Sugar Dark Lightnovel Segunda Cova 5-2

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CAPÍTULO 5-2

— O cara estranho sempre vem ao meio dia.
Eles podiam sentar onde quisessem no terreno vasto e disperso do cemitério, mas, talvez devido à natureza humana, Muoru sentou-se próximo a uma árvore.
Sob o céu estrelado, o qual parecia não ter mais limites, ele e Mélia estavam sentados lado a lado na raiz de um olmeiro.
— Um cara estranho? — Mélia esticou o pescoço quando ouviu Muoru.
— Ah, qual a melhor forma de descrevê-lo? Digo, nem mesmo sei se é um garoto ou uma garota. Ah, e a propósito, Mélia, você sabe algo sobre os caçadores de monstros que usam máscaras?
Além das vezes em que conversava com Corvo, teve muitas ocasiões onde esteve cercado pelo grupo de pessoas mascaradas durante um enterro. Mas, a não ser quando dava instruções simples, nunca falavam com ele. Além disso, essas ocasiões nem tinham uma atmosfera boa para conversarem.
Certamente, pessoas como Corvo eram uma exceção entre as exceções.
— Hm... — Mélia forçou o rosto, como se examinasse com força a pergunta de Muoru —, sei um pouco sobre eles, mas é difícil dizer. Alguém me disse que iam e vinham para marcar A Escuridão, porém, nunca mostravam o rosto ou falavam. Pelo menos não comigo...
Se não falavam com você, e comigo também não, então...
— Bem, quem?
O silêncio respondeu à pergunta de Muoru, e Mélia, com uma expressão complicada, virou-se.
Isso é o que sempre acontece, pensou enquanto sentia a tristeza e o desencorajamento percorrendo-o. Nestes momentos, não importava o que tentasse perguntar, era inútil. Ela se calava por completo e ele não poderia forçar sua resposta. E isso seria um terrível desperdício, pois estragaria a relação deles ao pressionar o assunto sobre Corvo, ainda mais com todo o esforço necessário para chegar a este ponto na relação.
Eu precisaria repetir tudo....
A noite era importante, porque era o momento em que podia tentar conseguir informações úteis de Mélia. Mas, mesmo sendo uma ouvinte habilidosa, não tentava conversar. Até agora, ele esteve se esforçando ao máximo para conversar sobre si mesmo e usou o mundo exterior como uma isca, mesmo sem saber se conseguiria manter a conversa. No entanto, depois de um mês conversando sobre si mesmo, o assunto estava começando a acabar. Por isso, nesta noite, tentou mudar um pouco ao falar do Corvo, entretanto, não importou, o resultado foi o mesmo de sempre.
Sem saber o que dizer em seguida, Mélia, de repente, olhou para cima e disse:
— Me desculpe.
— Hã? — perguntou Muoru, desnorteado pela desculpa repentina.
— Muoru, você está sempre trabalhando o dia inteiro. Porém, mesmo estando cansado, ainda sai para me ver à noite...
— ...
— Mas, mesmo assim, nunca sei o que eu devia dizer...
— O que está dizendo? — perguntou Muoru, de uma forma desafiadora. A forma de falar de Mélia estava o irritando um pouco. — Por que não pode falar?
O fato de se importar com seu cansaço ou coisa do tipo o irritava. Afinal de contas, estava fazendo o mesmo tipo de trabalho monótono que sempre fazia. Com este tipo de trabalho, tudo de que precisava era força física. Além do mais, o fato de que ela estava preocupada com ele o irritou ainda mais.
Após ouvir as palavras um tanto quanto duras de Muoru, Mélia parecia estar prestes a chorar.
— Mas — começou ela —, sinto que...
— Hã?
— Sinto que você me odeia — desviou o olhar imediatamente, esperando pela sua sentença.
O que disse foi tão chocante que a mente de Muoru ficou em branco. Ele sentia que já ouvira uma história semelhante antes. Certo, as duas histórias não eram exatamente parecidas, mas vinham da mesma ideia. Não, não era apenas uma história que ouviu antes, também era algo que o fazia se sentir culpado.
Mesmo sempre estando incomodado por achar que era odiado por ela, nunca imaginou que a garota pensava o oposto.
— Hm, sinto a mesma coisa. — As palavras pareciam sair de sua boca sem sua permissão, talvez fosse por causa das emoções desconhecidas se agitando dentro dele.
— O quê?
— Se alguém está odiando, com certeza é você. Eu, no entanto...
Os olhos azuis de Mélia se alargaram e ela dobrou a cabeça para o lado de forma estranha, então, perguntou:
— Por quê? Fiz algo de errado para que pensasse isso?
— Hm... — O garoto hesitou. Pensou que não devia falar; no entanto, ao mesmo tempo, sentia que permanecer em silêncio só piorava a situação.
Na tentativa de escapar do olhar de Mélia, ele olhou para o lado e continuou:
— Não, o que quero dizer é... vi você tomando banho.
A pele de Mélia era mais branca do que a de qualquer outra pessoa que já viu. No entanto, em um instante, tudo, de suas orelhas até a nuca, tornou-se escarlate.
— Aqu... aquilo... — E cada vez que tentava dizer algo, só ficava mais vermelha.
No fim, cobriu e rosto e ficou em silêncio antes de conseguir dizer algo compreensível.
Muoru mordeu os lábios com força.
Estava começando a se odiar. E, por alguma razão, estava sentindo vergonha de suas ações. Se fosse para cavar sua própria cova, o trabalho que teve durante o dia não chegaria nem perto em comparação.
Porém...
— Mas... — disse ele, forçando-se a esquecer o nojo que sentia de si mesmo surgindo dentro de seu peito.
Podia ser, em grande parte, desespero, no entanto, como disse a si mesmo quando saiu do estábulo, seu principal motivo para conversar com Mélia era o de tirar informações dela.
Mesmo ao pensar que essa ideia quase desapareceu, ainda se sentiu um pouco irritado. Talvez fosse porque Mélia estava o acusando falsamente. Então, aproveitando-se das brasas dessa raiva, continuou:
— Sei que é apenas uma desculpa, mas, naquela vez, não foi de propósito. Além disso, um pouco da culpa também é sua. A mansão deve ter chuveiros. Então, por que foi se lavar do lado de fora?
Mélia piscou.
— Mas não posso entrar na casa. — Mesmo sendo inesperado o que dissera, manteve um tom simples.
— Como? — perguntou Muoru. — Quero dizer, onde você dorme?
Por um momento, ela parecia estar pensando sobre o que dizer, mas, então, apontou para o chão.
Depois de pensar um pouco, Muoru perguntou:
— Em um porão?
Mélia balançou a cabeça.
— Então... — O garoto hesitou um pouco.
Como diabos devia interpretar isso? Parecia estranho. E mesmo tendo sido apenas sua impressão, sentia que uma pessoa vivendo no subsolo não era comum. Normalmente, pessoas com bom status social não dormiam abaixo do chão.
Sério, ninguém dorme no subsolo, a não ser soldados no campo de batalha, que dormem nas trincheiras da linha de frente por medo de explosões vindas dos inimigos.
No entanto, tinha suas dúvidas sobre o que ela falou. Se juntasse todos as pequenas informações que conseguiu sobre a mansão, não parecia que o porão estava conectado diretamente com a construção. Sendo mais especifico, isso significaria que ela não tinha o direito de entrar quando quisesse. Se assim for, isso não a tornaria uma prisioneira?
— Não estou brava — disse ela —, já te disse no outro dia. Você não fez nada de cruel ou doloroso para mim.
Ignorando seus pensamentos a respeito do porão, Muoru voltou a prestar atenção e ouviu com cuidado. Enquanto olhava para ele, com a bainha de seu manto azul-escuro sendo segurada firmemente por suas mãos, suas bochechas começaram a ruborizar mais uma vez.
— Mas, mas... aquilo... foi constrangedor, mas...
— Sinto muito. — Ele precisava se desculpar. Mesmo sendo sem querer, ainda sentia que a ver foi errado. — Ou... ouça, foi isso. Dizem que perdoar um ao outro é importante. Se as pessoas não fizerem um cessar-fogo, a guerra nunca terminará..., o mesmo vale para nossa situação, o que acha de uma trégua?
Assim que terminou, sentiu que havia cometido outro erro. Eu não devia ter dito isso.
Não só pareceu sugerir que já deviam parar de conversar, e que estaria tudo bem se Mélia ficasse quieta, como também parecia sugerir que ela devesse ficar longe dele.
Porém, por alguma razão, Mélia não concordou com sua proposta.
Por quê?
Havia algum tipo de confusão entre os dois. Ele tinha certeza de que ela não estava brava com o fato de citar o assunto do banho novamente, no entanto, seu silêncio não o deixou muito otimista.
Além disso, por que parecia que Mélia estava tão preocupada com isso? Provavelmente estava hesitando sobre algo, mesmo que tenha tido coragem para lhe dizer no outro dia, “Serei sua amiga”.
Antes, não expressou sua preocupação porque não sabia o que era um amigo. Talvez, ainda não soubesse. Entretanto, sobre isso...
— Ah. — Muoru se lembrou de algo que dissera na primeira vez que ela recusou sua oferta.
“Amigos, bem, hm... é o próximo passo depois de conhecidos... isso é... mútuo? Não mais que isso, para se conhecerem melhor, duas pessoas ficam mais próximas... tipo isso.” Na realidade, Muoru não tinha certeza do que estava falando. Apenas lhe deu uma resposta no calor do momento.
Aquela noite... parecia fazer muito tempo.
Já que Mélia havia ouvido muitas de suas histórias; ele sempre perambulava de forma desordenada, mas havia, sim, falado muito sobre si mesmo. Na verdade, de muitas formas, sentia que Mélia conhecia a pessoa, “Muoru Reed”, melhor que ninguém.
Mas, quando se tratava dela, era difícil dizer que sabia algo.
E, sobre isso, ela não se sente da mesma forma? Será que não quer que eu saiba mais?
Sempre estava sendo o centro da conversa, talvez seu pensamento tenha formado um ego grande. Porém, ao mesmo tempo, sentia que os sentimentos de Mélia estavam sendo direcionados a ele. Caso fosse verdade, não significaria que ela havia saído para vê-lo?
Antes, sentiu que havia um grande abismo entre eles. Um buraco que não poderia ser preenchido de forma alguma. E, no começo, pensou que o dia no qual ela falaria sobre si mesma parecia estar em um futuro distante.
Mas quando se separaram naquela noite e ele lhe disse “até mais”...
Com um simples aceno de mão, Mélia respondeu: “Aham... até mais.”
Então, talvez, este dia estivesse muito mais perto do que imaginava


Logo, no entanto, um balde de água fria caiu sobre ele.
Quando Muoru tentou voltar ao estábulo, Daribedor o emboscou, vindo da mansão. O velho colocou o lampião elétrico, com sua forte luz branca, aos seus pés.
Levantou um pouco seu braço direito e se aproximou:
— Tu ficaste bem próximo da garota, não é?
Houve um som de estalido pesado. Era um som que Muoru conhecia muito bem, mesmo fazendo tempo que não o ouvia... o martelo do gatilho.
Daribedor lhe apontava um revólver preto, e, mesmo na escuridão, Muoru conseguia ver com clareza a forma do pequeno cano. Mesmo que a bala pudesse ser pequena, ainda seria o suficiente para matar um humano.
— Se for, há algo de errado nisso? — perguntou com cuidado. Era idiotice pensar que Daribedor não tinha percebido seus encontros com Mélia. Mas o verdadeiro problema não era ele estar ciente da situação, mas sim como agiria.
Seu empregador, Daribedor, tinha o direito de lidar com ele, com qualquer prisioneiro, como quisesse. Por isso, independentemente do trabalho que forçou a Muoru, não importava quantos dias o deixasse sem comida, ou se enviasse o prisioneiro novamente para o centro de detenção, tudo estava dentro de seu poder. E, no pior dos casos, o mataria neste lugar.
Não tenho intenção de simplesmente chutar o balde dessa forma.
Sua expressão facial, sem perceber, se enrijeceu. Já teve vários ferimentos, porém, feliz ou infelizmente, ainda não havia levado um tiro. Por isso não conseguia imaginar que tipo de dor seria, a julgar pelo calibre, a menos que errasse feio, com certeza resultaria em morte instantânea.
Se for assim...
Com a arma apontada para ele, o velho mostrou o sorriso mais repulsivo que tinha.
— Não estou preocupado com isso. Pelo contrário, estou impressionado que fostes capazes de conquistá-la. Parece que tu tens uma habilidade impressionante para decepcionar, não estou certo? — Daribedor riu alto, um som tão irritante que chegou a dar nos nervos de Muoru.


Ele está me repreendendo por ver Mélia?
Apesar de lamentar por Daribedor dizer o que quisesse sem ao menos saber do duro trabalho que teve para chegar até ali com Mélia, permaneceu completamente parado.
A tentativa miserável do velho para provocá-lo foi irritante. Porém, Muoru tinha muita experiência com esse tipo de coisa. Na verdade, sua habilidade de manter uma expressão imóvel e tolerar piadas da maioria de seus companheiros veteranos do exército o ajudaram a se tornar mais maduro do que sua aparência sugeria.
Se eu soubesse, não haveria problema? Ou... Daribedor tem alguma coisa contra mim, independentemente do que fiz?
— Parece que queres dizer algo — disse Daribedor, o sorriso desapareceu de seu rosto. Na escuridão, a ferida onde seu nariz devia estar parecia um buraco mais escuro do que o do cano da arma.
Muoru respondeu:
— Não mesmo... só não me lembro de você ter avisado que brincar durante a noite atrapalharia meu trabalho.
— Mas é claro, só faço isso quando parece haver algum tipo de problema. Entretanto, Senhor Prisioneiro, tu superaste minhas expectativas muito tempo atrás e fizeste um incrível trabalho. Sim, realmente, muito além de vosso dever... — Quando falou, seus dedos tocaram o gatilho. — Em todo caso, preservar a tranquilidade do coração daquela rapariga não é um trabalho que nós outros podemos fazer.
Um tiro rugiu no ar.
Por reflexo, todos os músculos no corpo de Muoru enrijeceram e, involuntariamente, fechou os olhos com força.
Em menos de um segundo, o garoto percebeu que não fora atingido. Não havia ferimento em parte alguma de seu corpo.
Abriu os olhos e viu um buraquinho no chão aos seus pés. Fumaça saía dele, e o cheiro de pólvora misturava-se com o ar.
— Entretanto, tu poderias lembrar-se de algo por mim? — sorriu Daribedor mais uma vez, mostrando uma expressão muito distorcida, literalmente. — Não é necessário usar da garota para tentares escapar. Mesmo se usá-la, não mudaria nada... Não, pelo contrário, sinto que poderia conseguir outro trabalhador quantas vezes quisesse. E tu não és, de forma alguma, o primeiro coveiro a ser enterrado na cova que ele mesmo abrira.
Daribedor deu mais um tiro, criando outro buraco no chão, este foi muito mais próximo dos dedos de Muoru. Então, com um olhar satisfeito, voltou à mansão.
Muoru permaneceu imóvel, seus olhos encaram os dois buracos aos seus pés, mas sua mente não estava prestando atenção neles.
Tranquilidade...?
O que tomava conta de seus ouvidos, ainda mais que o som dos tiros ou a ameaça feita por Daribedor, era a frase que ele usou para descrever Mélia.
E, por muito tempo, Muoru ficou parado ali, pensando sobre o que o velho quis dizer.

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