuki, poderia encontrar uma garota maravilhosa para amar e, algum dia, atĂ© construir uma famĂlia.
Quando esse momento chegasse, eu tinha certeza de que finalmente conseguiria amar meus pais. NĂŁo importava o que tivesse acontecido antes; eles me trouxeram ao mundo. Com certeza eu seria grato e faria de tudo para ser um bom filho.
Em outras palavras, tudo ficaria bem. As coisas tomariam um rumo melhor. Eu estava confiante. No ano que passei como estudante de intercùmbio, minha autoconfiança cresceu.
EntĂŁo, enquanto frequentava a universidade, usei uma variedade de mĂ©todos, legais e ilegais, para ganhar dinheiro. Quando economizei o suficiente para me sustentar por alguns meses lĂĄ, minha paciĂȘncia acabou.
Pedi uma pausa nos estudos e voei do Aeroporto Internacional de Denver para Seattle, Vancouver e, finalmente, Narita.
Eu finalmente tinha voltado ao JapĂŁo. Felicidade e alĂvio. Era isso que eu sentia.
â …Por quĂȘ? Grim…gar…
Que estranho, pensei.
Eu estava no JapĂŁo.
Ou deveria estar.
Enquanto ganhava dinheiro das formas que tinha aprendido na universidade, vivia uma vida de otaku.
Fiz mais amigos. Não apenas amigos otakus. Também andava com os normies.
Eu nĂŁo ia a Roppongi com frequĂȘncia, mas Nakano, Shinjuku e Akihabara eram como meu quintal. O tempo que eu planejava ficar foi se estendendo aos poucos, e comecei a pensar no que poderia fazer para permanecer.
Primeiramente, não poderia abandonar a universidade. Também seria uma boa ideia explicar as coisas para meus pais. Precisaria voltar para casa por um tempo, mas isso seria um incÎmodo. No entanto, não podia simplesmente ficar aqui assim.
Seria muito mais fĂĄcil viver aqui se tivesse um emprego adequado. Tinha algumas pistas sobre isso. Talvez fosse estranho dizer isso sobre mim mesmo, mas era esperto. Eu era uma pessoa bem habilidosa. NĂŁo importa o que eu fizesse, nunca era o melhor. Mas conseguia fazer melhor que a maioria, entĂŁo podia me virar.
EntĂŁo… eu estava no JapĂŁo.
Deveria estar… no JapĂŁo, entĂŁo por que…?
Por que eu estava em Grimgar?
Antes que percebesse, tinha chegado a Grimgar.
Uma lua vermelha. A lua era vermelha, e isso o surpreendeu.
O que aconteceu…?
Ele nĂŁo sabia. De qualquer forma, isso nĂŁo era o JapĂŁo. Era Grimgar. Ou serĂĄ que tudo nĂŁo passou de um sonho?
Ele abriu os olhos, que tinham se fechado em algum momento. Nuvens dispersas. Conseguia ver o céu azul pålido. Não era o céu de Tóquio.
TĂłquio. Isso mesmo. Eu estava em TĂłquio. NĂŁo hĂĄ dĂșvida sobre isso. Mas agora estou nas montanhas. Em uma das Sete Montanhas com seus picos distintos. O Vale Quebrado, onde viviam os elfos cinzentos, ficava na base delas. Sim. Este Ă© Grimgar.
Ele conseguia se lembrar de todos os companheiros que conhecera e de quem se separara aqui. Tinha uma lembrança igualmente vĂvida de Satsuki e de todos os seus amigos em TĂłquio.
Estranho.
Ele os havia esquecido por todo esse tempo.
O que tinha acontecido? Como ele havia acabado assim?
Isso nĂŁo importava agora. Por que ainda estava respirando? AtĂ© mesmo a dor parecia distante. Ele estava prestes a morrer…
Morrer.
Estou prestes a morrer? Quero ver a Satsuki.
Sou idiota? Quantos anos acho que se passaram desde a Ășltima vez que nos vimos? Estar meio morto estĂĄ bagunçando minha cabeça. NĂŁo, mas minha consciĂȘncia estĂĄ surpreendentemente clara. NĂŁo acho que consigo mexer sequer um dedo, e minhas pĂĄlpebras estĂŁo meio fechadas. Estou claramente prestes a morrer. Apesar disso… vou morrer? Morrer assim?
Isso era inesperado. Ele imaginava que sua existĂȘncia se estreitaria, que perderia a consciĂȘncia, suas emoçÔes e pensamentos se tornando cada vez mais fracos, atĂ© que nĂŁo sobrasse nada. Se nĂŁo morresse instantaneamente, era assim que ele esperava que fosse o fim. SerĂĄ que nĂŁo era assim que era? A morte?
Vou morrer.
A qualquer momento.
Ainda nĂŁo?
Quando isso vai acabar? Me dĂĄ um descanso, jĂĄ.
Pensar que teria que ficar ali, esperando impacientemente pela morte…
Outra coisa.
Sim. Pensar em outra coisa. Chega de pensar na morte.
Era inevitĂĄvel. Isso era o que tornava a morte assustadora. Ele sabia disso agora por experiĂȘncia prĂłpria. Mas nĂŁo havia nada a ser feito. Se agisse com medo, ficaria apenas mais assustado. Era hora de se distrair.
Grimgar.
O que havia com este mundo? Era diferenteâum mundo diferente? Ou era algum lugar na Terra? NĂŁo, nĂŁo havia como um territĂłrio tĂŁo vasto e inexplorado ainda existir. Nesse caso, nĂŁo era a Terra. Outro planeta? O primeiro exoplaneta foi descoberto em 1995. Muitos foram encontrados desde entĂŁo. Alguns estavam na zona habitĂĄvel, aptos a abrigar vida, mas todos eram distantes. A menos que viagens mais rĂĄpidas que a luz fossem possĂveis, como em algum romance de ficção cientĂfica, nĂŁo havia como chegar atĂ© eles. Ele nĂŁo podia dizer que a teoria de outro planeta era realista.
Realista?
Havia magia em Grimgar. Diziam até que existiam deuses. Este lugar não era realista desde o começo.
O que significava…
…que nĂŁo era realidade?
Era mesmo um sonho?
NĂŁo era possĂvel. Nenhum sonho era tĂŁo longo, coerente, envolvente para todos os sentidos, detalhado e ao mesmo tempo profundo e vago. Isso nĂŁo era um sonho. Era uma realidade indiscutĂvel.
Ainda assim, TĂłquio no JapĂŁo e Grimgar nĂŁo estavam conectados. Havia um vazio intransponĂvel entre os dois.
Era um mundo diferente. Um mundo paralelo? Como na teoria dos muitos mundos? Algum efeito o transferiu para um desses mundos paralelos nĂŁo observĂĄveis?
Era uma ideia ridĂcula. Ele podia aceitar hipoteticamente que, por uma probabilidade infinitesimalmente pequena, algo assim poderia ter acontecido. Mas nĂŁo era isso. A maioria dos soldados voluntĂĄrios em Altana estava na mesma situação que ele.
Essa era a realidade.
Isso era a realidade.
Mas e se nĂŁo fosse?
Por ter acreditado que aquilo era a realidade, ele conseguia acreditar que isso tambĂ©m era. Mas e se aquele mundo, que servia como base para ele julgar o que era real, nĂŁo fosse realidade desde o inĂcio?
Uma ideia de repente lhe ocorreu.
A teoria da simulação.
Se formas de vida sencientes, como os humanos, por exemplo, inventam um computador e essa tecnologia se torna avançada o suficiente para simular um universo, as chances de tal simulação ser criada são incrivelmente altas. Se a humanidade dentro da simulação, por sua vez, se torna avançada o suficiente para simular um universo, provavelmente haverå uma simulação dentro da simulação. Essa simulação inevitavelmente conterå outra simulação dentro dela também.
…SimulaçÔes dessas simulam o universo inteiro, entĂŁo as formas de vida individuais dentro delas agiriam como as que realmente existiram. As pessoas simuladas dificilmente perceberiam que estavam sendo simuladas. Mesmo que desconfiassem, nĂŁo haveria como provar que este mundo era uma simulação.
Naturalmente, tambĂ©m havia a possibilidade de ele nĂŁo estar vivendo em uma simulação, mas no mundo verdadeiro. PorĂ©m, se fosse possĂvel simular um universo, seria razoĂĄvel supor que nĂŁo seria feita apenas uma simulação, mas muitas. Com simulaçÔes dentro de simulaçÔes, era lĂłgico deduzir que haveria um nĂșmero infinito de universos simulados. Em comparação, haveria apenas um mundo real.
No fim das contas, ele era uma pessoa em uma simulação ou uma pessoa vivendo no mundo real? No infinito ou no Ășnico?
Naturalmente, as chances de ele estar vivendo em uma simulação eram esmagadoramente maiores.
Originalmente, essa hipĂłtese fora proposta por algum sueco cujo nome ele nĂŁo lembrava. Teria lido isso em um livro ou algo assim? Na Ă©poca, ele pensara: Faz sentido, mas nĂŁo tinha levado muito a sĂ©rio. A realidade Ă sua frente era muito mais importante, afinal, e os desafios tecnolĂłgicos eram tĂŁo grandes que parecia irreal imaginar atĂ© mesmo simular uma Ășnica pessoa. Simular o universo parecia impossĂvel. Pelo menos naquele momento.
No entanto, o tempo passou.
O ENIAC, considerado o primeiro computador, foi concluĂdo em 1946. Desde entĂŁo, os computadores avançaram incrivelmente rĂĄpido em poucas dĂ©cadas.
Nesse caso, como seria daqui a um sĂ©culo? E em um milĂȘnio? Se a humanidade nĂŁo fosse extinta, com certeza seria capaz de simular o universo algum dia. E, quando esse dia chegasse, a teoria da simulação deixaria de ser apenas uma teoria.
Por exemplo, imagine o Mundo Simulado A. Suponha que haja uma Simulação B dentro dele, que foi executada vĂĄrias vezes, e na Simulação B exista a Simulação C, que tambĂ©m foi realizada diversas vezes. E se um bug ou algo assim em B transferisse pessoas de B para C…?
Mesmo que fosse isso, as pessoas vivendo na simulação não poderiam provar. Porém, em comparação com pensar que uma pessoa de Tóquio, Japão, na Terra do Mundo Real X foi transferida para Altana em Grimgar no Mundo Real Y, era muito mais fåcil aceitar a ideia de uma simulação.
Uma simulação. Uma simulação, hein?
Ele mesmo vivia em uma simulação dentro de outra simulação. Pensar nisso fazia sua vida parecer muito mais trivial.
Era vazio.
Ainda assim, ele sempre acreditara que as coisas eram como vocĂȘ as via, que nĂŁo havia cĂ©u nem inferno, pois eram cientificamente impossĂveis. Mas, talvez, o mundo alĂ©m da morte tambĂ©m fosse simulado. Se fosse assim, a morte nĂŁo seria o fim, mas uma jornada para um novo mundo.
De qualquer forma, tudo não passava de uma simulação.
â …SerĂĄ que alguĂ©m… estĂĄ assistindo…? â murmurou.
â Sim, eu estou assistindo.
Ele obteve uma resposta.
ImpossĂvel.
Ele não conseguia mover a cabeça. Procurou a pessoa que falou apenas com os olhos.
Ali.
A seus pés.
A pessoa estava agachada.
Ela usava um capuz, entĂŁo ele nĂŁo conseguia ver seu rosto, mas provavelmente era uma mulher. A voz parecia mais feminina do que masculina. Suas palavras eram no idioma comum de Grimgar, falado por humanos, elfos e anĂ”es. Pensando bem, por que o idioma comum era idĂȘntico ao japonĂȘs? E agora que pensava nisso, a lĂngua dos mortos-vivos parecia um pouco com o inglĂȘs.
â …Acho que nĂŁo importa â murmurou. â De qualquer forma…
â VocĂȘ estava falando sobre algo interessante â disse a mulher.
â …Fa…lando? Quem estava…?
â VocĂȘ.
â …Eu estava… falando alto? Eu nĂŁo achei… que tivesse alguĂ©m aqui. Pensei… que era sĂł eu.
â Um urso te atacou?
â …Mm. â AtĂ© mesmo um aceno parecia encurtar sua vida.
Que piada. O que havia de errado com isso? Ele não tinha muito tempo de vida. Se a morte viesse em dez minutos, cinco minutos, um minuto ou trinta segundos, não fazia tanta diferença.
AlĂ©m disso, sua vida quase certamente era apenas uma simulação, entĂŁo era ridĂculo pensar sobre vida e morte. Ambas eram desprovidas de significado.
Nada tinha valor.
Era estĂșpido, absurdo.
Ele desejava apenas poder morrer de uma vez.
Queria desaparecer.
â O urso parecia perigoso se fosse deixado sozinho, entĂŁo eu acabei com ele â disse a mulher. â Acho que foi ele que fez isso com vocĂȘ.
â Ah, Ă©?
â O que houve?
Nada, na verdade.
NĂŁo havia nada a ser feito.
Nada poderia ser feito.
Pensar que, Ă beira da morte, ele se sentiria assim.
â EstĂĄ chorando? â perguntou a mulher.
Talvez estivesse.
Ele nĂŁo queria perceber.
Queria morrer sem saber de nada.
Seria mais fĂĄcil assim. Como as coisas haviam chegado a esse ponto?
Seja qual fosse o motivo, ele havia sido transferido de Tóquio, no Japão, para Grimgar. Quando isso aconteceu, ele esqueceu quase tudo sobre aquele mundo. Pensando bem, talvez isso tivesse sido um ato de misericórdia de alguém.
Não havia necessidade de saber. Era melhor não saber. Ele não precisava pensar sobre isso. Se era apenas uma simulação ou não.
Se fosse coincidĂȘncia ou inevitabilidade, ele era um Ășnico ser vivo nascido em um certo lugar, um Ășnico ser humano. Ăs vezes com diligĂȘncia, outras com preguiça, e ainda outras com desespero, ele atravessaria seu tempo limitado e, um dia, morreria.
Havia aqueles que eram exaltados como herĂłis, outros que eram ridicularizados como covardes, e outros que eram desprezados. Havia aqueles que amavam as pessoas e traziam felicidade, e aqueles inĂșteis que roubavam ou feriam os outros. Alguns, Ă s vezes, eram virtuosos, mas em outras manchavam as mĂŁos com atos vis. Pequenas, grandes ou medianas, todas as vidas eram Ășnicas, e cada uma tinha valor.
Ao menos, para cada pessoa, era a Ășnica vida que tinham.
O melhor seria morrer sentindo isso.
Se pudesse acreditar, ele gostaria.
Mas nĂŁo conseguia mais.
â VocĂȘ deseja nĂŁo morrer? â perguntou a mulher.
Ele não tinha forças para responder. Mas, se pudesse, ele diria. Com toda a alma, ele gritaria.
SIM! Ele choraria. Eu nĂŁo quero morrer.
Achou que jå tinha se preparado para morrer hå muito tempo, mas agora tinha que admitir que tudo sobre essa preparação era vazio. Ele não queria morrer assim.
Eu sei. Querendo ou nĂŁo, vou morrer. NĂŁo posso evitar.
Mas eu nĂŁo quero.
Eu quero viver mais? NĂŁo sei. Mas nĂŁo quero morrer sentindo isso.
â Existe um jeito. Apenas um â disse a mulher em algum lugar ao longe.
Muito, muito longe.
NĂŁo, provavelmente nĂŁo era isso. Ele provavelmente estava indo embora por si mesmo.
Ele nĂŁo conseguia mais ver nada.
Estava morrendo.
â VocĂȘ parece saber coisas fascinantes, entĂŁo eu preferiria nĂŁo deixar vocĂȘ morrer assim â disse a mulher. â Eu queria ao menos saber seu nome, mas isso pode esperar.
E entĂŁo a mulher acrescentou: â AtĂ© mais.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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