I Parry Everything – CapĂ­tulo 14 – Volume 2

Ore wa Subete wo “Parry” Suru: Gyaku Kanchigai
no Sekai Saikyou wa Boukensha ni Naritai
I Parry Everything: What Do You Mean I’m the Strongest?
I’m Not Even an Adventurer Yet!

Light Novel Online – Volume 02:
[CapĂ­tulo 14: A Sala do Trono]


Por quanto tempo eu estive apagado? Eu achei que ficaria bem voando nas costas do dragĂŁo, desde que nĂŁo olhasse para baixo… mas isso logo se revelou uma ilusĂŁo ingĂȘnua.

Eu apertei os olhos bem forte antes mesmo de decolarmos e ergui a cabeça em direção ao cĂ©u, esperando que nĂŁo ser capaz de ver o chĂŁo de alguma forma me fizesse superar todo o martĂ­rio. Em vez disso, o que se seguiu foi uma sequĂȘncia de eventos inimaginavelmente aterrorizante.

Primeiro… a viagem nĂŁo foi nem de longe tĂŁo suave quanto eu esperava. O dragĂŁo dava solavancos para cima e para baixo mais do que eu jamais antecipei, e o fato de estar com os olhos fechados tornava tudo duas vezes mais assustador. Ouvi vozes ao meu redor e tinha quase certeza de que a Lynne atĂ© me fez uma pergunta em certo ponto, mas meu coração batia tĂŁo rĂĄpido que eu nĂŁo conseguia acompanhar a conversa, muito menos responder.

Minhas entranhas reviravam de um jeito que eu nĂŁo achava possĂ­vel e, embora eu nĂŁo comesse nada hĂĄ um tempo, sentia constantemente que ia vomitar. Ainda assim, aguentei firme. Por algum golpe de sorte, consegui me segurar.

Mas essa sorte nĂŁo durou.

No meio da nossa jornada, o dragĂŁo deu um mergulho especialmente brusco. Minha visĂŁo ficou completamente branca e o que aconteceu depois ainda Ă© um borrĂŁo para mim. Francamente, foi um milagre eu nĂŁo ter caĂ­do enquanto estava inconsciente.

E agora havia uma luz ofuscante na minha frente, brilhante o suficiente para me deixar bronzeado. Meu instinto gritava que aquilo era mĂĄ notĂ­cia.

— O que…?

Eu mal tinha recuperado os sentidos, mas não precisei de muito para perceber que aquela luz era perigosa. A do dragão empalidecia em comparação, assim como o feixe carmesim que o derrubara do céu. Se não fizéssemos algo, acabaríamos completamente cozidos.

Sem hesitar um segundo, agarrei minha espada e me impulsionei das costas do dragĂŁo com toda a força que pude, direto em direção Ă  luz. O terror de saltar no ar vazio me fez fechar os olhos reflexivamente, mas eu nĂŁo teria conseguido mantĂȘ-los abertos de qualquer maneira — apenas chegar um pouco mais perto daquele feixe me envolveu em um calor inacreditĂĄvel que fez minha pele criar bolhas.

Mesmo assim…

[Aparar]

Usando minha espada, tentei forçar a luz para o alto, em direção ao cĂ©u. O cabo da arma sacudiu minha mĂŁo — mas mesmo com os olhos fechados, senti que tinha funcionado.

Abri os olhos nervosamente para ver um pilar brilhante subindo aos cĂ©us e um dragĂŁo batendo as asas. Que alĂ­vio — o dragĂŁo conseguiu evitar ser atingido. A luz ofuscante descreveu um arco nĂ­tido pelo cĂ©u e entĂŁo se quebrou em fragmentos que se espalharam em todas as direçÔes. Cada um deixou um rastro enquanto caĂ­a em direção Ă  terra, fazendo toda a cena parecer uma chuva de estrelas cadentes.

A visão fantástica me tirou o fîlego — e logo em seguida veio a percepção de que eu estava muito alto. Meu corpo inteiro ficou rígido.

— Ih, caramba.

Minha decisão de saltar das costas do dragão significava que eu agora estava despencando pelo ar. Então, completamente indefeso e morrendo de medo, bati de cabeça em um prédio alto. O impacto foi imenso, mas consegui colocar minha espada na frente na hora H.

As paredes do prédio eram feitas de algum tipo de metal ridiculamente duro, mas mesmo assim, eu continuei atravessando. Fiquei cara a cara com uma parede espessa e robusta atrås da outra, e cada vez minha espada as estilhaçava. O processo se repetiu mais vezes do que eu podia contar até que, finalmente, parei rolando em uma sala grande.

— Ufa… Finalmente acabou…

Soltei um suspiro de alĂ­vio, grato por ter atingido este prĂ©dio em vez do chĂŁo lĂĄ embaixo, muito, muito longe, e tirei um momento para apreciar a pura felicidade de ter um piso sob meus pĂ©s. No fim das contas, eu tive muita sorte, mas onde eu estava agora? Uma olhada rĂĄpida revelou um velho de aparĂȘncia familiar vestido de ouro. Era definitivamente a mesma pessoa de antes — afinal, nĂŁo existem muitos idosos desfilando por aĂ­ em armaduras estranhas e berrantes. A cadeira em que ele estava sentado tambĂ©m era muito brilhante e dourada, e ao redor dele havia um grupo de soldados em armaduras roxo-escuras.

A armadura dos soldados não era exatamente igual à que eu vira o exército usando mais cedo, mas era próxima o suficiente para eu notar que eram do Império. Em outras palavras, eu tinha acabado de cair em um lugar muito ruim.

Ou assim pensei. Olhando mais de perto, algo parecia errado.

— O-O que significa isso?! VocĂȘs nĂŁo percebem que isso Ă© traição?!

— Aceite seu destino. Para o ImpĂ©rio sobreviver, isso deve ser feito.

Os soldados estavam me ignorando totalmente, em vez disso, sacaram suas espadas e cercaram o velho. Eu ouvira algo antes sobre ele ser um imperador, mas serĂĄ que eu estava enganado? Parecia que ele estava prestes a ser retalhado.

— É aqui que vocĂȘ morre.

— P-Parem com isso! Socorro! AlguĂ©m me ajude!

— Sua Majestade Imperial… nĂŁo hĂĄ mais nenhum soldado aqui que respeite seu governo. Agora, descanse em paz sabendo que nĂłs, o Circuito dos Dez, cuidaremos das consequĂȘncias de suas açÔes.

— Iiiih!

— Chegou a hora. Minhas desculpas.

Um dos soldados blindados, que era visivelmente mais alto que os outros, brandiu sua grande lĂąmina curva contra o velho…

[Aparar]

Mas eu disparei direto entre eles e parei o golpe. A arma do homem alto foi arrancada de sua mĂŁo e cravou-se direto no teto.

— O quĂȘ…?

— Iiiih! — O velho se encolheu ao me ver.

Aparentemente pego de surpresa pela minha intervenção repentina, o soldado agora desarmado começou a gritar comigo.

— Q-Quem Ă© vocĂȘ?! Pretende defender este homem?! Saia do caminho! Foram as açÔes sem sentido dele que causaram tudo isso! Se nosso impĂ©rio nĂŁo estivesse sobrecarregado com um imperador tĂŁo tolo—!

— NĂŁo tenho certeza do que estĂĄ acontecendo, mas vocĂȘ realmente deveria se acalmar — eu disse.

Eu estava agora bem no centro do grupo de soldados. Eles produziram vĂĄrios tubos pretos, grandes e pequenos, e os apontaram para o velho e para mim.

— Esses trajes… — um dos soldados murmurou. — VocĂȘ Ă© um mercenĂĄrio, nĂŁo Ă©?

— Tsc. Não previmos uma emboscada como esta — disse outro.

Antes que eu percebesse, uma onda de esferas de mana estava se fechando sobre mim.

[Aparar]

Balancei minha espada em um arco amplo e repeli todas elas.

— O quĂȘ—?!

— Este mercenĂĄrio Ă© habilidoso. Ataquem juntos.

— Esperem — eu disse. — VocĂȘs entenderam errado.

— Que outra explicação poderia haver?

Os soldados estavam todos apontando suas armas para mim. Com base no que me mostraram atĂ© agora, eu nĂŁo teria problemas em repelir seus ataques; o verdadeiro desafio era tentar me comunicar com eles. Eu estava parado na frente do velho, mas estava em uma desvantagem numĂ©rica tĂŁo grande que nĂŁo tinha certeza se conseguiria protegĂȘ-lo.

— Por favor, abaixe-se, senhor — disse eu ao velho. Eu precisava que ele ficasse o mais baixo possível, então agarrei sua cabeça e o forcei contra o chão.

— V-VocĂȘ ousa…?! Esta insolĂȘncia nĂŁo f— mmph!

— Opa.

Infelizmente, na minha pressa, usei um pouco de força demais; a cabeça do velho atravessou direto o piso. Parecia bem sério. Ele estaria bem?

— Argh!

Ah, que bom. Ele ainda estava respirando. A robusta coroa dourada no topo de sua cabeça evidentemente o manteve seguro.

— NĂŁo sei quem vocĂȘ Ă©, biltre — disse um soldado —, mas de nada lhe servirĂĄ manter sua lealdade a esse homem.

— Exato — acrescentou outro. — Ele destruiu nosso impĂ©rio alĂ©m de qualquer reparo e deve responder com a vida. Saia do caminho.

Mesmo assim, eu tinha certeza de que havia uma opção melhor. — Eu nĂŁo sei bem o que estĂĄ acontecendo, mas vocĂȘs nĂŁo podem simplesmente resolver na conversa?

— Se tal coisa fosse possível, teríamos feito há muito tempo!

Certo… É. Eles estavam exaltados demais para me ouvir.

— Morra! — gritaram os soldados todos juntos enquanto vinham para cima de nós em uníssono. Adagas, chicotes, lñminas duplas, garras, algum tipo de bastão brilhante esquisito — uma multidão de armas golpeava o velho com intenção obstinada.

[Aparar]

Novamente, parei os ataques deles. Nenhum dos soldados era muito rĂĄpido, entĂŁo nĂŁo era provĂĄvel que representassem uma ameaça. Considerando que todos haviam se agrupado para atacar um Ășnico velho, imaginei que nĂŁo estivessem muito confiantes em suas prĂłprias habilidades.

— Quem Ă© vocĂȘ? — perguntou um. — Posso dizer pelas suas roupas que nĂŁo Ă© do ImpĂ©rio.

— VocĂȘ deve ser um aventureiro contratado — disse outro. — Mas com tamanha força, por que ficaria do lado dele? NĂŁo vĂȘ o estado atual dele? NĂŁo pode esperar uma recompensa vinda dele agora.

— Acho que conto como um aventureiro contratado, mesmo que por um triz — respondi. — Mas não foi este homem quem me contratou. Eu lhes prometo, houve algum tipo de mal-entendido aqui.

— SilĂȘncio! — gritou um soldado particularmente esguio. — Tudo o que vocĂȘ precisa fazer Ă© sair da frente. Esse homem deve pagar por seus pecados. — Ele entĂŁo jogou algo em mim — algo que brilhou intensamente.

Isso nĂŁo era bom. Provavelmente era uma bomba de algum tipo; eu jĂĄ as vira sendo usadas para demolição em canteiros de obras. NĂŁo havia nada que meu [Aparar] pudesse fazer contra uma explosĂŁo, entĂŁo minha Ășnica escolha era tirar o velho do raio de alcance.

— Cuidado! — gritei.

— Gwuh!

O velho ainda estava enterrado no chão, então eu só tive uma opção: chutei ele bem no flanco. Ele disparou pelo salão e depois colidiu com a parede oposta com tamanha velocidade que sua cabeça atravessou direto a estrutura de metal. O corpo dele ficou pendurado ali.

Opa. Talvez eu devesse ter me segurado um pouco mais.

Provavelmente estava tudo bem, no entanto; usei menos força do que quando o enfiei no chĂŁo, e aquela armadura dourada brilhante dele realmente aguentava o tranco. No mĂ­nimo, eu tinha quase certeza de que ele nĂŁo estava morto. Mas deixando isso de lado…

— Por que estĂŁo fazendo isso? — perguntei aos soldados. — Como podem se juntar contra um velho? Na verdade, ele ainda Ă© o imperador de vocĂȘs, certo?

O mais alto dos homens respondeu: — Ele era, mas… NĂŁo, suponho que ainda seja nosso imperador. A morte dele hoje — sua expiação por suas açÔes — pode ser seu dever final. Para enviar a mensagem correta, devemos matĂĄ-lo agora, com nossas prĂłprias mĂŁos.

— Vou ser sincero, nada desse raciocínio fez sentido para mim.

— VocĂȘ nĂŁo precisa enten… der! — latiu ele, sua resposta pontuada com um grunhido enquanto lançava vĂĄrias bombas contra o velho. Ele as jogou rĂĄpido demais — eu nĂŁo seria capaz de parĂĄ-las a tempo.

Novamente sem opçÔes, corri atĂ© o velho, agarrei-o pelas pernas e o arranquei da parede com toda a força que pude. Ele rolou pelo salĂŁo como uma bola grande e espalhafatosa — para longe dos explosivos, vale dizer — e colidiu com a cadeira dourada onde estava sentado antes, quebrando tanto a cadeira quanto a coroa em sua cabeça.

— Aieee!

Mesmo assim, a resistĂȘncia da armadura evitou que ele sofresse ferimentos graves. Eu definitivamente tinha sido um pouco bruto demais nessa, mas, ei — era melhor do que morrer. Agora sĂł precisĂĄvamos lidar com esses soldados. Por que eram tĂŁo insistentes em atacar um idoso?

— NĂŁo podemos mesmo dar uma pausa e discutir isso? — perguntei. — Este homem nĂŁo consegue nem lutar para se proteger. E vocĂȘs viram como ele Ă© velho, certo? Se o deixarem em paz, a natureza seguirĂĄ seu curso em breve.

— NĂŁo hĂĄ tempo para tais bobagens tranquilas! — exclamou o homem alto. — NĂŁo podemos nos dar ao luxo de perder nem mais um momento! O inimigo jĂĄ nos invadiu e trouxe o DragĂŁo da Calamidade com eles! Devemos provar que nĂŁo desejamos conflito, caso contrĂĄrio, experimentaremos uma ruĂ­na sem reparo! Se nĂŁo entregarmos a cabeça dele agora, nosso impĂ©rio vai… Nosso impĂ©rio vai…!

— Esperem, por favor — disse uma voz suave, mas clara, interrompendo nosso impasse. — Agradecemos suas intençÔes, mas vocĂȘs nĂŁo devem matĂĄ-lo. Afinal… os mortos nĂŁo podem expiar seus pecados.

Imediatamente, os soldados pararam; parados diante de nós estavam quatro pessoas que não estavam ali antes. Meus instrutores clérigo e ladrão estavam à frente, enquanto Lynne e seu irmão vinham atrås deles.

— Ah, que bom — eu disse. — VocĂȘs chegaram.

— VocĂȘ estĂĄ bem, Instrutor? — perguntou Lynne.

— Sim. Achei que ia morrer lĂĄ atrĂĄs, mas tive sorte. Onde estĂŁo Ines e Rolo? NĂŁo os vejo com vocĂȘs.

— Rolo ainda estĂĄ no dragĂŁo; eles estĂŁo no cĂ©u aqui perto. Ines o estĂĄ protegendo. NĂłs quatro descemos para vir atrĂĄs de vocĂȘ.

— É mesmo?

Espreitei pela janela massiva e vi o dragĂŁo voando lĂĄ fora. Rolo acenou para mim do topo de suas costas.

— Senhor Noor — disse o irmĂŁo de Lynne, embora seus olhos estivessem completamente focados no velho —, poderia pedir que confiasse o resto disso a nĂłs? NegociaçÔes como estas afinal caem em nosso Ăąmbito.

— Claro. VĂŁo em frente — respondi. — Eles nĂŁo estavam me ouvindo de jeito nenhum, mas uma comunicação adequada Ă© a melhor solução para todos.

Lynne, seu irmĂŁo e meus instrutores realmente salvaram minha pele ao aparecerem. Os soldados nĂŁo estavam nem um pouco dispostos a me escutar, entĂŁo eu estava totalmente sem saber o que fazer. Mas uma discussĂŁo parecia ser possĂ­vel agora, entĂŁo era melhor deixar as coisas com meus companheiros de viagem. Eu tinha certeza de que fariam um bom trabalho.

— Estamos em dĂ­vida com vocĂȘ — o irmĂŁo de Lynne me disse. — Lynne, leve o Senhor Noor de volta para o dragĂŁo e cuide dos ferimentos dele. Ele parece ter se esforçado bastante.

— Com certeza, irmão. Vamos, Instrutor?

— Senhor Noor. Por tudo o que vocĂȘ fez… obrigado.

— Sem problemas — eu disse. — VocĂȘs podem cuidar do resto.

E com isso, fui embora, deixando os trĂȘs homens atrĂĄs de mim para resolverem a situação.


◇

Agora de frente para o Circuito dos Dez, herdeiros de uma missão de geraçÔes para proteger a capital imperial, o Príncipe Rein falou calmamente.

— JĂĄ faz bastante tempo desde a Ășltima vez que nos vimos. Por favor, guardem suas lĂąminas. Seus sentimentos sĂŁo imensamente apreciados, mas temos negĂłcios com esse homem. Se possĂ­vel, gostarĂ­amos que o entregassem a nĂłs vivo.

— PrĂ­ncipe Rein — respondeu o mais alto dos dez —, nĂŁo vemos problema em entregĂĄ-lo. Nenhum de nĂłs deseja guerrear com seu reino; nossa decisĂŁo de tirar a cabeça de nosso imperador foi tomada para que pudĂ©ssemos lhes oferecer uma pequena parcela das reparaçÔes necessĂĄrias para implorar por seu perdĂŁo. Oferecemos nossa rendição incondicional — e se acreditarem que isso nĂŁo Ă© suficiente, nĂłs dez apresentaremos nossas cabeças tambĂ©m. Afinal, falhamos em impedir esta guerra para começar.

O homem alto era a mesma pessoa que brandira a espada curva e tentara matar o imperador com explosivos.

— Obrigado — respondeu o prĂ­ncipe —, mas isso nĂŁo serĂĄ necessĂĄrio. A Ășltima coisa que nosso reino deseja sĂŁo mais cadĂĄveres. Em vez disso, meu primeiro desejo Ă© falar com seu imperador; temos muito a discutir, e pretendo ser bastante minucioso. Peço desculpas, mas se importariam de esperar atĂ© terminarmos?

— De forma alguma. Por favor, prossigam. NĂŁo estamos em posição de objetar, mesmo que quisĂ©ssemos.

— Agradeço sua compreensão.

As palavras de gratidĂŁo do PrĂ­ncipe Rein nĂŁo continham calor algum. Ele olhou fixamente para o velho caĂ­do no chĂŁo, que imediatamente se encolheu e soltou um ganido lamentĂĄvel.

— Iiiih! Socorro! Eu… eu quero dizer, p-perdoem-me…

— Como disse? VocĂȘ acabou de me pedir perdĂŁo? — O prĂ­ncipe encarou o velho com olhos frios, e entĂŁo os cantos de sua boca se curvaram ligeiramente para cima. — Mas Ă© claro. Essa Ă© a razĂŁo exata pela qual viemos aqui.

— V-Verdade?! E-Então—!

— No perĂ­odo que antecedeu o dia de hoje, vinte e trĂȘs pessoas de nosso reino desapareceram sob circunstĂąncias suspeitas.

— Hein?

O prĂ­ncipe continuou, sua expressĂŁo totalmente vazia:

— O dia de hoje tambĂ©m teve sua parcela de vĂ­timas. Doze estripados por monstros. Dezenove esmagados sob edifĂ­cios desmoronados. Treze queimados atĂ© a morte. Trinta e oito mortos por membros quebrados causados por destroços voadores. Dezesseis mortos por costelas ou espinhas esmagadas. Seis mortos por membros decepados. Vinte e sete mortos por vĂĄrios tipos de lesĂ”es cranianas. E cento e vinte e sete despedaçados, esmagados ou cruelmente reduzidos a nada mais que pedaços de carne pelos monstros soltos na cidade. Estas sĂŁo apenas estimativas aproximadas baseadas na extensĂŁo do meu prĂłprio conhecimento, mas o fato permanece: vocĂȘ Ă© o responsĂĄvel direto por todos eles.

— E-EntĂŁo… o que vocĂȘ… estĂĄ tentando dizer…?

— Eu disse que o perdoarĂ­amos, nĂŁo disse? Fui bastante sincero. Se vocĂȘ estiver disposto a passar por tanto sofrimento quanto todas as vĂ­timas que acabei de listar, estamos dispostos a absolvĂȘ-lo de seus crimes individuais nesta questĂŁo. ApĂłs a conclusĂŁo disso, eu gostaria de abrir um diĂĄlogo imparcial entre nossas duas naçÔes sobre o fim da guerra e reparaçÔes. HĂĄ alguĂ©m presente que se oponha Ă s minhas propostas?

— Não! — veio um coro de vozes.

Todos, exceto o imperador, falaram. O rosto dele começou a ter espasmos enquanto dizia:

— E-Espere… O que vocĂȘ quer dizer com… “tanto quanto”?

Uma pessoa aproximou-se do velho de aparĂȘncia inquieta por trĂĄs e respondeu em uma voz gentil: — NĂŁo se preocupe. VocĂȘ nĂŁo vai morrer. — Era o instrutor clĂ©rigo de vestes brancas, e com um sorriso amĂĄvel ele continuou: — NĂłs garantiremos isso. Os mortos nĂŁo podem refletir sobre seus atos ou mudar para melhor, entende? EntĂŁo, nĂŁo importa o que aconteça, posso garantir que vocĂȘ nĂŁo morrerĂĄ. Eu serei pessoalmente responsĂĄvel por trazĂȘ-lo de volta do limiar da morte de novo e de novo e de novo e de novo… entĂŁo nĂŁo tem com o que se preocupar. Recomendo que faça as pazes e aceite seus pecados, porque mesmo que suas pernas sejam perdidas, seu crĂąnio seja esmagado ou seus ĂłrgĂŁos sejam moĂ­dos, eu o devolverei a uma saĂșde boa o suficiente para conversar conosco quando tudo terminar. — Seu monĂłlogo casual quase poderia passar pelo canto de um feitiço.

O prĂłximo a falar foi um homem de mĂĄscara negra.

— EstĂĄ preocupado se conseguirĂĄ aguentar toda essa dor? NĂŁo esteja. VocĂȘ nĂŁo vai sequer perder a consciĂȘncia, nem mesmo quando a agonia começar a desgastar sua mente. Posso garantir que vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo enlouquecerĂĄ. Farei tudo em meu poder para garantir que vocĂȘ experimente total e minuciosamente o sofrimento daqueles que foram vĂ­timas de sua malĂ­cia sem sentido — aqueles que vocĂȘ matou sem nenhum bom motivo.

O velho estava praticamente derretido em um monte aterrorizado, mas o prĂ­ncipe continuou:

— Naturalmente, vocĂȘ nĂŁo precisa se preocupar com seu estado vergonhoso sendo exposto ao pĂșblico. NĂŁo sentimos prazer em tais coisas. Garantiremos que vocĂȘ tenha um [Isolamento AcĂșstico] ao seu redor para que seus gritos desagradĂĄveis sejam inteiramente contidos. NĂŁo importa o quanto vocĂȘ implore por ajuda, ninguĂ©m virĂĄ. EntĂŁo, por favor, sinta-se Ă  vontade para gritar o quanto seu coração desejar. NinguĂ©m jamais o ouvirĂĄ.

— Engh!

O velho estava tĂŁo em pĂąnico que perdera a capacidade de falar, mas reuniu tudo o que tinha e conseguiu soltar uma Ășltima sĂșplica.

— P-Perdo…!

Lentamente, o homem de vestes brancas aproximou-se.

— NĂłs acabamos de dizer que o perdoarĂ­amos, nĂŁo dissemos? NĂłs o perdoaremos por tudo. Isso… apenas se vocĂȘ realmente desejar se arrepender. — Ele parou bem na frente do velho e continuou em um murmĂșrio baixo: — Ouvi dizer que todos sentiram muita dor. Alguns tiveram a sorte de serem curados a tempo, mas muitos morreram — e nem mesmo eu posso trazer uma pessoa de volta dos mortos. Nesse aspecto, vocĂȘ tem muita… sorte. Por ter um curandeiro tĂŁo habilidoso aqui, quero dizer. Seus braços, pernas, atĂ© seu pescoço — eu farei com que cresçam de novo quantas vezes vocĂȘ precisar. VocĂȘ Ă© de fato um homem de muita sorte.

— Iiiih… — O rosto do velho ficou pĂĄlido como o de um cadĂĄver, e uma poça de odor desagradĂĄvel começou a se espalhar pelo chĂŁo.

— Por favor, nĂŁo nos entenda mal; nĂŁo fazemos isso para nos satisfazer — disse o prĂ­ncipe de maneira prĂĄtica, olhando para o imperador. — Simplesmente desejamos que vocĂȘ entenda a extensĂŁo real da dor que causou ao povo de nosso reino. Na verdade, vocĂȘ estĂĄ saindo barato. Ainda hĂĄ muito mais vĂ­timas do que as que mencionei antes: aqueles que perderam suas casas, seus empregos, seus pais, seus filhos… A lista continua. Mas vocĂȘ pode ser perdoado por tudo isso com apenas um pouco de dor. VocĂȘ, que roubou a vida de tantos, terĂĄ permissĂŁo de viver. NĂłs o devolveremos a uma saĂșde perfeitamente boa depois, para a discussĂŁo sobre nossas reparaçÔes de pĂłs-guerra. Afinal, devemos fazer isso da forma mais justa e legal possĂ­vel.

O velho apertara os olhos de medo. O Príncipe Rein inclinou-se para perto, com o rosto totalmente desprovido de emoção, e falou em um tom frio como gelo.

— Nosso reino Ă© tĂŁo misericordioso, vocĂȘ nĂŁo acha?


Tradução: Carpeado
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